Entrevistas

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci

Leonardo da Vinci

Antonio Gonçalves Filho | O Estado de S. Paulo | 4.3.2013

O físico vienense Fritjof Capra, conhecido pelo best-seller Ponto de Mutação, admite que não poderia ter avaliado os trabalhos científicos do gênio renascentista Leonardo Da Vinci (1452- 1519) sem a ajuda de colegas especializados em outras disciplinas. Ele faz a revelação logo no começo de seu livro A Alma de Leonardo Da Vinci, que a editora Cultrix colocou no mercado quase que simultaneamente ao lançamento de Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, coedição luxuosa da Ateliê Editorial e a Editora Unicamp que reproduz 215 gravuras anatômicas do pintor. Capra fala também desses desenhos em seu livro. É possível, portanto, entender a razão de ter recorrido a colegas para empreender uma análise do pensamento científico de Da Vinci, definido por ele em entrevista exclusiva ao Estado, como a “síntese perfeita entre arte, ciência e tecnologia”.

A herança cultural deixada por Da Vinci é especialmente valiosa para nosso tempo, diz Capra, por ter sido o pintor um pesquisador sistêmico, “um observador da natureza que não teve influência direta sobre os cientistas que vieram logo depois dele – por não ter publicado suas descobertas -, mas que é fundamental para o século 21, quando problemas globais tendem a ser analisados segundo uma perspectiva interdisciplinar”.

A essência de sua “alma”, segundo Capra, é justamente “a conjunção de sua curiosidade intelectual com engenho experimental”. E coragem, faltou acrescentar. O livro Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, por exemplo, traz 1200 desenhos que não seriam possíveis sem que desafiasse a bula papal, partindo para a dissecção de cadáveres, punida em sua época com a excomunhão. Se Da Vinci vivesse hoje, arrisca Capra, ele seria um cientista holístico, lutando pela sustentabilidade. “É difícil afirmar categoricamente que Leonardo teria seguido esse caminho quando se trata de um gênio de personalidade complexa, mas tudo indica que sim.” Só um artista que definiu a pintura como fruto da observação da natureza e estudou a correlação dos padrões botânicos e animais, de acordo com Capra, podia dizer que “entender um fenômeno é associá-lo a outros fenômenos”. Séculos antes das especulações futuristas do filme Matrix, Da Vinci já levava em conta a similaridade de padrões nos mundos animal e vegetal.

Curiosamente, para um homem tão sábio, segundo Capra, não se encontra nos cadernos de anotações de Da Vinci uma só linha sobre suas emoções. Ele analisou esses caóticos cadernos de notas, tentando seguir o método empírico do artista – basicamente apoiado na observação dos fenômenos naturais -, mas não descobriu em nenhuma das 6 mil páginas, dispersas entre bibliotecas e museus, uma mísera referência à vida privada de Da Vinci. “Há só uma nota em que ele registra a morte do pai, ainda assim de passagem.”

Os estudos sistêmicos de Da Vinci são fundamentalmente diferentes da ciência mecanicista de Galileu (1564-1642) e Newton (1643-1727). Nem tudo se explica pelas leis da mecânica. Essas são ideias do século 17 que Leonardo não aprovaria se tivesse nascido nele. Capra apresenta a ciência das formas orgânicas de Da Vinci como “radicalmente diversa” de seus seguidores. “Como cientista, ele coloca a vida no centro de tudo, mostrando que os fenômenos naturais são interdependentes e interligados.” Esta, observa Capra, é com certeza uma boa lição para a ciência atual. “Ele foi o primeiro anatomista moderno, um ecofilósofo e ecocientista que não viu o corpo humano apenas como uma máquina.”

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci

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O CORPO SEGUNDO O GÊNIO

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da VinciInéditos no Brasil, Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, organizados por Charles D. O’Malley e John Bertrand de C.M. Saunders, reúnem 1200 desenhos anatômicos realizados por Da Vinci entre 1498 e 1513, dispostos em ordem cronológica e organizados em nove áreas de estudos, da anatomia comparada à embriologia. Traduzidos pela dupla Pedro Carlos Piantino Lemos e Maria Cristina Vilhena Carnevale, esses cadernos, aparentemente destinados a estudantes de Medicina, constituem mais que esboços dos sistemas anatomofuncionais. São obras artísticas de um gênio renascentista que viu no corpo mais que um instrumento para servir de modelo a pintores e escultores.

No tempo de Leonardo, os estudos anatômicos não tinham avançado muito em relação às pesquisas medievais baseadas na dissecação de animais, que, aliás, eram proibidas nos séculos 13 e 14 — primeiro por causa da influência da interdição árabe e, posteriormente, proibida pela bula papal. Por ter sido aluno de pintura de Verrocchio (1435-1488), Da Vinci dividia com o mestre o mesmo interesse científico – embora o instrutor não pintasse muitos nus e tivesse menos conhecimento de anatomia do que seria desejável para orientar um gênio.

Leonardo começou por observar e desenhar corpos de enforcados ainda em Florença. Ao se fixar em Milão, num esforço de esculpir uma estátua equestre de Francesco Sforza, dissecou um cavalo e fez belos desenhos.

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci

O desenho anatômico mais antigo que se conhece de Leonardo é de 1487. O crânio visto acima é de 1489. Ele fornece ao observador informações sobre a oclusão dentária e anotações que remetem aos estudos de Avicena e Galeno. Os exemplares mais impressionantes dessa bela coleção de gravuras pertencem à série anatômica do “homem centenário” que ele dissecou em Florença, em que mostra a degeneração dos vasos sanguíneos dos idosos. Em outras palavras: a arteriosclerose.

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Entrevista com Antônio Suárez Abreu, professor de linguística e língua portuguesa na UNESP

Antônio Suárez AbreuPortal IG

1- Consegui ler a introdução do seu livro e vi que o senhor defende a tese que argumentar não é vencer o outro. Poderia me explicar melhor?

Geralmente, as pessoas leigas têm a falsa ideia de que argumentar é vencer o outro, pondo por terra suas ideias e opiniões.  Em termos retóricos, argumentar é fazer com que o outro tenha condições de ver o objeto da disputa de um ponto de vista diferente daquele a que está acostumado a ver e, ao final, tenha o desejo mudá-lo, concordando com quem argumenta.  Isso envolve, muitas vezes, mudanças de modelos mentais.

2- Quais os principais erros na hora de argumentar?

O principal erro é considerar o outro como um inimigo a ser vencido.  Um outro, muito comum, é abusar da técnica argumentativa chamada retorsão.   (com s mesmo, pois vem de torso).  Na retorsão, quem argumenta tenta mostrar que a pessoa com quem se argumenta pratica ações contrárias às que defende.  É o caso de alguém que, acusado de chegar atrasado, diz algo como: — Mas, você, no mês passado, também chegou três vezes atrasado.  Esse argumento é o mais usado nas chamadas DR (discussões de relação) e é por isso que um casal raramente chega a um consenso.  Geralmente, o homem foge dessas discussões como o diabo da cruz.

3- Teria algumas dicas práticas para dar para quem quer melhorar a argumentação? Quais?

Em primeiro lugar, é importante tratar o outro com educação e gentileza.  Sem isso, nada funciona.  Há um provérbio espanhol que diz: “Por bién, me llevas hasta el infierno; por mal, ni al cielo”.  Em segundo lugar, é importante aprender a ouvir mais e falar menos.  Isso permite saber quais são os valores do outro, principalmente, quais são seus modelos mentais.  Ninguém consegue convencer o outro batendo de frente com seus valores ou modelos mentais.  É sempre importante, antes de propor um argumento, conseguir abrir uma brecha nesses modelos.  No meu livro, trabalho essa ideia quando falo da re-hierquização de valores.  Você não destrói um valor do outro; apenas põe um outro acima, em termos de hierarquia.   É uma espécie de drible.  Um exemplo disso é o que fez Monteiro Lobato em seus livros infantis.  Em sua época, por volta de 1920, o “Modelo do pai rigoroso” imperava e era impossível fugir da sua força.  As crianças deviam estudar, competir, vencer e, se falhassem, deviam ser punidas.  O que fez Lobato para introduzir seu modelo de “escolanovismo” baseado em Anísio Teixeira e John Dewey?  Pôs as crianças em férias, no Sítio do Picapau Amarelo, em um lugar em que a figura do pai ficava ausente e era substituída por uma avó carinhosa, Dona Benta, que podia ensinar sem punir, contando histórias saborosas a Pedrinho e Narizinho.

4- É possível que mesmo uma pessoa extremamente tímida consiga ter uma boa argumentação? Como vencer esta barreira?

Claro que sim!  Ela deve começar fazendo com que o outro fale primeiro e exponha seus pensamentos.  Durante essa fala, ela deve prestar atenção aos valores dessa pessoa.  Se se tratar de uma negociação, ela deve pôr foco, antes de tudo, naquilo que o outro tem a ganhar e não naquilo que é o objeto imediato do seu desejo.  Isso permite uma progressão amigável da fala e é, nesse momento, que cresce a confiança, derrubando a timidez.

5- Existem palavras/técnicas que podem ajudar na argumentação? Quais?

Sim: “por favor”, “por gentileza”, “obrigado por expor tão claramente aquilo que pensa”, “como posso ajudá-lo?”. É preciso trabalhar o tempo todo de maneira cortês e sinceramente comprometida com a imagem do outro.

6- Breve currículo

Sou, atualmente, professor titular de linguística e língua portuguesa na UNESP, campus de Araraquara.  Trabalho na área de Gramática e Retórica.

Sou formado em Letras Neolatinas pela PUC – Campinas.  Tenho especialização em Língua e Literatura Portuguesa pela Universidade Clássica de Lisboa; mestrado, doutorado e livre-docência em Linguística pela USP, onde lecionei por quase 15 anos.  Fiz pós-doutorado em Linguística na UNICAMP, em 2008.

Livros publicados:

  1. Curso de Redação (Editora Ática).  Atualmente em 13ª edição, 10ª reimpressão.
  2. A Arte de Argumentar Gerenciando Razão e Emoção (Ed. Ateliê) Atualmente, em 13ª edição, 7ª reimpressão.
  3. Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ed. Ateliê).  Atualmente, em 3ª edição revista.
  4. O Design da Escrita: redigindo com criatividade e beleza (Ed. Ateliê) Atualmente, em 2ª edição.
  5. Linguística Cognitiva (Ed. Ateliê).
  6. Texto e gramática: uma visão funcional para a leitura e a escrita (Ed. Melhoramentos).  Atualmente, em 2ª edição.
  7. Gramática Integral da Língua Portuguesa: uma visão prática e funcional (Ed. Ateliê, no prelo)

Tenho, também, mais de 50 trabalhos publicados em revistas brasileiras e estrangeiras.  Um dos meus últimos artigos, publicado nos Estados Unidos em 2008, está, desde então, entre os 10 mais lidos em toda a comunidade acadêmica internacional.

Meus trabalhos científicos têm 345 citações, de acordo com a Web Science.  Já orientei e levei à defesa, entre PUC – Campinas, USP e UNESP, 40 mestrados e 40 doutorados.

Conheça os livros do Prof. Antônio Suárez Abreu publicados pela Ateliê

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O Poeta Vingador

Em entrevista à H, Marcelino Freire revela que escreve para se vingar de si mesmo e de um mundo meloso e falso onde o amor é apenas uma ilusão

Marcelino Freire

Hélio Filho | H Magazine | 01/11/2012

O escritor pernambucano Marcelino Freire gostaria de ter o tempo de vida de uma mosca, apenas um dia, porque acredita que a vida é longa demais e a velhice é uma perda de tempo. O que poderia parecer melancolia é apenas indignação frente a um mundo onde, como diz o nome de seu mais novo livro, amar é crime – e principalmente significa correr atrás de um ideal que a própria Literatura criou, um romance ultrarromântico. Marcelino prefere o respeito e a praticidade em um relacionamento.

Em um bate papo recheado de sonoras gargalhadas no Espaço Haroldo de Campos, Casa das Rosas, antiga residência [sic] de um dos maiores poetas brasileiros e símbolo da poesia em São Paulo, Marcelino revela que escreve para se vingar de um mundo intolerante e artificial, onde o sentimento fica escondido atrás de convenções. Mais do que isso, ele é sincero o bastante para dizer que quer se vingar de si mesmo porque acha que poderia ser mais atuante, sair da redoma que protege os escritores e suas ficções.

A vida de Marcelino não é um romance, muito menos uma poesia. É uma prosa solta, clara, direta e sem meias-palavras que diz o que quer para quem precisar ouvir, e espera que esse dizer provoque algo além de uma emoção passageira, mais rápida do que um virar de páginas, mais leve do que o bater das asas de uma mosca.

Você me deu seu mais novo livro e eu fiquei curioso sobre o título Amar É Crime?

Amar continua sendo crime. Eu acho que quando a gente está amando uma pessoa, a gente tem que matar muita coisa dentro da gente pra começar uma relação. Amar é o recomeço de alguma coisa, então você mata algumas coisas dentro de si para se renovar e reviver essas coisas na outra pessoa. Amar é crime também porque às vezes você está vivendo uma grande paixão e esse amor que você está vivendo é crime para o olhar do outro, para a sociedade, aí entra a questão dos ataques homofóbicos e tudo. Para a sociedade aquele amor é crime, aquele amor é errado. Amar é crime também porque em nome do amor muitas pessoas cometem assassinatos e não são julgadas por isso. Eu acho, por exemplo, que a Igreja prega muito o amor, mas ela matou muito em nome dessa pregação do amor. A televisão também. O comércio do amor, o Padre Marcelo (Rossi) com seus discos, com seus livros, com seus DVDs.

Você acha que o amor hoje está diferente? Ele está mudando com o mundo?

Não, o amor é o mesmo. O amor é uma coisa que a gente não consegue explicar, não consegue entender, a gente sente, a gente se aperreia por causa do amor, não é? Esse sentimento aí já vem atravessando o homem há muito tempo, mas o que eu digo é que com esse livro eu quis fazer um testemunho, ou um testamento, dessas relações. Eu percebi que os meus contos falavam de começos de relacionamentos, finais de relacionamentos. Percebi que tinha a questão do preconceito, a questão dos ataques homofóbicos. Aí eu disse, me parece que o amor é crime, me parece que cada vez mais uma pessoa estar vivendo um amor muito intenso, esse amor é crime para o olhar do outro, da sociedade, para o julgamento das pessoas. E também no sentido positivo. O amor é crime também porque ele nos renova, ele mata algumas coisas, alguns vícios, alguns preconceitos que a gente tem e ele nos renova. Então todas essas questões estão nesse livro.

O título é bem forte. Por quê?

Eu sou um escritor muito passional, muito aperreado, aí nos meus títulos eu já quero dizer que, sabe, amar é crime. Eu escrevo para me vingar, aí eu quero me vingar do Padre Marcelo, aí eu digo que amar é crime. Eu acho que de alguma forma eu estou me vingando dele, sabe?

Mas é só o amor que te serve de combustível? Pelo jeito a vingança também.

Não, eu escrevo para me vingar. Posso dizer que escrevo para me vingar de um amor que foi embora, para me vingar de uma paixão que não deu certo, para me vingar de um governo que não caminha, não vai bem. Eu escrevo para me vingar das injustiças sociais, das coisas que me afetam. Esse livro mesmo, quando eu estava fazendo esse livro, fechando para ser publicado, e eu já sabia que ele se chamava “Amar É Crime”, eu já sabia que esses contos falavam de amor, desse preconceito, do julgamento etc., quando começaram a pipocar aqueles ataques homofóbicos em São Paulo. Claro que esses ataques todos já acontecem há muito tempo, mas aí aquele episódio que um garoto tascou uma lâmpada na cara do outro e etc. etc., aí quando eu estava com o livro pronto eu disse que tinha que fazer alguma coisa para que esse livro também abarque ou seja um instrumento da minha indignação. Aí eu lembro de um poeminha que eu fiz faz tempo, um poeminha de amor concreto, que é o que abre o livro, ele é exatamente contra isso, dizendo do meu choque com esse tipo de atitude. Esse poeminha já foi publicado na revista Junior uma vez, eu não digo que é a minha contribuição, mas eu escrevo justamente, volto a dizer, para me vingar, e eu escrevo porque eu quero que meu livro também seja um instrumento dessa minha não-conformação com essa série de coisas.

E tem mais gente que você queira se vingar?

Ah, bastante gente (risos).

Então teremos muitos mais livros de Marcelino Freire?

É muita coisa pra se vingar. É uma vingança também contra mim, eu sou um bundão, eu me sinto um bundão. Eu me sinto impotente diante de tanta coisa, que a gente poderia fazer para mudar alguma coisa, eu me sinto impotente. Digo: porra, eu sou um escritor, escrevo os meus livros, mas eu não posso ser só isso, esse escritor na redoma, esse escritor que escreve e acha que já deu sua contribuição para a sociedade.

Mas você se vê em uma redoma? Não acha que fazendo esse tipo de prosa, mais engajada, provocativa, sai dessa redoma? Quem lê o seu livro é tocado, alguma coisa vai mudar na pessoa.

Eu acho, mas a minha vontade é… eu tenho uma inveja imensa daquelas pessoas que tocam fogo nas vestes e saem correndo, sabe? Aquilo é uma coragem da porra! Coragem extrema, coloca ali aquele querosene e sai correndo. A minha vontade às vezes é fazer isso, mas eu sou um bundão, eu sou covarde demais. Aí eu escrevo e tento ver se a minha escrita de alguma forma se vinga de mim, no sentido de que ela me fale “oh, bundão”. Porque eu sou pacato, a minha escrita é uma escrita que dá vexame, é uma escrita que toca fogo no próprio corpo. Claro que a Balada Literária (www.baladaliteraria.zip.net), que eu organizo em São Paulo há sete anos, é também um instrumento de vingança, um instrumento de atitude diante de tanta coisa que acontece. Eu faço um evento para não ser só esse escritor que escreve, eu tenho que fazer alguma coisa também. Aí eu faço esse evento há sete anos sem dinheiro nenhum porque eu quero que a Literatura esteja presente e viva na vida das pessoas, que ela seja legal, seja algo pulsante. Esse meu desejo, também fora da escrita, é de movimentar uma cena literária.

Bom, você já se vingou de um monte de gente, como você disse, tem mais gente que você ainda vai se vingar, mas e amor? Você amou muita gente?

Eu amei muito pouco, o problema do amor é que é muito caro (risos). Eu vou até dar meu telefone aqui na revista, vai que me ligam. Eu estou solteiro já há um tempo, mas eu na verdade sou muito desligado para essas coisas assim, eu não sei, eu me dediquei tanto à Literatura durante um tempo, com tanta vontade de fazer os meus livros, de fazer esses movimentos que eu faço, não sou desses também de dizer que está em um segundo plano isso aí, não, mas eu também não tenho muito tempo, não acredito muito no amor. Eu acho que é tudo mentira. Mentira da gente. A gente inventa alguma coisa do que gostar. A gente inventa uma possibilidade de gostar, de viver junto, de criar uma vida. O que une um casal é o respeito, o amor a gente inventa. Eu acho que o amor que eu acredito é aquele que tem absoluto respeito pelo outro, a vontade de se unir com outra pessoa para você conseguir as coisas que você quer. É ir junto, tentar modificar a vida da gente, tentar ser um melhor cidadão, pai, filho, irmão. Vamos tentar mudar um pouquinho aqui o nosso quarto, a nossa rua, começar por aqui mesmo. Eu acho que esse é um exercício de amor muito possível na prática, eu acredito na prática desse amor. Já passei essa fase tuberculosa, essa fase daqueles escritores muito românticos. Abandonemos esse romantismo tuberculoso.

É, você não tem livros melosos de mocinhas que sofrem pelo amor e no fim do livro encontram o amor e por aí vai.

Não, não tenho. Uma das pessoas mais importantes da minha vida, que me deram muito exemplo desse exercício, foi a minha mãe. Eu olho para tudo que ela realizou e digo que é aquilo ali que era a personificação de um sentimento bonito, de vontade de crescer, de vontade de exercer a honestidade, o respeito, criar os filhos. Aquilo era uma entrega muito plena. Eu faço isso naquilo que eu escrevo, naquilo que eu organizo com os amigos.

Mas com uma visão assim não fica complicado encontrar alguém para amar? Porque a maioria das pessoas tem a visão melosa do amor.

Aí fudeu, quando fica muito essa coisa de nhem nhem nhem pra cá e pra lá fudeu. Aí meu Jesus, não, pelo amor de Deus! Não, vai-te pra lá! Muito nhem nhem nhem eu não gosto não. Sou mais prático. Vai que é porque não me pegaram de jeito até agora! Vai saber. Não sou meloso.

Têm muitos textos seus no Teatro. Você gosta de Teatro, escreve para Teatro?

Tem bastante sim. Eu vou bastante ao Teatro. No começo do ano que vem o Rodolfo Lima vai voltar a fazer o Bicha Oca, parece que já conseguiu o espaço. É um grande ator, ele fez muito bem o Bicha Oca. Eu adoro Teatro porque eu queria muito ser ator, mas descobri que tinha muito pudor para ser ator. Eu fiz Teatro dos 9 aos 19 anos de idade, mas aos 19 eu desisti porque eu fui ver uma peça uma vez e todos os atores estavam pelados. E era uma peça muito boa, não era uma nudez gratuita. Eu disse “meu Jesus, eu não vou ficar pelado nunca em cena!” Aí eu desisti porque eu seria um ator limitado. E eu também não precisava causar esse vexame à plateia, de ficar pelado, balançando o bilau para cima e pra baixo, então eu desisti.

Hoje em dia você ainda é tímido assim?

Eu tiro roupa, eu faço miséria… Escrevendo. Quando eu escrevo eu não tenho pudor nenhum, mas me colocar em cena assim para fazer um personagem não. Eu queria ser ator, achava muito bonito, quando eu descobri que tinha essa limitação, que eu não seria um ator que ia se entregar completamente, eu desisti. Hoje em dia eu faço um espetáculo, tem um que eu faço com a cantora Fabiana Cozza, de quando em quando a gente se apresenta, mas sou eu como escritor lá, interpretando alguns contos meus, uma espécie de leitura, nada decorado, uma leitura cênica disso. Mas é o autor que está ali, não é o ator. Faço isso também em outros eventos, quando eu vou e posso interpretar um conto meu, ler um conto meu, eu gosto muito. O Teatro me ajudou muito nisso, respeitar os silêncios, as pausas. Quando eu escrevo eu penso em Teatro, quando eu escrevo eu penso em um ator, em uma atriz fazendo, me interpretando. Porque eu escrevo em voz alta, escrevo falando. Aí termino de escrever e vou ler aquilo, ver como está se processando. Por isso que quando os atores vêm para os meus livros, eles reconhecem ali um monólogo pronto, algo que eles podem apresentar. Eu vou escrever agora, entre dezembro e janeiro, o próximo espetáculo do Coletivo Angu de Teatro, que é do Recife. Uma das atrizes é a Ermila Guedes. Adoro e respeito profundamente o grande ator, a grande atriz. Respeito essa entrega do corpo e da alma.

E sobre o que é esse espetáculo?

É sobre velhos. Estou escrevendo meu primeiro romance, vai sair no final do ano que vem pela Editora Record. E paralelo ao romance, estou escrevendo, pela primeira vez, pensando na costura desse espetáculo. Não tem título ainda, mas eu sei que a temática é de velhos, só velhos em cena. Eu tenho vários contos que têm personagens velhos, me fascinam por uma falência múltipla dos órgãos. Eu gosto das falências, do velho quando começa a falhar a memória, a fala, as lembranças, eu gosto dessa falência. Engraçado, eu não gosto de saúde, eu gosto dessa fragilidade, dessa humanidade.

Você se sente velho aos 45 anos?

Não, me sinto bem. Até me deram 10 anos a menos esta semana. Vai ver que é porque eu estava de costas (risos). Eu estou com 45 agora, pode não parecer, mas eu tenho muita preguiça de viver. Toda vez que eu acordo eu digo: de novo? É uma preguiça, mas vamos lá, vamos embora, não estamos aqui pra isso? Aí eu vou lá, faço as coisas. Acho que até para não me sentir tão desocupado, alheio, eu quero dar sentido àquilo que não tem sentido nenhum, sabe? Aí eu escrevo, acho que é exatamente para isso. Mas eu tenho uma preguiça imensa. As pessoas dizem que a vida é muito curta, não, a vida é muito longa. É muita coisa, Jesus. Eu queria ter o tempo de vida de uma mosca, que parece que é um dia. É uma beleza isso, você faria tudo em um dia. Não era não? Aí nascia de novo lá em outra mosca. Mas essas etapas todas, e cresce, e vai estudar, e casa, é um inferno. Eu não casei não, mas menino, pelo amor de Deus, eu vejo os meus sobrinhos casando com 18, 19 anos, aí já engravida não sei quem, vai fazer família, criança, leite, leva menino não sei onde, sogra no domingo.

Você nunca casou?

Não, nunca casei, nunca morei junto. Namorei já, mas não morei junto. Eu adoro fechar meu apartamento e só eu estar respirando ali naquele lugar, mais ninguém. Às vezes vem alguém que fica hospedado em casa durante um tempo, não tem problema nenhum, mas tem uma hora em que me perturba. É o lugar em que eu me isolo, porque eu acho que na verdade eu faço um monte de coisas: viajo, vou daqui, vou dali, então é o momento em que eu fecho ali e pronto. E as pessoas têm uma mania de achar que quem mora sozinho é triste. Tudo bem que eu falo que acho a vida longa demais, mas é porque eu sou trágico.Ou que porque moram sozinhas estão disponíveis sempre. Dizem: “vamos pra casa do Marcelino, estamos chegando aí nesse sábado”. Que conversa é essa? Não venham programar meu final de semana, eu detesto. Não, eu quero acordar primeiro antes de decidir. Eu sou livre demais e as pessoas tentam me prender, mas eu não deixo não.

Qual a palavra que você mais gosta?

Fôlego. É uma palavra bonita.

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Ler, escrever e contar não basta

“É preciso ler o mundo”

NíIson José Machado

Fonte: Revista Kalunga | Edição 254 | Outubro 2012

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Nílson José MachadoEntre a carreira de engenheiro, formado pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), e a de professor de matemática, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Nílson José Machado ficou com a segunda opção. Abandonou o ITA, após três anos, doutorou-se em Filosofia da Educação, também pela USP, e passou a lecionar na instituição em 1972. A princípio, formou estudantes no Instituto de Matemática e Estatística e na década seguinte migrou para a Faculdade de Educação. Machado tem diversos livros publicados, entre os quais, Ética e Educação, que traz 256 microensaios sobre os temas cidadania, pessoalidade, didática e epistemologia, recém-saído da gráfica, publicado pela Ateliê Editoral, e Educação, Competência e Qualidade, pela Editora Escrituras. Nesta entrevista, ele discorre sobre várias questões a respeito de um dos temas mais pertinentes a toda sociedade brasileira.

Qual a sua avaliação sobre a Educação no Brasil?

Temos um problema crônico que é não ter políticas de Estado para a Educação. O que se tem são políticas de governo, ou pior ainda, de governantes. Às vezes muda o governante, mesmo que seja do mesmo partido, mudam as políticas. Isso ocorre em todos os níveis, federal, estadual e municipal. Em São Paulo, tivemos governos sucessivos de um mesmo partido e as políticas mudaram com os secretários de Educação. Essa é a grande mazela, faltam pessoas pensando na Educação com visão e nível de Anísio Teixeira, que pensava grande, que pensava no País, instituição educacional e não coisas de curtíssimo prazo e de “imediatez” que são desapontadoras.

Dê sua opinião a respeito da doação de livros?

É uma ação muito pequena em termos de política. Ninguém vai resolver os problemas educacionais distribuindo livros aos montes. O governo faz isso há pelo menos 15, 20 anos. Essa é uma iniciativa que faz a alegria das grandes editoras. Falta política educacional com P maiúsculo, que é uma política de Estado.

O governo tem investido o suficiente na democratização do ensino?

No meu entender, não há que se ter investimento em democratização do ensino. Não é esse o foco. Dewey Uchn, filósofo e pedagogo norte-americano, no início do século 20, dizia que democracia sem educação é algo canhestro. A educação sem democracia também. Aliviar a população de uma dessas duas coisas é como aliviar um condenado à morte, com duas penas de morte, será aliviada apenas uma. Democracia e educação são par fundamental. O que se pretende é uma educação de qualidade, esse é o processo de democratização legítimo. É garantir uma educação básica de qualidade, completa, até o final do ensino médio.

É correta a política de cotas na Educação?

A meu ver essa é uma política equivocada e polêmica. A democratização que se precisa buscar é por meio da educação básica de qualidade, não é oferecendo vaga no ensino superior para quem não está preparado. Isso é pura demagogia. Nós (USP) temos dificuldades com alunos, mesmo sem a questão de cota. Recentemente foi feita uma pesquisa apontando que 38% dos universitários brasileiros são considerados analfabetos funcionais, ou seja, são capazes de ler e escrever, mas não conseguem interpretar e associar informações, isso independente de qualquer política de cota.

Que contribuição a Universidade pode dar para mudar essa realidade?

No sistema educacional brasileiro, a universidade vive uma realidade diferente da escola básica, não é uma maravilha das maravilhas, mas é uma situação mais confortável. Como prima rica, a universidade deveria se envolver mais no processo de melhoria da educação básica. Não é abrindo mais vagas, mas acolhendo os alunos da escola pública em um curso pós-médio, de formação. Após esse período, ele poderia se candidatar a uma vaga na universidade.

Como seria esse curso?

Estou falando de um mutirão em que grande parte das pesquisas teria de ser colocada de molho. Como isso não dá visibilidade imediata, ele só poderia ser avaliado quando a primeira turma estivesse saindo. É atividade para sete, dez anos. Não é dar um cursinho de dois anos para esses alunos. As atividades na universidade e na escola básica não precisam ser somente aulas. Deve haver tutoria, orientação, conversa pessoal.

Qual o papel do educador?

O educador tem sido tratado pelos órgãos públicos de governo como um técnico. Quando se fala em capacitar professores, sempre se pensa exclusivamente na capacitação técnica. A competência técnica é fundamental, mas não basta para caracterizar um bom profissional. São necessários comprometimento e envolvimento com o projeto, ou seja, com as tarefas educacionais. Isso não vem graciosamente, mas na medida em que os professores participam desse projeto. É comum a todas as profissões, por exemplo, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) não discute salário de advogado, mas a atuação deste profissional.

E a política de reciclagem de professores?

É preciso melhorar a condição de trabalho do professor da escola básica. Ela é muito ruim. Se ocorre essa melhora, o professor espontaneamente vai buscar voluntariamente aperfeiçoamento e capacitação. Quando eu digo que a condição de trabalho não é boa, não me refiro a salário. Isso está no pacote. Vou dar um exemplo: no Estado de São Paulo, um professor de Física tem duas aulas por turno no ensino médio. No regime de 40 horas, que é o mais frequente, ele tem de dar 32 horas na sala de aula. Para isso, tem que ter 16 turmas. Nenhuma escola no Estado tem 16 turmas de Física para oferecer a um professor. Ele terá que dar aulas em outras escolas para completar a carga.

No que se refere às competências, os professores estão preparados?

Esse discurso de competência é antigo e foi reavivado pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), a partir de 1998. Na escola, o professor precisa desenvolver as competências pessoais dos alunos. Esse é um dos discursos que os avós da gente tinham. Eles diziam “você vai para a escola, aprende um monte de matéria, mas no fundo o que você aprende é ler, escrever e contar”. Atualmente, saber apenas isso não dá mais conta. Antigamente, a pessoa podia ser só analfabeta, hoje, ela pode ser polianalfabeta. Analfabeta em ciências, em tecnologia e em muitas coisas.

O que o professor precisa desenvolver na sala de aula?

Eu acho que em vez de ler, escrever e contar, ele tem que desenvolver a capacidade de expressão e compreensão. Expressão de si e compreensão do outro. Expressão em diferentes linguagens. Antigamente, a ideia geral de leitura era ler e entender um texto, agora, é preciso ler o mundo.

Regras e juízos devem ser transmitidos pelos pais ou pelos educadores?

Ambos têm tarefas que devem ser partilhadas, não dá para os pais delegarem tudo à escola, nem a escola delegar tudo aos pais. Claro que há especificidades na atuação de um e de outro. Quem pensa em um projeto de vida para a criança é a família, depois ela escolhe uma escola adequada para aquele projeto. Por sua vez, quem pensa no caminho pedagógico para buscar esse projeto é a escola. Não cabe ao pai ir à escola dizer qual é o livro que deve ser adotado ou como o professor tem que dar a aula ou avaliar. De maneira geral, não há exemplo de escola bem-sucedida sem partilhar metas e objetivos com a família. A escola precisa ter participação dos pais ou ela não se sustenta.

Há trabalho para todos os jovens que saem dos cursos? Eles estão aptos para educar?

Existe campo de trabalho para todos. Agora, ninguém sai apto para educar. O curso é o pontapé inicial. Há três fases na vida do professor. A primeira, assim que se forma, ele começa a dar aula. Ensina o que não sabe. Ele está aprendendo a lidar com os alunos. A fase dois é aquela em que ele dá aula sobre o que sabe. Essa fase é um perigo, porque ele sabe algumas coisas e dá aula disso. O que ele não sabe, diz “estou fora, não dou aula”. Isso é terrível. Ele perde o interesse por certas áreas e não consegue mais entender a dificuldade dos alunos. A terceira, que é a mais madura, só vem trabalhando, após alguns anos dando aulas. É quando o professor não está mais preocupado com o que ele sabe ou não. Ele se preocupa com o que os alunos precisam.

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Ética e Educação

Nílson José Machado
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Ética e Educação, de Nílson José MachadoÉtica e Educação são temas candentes que se entrelaçam e se alimentam mutuamente. No cerne de ambos encontram-se as ideias de conhecimento e valor. Um mapeamento de questões relativas a tais temas é apresentado pelo autor, em busca de uma perspectiva crítica ao alcance de educadores e de cidadãos em geral.
Os focos que aglutinam os textos são os pares pessoalidade/cidadania e didática/epistemologia. Iguais como cidadãos, somos diferentes como pessoas, e não buscamos a escola para esquecer tais diferenças: metade dos microensaios reunidos examina tal fato. A outra metade trata de explicitar como o modo de pensar sobre o conhecimento influencia decididamente as ações educacionais, ou seja, como a epistemologia interfere diretamente na didática.
Numa época marcada pelo excesso de informações e análises, optou-se, aqui, por uma forma sintética de apresentação das reflexões. Os microensaios são como sementes: as discussões que vierem a alimentar são a razão primordial de trazê-los a lume.
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Educação e Pedagogia, Cidadania
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Poeta, o poema

Fonte: Hoje em Dia (MG)
Clarissa Carvalhaes
José Antônio Bicalho
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“As coisas se transformaram, mas o homem continua vendo o mundo pela fresta de uma caverna”
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Quando publicou o livro “Poeta Poente”, em 2010, Affonso Ávila estava triste. A morte recente da esposa com quem fora casado por décadas fez o poeta recolher-se em pranto e pessimismo, carregar-se de arrependimento e nostalgia. Dois anos se passaram e, ainda que a saudade permaneça, o escritor confessa: “Cansei de ser triste”. Desde então, passou a dedicar-se a “Égloga da maçã”, obra que acaba de lançar pela Ateliê editorial (80 páginas, R$35). E como quando se trata de Affonso Ávila o que se espera é sempre o novo, desta vez não poderia ser diferente. “Égloga” e uma poema, único.

Clique aqui para ler a matéria completa

Entrevista Affonso Avila

Lançamento de livro sobre Noel Rosa e entrevista com a autora

Fonte: Agenda Samba & Choro

Julia Engler

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Noel Rosa – O Humor na Canção, de Mayra PintoNoel Rosa compôs quase trezentas canções entre seus 20 e 26 anos. Apenas seis anos de produção foram suficientes para que o jovem sambista estabelecesse um novo paradigma na história da canção popular brasileira. Por isso, setenta e cinco anos depois de sua prematura morte, Noel continua sendo um fecundo objeto de estudo para pesquisadores interessados em compreender a música popular brasileira.

A pesquisadora e professora Mayra Pinto, lança Noel Rosa: O Humor na Canção (Ateliê Editorial/FAPESP) terça-feira, dia 8 de maio, das 18h30 às 21h30, na Livraria da Vila, Rua Fradique Coutinho, 915, em São Paulo.

No livro, Mayra Pinto investiga o uso do humor na construção de um olhar crítico sobre uma sociedade desigual que passava por um período de profundas transformações, principalmente no que se refere à identidade nacional.

Em entrevista dada à Agenda Samba & Choro, a autora conta um pouco de suas descobertas pelo universo do Poeta da Vila.

Em seu livro, você fala do estabelecimento de um novo paradigma na música popular brasileira a partir da obra de Noel Rosa. Que novo paradigma é esse?

Junto com compositores contemporâneos, Noel criou um formato de canção que permanece até hoje – um estribilho, várias estrofes, determinado tempo de duração, a estrutura musical do samba etc. Quanto à singularidade de sua obra, o paradigma propriamente dito foi criado pela voz que Noel imprimiu em suas composições. É basicamente a voz de um sujeito desprovido de força social, em todos os sentidos, porque é o sujeito do samba, o artista popular não valorizado que, com sua conduta boêmia, festiva, e, sobretudo, crítica no caso de Noel, confronta os valores dominantes ora de um modo debochado, satírico, ora de uma forma irônica, mais agressiva, com um tom menor de amargura. Essa voz não existia na canção antes de Noel.

Você observa que o humor funciona como disfarce nos sambas de Noel. Disfarce do quê?

A ironia está em muitas canções, e não só na poesia da letra. Há ironia na interpretação, nos arranjos, no próprio fato de Noel ter gravado muitos de seus sambas com sua voz “pequena”, que favorecia certos timbres mais sinuosos e ambíguos. Pra mim, na obra dele, a ironia tem a função de marcar essa ambiguidade, de possibilitá-la. O efeito é que em Noel o sujeito que se coloca em confronto – não só com os valores dominantes do trabalho, da moral, mas também do próprio universo do samba em várias canções – pode não ser alvo de sanções em consequência de sua atitude crítica, dado que seu tom é de “brincadeira”, é o humor aí “disfarçando” a agressividade da crítica – entramos aqui na sua próxima pergunta. O humor funciona como disfarce porque historicamente é visto como um discurso “desvalorizado” – o exemplo dos bobos da corte, que podiam criticar inclusive o rei, é ótimo para ilustrar esse lugar secundário do discurso de humor na história; ao bobo era permitido dizer qualquer coisa, até mesmo a verdade mais dura, porque afinal ele era só um “bobo”, isto é, “ninguém” com voz de poder real na sociedade. O humor só passa a ser valorizado na arte, e só na arte até agora, no século XX. Valorizado como? Como um discurso que também dá conta de arquitetar reflexões profundas – lembre-se das vanguardas europeias que foram em boa medida inspiradoras do nosso modernismo, atravessado pelas categorias do humor. Nesse sentido, Noel estava em sintonia com o que de mais moderno estava sendo produzido no sofisticado mundo da cultura erudita nacional e internacional.

De que forma se constrói nessa época a poética própria do samba? Como Noel participa desse processo?

A poética do samba é construída por todos os grandes contemporâneos de Noel: os sambistas do Estácio – com Ismael Silva à frente -, com os compositores e cantores brancos como Francisco Alves, Braguinha, Mário Reis, Lamartine Babo, dentre tantos outros. Há uma confluência incrível de influências vindas das mais diversas fontes para consagrar essa poética tal como existe até hoje. Por exemplo, segundo depoimento de Ismael Silva, o ritmo do samba criado pelo grupo do Estácio, menos sincopado que o anterior – feito por Sinhô, João da Baiana e outros – foi consequência da necessidade de permitir dançar e ao mesmo tempo andar nas ruas durante o carnaval. Noel participa intensamente contribuindo para construir essa poética, bem como para cristalizá-la, sobretudo, no que concerne à articulação das linguagens: o tom coloquial das letras/interpretação, marca da época, é manejado por Noel com tremenda segurança na articulação com a melodia.

Você diz que o olhar crítico do poeta só se desarma diante do universo do samba. O que esse universo representa na obra do Noel?

O universo do samba representa o lugar em que o artista popular pode ser, pode se expressar, pode refletir sobre o mundo e, sobretudo, pode ser reconhecido em sua originalidade. Veja o refrão do lindo samba “O X do problema”, gravado por Araci de Almeida: “Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá/E felicidade maior neste mundo não há./Já fui convidada/Para ser estrela de nosso cinema/Ser estrela é bem fácil/Sair do Estácio é que é/O X do problema”. É o reconhecimento de sua trajetória como sambista que importa; e o bacana é que Noel, contrariamente à maioria de suas canções, cria um eu lírico feminino pra falar dessa adesão incondicional ao samba. Por que ele enaltece isso? Um dos motivos, dentre tantos, é porque, à época, o universo da cultura popular era desvalorizado socialmente, era visto pelas elites como um lugar desprestigiado; mais ainda o universo do samba, “coisa de gentinha”, como está registrado no excelente Noel Rosa: uma biografia, de Máximo e Didier. Então, coerente com sua voz de confronto, marca discursiva de sua obra, Noel elege o universo do samba como um lugar só de positividade.

Na sua opinião, qual o principal legado deixado pela obra de Noel Rosa?

A obra do Noel é uma matriz de onde parte uma linhagem na nossa canção popular urbana. E uma matriz genial porque imprimiu, desde o começo da produção da canção, uma sofisticação discursiva que só podia se manter depois dele em um tom maior – vide todos os brilhantes compositores brasileiros que vieram depois de Noel e, certamente, foram inspirados e influenciados por sua obra.

Noite de autógrafos com a aultora
Dia 08 de maio, terça-feira, das 18h30 às 21h30
Livraria da Vila (piso superior)
Rua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros – São Paulo/SP

Eduardo Miranda respira James Joyce em Dublin

Em entrevista ao Blog da Ateliê, o tradutor, músico e poeta falou da relação de “amor e ódio” entre Joyce e Dublin. Eduardo Miranda chegou à final do Concurso de Tradução Bloomsday 2011 e publicou sua tradução na revista eletrônica TUDA.

Como foi seu primeiro “encontro” com a obra de James Joyce?

Joyce me chegou primeiro através de Ulisses, ainda muito jovem – praticamente ilegível para mim na época. Depois fui cronologicamente retrocedendo: Retrato do Artista Quando Jovem, Dublinenses, e depois a poesia… mas foi em Dublin que tive a oportunidade de me envolver mais com a literatura e a cultura irlandesa – inclusive com a língua irlandesa – e consequentemente com James Joyce. Foi aqui em Dublin, durante a comemoração dos 100 anos de Ulisses,  que pude percorrer o caminho que Leopold Bloom percorreu, no mesmo passo que o livro.

Fale um pouco sobre a obra e vida de James Joyce, segundo a sua experiência.

Na verdade foi depois da minha mudança para Dublin por motivos de trabalho que vim a me interessar mais pela obra de Joyce – e tudo em Joyce é Dublin! E entender essa relação de amor e ódio foi um desafio… Joyce deixou claro em vida que não gostava de Dublin. Stephen Joyce, neto e curador da obra de Joyce, faz questão de afirmar que seu avô não gostava da cidade. Tampouco ele simpatiza com Dublin, e desaprova toda tentativa de citar a obra do avô, seja para turismo, nomeação de monumentos, ou mesmo comemorações. O único lugar onde é permitido citar a obra de Joyce é no James Joyce Centre, durante as comemorações do Bloomsday, festival que acontece todo dia 16 de Junho e que comemora as aventuras de Bloom.

Como é traduzir James Joyce?

Primeiramente acho que todos os que se submeteram ao desafio de traduzir o Finnegans Wake – e não só os finalistas – já são heróis pela própria ousadia. Para mim foi uma tarefa trabalhosa, tanto que consumiu quase todas as minhas horas livres de uma semana inteira! Mas ao mesmo tempo foi excitante e divertida… uma aventura e tanto! E o fato de morar em Dublin e de ter um certo conhecimento da língua irlandesa – mesmo que parco –  fez com que eu me sentisse, de certa maneira, mais próximo dos contextos joyceanos, e acho que acabou ajudando um pouco a transposicão multi-dimensionais do texto… além, é claro, de um pouco de intuição e muita poesia!

Fale um pouco de você e do seu trabalho.

Não sei se posso chamar de trabalho, no sentido convencional da palavra. É mais como um hobby, só que levado muito à sério… extremamente! Mas o tempo é que não ajuda muito. Como tenho o meu trabalho na área de Tecnologia da Informação, acabo dedicando apenas o tempo que sobra às outras atividades. Trabalho e família vêm primeiro e, às vezes, o que sobra não é muito. Tento ser constante na TUDA, uma e-zine de poesia, literatura e arte que publico mensalmente, já há 3 anos. É lá que publico minhas traduções. Minhas poesias, meus contos e outros textos podem ser acessados à partir de um “portal” que mantenho, o edotm.info. Já na música, tenho um projeto experimental e multi-instrumental, à distância, chamado The Virtual EM3, e uma banda real, o Wellfish. Conforme o tempo permite, vou “trabalhando”….

Eduardo Miranda

Conheça este louco por Joyce e sua tradução vencedora do Concurso Bloomsday

Adriano Scandolara traduziu James Joyce e venceu o Concurso de Tradução Bloomsday

Apresento-lhes Adriano Scandolara, com sua tradução do primeiro capítulo de Finnegans Wake. Ele encarou traduzir James Joyce e venceu o Concurso de Tradução Bloomsday! Veja o que ele disse em entrevista ao Blog:

Como foi seu primeiro “encontro” com a obra de James Joyce?

Foi ainda na graduação do curso de Letras. Lemos Dublinenses, e, como qualquer um, fiquei besta com o final de “Os Mortos”, toda aquela coisa da epifania e a descrição da cena. Coisa brutal mesmo. Aí foi a progressão natural de partir para O Retrato do Artista Quando Jovem e, depois, Ulisses. O mais chocante foi descobrir que a experiência era mais fácil, para mim, lendo no original do que na tradução do Houaiss – com todo o respeito, claro, afinal de contas, o que ele fez na época está longe de ser para qualquer um. Mas, ainda assim, não vou dizer que é fácil. Não é, mas também não é sinal de que a leitura de Joyce, ou de qualquer outro romancista tido como difícil, seja só para quem é muuuuito inteligente ou esse tipo de coisa. Eu confesso que não entendi muita coisa, mas também seria muita falta de humildade ler somente as coisas que eu for capaz de entender “plenamente”. E parece que ainda há muito desse estigma em Joyce – estigma de autor cult, lido só por gente de óculos de aro grosso que faz pose de intelectual, quando, na verdade, boa parte do Ulisses é piada escatológica – e seria bom se fôssemos capazes de desfazê-lo.

Fale um pouco sobre a obra e vida de James Joyce, segundo a sua experiência.

Pois é, eu não sei muito o que dizer do assunto (especialmente sobre a biografia insana de Joyce, que seria duro de resumir… e a Wikipedia já o fez melhor do que eu poderia fazer aqui), mas sei que as duas coisas, vida e obra, em Joyce, são muito interligadas. É óbvio que as duas coisas se cruzam sempre, em variados graus – vide as relações entre Baudelaire e Paris, por exemplo, ou Allen Guinsburg e toda a cena beat – mas parece que é ainda mais forte a ligação biográfica entre Joyce e seus protagonistas Stephen Dedalus e Leopold Bloom, e, ainda mais, entre Joyce e a Irlanda.

Como é traduzir James Joyce?

Difícil, mas divertido (divertícil, pra ser um joyceano pedante). Digo, não sei o restante da obra de Joyce (imagino que o Ulisses, por exemplo, seja mais difícil e trabalhoso do que divertido), mas o Finnegans Wake é algo tão lúdico que a tradução, para mim, vira menos um ato de erudição e adequação a formas, normas ou outros tipos de expectativas, quanto me parece um ato de associação, algo livre, de conceitos, ideias, imagens e sons. O FW mesmo parece que encoraja isso… aí, na hora de traduzir, eu acabei me orientando menos pelo tanto de sentidos a serem enfiados no texto do que pelo ritmo. É óbvio que eles são importantes também – vide as referências bíblicas nos parágrafos segundo e quinto, ou as referências bélicas no quarto, que não devem ser descartadas pelo tradutor – mas eu não me recrimino de perder alguma referência mais obscura se for para deixar o texto com uma sonoridade melhor. Joyce, apesar de romancista, acredito que se aproxima muito da poesia, no FW, e o resultado é um texto que soa especialmente bonito quando lido, e seria uma pena perder isso na tradução.

Fale um pouco de você e do seu trabalho.

Ah, bem, eu ando trabalhando como tradutor freelance, geralmente com não-literatura, como tradução para o jornal (Gazeta do Povo) ou textos técnicos, mas tenho prazer mesmo em traduzir literatura, especialmente poesia. Tenho também uns contos traduzidos para a Revista Arte & Letra, mas o que eu traduzo de poemas avulsos geralmente posto no meu blogue só (leitorhipocrita.blogspot.com). Quando me formei em Letras pela UFPR, fiz a monografia traduzindo uma pequena antologia de Shelley – que coincidiu justamente com o lançamento pela Ateliê também de um volume de Shelley traduzido pelo Milton e pelo Marsicano… bem, pelo menos, os poemas escolhidos foram diferentes – e agora, no mestrado, estou dando continuidade ao trabalho com um poema mais longo de Shelley (2.600 versos), que é o Prometheus Unbound. Também recentemente traduzimos, eu e mais alguns colegas e professores da UFPR, o Paradise Regained de Milton, a continuação do Paradise Lost, e estamos procurando editoras interessadas em publicá-lo.

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Adriano Scandolara

Blog: leitorhipocrita.blogspot.com

Clique para ler a tradução ganhadora do concurso

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