Entrevistas

Para entender a sociedade de consumo

Carina Marcondes Ferreira Pedro fala sobre o recém-lançado Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, sobre fluxos de importação de mercadorias nas últimas décadas do século XIX

Por Renata de Albuquerque

 

CarinaPedro_300dpiPor que entender o fluxo de importação de mercadorias no final do século XIX é importante na atualidade? Porque as tendências e os hábitos de consumo no Brasil foram fortemente marcados pelos acontecimentos desse período. Em Casas Importadoras de Santos e Seus Agentes, Carina Marcondes Ferreira Pedro debruça-se sobre o sistema e as rotas comerciais marítimas por meio das quais as mercadorias e produtos de consumo eram trazidos ao Brasil. O livro recém-lançado é resultante da dissertação de Mestrado desenvolvido no Programa de Pós-graduação em História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP).

 

Carina, que já atuou como professora de História e Ciências Sociais no ensino básico e orientadora educacional online no curso de especialização em História do Programa Rede São Paulo de Formação Docente (Redefor/Unicamp), conta que sua pesquisa começou ainda em 2006, no período da graduação, quando realizou o projeto de iniciação científica em História da Cultura Material do Museu Paulista, como aluna do curso de História na FFLCH-USP. A seguir, ela fala sobre sua obra:

casas importadoras de Santos primeiracapa

 

Você diz que a história do consumo no Brasil foi pouco abordada em seus aspectos culturais. Dada a importância desse tema, a que você atribui essa lacuna? O que esse viés de pesquisa tem a nos ensinar?

Carina Marcondes Pedro: Os estudos sobre os aspectos culturais do consumo a que tivemos acesso foram produzidos, em sua maioria, nos países que dominavam a economia capitalista nos séculos XIX e XX, como Inglaterra e Estados Unidos, que, ao exportar artigos industrializados para o Brasil e outros países da América Latina, disseminavam seus valores e modelos culturais. No Brasil, encontramos estudos importantes da História Econômica que nos forneceram visões sobre o macroprocesso que envolvia as importações. A minha pesquisa buscou compreender, do ponto de vista da História Cultural, as novas relações comerciais estabelecidas entre a Província de São Paulo e os países industrializados no final do século XIX, a partir das casas importadoras, instaladas junto ao Porto de Santos, conjugando elementos que envolvem desde sua conformação física até a trajetória e dinâmica de seus agentes e os artigos que importam e comercializam. Essas firmas, em boa parte fundadas por estrangeiros, foram responsáveis por disseminar valores e práticas culturais, localmente associados aos diversos artigos estrangeiros que adentravam o país nesse período. Compreender esses aspectos é também entender a formação de uma sociedade de consumo que provocou uma ruptura com o passado ao procurar por novos referenciais.

 

O livro toma como base, entre outros assuntos, pesquisas relacionadas à história cultural do consumo, com seus hábitos materiais. O que você pode nos dizer sobre isso?

CMP: Os estudos da história cultural do consumo ajudam a compreender, entre outras questões, como se deu a disseminação de valores e modelos culturais dos países industrializados, a construção de redes de consumo e suas relações com a vida urbana, a distribuição de bens materiais e, finalmente, entender como se deu a transição de uma sociedade assentada sobre a estabilidade de artefatos para uma sociedade de consumo dinâmica. Nela, a palavra “novidade” torna-se comum nos anúncios de artigos importados, revelando as mudanças rápidas que aconteciam no final do século XIX. Na minha pesquisa, a problemática se voltou para a compreensão dos valores e práticas culturais implicados no sistema de comércio de importação de coisas materiais, papel de seus agentes, objetos que faziam circular e formas de comercializá-los na cidade de Santos.

 

Por que escolher o período do fim do século XIX e início do XX para ser objeto de pesquisa? Por que escolher São Paulo e não, por exemplo, o Rio de Janeiro, que era a capital do Brasil de então?

CMP: A passagem do século XIX para o XX é um momento de sensível mudança na Província de São Paulo. Foi nesse período que a circulação de mercadorias ganhou nova dinâmica com a expansão do comércio internacional, no caso de São Paulo, com a expansão da economia cafeeira. A cidade de Santos, como núcleo operacional de todo o sistema de exportações/importações desta região, também passa por transformações profundas com a construção da ferrovia São Paulo Railway (1867), o incremento do movimento portuário e a presença cada vez mais numerosa dos negociantes e firmas importadoras nas ruas do centro comercial, que são parte do próprio processo de crescimento e transformação do porto, como ponto central no circuito de distribuição dos produtos estrangeiros.

ilustração casas importadoras cap 1

Imagem que abre o primeiro capítulo do livro

De que forma essa história está ligada aoshábitos que mantemos atualmente? Sua pesquisa dá pistas, ou indica, as mudanças profundas pelas quais a economia, o comércio e as relações de consumo passaram ao longo do século XX e ainda estão passando neste início de século XXI?

CMP: No final do século XIX os comerciantes enxergaram a oportunidade de vender mais em datas específicas do calendário, como “Natal, Ano Bom e Reis”. O ato de presentear e se vestir com roupas novas nesses dias passa a ser valorizado. Hoje em dia vemos que este hábito se intensificou e passamos a ter muito mais datas comemorativas em que o consumo é estimulado. A exposição e a vitrine também são práticas comerciais que se desenvolveram no século XIX. O anúncio de uma loja que passa a ter “exposição permanente” nos revela que os objetos começam a ser organizados de modo a estimular a observação visual dos clientes, indicando uma preocupação crescente em despertar o desejo de consumo por meio desse sentido.

 

Que semelhanças e diferenças você enxerga no consumo da época tratada em sua obra e daquele praticado nos dias de hoje?

CMP: No que diz respeito ao comércio de artigos importados, percebo que a origem estrangeira do produto ainda é valorizada, especialmente, quando se trata de uma marca consolidada no mercado internacional. Naquele período, contudo, para muitos artigos, não tínhamos uma fabricação nacional – hoje temos essa opção. As casas comerciais de importados ainda possuem uma grande variedade de produtos, porém, diferentemente daquela época, há uma definição nítida do público-alvo, desde a conformação física da loja até as ações de marketing. Hoje, vemos marcas especializadas em vender um tipo de produto para um determinado grupo de consumidores.

 

Você diz ainda que os novos produtos eram introduzidos no cotidiano e passavam a participar das ações, hábitos e referências culturais das sociedades locais. Você pode dar alguns exemplos? Há alguma curiosidade que você descobriu durante as pesquisas, e que não imaginava existir ou funcionar da forma que funcionava?

CMP: Descobri durante a minha pesquisa uma variedade de objetos cada vez maior entrando pelo Porto de Santos, como pianos, candelabros, fogão, porcelanas, aparelhos telefônicos, que passaram a constituir materialmente os interiores residenciais e comerciais. Também fizeram parte dessa gama variada de importados diversos gêneros alimentícios, como vinhos, cervejas, conservas, temperos, e no que diz respeito ao vestuário, encontrei chinelos, roupa branca, chapéus, fitas, entre outros artigos. Uma das curiosidades que descobri foram os anúncios de bebidas importadas, que apareceram com o nome da marca ou selo do fabricante associado ao nome da casa importadora que trazia o artigo para o Brasil, apresentada como “únicos importadores na Província”. Esse apelo de exclusividade denunciava a existência de um comércio de produtos falsos ou similares ocorrendo no período. Entre as precauções que o consumidor podia tomar estava a identificação do importador no rótulo da bebida.

 

 

Os Mistérios dos Livros de Pantagruel

Nova tradução do Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, exclusiva da Ateliê Editorial, esclarece pontos obscuros de versões anteriores
 

Nesta entrevista, Élide Valarini Oliver fala sobre o trabalho de tradução do Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, editado pela Ateliê Editorial, com coedição da Editora Unicamp. Professora titular de literatura brasileira e comparada na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, ela destaca dois mistérios que descobriu durante esse trabalho e deixa explícito o critério que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Melhor Tradução pelo Terceiro Livro da série: “Em geral, as traduções para as outras línguas não respeitam o estilo do autor”, diz.

 

Bom Pantagruel_Capa jpgSua tradução é feita diretamente do francês. É a primeira vez que isso acontece?

Élide Valarini Oliver Hoje em dia, apenas especialistas conseguem entendê-lo. Por isso, existem “traduções em francês modernizado” para o público não especializado francês. Além disso, o próprio estilo do escritor é extremamente exigente, erudito, cheio de referências recônditas, jogos de palavras impossíveis em outras línguas, etc. Em geral, o que se traduz são apenas os dois primeiros livros do autor.

Muito tempo atrás folheei uma edição portuguesa, que me pareceu bastante distorcida e pobre. Em geral, as traduções para as outras línguas não respeitam o estilo do autor, suas peculiaridades, suas inversões “barrocas” digamos assim, as assonâncias de poeta que se encontram no texto. Elas também não rimam o que está rimado no texto, não propõem soluções criativas para os problemas que a cada frase se encontram em Rabelais, cortam trechos do texto… Não estou exagerando.

O que mais incomoda, porém, é o desrespeito ao estilo, a tentativa de fazer o autor encaixar-se numa língua preestabelecida, em vez de fazer a língua encaixar-se no estilo do autor, que é o que o próprio autor fez, quando escreveu em sua própria língua.Assim, se o autor inventa uma terminação esdrúxula num adjetivo, temos que manter isso, não importa o quanto “esdrúxulo” isso possa parecer.

Outra coisa grave é achar que só porque uma palavra parece a mesma, ela significa exatamente a mesma coisa atualmente. Não é bem assim. É preciso conhecer filologia, gramática histórica, etc. Tudo isso eu comento, em notas de rodapé, em minha tradução. O que fiz, porque fiz, discuto origem das palavras, o que for necessário.
Outra coisa grave é tentar “limpar” o texto das palavras obscenas que o autor usa. Isso chega a ser antiético, pois o tradutor não pode ser censor. Mas ocorreu, e ainda ocorre. Nos séculos subsequentes, era comum, na França, aparecerem edições expurgadas assim.

Qual o diferencial desta tradução frente às já existentes, já que falamos de uma obra clássica?

EVO: Acho que o que a diferencia é que sou uma estudiosa do autor. Minha tese de doutoramento foi sobre ele e Joyce. Mais tarde, baseada nesta tese, mas já com muito mais material, escrevi um livro sobre ele, publicado também pela Ateliê: Joyce e Rabelais: Três Leituras Menipeias.
Além desse interesse acadêmico, digamos, também escrevo poesia, contos, crônicas. Tenho paixão pela literatura. Gosto de traduzir.

Sempre vivi no meio de várias línguas: francês, italiano, inglês, português, latim. Adoro provençal, occitan, etc. Gosto também de etimologia. Em suma, tudo isso entra e acaba fazendo a diferença. Por exemplo, ao traduzir o Quarto Livro, por causa dessa babel linguística em que vivo, acabei, por assim dizer, esclarecendo dois mistérios, duas expressões que Rabelais usa e que as edições francesas acadêmicas ou não comentam, ou propõem soluções que não podem ser aceitas. Explico isso nas notas correspondentes, pois no total acabei fazendo 1.411 notas para esta edição. Com isso, escrevi também um artigo, em francês, para comentar e propor minhas resoluções, que vai sair nos Nouvelles Etudes Rabelaisiennes.

 

ElideValariniQuais são os dois mistérios que você esclareceu durante a tradução?

EVL:Acho que viver numa confluência de línguas, nessa babel em que vivo, não é fácil. Muitas vezes esqueço uma palavra na língua em que mais necessito e lembro em pelo menos duas outras que não vão me servir em nada no momento (risos), mas em alguns casos ajuda muito, sobretudo no universo rabelaisiano, por exemplo. Foi o que aconteceu com uma palavra “misteriosa” que Rabelais usa e que grafa “cela”. Ora, todo o mundo sabe que “cela” quer dizer “aquilo ali”, ou “isso” ou ainda “isso aí”, dependendo do contexto. Evidentemente, Rabelais usa este e outros demonstrativos, mas em uma frase no fim do capítulo XLVII, a palavra “cela” não tem nada a ver com isso e se tornou um mistério.

Alguns editores franceses acham que se trata de Sela, em hebraico, mas isso não faz sentido tampouco, inclusive porque quando Rabelais usa Sela, ele o faz com “S” e sabe muito bem a diferença. Outros ainda acham que foi um cochilo, etc. Mas, consultando o dicionário Cotgrave, francês-inglês, elaborado no século dezessete pelo autor homônimo, e que inclui verbetes de muitas palavras e expressões usadas por Rabelais, encontrei ali um segundo significado de cela, ligado a “wot” – palavra agora arcaica em inglês, de “wit”, mas usada por Shakespeare, por exemplo, e que significa “ter sacado alguma coisa”.
Isso, sim, fazia sentido com o contexto do Rabelais.

O outro mistério diz respeito a uma expressão encontrada no capítulo LXVI: “contre faire le loup em paille” que hoje ninguém sabe mais o que quer dizer. Também encontrei no Cotgrave alguma glosa, mas isso é mais complicado porque diz duas coisas diferentes: seria fingir que se dorme, ou também estar entre o acordar e o dormir. Cada edição do Rabelais em francês oferece uma sugestão, mas não fazem sentido. A edição da Pléiade, muito bem-feita e bastante séria, não oferece sugestão nenhuma, o que acho melhor. Comentei tudo isso nas notas que fiz à minha tradução, mas depois resolvi escrever um pequeno artigo em francês a respeito disso e o enviei à Mireille Huchon, que editou minuciosamente a obra completa do Rabelais para a coleção Pléiade, e que é uma autoridade no assunto Rabelais. Foi assim que surgiu a oportunidade de publicar o meu artigo para a Nouvelles Études Rabelaisiennes.

Quando sai o artigo na Nouvelles Etudes Rabelaisiennes?

EVO: Ainda não sei quando vai sair o artigo porque, de pequenininho que era, realmente muito modesto, inclusive em termos de contribuição aos estudos rabelaisianos, está virando, graças às sugestões de Mireille Huchon, um pouco maiorzinho. Estou em fase de revisão final.

Você tem a intenção de traduzir outros livros do Bom Pantagruel?

EVO: Sim, tenho a intenção de fazer (quase) toda a obra. Ou seja, agora, os dois primeiros livros ao menos. Estou começando o Gargantua. Resolvi começar pelo Terceiro e depois fui para o Quarto – que são os mais complexos em todos os sentidos. E também porque são os menos conhecidos. Quando se trata de Rabelais, muitas vezes o público não sabe que ele escreveu o terceiro e o quarto. Haveria também o que se convencionou chamar de Quinto Livro, mas isso é um problema, pois o que se acreditou ter sido um livro inacabado do autor, na realidade, hoje mais parece um rascunho para o Quarto Livro. Ainda não resolvi se vou entrar nisso, mas os “prognósticos pantagruelinos” são divertidos também. Vamos ver.

Que linha você segue na hora de fazer um trabalho como esse? O que considera essencial e do que procura fugir?

EVO: Em minha introdução ao livro, dou muitos detalhes sobre os critérios que uso para traduzir. O que posso dizer é que não sigo linha alguma. Sigo a linha do Rabelais. Ele é meu companheiro de jornada há muitos anos, isso acaba gerando uma certa afinidade, que me dá, mais ou menos, uma liberdade para imaginar que se ele estivesse escrevendo em português, usaria esta ou aquela palavra, por exemplo. E depois, ao reler, sempre imagino que ele está ali do lado. E se ao reler, rio muito, então melhor ainda!

Mas, além da tradução, o que fiz foi proporcionar ao leitor um contexto amplo não apenas das ocorrências e situações aos quais o livro se refere, mas, por exemplo, na introdução, contextualizar o livro em sua época, os perigos que o autor incorreu ao publicá-lo, as ideias de Rabelais, etc. Acho que isso ajuda o leitor, visto que se trata de um autor que, se já era complexo em seu tempo, agora, passados quinhentos anos, o é ainda mais.
Outra coisa importante: devido à minha profissão, tenho tempo para fazer isso. Traduzir Rabelais acaba fazendo parte da minha vida, quase como uma atividade à parte. Não trabalho apenas com Rabelais. Escrevo, pesquiso e dou aulas sobre literatura brasileira e comparada. Acabei de publicar um livro sobre Machado de Assis, por exemplo. De certa forma, traduzir Rabelais para mim, é como partir em viagem.

O Nheengatu que dá barato

José Ribamar Bessa Freire | Diário do Amazonas | 25 de maio de 2014

Capa do novo cd da banda Titãs

Capa do novo cd da banda Titãs

Tinha cara de bebê chorão. Morava na Ilha do Governador, no Rio. Não lembro mais o nome dele. Agnaldo ou Agnando, uma coisa assim, mas era conhecido como Pindá. Como qualquer vendedor de drogas em porta de escola, percorria diariamente universidades para abastecer a clientela, cujos vícios e gostos conhecia muito bem. Na UERJ, se esgueirava pelos corredores, qual felino de mansa pisada. Ia de sala em sala, levando a mercadoria. Silencioso e discreto, só abordava os consumidores potenciais sem presença de testemunhas. Um belo dia, sumiu. Dizem que foi preso.
Conheci-o há mais de vinte anos. Quem nos apresentou, se não me engano, foi Gilberto, um professor de engenharia, que era chegado na coisa e da qual era também dependente:
– Esse é Pindá, meu fornecedor. Mercadoria garantida. Pode confiar.
– Pindá é anzol em Nheengatu – eu disse, explicando que Nheengatu era uma língua de base tupi falada em todo o Rio Negro, tão viva que se tornaria depois, em 2002, língua cooficial no município de São Gabriel da Cachoeira (AM).
Bastou isso para que o tráfico se fizesse carne e habitasse entre nós. Pindá, um profissional sério, jogou o anzol e eu mordi a isca. Ele percebeu que eu, recém transferido do Amazonas para o Rio, passava por crise aguda de abstinência causada por suspensão brusca do uso do objeto do desejo. No dia seguinte, voltou, abriu sua maletinha e deu o bote pingando três pontos de exclamação:
– Olha aqui! Pra você! Coisa fina!
Ficou observando minha reação. Vi a mercadoria armazenada dentro de uma caixa de papel confeccionada sob medida, coberta por camada de pó branco e cristalino. Dava uma overdose.

A dopamina

 – Quanto custa? – perguntei, tentando esconder a ansiedade.
Mas ele percebeu o aumento na frequência dos meus batimentos cardíacos. Era experiente no trato com dependentes. Baseado – baseado mesmo – na vontade do consumidor de experimentar sensações mais fortes, costumava oferecer doses cavalares do produto, cada vez maiores. Deu o preço. Custava os olhos da cara somados ao olho do pescoço em francês. Uma fortuna!
– Muito caro. Quase um mês de salário. Tenho que pedir financiamento no banco – ironizei.
– É coisa rara. Tá todo mundo querendo. A doutora Ruth Monserrat, lá do Fundão, já fez uma encomenda. Aquele alemão, o Wolf Dietrich – conhece? – paga em euro ou em dólar. Não é caro não.
Tentei desvalorizar a mercadoria para baixar o preço:
– Tem até traça… – eu disse, apontando o pó.
– Não é traça. A caixa é de papel alcalino com cola anti-traça – ele disse. Parecia adivinhar que naquele momento meus neurônios já liberavam noradrenalina e dopamina. Ele nos entendia. Durante anos, nos consolou, fornecendo o que cada um de nós precisava.
Soprei o pó, tirei a mercadoria da caixa e comecei a folhear com cuidado. Era o Vocabulário da Língua Geral Portuguez-Nheengatú e Nheengatú-Portuguez, 768 páginas, escrito por Ermano Stradelli e editado em 1929, depois de sua morte, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. A edição foi feita com material vagabundo, em papel jornal, mas se trata de raridade bibliográfica, que contém um tesouro, dificilmente encontrado nos sebos.
Disfarcei a emoção desdenhando:
– É. Ainda bem que tenho todo ele fotocopiado.
Mentira. Ele sabia que não era possível fotocopiar sem esfarinhar o livro. Ele sabia que eu ia comprar, eu sabia que ele sabia que eu sabia. O que se seguiu foi jogo de dissimulação, fingimento, embromação, rasteiras, camuflagem. No final, aconteceu o previsível: apesar de muito choro, mordi a isca do Pindá, comprei pelo preço que ele pediu, afinal o dicionário era inacessível, pois nunca havia sido reeditado.

Destino do Pindá

"Vocabulario-Portugues-Nheengatu", de Ermano StradelliAgora foi. A Editora Ateliê, de Cotia (SP), acaba de reeditar, em 2014, o dicionário de Stradelli, com revisão de Geraldo Gerson de Souza, orelha escrita por José de Souza Martins (USP) e apresentação de Gordon Brotherston e Lúcia Sá (Universidade de Manchester) que chamam atenção para os usos que pode ter:
– É possível utilizar o Vocabulário de Stradelli como um dicionário qualquer, procurando termos específicos, concordando ou discordando das definições do autor, estudando a morfologia e a fonética da língua. Isso não impede, todavia, que leitores interessados na Amazônia e sua história percorram as páginas desse impressionante trabalho na tentativa de ampliar seus conhecimentos sobre fauna, flora, medicina, pesca, caça, agricultura, astronomia, história, política, rituais e costumes, além de literatura e folclore indígena caboclo – tudo isso a partir do nheengatu.
Relembrar a história do Pindá foi a forma que encontrei para anunciar aqui o lançamento de obra tão importante para a Amazônia e para o Brasil. Concluo com três notas: uma pequena crítica sem qualquer demérito para a obra, uma informação sobre o destino de Pindá e uma notícia sobre o nheengatu, que está sendo cada vez mais falado, escrito e até cantado.
A crítica: a bibliografia citada nesta reedição foi atualizada com outros trabalhos, mas não há qualquer menção a muitos autores que pesquisaram o tema, entre os quais Aryon Rodrigues, referência obrigatória quando se trata de línguas tupi, nem qualquer indicação sobre a única história que se tem até hoje do nheengatu – Rio Babel, a história da línguas da Amazônia (Eduerj 2004 1ª edição e 2011 2ª edição) de autoria de um cliente chorão e meio cabotino do Pindá, o fornecedor de livros do professor Gilberto e de toda a Uerj.
O destino de Pindá: foi preso não por vender obras raras por preços exorbitantes, com estratégia de comercialização dos vendedores de droga, que atraem a presa, seduzem e manipulam a dependência. Foi preso por não pagar pensão alimentícia. Sumiu do mapa, levando com ele as fichas dos professores da UERJ que mantinha mais atualizadas do que aquelas que figuram na Plataforma Lattes.
A notícia: no facebook tem um grupo Nheengatu on line, com quase cem membros, onde diariamente se escreve e se troca informações nesta língua. Foi lá que os usuários tomaram conhecimento do dicionário de Stradelli, lançado no momento em que a banda dos Titãs apresenta Nheengatu, seu novo álbum com capa reproduzindo pintura do século XVI – Torre de Babel – de Pieter Bruegel.
No entanto, é uma pena que na divulgação do novo CD se reproduza um erro histórico com a afirmação de que o nheengatu é uma “língua artificial criada pelos jesuítas no Brasil”. Nem é artificial, nem foi criada pelos jesuítas, cuja contribuição consistiu em dotar com  ortografia uma língua que já existia – e que foi se modificando com o uso como qualquer língua – possibilitando sua divulgação escrita na catequese e sua expansão pelos rios da Amazônia. De qualquer forma, o esforço dos Titãs por recuperar as raízes históricas do Brasil confirma que o Nheengatu falado, escrito ou cantado até na França ainda pode dar o maior barato, como queria o saudoso Pindá.

Entrevista com Waldecy Tenório que lançou Escritores, Gatos e Teologia

Ateliê Editorial | Assessoria de Imprensa

"Escritores, Gatos e Teologia", de Waldecy TenórioNo último dia 7 de maio, o professor, escritor e jornalista Waldecy Tenório lançou seu novo livro Escritores, Gatos e Teologia.  Nesta obra o autor continua com o tema já abordado em seu primeiro livro pela Ateliê – A Bailadora Andaluza –, que é aproximar Literatura e Teologia.

O lançamento foi na Livraria da Vila da rua Fradique Coutinho e teve a participação de muitos amigos e colegas. Durante o evento, Luciana Frateschi leu trechos da obra, e Luciana Celo cantou poemas musicados de Drummond, Cecília Meireles, Adélia Prado e outros, acompanhada pelo violão de Raphael Gemal.

Segue entrevista com o autor.

Ateliê – Em seu outro livro, A Bailadora Andaluza (Ateliê, 1996), já aparece a ideia do Sagrado e a relação entre Teologia e Literatura. Naquele caso, sua tese é demonstrada pela poesia de João Cabral de Melo Neto. Em Escritores, Gatos e Teologia sua tese é ampliada para outros autores. Como se deu aquela, e esta investigação? Deu trabalho aproximar literatura e teologia?

Waldecy Tenório – Você observou bem: a ideia do Sagrado e a relação entre literatura e teologia são temas centrais nesses dois livros, temas quase obsessivos que aparecem também em outros escritos meus. A experiência de ver esses temas na poesia de João Cabral foi uma verdadeira educação pela pedra. Diziam: João Cabral é ateu, não tem transcendência, não tem alma e tal… Ele mesmo alimentava isso e isso, por sua vez, alimentava minha pesquisa. Diziam: João Cabral é ateu.  Sim, e daí?  Deus também tem seu momento de ateísmo como nos lembra Chesterton. Mas ainda que João Cabral fosse simplistamente ateu, e não era. Uma coisa é o João Cabral empírico, outra coisa é a sua poesia. E essa poesia, como resumi-la?  Como a procura do “fino instante exato” em que o peixe (símbolo de Cristo ou da transcendência?) se pesque. O ponto de apoio era então a poesia de João Cabral. Já em Escritores, Gatos e Teologia  a pesquisa se abre para outros autores, quase todos também ateus, como esse extraordinário ateu que é Samuel Beckett, o tempo todo esperando Godot. Aqui entramos em contato com muitos autores e personagens como Virgílio e Dante, Dostoiévski e o Grande Inquisidor, Madame Bovary e Thèrese de Lisieux, Proust e Manuel Bandeira, Joyce e Santo Agostinho, Adélia Prado e Hilda Hilst, Riobaldo e o interlocutor cruel que o atormenta, Teilhard de Chardin e Saint-Exupéry, Drummond e Guimarães Rosa, os vagabundos de Beckett e aquela mulher de Sevilha dos poemas de João Cabral. E todos eles, ateus ou não, com suas perguntas pelo sentido nos encaminham para a teologia. O problema nisso tudo foi mesmo o computador,  que muitas vezes apagava o que eu escrevia, como uma atualização da ideia do inferno. Mas como quem pesquisa está sempre procurando a si mesmo, até o computador se tira de letra.

Ateliê – Fale um pouco de sua experiência como professor de literatura, lecionando introdução ao pensamento teológico.

Waldecy Tenório – Como no poema Morte e Vida Severina, eu procurava corromper com sangue novo a anemia religiosa que infectava muitos dos alunos. Às vezes dava certo, às vezes não. Era preciso cumprir programas e aquilo tomava muito tempo. Caia-se numa rotina desesperante e infelizmente era quase isso que se esperava. Eppur si mouve… Ainda bem, e quando se movia e dava certo, quando a bailadora ouvia a voz que lhe falava do fundo do tablado ou de sua própria vida, era sempre um deslumbramento. Um sorriso abria-se na face de cada um. Nós nos sentíamos conectados a uma internet diferente, e tome Drummond e Guimarães Rosa, João Cabral e Manuel Bandeira, poetas e escritores misturados com teólogos. Por um momento esquecíamos a vida que passa na televisão e ela se abria para outros sóis e outras verdades, a literatura mostrava a raiz teológica dos problemas humanos, e tudo era dádiva, e respirávamos outros ares e o mundo era uma diafania.

Ateliê – Como jornalista, o senhor foi colaborador de algumas revistas da Abril; editor do jornal O São Paulo, da arquidiocese de São Paulo; trabalhou em diversas editorias de O Estado de S. Paulo e encerrou sua carreira como um dos editores do suplemento “Cultura” deste jornal. Como o senhor vê a crítica literária feita atualmente pela imprensa brasileira?

Waldecy Tenório – Quase não vejo. E não digo isso como reparo aos poucos que ainda se ocupam de livros nas colunas dos jornais. Digo isso como um lamento por quase não termos mais espaço para isso, quase todo destinado aos assuntos que mais atraem os leitores. O “Cultura”, sucessor do famoso “Suplemento Literário” , abria-se para a crítica brasileira e estrangeira, era um espaço de debate de grandes temas. Não vejo hoje muito espaço nos jornais para isso. Mas se abrirem esse espaço…

Ateliê – O senhor assessorou o educador Paulo Freire na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Como foi aquela experiência? Foi possível colocar em prática na rede municipal de ensino ideias pedagógicas tão reprimidas durante a ditadura militar?

Waldecy Tenório – Como um dos assessores, eu tinha uma função discreta que me agradava muito. Paulo Freire me encarregava de ler determinados livros e, em algumas tardes, fazíamos uma espécie de seminário particular sobre os temas que eles abordavam. Isso nos aproximou e ele me deu um livro com a dedicatória: “Como se fôssemos velhos amigos”. O fato é que esses “seminários” alimentavam os debates que fermentavam a vida intelectual dos professores da rede. E claro que sempre surgiam resistências…

Acesse o livro na loja virtual da Ateliê

Leia o release

Veja abaixo algumas fotos do lançamento.

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João Luiz Marques entrevista o poeta Felipe Lion

Felipe Lion em show do Merlim

Felipe Lion (ao centro) em show do Merlim com participação de Kiko Zambianchi – Na Mata Café (SP) – Foto de Rogério de Lucca

Felipe Lion acabou de lançar pela Ateliê Editorial seu livro de poemas A Arte da Automutilação. Carioca, apaixonado por São Paulo, Lion é poeta, escritor, vocalista, além de autor das letras da banda Merlim, e ex-bailarino clássico. Nesta entrevista, o artista multidisciplinar fala de arte, de seu trabalho, dos livros de poesia e prosa que está preparando, do novo CD da banda e de um disco solo, e explica como consegue fazer tantas coisas ao mesmo tempo: “Tudo isso é um movimento, é um momento. Sou eu me movendo em minha vida, em minha música, em minha arte.”

Ateliê Editorial – Heitor Ferraz Mello na apresentação que faz de A Arte da Automutilação diz que em sua poesia há sempre o “jogo entre a dissolução e a reunião”. Transportando essa característica para as suas diversas atividades criativas, como você lida com essa sua pluralidade artística?

Felipe Lion – Primeiramente, devo dizer que o Heitor foi muito generoso comigo. Generoso ao fazer um prefácio pessoal, mas, ao mesmo tempo, muito analítico. Ele percebeu uma ligação entre os vários poemas do livro que é o tema da desagregação paulatina de tudo, inclusive do poeta. Hoje parece óbvio que isso é algo recorrente nesses poemas, mas eu juro não havia notado…  Sobre o meu trabalho e a maneira como uso diversas técnicas… Bom, eu não colocaria isso como uma “pluralidade”. Para mim, tudo está ligado, tudo está conectado. Desde o Renascimento tudo pode e deve se misturar, pois na essência é uma coisa só: arte.

Ateliê – Em outra parte dessa mesma apresentação, Heitor Ferraz Mello conta lembranças da adolescência que vocês viveram no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, e diz que, elas poderiam fazer parte de outro livro seu. Você já pensou nessa “provocação” do seu amigo?

Lion – Penso sim.  Na verdade já faço isso. Em pequenas doses. Dentro de um poema, de um trecho de romance ou conto. Essas lembranças para mim são coisas muito distantes, meio mágicas. Mas eu tento dialogar com esse moleque de vez em quando. Saber o que ele espera de mim. Ele é citado diretamente em pelo menos um dos poemas do livro, Kung Fu Ballantines.

Ateliê – A Arte da Automutilação reúne poemas finalizados entre 2008 e 2012. Você tem mais trabalhos na gaveta para outro livro de poesia? Pretende publicar?

Lion – Engraçado me perguntar isso. Acabo de ser convidado para uma coletânea de poemas e, a grande questão, é se terei material para colaborar. Explico melhor: tenho muitos poemas antigos que não sinto vontade de publicar – ao menos agora – e tenho outro material, mais recente, que faz parte de um próximo livro de poemas (erótico) e ainda está sendo trabalhado. Trabalho como um pintor de paredes que passa várias mãos de tinta numa parede, até ficar satisfeito com o resultado… Isso demora.

Ateliê – E em prosa, você tem projeto novo? Está preparando algum livro?

Lion – Sim, preparo dois livros. O primeiro é um ensaio filosófico, O Estado e a Morte – reflexões sobre o direito de matar e morrer. E há, ainda, um outro livro que conta os últimos dias do nosso Segundo Império, num misto de romance histórico com realismo mágico. Pretendo lançar o ensaio no começo do próximo ano. O romance, leva algum tempinho mais, pois está em fase de pesquisa. Apesar de já ter escrito alguns trechos e de possuir toda a estrutura ficcional montada preciso de mais tempo para a pesquisa de campo. Os detalhes são muito importantes nesse tipo de obra.

Ateliê – Você tem alguma novidade pra contar da banda Merlim? CD novo, Show? Pode adiantar algum detalhe sobre novos trabalhos?

Lion – O Merlim começa a gravar um novo álbum ainda este mês. Será um processo longo e doloroso… Esperava conseguir viabilizar a assinatura do Luiz Carlos Maluly para esse projeto. Já há algum tempo ele é o melhor produtor de discos do Brasil. Todo mundo na indústria fonográfica sabe disso. Mas não conseguimos fechar com um investidor. Pensei em esperar um pouco mais para tentar acertar isso, mas meus colegas de banda me convenceram que já não podemos mais esperar… É como num parto: talvez dê para esperar pelo 10º mês, mas pedir para esperar mais do que isso pode causar mais danos que benefícios.

O Merlim é uma banda que trabalha exclusivamente porque acredita na qualidade de sua música. Não importa que tenham destruído o mercado do rock no Brasil. Não somos mais crianças. Não fazemos mais música pensando em dinheiro, mulheres e fama. Não me entenda mal… Adoramos tudo isso! Mas fazemos música porque nos divertimos muito compondo, convivendo, fazendo shows.

Já vi critico musical nos colocando no pedestal dos injustiçados! Dizendo que somos melhores do que “99% do que se ouve por ai”. Admito que até concorde com isso, mas não tenho ânimo pra vestir esse manto. Posso dizer que “apertamos o botão f…-se”!

Quanto a shows, creio que agora só no segundo semestre. Só quando acabarmos o disco. De toda a forma, quem tiver vontade pode conhecer um pouco do Merlim em seu site: www.merlim.com. O site permite cadastramento para receber a agenda de shows da banda e outras promoções, como descontos, CDs promocionais, etc.

Temos um álbum, “A Tempestade”, à venda, por download, em diversas lojas virtuais: iTunes, Amazon, etc. É só fazer a busca pelo nome da banda que você achará a página da banda e poderá baixar todo o álbum ou suas músicas preferidas.

Ateliê – Você vai lançar um disco solo, sem o Merlim? Vai partir para carreira solo? Como será esse seu novo trabalho?

Lion – Novamente, não vejo nenhuma distinção nisso… solo… Merlim… outra banda… Tudo isso é um movimento, é um momento. Sou eu me movendo em minha vida, em minha música, em minha arte. No Merlim não temos nenhum problema com isso. Até gostamos de ver os outros no palco sem a gente ao lado, só pra variar um pouco! Outro dia fui ver os dois guitarristas do Merlim – Kike Damaceno e Guto Domingues – tocando num pub. Pois bem, de repente percebi que eles também estavam cantando! E bem! Mas cantando mesmo! Músicas inteiras! No Merlim eles nunca cantam. Nunca querem cantar… no máximo fazer backing vocal. Mas eles estavam mandando ver, cheios de estilo… Foi muito divertido! Já fui ver o batera da banda, Júnior Gaspari, em outros projetos também.

Então vou lançar, sim, um disco solo que, aliás, também começa a ser gravado este mês. A produção está a cargo de um outro grande produtor, o Alexandre Fontanetti. Disco de Ouro com o álbum Bossa’n’Roll da Rita Lee. Ele é um cara que trabalha muito bem com cantores e foi atrás disso que eu fui quando bati em sua porta.

Esse vai ser um trabalho mais intimista, meio jazz, meio bossa. Não esperem, porém, uma emulação de João Gilberto. Quero levar a minha forma de falar as coisas para esse estilo. O álbum deve ficar pronto só no segundo semestre, mas em breve devo lançar o primeiro single, uma música chamada Bossa dos Jardins que é uma declaração de amor por São Paulo, feita por um carioca que, realmente, adora essa cidade.

Acesse o livro A Arte da Automutilação na loja virtual da Ateliê

Veja as fotos de Bruna Goldberger do lançamento de A Arte da Automutilação, em São Paulo:

A advogada Tais Salome com o pintor Tom Gomide

A advogada Tais Salome com o pintor Tom Gomide. Ao fundo uma de suas telas.

A atriz Giovanna Assumpção, declamando um poema

A atriz Giovanna Assumpção, declamando um poema

A jornalista Giovanna Scrimini, com Felipe Lion, o empresário Gabriel Scrimini e a RP Alessandra Vilhena

A jornalista Giovanna Scrimini, com Felipe Lion, o empresário Gabriel Scrimini e a RP Alessandra Vilhena

Casal de empresários Moscofian, donos da marca de  Parresh, com a apresentadora de TV  Laura Wie e os  fotógrafos Rogério de Lucca e Morgade

Casal de empresários Moscofian, donos da marca de Parresh, com a apresentadora de TV Laura Wie e os fotógrafos Rogério de Lucca e Morgade

Felipe Lion com o produtor musical Luiz Carlos Maluly

Felipe Lion com o produtor musical Luiz Carlos Maluly

 

Lançamento de A Arte da Automutilação

O artista plástico Thiago Cóstackz – autor da body art que se vê na capa do livro – com a apresentadora de TV Laura Wie e o autor Felipe Lion

O editor Plinio Martins declama um dos poemas do Livro

O editor Plinio Martins declama um dos poemas do Livro

Lançamento de A Arte da Automutilação

O publicitário baiano Joca Guanaes, entre a apresentadora de TV Laura Wie e a atriz e locutora Jackie Dalabona

 

TV Cultura entrevista Beatriz Amaral e Augusto de Campos

Beatriz Amaral lançou recentemente A Transmutação Metalinguística na Poética de Edgard Braga

Para Augusto de Campos, “Beatriz Amaral soube mapear com acuidade o percurso especulativo de Edgard Braga, cuja obra, especialmente a mais radical, fulcrada no desenho e na caligrafia, veio a influenciar toda uma nova geração de poetas como Walter Silveira, Tadeu Jungle e Arnaldo Antunes.” Leia o release

Assista abaixo a entrevista do programa Metrópolis. Se o vídeo não carregar, clique aqui.

Nossos tesouros barrocos

Livro de renomado arquiteto faz viagem pelo patrimônio do barroco do Brasil do período colonial, incluindo as riquezas da cidade de Goiás, Pirenópolis, Pilar de Goiás e Jaraguá

Rogério Borges | O Popular | 20.02.2013

Esplendor do Barroco Luso-brasileiroJanelas feitas com malacacheta, um tipo de mineral transparente que substitui, com eficiência, os vidros. Adornos de madeira ricamente esculpidos que embelezam e dão uma marca muito particular a portais, altares, oratórios, móveis. Casas e edifícios feitos de taipa e adobe que resistem ao tempo e testemunham a história. O livro O Esplendor do Barroco Luso-Brasileiro, lançado recentemente pelo arquiteto e professor da USP Benedito Lima de Toledo, é uma viagem por soluções e características de um período em que a riqueza do ouro levou influências europeias na arte e na arquitetura para o interior mais profundo do Brasil.

As jazidas de Minas Gerais e Goiás, descobertas e exploradas pelos bandeirantes paulistas, fundaram povoamentos, núcleos urbanos que, na atualidade, transformaram-se em sítios e monumentos de inestimável valor.

A obra fala de joias da arquitetura e da arte colonial e barroca do País, como Ouro Preto e suas suntuosas igrejas, o legado de Aleijadinho, as construções de Olinda, o rococó mineiro, a contribuição das ordens religiosas, como os beneditinos e os franciscanos, os tesouros artísticos de Salvador e os diálogos com Portugal. Entre os locais abordados pelo trabalho, há um capítulo que disserta sobre a arquitetura e a arte da mineração em Goiás, com destaque par a as igrejas e os casarios da cidade de Goiás, Pilar de Goiás, Pirenópolis e Jaraguá.

Em entrevista ao POPUL AR, o autor do livro exalta o patrimônio goiano que ficou daquela época, sobretudo os templos da antiga Vila Boa e o arraial preservado que existe nos prédios antigos de Pilar. Para Benedito Lima, as cidades goianas têm um tesouro antropológico único em sua arquitetura que merece atenção.

Esplendor do Barroco Luso-brasileiro

“PILAR DE GOIÁS É UM FATO DE PRIMEIRA IMPORTÂNCIA”

Em seu mais recente livro, o senhor aborda algumas cidades e construções do barroco, incluindo localidades goianas. De onde vem esse interesse pelo barroco, qual é o legado por ele deixado na época das bandeiras, do ciclo do ouro?

O barroco, em Portugal, foi um movimento de muito relevo e vieram para o Brasil naquela época profissionais de muita qualidade. O barroco tornou-se quase uma arte nacional, uma expressão do Brasil que surgiu no pós-Renascimento. Ele teve grande aceitação porque é uma arte emotiva, que tem grande poder de comunicação. Esses locais de Goiás, que têm uma paisagem belíssima, não podem ficar de fora. Minas Gerais também teve um surto muito importante do barroco e essa comunidade luso-brasileira produziu com muita força, muita vivacidade, uma arte de expressão muito emocional. Portugal era pequeno em extensão territorial, mas tinha um grande império colonial. Afluíram, então, para Portugal, influências do mundo inteiro. Eles passaram essas influências, principalmente para sua principal colônia, o Brasil.

O que há em Minas, Goiás é a expressão desse elemento que Portugal atingiu naquele momento.

Nas descrições que o senhor faz de cidades com construções do barroco em Goiás, há o uso recorrente do adjetivo “singelo”. O patrimônio barroco de Minas Gerais, por exemplo, é mais complexo. Quais são as explicações para essa diferença?

Em Minas Gerais, o descobrimento de ouro levou muita gente de São Paulo e de todo o mundo colonial para a região. Acontece que a arquitetura paulista, de todas, era a mais despojada, com suas casas de pilão. Nós tínhamos cidades inteiras em São Paulo feitas de casas de pilão. Um viajante chegou a dizer que várias cidades paulistas eram feitas de barro. Nós temos aqui o Museu de Arte Sacra que é um remanescente dessa realidade. Essa austeridade, São Paulo levou para outras regiões. Acontece que na região de Ouro Preto, antiga Vila Rica, veio gente diretamente de Portugal a começar pelo pai de Aleijadinho. Essa concentração de riqueza em Minas fez com que houvesse a riqueza correspondente no barroco local.

O senhor chama a atenção para o que encontrou em Pilar de Goiás. O senhor escreve em seu livro que a cidade histórica goiana é um “arraial preservado” em pleno século 21. Qual é a importância de termos um sítio conservado neste nível?

Do ponto de vista antropológico, Pilar de Goiás é um fato de primeira importância. Assim como uma área envoltória aqui em São Paulo, com uma capela muito singela, que é a de São Miguel Paulista, de 1622, esse aldeamento tem, do ponto de vista antropológico, um valor insubstituível. Foi a forma com que a urbanização começou a se desenvolver. Pelos jesuítas, que eram muito metódicos, como nós sabemos, e também por outras ordens religiosas, como os franciscanos, por exemplo. Isso tem, portanto, uma importância muito grande.

O senhor se surpreendeu com o que encontrou aqui em Goiás em suas pesquisas?

Nós tivemos alunos de Goiás aqui na Faculdade de Arquitetura da USP e eles sempre trouxeram dados novos, surpreendentes. Eu viajei aí para Goiás e gosto muito. Independente disso, os alunos que viajam para Goiás sempre trazem informações novas. E é isso o que a gente deseja. Aliás, em todos esses conventos de cidades antigas, há arquivos e esses arquivos contêm informações preciosas sobre os artistas daquela época. Hoje o artista é muito badalado, sai nas colunas de jornais. Na época colonial, não. Nós sabemos de muitos artistas apenas pelos registros das irmandades. Goiás fica devendo essa pesquisa em todos os acervos dessas irmandades.

E essas informações são recuperáveis?

Ah, sim. O acervo é composto, geralmente, por atas que as irmandades são obrigadas a fazer, contratos que firmam com os artistas e que têm de justificar perante os irmãos. Tudo fica lá registrado, às vezes de forma muito singela, mas o nome está lá. E quando se recupera o nome de um desses artistas, isso é para a arquitetura uma festa.

O nível de conservação das construções coloniais que o senhor encontrou aqui em Goiás deixou-o satisfeito ou preocupado?

Na verdade, nós temos um problema nacional. O patrimônio histórico não é prioridade de muitos governos. A conscientização da população é fundamental. A luta é da cultura brasileira, de todos nós. Nunca o pessoal entende que dá prestígio conservar um monumento. Geralmente, e aqui em São Paulo acontece muito, é mais importante fazer um viaduto, um túnel em sua gestão do que preservar o patrimônio. O viaduto dá espaço e o político gosta disso.

Nessa pesquisa pelas cidades coloniais brasileiras, o senhor também estudou o urbanismo desses centros. Há lições ou exemplos que podemos tirar desses núcleos que serviriam para as cidades atuais?

A primeira característica, importantíssima, é a afeição que a população tem pelas cidades. Quando os edifícios de referência — geralmente os das irmandades, da Câmara e Cadeia – ganham a afeição da população, isso é mais importante do que qualquer valor outro. Porque é a própria cultura da população. Isso, em Goiás, eu senti em diversos lugares. Neles, a população gosta desse patrimônio e temos que fazer uma frente única para fazer com que os governos entendam esses anseios do povo.

Perfil

Benedito Lima de Toledo é um dos nomes de maior prestígio da arquitetura brasileira. Livre-docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, sempre ampliou sua área de atuação para a arte e o patrimônio histórico em produções acadêmcias. Autor de 12 livros – em vários deles recupera histórias que pareciam perdidas, sobretudo de recantos menos conhecidos de São Paulo –, Benedito é membro da Academia Paulista de Letras e já ganhou a medalha Rodrigo de Melo Franco de Andrade, nas comemorações dos 50 anos do Iphan, e o Prêmio Vaz de Caminha, do governo de Portugal.

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Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci

Leonardo da Vinci

Antonio Gonçalves Filho | O Estado de S. Paulo | 4.3.2013

O físico vienense Fritjof Capra, conhecido pelo best-seller Ponto de Mutação, admite que não poderia ter avaliado os trabalhos científicos do gênio renascentista Leonardo Da Vinci (1452- 1519) sem a ajuda de colegas especializados em outras disciplinas. Ele faz a revelação logo no começo de seu livro A Alma de Leonardo Da Vinci, que a editora Cultrix colocou no mercado quase que simultaneamente ao lançamento de Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, coedição luxuosa da Ateliê Editorial e a Editora Unicamp que reproduz 215 gravuras anatômicas do pintor. Capra fala também desses desenhos em seu livro. É possível, portanto, entender a razão de ter recorrido a colegas para empreender uma análise do pensamento científico de Da Vinci, definido por ele em entrevista exclusiva ao Estado, como a “síntese perfeita entre arte, ciência e tecnologia”.

A herança cultural deixada por Da Vinci é especialmente valiosa para nosso tempo, diz Capra, por ter sido o pintor um pesquisador sistêmico, “um observador da natureza que não teve influência direta sobre os cientistas que vieram logo depois dele – por não ter publicado suas descobertas -, mas que é fundamental para o século 21, quando problemas globais tendem a ser analisados segundo uma perspectiva interdisciplinar”.

A essência de sua “alma”, segundo Capra, é justamente “a conjunção de sua curiosidade intelectual com engenho experimental”. E coragem, faltou acrescentar. O livro Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, por exemplo, traz 1200 desenhos que não seriam possíveis sem que desafiasse a bula papal, partindo para a dissecção de cadáveres, punida em sua época com a excomunhão. Se Da Vinci vivesse hoje, arrisca Capra, ele seria um cientista holístico, lutando pela sustentabilidade. “É difícil afirmar categoricamente que Leonardo teria seguido esse caminho quando se trata de um gênio de personalidade complexa, mas tudo indica que sim.” Só um artista que definiu a pintura como fruto da observação da natureza e estudou a correlação dos padrões botânicos e animais, de acordo com Capra, podia dizer que “entender um fenômeno é associá-lo a outros fenômenos”. Séculos antes das especulações futuristas do filme Matrix, Da Vinci já levava em conta a similaridade de padrões nos mundos animal e vegetal.

Curiosamente, para um homem tão sábio, segundo Capra, não se encontra nos cadernos de anotações de Da Vinci uma só linha sobre suas emoções. Ele analisou esses caóticos cadernos de notas, tentando seguir o método empírico do artista – basicamente apoiado na observação dos fenômenos naturais -, mas não descobriu em nenhuma das 6 mil páginas, dispersas entre bibliotecas e museus, uma mísera referência à vida privada de Da Vinci. “Há só uma nota em que ele registra a morte do pai, ainda assim de passagem.”

Os estudos sistêmicos de Da Vinci são fundamentalmente diferentes da ciência mecanicista de Galileu (1564-1642) e Newton (1643-1727). Nem tudo se explica pelas leis da mecânica. Essas são ideias do século 17 que Leonardo não aprovaria se tivesse nascido nele. Capra apresenta a ciência das formas orgânicas de Da Vinci como “radicalmente diversa” de seus seguidores. “Como cientista, ele coloca a vida no centro de tudo, mostrando que os fenômenos naturais são interdependentes e interligados.” Esta, observa Capra, é com certeza uma boa lição para a ciência atual. “Ele foi o primeiro anatomista moderno, um ecofilósofo e ecocientista que não viu o corpo humano apenas como uma máquina.”

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci

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O CORPO SEGUNDO O GÊNIO

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da VinciInéditos no Brasil, Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci, organizados por Charles D. O’Malley e John Bertrand de C.M. Saunders, reúnem 1200 desenhos anatômicos realizados por Da Vinci entre 1498 e 1513, dispostos em ordem cronológica e organizados em nove áreas de estudos, da anatomia comparada à embriologia. Traduzidos pela dupla Pedro Carlos Piantino Lemos e Maria Cristina Vilhena Carnevale, esses cadernos, aparentemente destinados a estudantes de Medicina, constituem mais que esboços dos sistemas anatomofuncionais. São obras artísticas de um gênio renascentista que viu no corpo mais que um instrumento para servir de modelo a pintores e escultores.

No tempo de Leonardo, os estudos anatômicos não tinham avançado muito em relação às pesquisas medievais baseadas na dissecação de animais, que, aliás, eram proibidas nos séculos 13 e 14 — primeiro por causa da influência da interdição árabe e, posteriormente, proibida pela bula papal. Por ter sido aluno de pintura de Verrocchio (1435-1488), Da Vinci dividia com o mestre o mesmo interesse científico – embora o instrutor não pintasse muitos nus e tivesse menos conhecimento de anatomia do que seria desejável para orientar um gênio.

Leonardo começou por observar e desenhar corpos de enforcados ainda em Florença. Ao se fixar em Milão, num esforço de esculpir uma estátua equestre de Francesco Sforza, dissecou um cavalo e fez belos desenhos.

Os Cadernos Anatômicos de Leonardo da Vinci

O desenho anatômico mais antigo que se conhece de Leonardo é de 1487. O crânio visto acima é de 1489. Ele fornece ao observador informações sobre a oclusão dentária e anotações que remetem aos estudos de Avicena e Galeno. Os exemplares mais impressionantes dessa bela coleção de gravuras pertencem à série anatômica do “homem centenário” que ele dissecou em Florença, em que mostra a degeneração dos vasos sanguíneos dos idosos. Em outras palavras: a arteriosclerose.

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Entrevista com Antônio Suárez Abreu, professor de linguística e língua portuguesa na UNESP

Antônio Suárez AbreuPortal IG

1- Consegui ler a introdução do seu livro e vi que o senhor defende a tese que argumentar não é vencer o outro. Poderia me explicar melhor?

Geralmente, as pessoas leigas têm a falsa ideia de que argumentar é vencer o outro, pondo por terra suas ideias e opiniões.  Em termos retóricos, argumentar é fazer com que o outro tenha condições de ver o objeto da disputa de um ponto de vista diferente daquele a que está acostumado a ver e, ao final, tenha o desejo mudá-lo, concordando com quem argumenta.  Isso envolve, muitas vezes, mudanças de modelos mentais.

2- Quais os principais erros na hora de argumentar?

O principal erro é considerar o outro como um inimigo a ser vencido.  Um outro, muito comum, é abusar da técnica argumentativa chamada retorsão.   (com s mesmo, pois vem de torso).  Na retorsão, quem argumenta tenta mostrar que a pessoa com quem se argumenta pratica ações contrárias às que defende.  É o caso de alguém que, acusado de chegar atrasado, diz algo como: — Mas, você, no mês passado, também chegou três vezes atrasado.  Esse argumento é o mais usado nas chamadas DR (discussões de relação) e é por isso que um casal raramente chega a um consenso.  Geralmente, o homem foge dessas discussões como o diabo da cruz.

3- Teria algumas dicas práticas para dar para quem quer melhorar a argumentação? Quais?

Em primeiro lugar, é importante tratar o outro com educação e gentileza.  Sem isso, nada funciona.  Há um provérbio espanhol que diz: “Por bién, me llevas hasta el infierno; por mal, ni al cielo”.  Em segundo lugar, é importante aprender a ouvir mais e falar menos.  Isso permite saber quais são os valores do outro, principalmente, quais são seus modelos mentais.  Ninguém consegue convencer o outro batendo de frente com seus valores ou modelos mentais.  É sempre importante, antes de propor um argumento, conseguir abrir uma brecha nesses modelos.  No meu livro, trabalho essa ideia quando falo da re-hierquização de valores.  Você não destrói um valor do outro; apenas põe um outro acima, em termos de hierarquia.   É uma espécie de drible.  Um exemplo disso é o que fez Monteiro Lobato em seus livros infantis.  Em sua época, por volta de 1920, o “Modelo do pai rigoroso” imperava e era impossível fugir da sua força.  As crianças deviam estudar, competir, vencer e, se falhassem, deviam ser punidas.  O que fez Lobato para introduzir seu modelo de “escolanovismo” baseado em Anísio Teixeira e John Dewey?  Pôs as crianças em férias, no Sítio do Picapau Amarelo, em um lugar em que a figura do pai ficava ausente e era substituída por uma avó carinhosa, Dona Benta, que podia ensinar sem punir, contando histórias saborosas a Pedrinho e Narizinho.

4- É possível que mesmo uma pessoa extremamente tímida consiga ter uma boa argumentação? Como vencer esta barreira?

Claro que sim!  Ela deve começar fazendo com que o outro fale primeiro e exponha seus pensamentos.  Durante essa fala, ela deve prestar atenção aos valores dessa pessoa.  Se se tratar de uma negociação, ela deve pôr foco, antes de tudo, naquilo que o outro tem a ganhar e não naquilo que é o objeto imediato do seu desejo.  Isso permite uma progressão amigável da fala e é, nesse momento, que cresce a confiança, derrubando a timidez.

5- Existem palavras/técnicas que podem ajudar na argumentação? Quais?

Sim: “por favor”, “por gentileza”, “obrigado por expor tão claramente aquilo que pensa”, “como posso ajudá-lo?”. É preciso trabalhar o tempo todo de maneira cortês e sinceramente comprometida com a imagem do outro.

6- Breve currículo

Sou, atualmente, professor titular de linguística e língua portuguesa na UNESP, campus de Araraquara.  Trabalho na área de Gramática e Retórica.

Sou formado em Letras Neolatinas pela PUC – Campinas.  Tenho especialização em Língua e Literatura Portuguesa pela Universidade Clássica de Lisboa; mestrado, doutorado e livre-docência em Linguística pela USP, onde lecionei por quase 15 anos.  Fiz pós-doutorado em Linguística na UNICAMP, em 2008.

Livros publicados:

  1. Curso de Redação (Editora Ática).  Atualmente em 13ª edição, 10ª reimpressão.
  2. A Arte de Argumentar Gerenciando Razão e Emoção (Ed. Ateliê) Atualmente, em 13ª edição, 7ª reimpressão.
  3. Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ed. Ateliê).  Atualmente, em 3ª edição revista.
  4. O Design da Escrita: redigindo com criatividade e beleza (Ed. Ateliê) Atualmente, em 2ª edição.
  5. Linguística Cognitiva (Ed. Ateliê).
  6. Texto e gramática: uma visão funcional para a leitura e a escrita (Ed. Melhoramentos).  Atualmente, em 2ª edição.
  7. Gramática Integral da Língua Portuguesa: uma visão prática e funcional (Ed. Ateliê, no prelo)

Tenho, também, mais de 50 trabalhos publicados em revistas brasileiras e estrangeiras.  Um dos meus últimos artigos, publicado nos Estados Unidos em 2008, está, desde então, entre os 10 mais lidos em toda a comunidade acadêmica internacional.

Meus trabalhos científicos têm 345 citações, de acordo com a Web Science.  Já orientei e levei à defesa, entre PUC – Campinas, USP e UNESP, 40 mestrados e 40 doutorados.

Conheça os livros do Prof. Antônio Suárez Abreu publicados pela Ateliê

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