Entrevistas

Para entender Proust

Por: Renata de Albuquerque

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Psicanálise e Literatura têm, desde longa data, uma relação muito próxima ao ponto que o psicanalista suíço François Ansermet disse que a literatura inventou a psicanálise. Édipo de Sófocles e Hamlet de Shakespeare fundamentaram a teoria psicanalítica desde o início. A crítica literária feita com o auxílio dos conceitos vindos da psicanálise resulta, não raro, em descobertas que ajudam o leitor a entender camadas mais profundas da ficção e a compreender significados, muitas vezes “escondidos”.

Em “Os Processos de Criação em À Sombra das Raparigas em Flor – A Pulsão Invocante e a Psicologia no Espaço em Proust”, o professor aposentado da USP de formação psicanalítica, Philippe Willemart, toma como base conceitos de Jacques Lacan e Pascal Quignard, “que insistem no lugar central da pulsão invocante nestas tentativas de captar o Real no ato da escritura e da leitura” para tratar do personagem Bergotte e pensar sobre um aspecto bastante específico da obra do autor francês na primeira parte de À Sombra das Raparigas em Flor, “Em torno da sra. Swann”.

 “A riqueza da invenção proustiana consiste em contar com a dimensão temporal a sua maneira, isto é, esquecendo o fluxo cronológico do tempo. Parecido nisso com o que realiza o analisante no divã, o narrador mostra uma lógica dos acontecimentos que não depende das reminiscências no sentido platônico do termo, mas de uma memória simbólica ou lógica que, a partir de uma primeira lembrança, tenta se constituir”, explica Willemart na Introdução do estudo.  O ensaio tem como origem as aulas ministradas aos estudantes do último ano da graduação em francês na Universidade de São Paulo.

Philippe Willemart, que já publicou diversas obras, é membro fundador do Laboratório do Manuscrito Literário ligado ao Núcleo de Apoio à Pesquisa em Crítica Genética (NAPCG) da Universidade de São Paulo e foi um  dos fundadores da Associação dos Pesquisadores em Crítica Genética. Sua pesquisa tem como foco o manuscrito literário através dos manuscritos de Flaubert, de Proust e Bauchau. Ainda orienta doutorandos e pós-doutorandos, além de coordenar a equipe Proust de São Paulo e de fazer parte da equipe Proust do Institut des Textes et Manuscrits Modernes do CNRS (França). A seguir, ele fala sobre seu mais recente livro:

 

Quando começou a estudar Proust? O que o fez se interessar por ele?

Philippe Willemart: A obra de Proust consta do currículo de Letras Francesas da USP onde comecei a lecionar em 1976. Publiquei o primeiro livro Proust, poeta e psicanalista em Paris em 1996 e, no Brasil, pela Ateliê Editorial em 2000. Mas já tinha um interesse especial por Proust quando, em 1993, publiquei o artigo Les sources de l’art et de la jouissance chez Proust na revista de Universidade de Paris VIII Littérature. Como testemunham o título deste artigo e meu primeiro livro sobre a obra proustiana, Proust me parecia bem próximo das descobertas freudianas, o que suscitou meu interesse.

Philippe Willemart

Philippe Willemart

Por que a escolha por À Sombra das Raparigas em Flor e qual o motivo de um recorte tão específico,  já que o senhor analisa somente a primeira parte do primeiro capítulo da obra?

PW: A primeira parte do livro é a transcrição das aulas dada na Universidade. Tinha publicado análises do primeiro e do último volume, No caminho de Swann e o Tempo Redescoberto em Proust, Poeta e psicanalista; em seguida, do terceiro volume, O caminho de Guermantes em Educação sentimental em Proust em 2002 e enfim, do quarto volume, a Prisioneira em Tratado das sensações em “A Prisioneira” de Marcel Proust em 2008. Faltavam o segundo, o quinto e o sexto volume. O segundo foi contemplado, mas o quinto e o sexto ainda são uma promessa.   O recorte decorre do número de aulas limitado a 12 ou 13 num semestre.

 

Quais os processos de criação que Proust utilizou em À Sombra das Raparigas em Flor? O que diferencia esse volume do restante de Em Busca do Tempo Perdido em termos de composição?

PW: Há vários processos de criação que o leitor descobrirá nas análises. Citá-los tiraria a surpresa da leitura.  Mas ficou claro que insisti na pulsão invocante explorada através do personagem Bergotte, diferenciando seu pensamento, sua voz e seu estilo que reflete a estética proustiana. Ressalto a segunda parte do livro que trata especificamente da crítica genética na qual tento entender melhor os movimentos da escritura através das rodas da escritura e da leitura. A teorização da escritura literária que estou construindo aos poucos permite mergulhar o manuscrito neste virtual imaginário e torna-lo mais inteligível com a nova abordagem.

 

Qual a contribuição dos cadernos manuscritos de Proust para a composição do volume que agora o sr. lança pela Ateliê?

PW: O estudo dos cadernos proustianos são fundamentais por vários motivos. Um deles é entender como não há um romance proustiano, mas vários não publicados porque abandonados, cada rasura corta uma evolução possível e encontra outro caminho para desenvolver a narrativa. Os rascunhos permitem distinguir o essencial da narrativa. É o caso, por exemplo, da substituição de Gabriel d´Annunzio por Anatole France, que sublinha a vontade do autor de destacar não a personagem histórica, mas a fama de qualquer homem ilustro que dá impressão do sublime ao herói. A adjetivação era importante e não o substantivo personagem. Os cadernos  confirmam ou desmentem uma interpretação do crítico, mostram as hesitações do escritor que conseguem ou não se desligar dos hábitos e da tradição literária para a construção de uma personagem, lhe atribuindo qualidades que passaram em seguida, para outra. Também ajudam a entender o agenciamento dos episódios que de instáveis, aos poucos ficam estáveis e invariantes na narrativa e a constatar o afastamento progressivo da biografia do escritor no decorrer da construção do romance.

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O escritor Marcel Proust

 

É comum o uso dos manuscritos como “material de apoio” à análise da obra proustiana?

PW: O uso dos manuscritos  ainda não está generalizado, mas à medida em que os cadernos serão editados pela Editora Brepols de Turnhout (Bélgica), isto é, fotografados e transcritos, será até normal utilizá-los. Dos 75 cadernos, a Editora publicou até hoje os cadernos 26, 54, 71, 53 e 44. Mas todos são acessíveis em imagens embora não transcritos no site da Biblioteca Nacional de França no site : gallica.bnf.fr

 

Há um importante viés psicanalítico (com ênfase, salvo engano, em Lacan) na análise da obra de Proust apresentada neste livro. Quais são os aspectos psicanalíticos mais relevantes para o entendimento de À Sombra das Raparigas em Flor?

PW: Construí a roda da escritura apoiado nas pulsões descritas por Lacan, notadamente as  pulsões oral e escópica que se referem à pulsão do ouvir ou invocante. O estudo do escritor Bergotte e do pintor Elsir comprovam a relação da pulsão com a arte de escrever ou de pintar.

 

Para este ensaio, o senhor utilizou apenas o original em francês ou também alguma tradução em português? Esta pergunta se justifica pois existe mais de uma tradução em português para À Sombra das Raparigas em Flor, uma delas, inclusive, feita por Mario Quintana. Sabendo-se do viés psicanalítico que sua análise da obra possui, qual a importância de tomar uma ou outra tradução específica para poder compreender os conceitos? Ou, ainda: é fundamental tomar o texto original, em francês? Quais as implicações da escolha por uma ou outra tradução?

PW: As aulas eram dadas em francês para alunos de francês; portanto, líamos apenas a edição original. Para a edição na Ateliê, usei a nova edição da Globo dirigida por um proustiano experiente, Guilherme Ignácio da Silva, ex-orientando, agora professor na UNIFESP, que, aliás assinou a apresentação do livro.

Por outro lado, acho fundamental trabalhar com o original sempre que puder, já que as traduções, por melhores que sejam, traduzem o embate entre dois universos culturais. A sonoridade da língua proustiana encanta quem sabe ouvir, o que a tradução dificilmente torna visível.

 

Revista LIVRO é “compromisso com a qualidade e o amor ao objeto livro”

Por: Renata de Albuquerque

A LIVRO – Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição – acaba de chegar ao número cinco, ultrapassando a “barreira do quarto número”. O objetivo da publicação – pensar o livro como um objeto que carrega significados e conteúdos para além dele mesmo – cumpre-se, desta vez, com a participação de mais de duas dezenas de colaboradores renomados em diversos setores, do acadêmico ao editorial. Entre eles estão Jean-Pierre Chauvin, Mônica Gama, Iuri Pereira e Marisa Midori Deaecto, editora da publicação e com quem o Blog da Ateliê conversou a respeito:

Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins, editores da Revista LIVRO

Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins, editores da Revista LIVRO

Qual o tema central desta edição da Livro?

Marisa Midori Deaecto: Na verdade, o tema central é o livro. É o objeto de estudo privilegiado pelos editores e pelos autores para a construção da revista. O propósito da publicação é justamente o de valorizar o caráter múltiplo do livro, o que provoca, por extensão, múltiplas frentes de investigação. O que a revista traz como diferencial para cada número é o que chamamos de dossiê temático, ou seja, em todos os números convidamos autores para contribuir em algum campo em comum e reunimos estes estudos sob a forma de um dossiê. O número 5 traz artigos reunidos no Dossiê Tipografias. Com isso, nossa intenção é a de valorizar estudos sobre a arte do livro, tendo como chave a própria palavra tipografia, que se tornou, ela também, polissêmica.

Com base em que parâmetros foram escolhidos os colaboradores desta edição?

MMD: Os colaboradores se auto convidam ou são convidados. Como a revista tem uma tradição, pois manteve sua permanência e se fixou como a principal revista especializada em estudos do livro no Brasil, então é natural que sejamos procurados. Há outro aspecto: ela não se fecha para a produção acadêmica. Entendemos que o livro é objeto de admiração e de estudos por toda parte, não apenas por aqueles que atuam nas universidades. Vem daí o amplo interesse que a revista desperta.

 

PRIMEIRA CAPA REV LIVRO 5Ao iniciar o trabalho, como foi o convite feito aos colaboradores? Havia alguma preocupação com um fio condutor ou os temas abordados eram livres?

MMD: Não, uma revista se diferencia de um livro pelo fato de ser uma obra aberta. Quando começamos, não sabemos no que vai dar. A boa surpresa é que o trabalho resulta sempre em volumes alentados e muito interessantes. E volumes bem diferentes uns dos outros. Aliás, quem coleciona nossos números não encontra artigos com temas repetidos. Se considerarmos que a revista soma aproximadamente 1500 páginas, isto é um grande feito!

 

 

O editorial fala da importância da revista ter chegado à quinta edição e do apoio que receberam de vários pesquisadores. Quais são os desafios de manter uma publicação como essa e por que ela se tornou referência para se pensar sobre o papel da comunicação?

MMD: Há uma lenda que diz que as revistas independentes não sobrevivem ao quarto número. Se nos basearmos nessa premissa, o número 5 é um feito histórico. Recebemos o apoio irrestrito dos autores que confiam em nosso trabalho e na qualidade editorial da revista. Este ponto é muito importante, pois há estudiosos brasileiros que se preocupam com a pontuação que um determinado artigo poderá lhe render no ranking acadêmico. Esta preocupação não existe entre nós. Editores e autores firmam seu compromisso com a qualidade e o amor ao objeto livro. Mas revista é um artigo de venda difícil. Mais difícil do que vender livro. Primeiro porque, na cultura acadêmica, as revistas são feitas para seus pares, muitas são financiadas por programas de pós-graduação, portanto, não são vendidas, são distribuídas. Segundo, porque fora do mundo acadêmico não existe a cultura de venda e aquisição de revistas extremamente especializadas como a nossa. Terceiro, somando um e outro aspecto, porque os canais de distribuição são raros, raríssimos. No nosso caso, eles dependem da editora e dos parceiros, ou seja, da ajuda de autores, artistas e dos conselhos editorial e científico. Mas a LIVRO segue como referência nos estudos da área e, de forma mais abrangente, nos estudos sobre a comunicação, entendendo, aqui, o livro e o impresso – pois há matérias sobre a imprensa jornalística, sobre revistas etc. – como um componente poderoso da comunicação. O livro é uma media, logo, revelar seus múltiplos aspectos constitui um exercício fundamental de análise e reflexão sobre a comunicação no sentido histórico, sociológico e econômico.
O próprio editorial da edição trata do fato de que o Brasil tem mudado muito rapidamente nos últimos tempos. Quais são as mudanças que poderiam ser destacadas e de que maneira elas são abordadas nessa edição?

MMD: O editorial trata de uma crise sistêmica que começa na política, ou termina na política, mas que tem suas raízes em uma crise que, na falta de termo mais seguro, poderíamos chamar de uma crise estrutural do país.

 

A intolerância é a expressão mais trágica e eloquente deste cataclismo social que estamos vivendo.

Porém, aparentemente, nada muda nas análises sobre o livro. Elas continuam e o interesse de autores e leitores sobre a revista só aumenta. Já temos matérias para o número 6. O que mudou, talvez, foi o estado de espírito de seus editores. Mas isto certamente não tem uma influência direta na edição.

 

Como uma publicação anual pretende dar conta dessas rápidas mudanças? Como essas mudanças refletiram nesta edição da Livro? 

MMD: A revista não tem a pretensão de abraçar as mudanças em tempos reais. Ela é editada por um editor de profissão e por uma historiadora convertida em editora. Logo, há poucas chances de querermos abraçar o presente. Mais vale pensar na perenidade das palavras impressas e no potencial do livro para a preservação da memória dos homens.

 

Qual a importância do livro (e do saber) para que possamos sair deste momento de crise social, política e econômica? 

MMD: Já escrevi noutra ocasião que o livro é um instrumento de fuga e de transformação. São dois caminhos opostos e contraditórios e cabe ao leitor fazer as suas escolhas. Mas tudo está no livro, desde que bem escolhido e bem lido! O livro é um instrumento para se compreender o mundo sem pressa. No jornal estão as informações do dia a dia. No livro estão os instrumentos para se pensar além. Às vezes é preciso sublimar a realidade dura descrita nos jornais para uma compreensão mais profunda dos fatos e para a sua superação. Às vezes, no entanto, é preciso apenas sublimar a realidade que nos cerca, pois isto faz bem à alma. Também nesse caso a leitura se apresenta como uma forma de panaceia do mundo. É por isso que nossa revista investe também em uma seção literária muito incomum na cultura periódica brasileira de nossos dias. Publicamos prosa e poesia em português ou em traduções inéditas, tudo sob a curadoria e edição do Prof. José De Paula Ramos Jr., um grande especialista de Mario de Andrade, professor da USP dedicado ao ensino da ecdótica.

Produção Gráfica para Designers, de Mark Gatter, chega ao Brasil em tradução inédita

Production for Print, obra considerada referência mundial quando o assunto é produção e design, chega ao mercado editorial brasileiro

Por: Renata de Albuquerque

capa produção gráfica

Para que qualquer trabalho seja impresso em papel, há um longo caminho, que envolve diversos profissionais, a ser percorrido. Para evitar erros, não basta ter atenção e conhecer profundamente os detalhes da sua própria atividade. Muitas vezes, é preciso conhecer também o trabalho de outras etapas do processo. É o caso do trabalho dos designers gráficos, que precisam entender detalhes do trabalho das gráficas, para entregar os arquivos de maneira que não haja necessidade de retrabalho ou margem para erros na impressão.

Foi a partir de sua experiência como designer gráfico, e para ajudar os demais designers a conhecerem detalhes de outras etapas do processo em que estão envolvidos, que Mark Gatter compilou o vasto conhecimento adquirido na indústria gráfica, tanto nos EUA quanto na Inglaterra, no livro Production for Print. O livro, que se tornou uma referência mundial na área, acaba de ser traduzido para o português por Alexandre Cleaver e ganhou uma edição caprichada, com o título de Produção Gráfica para Designers. Para falar sobre a novidade, o Blog da Ateliê entrevistou o revisor técnico da obra, Thiago Cesar Teixeira Justo.

Ele é mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP, graduado em Desenho Industrial pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e técnico em pré-impressão pela escola SENAI Theobaldo De Nigris. Há mais de cinco anos, é professor no curso de graduação e pós-graduação da Faculdade SENAI de Tecnologia Gráfica, ministrando disciplinas ligadas a tecnologia de impressão digital e pré-impressão.

 

Qual a importância do lançamento deste livro em português?

Thiago Cesar Teixeira Justo: O livro ajuda o designer gráfico a dominar os principais itens referentes a produção gráfica de um trabalho impresso em offset, deste modo o designer pode ter um maior controle sobre os trabalhos que envia para a gráfica e pode ganhar muito tempo de produção, caso não disponha do serviço de um produtor gráfico. Sabendo da grande diferença entre a língua inglesa e o português e da pequena parcela da população brasileira que não dominam o inglês, a importância de traduzir este livro é a de proporcionar o acesso a este conteúdo as pessoas que não dominam o inglês, inclusive entre os universitários, já que a obra pode ser adotada em faculdades.

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Ilustração da página 32 do livro

Quais são os erros mais comuns que os designers gráficos cometem e que comprometem significativamente a qualidade da impressão?

TCTJ: Falta de sangria no documento, textos preto de corpo pequeno que contém as quatro cores de impressão, escolha de perfil de cor errado no momento de tratar uma imagem para impressão, sem esquecer a falta de trapping e overprint.

 

Qual o público-alvo de leitores desta obra? 

TCTJ: Designers gráficos, são o público principal, mas a obra pode servir para publicitários que atuam na criação de peças gráficas; marqueteiros que trabalhem com criação; artistas plásticos e fotógrafos que produzem peças para impressão; e jornalistas, diagramadores e ilustradores que pretendam dominar conhecimentos básicos de produção gráfica.

 

Por que é importante para um designer gráfico já profissional conhecer as “reais necessidades do processo de impressão”, como aponta o autor no prefácio do livro?

TCTJ: Porque assim ele já pode fazer o projeto ciente das limitações técnicas das tecnologias de impressão que serão utilizadas. Dominar as necessidades do processo de impressão também contribui para menos retrabalho e insatisfação com o resultado do produto gráfico finalizado. Isso acelera o processo à medida que não precisa da análise de um profissional de fora da área de criação, também contribui para menos retrabalho do designer, caso precise corrigir o trabalho por causa de alguma especificação técnica que possa prejudicar o resultado final do trabalho impresso.

 

De que maneira ele pode contribuir com o trabalho dos profissionais da área de design?

TCTJ: Como a maioria dos designers não possui conhecimento profundo em produção gráfica, o livro contribui para esclarecer os principais aspectos técnicos que devem ser verificados ao enviar um trabalho para ser reproduzido em tecnologia de impressão offset.

 

 

 

 

Euclides da Cunha: 150 anos de um dos primeiros grandes intérpretes da cultura brasileira

Por:  Renata de Albuquerque

Em 2016, comemoramos os 150 anos de nascimento de Euclides da Cunha. O escritor fluminense– que foi engenheiro, militar, naturalista, jornalista, geólogo, geógrafo, botânico, cartógrafo, hidrógrafo, historiador, sociólogo, e escritor – escreveu o clássico Os Sertões,  no qual retrata a Guerra de Canudos. Para falar sobre esta importante figura, o Blog da Ateliê entrevista Leopoldo M. Bernucci, professor do Departamento de Espanhol e Português da Universidade da Califórnia em Davis (EUA), para quem a leitura do autor de Os Sertões tem uma atualidade surpreendente. Bernucci é responsável por edição, prefácio, cronologia, notas e índices do livro Os Sertões – Campanha de Canudos e também pela apresentação de Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, ambos da Ateliê Editorial.

Leopoldo-BernucciQual é a sua ligação com Euclides da Cunha? Como surgiu o seu interesse nesse escritor e de que maneira aprofundou seus estudos e conhecimentos a respeito?

Leopoldo M. Bernucci: As minhas primeiras incursões, como estudioso, no universo literário de Euclides foram realizadas por volta de 1981, ano em que o romance do escritor peruano Mario Vargas Llosa, A Guerra do Fim do Mundo – que trata da Guerra de Canudos – foi publicado. Naqueles anos eu estava terminando o meu mestrado em Literatura Hispano-Americana na Universidade de Michigan, Ann Arbor, MI, U.S.A., depois de me formar na USP também em Letras. Foi um encontro fortuito e curioso, porque se não fosse talvez pelo interesse que eu já tinha pela literatura de Vargas Llosa, não teria chegado a Euclides da forma como cheguei. A partir desse momento, já não pude deixar de estudar a obra euclidiana, tanto pelo lado fascinante do seu universo artístico, científico, retórico e histórico como também pela necessidade de aprofundar certos aspectos de sua obra que haviam sido examinados, porém, de modo muito superficial; e outros que nem haviam sido tocados ainda.

A maneira pela qual eu fui me adentrando nos textos de Euclides foi em primeiro lugar pela via comparada; e depois, estudando os manuscritos do autor, dispersos em diversas bibliotecas, públicas e privadas, e em arquivos. Essa investigação arqueológica dos textos de Euclides foi para mim reveladora, porque descobri de repente coisas que nunca imaginara que ele pudesse ter escrito e que ficaram sem publicar durante todos esses anos; e também porque muitas vezes o estudo dos manuscritos ilumina a compreensão de textos seus já publicados, mas ilegíveis em certas passagens, dado que a porcentagem de erros tipográficos é muito alta, e sem dúvida cria um obstáculo à leitura. Assim, a comparação entre texto publicado e manuscrito lança luz sobre esses aspectos obscuros e equivocados, e oferece uma boa oportunidade para esclarecê-los ou corrigi-los em edições modernas mais cuidadosas. O que eu estou descrevendo se refere principalmente aos livros mais tardios do autor e que passaram por mãos de revisores incautos: Contraste e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907) e À Margem da História  (póstumo, 1909).

 

Neste ano em que se comemoram os 150 anos de Euclides da Cunha, é possível fazer um balanço de qual foi sua contribuição para o jornalismo e a literatura no Brasil?

LMB: Sem dúvida. A contribuição de Euclides da Cunha é enorme, tanto para o jornalismo como para a literatura e, acrescento ainda, as ciências, a cultura e a nossa história. Não devemos nos esquecer de que Euclides foi também um militante ativo em prol da República, e que portanto defendia os ideais democráticos constantemente em seus artigos na imprensa. Sintetizando, poderíamos dizer que ele é um dos primeiros grandes intérpretes da cultura brasileira. Euclides nos mostrou esse talento, principalmente, através de Os Sertões, mas também em outros textos sobre a Amazônia, por exemplo, publicados em Contrastes e Confrontos e À Margem da História. A sua obra magna, Os Sertões, quando publicada em 1902, elevou a sua estatura de excelente e combatente escritor mais ainda. Descobriu-se que seu dom literário e historiográfico era agudíssimo e essa obra não só começou a ser lida como livro de história mas também como obra literária, já que o seu belo e complexo discurso se equipara ao dos melhores romances da literatura mundial. A alta qualidade retórica da linguagem de Os Sertões por si só faz dele um dos grandes livros da literatura brasileira de todos os tempos. Esta, quando aliada ao desenho épico do livro e a sofisticados recursos estilísticos e retóricos, já bastaria para defini-lo como objeto dos estudos literários, sem que – e isto é muito importante frisar – o  consideremos ficcional. A feliz adequação de um achado estético (sua linguagem) ao assunto histórico é o que transforma esta obra em objeto de arte, salvando-a de permanecer somente no mundo da historiografia ou do ensaio sociológico, como também Os Sertões pode ser lido, evidentemente. Para concluir a minha resposta a essa pergunta, devo repetir algo que já disse alhures: que a dívida de Euclides para com o jornalismo é enorme. Na imprensa, como jornalista, ele encontrou um modo de apresentar suas ideias antes de lançá-las em capítulos de livros escritos mais tarde por ele. Fora dela, na sua condição de leitor, Euclides canibalizou artigos e editoriais que foram absolutamente importantes para a confecção da sua narrativa sobre Canudos (ver sobre este assunto o meu livro A Imitação dos Sentidos: Prógonos e Epígonos de Euclides da Cunha).

A atualidade de Euclides da Cunha é enorme e até surpreendente. Leio trechos de seus escritos que serviriam muito bem para entender os dias que estamos vivendo no Brasil

Qual o legado dessa importante figura ainda hoje?

LMB: A atualidade de Euclides da Cunha é enorme e até surpreendente. Leio trechos de seus escritos que serviriam muito bem para entender os dias que estamos vivendo no Brasil. Nesses textos encontram-se observações sobre o desrespeito à democracia durante a primeira República, a perniciosa herança do colonialismo, o populismo, a perda da Razão como resultado do fanatismo político e religioso, o favoritismo político, a corrupção do governo e o esvaecimento da confiança nas instituições públicas. A sua crítica à nossa cultura e ao nosso modo de ser, plasmada naquilo que Sérgio Buarque de Holanda chamaria depois o “homem cordial”, não poderia ser mais clara em alguns de seus escritos. Em suma, Euclides quando escrevia não podia deixar de fazer sempre um balanço da destruição paulatina, embora vigorosa do nosso idealismo, tão aviltado pelos interesses individuais e mesquinhos e pelos vícios de políticas interesseiras em detrimento da coisa pública. É claro que, diante deste quadro Euclides já preludiava o que estamos vendo hoje em dia: a dificuldade e até mesmo a impossibilidade de conceber uma nação genuinamente republicana e democrática, dedicada ao bem-estar público e não ao privado. Compartilhamos do seu ceticismo daquela época porque é o mesmo ceticismo que vivemos hoje com respeito ao nosso país. Assim, damo-nos conta de que, infelizmente, pouca coisa mudou desde então.

 

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A edição da Ateliê de Os Sertões – A Campanha de Canudos tem notas, prefácio e cronologia de sua autoria. Pode, por gentileza, contar-nos como foi realizar esse trabalho, quais foram os maiores desafios desse grande projeto? Quanto tempo o senhor esteve envolvido nesse trabalho?

LMB: A ideia dessa edição partiu de dois grandes amigos meus, Plínio Martins Filho, editor da Ateliê e do nosso saudoso Ivan Teixeira, professor também da ECA. Na verdade, eles foram os que, de modo conceitual, me sugeriram essa edição com esse formato. Eu gostei da sugestão e comecei a trabalhar imediatamente nesse projeto. Acredito que foi por volta de 1995, quando eu morava no Colorado, que dei início a essa edição. Foram meses dedicados a esse projeto, entre outros afazeres do meio acadêmico, evidentemente. A nossa preocupação era oferecer uma edição que mantivesse o maior respeito pelo texto de Euclides e que facilitasse a leitura de Os Sertões. Euclides é um escritor difícil, sem dúvida, mas quando conseguimos romper essa camada de dificuldades de seu texto, o prazer de lê-lo, então, torna-se insuperável. Os maiores desafios, para mim foram, em primeiro lugar, fazer toda a pesquisa das fontes do livro. Em seguida, e isto não era menos desafiante, tive que estabelecer o texto, isto é, “corrigi-lo”, comparando-o com as primeiras edições publicadas e com os fragmentos de manuscritos. Esta última tarefa era necessária para que obtivéssemos uma melhor leitura, inclusive no que diz respeito à virgulação e à pontuação dessa obra. Finalmente, e isto foi mais prazer do que trabalho, era necessário mostrar em forma de Prefácio ao leitor o tipo de livro – aliás único na história da literatura do Brasil – que ele é, no qual se convergem diferentes discursos emprestados de várias disciplinas, escolas literárias ou determinados livros: história, arquitetura, botânica, geologia, a Bíblia, barroco, romantismo, épica e estratégia militar.

 

capa odisseia nos tropicosO senhor também é responsável pela apresentação do volume Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos. Em sua opinião, qual o diferencial e a importância dessa obra? É um título de interesse apenas para quem estuda o tema ou é uma obra de interesse geral, que pode ser entendida pelo grande público? Por que ela deve ser lida?

LMB: O trabalho biográfico executado por outro grande amigo, já falecido, o Prof. Frederic Amory, daqui da Califórnia, é um complemento a certas biografias em forma de livro mais antigas ou esboços biográficos de Euclides. Em primeiro lugar, refiro-me às biografias de Francisco Venâncio Filho, Eloy Pontes, Leandro Tocantins, Olímpio de Souza Andrade, Sylvio Rabello; em segundo, aos escritos de Oswaldo Galotti, Walnice Nogueira Galvão, José Carlos Barreto de Santana, Roberto Ventura e outros. O que diferencia a biografia de Amory dos textos biográficos escritos anteriormente a essa obra é a estrutura, o escopo e o ângulo da análise de Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos. Estruturalmente, o autor distribui os vários capítulos do livros, sempre em ordem cronológica, dando-lhes títulos sugestivos que emblematizam o ponto principal de cada momento histórico. “A Ponte e o Livro”, por exemplo, narra esse Euclides nos melhores momentos de sua atividade de engenheiro e homem de letras, às vésperas da publicação de Os Sertões. No que diz respeito ao escopo, o livro serve tanto para um iniciante quanto para um leitor mais familiarizado com Euclides. Quanto às análises ali oferecidas, deve-se mencionar a capacidade de erudição e de síntese do biógrafo, quando, por exemplo, ele se debruça sobre dois ensaios de Euclides: “O Primado do Pacífico” e “Estrelas Indecifráveis”. No primeiro, Amory resgata para nós o melhor de Euclides, a sua enorme curiosidade pela História das grandes civilizações e o seu método de arguir sempre criativo quando aplicado a um assunto contemporâneo a ele; no segundo, o crítico norte-americano demonstra o seu profundo conhecimento histórico da Idade Clássica greco-romana e das religiões, fazendo-nos ver ainda, mais uma vez, que é impossível desvincular ciência e arte no pensamento crítico de Euclides. Por não ser brasileiro, Amory lança um olhar distanciado sobre a vida do escritor fluminense, adotando uma perspectiva de alguém de fora da nossa cultura, o que criticamente resulta ser muito salutar neste caso. Os exemplos poderiam se multiplicar, mas este dois dão ao leitor uma ideia de como pela primeira vez os principais ensaios euclidianos foram abordados nas suas minúcias, utilizando-se de um instrumental de alta qualidade e de verdadeiro scholar.

 

Em sua opinião, o trabalho de Euclides da Cunha recebe, no Brasil, o valor devido? Por quê?

LMB: Acredito que sim, mesmo porque, salvo engano, ele é o autor que sustenta a mais extensa bibliografia crítica até hoje, mais extensa que a de Machado de Assis, para ficar com uma comparação. Mas, cuidado. Estamos vivendo um momento problemático e de crise da leitura. Euclides é uma “dor de cabeça muito gostosa”. Ele demanda paciência e releituras. Ele também nos fascina com a sua escrita ao mesmo tempo que nos provoca e nos desafia a pensar criticamente. Euclides nos convida ainda a raciocinarmos de forma lógica sem prejuízo da paixão que tenhamos pela arte e pela imaginação. Este é, a meu ver, o grande legado que ele nos deixou.

 

Como é a recepção da obra de Euclides da Cunha no exterior?

LMB: Eu não poderia falar senão de modo mais geral sobre este assunto,  já que não temos dados estatísticos ou comprovantes de leitura para o continente Europeu e Ásia, por exemplo. Portanto a minha opinião é bastante informal e se limita aos Estados Unidos, país onde moro e trabalho há 38 anos, e onde esses medidores existem. Infelizmente, Euclides da Cunha como tantos outros grandes escritores brasileiros não é um bestseller e assim é pouco lido nos Estados Unidos, sendo que aqueles que o leem são alunos e professores de nível universitário na sua grande maioria. Dentro deste círculo restrito de leitores, a obra de Euclides é bastante discutida e estudada e as produções acadêmicas (livros e artigos) vem comprovar este fato. O problema da recepção de Euclides no exterior não tem nada a ver com ele como tampouco estaria relacionado a quaisquer outros grandes autores. Tem a ver com uma política cultural que nunca se fez de forma eficiente no Brasil. Ao longo dos anos, as agências do governo brasileiro não têm investido inteligentemente neste aspecto e acredito que nem mesmo a Academia Brasileira de Letras tem feito algo duradouro para que as letras brasileiras sejam conhecidas e continuem sendo apreciadas lá fora.O problema não é só divulgar os autores numa feira como a de Frankfurt, por exemplo, ou algo parecido, mas de criar e manter um sistema de divulgação constante. Nessa política, se é que ainda existe hoje em dia, falta a continuidade, fato tão necessário para não desacelerar o momentum da divulgação e publicidade. A feira de livros termina e com ela se esfuma da memória os nomes dos nossos melhores escritores. Eis um assunto intrigante. O Brasil com uma respeitável literatura nacional que pode competir facilmente com a de outros países latino-americanos, lamentavelmente não possui um só caso de Prêmio Nobel. Em contrapartida a Guatemala possui um, Miguel Ángel Asturias; o Chile dois: Gabriela Mistral, amiga e contemporânea da grande Cecília Meireles, e Pablo Neruda; o México um, Octavio Paz; e o Peru também um, Mario Vargas Llosa. Com grande probabilidade, Carlos Drummond de Andrade ou Clarice Lispector poderiam ter recebido este prêmio se a visibilidade deles tivesse sido trabalhada de modo eficaz nos setores diplomáticos e culturais fora do Brasil.

 

Coleção Artes&Ofícios tematiza preservação e restauração

Restauração de peça em museu

Restauração de peça em museu

Por: Renata de Albuquerque

Na semana em que se comemora o Dia Internacional dos Museus, o Blog da Ateliê  entrevista a arquiteta Beatriz Mugayar Kühl. Formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, com especialização e mestrado em preservação de bens culturais pela Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica, doutorado pela FAUUSP e pós-doutorado pela Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, ela já publicou, entre outros, os livros Arquitetura do ferro e arquitetura ferroviária em São Paulo (São Paulo, Ateliê/FAPESP/SEC, 1998), Preservação do patrimônio arquitetônico da industrialização (Ateliê/FAPESP, 2009). É responsável pela tradução e publicação de vários títulos da Coleção Artes&Ofícios da Ateliê.

Para suprir uma lacuna e atender um público que cresce e torna-se exigente a cada dia, a Coleção Artes&Ofícios traz importantes traduções de textos quase esquecidos a respeito do restauro de monumentos, de obras de arte e do próprio ofício, além de tratar da qualidade do trabalho de artistas de várias áreas.

“A coleção possui vários textos que oferecem fundamentação teórica para a atividade prática do conservador-restaurador, cujo papel nos museus é de essencial importância”, afirma a arquiteta, que é professora do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto e atualmente é chefe de Departamento (AUH-FAUUSP).

 

Como nasceu a Coleção Artes &Ofícios da Ateliê?

Beatriz Mugayar Kühl: A coleção nasceu a partir de uma conversa informal com o Plínio Martins Filho,  em que comentei os problemas de se trabalhar com temas de restauração com os estudantes da graduação e da pós-graduação na FAUUSP (onde sou professora desde 1998),  pela dificuldade de acesso a alguns dos textos fundamentais sobre o tema, seja por serem em língua estrangeira, ou por terem edições raras ou esgotadas. O problema era como discutir os fundamentos teóricos de uma disciplina sem que se tenha acesso aos textos que alicerçam o campo? Mencionei que havia feito uma tradução do Verbete Restauro do Viollet-le-Duc – para um curso da FUPAM em 1997 – em que havia sido assistente do saudoso Janjão (Antônio Luiz Dias de Andrade, professor da FAUUSP e arquiteto di IPHAN, falecido em 1997) –    e perguntei se o Plínio acharia interessante publicá-la. Não só ele aprovou a idéia, como deu a sugestão de ampliar a coleção para temas ligados não apenas à preservação de bens culturais, mas também às artes e aos ofícios em geral. Desse modo, sempre que tomo conhecimento ou produzo algum texto que considero que possa ser interessante para a coleção, apresento à Ateliê, que tem mostrado sempre interesse em publicá-los. A finalidade da Coleção é justamente oferecer um acesso direto a textos basilares para campos disciplinares (como o restauro, história da arte etc.), pouco conhecidos ou de difícil acesso.

 

"Teoria da Restauração", de Cesare Brandi, um dos títulos da Coleção Ateliê Artes&Ofícios

“Teoria da Restauração”, de Cesare Brandi, um dos títulos da Coleção Ateliê Artes&Ofícios

Como são escolhidos os títulos da Coleção? Quais são os critérios utilizados? Quais os temas mais recorrentes?

BMK: A coleção tem alternado volumes sobre preservação, de maneira mais ampla, e especificamente sobre restauração, com volumes que tratam das artes em geral. O interesse é voltado a textos com uma certa antiguidade que foram e ainda são de enorme importância em seus campos e que continuam a suscitar questões de extremo interesse. As publicações são fruto de pesquisas de professores universitários, em que determinados escritos emergem como importantes. Pelo fato de os pesquisadores utilizarem esses textos nas suas reflexões e considerá-los importantes também do ponto de vista didático e para difusão para um público mais amplo, acabam por considerar a publicação desses escritos como um produto importante de sua própria pesquisa.

Em sua opinião, qual a importância da coleção dentro do contexto acadêmico da arte no Brasil?

BMK: O interesse principal é divulgar textos importantes cujo acesso é difícil, seja pela barreira da língua, ou por ser textos raros, ou ainda por ser textos relevantes, mas ainda pouco difundidos em nosso meio, e que suscitam uma série de questões de interesse nos dias de hoje.

De que maneira estudantes, artistas e acadêmicos se beneficiam do conteúdo dos livros desta coleção?

BMK: Justamente pelo acesso direto a escritos relevantes para diversos campos disciplinares. A coleção alterna textos conhecidos, mas sem edição em português, com outros textos pouco conhecidos em nosso meio, mas que trazem questões relevantes para os dias de hoje.

"Catecismo da Preservação de Monumentos", de Max Dvorák

“Catecismo da Preservação de Monumentos”, de Max Dvorák

Pensando no Dia Internacional dos Museus, qual a contribuição dos títulos da coleção para celebrar esta data?

BMK: A coleção possui vários textos que oferecem fundamentação teórica para a atividade prática do conservador-restaurador, cujo papel nos museus é de essencial importância. Traz ainda contribuições de interesse para a história da arte, outro campo intimamente relacionado com as atividades dos museus.

Já existe alguma definição de quais serão os próximos títulos ou autores dos lançamentos futuros da coleção?

BMK: O próximo título previsto – em fase de revisão de provas – é o texto de Quatremère de Quincy, Cartas a Miranda, originalmente publicado em 1796, em que o autor elabora de maneira original a intrínseca relação da obra com o contexto em que está inserida, e a importância capital desse contexto; problematiza a transferência de obras de arte a partir de sua visão de come se aprende o fazer artístico e a apreciar a produção artística; e oferece contribuições de grande interesse no que respeita à fundamentação teórica de questões de preservação.

Paixão pelos livros e pela leitura

Renata de Albuquerque

 

Está no dicionário. Bibliomania é um substantivo feminino cujo significado é “paixão imoderada de colecionar livros, principalmente antigos ou raros”. Foi a partir desse conceito que surgiu a ideia do livro Bibliomania. O volume reúne textos de Marisa Midori Deaecto e Lincoln Secco, ambos historiadores, escritos para a Revista Brasileiros. Os textos, curtos, falam sobre todo tipo de assunto, sendo o livro sempre o protagonista: das mudanças no mercado editorial, até sonhos, fé e razão. Os autores falam dos livros como falamos de nossos amigos, de pessoas íntimas, numa escrita semelhante a um concerto de voz a serviço do tema, como só os verdadeiros escritores têm a ousadia de fazer.para falar sobre o novo livro e sobre a bibliomania de cada um dos autores, o Blog da Ateliê conversou com eles:

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Como cada um começou sua história com livros? O que levou você a tornar este um assunto importante para sua vida? 

Marisa Midori Deaecto: A história com os livros começa na infância. Eu me lembro bem de que meu primeiro livro foi o Minidicionário Aurélio. Uma vizinha o trouxe, novinho, embrulhado no papel de presente. Eu deveria ter uns seis anos. Adorei! Decorava as palavras, salteava as páginas. Foi amor à primeira vista. Como não havia livros em casa, passei a emprestar dos primos mais velhos os livros que eles liam na escola. Assim formei minha primeira biblioteca literária e isso não termina nunca. Depois, vieram os sebos, as livrarias, a biblioteca do professor Edgard Carone, onde eu realmente me encontrei… os amigos, os livros… os livros e os amigos. E o ciclo se fechou.
Lincoln Secco: Primeiro há sempre a leitura do mundo e não a dos livros. Ouvia histórias de minha mãe, que não lê livros. Via meu pai lendo livros, mas não para mim. Ouvir também é, de certa forma, ler! Depois vieram os livros infantojuvenis da escola e, mais tarde, os livros que se confundiam com a cidade e seus lugares: as livrarias, sebos, bancas. Adquiri-los, manuseá-los e, eventualmente, lê-los tornou-se um prazer físico para mim. Como sabem os amantes do livro, jamais lemos todas as obras que possuímos. Elas nos seduzem, mas nos decepcionam também. Ter livros é aprender a viver. Lemos mais velozes na juventude, folheamos mais devagar na maturidade e, acredito, relemos mais na velhice. A infinitude dos livros que possuímos sempre haverá de se mostrar diante da finitude de nossa existência.

 

Como surgiu a ideia de “Bibliomania”? 

LS: Atendemos a um convite da Revista Brasileiros, uma revista que é também impressa e se somou à defesa do livro.

MMD: Plinio Martins Filho propôs a ideia, a Revista Brasileiros a acatou e Lincoln Secco seguiu na dianteira, pois ele escreve muito rápido. Daí, como ele escreveu o primeiro artigo baseado em uma ideia nossa e, no final, fui em quem o assinou, senti a obrigação moral de escrever para a coluna. E gostei! Gosto de ler os textos dele e de estabelecer um diálogo. Nada sistemático. Mas tudo muito harmonioso, feito com o coração. É uma parceria que começou nos sebos, que ainda não se concretizou em uma única capa de livro, mas que resiste ao tempo em uma mesma coluna e, agora, dentro de uma luva. Como disse: amigos, livros… livros, amigos.
bibliomania_lincoln_miolo_Page_01Que conceito permeia essa publicação? 

LS: Difícil dizer que há um conceito. Se existe, quem pode dizer é a Professora Marisa Midori, a verdadeira especialista na História do Livro. Eu sou um amador. Posso afirmar apenas que há um sentimento comum pelo livro como objeto numa época que insiste em acreditar que ele vai desaparecer. Mas não vai.

MMD: Não há um conceito, mas uma ideia-força: o livro.

 

O que se pretende com “Bibliomania”?

MMD: Apresentar o livro como protagonista na longa história da humanidade. O que soa estranho, afinal, não são os homens os protagonistas de sua própria história? Sim. Mas, então, era preciso discorrer sobre um dos muitos elementos que torna a humanidade minimamente humana, com seus sonhos, seus medos, sua coragem, sua covardia, suas qualidades e seus defeitos. Penso que o livro, nesse sentido, sirva como uma espécie de fermento para cada um dos caracteres que desenvolvemos ao longo de nossa existência. O que também faz dele um protagonista na nossa história.
Como foi a escolha dos textos a serem publicados? 

LS: Publicamos todos os artigos da coluna Bibliomania, sem nenhuma escolha prévia.
Vocês conversam a respeito para não repetir temas ou para tratar de temas correlatos nessa seleção? 

bibliomania_marisa_miolo_Page_01MMD: Não. Eu leio todos os textos que o Lincoln publica. Então, quando escrevo, como disse, já tenho em mente o que veio a lume.

LS: Acredito que tivemos uma trajetória comum. Nós trabalhamos juntos na Biblioteca do Professor Edgard Carone, que era um bibliófilo de esquerda. E nos conhecemos também em longas caminhadas pelos sebos paulistanos. Sendo assim, os artigos na revista jamais se repetiram, apenas se complementaram.
Qual a importância de falar sobre livros no contexto brasileiro atual? 

MMD: Hoje, escrever sobre livros e falar sobre eles pode ser uma forma de escapismo da realidade, como faziam os românticos. Mas pode ser também uma forma de olhar a humanidade de forma mais serena. De pensar o tempo breve com menos ansiedade e crer na História profunda dos homens e dos livros. Falar sobre livros, hoje, pode também ser uma forma de buscar o insumo necessário para se compreender o momento histórico atual e, quem sabe, encontrar forças para a sua transformação. Pois se o livro pode servir como uma espécie de fuga, ele também se nos apresenta como a janela para o mundo. Tudo depende de nossas escolhas.

LS: Há quem diga que o livro vai acabar, como eu citei antes. Ou que o livro, hoje, pode ser qualquer coisa. Para mim, o livro é um conjunto de folhas dobradas, protegidas por uma capa, dotadas de um conteúdo manuscrito, desenhado ou impresso. Se um e-book pode ser um livro pouco me interessa. De fato, o livro pode ter outros suportes como a rocha, a madeira… Mas o livro em papel é o único que me importa. E se for de bolso, ainda melhor, pois posso carregar no trem e ler em qualquer lugar. Se faltar luz, acendo uma vela. Mas pode ter certeza que a “bateria” de um livro é inesgotável.

 

Teatro é fantasia

Por: Milena O. Cruz e Renata de Albuquerque

No dia 27 de março comemora-se o Dia Mundial do Teatro. Para lembrar a data, O Blog da Ateliê entrevista Ana Maria de Abreu Amaral. Ela é Professora Titular de Teatro de Animação na ECA/USP, onde orienta pesquisas em pós graduação ligadas ao teatro de bonecos ou teatro de animação. Também é diretora do Grupo O CASULO – BonecObjeto e autora dos livros: Teatro de Formas Animadas, Teatro de Bonecos no BrasilO Ator e seus Duplos e Teatro de Animação (em processo final de tradução para o inglês, para ser editado por uma universidade dos Estados  Unidos), além do livro de poesias Rupturas – poemas em busca de um eixo. Acompanhe:

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Por que se interessou pelo teatro de animação?

Ana Maria de Abreu Amaral: A princípio, foram duas razões. Meu primeiro emprego foi numa  das bibliotecas infantis da Prefeitura de São Paulo, num bairro além da Freguesia do Ó (Cruz das Almas)  em que  poucas  crianças sabiam ler, ou quem lia  engolia logo os poucos livros disponíveis. D. Lenira Fracaroli,  idealizadora, diretora e organizadora dessa rede de bibliotecas infantis em bairros distantes, teve a ideia de nos oferecer, na sede, um curso rápido de uma semana sobre  construção de fantoches, e com isso a atitude das crianças mudou drasticamente. O interesse das crianças pelo teatro improvisado despertou e mudou totalmente  a atitude delas na biblioteca e o interesse pelos livros. Foi  incrível a mudança. Mas  acabei me cansando pela distância, quase ausência de transporte e pedi transferência para uma seção da Biblioteca Central.

Nessa época, antes de tudo, nem livros nem bibliotecas  me interessava. Tudo  que eu lia e vivia era poesia.  Convivia com os poetas jovens da época e a poesia era para mim então fundamental. Entre 1957 e 1960 publiquei  SINCOPE, depois Eu Inconcluso, depois Viagem ao Redor do Espelho, estimulada pela incrível saudação de Sergio Milliet e outros críticos e/ou poetas,  recebendo outras ótimas críticas. Mas foi um tempo curto. Por razões inesperadas, acabei indo para Nova Iorque. Trabalhei alguns meses na biblioteca de  Brooklin, depois na Biblioteca da Nações Unidas. E fui ficando, esquecida de voltar.

Mas… do inesperado surgiu um impacto. Foi quando os bonecos surgiram.Vieram vindo um dia pela 5ª Avenida acompanhados de máscaras, atores, tambores. Foi assim que o Bread and Puppet entrou na minha vida. Bonecos incríveis, enormes, tomando toda avenida, tristes, de branco e negro vestidos, em protesto mudo contra uma guerra que eu nem tinha até então noticia, a guerra do Vietnam. Foi assim enfim que o teatro de bonecos entrou de vez na minha vida. Tímida e queda, por curiosidade, sempre que podia ia ajudar a colar papel ou cellastic nas máscaras ou bonecos políticos de Peter Schumann que com suas incríveis esculturas e personagens enormes protestava já contra a  então  guerra do Vietnam. Essa foi a mudança da minha vida: boneco em teatro para adultos ou crianças por alguma razão virou paixão. Entrei nessa.  Aluguei um quase porão e passei a ter um ateliê onde confeccionávamos e ensaiávamos, pois cheguei a formar um grupo. Lá estreei meu primeiro espetáculo para adultos, político, e sobre um fato real: Palomares.  E assim mudou  minha vida. Até hoje.

Depois de 15 anos em  Nova Iorque, com dois filhos, achei melhor voltar, pois não queria que eles deixassem de ser e viver o Brasil.  Voltei de vez. Passei a dar aula na ECA/USP, achei fundamental ajudar a formar bonequeiros. E essa é minha família, até hoje.

 

Esta é uma modalidade destinada apenas ao público infantil ou também ao adulto?

AMAA: Antes  de tudo acho que arte, teatro, pintura, não tem idade. Não vejo diferença alguma entre teatro para e com crianças ou adultos. As crianças são mais sensíveis, mas por isso mesmo a gente precisa ter em relação a elas mais sensibilidade, pois nem tudo é bom para as crianças. E por influência de Peter Schumann [fundador do Bread and Puppet Theater] passei a entender e a falar com os adultos através de bonecos, de máscaras; mais tarde, usando objetos, formas abstratas que tanto crianças quanto adultos entendem e por meio das quais percebem melhor o sentido das coisas que nos rodeiam e não chegam só através das palavras, mas das formas, do choro, do medo, da fantasia e do riso.

Não há diferenças quando o meio que usamos para nos expressar – seja uma figura humana, um ator ou um boneco, uma forma inusitada ou uma pedra, um fio fino e sutil, um rosto – nos transmite  emoção. E tudo fica muito mais amplo ou complexo.

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A introdução do livro Teatro de Animação diz que esse teatro tem se desenvolvido extraordinariamente. A que isso se deve?

AMAA: Acho que muita coisa muda quando se deixa de usar em excesso as palavras, apesar que as palavras podem ser também poéticas,  mas nem sempre… pois uma forma  ou figura, às vezes, fala muito mais.

O livro diz que o teatro de animação, por falta de parâmetros, muitas vezes é ignorado pela crítica especializada ou apresentado como inusitado. Nesse sentido, quais são os principais parâmetros para avaliar o teatro de animação?

AMAA: Não consigo definir esses parâmetros, mas o que existe  é pouco teatro bom de animação no palco. Ou há dificuldades de entrar e se manter em  cena, ou muito preconceito contra, quando o que mais aparece não é fruto de experimentação, busca ou pesquisa.

 

Fale, por gentileza, sobre as experiências que o teatro de animação proporciona ao público.  

AMAA: Teatro é fantasia. Acho que o bom é tudo que não é muito real. Ou quando não é resultado de pesquisa. E quando vai além do racional não é entendido. Mas se perturba é porque é bom, seja ele real ou poético.

 

Em um mundo em que as crianças se interessam cada vez mais cedo por produtos tecnológicos como tablets e celulares, o teatro de animação tem um desafio frente a esse público?

AMAA: O teatro de animação é, antes de tudo,  não realista. Mas, me parece às vezes que o que se está perdendo em meio a muita tecnologia é a poesia.

 

O lúdico perdeu lugar entre esse público ou não?

AMAA: Qual publico? O bom seria não se fazer muita distinção entre crianças, poetas, loucos e adultos. Ou que os adultos gozassem mais com fantasias.

 

Como enfrentar esse desafio? Como despertar o interesse das crianças nesse contexto?

AMAA: Acho que mais importante é despertar a criança que existe (ou existiu) nos adultos. E manter sempre vivo o lúdico e não levar a vida ou o dia-a-dia muito a sério.

Conheça outros livros que a Ateliê publicou sobre teatro 

O Diário de Bordo do Velho Chico: um roteiro da vida real

Por: Renata de Albuquerque

Autora de O Velho Chico ou A Vida É Amável – livro homônimo à novela das 21h da Rede Globo, que estreia hoje, Dirce de Assis Cavalcanti diz que a viagem que fez na região, durante os anos 70, foi “um divisor de águas”. A sinopse e o enredo do livro O Velho Chico foram escritos a partir de uma experiência marcante, cheia de personagens, símbolos e histórias inesquecíveis. Acompanhe abaixo o que a autora diz sobre essa experiência:

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Como teve a ideia de escrever o livro O Velho Chico?

Dirce de Assis Cavalcanti: A viagem pelo Velho Chico a fiz a trabalho. Era, na época, Diretora do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura, em Brasília, e decidimos fazer uma exposição com as Carrancas do rio São Francisco.

Qual a importância das carrancas no enredo do Velho Chico?

DAC: Preciso dizer que é o único rio do Brasil em que existiram, nasceram, procriaram, a princípio surgidas das mãos e da imaginação do velho Guarani, que “retirava do mato o pau que já vinha pronto”, como ele contava, e então era só ir descascando a cara, os dentes, a cabeleira, e a carranca pronta, primeiramente utilitária, depois ornamento, se tornava um símbolo, o símbolo do Velho Chico.
Destinadas a assustar os monstros aquáticos que os caboclos tanto temiam, eram colocadas na proa das embarcações, e quanto mais ameaçadoras fossem, melhor cumpriam sua missão.

A novela Velho Chico, que estreia hoje, tem o mesmo cenário de seu livro. Por que acha que essa região é tão marcante?

DAC: Para mim, como relato no “diário de bordo”, a vida se dividiu entre o antes e o depois do São Francisco. Conhecer aquela gente extraordinária na sua pobreza, no asseio de suas casas de chão de barro liso, como que encerado, na sua generosidade, coragem e simpleza, foi um presente dos céus. Sobretudo a população mais distante do mundo, na margem esquerda, é muito surpreendente. Uma mulher alta e magra, como eu conto no livro, que ia pagar promessa em Bom Jesus da Lapa para que lhe curasse uma papeira, me deu o significado da vida, numa frase, dita depois de contar tantas misérias por que passou, a perda do marido e de onze filhos por doença e má nutrição, ela, Ambrosina, me disse: …”mas a vida é amável, não é dona menina?”

Não vou dizer mais nada, está tudo no livro…

Tirando poesia de pedra

Em Matéria Lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz, Mario Higa faz uma leitura crítica de quatro dos mais importantes poetas latino-americanos que usaram a imagem da pedra como mote de suas obras literárias

Por: Renata de Albuquerque

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Fruto da tese de Doutorado que Mario Higa defendeu na Universidade do Texas, em Austin (EUA), o livro Matéria Lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz – o 50º título da Coleção Estudos Literários, da Ateliê Editorial – acaba de ser lançado. Na obra, o autor propõe a leitura de quatro poetas conhecidos por usarem o mineral suas obras literárias com o objetivo de ajudar o leitor a entender e interpretar esses textos.

“Para Cabral, Neruda e Paz, a pedra e o mundo mineral constituem uma imagem identitária, ou uma figura da imagística, de suas obras”, explica Higa na introdução do livro. Já Drummond aparece com a análise do poema “No Meio do Caminho”, que possui na pedra sua imagem central.

 

Como foi fazer um Doutorado nos EUA estudando poetas cujas raízes latino-americanas são tão fortes (ainda que todos possam ter uma leitura “universal”)? Eles são autores conhecidos nos EUA?

Ainda que o termo “imperialismo” esteja hoje em desuso, creio que se poderia, num sentido positivo, mas não despolitizado, aplicá-lo à política das universidades americanas de atrair e manter no país estudantes e pesquisadores estrangeiros. Por conta dessa política, muitos estudiosos chegam aqui, às vezes para uma temporada, e quando podem, decidem ficar. Quem ganha com isso é a comunidade acadêmica, que se torna assim mais exposta à diversidade cultural e, como consequência, à constante reavaliação de suas ideias. Lembro-me de que Gilberto Freyre, já em 1920, louvava, no seu o diário, o cosmopolitismo de Columbia. “Ai de universidade que não for cosmopolita”, dizia-lhe um colega inglês, também impressionado. Pois bem, nesses centros universitários e universalistas, a presença da América Latina é, de fato, bastante forte. No entanto, por razões históricas, e também geográficas, ou geopolíticas, é mais forte do lado espanhol do que do português. Logo, se você me pergunta se Drummond, Cabral, Neruda e Paz são conhecidos aqui, eu diria que, nos círculos universitários dos estudos latino-americanos, sim. Naturalmente, mais Neruda e Paz, cuja repercussão internacional, e mesmo não acadêmica, de suas obras é imensa, do que Drummond e Cabral, que ainda precisam de maior exposição fora do Brasil. Nesse sentido, a boa notícia para nossos poetas é que o interesse pelo Brasil, por parte de estudantes americanos, hispano-americanos, e de outras nacionalidades, cresceu de modo expressivo nas duas últimas décadas. Quando isso ocorre, mais estudantes se matriculam nos cursos de português, e com isso, expande-se o conhecimento da cultura brasileira (e lusófona) em terras estrangeiras, ou mais especificamente, americanas. A má notícia é que, por conta dos mais recentes acontecimentos no Brasil, essa tendência tem mudado de rumo, com impacto negativo na demanda por cursos de português. Laurentino Gomes, que deu um curso na universidade onde eu trabalho, resumiu essa questão de modo exemplar num post de seu blog. Para quem tiver interesse no tema, aqui vai o link: http://laurentinogomes.com.br/blog/?s=middlebury&lang=pt-br

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em resumo, o conhecimento de Drummond e Cabral, ou de qualquer outro autor brasileiro ou de língua portuguesa, nos Estados Unidos, depende menos da qualidade de suas obras do que de fatores externos, isto é, políticos e econômicos. A volatilidade desses fatores, sobretudo no Brasil, mas também no restante do mundo lusófono, produz efeitos quase que imediatos nas universidades americanas que oferecem cursos de português. Isso ocorre também com o espanhol. No entanto, como a América espanhola é fragmentada, o impacto dos acontecimentos lá chega aqui fragmentado também. Além disso, há outros fatores – históricos, geográficos, políticos, como já mencionado – que interferem na questão do estudo do espanhol e das culturas hispano-americanas nos Estados Unidos. Por fim, fazer o doutorado nesse ambiente multicultural foi, para mim, uma experiência bastante enriquecedora.

Por que da escolha de Drummond, Cabral, Paz e Neruda? O que eles têm em comum que permitiu-lhe uni-los em seu estudo?

Meu estudo nasceu do gosto que tenho pela análise, pelo comentário e pela interpretação de textos literários, ou mais especificamente, poéticos. A questão do sentido, em amplo espectro, sempre me fascinou, e ainda me fascina. Assim, eu diria que meu livro é menos sobre os poetas que você menciona e mais sobre a questão o sentido, ou melhor, como o sentido, segmentado em suas várias dimensões – linguístico, estético, político, crítico, teórico, dialético… –, se forma na confluência do texto poético, da mente do leitor e do contexto histórico-cultural em que ambos se inserem, e do qual ambos são, a um só tempo, agentes e produtos. Para investigar a questão do sentido, fixei-me inicialmente no célebre caso da polêmica provocada pelo poema de Drummond “No meio do caminho”. O chamado “poema da pedra” incitou o debate mais acalorado da história do Modernismo brasileiro. E no centro desse debate, encontrava-se a discussão em torno de seu sentido e valor. As leituras que o poema, então, recebeu foram as mais disparatadas. Mas afinal, que fatores textuais, teórico-culturais e históricos possibilitaram tanta divergência de atribuição de sentido? E por que essa divergência perde força na década de 1960? Essas são algumas questões sobre as quais me debruço e às quais tento responder.

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Da pedra de Drummond, passei à pedra de Cabral, por razões distintas. No caso de Cabral, interessava-me não o processo de atribuição de sentido, e sim a problematização de um sentido atribuído: o da relação pedra/despersonalização lírica na poesia cabralina. Isso me levou, entre outros exercícios, ao da análise do poema “A educação pela pedra”. A relação entre pedra e educação também surge num poema da última fase de Neruda: o de número XVII, de Las piedras del cielo, coletânea publicada em 1970. Nessa última fase, pouco estudada pela crítica, mesmo nos países de língua espanhola, predomina um tom desencantado em relação ao homem e à história, que a poesia nerudiana havia decantado na fase épico-política de Canto general. O curioso é que a imagem da pedra mostra-se recorrente nessa trajetória que vai do entusiasmo ao desencanto. O ápice da afirmação do homem e da história através da pedra encontra-se, pela minha hipótese de leitura, em “Alturas de Macchu Picchu”. E um dos pontos mais baixos do desencanto em relação a esses mesmos elementos pode ser lido no poema XVII. No entanto, a imagem da pedra, que serviu de figura de afirmação do homem e da história, é duas décadas depois retomada para corrigir e negar tal afirmação. E o que eu faço é tentar compreender como Neruda manipula os sentidos ou as metáforas do mundo mineral para expressar percepções díspares do homem e da história. Já na poesia de Paz, examino a pedra como metáfora de origem, mito e sagrado, a partir da análise de um poema sem título, referido pelo primeiro verso: “Como las piedras del Principio”. Como se vê, há muito pouco, ou mesmo quase nada, ligando esses poetas, que eu reúno por meio de uma imagem forte, no caso de Drummond, e além de forte, recorrente ou identitária no caso da poesia de Cabral, Neruda e Paz: a imagem da pedra.

 

Por que Drummond é a “pedra porosa”; João Cabral é a “pedra narcísica”; Neruda, a “desencantada”; e Paz, a “logocêntrica”?

Os títulos dos capítulos de meu livro sintetizam um aspecto semântico de cada “pedra” examinada. Creio que a resposta anterior esclarece um pouco essa questão. A porosidade da pedra de Drummond aponta para a permeabilidade ou vulnerabilidade de sentido que essa imagem alcança no contexto do poema “No meio do caminho”, articulado ao contexto cultural de rivalidade entre modernistas e antimodernistas. No caso de Cabral, os conceitos de narcisismo e antinarcisismo, eu os tomo emprestados a Antonio Candido e Eduardo Escorel, que os usam, respectivamente, para caracterizar a poesia cabralina desde uma perspectiva predominantemente psicológica. No meu ensaio, emprego a noção de narcisismo dentro de um enquadramento estritamente retórico, ou seja, tal conceito serve para nomear “(i) manobras textuais de autorreferencialidade [metapoesia] em poemas que, em princípio, objetivam o outro, e (ii) manobras extratextuais, isto é, externas e paralelas aos poemas, que visam à construção de um ethos autoral legitimador a priori da obra de Cabral”. Pode parecer um tanto técnica essa definição, que foi extraída da introdução do meu estudo. No entanto, em meu ensaio sobre Cabral, examino vários exemplos que ilustram esses argumentos. Sobre a imagem da pedra, ela é uma metáfora dessa autorreferencialidade na poesia cabralina. Sobre Neruda, queria entender o pessimismo histórico de sua última fase. Ou seja, como sua poesia, por um lado, incorpora os fatos históricos pós-1956, quando os horrores do stalinismo são revelados, e por outro, como essa incorporação coincide com um retorno parcial do poeta à sua fase residenciária (de Residencia en la tierra). Em relação à pedra nerudiana, sua simbologia oscila entre o entusiasmo e o desencanto com a história. Mas meu ensaio, embora examine essa oscilação, centra-se nas ideias de desencanto, desilusão, ceticismo, com que o poeta observa o fluxo da história. Por fim, no capítulo sobre Paz, localizo em sua poesia uma tensão discursiva, na forma de impasse, entre a noção de sagrado mítico (logos) e o conceito de vitalidade tal como proposto por Nietzsche. Para tanto, defino o sagrado mítico em Paz e a vitalidade nietzschiana, e mostro como essa tensão se afigura inconciliável desde o ponto de vista da crítica logocêntrica de Jacques Derrida. Todas essas questões, no entanto, nascem da leitura crítica dos textos poéticos, e são reflexões desenvolvidas com o intuito de ampliar a compreensão desses textos.

 

Octavio Paz

Octavio Paz

Quais os desafios de analisar a obra de poetas que escrevem em línguas diferentes (português e espanhol), tentando, ao mesmo tempo, uni-los em um mesmo estudo?

Volto um pouco ao ponto das universidades americanas e às ideias de diversidade e intercâmbio culturais que nelas ocorrem. Historicamente, o Brasil tem adotado uma postura mais de isolamento do que de integração em relação à América hispânica. Houve – e eu cito isso no capítulo sobre Neruda – uma política pan-americanista promovida pelo Estado Novo na década de 1940, que deu seus frutos na cultura brasileira. Mas nenhuma política integracionista pode funcionar sob o jugo de um regime autoritário. E o fato é que durante o século XX, de modo geral, o Brasil teve seus olhos voltados para a Europa e os Estados Unidos, quando poderia tê-los voltados também, com mais frequência, e até com mais afeto, aos nossos vizinhos de língua espanhola. Tudo isso, repito, tem mudado nas últimas décadas, embora não se saiba se essas mudanças continuarão seu curso. Aqui, nos Estados Unidos, cresce o interesse pelos estudos interamericanos, que em parte se assemelham ao pan-americanismo do Estado Novo, e que englobam aspectos comparativos das Américas, desde o Canadá até a Argentina, passando pelo Caribe francês, inglês e espanhol. Trata-se de uma iniciativa cujo foco principal recai numa ideia de integração dos países das Américas.

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Com meu livro, tento contribuir – e esse é o meu desafio – para uma maior integração dos estudos literários de língua portuguesa e de língua espanhola, desde uma perspectiva latino-americana, e tendo o Brasil como centro de convergência. Assim, ao abordar a poesia nerudiana, examino a princípio a história de sua recepção no Brasil. Não é exagero dizer que, em relação a Neruda, o mundo de língua espanhola se dividiu, e ainda se divide, entre nerudistas entusiasmados e antinerudistas furiosos. No Brasil, ainda que em proporção menor, não foi e não é diferente. E isso tem suas raízes e razões históricas, que procuro esclarecer. Haroldo de Campos, por exemplo, foi um antinerudista e um pró-octaviano (ou pró-Octavio Paz). Mas, curiosamente, Paz não foi um antinerudista, embora ele e Neruda tivessem divergido radicalmente no plano das ideias políticas. Tudo isso, eu trato como notas de enquadramento histórico nos capítulos sobre Neruda e Paz. Também trato um pouco das relações poético-literárias entre Drummond e Neruda, e Cabral e Neruda. Desse modo, espero contribuir para um melhor entendimento dos vínculos que nos ligam culturalmente, seja por afinidade, seja por dissidência, à América hispânica, representada em meu estudo pelo Chile de Neruda e o México de Octavio Paz.

 

O livro não traz uma “conclusão” para o estudo. A que isso se deve? Há uma “conclusão” possível?

A natureza do sentido é dinâmica e, portanto, o sentido é sempre provisório. Seu caráter provisional, no entanto, não impede que o busquemos; ao contrário, incita-nos a buscá-lo pelo prazer lúdico da busca desonerada do pressuposto da existência de uma verdade final e fixa. Essa é uma conclusão possível, e também provisória, do meu estudo. Se não dediquei um espaço específico para ela, isso se deve ao fato de o último capítulo, sobre Octavio Paz, discutir esse argumento na abordagem da crítica ao logocentrismo de Jacques Derrida. Assim, de certa maneira, o último capítulo do livro funciona como uma forma, ainda que indireta, de conclusão.

 

Primeiro lançamento de 2016 é o novo livro de poesia de Wassily Chuck

Por: Renata de Albuquerque

 

“É preciso compreender a poesia de Wassily Chuck não como fuga da realidade, mas como fuga para a realidade”, escreve José de Paula Ramos sobre o lançamento Rumo à Vertigem ou a Arte de Naufragar-se, livro dedicado ao amigo e escritor Ivan Teixeira, falecido em 2013. Concordando com tal ideia, o autor, que é engenheiro, filósofo e diplomata, fala, a seguir, de alguns aspectos da obra e de sua concepção de poesia, embora ressalte que, para ele, “o poema é bicho de sombra, e o excesso de claridade o fere”.

Capa Rumo a Vertigem

Poesia – Em meio a um tempo que transforma a linguagem em mera ferramenta, relacionada a questões de produção e eficiência, em meio à disseminação crescente das linguagens técnica e eletrônica, que tendem a esvaziar a força criadora das palavras, a poesia busca recobrar um sentido mais profundo do texto, que nos remete à possibilidade de criar a nós próprios, de criar nosso mundo, recobrando, assim, a infinita liberdade da palavra.

 

Silêncio: Para criar faz-se necessário gerar um espaço de disponibilidade, um espaço vazio, um espaço de silêncio. Por isso, pode-se dizer que não nas palavras, nos silêncios do texto jaz o poema. As palavras somente tecem o espaço para que o silêncio se expresse. Nesse sentido, a poesia seria a forma possível para dizer o indizível, a tentativa, sempre imperfeita (daí a tristeza em todo poema), de dar voz à secreta sintaxe do silêncio.

 

Nosso tempo – O sentimento trágico na Grécia antiga surgia do embate entre o homem e o destino, enquanto o sentimento trágico de nossos dias surge do embate entre o homem e a ausência de destino. Pois, com a partida dos deuses, não há mais uma lei maior regendo nossas vidas. E, nesse mundo destituído de sentido, o homem mais não é que “sonho de uma sombra”. Sair do sonho e chegar à vida, eis a busca da poesia.

 

O poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770 - 1843)

O poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770 – 1843)

Unicidade – O chileno Jorge Teillier dizia que poucos poetas têm na vida mais de um poema para escrever. O filósofo Heidegger dizia algo semelhante. No meu caso, sempre fui consciente de ter apenas um poema. E todos os livros são variações desse verso, que viro, reviro, desviro dentro de minha voz (creio que os primeiros mestres, ainda todos estrangeiros, pois eram os livros da biblioteca paterna, como Hölderlin, Trakl, Celan, Jabès e, mesmo, Rilke, poderiam ser vistos sob essa ótica).

 

Multiplicidade – Se todo escritor é muitas pessoas, eu seria essencialmente duas. Uma que crê na “fundação do Ser pela palavra poética” (conforme leitura que Heidegger faz de Hölderlin). Outra que é filha do ceticismo contemporâneo. Da busca de conciliar essas duas vozes, de buscar fazer com que uma aceite a outra, após tê-las feito medirem-se uma pela outra, disso falam os meus livros. E creio que a tensão distendida entre essas duas vozes favorece a criação poética.

 

O mar – Nasci numa cidade junto ao mar. O sal e o rumor das ondas são minha marca de nascença. A imensidão do mar seria, para mim, o infinito possível dos homens. O mar permeia todos os meus escritos, o mar é sempre protagonista, mesmo quando não nomeado.

 

O livro – O texto narra a busca de uma “palavra cheia de silêncios”, que possa recriar e refundar um sentido para a vida em nosso mundo atual. Trata-se, assim, de uma viagem através do niilismo de nosso tempo, do utilitarismo de nossas palavras, buscando um porto, um passo além do nada, uma voz mais nova e mais viva.

Ilustração de Luise Weiss para "Rumo à Vertigem": a inevitável presença do mar

Ilustração de Luise Weiss para “Rumo à Vertigem”

O título – A imagem da vertigem se liga diretamente à ideia do naufrágio. Rumar à vertigem é rumar à linguagem, pois, para mim, escrever é mais que um verbo, é uma vertigem. E rumar à linguagem é buscar o abismo de silêncio de onde toda palavra emerge, é buscar o naufrágio.

 

Viagem – Trata-se de uma viagem através da linguagem, em busca da linguagem. Viagem que se liga intrinsecamente à figura do naufrágio. Pois, o naufrágio é neste caso não só inevitável, mas também desejado. Como diz Clarice Lispector: “A linguagem é meu esforço humano. Por destino tenho de ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só poderá me ser dado através do fracasso da minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu”.

 

Finitude – Não se descobre um sentido para a vida sem aceitar que a morte faz parte da vida, sem aceitar que morte é, em verdade, “a metade mais larga da vida”, com dizia Rilke. Toda poesia se relaciona com a finitude, com o fato de sermos seres não só efêmeros, mas seres que têm consciência de serem efêmeros. Na viagem do livro, também se busca aprender a habitar a vida, com sua violenta e triste beleza, aprender a sorver a limpidez do efêmero, aprender a difícil dicção da palavra “morte”.

 

A forma – São onze cantos, que somados ao prólogo e ao epílogo perfazem um total de treze capítulos, indicando o número aziago que rege a viagem. Tal estrutura, contudo, não foi pensada antes de escrever o livro, mas, sim, emergiu durante o processo de escrita. Ou seja, foi imposta pela própria viagem do livro. Escrever é, muitas vezes, menos um fazer, que um deixar ser de um texto, assim como a poesia é, por vezes, menos um dizer que uma escuta do silêncio.

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