Entrevistas

Morte e silêncio conduzem personagens em “Silêncios no Escuro”

Por: Renata de Albuquerque

O primeiro livro que Maria Viana escreveu para adultos quase chegou à maioridade antes de seu publicado. Passaram-se 17 anos desde que a autora mineira – que escreve livros infantis e didáticos e organizou diversas antologias – escreveu o conto que dá título ao volume. A autora relata que só se deu conta de que a morte e o silêncio são os fios condutores de todos os contos do livro Silêncios no Escuro depois de tê-los reunidos. Personagens que não falam habitam histórias que os levam de um extremo a outro (morte e vida; tristeza e alegria), costuradas por uma narrativa escrita por alguém que se define como uma leitora voraz que gosta de “contar histórias”. A seguir, Maria Viana fala sobre seu mais recente lançamento:

 

Maria Viana fotografada por Laura Campanér

Maria Viana fotografada por Laura Campanér

Este é seu primeiro livro de ficção adulta. O que a levou a escrevê-lo?

Maria Viana: Acho que o que me levou a escrevê-lo foi o desejo de contar algumas histórias que de alguma maneira estavam esperando o momento certo para tomar forma de palavra escrita, já que povoavam meu imaginário e minha memória há muito tempo. Nessas narrativas quis dar vazão para os meus silêncios e os silêncios das personagens, que queriam sussurrar algo por meio da minha escrita.

Como o livro foi escrito?

MV: Sou uma colecionadora de cadernos e cadernetas. Sempre que tenho uma ideia ou uma lembrança me vem à mente, anoto. Como trabalhava, e ainda trabalho, muitas horas como editora ou escrevendo livros teóricos e didáticos, quando me sobra tempo para a ficção desenvolvo essas ideias salpicadas nas anotações. Por isso, essa coletânea foi escrita assim, nas horas que sobravam e ao longo dos anos. Mas há fios conduzindo tudo, como disse, a morte e o silêncio. A presença do pai também é recorrente em toda a obra. Na verdade, o primeiro e o último conto foram estrategicamente posicionados. No primeiro, moveu-me o desejo de retratar a dor de um pai que perdeu muitos filhos antes de ver um deles realmente sobreviver. O último fala também da morte, mas do ponto de vista da criança que presenciou a morte do pai. Deixei de fora alguns contos que tratavam de temas que acontecem no espaço urbano, acho que esse espaço rural, em um tempo indefinido, também dá certa unidade à antologia.

Alguns contos foram reescritos muitas vezes, é o caso de “Silêncios no escuro”, por exemplo. Outros surgiram de histórias que ouvi na infância. Caso da narrativa “A santa que fugiu do altar”. Na verdade, minha avó falou-me desse retrato da menina-santa que circulava pela cidade. Esse foi o mote para a criação da história, mas só esse aspecto da narrativa oral está lá. O resto é invencionice. Esse conto escrevi em uma noite e não mexi em nada, só mudei o título, que foi publicado em uma revista eletrônica como “Santa Manuelinha”.

Capa Silencios no escuro

 

Em termos do processo de criação, qual a diferença entre escrever um livro para crianças e um livro para adultos?

MV: Para mim, escrever para crianças é ainda mais difícil do que para adultos, pois é preciso escrever tendo em vista um destinatário que tem um poder de imaginação enorme, não se pode subestimar isso ao escrever uma história para crianças, no entanto, também é preciso estar atento ao vocabulário, à linguagem. Então, não vejo muita diferença. O trabalho com a linguagem e a depuração do estilo é um desafio sempre, quando se escreve tanto para a criança como para o adulto.

Quais são suas maiores influências literárias?

MV: O fato de ter sido leitora de biblioteca pública desde menina fez com que eu lesse tudo o que me caía nas mãos com muita voracidade e sem critério de escolha muito apurado. Os clássicos da literatura brasileira comecei a ler na adolescência; na juventude tive a sorte de ter uma biblioteca de clássicos de dramaturgia à minha disposição, na escola de teatro onde estudei. Isso foi uma descoberta! Foi quando li pela primeira vez Racine, Molière, Shakespeare e as tragédias gregas. Depois, veio a formação em Letras e o mergulho na literatura francesa. Ainda sou uma leitora e (re) leitora de clássicos e tento, na medida do possível, acompanhar a produção contemporânea, sobretudo dos escritores de expressão portuguesa dos países africanos, mas não saberia dizer se um ou outro escritor influenciou ou influenciará minha produção literária. Claro que ser uma leitora de literatura desde a juventude faz de minha uma boa produtora textual, mas nem eu sei se o que escrevi realmente é literatura ou não, acho que os leitores darão mais conta disso do que eu…

Quais são os temas recorrentes do livro e por que desta escolha?

MV: Depois que fechei o volume me dei conta de que há um fio que percorre toda a obra, a morte e o silêncio, mas isso não foi intencional. Uma amiga que leu alguns contos antes da publicação, chegou a observar que achava estranho uma pessoa que teve uma formação em teatro, como foi o caso da minha, escrever histórias em que as personagens não falam. Essa observação me fez pensar que esse é mesmo um livro de silêncios. Então, este talvez seja o tema central.

Na apresentação da obra, Edy Lima escreve que você faz uma “reinvenção do Realismo”. De que maneira você entende e interpreta essa afirmação?

MV: Estes contos só foram publicados porque a Edy Lima leu os originais e me estimulou a enviá-los para uma editora. Sempre que eu ia visitá-la, ela me perguntava se já tinha enviado para alguém. Não podia mentir, dizendo que já havia enviado sem fazê-lo, é claro. Então, um dia criei coragem, coloquei em um envelope e mandei pelo correio para o Plínio Martins. Portanto, seria natural que a Edy Lima, de quem fui leitora na infância, escrevesse a apresentação desse livro, que realmente não teria saído da gaveta se não fosse por insistência dela. E não veja nisso nenhuma falsa modéstia. Creio que ao escrever isso ela quis aproximar os contos da minha linha de pesquisa à época, já que ela leu também minha dissertação de mestrado, que é sobre a obra O Coruja, do Aluísio Azevedo. Não acho que estou reinventando nada. Só estou contando histórias, que é o que gosto de fazer quando escrevo, faço leituras dramáticas como atriz ou interpreto um samba, pois todo bom samba tem que contar uma história. Mas a Edy Lima tem licença poética para escrever o que quiser.

É sua estreia como escritora de contos. Era um desejo antigo ou a vida lhe levou para esse caminho, naturalmente? O que você destaca dessa nova experiência?

MV: Sou uma estudiosa de romances do século XIX, mas uma apreciadora das narrativas curtas. Sempre admirei a capacidade de alguns escritores que dão conta de uma existência em poucas linhas. Organizei vários livros de contos para diferentes editoras e cheguei a traduzir um livro de contos do Guy de Maupassant. Essas experiências fizeram-me perceber que escrever contos é muito desafiador, por que é preciso cortar os excessos, não há espaço para descrições e digressões, próprias do romance. Creio que quis cometer essa ousadia também, se consegui, não sei.

 

O livro será lançado em 29 de agosto de 2016

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Aventuras distantes de Palmeirim de Inglaterra

Por Renata de Albuquerque

Capa Palmeirim 1

Palmeirim de Inglaterra não é apenas uma novela de cavalaria. O texto, escrito por Francisco de Moraes, faz parte de um ciclo, o que por si só explica a importância da obra. Nesta edição que a Ateliê acaba de lançar, os pesquisadores Lênia Márcia Mongelli, Raúl Cesar Gouveia Fernandes e Fernando Maués realizaram um minucioso e primoroso trabalho, transcrevendo a partir de várias fontes para poder chegar a um resultado fidedigno, que interferisse minimamente no estilo original – um dos pontos altos da obra.

A seguir, a crítica literária, especializada em Literatura Portuguesa e professora da USP, Lênia Márcia Mongelli, fala a respeito do lançamento:

 

Das novelas portuguesas de cavalaria mais difundidas, por que a escolha por editar Palmeirim de Inglaterra?

Na formulação da pergunta já está uma parte da resposta: a novelística de cavalaria é de extração francesa e teve seu momento mais significativo nos séculos XII, XIII e XIV. É no século XVI, no entanto, que o modelo se “nacionaliza” em Portugal, através principalmente de três títulos, entre os vários ainda por editar: Crônica do Imperador Clarimundo, de João de Barros (1520);  Palmeirim de Inglaterra, de Francisco de Moraes (c. 1544) e O Memorial das Proezas da Segunda Távola Redonda, de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1567). São três belas obras, solidamente incrustadas no perfil histórico-cultural do Quinhentismo português; dentre elas, porém, só o Palmeirim gerou um “ciclo”, com numerosas “continuações”, na mesma linha da Vulgata e da Pós-Vulgata medievais ou, para falarmos de um exemplar muito mais próximo, do Amadís de Gaula, de Garci Rodríguez de Montalvo (1508), com o qual o Palmeirim tem inegáveis parentescos. A natureza cíclica da obra diz de sua enorme popularidade na Península Ibérica e fora dela, o que, acrescido de suas altas qualidades estéticas, justifica nossa escolha.

Lênia Marcia Mongelli

Lênia Marcia Mongelli

Quais são as características que fazem de Palmeirim de Inglaterra um dos melhores exemplares do gênero?

Sem dúvida, no topo da lista está o estilo clássico de Francisco de Moraes, ao qual o público terá acesso graças ao trabalho impecável dos professores Raúl, Fernando e Nanci, responsáveis pela difícil e trabalhosa transcrição dos vários originais que compulsaram – modernizados apenas o mínimo suficiente para não comprometer a bela sintaxe quinhentista, que pode ser lida, por isto mesmo, no frescor de sua extraordinária natureza mais íntima.

Como seria de esperar, decorre dessa excelência linguística o domínio que Moraes tem de técnicas como a descrição ou a caracterização de personagens – sendo este outro de seus destaques: mesmo em gênero estereotipado como são as novelas de cavalaria, o autor consegue muitas vezes “humanizar” as suas personagens, fazendo-as expressar-se não raras vezes de acordo com seu estado de espírito ou sua condição social – o que a dramaturgia de Gil Vicente já vinha consolidando. Às paisagens ou aos cerimoniais cortesãos Moraes dedica soberbas páginas descritivas, num apelo visual que torna a leitura extremamente prazerosa.

Podemos encerrar o rol com a coesão do enredo, o que não é pouco em se tratando de romances de cavalarias, tantas vezes ridicularizados justamente por sua interminável extensão, desdobrada em “continuações” episódicas envolvendo filhos e até netos dos protagonistas. Moraes segue a norma, sem dúvida (ou não teríamos o gênero cavaleiresco), mas não perde de vista os cavaleiros centrais, compondo com verossimilhança a história de vida deles e daqueles que lhes são de alguma maneira filiados.

 

Na página 26, temos uma perspectiva de Mario  Vargas Llosa sobre ler livros de cavalaria no século XX. O que dizer a jovens super conectados com a internet, que buscam informações rápidas, sobre a importância desse gênero? Qual a importância de Palmeirim de Inglaterra no contexto do século XXI?

Para começo de conversa, são dois mundos distintos, o dos livros e o das “informações rápidas internéticas”, quer você leia uma obra da antiguidade clássica ou medieval divulgada online, quer do século XXI, impressa: em ambos os casos, é preciso REFLETIR sobre o que se lê e isto, é claro, demanda tempo. Aliás, os que têm o hábito da leitura crítica ou com reflexão sabem que está justamente aí o enorme prazer que tal leitura causa.

Se o leitor de hoje estiver disposto a enfrentar essa barreira da “rapidez”, reconhecerá de pronto, na armadura do passado, alguns ingredientes que fazem a delícia do cinema moderno e dos romances de aventuras de sempre: Palmeirim de Inglaterra ou seu irmão Floriano do Deserto estão na mesma linha combativa de heróis mitológicos como Hércules, Aquiles, Ulisses; românticos, como Robinson Crusoé, Robin Hood; ou de gibis/quadrinhos, como Homem Aranha, Batman, Fantasma. Todos eles lutam por grandes causas humanitárias, pelo bem coletivo, enfrentam inimigos reais ou imaginários, além de estar sempre enredados com a amada “difícil”, cuja conquista demanda um bocado de esforço.  Talvez por todo este empenho é que eles sejam tão fortes, tão íntegros, tão superiores de espírito e, consequentemente, modelares, alimentando os sonhos de perfeição de muitos de nós.  Ou seja, como toda grande obra, esta novela é inclusive útil.

 

Este romance é parte de um ciclo de “Palmeirins”. Que lugar ele ocupa neste panorama?

Num capítulo da Introdução intitulado “O Ciclo dos Palmeirins”, o leitor encontrará o quadro completo da árvore genealógica da família palmeiriniana, com comentários que situam cada obra no conjunto cíclico. Neste estema, vê-se que dois importantes títulos antecederam o Palmeirim de Inglaterra, compondo a ascendência de suas principais personagens e a linhagem delas – aspecto tão importante no universo geralmente patrilinear da ficção cavaleiresca: Palmerín de Oliva (1511) e Primaleón (1512), ambos ainda hoje de autoria incerta e com várias edições ao longo do século XVI. Um terceiro título deve ser lembrado, embora sem a mesma repercussão dos outros dois: Platir (1533), cujo protagonista é um dos filhos de Primaleão.

Assim, o Palmeirim de Inglaterra seria o quarto livro da série cíclica, embora com existência independente, como os demais. Durante muito tempo sua notoriedade deveu-se a uma acirrada polêmica em torno da autoria espanhola ou portuguesa do livro; resolvida definitivamente a questão em favor dos portugueses, ele passou a merecer atenção por ter “aportuguesado” a matéria deste ciclo, até ali de propriedade espanhola.

Palmeirim 1

Há uma descrição de costumes e indumentárias muito detalhada em Palmeirim de Inglaterra. Em que medida podemos dizer que esta é uma descrição fiel da época ou que ela teria sido influenciada por uma “fantasia” criada por outros romances cavaleirescos?

A questão coloca em causa os famosos e velhos limites entre realidade e ficção, que já desde Aristóteles ocuparam os interesses dos letrados: qual é a margem de “realismo” da ficção  ou, em outras palavras, é preciso pedir à ficção que seja “realista”? A questão – pra lá de intrincada –  continua atualíssima: basta dar uma espiada nos critérios que geralmente movem as escolas ao definir o rol das leituras indicadas aos seus alunos  ou, em outro patamar, nas querelas que alimentam tantas das discussões entre historiadores e literatos sobre conceitos de “verdade textual”.

Para não extrapolarmos da pergunta, conforme o assunto prevê, assentemos: as novelas/romances  de cavalarias parecem, à primeira vista, pura e desvairada “fantasia”, com seu vasto elenco de gigantes, de magos, feiticeiras e demônios, de animais monstruosos, de castelos assombrados e ilhas misteriosas, de poções milagrosas e juramentos impossíveis – tudo aparentemente destinado  ao lazer de cortesãos ociosos, ávidos leitores dessa espécie de livros.

Mas, como se sabe e é bom sempre recordar, o universo ficcional é simbólico, é representação, realizada com maior ou menor ênfase, com maior ou menor qualidade pelo autor, estratégia que cumpre a nós, leitores, desvendar ou decifrar. Neste caso, o pano de fundo do mundo representado – e para o qual a ficção aponta diretamente – é o Quinhentismo, principalmente ibérico, quando estão na ordem do dia vários “renascimentos” científicos/econômicos/políticos/religiosos e várias mudanças geográficas, trazidas inclusive pelo período das Navegações.  Se alguém já leu algum diário de bordo de algum navegante que esteve realmente nos mares a partir do século XV, a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, ou o Tratado das Coisas da China, de Frei Gaspar da Cruz, verá ali descrições e relatos de cenas que poderiam perfeitamente ter sido escritos pela pena “fantasiosa” de Francisco de Moraes.

E ainda: sendo o nosso novelista pessoa de estreita convivência com a nobreza, tendo a ela servido e com ela viajado, era de esperar que impregnasse seu texto, como o fez, da “realidade” que era, de fato, a sua. Se não se pode jamais falar em “descrição fiel da época”(conforme a pergunta formula), por conta dos “limites” antes referidos e que abarcam uma gama variada de implicações, deve-se, contudo, reconhecer que comportamentos humanos e relações sociais estão, sim, “realisticamente” reinventados no Palmeirim de Inglaterra. Esta é, aliás, uma das chaves do sucesso da obra.

 

A questão dos gêmeos e do duplo está presente de maneira muito profunda em Palmeirim de Inglaterra. Nos textos introdutórios que este volume apresenta, alguns outros gêmeos são aludidos, como Caim e Abel, Castor e Pólux. É possível fazer algum paralelo com Rômulo e Remo, fundadores de Roma – e, por extensão, de todo um Império que de certa maneira tem pontos de contato com as conquistas retratadas nos romances de cavalaria?

Não, porque não há qualquer espécie de rivalidade entre Palmeirim e Floriano – política, familiar ou amorosa, conforme são caracterizados os gêmeos mais notáveis da História: se Castor e Pólux são exemplos de uma fraternidade indissolúvel, não assim Caim e Abel, Rômulo e Remo ou Esaú e Jacó, para sempre cindidos por ódios, ciúmes e disputas várias, tema tão certeiramente aproveitado pelo Machado de Assis de Esaú e Jacó (1904) na retratação dos conflitos que cercaram o nascimento da República no Brasil.

Palmeirim e Floriano distinguem-se pela personalidade oposta – sóbrio, discreto, comedido e fidelíssimo amante, o primeiro; estouvado, impulsivo, irreverente e amador inconstante, o segundo, polaridade que o autor, singularmente, examina à exaustão. A dupla está muito próxima da concepção de Amadis e seu irmão Galaor, protagonistas do Amadis de Gaula, novela que, já o dissemos, é uma das importantes fontes de inspiração de Francisco de Moraes. As diferenças entre os irmãos vêm à tona ao longo das peripécias aventurosas em que ambos se metem: após complicado nascimento, são roubados por um selvagem e por ele criados até a idade de 12 anos; perdem-se um do outro e vão dar na corte dos avós, com identidade oculta; sob ela combatem duramente, sem saber que são irmãos; a cena do “reconhecimento” coroa a amizade entre os dois, bem como os felizes casamentos do epílogo. O leitor habituado ao gênero já terá depreendido aqui ecos do Persival de Chrétien de Troyes ou o comportamento dos heróis da tradição oral, folclórica, cujos parâmetros foram tão bem estudados por Mircea Eliade.

“Há muita gente que ainda pensa que letra de canção é poema”

Renata de Albuquerque

 

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Luiz Tatit empunha o violão. Seja como artista solo, seja como integrante do grupo Rumo, seu sorriso leve alegra o público. Luiz Tatit empunha o giz. É professor titular do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e um dos mais importantes pesquisadores brasileiros quando o assunto é semiótica. Não por acaso, entre seus parceiros musicais estão Arrigo Barnabé e José Miguel Wisnik. Por trás da aparente simplicidade, há uma sofisticação intelectual admirável, fruto de muitos e profundos estudos.

O mais recente exemplo disso é  Estimar Canções – Estimativas Íntimas na Formação do Sentido, em que ele se propõe a “calcular” canções. A seguir, Tatit fala de seu mais novo livro em uma entrevista na qual refuta a ideia de que letras de canções são poemas:

 

De onde surgiu a ideia desse projeto?

Luiz Tatit: O projeto que resultou nesse livro é apenas a etapa mais recente dos meus estudos semióticos e de sua aplicação na linguagem da canção. Como se sabe, a semiótica é a ciência que descreve a construção do sentido nas diversas linguagens (cinema, teatro, música, artes visuais etc.) e eu sempre a apliquei na canção brasileira, mostrando que essa linguagem tem pouco a ver com as linguagens musical e literária, conforme habitualmente se pensa.

 

Luiz Tatit fotografado por Gal Oppido

Luiz Tatit fotografado por Gal Oppido

Qual a importância de estimar canções, do ponto de vista do afeto e do ponto de vista de “mensuração”, como o livro sugere?

LT: Esse título, Estimar Canções, comporta um jogo de palavras que me parece sedutor. Sem desprezar o significado mais óbvio desse verbo (gostar de algo), já que em geral a gente analisa aquilo que gosta, “estimar”, na acepção utilizada no livro, corresponde a “calcular” o tanto de musicalização, oralização, tematização e passionalização que o compositor investe em cada canção produzida. Normalmente, ele começa pela melodia, estabelecendo padrões harmônicos e rítmicos que dão a “levada” da futura canção.  Logo em seguida, começa a pensar na letra e, a cada verso criado, a linha melódica musical se transforma em linha entoativa ou prosódica, na medida em que gera um modo de dizer a letra (como em nossa fala cotidiana). Ou seja, acrescenta um tanto de oralização ao que era apenas musical, como se fosse uma receita culinária. Se acrescentar oralização, a canção pode virar um gênero mais falado, como o rap por exemplo. Se insistir na pureza musical, a canção pode adquirir traços do jazz ou mesmo da nossa bossa nova dos anos 60. A linguagem cancional prevê esses extremos. Esses “temperos” podem também levar a composição para os gêneros em que prevalece a recorrência de motivos melódicos ou mesmo de refrão, como acontece com as antigas marchinhas, com os sambas carnavalescos, os baiões e xotes festivos, a música axé etc. Essas melodias se compatibilizam com letras de exaltação de algum conteúdo (a própria música, o amor, a atitude pessoal, a terra natal etc.) e se alimentam do que eu chamo de tematização. Podemos ter melodias desaceleradas que estendem a duração das notas sem formação clara de motivos e que servem para veicular conteúdos passionais, de busca do objeto desejado (caso dos boleros, sertanejos, sambas-canções e música romântica de toda sorte). São as canções passionais. Em geral, no decorrer das composições, os autores musicalizam, oralizam, tematizam e passionalizam, dosando suas proporções de acordo com o objetivo adotado. Nesse sentido, estimam, calculam o tanto de recursos que devem ser empregados em cada obra.

 

Quais os parâmetros você usou para estimar as canções?

LT: Os parâmetros são os mesmos que utilizamos para apreciar qualquer conteúdo que entra em nossa vida: o mais e o menos. Esses elementos produzem combinações interessantes. Por exemplo, estamos vivendo uma crise imensa no Brasil, na qual a diminuição (ou seja, o menos) tomou conta de quase todas as áreas (menos riqueza, menos projetos, menos honestidade e por aí vai). Um novo governo sabe que dificilmente poria o país num nível de mais. Ele terá que se contentar com menos menos, valor que a semiótica chama de restabelecimento (e o povo chama de menos pior). Caso o processo engrene, poderemos entrar numa zona positiva de mais mais (um recrudescimento), como já tivemos na década passada. Às vezes, o excesso de desenvolvimento, por ser exorbitante, pede atenuações (como vem ocorrendo com a China, por ex.). Nesse caso, temos menos mais. Por fim, um país em franca decadência (talvez a Venezuela ou a Síria estejam passando por isso) vive a condição de mais menos, uma minimização. Esses cálculos são subjetivos (não matemáticos), mas definem nossas apreciações sobre todos os acontecimentos da vida. Por isso disse anteriormente que, na composição de canções, os autores dosam mais ou menos música, mais ou menos fala, mais ou menos tematização e mais ou menos passionalização. Dessas estimativas saem as canções.

Estimar

Capa de “Estimar Canções”

De que maneira a semiótica pode nos ajudar a entender as canções populares?

LT: Como a semiótica estuda a construção do sentido nas diversas linguagens, seus conceitos podem ser aplicados também à canção, conforme exemplifiquei nas respostas anteriores. Esse trabalho com as quantificações subjetivas é uma conquista da semiótica atual.

Como explicar para um leigo os pressupostos teóricos que você usou no livro?

LT: Os livros de pesquisa (como este) servem justamente para explicar aos estudantes e aos leigos interessados como o sentido se forma. Enquanto somos leigos, vivemos o sentido, mas não sabemos como ele se configura. Aliás, ninguém precisa de semiótica para viver o sentido. Todos nós sabemos decodificá-lo. A semiótica é para quem quer compreender a sua construção por meio das linguagens. É como a gramática da nossa língua. Todos nós a utilizamos, mas cabe aos gramáticos explicar como ela funciona.

Que tipo de conteúdo uma leitura como essa pode trazer ao leitor leigo?

LT: Esse livro traz um enfoque sobre a canção que em geral não é considerado. Por exemplo, é comum que se avalie canção do ponto de vista musical, o que pouco ajuda a nossa compreensão sobre essa linguagem. Os quatro “ingredientes” que destacamos (musicalização, oralização, tematização e passionalização) atuam simultaneamente, muitas vezes, dentro da mesma obra. Essa perspectiva pode relativizar a visão musical e mesmo a visão literária. Há muita gente que ainda pensa que letra de canção é poema e que Chico Buarque é um grande poeta. Só que o próprio Chico reitera que jamais escreveu um único verso que não partisse da melodia. Fazer letra é criar compatibilidade com o componente melódico. Isso pode gerar efeitos poéticos, como num filme, numa peça de teatro, mas decididamente não interessa ao cancionista fazer poesia. Coisas assim podem ser esclarecidas nessa leitura.

Conheça outras obras de Luiz Tatit

 

Entrevista com Lucia Mindlin Loeb

Por: Katherine Funke*

Ao saber do enredo de A Casa dos Seis Tostões, a fotógrafa e artista visual Lucia Mindlin Loeb já escala o título como próxima leitura. Seu avô era ninguém menos que o bibliófilo José Mindlin; seu pai é arquiteto e lhe deu a primeira câmera fotográfica. “Fotografava pessoas, animais, casas, livros. Engraçado; fotografava livros. Abertos naquelas páginas de que eu mais gostava, como se não bastassem eles próprios, queria experimentar o fato de registrá-los”, ela conta no Manual de Uso que acompanha Mestrado, livro dividido em 8 volumes de diferentes tamanhos, que repetem a mesma fotografia em todas as páginas.

Nesta entrevista exclusiva para o blog da Ateliê, a artista conta detalhes de sua trajetória, desde o início até os principais desafios em mostras individuais e coletivas, revelando, por exemplo, que tem por livro de referência A Book of Books, de Abelardo Morell, editado em Nova York, em 2002.

Lucia Mindlin Loeb, fotografada pela filha Flora

Lucia Mindlin Loeb, fotografada pela filha Flora

Lucia, seu portfolio vem com o título “O Livro Através”. Ou seja: já deixa claro que a história da sua vida, sua trajetória, seu trabalho, é atravessada pelo “livro”. Pode nos contar um pouco de como isso tudo começou – e quando percebeu que seria sempre assim?

Lucia Mindlin Loeb – Esse título foi inspirado no título de uma exposição de livros, que foi no Metropolitan/NY, organizada por Adrian Wilson em setembro de 1985; The Book Thought Through. O catálogo é um livro fininho de capa vermelha com poucas imagens. Diz na introdução que os livros escolhidos expressam inesperada combinação de materiais e métodos. Não dá para saber direito como foi, nem sei se consegui entender a tradução do título direito, mas eu gosto da ideia de atravessar o livro de alguma maneira. Com um furo, com um pensamento, com uma serra, com um monte de livro pensando sobre o livro.

Pode se dizer que sim, que a minha vida sempre foi cercada por livros. Meu avô começou a formar uma biblioteca ainda menino, e não parou mais. Minha avó tinha uma oficina de restauro e encadernação em casa. Minha mãe se formou em arquitetura, mas sempre trabalhou como artista gráfica de livros. Eram coisas que eu gostava, e gostava de ver eles fazendo. Falo um pouco sobre isso no meu mestrado.

Das suas artes em torno do tema livro, qual foi a que trouxe mais prazer em realizar? Por quê?

LML: Não sei uma específica. Talvez a primeira vez que fiz um trabalho que tem furos e deslocamentos de impressão. Eu deixei na gráfica para furar, e tive que esperar não lembro quantos dias pra ver o resultado, pra ver se tinha dado certo. Abri ali mesmo e foi bem emocionante.

Imagem da obra "Abismo"

Imagem da obra “Abismo”

Você mesma serrou seu livro Abismo?

LML: Eu adoro colocar a mão na realização do projeto. Em todas as etapas que envolvem a produção. Muitas vezes levo para algum outro profissional fazer uma parte, ou mais de uma. Mas tenho uma oficina que me permite fazer bastante coisa (já consigo fazer os furos que tinha que levar pra fazer na gráfica, por exemplo), o que me dá mais agilidade para experimentar.

Não fui eu que serrei o Abismo. Depois de costurado ele ficou quase um cubo de 18 x 18 x 18 cm. Foi bem difícil encontrar alguém que tivesse essa serra e topasse fazer esse corte. A caixa de madeira serviu para prensar as páginas na hora do corte e também como gabarito para cortar uma série de 7 exemplares. Parecia muito simples; prensar e serrar. Mas o volume de folhas e a fibra do papel deixaram o livro mais duro que madeira. Cada exemplar ficou de um jeito, mais ou menos reto, mais ou menos queimado, alguns eu lixei depois, outros não. Mesmo ele tendo sido impresso em offset, teve um acabamento bem manual. Acabei gostando dessas variações.

Algumas de suas ideias parecem nascer em momentos de profunda abstração, ou meditação, em torno do sentido de existência do livro como objeto, como em Devaneio. É isso mesmo? Explique um pouco mais de como tem feito do livro um tema que marca sua assinatura de artista.

LML: As ideias aparecem em momentos variados. As vezes vêm de alguma palavra, de alguma coisa que eu li ou vi, de algum outro trabalho que eu esteja fazendo, de alguma coisa que eu esteja estudando. E quanto mais estiver produzindo, mais ideias vão surgindo. Às vezes de reflexões; e às vezes de ações. Devaneio foi assim: um devaneio sobre um caminhar de páginas, sobre um passeio qualquer (um tanto carioca), organizado em uma sequência, com um corpo. Que desperta uma ilusão de ótica, um devaneio do olhar.

Que referências e influências atuam no seu trabalho?

LML: Muitas referências influenciaram e influenciam meu trabalho, o tempo todo. Muitos fotógrafos, artistas e gráficos. Cinema e literatura. Tudo pode ser alimento. Mas tem um livro que me deixou maluca quando eu vi: A Book of Books, Abelardo Morell. São fotografias em preto e branco, muito bonitas, de livros, lombadas, detalhes da página, do corte do papel, da textura, do volume, e da forma. Aquilo me chamou atenção para a escultura que um livro, ou vários livros juntos, podem ser.

Detalhe da obra "Matriz"

Detalhe da obra “Matriz”

Como surgiu a ideia de Matriz, em que as mesmas fotos (uma para as páginas pares, outra para as ímpares) são repetidas do início ao fim, esvaecendo-se aos poucos?

LML: Matriz é um livro que vai revelando duas imagens, uma sempre na página da direita, outra sempre na da esquerda, que são meus avós fotografando. Nas primeiras páginas não se vê nada, mas aos poucos, com o folhear, as duas imagens vão surgindo, como a imagem latente em um papel fotográfico vai surgindo na bacia do revelador. Ele é um livro sobre isso. Sobre revelação, fotografia, matriz, imagem, memória e herança.

Vendo o panorama de suas realizações, há instalações mais conceituais e de efeito efêmero, como Memória Fotográfica, em que o livro é uma câmara escura capaz de captar as imagens efêmeras dos transeuntes, e objetos em que uma imagem se repete igual, página após página, e se torna tão sólida no livro que faz peso, faz volume, como em Maré e Tronco. Ambos os casos, livro e fotografia são temas em pauta. Além disso, o que essas fases aparentemente tão distintas têm em comum, como base conceitual?

LML: Elas têm em comum uma linguagem circular entre a forma, o assunto e o objeto. Uma troca de ideias, sentidos e materiais, que falam de si próprios. Uma metalinguagem.

Por que alguns de seus livros-objeto ou instalações não têm exatamente “capa”, no sentido mais habitual em um livro?

LML: Alguns dos meus livros não têm capa porque a capa não faz falta neles, porque quero que a costura apareça, ou porque a capa poderia atrapalhar o movimento das páginas.

Qual sua livraria favorita (de qualquer lugar do mundo) e por quê?

LML: Adoro livraria. Grande, pequena, de um assunto, de vários. Gosto da Livraria Cultura, da Livraria da Vila, da livraria da EDUSP, da Martins Fontes, de uma pequena que tem perto da minha casa, da banca do Tijuana, da Banca Tatuí, de todas essas feiras alternativas de livros, como a própria Tijuana, feira plana etc… Estive em Nova York na livraria da Printed Matter. Passei mais de três horas lá, tem muita coisa boa de publicações de artistas, livros experimentais, livros conceituais, livros objetos, livros sobre livros, flip books, revistas e etc. Muito legal!

Frequenta alguma biblioteca pública ou de acesso público, atualmente? Qual e o que indica nela para outros artistas ou amantes das artes do livro?

LML:  Em Belo Horizonte tem a coleção de livros de Artista da UFMG. Organizada pelo Amir Brito Cadôr, ocupa duas salas do prédio da biblioteca central do campus, tem muita coisa bacana e está bem organizada. Também gosto da biblioteca da ECA/ USP, tem muitos livros sobre arte, livros sobre livros, livros obra, livros de artista, dissertações. Assim como a biblioteca do MAC/USP, no Ibirapuera. Também gosto de navegar na internet, tem muita coisa boa. O www.bacanasbooks.blogspot.com.br do Fabio Morais, por exemplo, ou a própria pesquisa no google usando palavras chaves.

Na internet, como fotos de perfil ou retratos de divulgação, você divulga uma foto interessante, feita pela sua filha, de você equilibrando um livro na cabeça…  Como surgiu esta imagem, tão cheia de simbolismo? Foi pensada ou obra do acaso?

LML: Aquela foto (que abre esta entrevista) foi feita para algum evento que participei sobre livros de fotografia, e precisava de uma foto. Pedi pra Flora, minha filha, me fotografar com o Lines of May Hand, do Robert Frank, na minha cabeça, que é um livro que eu adoro. Não é uma coletânea de fotografias, é um livro com pensamento de livro. Na estrutura, na narrativa, na sequência, no ritmo.

Como mãe, gosta de ler para sua filha? (Qual a idade dela e que tipo de livro estão lendo agora?)

LML: Sempre gostei de ler para minha filha, mas agora ela tem quase 15 anos, já tem suas próprias leituras. No ano passado ela leu para a escola O Apanhador no Campo de Centeio. Me deu vontade de ler de novo, li e adorei. Quando ela era pequena alguns dos bestsellers eram: O Sapo Bocarrão, Chapeuzinho Amarelo, Carlota quer Ser Princesa, Um Garoto Chamado Rorbeto, De Passagem do Marcelo Cipis, que não tem texto, mas era ótimo pra gente inventar histórias, entre outros. É verdade que ainda hoje leio um pouquinho pra ela, algum conto, ou outra coisa qualquer.

E você, pessoalmente, gosta de ler o que, quando apenas deseja curtir o hábito de leitura?

LML: Gosto de ler. Acho que a leitura é além de uma fonte de prazer, uma espécie de meditação. Acabei de ler Zazie no Metrô do Raymond Queneau, antes estava lendo Murakami, e agora vou ler A Casa dos Seis Tostões, aproveitando a dica que veio com essa entrevista.

Conheça mais sobre a obra de Lucia Mindlin Loeb:

https://vimeo.com/138408266

https://vimeo.com/138407629

https://vimeo.com/135132379

https://vimeo.com/111785486

https://vimeo.com/103371437

https://www.youtube.com/playlist?list=FL-1152QN7mEhfp1B2wfONPA

*Escritora, jornalista e mestranda em Literatura pela UFSC.

Para entender Proust

Por: Renata de Albuquerque

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Psicanálise e Literatura têm, desde longa data, uma relação muito próxima ao ponto que o psicanalista suíço François Ansermet disse que a literatura inventou a psicanálise. Édipo de Sófocles e Hamlet de Shakespeare fundamentaram a teoria psicanalítica desde o início. A crítica literária feita com o auxílio dos conceitos vindos da psicanálise resulta, não raro, em descobertas que ajudam o leitor a entender camadas mais profundas da ficção e a compreender significados, muitas vezes “escondidos”.

Em “Os Processos de Criação em À Sombra das Raparigas em Flor – A Pulsão Invocante e a Psicologia no Espaço em Proust”, o professor aposentado da USP de formação psicanalítica, Philippe Willemart, toma como base conceitos de Jacques Lacan e Pascal Quignard, “que insistem no lugar central da pulsão invocante nestas tentativas de captar o Real no ato da escritura e da leitura” para tratar do personagem Bergotte e pensar sobre um aspecto bastante específico da obra do autor francês na primeira parte de À Sombra das Raparigas em Flor, “Em torno da sra. Swann”.

 “A riqueza da invenção proustiana consiste em contar com a dimensão temporal a sua maneira, isto é, esquecendo o fluxo cronológico do tempo. Parecido nisso com o que realiza o analisante no divã, o narrador mostra uma lógica dos acontecimentos que não depende das reminiscências no sentido platônico do termo, mas de uma memória simbólica ou lógica que, a partir de uma primeira lembrança, tenta se constituir”, explica Willemart na Introdução do estudo.  O ensaio tem como origem as aulas ministradas aos estudantes do último ano da graduação em francês na Universidade de São Paulo.

Philippe Willemart, que já publicou diversas obras, é membro fundador do Laboratório do Manuscrito Literário ligado ao Núcleo de Apoio à Pesquisa em Crítica Genética (NAPCG) da Universidade de São Paulo e foi um  dos fundadores da Associação dos Pesquisadores em Crítica Genética. Sua pesquisa tem como foco o manuscrito literário através dos manuscritos de Flaubert, de Proust e Bauchau. Ainda orienta doutorandos e pós-doutorandos, além de coordenar a equipe Proust de São Paulo e de fazer parte da equipe Proust do Institut des Textes et Manuscrits Modernes do CNRS (França). A seguir, ele fala sobre seu mais recente livro:

 

Quando começou a estudar Proust? O que o fez se interessar por ele?

Philippe Willemart: A obra de Proust consta do currículo de Letras Francesas da USP onde comecei a lecionar em 1976. Publiquei o primeiro livro Proust, poeta e psicanalista em Paris em 1996 e, no Brasil, pela Ateliê Editorial em 2000. Mas já tinha um interesse especial por Proust quando, em 1993, publiquei o artigo Les sources de l’art et de la jouissance chez Proust na revista de Universidade de Paris VIII Littérature. Como testemunham o título deste artigo e meu primeiro livro sobre a obra proustiana, Proust me parecia bem próximo das descobertas freudianas, o que suscitou meu interesse.

Philippe Willemart

Philippe Willemart

Por que a escolha por À Sombra das Raparigas em Flor e qual o motivo de um recorte tão específico,  já que o senhor analisa somente a primeira parte do primeiro capítulo da obra?

PW: A primeira parte do livro é a transcrição das aulas dada na Universidade. Tinha publicado análises do primeiro e do último volume, No caminho de Swann e o Tempo Redescoberto em Proust, Poeta e psicanalista; em seguida, do terceiro volume, O caminho de Guermantes em Educação sentimental em Proust em 2002 e enfim, do quarto volume, a Prisioneira em Tratado das sensações em “A Prisioneira” de Marcel Proust em 2008. Faltavam o segundo, o quinto e o sexto volume. O segundo foi contemplado, mas o quinto e o sexto ainda são uma promessa.   O recorte decorre do número de aulas limitado a 12 ou 13 num semestre.

 

Quais os processos de criação que Proust utilizou em À Sombra das Raparigas em Flor? O que diferencia esse volume do restante de Em Busca do Tempo Perdido em termos de composição?

PW: Há vários processos de criação que o leitor descobrirá nas análises. Citá-los tiraria a surpresa da leitura.  Mas ficou claro que insisti na pulsão invocante explorada através do personagem Bergotte, diferenciando seu pensamento, sua voz e seu estilo que reflete a estética proustiana. Ressalto a segunda parte do livro que trata especificamente da crítica genética na qual tento entender melhor os movimentos da escritura através das rodas da escritura e da leitura. A teorização da escritura literária que estou construindo aos poucos permite mergulhar o manuscrito neste virtual imaginário e torna-lo mais inteligível com a nova abordagem.

 

Qual a contribuição dos cadernos manuscritos de Proust para a composição do volume que agora o sr. lança pela Ateliê?

PW: O estudo dos cadernos proustianos são fundamentais por vários motivos. Um deles é entender como não há um romance proustiano, mas vários não publicados porque abandonados, cada rasura corta uma evolução possível e encontra outro caminho para desenvolver a narrativa. Os rascunhos permitem distinguir o essencial da narrativa. É o caso, por exemplo, da substituição de Gabriel d´Annunzio por Anatole France, que sublinha a vontade do autor de destacar não a personagem histórica, mas a fama de qualquer homem ilustro que dá impressão do sublime ao herói. A adjetivação era importante e não o substantivo personagem. Os cadernos  confirmam ou desmentem uma interpretação do crítico, mostram as hesitações do escritor que conseguem ou não se desligar dos hábitos e da tradição literária para a construção de uma personagem, lhe atribuindo qualidades que passaram em seguida, para outra. Também ajudam a entender o agenciamento dos episódios que de instáveis, aos poucos ficam estáveis e invariantes na narrativa e a constatar o afastamento progressivo da biografia do escritor no decorrer da construção do romance.

proust

O escritor Marcel Proust

 

É comum o uso dos manuscritos como “material de apoio” à análise da obra proustiana?

PW: O uso dos manuscritos  ainda não está generalizado, mas à medida em que os cadernos serão editados pela Editora Brepols de Turnhout (Bélgica), isto é, fotografados e transcritos, será até normal utilizá-los. Dos 75 cadernos, a Editora publicou até hoje os cadernos 26, 54, 71, 53 e 44. Mas todos são acessíveis em imagens embora não transcritos no site da Biblioteca Nacional de França no site : gallica.bnf.fr

 

Há um importante viés psicanalítico (com ênfase, salvo engano, em Lacan) na análise da obra de Proust apresentada neste livro. Quais são os aspectos psicanalíticos mais relevantes para o entendimento de À Sombra das Raparigas em Flor?

PW: Construí a roda da escritura apoiado nas pulsões descritas por Lacan, notadamente as  pulsões oral e escópica que se referem à pulsão do ouvir ou invocante. O estudo do escritor Bergotte e do pintor Elsir comprovam a relação da pulsão com a arte de escrever ou de pintar.

 

Para este ensaio, o senhor utilizou apenas o original em francês ou também alguma tradução em português? Esta pergunta se justifica pois existe mais de uma tradução em português para À Sombra das Raparigas em Flor, uma delas, inclusive, feita por Mario Quintana. Sabendo-se do viés psicanalítico que sua análise da obra possui, qual a importância de tomar uma ou outra tradução específica para poder compreender os conceitos? Ou, ainda: é fundamental tomar o texto original, em francês? Quais as implicações da escolha por uma ou outra tradução?

PW: As aulas eram dadas em francês para alunos de francês; portanto, líamos apenas a edição original. Para a edição na Ateliê, usei a nova edição da Globo dirigida por um proustiano experiente, Guilherme Ignácio da Silva, ex-orientando, agora professor na UNIFESP, que, aliás assinou a apresentação do livro.

Por outro lado, acho fundamental trabalhar com o original sempre que puder, já que as traduções, por melhores que sejam, traduzem o embate entre dois universos culturais. A sonoridade da língua proustiana encanta quem sabe ouvir, o que a tradução dificilmente torna visível.

 

Revista LIVRO é “compromisso com a qualidade e o amor ao objeto livro”

Por: Renata de Albuquerque

A LIVRO – Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição – acaba de chegar ao número cinco, ultrapassando a “barreira do quarto número”. O objetivo da publicação – pensar o livro como um objeto que carrega significados e conteúdos para além dele mesmo – cumpre-se, desta vez, com a participação de mais de duas dezenas de colaboradores renomados em diversos setores, do acadêmico ao editorial. Entre eles estão Jean-Pierre Chauvin, Mônica Gama, Iuri Pereira e Marisa Midori Deaecto, editora da publicação e com quem o Blog da Ateliê conversou a respeito:

Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins, editores da Revista LIVRO

Marisa Midori Deaecto e Plínio Martins, editores da Revista LIVRO

Qual o tema central desta edição da Livro?

Marisa Midori Deaecto: Na verdade, o tema central é o livro. É o objeto de estudo privilegiado pelos editores e pelos autores para a construção da revista. O propósito da publicação é justamente o de valorizar o caráter múltiplo do livro, o que provoca, por extensão, múltiplas frentes de investigação. O que a revista traz como diferencial para cada número é o que chamamos de dossiê temático, ou seja, em todos os números convidamos autores para contribuir em algum campo em comum e reunimos estes estudos sob a forma de um dossiê. O número 5 traz artigos reunidos no Dossiê Tipografias. Com isso, nossa intenção é a de valorizar estudos sobre a arte do livro, tendo como chave a própria palavra tipografia, que se tornou, ela também, polissêmica.

Com base em que parâmetros foram escolhidos os colaboradores desta edição?

MMD: Os colaboradores se auto convidam ou são convidados. Como a revista tem uma tradição, pois manteve sua permanência e se fixou como a principal revista especializada em estudos do livro no Brasil, então é natural que sejamos procurados. Há outro aspecto: ela não se fecha para a produção acadêmica. Entendemos que o livro é objeto de admiração e de estudos por toda parte, não apenas por aqueles que atuam nas universidades. Vem daí o amplo interesse que a revista desperta.

 

PRIMEIRA CAPA REV LIVRO 5Ao iniciar o trabalho, como foi o convite feito aos colaboradores? Havia alguma preocupação com um fio condutor ou os temas abordados eram livres?

MMD: Não, uma revista se diferencia de um livro pelo fato de ser uma obra aberta. Quando começamos, não sabemos no que vai dar. A boa surpresa é que o trabalho resulta sempre em volumes alentados e muito interessantes. E volumes bem diferentes uns dos outros. Aliás, quem coleciona nossos números não encontra artigos com temas repetidos. Se considerarmos que a revista soma aproximadamente 1500 páginas, isto é um grande feito!

 

 

O editorial fala da importância da revista ter chegado à quinta edição e do apoio que receberam de vários pesquisadores. Quais são os desafios de manter uma publicação como essa e por que ela se tornou referência para se pensar sobre o papel da comunicação?

MMD: Há uma lenda que diz que as revistas independentes não sobrevivem ao quarto número. Se nos basearmos nessa premissa, o número 5 é um feito histórico. Recebemos o apoio irrestrito dos autores que confiam em nosso trabalho e na qualidade editorial da revista. Este ponto é muito importante, pois há estudiosos brasileiros que se preocupam com a pontuação que um determinado artigo poderá lhe render no ranking acadêmico. Esta preocupação não existe entre nós. Editores e autores firmam seu compromisso com a qualidade e o amor ao objeto livro. Mas revista é um artigo de venda difícil. Mais difícil do que vender livro. Primeiro porque, na cultura acadêmica, as revistas são feitas para seus pares, muitas são financiadas por programas de pós-graduação, portanto, não são vendidas, são distribuídas. Segundo, porque fora do mundo acadêmico não existe a cultura de venda e aquisição de revistas extremamente especializadas como a nossa. Terceiro, somando um e outro aspecto, porque os canais de distribuição são raros, raríssimos. No nosso caso, eles dependem da editora e dos parceiros, ou seja, da ajuda de autores, artistas e dos conselhos editorial e científico. Mas a LIVRO segue como referência nos estudos da área e, de forma mais abrangente, nos estudos sobre a comunicação, entendendo, aqui, o livro e o impresso – pois há matérias sobre a imprensa jornalística, sobre revistas etc. – como um componente poderoso da comunicação. O livro é uma media, logo, revelar seus múltiplos aspectos constitui um exercício fundamental de análise e reflexão sobre a comunicação no sentido histórico, sociológico e econômico.
O próprio editorial da edição trata do fato de que o Brasil tem mudado muito rapidamente nos últimos tempos. Quais são as mudanças que poderiam ser destacadas e de que maneira elas são abordadas nessa edição?

MMD: O editorial trata de uma crise sistêmica que começa na política, ou termina na política, mas que tem suas raízes em uma crise que, na falta de termo mais seguro, poderíamos chamar de uma crise estrutural do país.

 

A intolerância é a expressão mais trágica e eloquente deste cataclismo social que estamos vivendo.

Porém, aparentemente, nada muda nas análises sobre o livro. Elas continuam e o interesse de autores e leitores sobre a revista só aumenta. Já temos matérias para o número 6. O que mudou, talvez, foi o estado de espírito de seus editores. Mas isto certamente não tem uma influência direta na edição.

 

Como uma publicação anual pretende dar conta dessas rápidas mudanças? Como essas mudanças refletiram nesta edição da Livro? 

MMD: A revista não tem a pretensão de abraçar as mudanças em tempos reais. Ela é editada por um editor de profissão e por uma historiadora convertida em editora. Logo, há poucas chances de querermos abraçar o presente. Mais vale pensar na perenidade das palavras impressas e no potencial do livro para a preservação da memória dos homens.

 

Qual a importância do livro (e do saber) para que possamos sair deste momento de crise social, política e econômica? 

MMD: Já escrevi noutra ocasião que o livro é um instrumento de fuga e de transformação. São dois caminhos opostos e contraditórios e cabe ao leitor fazer as suas escolhas. Mas tudo está no livro, desde que bem escolhido e bem lido! O livro é um instrumento para se compreender o mundo sem pressa. No jornal estão as informações do dia a dia. No livro estão os instrumentos para se pensar além. Às vezes é preciso sublimar a realidade dura descrita nos jornais para uma compreensão mais profunda dos fatos e para a sua superação. Às vezes, no entanto, é preciso apenas sublimar a realidade que nos cerca, pois isto faz bem à alma. Também nesse caso a leitura se apresenta como uma forma de panaceia do mundo. É por isso que nossa revista investe também em uma seção literária muito incomum na cultura periódica brasileira de nossos dias. Publicamos prosa e poesia em português ou em traduções inéditas, tudo sob a curadoria e edição do Prof. José De Paula Ramos Jr., um grande especialista de Mario de Andrade, professor da USP dedicado ao ensino da ecdótica.

Produção Gráfica para Designers, de Mark Gatter, chega ao Brasil em tradução inédita

Production for Print, obra considerada referência mundial quando o assunto é produção e design, chega ao mercado editorial brasileiro

Por: Renata de Albuquerque

capa produção gráfica

Para que qualquer trabalho seja impresso em papel, há um longo caminho, que envolve diversos profissionais, a ser percorrido. Para evitar erros, não basta ter atenção e conhecer profundamente os detalhes da sua própria atividade. Muitas vezes, é preciso conhecer também o trabalho de outras etapas do processo. É o caso do trabalho dos designers gráficos, que precisam entender detalhes do trabalho das gráficas, para entregar os arquivos de maneira que não haja necessidade de retrabalho ou margem para erros na impressão.

Foi a partir de sua experiência como designer gráfico, e para ajudar os demais designers a conhecerem detalhes de outras etapas do processo em que estão envolvidos, que Mark Gatter compilou o vasto conhecimento adquirido na indústria gráfica, tanto nos EUA quanto na Inglaterra, no livro Production for Print. O livro, que se tornou uma referência mundial na área, acaba de ser traduzido para o português por Alexandre Cleaver e ganhou uma edição caprichada, com o título de Produção Gráfica para Designers. Para falar sobre a novidade, o Blog da Ateliê entrevistou o revisor técnico da obra, Thiago Cesar Teixeira Justo.

Ele é mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP, graduado em Desenho Industrial pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e técnico em pré-impressão pela escola SENAI Theobaldo De Nigris. Há mais de cinco anos, é professor no curso de graduação e pós-graduação da Faculdade SENAI de Tecnologia Gráfica, ministrando disciplinas ligadas a tecnologia de impressão digital e pré-impressão.

 

Qual a importância do lançamento deste livro em português?

Thiago Cesar Teixeira Justo: O livro ajuda o designer gráfico a dominar os principais itens referentes a produção gráfica de um trabalho impresso em offset, deste modo o designer pode ter um maior controle sobre os trabalhos que envia para a gráfica e pode ganhar muito tempo de produção, caso não disponha do serviço de um produtor gráfico. Sabendo da grande diferença entre a língua inglesa e o português e da pequena parcela da população brasileira que não dominam o inglês, a importância de traduzir este livro é a de proporcionar o acesso a este conteúdo as pessoas que não dominam o inglês, inclusive entre os universitários, já que a obra pode ser adotada em faculdades.

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Ilustração da página 32 do livro

Quais são os erros mais comuns que os designers gráficos cometem e que comprometem significativamente a qualidade da impressão?

TCTJ: Falta de sangria no documento, textos preto de corpo pequeno que contém as quatro cores de impressão, escolha de perfil de cor errado no momento de tratar uma imagem para impressão, sem esquecer a falta de trapping e overprint.

 

Qual o público-alvo de leitores desta obra? 

TCTJ: Designers gráficos, são o público principal, mas a obra pode servir para publicitários que atuam na criação de peças gráficas; marqueteiros que trabalhem com criação; artistas plásticos e fotógrafos que produzem peças para impressão; e jornalistas, diagramadores e ilustradores que pretendam dominar conhecimentos básicos de produção gráfica.

 

Por que é importante para um designer gráfico já profissional conhecer as “reais necessidades do processo de impressão”, como aponta o autor no prefácio do livro?

TCTJ: Porque assim ele já pode fazer o projeto ciente das limitações técnicas das tecnologias de impressão que serão utilizadas. Dominar as necessidades do processo de impressão também contribui para menos retrabalho e insatisfação com o resultado do produto gráfico finalizado. Isso acelera o processo à medida que não precisa da análise de um profissional de fora da área de criação, também contribui para menos retrabalho do designer, caso precise corrigir o trabalho por causa de alguma especificação técnica que possa prejudicar o resultado final do trabalho impresso.

 

De que maneira ele pode contribuir com o trabalho dos profissionais da área de design?

TCTJ: Como a maioria dos designers não possui conhecimento profundo em produção gráfica, o livro contribui para esclarecer os principais aspectos técnicos que devem ser verificados ao enviar um trabalho para ser reproduzido em tecnologia de impressão offset.

 

 

 

 

Euclides da Cunha: 150 anos de um dos primeiros grandes intérpretes da cultura brasileira

Por:  Renata de Albuquerque

Em 2016, comemoramos os 150 anos de nascimento de Euclides da Cunha. O escritor fluminense– que foi engenheiro, militar, naturalista, jornalista, geólogo, geógrafo, botânico, cartógrafo, hidrógrafo, historiador, sociólogo, e escritor – escreveu o clássico Os Sertões,  no qual retrata a Guerra de Canudos. Para falar sobre esta importante figura, o Blog da Ateliê entrevista Leopoldo M. Bernucci, professor do Departamento de Espanhol e Português da Universidade da Califórnia em Davis (EUA), para quem a leitura do autor de Os Sertões tem uma atualidade surpreendente. Bernucci é responsável por edição, prefácio, cronologia, notas e índices do livro Os Sertões – Campanha de Canudos e também pela apresentação de Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, ambos da Ateliê Editorial.

Leopoldo-BernucciQual é a sua ligação com Euclides da Cunha? Como surgiu o seu interesse nesse escritor e de que maneira aprofundou seus estudos e conhecimentos a respeito?

Leopoldo M. Bernucci: As minhas primeiras incursões, como estudioso, no universo literário de Euclides foram realizadas por volta de 1981, ano em que o romance do escritor peruano Mario Vargas Llosa, A Guerra do Fim do Mundo – que trata da Guerra de Canudos – foi publicado. Naqueles anos eu estava terminando o meu mestrado em Literatura Hispano-Americana na Universidade de Michigan, Ann Arbor, MI, U.S.A., depois de me formar na USP também em Letras. Foi um encontro fortuito e curioso, porque se não fosse talvez pelo interesse que eu já tinha pela literatura de Vargas Llosa, não teria chegado a Euclides da forma como cheguei. A partir desse momento, já não pude deixar de estudar a obra euclidiana, tanto pelo lado fascinante do seu universo artístico, científico, retórico e histórico como também pela necessidade de aprofundar certos aspectos de sua obra que haviam sido examinados, porém, de modo muito superficial; e outros que nem haviam sido tocados ainda.

A maneira pela qual eu fui me adentrando nos textos de Euclides foi em primeiro lugar pela via comparada; e depois, estudando os manuscritos do autor, dispersos em diversas bibliotecas, públicas e privadas, e em arquivos. Essa investigação arqueológica dos textos de Euclides foi para mim reveladora, porque descobri de repente coisas que nunca imaginara que ele pudesse ter escrito e que ficaram sem publicar durante todos esses anos; e também porque muitas vezes o estudo dos manuscritos ilumina a compreensão de textos seus já publicados, mas ilegíveis em certas passagens, dado que a porcentagem de erros tipográficos é muito alta, e sem dúvida cria um obstáculo à leitura. Assim, a comparação entre texto publicado e manuscrito lança luz sobre esses aspectos obscuros e equivocados, e oferece uma boa oportunidade para esclarecê-los ou corrigi-los em edições modernas mais cuidadosas. O que eu estou descrevendo se refere principalmente aos livros mais tardios do autor e que passaram por mãos de revisores incautos: Contraste e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907) e À Margem da História  (póstumo, 1909).

 

Neste ano em que se comemoram os 150 anos de Euclides da Cunha, é possível fazer um balanço de qual foi sua contribuição para o jornalismo e a literatura no Brasil?

LMB: Sem dúvida. A contribuição de Euclides da Cunha é enorme, tanto para o jornalismo como para a literatura e, acrescento ainda, as ciências, a cultura e a nossa história. Não devemos nos esquecer de que Euclides foi também um militante ativo em prol da República, e que portanto defendia os ideais democráticos constantemente em seus artigos na imprensa. Sintetizando, poderíamos dizer que ele é um dos primeiros grandes intérpretes da cultura brasileira. Euclides nos mostrou esse talento, principalmente, através de Os Sertões, mas também em outros textos sobre a Amazônia, por exemplo, publicados em Contrastes e Confrontos e À Margem da História. A sua obra magna, Os Sertões, quando publicada em 1902, elevou a sua estatura de excelente e combatente escritor mais ainda. Descobriu-se que seu dom literário e historiográfico era agudíssimo e essa obra não só começou a ser lida como livro de história mas também como obra literária, já que o seu belo e complexo discurso se equipara ao dos melhores romances da literatura mundial. A alta qualidade retórica da linguagem de Os Sertões por si só faz dele um dos grandes livros da literatura brasileira de todos os tempos. Esta, quando aliada ao desenho épico do livro e a sofisticados recursos estilísticos e retóricos, já bastaria para defini-lo como objeto dos estudos literários, sem que – e isto é muito importante frisar – o  consideremos ficcional. A feliz adequação de um achado estético (sua linguagem) ao assunto histórico é o que transforma esta obra em objeto de arte, salvando-a de permanecer somente no mundo da historiografia ou do ensaio sociológico, como também Os Sertões pode ser lido, evidentemente. Para concluir a minha resposta a essa pergunta, devo repetir algo que já disse alhures: que a dívida de Euclides para com o jornalismo é enorme. Na imprensa, como jornalista, ele encontrou um modo de apresentar suas ideias antes de lançá-las em capítulos de livros escritos mais tarde por ele. Fora dela, na sua condição de leitor, Euclides canibalizou artigos e editoriais que foram absolutamente importantes para a confecção da sua narrativa sobre Canudos (ver sobre este assunto o meu livro A Imitação dos Sentidos: Prógonos e Epígonos de Euclides da Cunha).

A atualidade de Euclides da Cunha é enorme e até surpreendente. Leio trechos de seus escritos que serviriam muito bem para entender os dias que estamos vivendo no Brasil

Qual o legado dessa importante figura ainda hoje?

LMB: A atualidade de Euclides da Cunha é enorme e até surpreendente. Leio trechos de seus escritos que serviriam muito bem para entender os dias que estamos vivendo no Brasil. Nesses textos encontram-se observações sobre o desrespeito à democracia durante a primeira República, a perniciosa herança do colonialismo, o populismo, a perda da Razão como resultado do fanatismo político e religioso, o favoritismo político, a corrupção do governo e o esvaecimento da confiança nas instituições públicas. A sua crítica à nossa cultura e ao nosso modo de ser, plasmada naquilo que Sérgio Buarque de Holanda chamaria depois o “homem cordial”, não poderia ser mais clara em alguns de seus escritos. Em suma, Euclides quando escrevia não podia deixar de fazer sempre um balanço da destruição paulatina, embora vigorosa do nosso idealismo, tão aviltado pelos interesses individuais e mesquinhos e pelos vícios de políticas interesseiras em detrimento da coisa pública. É claro que, diante deste quadro Euclides já preludiava o que estamos vendo hoje em dia: a dificuldade e até mesmo a impossibilidade de conceber uma nação genuinamente republicana e democrática, dedicada ao bem-estar público e não ao privado. Compartilhamos do seu ceticismo daquela época porque é o mesmo ceticismo que vivemos hoje com respeito ao nosso país. Assim, damo-nos conta de que, infelizmente, pouca coisa mudou desde então.

 

capa sertoes

A edição da Ateliê de Os Sertões – A Campanha de Canudos tem notas, prefácio e cronologia de sua autoria. Pode, por gentileza, contar-nos como foi realizar esse trabalho, quais foram os maiores desafios desse grande projeto? Quanto tempo o senhor esteve envolvido nesse trabalho?

LMB: A ideia dessa edição partiu de dois grandes amigos meus, Plínio Martins Filho, editor da Ateliê e do nosso saudoso Ivan Teixeira, professor também da ECA. Na verdade, eles foram os que, de modo conceitual, me sugeriram essa edição com esse formato. Eu gostei da sugestão e comecei a trabalhar imediatamente nesse projeto. Acredito que foi por volta de 1995, quando eu morava no Colorado, que dei início a essa edição. Foram meses dedicados a esse projeto, entre outros afazeres do meio acadêmico, evidentemente. A nossa preocupação era oferecer uma edição que mantivesse o maior respeito pelo texto de Euclides e que facilitasse a leitura de Os Sertões. Euclides é um escritor difícil, sem dúvida, mas quando conseguimos romper essa camada de dificuldades de seu texto, o prazer de lê-lo, então, torna-se insuperável. Os maiores desafios, para mim foram, em primeiro lugar, fazer toda a pesquisa das fontes do livro. Em seguida, e isto não era menos desafiante, tive que estabelecer o texto, isto é, “corrigi-lo”, comparando-o com as primeiras edições publicadas e com os fragmentos de manuscritos. Esta última tarefa era necessária para que obtivéssemos uma melhor leitura, inclusive no que diz respeito à virgulação e à pontuação dessa obra. Finalmente, e isto foi mais prazer do que trabalho, era necessário mostrar em forma de Prefácio ao leitor o tipo de livro – aliás único na história da literatura do Brasil – que ele é, no qual se convergem diferentes discursos emprestados de várias disciplinas, escolas literárias ou determinados livros: história, arquitetura, botânica, geologia, a Bíblia, barroco, romantismo, épica e estratégia militar.

 

capa odisseia nos tropicosO senhor também é responsável pela apresentação do volume Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos. Em sua opinião, qual o diferencial e a importância dessa obra? É um título de interesse apenas para quem estuda o tema ou é uma obra de interesse geral, que pode ser entendida pelo grande público? Por que ela deve ser lida?

LMB: O trabalho biográfico executado por outro grande amigo, já falecido, o Prof. Frederic Amory, daqui da Califórnia, é um complemento a certas biografias em forma de livro mais antigas ou esboços biográficos de Euclides. Em primeiro lugar, refiro-me às biografias de Francisco Venâncio Filho, Eloy Pontes, Leandro Tocantins, Olímpio de Souza Andrade, Sylvio Rabello; em segundo, aos escritos de Oswaldo Galotti, Walnice Nogueira Galvão, José Carlos Barreto de Santana, Roberto Ventura e outros. O que diferencia a biografia de Amory dos textos biográficos escritos anteriormente a essa obra é a estrutura, o escopo e o ângulo da análise de Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos. Estruturalmente, o autor distribui os vários capítulos do livros, sempre em ordem cronológica, dando-lhes títulos sugestivos que emblematizam o ponto principal de cada momento histórico. “A Ponte e o Livro”, por exemplo, narra esse Euclides nos melhores momentos de sua atividade de engenheiro e homem de letras, às vésperas da publicação de Os Sertões. No que diz respeito ao escopo, o livro serve tanto para um iniciante quanto para um leitor mais familiarizado com Euclides. Quanto às análises ali oferecidas, deve-se mencionar a capacidade de erudição e de síntese do biógrafo, quando, por exemplo, ele se debruça sobre dois ensaios de Euclides: “O Primado do Pacífico” e “Estrelas Indecifráveis”. No primeiro, Amory resgata para nós o melhor de Euclides, a sua enorme curiosidade pela História das grandes civilizações e o seu método de arguir sempre criativo quando aplicado a um assunto contemporâneo a ele; no segundo, o crítico norte-americano demonstra o seu profundo conhecimento histórico da Idade Clássica greco-romana e das religiões, fazendo-nos ver ainda, mais uma vez, que é impossível desvincular ciência e arte no pensamento crítico de Euclides. Por não ser brasileiro, Amory lança um olhar distanciado sobre a vida do escritor fluminense, adotando uma perspectiva de alguém de fora da nossa cultura, o que criticamente resulta ser muito salutar neste caso. Os exemplos poderiam se multiplicar, mas este dois dão ao leitor uma ideia de como pela primeira vez os principais ensaios euclidianos foram abordados nas suas minúcias, utilizando-se de um instrumental de alta qualidade e de verdadeiro scholar.

 

Em sua opinião, o trabalho de Euclides da Cunha recebe, no Brasil, o valor devido? Por quê?

LMB: Acredito que sim, mesmo porque, salvo engano, ele é o autor que sustenta a mais extensa bibliografia crítica até hoje, mais extensa que a de Machado de Assis, para ficar com uma comparação. Mas, cuidado. Estamos vivendo um momento problemático e de crise da leitura. Euclides é uma “dor de cabeça muito gostosa”. Ele demanda paciência e releituras. Ele também nos fascina com a sua escrita ao mesmo tempo que nos provoca e nos desafia a pensar criticamente. Euclides nos convida ainda a raciocinarmos de forma lógica sem prejuízo da paixão que tenhamos pela arte e pela imaginação. Este é, a meu ver, o grande legado que ele nos deixou.

 

Como é a recepção da obra de Euclides da Cunha no exterior?

LMB: Eu não poderia falar senão de modo mais geral sobre este assunto,  já que não temos dados estatísticos ou comprovantes de leitura para o continente Europeu e Ásia, por exemplo. Portanto a minha opinião é bastante informal e se limita aos Estados Unidos, país onde moro e trabalho há 38 anos, e onde esses medidores existem. Infelizmente, Euclides da Cunha como tantos outros grandes escritores brasileiros não é um bestseller e assim é pouco lido nos Estados Unidos, sendo que aqueles que o leem são alunos e professores de nível universitário na sua grande maioria. Dentro deste círculo restrito de leitores, a obra de Euclides é bastante discutida e estudada e as produções acadêmicas (livros e artigos) vem comprovar este fato. O problema da recepção de Euclides no exterior não tem nada a ver com ele como tampouco estaria relacionado a quaisquer outros grandes autores. Tem a ver com uma política cultural que nunca se fez de forma eficiente no Brasil. Ao longo dos anos, as agências do governo brasileiro não têm investido inteligentemente neste aspecto e acredito que nem mesmo a Academia Brasileira de Letras tem feito algo duradouro para que as letras brasileiras sejam conhecidas e continuem sendo apreciadas lá fora.O problema não é só divulgar os autores numa feira como a de Frankfurt, por exemplo, ou algo parecido, mas de criar e manter um sistema de divulgação constante. Nessa política, se é que ainda existe hoje em dia, falta a continuidade, fato tão necessário para não desacelerar o momentum da divulgação e publicidade. A feira de livros termina e com ela se esfuma da memória os nomes dos nossos melhores escritores. Eis um assunto intrigante. O Brasil com uma respeitável literatura nacional que pode competir facilmente com a de outros países latino-americanos, lamentavelmente não possui um só caso de Prêmio Nobel. Em contrapartida a Guatemala possui um, Miguel Ángel Asturias; o Chile dois: Gabriela Mistral, amiga e contemporânea da grande Cecília Meireles, e Pablo Neruda; o México um, Octavio Paz; e o Peru também um, Mario Vargas Llosa. Com grande probabilidade, Carlos Drummond de Andrade ou Clarice Lispector poderiam ter recebido este prêmio se a visibilidade deles tivesse sido trabalhada de modo eficaz nos setores diplomáticos e culturais fora do Brasil.

 

Coleção Artes&Ofícios tematiza preservação e restauração

Restauração de peça em museu

Restauração de peça em museu

Por: Renata de Albuquerque

Na semana em que se comemora o Dia Internacional dos Museus, o Blog da Ateliê  entrevista a arquiteta Beatriz Mugayar Kühl. Formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, com especialização e mestrado em preservação de bens culturais pela Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica, doutorado pela FAUUSP e pós-doutorado pela Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, ela já publicou, entre outros, os livros Arquitetura do ferro e arquitetura ferroviária em São Paulo (São Paulo, Ateliê/FAPESP/SEC, 1998), Preservação do patrimônio arquitetônico da industrialização (Ateliê/FAPESP, 2009). É responsável pela tradução e publicação de vários títulos da Coleção Artes&Ofícios da Ateliê.

Para suprir uma lacuna e atender um público que cresce e torna-se exigente a cada dia, a Coleção Artes&Ofícios traz importantes traduções de textos quase esquecidos a respeito do restauro de monumentos, de obras de arte e do próprio ofício, além de tratar da qualidade do trabalho de artistas de várias áreas.

“A coleção possui vários textos que oferecem fundamentação teórica para a atividade prática do conservador-restaurador, cujo papel nos museus é de essencial importância”, afirma a arquiteta, que é professora do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto e atualmente é chefe de Departamento (AUH-FAUUSP).

 

Como nasceu a Coleção Artes &Ofícios da Ateliê?

Beatriz Mugayar Kühl: A coleção nasceu a partir de uma conversa informal com o Plínio Martins Filho,  em que comentei os problemas de se trabalhar com temas de restauração com os estudantes da graduação e da pós-graduação na FAUUSP (onde sou professora desde 1998),  pela dificuldade de acesso a alguns dos textos fundamentais sobre o tema, seja por serem em língua estrangeira, ou por terem edições raras ou esgotadas. O problema era como discutir os fundamentos teóricos de uma disciplina sem que se tenha acesso aos textos que alicerçam o campo? Mencionei que havia feito uma tradução do Verbete Restauro do Viollet-le-Duc – para um curso da FUPAM em 1997 – em que havia sido assistente do saudoso Janjão (Antônio Luiz Dias de Andrade, professor da FAUUSP e arquiteto di IPHAN, falecido em 1997) –    e perguntei se o Plínio acharia interessante publicá-la. Não só ele aprovou a idéia, como deu a sugestão de ampliar a coleção para temas ligados não apenas à preservação de bens culturais, mas também às artes e aos ofícios em geral. Desse modo, sempre que tomo conhecimento ou produzo algum texto que considero que possa ser interessante para a coleção, apresento à Ateliê, que tem mostrado sempre interesse em publicá-los. A finalidade da Coleção é justamente oferecer um acesso direto a textos basilares para campos disciplinares (como o restauro, história da arte etc.), pouco conhecidos ou de difícil acesso.

 

"Teoria da Restauração", de Cesare Brandi, um dos títulos da Coleção Ateliê Artes&Ofícios

“Teoria da Restauração”, de Cesare Brandi, um dos títulos da Coleção Ateliê Artes&Ofícios

Como são escolhidos os títulos da Coleção? Quais são os critérios utilizados? Quais os temas mais recorrentes?

BMK: A coleção tem alternado volumes sobre preservação, de maneira mais ampla, e especificamente sobre restauração, com volumes que tratam das artes em geral. O interesse é voltado a textos com uma certa antiguidade que foram e ainda são de enorme importância em seus campos e que continuam a suscitar questões de extremo interesse. As publicações são fruto de pesquisas de professores universitários, em que determinados escritos emergem como importantes. Pelo fato de os pesquisadores utilizarem esses textos nas suas reflexões e considerá-los importantes também do ponto de vista didático e para difusão para um público mais amplo, acabam por considerar a publicação desses escritos como um produto importante de sua própria pesquisa.

Em sua opinião, qual a importância da coleção dentro do contexto acadêmico da arte no Brasil?

BMK: O interesse principal é divulgar textos importantes cujo acesso é difícil, seja pela barreira da língua, ou por ser textos raros, ou ainda por ser textos relevantes, mas ainda pouco difundidos em nosso meio, e que suscitam uma série de questões de interesse nos dias de hoje.

De que maneira estudantes, artistas e acadêmicos se beneficiam do conteúdo dos livros desta coleção?

BMK: Justamente pelo acesso direto a escritos relevantes para diversos campos disciplinares. A coleção alterna textos conhecidos, mas sem edição em português, com outros textos pouco conhecidos em nosso meio, mas que trazem questões relevantes para os dias de hoje.

"Catecismo da Preservação de Monumentos", de Max Dvorák

“Catecismo da Preservação de Monumentos”, de Max Dvorák

Pensando no Dia Internacional dos Museus, qual a contribuição dos títulos da coleção para celebrar esta data?

BMK: A coleção possui vários textos que oferecem fundamentação teórica para a atividade prática do conservador-restaurador, cujo papel nos museus é de essencial importância. Traz ainda contribuições de interesse para a história da arte, outro campo intimamente relacionado com as atividades dos museus.

Já existe alguma definição de quais serão os próximos títulos ou autores dos lançamentos futuros da coleção?

BMK: O próximo título previsto – em fase de revisão de provas – é o texto de Quatremère de Quincy, Cartas a Miranda, originalmente publicado em 1796, em que o autor elabora de maneira original a intrínseca relação da obra com o contexto em que está inserida, e a importância capital desse contexto; problematiza a transferência de obras de arte a partir de sua visão de come se aprende o fazer artístico e a apreciar a produção artística; e oferece contribuições de grande interesse no que respeita à fundamentação teórica de questões de preservação.

Paixão pelos livros e pela leitura

Renata de Albuquerque

 

Está no dicionário. Bibliomania é um substantivo feminino cujo significado é “paixão imoderada de colecionar livros, principalmente antigos ou raros”. Foi a partir desse conceito que surgiu a ideia do livro Bibliomania. O volume reúne textos de Marisa Midori Deaecto e Lincoln Secco, ambos historiadores, escritos para a Revista Brasileiros. Os textos, curtos, falam sobre todo tipo de assunto, sendo o livro sempre o protagonista: das mudanças no mercado editorial, até sonhos, fé e razão. Os autores falam dos livros como falamos de nossos amigos, de pessoas íntimas, numa escrita semelhante a um concerto de voz a serviço do tema, como só os verdadeiros escritores têm a ousadia de fazer.para falar sobre o novo livro e sobre a bibliomania de cada um dos autores, o Blog da Ateliê conversou com eles:

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Como cada um começou sua história com livros? O que levou você a tornar este um assunto importante para sua vida? 

Marisa Midori Deaecto: A história com os livros começa na infância. Eu me lembro bem de que meu primeiro livro foi o Minidicionário Aurélio. Uma vizinha o trouxe, novinho, embrulhado no papel de presente. Eu deveria ter uns seis anos. Adorei! Decorava as palavras, salteava as páginas. Foi amor à primeira vista. Como não havia livros em casa, passei a emprestar dos primos mais velhos os livros que eles liam na escola. Assim formei minha primeira biblioteca literária e isso não termina nunca. Depois, vieram os sebos, as livrarias, a biblioteca do professor Edgard Carone, onde eu realmente me encontrei… os amigos, os livros… os livros e os amigos. E o ciclo se fechou.
Lincoln Secco: Primeiro há sempre a leitura do mundo e não a dos livros. Ouvia histórias de minha mãe, que não lê livros. Via meu pai lendo livros, mas não para mim. Ouvir também é, de certa forma, ler! Depois vieram os livros infantojuvenis da escola e, mais tarde, os livros que se confundiam com a cidade e seus lugares: as livrarias, sebos, bancas. Adquiri-los, manuseá-los e, eventualmente, lê-los tornou-se um prazer físico para mim. Como sabem os amantes do livro, jamais lemos todas as obras que possuímos. Elas nos seduzem, mas nos decepcionam também. Ter livros é aprender a viver. Lemos mais velozes na juventude, folheamos mais devagar na maturidade e, acredito, relemos mais na velhice. A infinitude dos livros que possuímos sempre haverá de se mostrar diante da finitude de nossa existência.

 

Como surgiu a ideia de “Bibliomania”? 

LS: Atendemos a um convite da Revista Brasileiros, uma revista que é também impressa e se somou à defesa do livro.

MMD: Plinio Martins Filho propôs a ideia, a Revista Brasileiros a acatou e Lincoln Secco seguiu na dianteira, pois ele escreve muito rápido. Daí, como ele escreveu o primeiro artigo baseado em uma ideia nossa e, no final, fui em quem o assinou, senti a obrigação moral de escrever para a coluna. E gostei! Gosto de ler os textos dele e de estabelecer um diálogo. Nada sistemático. Mas tudo muito harmonioso, feito com o coração. É uma parceria que começou nos sebos, que ainda não se concretizou em uma única capa de livro, mas que resiste ao tempo em uma mesma coluna e, agora, dentro de uma luva. Como disse: amigos, livros… livros, amigos.
bibliomania_lincoln_miolo_Page_01Que conceito permeia essa publicação? 

LS: Difícil dizer que há um conceito. Se existe, quem pode dizer é a Professora Marisa Midori, a verdadeira especialista na História do Livro. Eu sou um amador. Posso afirmar apenas que há um sentimento comum pelo livro como objeto numa época que insiste em acreditar que ele vai desaparecer. Mas não vai.

MMD: Não há um conceito, mas uma ideia-força: o livro.

 

O que se pretende com “Bibliomania”?

MMD: Apresentar o livro como protagonista na longa história da humanidade. O que soa estranho, afinal, não são os homens os protagonistas de sua própria história? Sim. Mas, então, era preciso discorrer sobre um dos muitos elementos que torna a humanidade minimamente humana, com seus sonhos, seus medos, sua coragem, sua covardia, suas qualidades e seus defeitos. Penso que o livro, nesse sentido, sirva como uma espécie de fermento para cada um dos caracteres que desenvolvemos ao longo de nossa existência. O que também faz dele um protagonista na nossa história.
Como foi a escolha dos textos a serem publicados? 

LS: Publicamos todos os artigos da coluna Bibliomania, sem nenhuma escolha prévia.
Vocês conversam a respeito para não repetir temas ou para tratar de temas correlatos nessa seleção? 

bibliomania_marisa_miolo_Page_01MMD: Não. Eu leio todos os textos que o Lincoln publica. Então, quando escrevo, como disse, já tenho em mente o que veio a lume.

LS: Acredito que tivemos uma trajetória comum. Nós trabalhamos juntos na Biblioteca do Professor Edgard Carone, que era um bibliófilo de esquerda. E nos conhecemos também em longas caminhadas pelos sebos paulistanos. Sendo assim, os artigos na revista jamais se repetiram, apenas se complementaram.
Qual a importância de falar sobre livros no contexto brasileiro atual? 

MMD: Hoje, escrever sobre livros e falar sobre eles pode ser uma forma de escapismo da realidade, como faziam os românticos. Mas pode ser também uma forma de olhar a humanidade de forma mais serena. De pensar o tempo breve com menos ansiedade e crer na História profunda dos homens e dos livros. Falar sobre livros, hoje, pode também ser uma forma de buscar o insumo necessário para se compreender o momento histórico atual e, quem sabe, encontrar forças para a sua transformação. Pois se o livro pode servir como uma espécie de fuga, ele também se nos apresenta como a janela para o mundo. Tudo depende de nossas escolhas.

LS: Há quem diga que o livro vai acabar, como eu citei antes. Ou que o livro, hoje, pode ser qualquer coisa. Para mim, o livro é um conjunto de folhas dobradas, protegidas por uma capa, dotadas de um conteúdo manuscrito, desenhado ou impresso. Se um e-book pode ser um livro pouco me interessa. De fato, o livro pode ter outros suportes como a rocha, a madeira… Mas o livro em papel é o único que me importa. E se for de bolso, ainda melhor, pois posso carregar no trem e ler em qualquer lugar. Se faltar luz, acendo uma vela. Mas pode ter certeza que a “bateria” de um livro é inesgotável.