Entrevistas

Euclides da Cunha: 150 anos de um dos primeiros grandes intérpretes da cultura brasileira

Por:  Renata de Albuquerque

Em 2016, comemoramos os 150 anos de nascimento de Euclides da Cunha. O escritor fluminense– que foi engenheiro, militar, naturalista, jornalista, geólogo, geógrafo, botânico, cartógrafo, hidrógrafo, historiador, sociólogo, e escritor – escreveu o clássico Os Sertões,  no qual retrata a Guerra de Canudos. Para falar sobre esta importante figura, o Blog da Ateliê entrevista Leopoldo M. Bernucci, professor do Departamento de Espanhol e Português da Universidade da Califórnia em Davis (EUA), para quem a leitura do autor de Os Sertões tem uma atualidade surpreendente. Bernucci é responsável por edição, prefácio, cronologia, notas e índices do livro Os Sertões – Campanha de Canudos e também pela apresentação de Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, ambos da Ateliê Editorial.

Leopoldo-BernucciQual é a sua ligação com Euclides da Cunha? Como surgiu o seu interesse nesse escritor e de que maneira aprofundou seus estudos e conhecimentos a respeito?

Leopoldo M. Bernucci: As minhas primeiras incursões, como estudioso, no universo literário de Euclides foram realizadas por volta de 1981, ano em que o romance do escritor peruano Mario Vargas Llosa, A Guerra do Fim do Mundo – que trata da Guerra de Canudos – foi publicado. Naqueles anos eu estava terminando o meu mestrado em Literatura Hispano-Americana na Universidade de Michigan, Ann Arbor, MI, U.S.A., depois de me formar na USP também em Letras. Foi um encontro fortuito e curioso, porque se não fosse talvez pelo interesse que eu já tinha pela literatura de Vargas Llosa, não teria chegado a Euclides da forma como cheguei. A partir desse momento, já não pude deixar de estudar a obra euclidiana, tanto pelo lado fascinante do seu universo artístico, científico, retórico e histórico como também pela necessidade de aprofundar certos aspectos de sua obra que haviam sido examinados, porém, de modo muito superficial; e outros que nem haviam sido tocados ainda.

A maneira pela qual eu fui me adentrando nos textos de Euclides foi em primeiro lugar pela via comparada; e depois, estudando os manuscritos do autor, dispersos em diversas bibliotecas, públicas e privadas, e em arquivos. Essa investigação arqueológica dos textos de Euclides foi para mim reveladora, porque descobri de repente coisas que nunca imaginara que ele pudesse ter escrito e que ficaram sem publicar durante todos esses anos; e também porque muitas vezes o estudo dos manuscritos ilumina a compreensão de textos seus já publicados, mas ilegíveis em certas passagens, dado que a porcentagem de erros tipográficos é muito alta, e sem dúvida cria um obstáculo à leitura. Assim, a comparação entre texto publicado e manuscrito lança luz sobre esses aspectos obscuros e equivocados, e oferece uma boa oportunidade para esclarecê-los ou corrigi-los em edições modernas mais cuidadosas. O que eu estou descrevendo se refere principalmente aos livros mais tardios do autor e que passaram por mãos de revisores incautos: Contraste e Confrontos (1907), Peru versus Bolívia (1907) e À Margem da História  (póstumo, 1909).

 

Neste ano em que se comemoram os 150 anos de Euclides da Cunha, é possível fazer um balanço de qual foi sua contribuição para o jornalismo e a literatura no Brasil?

LMB: Sem dúvida. A contribuição de Euclides da Cunha é enorme, tanto para o jornalismo como para a literatura e, acrescento ainda, as ciências, a cultura e a nossa história. Não devemos nos esquecer de que Euclides foi também um militante ativo em prol da República, e que portanto defendia os ideais democráticos constantemente em seus artigos na imprensa. Sintetizando, poderíamos dizer que ele é um dos primeiros grandes intérpretes da cultura brasileira. Euclides nos mostrou esse talento, principalmente, através de Os Sertões, mas também em outros textos sobre a Amazônia, por exemplo, publicados em Contrastes e Confrontos e À Margem da História. A sua obra magna, Os Sertões, quando publicada em 1902, elevou a sua estatura de excelente e combatente escritor mais ainda. Descobriu-se que seu dom literário e historiográfico era agudíssimo e essa obra não só começou a ser lida como livro de história mas também como obra literária, já que o seu belo e complexo discurso se equipara ao dos melhores romances da literatura mundial. A alta qualidade retórica da linguagem de Os Sertões por si só faz dele um dos grandes livros da literatura brasileira de todos os tempos. Esta, quando aliada ao desenho épico do livro e a sofisticados recursos estilísticos e retóricos, já bastaria para defini-lo como objeto dos estudos literários, sem que – e isto é muito importante frisar – o  consideremos ficcional. A feliz adequação de um achado estético (sua linguagem) ao assunto histórico é o que transforma esta obra em objeto de arte, salvando-a de permanecer somente no mundo da historiografia ou do ensaio sociológico, como também Os Sertões pode ser lido, evidentemente. Para concluir a minha resposta a essa pergunta, devo repetir algo que já disse alhures: que a dívida de Euclides para com o jornalismo é enorme. Na imprensa, como jornalista, ele encontrou um modo de apresentar suas ideias antes de lançá-las em capítulos de livros escritos mais tarde por ele. Fora dela, na sua condição de leitor, Euclides canibalizou artigos e editoriais que foram absolutamente importantes para a confecção da sua narrativa sobre Canudos (ver sobre este assunto o meu livro A Imitação dos Sentidos: Prógonos e Epígonos de Euclides da Cunha).

A atualidade de Euclides da Cunha é enorme e até surpreendente. Leio trechos de seus escritos que serviriam muito bem para entender os dias que estamos vivendo no Brasil

Qual o legado dessa importante figura ainda hoje?

LMB: A atualidade de Euclides da Cunha é enorme e até surpreendente. Leio trechos de seus escritos que serviriam muito bem para entender os dias que estamos vivendo no Brasil. Nesses textos encontram-se observações sobre o desrespeito à democracia durante a primeira República, a perniciosa herança do colonialismo, o populismo, a perda da Razão como resultado do fanatismo político e religioso, o favoritismo político, a corrupção do governo e o esvaecimento da confiança nas instituições públicas. A sua crítica à nossa cultura e ao nosso modo de ser, plasmada naquilo que Sérgio Buarque de Holanda chamaria depois o “homem cordial”, não poderia ser mais clara em alguns de seus escritos. Em suma, Euclides quando escrevia não podia deixar de fazer sempre um balanço da destruição paulatina, embora vigorosa do nosso idealismo, tão aviltado pelos interesses individuais e mesquinhos e pelos vícios de políticas interesseiras em detrimento da coisa pública. É claro que, diante deste quadro Euclides já preludiava o que estamos vendo hoje em dia: a dificuldade e até mesmo a impossibilidade de conceber uma nação genuinamente republicana e democrática, dedicada ao bem-estar público e não ao privado. Compartilhamos do seu ceticismo daquela época porque é o mesmo ceticismo que vivemos hoje com respeito ao nosso país. Assim, damo-nos conta de que, infelizmente, pouca coisa mudou desde então.

 

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A edição da Ateliê de Os Sertões – A Campanha de Canudos tem notas, prefácio e cronologia de sua autoria. Pode, por gentileza, contar-nos como foi realizar esse trabalho, quais foram os maiores desafios desse grande projeto? Quanto tempo o senhor esteve envolvido nesse trabalho?

LMB: A ideia dessa edição partiu de dois grandes amigos meus, Plínio Martins Filho, editor da Ateliê e do nosso saudoso Ivan Teixeira, professor também da ECA. Na verdade, eles foram os que, de modo conceitual, me sugeriram essa edição com esse formato. Eu gostei da sugestão e comecei a trabalhar imediatamente nesse projeto. Acredito que foi por volta de 1995, quando eu morava no Colorado, que dei início a essa edição. Foram meses dedicados a esse projeto, entre outros afazeres do meio acadêmico, evidentemente. A nossa preocupação era oferecer uma edição que mantivesse o maior respeito pelo texto de Euclides e que facilitasse a leitura de Os Sertões. Euclides é um escritor difícil, sem dúvida, mas quando conseguimos romper essa camada de dificuldades de seu texto, o prazer de lê-lo, então, torna-se insuperável. Os maiores desafios, para mim foram, em primeiro lugar, fazer toda a pesquisa das fontes do livro. Em seguida, e isto não era menos desafiante, tive que estabelecer o texto, isto é, “corrigi-lo”, comparando-o com as primeiras edições publicadas e com os fragmentos de manuscritos. Esta última tarefa era necessária para que obtivéssemos uma melhor leitura, inclusive no que diz respeito à virgulação e à pontuação dessa obra. Finalmente, e isto foi mais prazer do que trabalho, era necessário mostrar em forma de Prefácio ao leitor o tipo de livro – aliás único na história da literatura do Brasil – que ele é, no qual se convergem diferentes discursos emprestados de várias disciplinas, escolas literárias ou determinados livros: história, arquitetura, botânica, geologia, a Bíblia, barroco, romantismo, épica e estratégia militar.

 

capa odisseia nos tropicosO senhor também é responsável pela apresentação do volume Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos. Em sua opinião, qual o diferencial e a importância dessa obra? É um título de interesse apenas para quem estuda o tema ou é uma obra de interesse geral, que pode ser entendida pelo grande público? Por que ela deve ser lida?

LMB: O trabalho biográfico executado por outro grande amigo, já falecido, o Prof. Frederic Amory, daqui da Califórnia, é um complemento a certas biografias em forma de livro mais antigas ou esboços biográficos de Euclides. Em primeiro lugar, refiro-me às biografias de Francisco Venâncio Filho, Eloy Pontes, Leandro Tocantins, Olímpio de Souza Andrade, Sylvio Rabello; em segundo, aos escritos de Oswaldo Galotti, Walnice Nogueira Galvão, José Carlos Barreto de Santana, Roberto Ventura e outros. O que diferencia a biografia de Amory dos textos biográficos escritos anteriormente a essa obra é a estrutura, o escopo e o ângulo da análise de Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos. Estruturalmente, o autor distribui os vários capítulos do livros, sempre em ordem cronológica, dando-lhes títulos sugestivos que emblematizam o ponto principal de cada momento histórico. “A Ponte e o Livro”, por exemplo, narra esse Euclides nos melhores momentos de sua atividade de engenheiro e homem de letras, às vésperas da publicação de Os Sertões. No que diz respeito ao escopo, o livro serve tanto para um iniciante quanto para um leitor mais familiarizado com Euclides. Quanto às análises ali oferecidas, deve-se mencionar a capacidade de erudição e de síntese do biógrafo, quando, por exemplo, ele se debruça sobre dois ensaios de Euclides: “O Primado do Pacífico” e “Estrelas Indecifráveis”. No primeiro, Amory resgata para nós o melhor de Euclides, a sua enorme curiosidade pela História das grandes civilizações e o seu método de arguir sempre criativo quando aplicado a um assunto contemporâneo a ele; no segundo, o crítico norte-americano demonstra o seu profundo conhecimento histórico da Idade Clássica greco-romana e das religiões, fazendo-nos ver ainda, mais uma vez, que é impossível desvincular ciência e arte no pensamento crítico de Euclides. Por não ser brasileiro, Amory lança um olhar distanciado sobre a vida do escritor fluminense, adotando uma perspectiva de alguém de fora da nossa cultura, o que criticamente resulta ser muito salutar neste caso. Os exemplos poderiam se multiplicar, mas este dois dão ao leitor uma ideia de como pela primeira vez os principais ensaios euclidianos foram abordados nas suas minúcias, utilizando-se de um instrumental de alta qualidade e de verdadeiro scholar.

 

Em sua opinião, o trabalho de Euclides da Cunha recebe, no Brasil, o valor devido? Por quê?

LMB: Acredito que sim, mesmo porque, salvo engano, ele é o autor que sustenta a mais extensa bibliografia crítica até hoje, mais extensa que a de Machado de Assis, para ficar com uma comparação. Mas, cuidado. Estamos vivendo um momento problemático e de crise da leitura. Euclides é uma “dor de cabeça muito gostosa”. Ele demanda paciência e releituras. Ele também nos fascina com a sua escrita ao mesmo tempo que nos provoca e nos desafia a pensar criticamente. Euclides nos convida ainda a raciocinarmos de forma lógica sem prejuízo da paixão que tenhamos pela arte e pela imaginação. Este é, a meu ver, o grande legado que ele nos deixou.

 

Como é a recepção da obra de Euclides da Cunha no exterior?

LMB: Eu não poderia falar senão de modo mais geral sobre este assunto,  já que não temos dados estatísticos ou comprovantes de leitura para o continente Europeu e Ásia, por exemplo. Portanto a minha opinião é bastante informal e se limita aos Estados Unidos, país onde moro e trabalho há 38 anos, e onde esses medidores existem. Infelizmente, Euclides da Cunha como tantos outros grandes escritores brasileiros não é um bestseller e assim é pouco lido nos Estados Unidos, sendo que aqueles que o leem são alunos e professores de nível universitário na sua grande maioria. Dentro deste círculo restrito de leitores, a obra de Euclides é bastante discutida e estudada e as produções acadêmicas (livros e artigos) vem comprovar este fato. O problema da recepção de Euclides no exterior não tem nada a ver com ele como tampouco estaria relacionado a quaisquer outros grandes autores. Tem a ver com uma política cultural que nunca se fez de forma eficiente no Brasil. Ao longo dos anos, as agências do governo brasileiro não têm investido inteligentemente neste aspecto e acredito que nem mesmo a Academia Brasileira de Letras tem feito algo duradouro para que as letras brasileiras sejam conhecidas e continuem sendo apreciadas lá fora.O problema não é só divulgar os autores numa feira como a de Frankfurt, por exemplo, ou algo parecido, mas de criar e manter um sistema de divulgação constante. Nessa política, se é que ainda existe hoje em dia, falta a continuidade, fato tão necessário para não desacelerar o momentum da divulgação e publicidade. A feira de livros termina e com ela se esfuma da memória os nomes dos nossos melhores escritores. Eis um assunto intrigante. O Brasil com uma respeitável literatura nacional que pode competir facilmente com a de outros países latino-americanos, lamentavelmente não possui um só caso de Prêmio Nobel. Em contrapartida a Guatemala possui um, Miguel Ángel Asturias; o Chile dois: Gabriela Mistral, amiga e contemporânea da grande Cecília Meireles, e Pablo Neruda; o México um, Octavio Paz; e o Peru também um, Mario Vargas Llosa. Com grande probabilidade, Carlos Drummond de Andrade ou Clarice Lispector poderiam ter recebido este prêmio se a visibilidade deles tivesse sido trabalhada de modo eficaz nos setores diplomáticos e culturais fora do Brasil.

 

Coleção Artes&Ofícios tematiza preservação e restauração

Restauração de peça em museu

Restauração de peça em museu

Por: Renata de Albuquerque

Na semana em que se comemora o Dia Internacional dos Museus, o Blog da Ateliê  entrevista a arquiteta Beatriz Mugayar Kühl. Formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, com especialização e mestrado em preservação de bens culturais pela Katholieke Universiteit Leuven, na Bélgica, doutorado pela FAUUSP e pós-doutorado pela Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, ela já publicou, entre outros, os livros Arquitetura do ferro e arquitetura ferroviária em São Paulo (São Paulo, Ateliê/FAPESP/SEC, 1998), Preservação do patrimônio arquitetônico da industrialização (Ateliê/FAPESP, 2009). É responsável pela tradução e publicação de vários títulos da Coleção Artes&Ofícios da Ateliê.

Para suprir uma lacuna e atender um público que cresce e torna-se exigente a cada dia, a Coleção Artes&Ofícios traz importantes traduções de textos quase esquecidos a respeito do restauro de monumentos, de obras de arte e do próprio ofício, além de tratar da qualidade do trabalho de artistas de várias áreas.

“A coleção possui vários textos que oferecem fundamentação teórica para a atividade prática do conservador-restaurador, cujo papel nos museus é de essencial importância”, afirma a arquiteta, que é professora do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto e atualmente é chefe de Departamento (AUH-FAUUSP).

 

Como nasceu a Coleção Artes &Ofícios da Ateliê?

Beatriz Mugayar Kühl: A coleção nasceu a partir de uma conversa informal com o Plínio Martins Filho,  em que comentei os problemas de se trabalhar com temas de restauração com os estudantes da graduação e da pós-graduação na FAUUSP (onde sou professora desde 1998),  pela dificuldade de acesso a alguns dos textos fundamentais sobre o tema, seja por serem em língua estrangeira, ou por terem edições raras ou esgotadas. O problema era como discutir os fundamentos teóricos de uma disciplina sem que se tenha acesso aos textos que alicerçam o campo? Mencionei que havia feito uma tradução do Verbete Restauro do Viollet-le-Duc – para um curso da FUPAM em 1997 – em que havia sido assistente do saudoso Janjão (Antônio Luiz Dias de Andrade, professor da FAUUSP e arquiteto di IPHAN, falecido em 1997) –    e perguntei se o Plínio acharia interessante publicá-la. Não só ele aprovou a idéia, como deu a sugestão de ampliar a coleção para temas ligados não apenas à preservação de bens culturais, mas também às artes e aos ofícios em geral. Desse modo, sempre que tomo conhecimento ou produzo algum texto que considero que possa ser interessante para a coleção, apresento à Ateliê, que tem mostrado sempre interesse em publicá-los. A finalidade da Coleção é justamente oferecer um acesso direto a textos basilares para campos disciplinares (como o restauro, história da arte etc.), pouco conhecidos ou de difícil acesso.

 

"Teoria da Restauração", de Cesare Brandi, um dos títulos da Coleção Ateliê Artes&Ofícios

“Teoria da Restauração”, de Cesare Brandi, um dos títulos da Coleção Ateliê Artes&Ofícios

Como são escolhidos os títulos da Coleção? Quais são os critérios utilizados? Quais os temas mais recorrentes?

BMK: A coleção tem alternado volumes sobre preservação, de maneira mais ampla, e especificamente sobre restauração, com volumes que tratam das artes em geral. O interesse é voltado a textos com uma certa antiguidade que foram e ainda são de enorme importância em seus campos e que continuam a suscitar questões de extremo interesse. As publicações são fruto de pesquisas de professores universitários, em que determinados escritos emergem como importantes. Pelo fato de os pesquisadores utilizarem esses textos nas suas reflexões e considerá-los importantes também do ponto de vista didático e para difusão para um público mais amplo, acabam por considerar a publicação desses escritos como um produto importante de sua própria pesquisa.

Em sua opinião, qual a importância da coleção dentro do contexto acadêmico da arte no Brasil?

BMK: O interesse principal é divulgar textos importantes cujo acesso é difícil, seja pela barreira da língua, ou por ser textos raros, ou ainda por ser textos relevantes, mas ainda pouco difundidos em nosso meio, e que suscitam uma série de questões de interesse nos dias de hoje.

De que maneira estudantes, artistas e acadêmicos se beneficiam do conteúdo dos livros desta coleção?

BMK: Justamente pelo acesso direto a escritos relevantes para diversos campos disciplinares. A coleção alterna textos conhecidos, mas sem edição em português, com outros textos pouco conhecidos em nosso meio, mas que trazem questões relevantes para os dias de hoje.

"Catecismo da Preservação de Monumentos", de Max Dvorák

“Catecismo da Preservação de Monumentos”, de Max Dvorák

Pensando no Dia Internacional dos Museus, qual a contribuição dos títulos da coleção para celebrar esta data?

BMK: A coleção possui vários textos que oferecem fundamentação teórica para a atividade prática do conservador-restaurador, cujo papel nos museus é de essencial importância. Traz ainda contribuições de interesse para a história da arte, outro campo intimamente relacionado com as atividades dos museus.

Já existe alguma definição de quais serão os próximos títulos ou autores dos lançamentos futuros da coleção?

BMK: O próximo título previsto – em fase de revisão de provas – é o texto de Quatremère de Quincy, Cartas a Miranda, originalmente publicado em 1796, em que o autor elabora de maneira original a intrínseca relação da obra com o contexto em que está inserida, e a importância capital desse contexto; problematiza a transferência de obras de arte a partir de sua visão de come se aprende o fazer artístico e a apreciar a produção artística; e oferece contribuições de grande interesse no que respeita à fundamentação teórica de questões de preservação.

Paixão pelos livros e pela leitura

Renata de Albuquerque

 

Está no dicionário. Bibliomania é um substantivo feminino cujo significado é “paixão imoderada de colecionar livros, principalmente antigos ou raros”. Foi a partir desse conceito que surgiu a ideia do livro Bibliomania. O volume reúne textos de Marisa Midori Deaecto e Lincoln Secco, ambos historiadores, escritos para a Revista Brasileiros. Os textos, curtos, falam sobre todo tipo de assunto, sendo o livro sempre o protagonista: das mudanças no mercado editorial, até sonhos, fé e razão. Os autores falam dos livros como falamos de nossos amigos, de pessoas íntimas, numa escrita semelhante a um concerto de voz a serviço do tema, como só os verdadeiros escritores têm a ousadia de fazer.para falar sobre o novo livro e sobre a bibliomania de cada um dos autores, o Blog da Ateliê conversou com eles:

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Como cada um começou sua história com livros? O que levou você a tornar este um assunto importante para sua vida? 

Marisa Midori Deaecto: A história com os livros começa na infância. Eu me lembro bem de que meu primeiro livro foi o Minidicionário Aurélio. Uma vizinha o trouxe, novinho, embrulhado no papel de presente. Eu deveria ter uns seis anos. Adorei! Decorava as palavras, salteava as páginas. Foi amor à primeira vista. Como não havia livros em casa, passei a emprestar dos primos mais velhos os livros que eles liam na escola. Assim formei minha primeira biblioteca literária e isso não termina nunca. Depois, vieram os sebos, as livrarias, a biblioteca do professor Edgard Carone, onde eu realmente me encontrei… os amigos, os livros… os livros e os amigos. E o ciclo se fechou.
Lincoln Secco: Primeiro há sempre a leitura do mundo e não a dos livros. Ouvia histórias de minha mãe, que não lê livros. Via meu pai lendo livros, mas não para mim. Ouvir também é, de certa forma, ler! Depois vieram os livros infantojuvenis da escola e, mais tarde, os livros que se confundiam com a cidade e seus lugares: as livrarias, sebos, bancas. Adquiri-los, manuseá-los e, eventualmente, lê-los tornou-se um prazer físico para mim. Como sabem os amantes do livro, jamais lemos todas as obras que possuímos. Elas nos seduzem, mas nos decepcionam também. Ter livros é aprender a viver. Lemos mais velozes na juventude, folheamos mais devagar na maturidade e, acredito, relemos mais na velhice. A infinitude dos livros que possuímos sempre haverá de se mostrar diante da finitude de nossa existência.

 

Como surgiu a ideia de “Bibliomania”? 

LS: Atendemos a um convite da Revista Brasileiros, uma revista que é também impressa e se somou à defesa do livro.

MMD: Plinio Martins Filho propôs a ideia, a Revista Brasileiros a acatou e Lincoln Secco seguiu na dianteira, pois ele escreve muito rápido. Daí, como ele escreveu o primeiro artigo baseado em uma ideia nossa e, no final, fui em quem o assinou, senti a obrigação moral de escrever para a coluna. E gostei! Gosto de ler os textos dele e de estabelecer um diálogo. Nada sistemático. Mas tudo muito harmonioso, feito com o coração. É uma parceria que começou nos sebos, que ainda não se concretizou em uma única capa de livro, mas que resiste ao tempo em uma mesma coluna e, agora, dentro de uma luva. Como disse: amigos, livros… livros, amigos.
bibliomania_lincoln_miolo_Page_01Que conceito permeia essa publicação? 

LS: Difícil dizer que há um conceito. Se existe, quem pode dizer é a Professora Marisa Midori, a verdadeira especialista na História do Livro. Eu sou um amador. Posso afirmar apenas que há um sentimento comum pelo livro como objeto numa época que insiste em acreditar que ele vai desaparecer. Mas não vai.

MMD: Não há um conceito, mas uma ideia-força: o livro.

 

O que se pretende com “Bibliomania”?

MMD: Apresentar o livro como protagonista na longa história da humanidade. O que soa estranho, afinal, não são os homens os protagonistas de sua própria história? Sim. Mas, então, era preciso discorrer sobre um dos muitos elementos que torna a humanidade minimamente humana, com seus sonhos, seus medos, sua coragem, sua covardia, suas qualidades e seus defeitos. Penso que o livro, nesse sentido, sirva como uma espécie de fermento para cada um dos caracteres que desenvolvemos ao longo de nossa existência. O que também faz dele um protagonista na nossa história.
Como foi a escolha dos textos a serem publicados? 

LS: Publicamos todos os artigos da coluna Bibliomania, sem nenhuma escolha prévia.
Vocês conversam a respeito para não repetir temas ou para tratar de temas correlatos nessa seleção? 

bibliomania_marisa_miolo_Page_01MMD: Não. Eu leio todos os textos que o Lincoln publica. Então, quando escrevo, como disse, já tenho em mente o que veio a lume.

LS: Acredito que tivemos uma trajetória comum. Nós trabalhamos juntos na Biblioteca do Professor Edgard Carone, que era um bibliófilo de esquerda. E nos conhecemos também em longas caminhadas pelos sebos paulistanos. Sendo assim, os artigos na revista jamais se repetiram, apenas se complementaram.
Qual a importância de falar sobre livros no contexto brasileiro atual? 

MMD: Hoje, escrever sobre livros e falar sobre eles pode ser uma forma de escapismo da realidade, como faziam os românticos. Mas pode ser também uma forma de olhar a humanidade de forma mais serena. De pensar o tempo breve com menos ansiedade e crer na História profunda dos homens e dos livros. Falar sobre livros, hoje, pode também ser uma forma de buscar o insumo necessário para se compreender o momento histórico atual e, quem sabe, encontrar forças para a sua transformação. Pois se o livro pode servir como uma espécie de fuga, ele também se nos apresenta como a janela para o mundo. Tudo depende de nossas escolhas.

LS: Há quem diga que o livro vai acabar, como eu citei antes. Ou que o livro, hoje, pode ser qualquer coisa. Para mim, o livro é um conjunto de folhas dobradas, protegidas por uma capa, dotadas de um conteúdo manuscrito, desenhado ou impresso. Se um e-book pode ser um livro pouco me interessa. De fato, o livro pode ter outros suportes como a rocha, a madeira… Mas o livro em papel é o único que me importa. E se for de bolso, ainda melhor, pois posso carregar no trem e ler em qualquer lugar. Se faltar luz, acendo uma vela. Mas pode ter certeza que a “bateria” de um livro é inesgotável.

 

Teatro é fantasia

Por: Milena O. Cruz e Renata de Albuquerque

No dia 27 de março comemora-se o Dia Mundial do Teatro. Para lembrar a data, O Blog da Ateliê entrevista Ana Maria de Abreu Amaral. Ela é Professora Titular de Teatro de Animação na ECA/USP, onde orienta pesquisas em pós graduação ligadas ao teatro de bonecos ou teatro de animação. Também é diretora do Grupo O CASULO – BonecObjeto e autora dos livros: Teatro de Formas Animadas, Teatro de Bonecos no BrasilO Ator e seus Duplos e Teatro de Animação (em processo final de tradução para o inglês, para ser editado por uma universidade dos Estados  Unidos), além do livro de poesias Rupturas – poemas em busca de um eixo. Acompanhe:

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Por que se interessou pelo teatro de animação?

Ana Maria de Abreu Amaral: A princípio, foram duas razões. Meu primeiro emprego foi numa  das bibliotecas infantis da Prefeitura de São Paulo, num bairro além da Freguesia do Ó (Cruz das Almas)  em que  poucas  crianças sabiam ler, ou quem lia  engolia logo os poucos livros disponíveis. D. Lenira Fracaroli,  idealizadora, diretora e organizadora dessa rede de bibliotecas infantis em bairros distantes, teve a ideia de nos oferecer, na sede, um curso rápido de uma semana sobre  construção de fantoches, e com isso a atitude das crianças mudou drasticamente. O interesse das crianças pelo teatro improvisado despertou e mudou totalmente  a atitude delas na biblioteca e o interesse pelos livros. Foi  incrível a mudança. Mas  acabei me cansando pela distância, quase ausência de transporte e pedi transferência para uma seção da Biblioteca Central.

Nessa época, antes de tudo, nem livros nem bibliotecas  me interessava. Tudo  que eu lia e vivia era poesia.  Convivia com os poetas jovens da época e a poesia era para mim então fundamental. Entre 1957 e 1960 publiquei  SINCOPE, depois Eu Inconcluso, depois Viagem ao Redor do Espelho, estimulada pela incrível saudação de Sergio Milliet e outros críticos e/ou poetas,  recebendo outras ótimas críticas. Mas foi um tempo curto. Por razões inesperadas, acabei indo para Nova Iorque. Trabalhei alguns meses na biblioteca de  Brooklin, depois na Biblioteca da Nações Unidas. E fui ficando, esquecida de voltar.

Mas… do inesperado surgiu um impacto. Foi quando os bonecos surgiram.Vieram vindo um dia pela 5ª Avenida acompanhados de máscaras, atores, tambores. Foi assim que o Bread and Puppet entrou na minha vida. Bonecos incríveis, enormes, tomando toda avenida, tristes, de branco e negro vestidos, em protesto mudo contra uma guerra que eu nem tinha até então noticia, a guerra do Vietnam. Foi assim enfim que o teatro de bonecos entrou de vez na minha vida. Tímida e queda, por curiosidade, sempre que podia ia ajudar a colar papel ou cellastic nas máscaras ou bonecos políticos de Peter Schumann que com suas incríveis esculturas e personagens enormes protestava já contra a  então  guerra do Vietnam. Essa foi a mudança da minha vida: boneco em teatro para adultos ou crianças por alguma razão virou paixão. Entrei nessa.  Aluguei um quase porão e passei a ter um ateliê onde confeccionávamos e ensaiávamos, pois cheguei a formar um grupo. Lá estreei meu primeiro espetáculo para adultos, político, e sobre um fato real: Palomares.  E assim mudou  minha vida. Até hoje.

Depois de 15 anos em  Nova Iorque, com dois filhos, achei melhor voltar, pois não queria que eles deixassem de ser e viver o Brasil.  Voltei de vez. Passei a dar aula na ECA/USP, achei fundamental ajudar a formar bonequeiros. E essa é minha família, até hoje.

 

Esta é uma modalidade destinada apenas ao público infantil ou também ao adulto?

AMAA: Antes  de tudo acho que arte, teatro, pintura, não tem idade. Não vejo diferença alguma entre teatro para e com crianças ou adultos. As crianças são mais sensíveis, mas por isso mesmo a gente precisa ter em relação a elas mais sensibilidade, pois nem tudo é bom para as crianças. E por influência de Peter Schumann [fundador do Bread and Puppet Theater] passei a entender e a falar com os adultos através de bonecos, de máscaras; mais tarde, usando objetos, formas abstratas que tanto crianças quanto adultos entendem e por meio das quais percebem melhor o sentido das coisas que nos rodeiam e não chegam só através das palavras, mas das formas, do choro, do medo, da fantasia e do riso.

Não há diferenças quando o meio que usamos para nos expressar – seja uma figura humana, um ator ou um boneco, uma forma inusitada ou uma pedra, um fio fino e sutil, um rosto – nos transmite  emoção. E tudo fica muito mais amplo ou complexo.

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A introdução do livro Teatro de Animação diz que esse teatro tem se desenvolvido extraordinariamente. A que isso se deve?

AMAA: Acho que muita coisa muda quando se deixa de usar em excesso as palavras, apesar que as palavras podem ser também poéticas,  mas nem sempre… pois uma forma  ou figura, às vezes, fala muito mais.

O livro diz que o teatro de animação, por falta de parâmetros, muitas vezes é ignorado pela crítica especializada ou apresentado como inusitado. Nesse sentido, quais são os principais parâmetros para avaliar o teatro de animação?

AMAA: Não consigo definir esses parâmetros, mas o que existe  é pouco teatro bom de animação no palco. Ou há dificuldades de entrar e se manter em  cena, ou muito preconceito contra, quando o que mais aparece não é fruto de experimentação, busca ou pesquisa.

 

Fale, por gentileza, sobre as experiências que o teatro de animação proporciona ao público.  

AMAA: Teatro é fantasia. Acho que o bom é tudo que não é muito real. Ou quando não é resultado de pesquisa. E quando vai além do racional não é entendido. Mas se perturba é porque é bom, seja ele real ou poético.

 

Em um mundo em que as crianças se interessam cada vez mais cedo por produtos tecnológicos como tablets e celulares, o teatro de animação tem um desafio frente a esse público?

AMAA: O teatro de animação é, antes de tudo,  não realista. Mas, me parece às vezes que o que se está perdendo em meio a muita tecnologia é a poesia.

 

O lúdico perdeu lugar entre esse público ou não?

AMAA: Qual publico? O bom seria não se fazer muita distinção entre crianças, poetas, loucos e adultos. Ou que os adultos gozassem mais com fantasias.

 

Como enfrentar esse desafio? Como despertar o interesse das crianças nesse contexto?

AMAA: Acho que mais importante é despertar a criança que existe (ou existiu) nos adultos. E manter sempre vivo o lúdico e não levar a vida ou o dia-a-dia muito a sério.

Conheça outros livros que a Ateliê publicou sobre teatro 

O Diário de Bordo do Velho Chico: um roteiro da vida real

Por: Renata de Albuquerque

Autora de O Velho Chico ou A Vida É Amável – livro homônimo à novela das 21h da Rede Globo, que estreia hoje, Dirce de Assis Cavalcanti diz que a viagem que fez na região, durante os anos 70, foi “um divisor de águas”. A sinopse e o enredo do livro O Velho Chico foram escritos a partir de uma experiência marcante, cheia de personagens, símbolos e histórias inesquecíveis. Acompanhe abaixo o que a autora diz sobre essa experiência:

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Como teve a ideia de escrever o livro O Velho Chico?

Dirce de Assis Cavalcanti: A viagem pelo Velho Chico a fiz a trabalho. Era, na época, Diretora do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura, em Brasília, e decidimos fazer uma exposição com as Carrancas do rio São Francisco.

Qual a importância das carrancas no enredo do Velho Chico?

DAC: Preciso dizer que é o único rio do Brasil em que existiram, nasceram, procriaram, a princípio surgidas das mãos e da imaginação do velho Guarani, que “retirava do mato o pau que já vinha pronto”, como ele contava, e então era só ir descascando a cara, os dentes, a cabeleira, e a carranca pronta, primeiramente utilitária, depois ornamento, se tornava um símbolo, o símbolo do Velho Chico.
Destinadas a assustar os monstros aquáticos que os caboclos tanto temiam, eram colocadas na proa das embarcações, e quanto mais ameaçadoras fossem, melhor cumpriam sua missão.

A novela Velho Chico, que estreia hoje, tem o mesmo cenário de seu livro. Por que acha que essa região é tão marcante?

DAC: Para mim, como relato no “diário de bordo”, a vida se dividiu entre o antes e o depois do São Francisco. Conhecer aquela gente extraordinária na sua pobreza, no asseio de suas casas de chão de barro liso, como que encerado, na sua generosidade, coragem e simpleza, foi um presente dos céus. Sobretudo a população mais distante do mundo, na margem esquerda, é muito surpreendente. Uma mulher alta e magra, como eu conto no livro, que ia pagar promessa em Bom Jesus da Lapa para que lhe curasse uma papeira, me deu o significado da vida, numa frase, dita depois de contar tantas misérias por que passou, a perda do marido e de onze filhos por doença e má nutrição, ela, Ambrosina, me disse: …”mas a vida é amável, não é dona menina?”

Não vou dizer mais nada, está tudo no livro…

Tirando poesia de pedra

Em Matéria Lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz, Mario Higa faz uma leitura crítica de quatro dos mais importantes poetas latino-americanos que usaram a imagem da pedra como mote de suas obras literárias

Por: Renata de Albuquerque

capa materia litica

Fruto da tese de Doutorado que Mario Higa defendeu na Universidade do Texas, em Austin (EUA), o livro Matéria Lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz – o 50º título da Coleção Estudos Literários, da Ateliê Editorial – acaba de ser lançado. Na obra, o autor propõe a leitura de quatro poetas conhecidos por usarem o mineral suas obras literárias com o objetivo de ajudar o leitor a entender e interpretar esses textos.

“Para Cabral, Neruda e Paz, a pedra e o mundo mineral constituem uma imagem identitária, ou uma figura da imagística, de suas obras”, explica Higa na introdução do livro. Já Drummond aparece com a análise do poema “No Meio do Caminho”, que possui na pedra sua imagem central.

 

Como foi fazer um Doutorado nos EUA estudando poetas cujas raízes latino-americanas são tão fortes (ainda que todos possam ter uma leitura “universal”)? Eles são autores conhecidos nos EUA?

Ainda que o termo “imperialismo” esteja hoje em desuso, creio que se poderia, num sentido positivo, mas não despolitizado, aplicá-lo à política das universidades americanas de atrair e manter no país estudantes e pesquisadores estrangeiros. Por conta dessa política, muitos estudiosos chegam aqui, às vezes para uma temporada, e quando podem, decidem ficar. Quem ganha com isso é a comunidade acadêmica, que se torna assim mais exposta à diversidade cultural e, como consequência, à constante reavaliação de suas ideias. Lembro-me de que Gilberto Freyre, já em 1920, louvava, no seu o diário, o cosmopolitismo de Columbia. “Ai de universidade que não for cosmopolita”, dizia-lhe um colega inglês, também impressionado. Pois bem, nesses centros universitários e universalistas, a presença da América Latina é, de fato, bastante forte. No entanto, por razões históricas, e também geográficas, ou geopolíticas, é mais forte do lado espanhol do que do português. Logo, se você me pergunta se Drummond, Cabral, Neruda e Paz são conhecidos aqui, eu diria que, nos círculos universitários dos estudos latino-americanos, sim. Naturalmente, mais Neruda e Paz, cuja repercussão internacional, e mesmo não acadêmica, de suas obras é imensa, do que Drummond e Cabral, que ainda precisam de maior exposição fora do Brasil. Nesse sentido, a boa notícia para nossos poetas é que o interesse pelo Brasil, por parte de estudantes americanos, hispano-americanos, e de outras nacionalidades, cresceu de modo expressivo nas duas últimas décadas. Quando isso ocorre, mais estudantes se matriculam nos cursos de português, e com isso, expande-se o conhecimento da cultura brasileira (e lusófona) em terras estrangeiras, ou mais especificamente, americanas. A má notícia é que, por conta dos mais recentes acontecimentos no Brasil, essa tendência tem mudado de rumo, com impacto negativo na demanda por cursos de português. Laurentino Gomes, que deu um curso na universidade onde eu trabalho, resumiu essa questão de modo exemplar num post de seu blog. Para quem tiver interesse no tema, aqui vai o link: http://laurentinogomes.com.br/blog/?s=middlebury&lang=pt-br

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em resumo, o conhecimento de Drummond e Cabral, ou de qualquer outro autor brasileiro ou de língua portuguesa, nos Estados Unidos, depende menos da qualidade de suas obras do que de fatores externos, isto é, políticos e econômicos. A volatilidade desses fatores, sobretudo no Brasil, mas também no restante do mundo lusófono, produz efeitos quase que imediatos nas universidades americanas que oferecem cursos de português. Isso ocorre também com o espanhol. No entanto, como a América espanhola é fragmentada, o impacto dos acontecimentos lá chega aqui fragmentado também. Além disso, há outros fatores – históricos, geográficos, políticos, como já mencionado – que interferem na questão do estudo do espanhol e das culturas hispano-americanas nos Estados Unidos. Por fim, fazer o doutorado nesse ambiente multicultural foi, para mim, uma experiência bastante enriquecedora.

Por que da escolha de Drummond, Cabral, Paz e Neruda? O que eles têm em comum que permitiu-lhe uni-los em seu estudo?

Meu estudo nasceu do gosto que tenho pela análise, pelo comentário e pela interpretação de textos literários, ou mais especificamente, poéticos. A questão do sentido, em amplo espectro, sempre me fascinou, e ainda me fascina. Assim, eu diria que meu livro é menos sobre os poetas que você menciona e mais sobre a questão o sentido, ou melhor, como o sentido, segmentado em suas várias dimensões – linguístico, estético, político, crítico, teórico, dialético… –, se forma na confluência do texto poético, da mente do leitor e do contexto histórico-cultural em que ambos se inserem, e do qual ambos são, a um só tempo, agentes e produtos. Para investigar a questão do sentido, fixei-me inicialmente no célebre caso da polêmica provocada pelo poema de Drummond “No meio do caminho”. O chamado “poema da pedra” incitou o debate mais acalorado da história do Modernismo brasileiro. E no centro desse debate, encontrava-se a discussão em torno de seu sentido e valor. As leituras que o poema, então, recebeu foram as mais disparatadas. Mas afinal, que fatores textuais, teórico-culturais e históricos possibilitaram tanta divergência de atribuição de sentido? E por que essa divergência perde força na década de 1960? Essas são algumas questões sobre as quais me debruço e às quais tento responder.

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Da pedra de Drummond, passei à pedra de Cabral, por razões distintas. No caso de Cabral, interessava-me não o processo de atribuição de sentido, e sim a problematização de um sentido atribuído: o da relação pedra/despersonalização lírica na poesia cabralina. Isso me levou, entre outros exercícios, ao da análise do poema “A educação pela pedra”. A relação entre pedra e educação também surge num poema da última fase de Neruda: o de número XVII, de Las piedras del cielo, coletânea publicada em 1970. Nessa última fase, pouco estudada pela crítica, mesmo nos países de língua espanhola, predomina um tom desencantado em relação ao homem e à história, que a poesia nerudiana havia decantado na fase épico-política de Canto general. O curioso é que a imagem da pedra mostra-se recorrente nessa trajetória que vai do entusiasmo ao desencanto. O ápice da afirmação do homem e da história através da pedra encontra-se, pela minha hipótese de leitura, em “Alturas de Macchu Picchu”. E um dos pontos mais baixos do desencanto em relação a esses mesmos elementos pode ser lido no poema XVII. No entanto, a imagem da pedra, que serviu de figura de afirmação do homem e da história, é duas décadas depois retomada para corrigir e negar tal afirmação. E o que eu faço é tentar compreender como Neruda manipula os sentidos ou as metáforas do mundo mineral para expressar percepções díspares do homem e da história. Já na poesia de Paz, examino a pedra como metáfora de origem, mito e sagrado, a partir da análise de um poema sem título, referido pelo primeiro verso: “Como las piedras del Principio”. Como se vê, há muito pouco, ou mesmo quase nada, ligando esses poetas, que eu reúno por meio de uma imagem forte, no caso de Drummond, e além de forte, recorrente ou identitária no caso da poesia de Cabral, Neruda e Paz: a imagem da pedra.

 

Por que Drummond é a “pedra porosa”; João Cabral é a “pedra narcísica”; Neruda, a “desencantada”; e Paz, a “logocêntrica”?

Os títulos dos capítulos de meu livro sintetizam um aspecto semântico de cada “pedra” examinada. Creio que a resposta anterior esclarece um pouco essa questão. A porosidade da pedra de Drummond aponta para a permeabilidade ou vulnerabilidade de sentido que essa imagem alcança no contexto do poema “No meio do caminho”, articulado ao contexto cultural de rivalidade entre modernistas e antimodernistas. No caso de Cabral, os conceitos de narcisismo e antinarcisismo, eu os tomo emprestados a Antonio Candido e Eduardo Escorel, que os usam, respectivamente, para caracterizar a poesia cabralina desde uma perspectiva predominantemente psicológica. No meu ensaio, emprego a noção de narcisismo dentro de um enquadramento estritamente retórico, ou seja, tal conceito serve para nomear “(i) manobras textuais de autorreferencialidade [metapoesia] em poemas que, em princípio, objetivam o outro, e (ii) manobras extratextuais, isto é, externas e paralelas aos poemas, que visam à construção de um ethos autoral legitimador a priori da obra de Cabral”. Pode parecer um tanto técnica essa definição, que foi extraída da introdução do meu estudo. No entanto, em meu ensaio sobre Cabral, examino vários exemplos que ilustram esses argumentos. Sobre a imagem da pedra, ela é uma metáfora dessa autorreferencialidade na poesia cabralina. Sobre Neruda, queria entender o pessimismo histórico de sua última fase. Ou seja, como sua poesia, por um lado, incorpora os fatos históricos pós-1956, quando os horrores do stalinismo são revelados, e por outro, como essa incorporação coincide com um retorno parcial do poeta à sua fase residenciária (de Residencia en la tierra). Em relação à pedra nerudiana, sua simbologia oscila entre o entusiasmo e o desencanto com a história. Mas meu ensaio, embora examine essa oscilação, centra-se nas ideias de desencanto, desilusão, ceticismo, com que o poeta observa o fluxo da história. Por fim, no capítulo sobre Paz, localizo em sua poesia uma tensão discursiva, na forma de impasse, entre a noção de sagrado mítico (logos) e o conceito de vitalidade tal como proposto por Nietzsche. Para tanto, defino o sagrado mítico em Paz e a vitalidade nietzschiana, e mostro como essa tensão se afigura inconciliável desde o ponto de vista da crítica logocêntrica de Jacques Derrida. Todas essas questões, no entanto, nascem da leitura crítica dos textos poéticos, e são reflexões desenvolvidas com o intuito de ampliar a compreensão desses textos.

 

Octavio Paz

Octavio Paz

Quais os desafios de analisar a obra de poetas que escrevem em línguas diferentes (português e espanhol), tentando, ao mesmo tempo, uni-los em um mesmo estudo?

Volto um pouco ao ponto das universidades americanas e às ideias de diversidade e intercâmbio culturais que nelas ocorrem. Historicamente, o Brasil tem adotado uma postura mais de isolamento do que de integração em relação à América hispânica. Houve – e eu cito isso no capítulo sobre Neruda – uma política pan-americanista promovida pelo Estado Novo na década de 1940, que deu seus frutos na cultura brasileira. Mas nenhuma política integracionista pode funcionar sob o jugo de um regime autoritário. E o fato é que durante o século XX, de modo geral, o Brasil teve seus olhos voltados para a Europa e os Estados Unidos, quando poderia tê-los voltados também, com mais frequência, e até com mais afeto, aos nossos vizinhos de língua espanhola. Tudo isso, repito, tem mudado nas últimas décadas, embora não se saiba se essas mudanças continuarão seu curso. Aqui, nos Estados Unidos, cresce o interesse pelos estudos interamericanos, que em parte se assemelham ao pan-americanismo do Estado Novo, e que englobam aspectos comparativos das Américas, desde o Canadá até a Argentina, passando pelo Caribe francês, inglês e espanhol. Trata-se de uma iniciativa cujo foco principal recai numa ideia de integração dos países das Américas.

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Com meu livro, tento contribuir – e esse é o meu desafio – para uma maior integração dos estudos literários de língua portuguesa e de língua espanhola, desde uma perspectiva latino-americana, e tendo o Brasil como centro de convergência. Assim, ao abordar a poesia nerudiana, examino a princípio a história de sua recepção no Brasil. Não é exagero dizer que, em relação a Neruda, o mundo de língua espanhola se dividiu, e ainda se divide, entre nerudistas entusiasmados e antinerudistas furiosos. No Brasil, ainda que em proporção menor, não foi e não é diferente. E isso tem suas raízes e razões históricas, que procuro esclarecer. Haroldo de Campos, por exemplo, foi um antinerudista e um pró-octaviano (ou pró-Octavio Paz). Mas, curiosamente, Paz não foi um antinerudista, embora ele e Neruda tivessem divergido radicalmente no plano das ideias políticas. Tudo isso, eu trato como notas de enquadramento histórico nos capítulos sobre Neruda e Paz. Também trato um pouco das relações poético-literárias entre Drummond e Neruda, e Cabral e Neruda. Desse modo, espero contribuir para um melhor entendimento dos vínculos que nos ligam culturalmente, seja por afinidade, seja por dissidência, à América hispânica, representada em meu estudo pelo Chile de Neruda e o México de Octavio Paz.

 

O livro não traz uma “conclusão” para o estudo. A que isso se deve? Há uma “conclusão” possível?

A natureza do sentido é dinâmica e, portanto, o sentido é sempre provisório. Seu caráter provisional, no entanto, não impede que o busquemos; ao contrário, incita-nos a buscá-lo pelo prazer lúdico da busca desonerada do pressuposto da existência de uma verdade final e fixa. Essa é uma conclusão possível, e também provisória, do meu estudo. Se não dediquei um espaço específico para ela, isso se deve ao fato de o último capítulo, sobre Octavio Paz, discutir esse argumento na abordagem da crítica ao logocentrismo de Jacques Derrida. Assim, de certa maneira, o último capítulo do livro funciona como uma forma, ainda que indireta, de conclusão.

 

Primeiro lançamento de 2016 é o novo livro de poesia de Wassily Chuck

Por: Renata de Albuquerque

 

“É preciso compreender a poesia de Wassily Chuck não como fuga da realidade, mas como fuga para a realidade”, escreve José de Paula Ramos sobre o lançamento Rumo à Vertigem ou a Arte de Naufragar-se, livro dedicado ao amigo e escritor Ivan Teixeira, falecido em 2013. Concordando com tal ideia, o autor, que é engenheiro, filósofo e diplomata, fala, a seguir, de alguns aspectos da obra e de sua concepção de poesia, embora ressalte que, para ele, “o poema é bicho de sombra, e o excesso de claridade o fere”.

Capa Rumo a Vertigem

Poesia – Em meio a um tempo que transforma a linguagem em mera ferramenta, relacionada a questões de produção e eficiência, em meio à disseminação crescente das linguagens técnica e eletrônica, que tendem a esvaziar a força criadora das palavras, a poesia busca recobrar um sentido mais profundo do texto, que nos remete à possibilidade de criar a nós próprios, de criar nosso mundo, recobrando, assim, a infinita liberdade da palavra.

 

Silêncio: Para criar faz-se necessário gerar um espaço de disponibilidade, um espaço vazio, um espaço de silêncio. Por isso, pode-se dizer que não nas palavras, nos silêncios do texto jaz o poema. As palavras somente tecem o espaço para que o silêncio se expresse. Nesse sentido, a poesia seria a forma possível para dizer o indizível, a tentativa, sempre imperfeita (daí a tristeza em todo poema), de dar voz à secreta sintaxe do silêncio.

 

Nosso tempo – O sentimento trágico na Grécia antiga surgia do embate entre o homem e o destino, enquanto o sentimento trágico de nossos dias surge do embate entre o homem e a ausência de destino. Pois, com a partida dos deuses, não há mais uma lei maior regendo nossas vidas. E, nesse mundo destituído de sentido, o homem mais não é que “sonho de uma sombra”. Sair do sonho e chegar à vida, eis a busca da poesia.

 

O poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770 - 1843)

O poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770 – 1843)

Unicidade – O chileno Jorge Teillier dizia que poucos poetas têm na vida mais de um poema para escrever. O filósofo Heidegger dizia algo semelhante. No meu caso, sempre fui consciente de ter apenas um poema. E todos os livros são variações desse verso, que viro, reviro, desviro dentro de minha voz (creio que os primeiros mestres, ainda todos estrangeiros, pois eram os livros da biblioteca paterna, como Hölderlin, Trakl, Celan, Jabès e, mesmo, Rilke, poderiam ser vistos sob essa ótica).

 

Multiplicidade – Se todo escritor é muitas pessoas, eu seria essencialmente duas. Uma que crê na “fundação do Ser pela palavra poética” (conforme leitura que Heidegger faz de Hölderlin). Outra que é filha do ceticismo contemporâneo. Da busca de conciliar essas duas vozes, de buscar fazer com que uma aceite a outra, após tê-las feito medirem-se uma pela outra, disso falam os meus livros. E creio que a tensão distendida entre essas duas vozes favorece a criação poética.

 

O mar – Nasci numa cidade junto ao mar. O sal e o rumor das ondas são minha marca de nascença. A imensidão do mar seria, para mim, o infinito possível dos homens. O mar permeia todos os meus escritos, o mar é sempre protagonista, mesmo quando não nomeado.

 

O livro – O texto narra a busca de uma “palavra cheia de silêncios”, que possa recriar e refundar um sentido para a vida em nosso mundo atual. Trata-se, assim, de uma viagem através do niilismo de nosso tempo, do utilitarismo de nossas palavras, buscando um porto, um passo além do nada, uma voz mais nova e mais viva.

Ilustração de Luise Weiss para "Rumo à Vertigem": a inevitável presença do mar

Ilustração de Luise Weiss para “Rumo à Vertigem”

O título – A imagem da vertigem se liga diretamente à ideia do naufrágio. Rumar à vertigem é rumar à linguagem, pois, para mim, escrever é mais que um verbo, é uma vertigem. E rumar à linguagem é buscar o abismo de silêncio de onde toda palavra emerge, é buscar o naufrágio.

 

Viagem – Trata-se de uma viagem através da linguagem, em busca da linguagem. Viagem que se liga intrinsecamente à figura do naufrágio. Pois, o naufrágio é neste caso não só inevitável, mas também desejado. Como diz Clarice Lispector: “A linguagem é meu esforço humano. Por destino tenho de ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só poderá me ser dado através do fracasso da minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu”.

 

Finitude – Não se descobre um sentido para a vida sem aceitar que a morte faz parte da vida, sem aceitar que morte é, em verdade, “a metade mais larga da vida”, com dizia Rilke. Toda poesia se relaciona com a finitude, com o fato de sermos seres não só efêmeros, mas seres que têm consciência de serem efêmeros. Na viagem do livro, também se busca aprender a habitar a vida, com sua violenta e triste beleza, aprender a sorver a limpidez do efêmero, aprender a difícil dicção da palavra “morte”.

 

A forma – São onze cantos, que somados ao prólogo e ao epílogo perfazem um total de treze capítulos, indicando o número aziago que rege a viagem. Tal estrutura, contudo, não foi pensada antes de escrever o livro, mas, sim, emergiu durante o processo de escrita. Ou seja, foi imposta pela própria viagem do livro. Escrever é, muitas vezes, menos um fazer, que um deixar ser de um texto, assim como a poesia é, por vezes, menos um dizer que uma escuta do silêncio.

Conheça outras obras de Wassily Chuck

Fetichismos Visuais: as contradições da comunicação na metrópole contemporânea

Por: Renata de Albuquerque

Em Fetichismos Visuais– Corpos Erópticos e Metrópole Comunicacional, o antropólogo italiano  Massimo Canevacci lança um olhar sobre a experiência pós-moderna da cidade polifônica e suas contradições, lançando mão de um novo conceito: o metafetichismo. A seguir, Canevacci fala sobre o livro, que acaba de ser reeditado pela Ateliê Editorial:

O antropólogo italiano Massimo Canevacci

O antropólogo italiano Massimo Canevacci

Você optou por se distanciar das definições de Marx e Freud sobre fetichismo. Como define esse novo fetichismo que investiga no livro, à luz do mundo globalizado, da sociedade da informação e dos excessos em que vivemos?

Massimo Canevacci: Marx e Freud utilizam o conceito de fetichismo da mesma maneira colonial dos primeiros portugueses, que encontraram na África rituais sagrados que não entenderam e que classificaram como animistas, bárbaros, mágicos, primitivos. Feitiço é palavra que deriva da latim, facticius; isto é fabricado, coisa material sem espiritualidade. Por isso, animismo significa uma alma menor, uma quase-alma. Infelizmente, para Marx, fetichismo é parte da alienação; e, para Freud, da perversão (só masculina). Assim, eles continuam a utilizar esta palavra no sentido colonial e discriminativo, que foi difundido pelo pesquisador francês de Brosses. No sentido comum atual, fetichismo continua a ser estigmatizado como uma aura suja que circunda uma atitude ou define um site pornô. Para mim, o fetichismo visual – e ainda mais o digital – manifestam uma ruptura em relação a este sentidos clássicos ou populares. O conceito de fetichismo esconde um enigma que eu queria tentar de desvelar e que não é possível elaborar numa maneira tradicional.  Nesse sentido “cotidiano”, o fetichismo é aplicado à moda, publicidade, cinema, videoclipes, design, arquitetura e, claramente, no youporn. Mas esta palavra tornou-se vazia, porque não consegue penetrar o enigma daquele que se continua a chamar fetiche.

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O que é o “além do metafetichismo”? Qual a metáfora possível?

MC: A minha tentativa vai na direção de liberar tendencialmente o fetichismo das incrustações coloniais e modernas que continuam a ser divulgadas na contemporaneidade. Uma tentativa de separar fetichismo da alienação   ou reificação. Observar a potencialidade  de um conceito que vai além do dualismo objeto/sujeito, além do pensamento dicotômico em geral e afirmar uma antropologia não-antropocêntrica. Neste sentido, uma coisa, um objeto, uma mercadoria  ou – na minha palavra que unifica tudo isso,  facticidade – é possível perceber um lado vivente, de entidade, que tem uma sua biografia e sempre mais também uma biologia.  O meta-fetichismo tenta explorar o além do domínio que em parte está ainda incorporado no tradicional fetiche e verificar  a potencialidade de libertação das coisas de não ser só útil. O meta-fetichismo é a metáfora do  desejo difundido da meta-morfoses: mudar identidades, prazeres, formas, “corpos”, vidas…

Como o fetichismo que você define se coloca diante da nova realidade do voyeurismo que passou a existir a partir do advento da internet (caso, por exemplo, dos reality shows, que fazem tanto sucesso)?

MC: Voyerismo e narcisismo são duas palavras-chaves que foram inventadas antes da revolução digital ou da pessoa “normal” que vira famosa – mais que no sentido de Warhol (dos quinze minutos de fama) – por um reality show. Voyerismo e narcisismo cruzam a tela do computador, skin and screen, carne e pixel, e fundamentalmente o inconsciente não é mais uma articulação  dentro o “eu”. Ele se estende fora do sujeito e vai incorporando uma dilatação onde orgânico e inorgânico se misturam sempre mais. Isto é, sujeito e objeito… ou tecno-digital e tecno-cultura. Assim fetichismo por um lado vira uma das possível perversão normalizada apresentada da comunicação atual, entre dezenas e de cenas de outras; por outro lado, para mim, vira só um slogan ou melhor um símbolo vazio sem sentido. Este voyerismo adéqua a sua potência ao nível mais “normal” (desculpe a palavra) que cruza as antigas divisões de classes e vira a potencia da banalidade que se autorrepresenta. E agora todo o  mundo se pode autorrepresentar. Esse é o desafio da política e da antropologia comunicacional.

Andy Warhol: "todos têm direito a 15 minutos de fama"

Andy Warhol: “todos têm direito a 15 minutos de fama”

Como se coloca, dentro de sua hipótese, a questão da visão psicanalítica do “constituir-se pelo olhar do outro” versus o “reificar-se no olhar do outro”? Há alguma síntese possível que possa acolher o conceito de metafetichismo?

MC:  A clássica dialógica, seja psicanalítica que antropológica ou narrativa,  sempre afirmou que o indivíduo é tal enquanto existe o olhar do outro. É o outro que constrói a minha identidade. Mas alguns autores (me refiro a Adorno) afirmam que é impossível anular cada elemento reificado; que existe uma relação complexa entre reificação e objetivação. Quero dizer que não é possível purificar cada objeto de fragmentos reificados. Para amplificar o discurso, precisamos dizer que entra em cena também a petrificação, ou seja: como o mito é ainda presente na cultura cotidiana em cada experiência metropolitana ou indígena.   A objetivação é a natureza mediada pela cultura; a petrificação é a ratio mediada pela mitologia; a reificação é o objeto mediado pela indústria. Uma síntese é impossível: a síntese e a dialética estão mortas. É possível só aceitar o desafio de sincretizar os olhares: o olhar nunca é puro ou autêntico, mas felizmente é sempre híbrido e cheio de sintomas que manifestam a impuridade reprimida pelo domínio não somente ocidental.

Como se constitui a relação entre coisa, criatura e cultura a partir do conceito de metafetichismo?

MC: Esta composição – conceito para mim determinante em direção a uma nova narrativa  antropológica – deseja misturar, cruzar e atravessar  artes, performances, contos, vídeos, “digital storytellers” onde o meta-fetichismo elabora nas pragmáticas indisciplinadas modos outros de enfrentar natureza/cultura, criatura/coisa, mito/razão. Eu acho que muitos artistas em sentidos expandidos (incluindo cientistas) ou rituais em parte consumados (carnaval ou mega-concertos) tentam elaborar  este meta-fetichismo além do colonialismo, da reificação, da perversão ou do sentido “comum”. Aqui nasce a aliança e a dança entre meta-fetichismo e meta-morfoses.

A voz de Gilberto Gil

Por: Renata de Albuquerque

 

De fã a pesquisador. Essa é a trajetória que o jornalista e pesquisador Pedro Henrique Varoni de Carvalho percorreu para tentar apreender e explicar a trajetória de Gilberto Gil dos palcos ao Ministério da Cultura – posto que assumiu em janeiro de 2003, durante o primeiro mandato do  presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

voz que cantaVaroni é autor do livro A Voz que Canta na Voz que Fala: A Trajetória Poética e Política de Gilberto Gil, que acaba de ser lançado agora pela Ateliê Editorial. Na obra, ele trafega pela análise do discurso e aponta como Gilberto Gil trouxe o seu discurso poético-tropicalista ao ministério, sugerindo e promovendo mudanças até então inéditas no que toca ao tratamento dado à cultura brasileira pelo Estado.

O autor, que é Mestre e Doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, professor do Curso de Jornalismo da Universidade Tiradentes (Aracaju/SE) e Diretor de Jornalismo da TV Sergipe (afiliada da Rede Globo em Aracaju), fala sobre sua obra ao Blog da Ateliê:

Como teve a ideia de escrever sobre Gilberto Gil? Quando a admiração de fã tornou-se curiosidade de pesquisador?

Pedro Henrique Varoni de Carvalho: As canções de Gil e Caetano foram uma descoberta da infância. Um tio tinha uma boa coleção de discos e fui seduzido pela sonoridade das canções. Poucas coisas são tão fortes como a gravação de “Aquele Abraço” ou o violão de “Expresso 2222”, pra ficar em alguns exemplos. Essas e outras canções de Gil sempre me impressionaram.   Ele é um artista que conjuga uma expressão poética densa, uma musicalidade rica e um jeito de interpretar as canções, bastante original. A curiosidade sobre a música orientou desde então meu trabalho de jornalista e pesquisador. Então as questões relacionadas à música brasileira estão, desde sempre, no meu campo de interesse.

Pedro-Varoni-2015

Pedro Varoni

Durante o Mestrado no Programa de Pós-graduação em Linguística da Universidade Federal de São Carlos propus a noção conceito que seria trabalhada no Doutorado, a de arquivo de brasilidade baseada no pensamento de Foucault. O arquivo é tanto depositário da memória quanto o que garante as condições de enunciabilidade. Trata-se da busca de uma metodologia baseada na Análise do Discurso a partir das contribuições de Michel Pêcheux e Foucault para descrever e interpretar a história brasileira, tomando por referência a relação entre acontecimentos e memória.  Essas inquietações levaram-me ao tropicalismo como um momento histórico que instaurou outra ordem do discurso no meio cultural brasileiro.  As linhas de pesquisa do programa de Pós Graduação em Linguística da UFSCar tinham, naquele período, um foco na análise dos discursos políticos.   A imagem de Gilberto Gil tocando no plenário da ONU motivou a busca de respostas relacionadas às relações de saber e poder em torno da canção. O Ministro artista evocava outra imagem: a do jovem músico se apresentando no Festival da Record em 1967. Nessa fase da pesquisa estava sendo lançado o documentário “Uma Noite em “1967” que muito contribuiu para as reflexões do meu trabalho. Assim, Gilberto Gil aparece como uma síntese de alguns acontecimentos daquele momento: o encontro entre o artista tropicalista e o líder sindical tornado Presidente da República, as transferências simbólicas da política para a canção e da canção para a politica. Tudo isso a partir do referencial teórico metodológico da Análise do Discurso.

 

Como se deu o processo de pesquisa: como foi essa trajetória, quais as dificuldades encontradas no caminho?

PHVC: Era preciso separar, desde o início, o indivíduo do sujeito do discurso. Pela Análise do Discurso, o sujeito é interpelado pela linguagem, história e inconsciente.   Não há sujeito pleno como origem e fim do discurso, como não há assujeitamento pleno.  Assim, a dificuldade inicial era encontrar este sujeito do discurso por detrás dos aspectos biográficos.  A noção de subjetividade lançada por Foucault e trabalhada por outros autores foi a que possibilitou esse encontro com o sujeito do discurso Gilberto Gil. O pensamento de Suely Rolnik foi de grande valia para se pensar a subjetividade hippie-tropicalista-antropofágica, fruto do exílio e das experimentações existenciais dos anos 1960 e 1970 que se davam a ver na dimensão do corpo, das micropolíticas. Ao mesmo tempo em que Gil se insere nessa ordem do discurso para criar suas canções a subverte, contribuindo para a emergência de uma contracultura tropical litorânea.

Refazenda-capa

Capa do álbum Refazenda (1975)

O tropicalismo foi o acontecimento discursivo que possibilitou uma ampliação das bandeiras micropolíticas no Brasil. A trilogia de Gil – os álbuns Refazenda, Refavela e Realce, antecipa tendências comportamentais e políticas. A questão da valorização de estilo de vida sustentável, os direitos de cidadania, contra o racismo, o machismo e por fim a legitimidade do entretenimento e da poesia popular são temáticas atuais e que já estavam lá nesses álbuns conceituais de Gil.  Essa complexidade demandou um trabalho arqueológico e genealógico tanto sobre a eclosão do tropicalismo quanto seus desdobramentos. Ao mesmo tempo como o assunto já foi tema de muitas e importantes pesquisas, era preciso tentar ir além. Buscar responder qual o sentido do tropicalismo hoje, tentar analisá-lo com olhos contemporâneos para refletir sobre o seu lugar no arquivo de brasilidade.

O que mais o surpreendeu durante a pesquisa?

PHVC: As hipóteses foram sendo construídas durante o trabalho. No momento do projeto interessava saber as condições da transferência de valor simbólico da canção para a política institucional, principalmente ligada à ascensão de Lula ao poder. A investigação revelou de um lado o processo histórico de constituição da canção brasileira como rede de recados do popular para o político-midiático. Desde o samba, passando pela geração dos Festivais – que inclui além de Gil, Caetano, Chico, os grandes nomes da chamada MPB – há uma relação entre a canção e o dinamismo dos acontecimentos.  Talvez o último momento em que isso se dê seja com a geração do rock dos anos 1980, período que coincide com a volta da democracia no país.  A partir daí as linhas de força da canção perdem o elo entre o passado recente e o futuro próximo, uma crise de transmissibilidade nos termos do filósofo Giorgio Agambem.  É justamente esse momento que coincide com a chegada de Lula ao poder e a escolha de Gilberto Gil como seu Ministro da Cultura.  Por isso, o trabalho se chama a voz que canta na voz que fala. Procurei, de certa forma, inverter a descoberta de Luís Tatit de que há sempre uma voz que fala na voz que canta. No caso da presença física e simbólica de Gilberto Gil como Ministro da Cultura de Lula há uma transferência desse capital da canção para a política, da voz que canta na voz que fala.

Gilberto Gil canta "Imagine" na ONU

Gilberto Gil canta “Imagine” na ONU

A grande imagem desse movimento é justamente a apresentação de Gil no plenário da ONU, num momento em que o Brasil aparecia, aos olhos do mundo, como exemplo de tolerância mestiça e Lula era saudado como “O cara” por Barack Obama. Caetano Veloso disse que Gil era o Lula do Lula. Esse enunciado pode ser interpretado a partir das dicotomias entre uma esquerda engajada que gerou o movimento sindical de onde Lula surgiu e os elementos comportamentais de uma contracultura negro-baiana de onde vem Gilberto Gil.  As questões de gênero, raça, da diversidade entram no Governo Lula também pela voz de Gilberto Gil.  Esses valores simbólicos contribuem, naquele momento, para uma nova posição do Brasil no jogo geopolítico internacional.

De que maneira o conceito de Antropofagia, que o Tropicalismo tão bem utilizou, aplica-se à atuação de Gilberto Gil como ministro de Lula? Que exemplos concretos podem se dados dessa atuação nesse contexto?

PHVC: Em Oswald de Andrade a antropofagia era um pensamento filosófico, uma intuição no contexto da busca do nacional-popular que justifica o modernismo brasileiro.  Defendemos na nossa pesquisa que com o tropicalismo esse pressuposto filosófico se torna estratégica político-midiática, foi algo que transcendeu o projeto estético das canções.  Nesse sentido, o tropicalismo é uma aplicação prática do preceito filosófico antropológico. A motivação para que Gilberto Gil se engajasse no tropicalismo, no final dos anos 1960, veio de uma imersão sua na cultura popular do interior de Pernambuco em que a vitalidade da Banda de Pífanos o fez pensar no jovem rock inglês. Essa aproximação entre universos simbólicos tidos como inconciliáveis pelos defensores de uma autêntica música brasileira procura chamar atenção, sobretudo, para as relações entre mídia e cultura popular. Se aqui chegavam os Beatles e os Rolling Stones teríamos de criar uma sonoridade brasileira moderna e cosmopolita. É o movimento que desagua, por exemplo, no mangue beat.

O ministro segue essa trilha da “guerrilha cultural nos canais do sistema”. A proposta dos pontos de cultura, em que comunidades do interior teriam direito a uma ilha de edição, uma câmara e internet de banda larga é uma atualização da antropofagia tal como foi lida pelo tropicalismo. Fazer circular a cultura popular é a única forma de revitalizá-la, de manter o vínculo com o contemporâneo. Tornar todos potencialmente produtores de conteúdo e não apenas consumidores passivos da cultura de massa. A ideia de antropofagia é, nesse sentido, como salientam muitos pensadores, uma das mais profundas e originais contribuições do modernismo brasileiro ao mundo. A relação entre fluxos homogeneizantes da sociedade globalizada e sínteses antropofágicas das culturas histórico-territoriais tornou-se uma das possibilidades para a crise de identidades nesses tempos líquidos.

Em sua opinião, como a atuação de Gilberto Gil enquanto ministro contribuiu para a criação (ou manutenção) de uma (nova?) autoimagem brasileira durante os anos Lula?

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião

PHVC: A presença de um artista com a trajetória de Gilberto Gil contribuiu para o efeito simbólico de que a chegada de Lula ao poder significava uma correção histórica de séculos de mazelas sociais no país.  De um lado a trajetória de um pau de arara, líder sindical. De outro a de um negro, filho de uma classe média baiana que contribuiu com sua arte para a criação de uma linguagem original e moderna, que o habilitou a transitar pelas plateias do mundo. A potência do canto com mensagens pacifistas e de defesa da diversidade fizeram de Gil uma espécie de embaixador brasileiro em momentos marcantes. Na ONU além de suas canções, ele cantou músicas de John Lennon, Bob Marley e saudou Luiz Gonzaga. É um acontecimento que dialoga com a eclosão do tropicalismo e, de alguma forma, com as utopias da geração dos anos 1960, não só no Brasil, mas no mundo.

É possível fazer uma análise dialética dessa atuação do artista no Ministério? Existe uma síntese possível para o “caso Gilberto Gil”, cuja atuação política (esperada na esfera artística) transbordou os limites da arte e passou a se realizar na política partidária e na esfera do poder público?

PHVC: “O caso Gilberto Gil” é exemplar da potência poética e política vivenciada no Brasil pela geração de artistas surgida nos anos 1960. Do cinema novo ao tropicalismo, passando pela canção de protesto, pelos vários movimentos teatrais havia um desejo de transformação do real a partir de uma nova linguagem. Esse lugar da arte sofre uma cisão a partir dos anos 1980 em que de um lado há um aumento do aspecto mercadológico, do culto às celebridades, de certa frivolidade que resulta numa música para fazer dançar ou provocar emoção fácil. Visto por esse ângulo o movimento de Gil em direção a política não deixa de ser a retomada dessa utopia de uma juventude revolucionária.

O movimento de Gil em direção ao Ministério é também sintoma de uma crise nas linhas de força da canção popular. A MPB de gosto universitário dos anos 1960 não gera prosseguimento a não ser em nichos. Naquele período eclodiram as discussões sobre o fim da canção, a partir de uma provocação de Chico Buarque, na verdade indicando o deslocamento para o rap, a nova voz da periferia nos anos Lula.  Essa possibilidade de expressão periférica possibilitada pelas novas tecnologias e o movimento da sociedade não deixa de ser o sonho da geração dos anos 1960. Então quando Gil se aventura no dispositivo governamental ele legitima esse fluxo a partir de políticas como os pontos de cultura. E o faz não mais só como artista, mas como aquele que propõe as políticas públicas para a cultura. Conceitualmente, os pontos de cultura são o equivalente simbólico da bolsa-família, no sentido de dar voz à diversidade brasileira.

Outro aspecto da atuação do Ministro é esse status de embaixador cultural do país defendendo uma ideia que vem de Gilberto Freyre, passa por Darcy Ribeiro de que somos uma nação mestiça e criativa, muitas vezes promovendo um relativo apagamento da colonização violenta que nos constitui. Isso apesar das canções de Gil como “A Mão da Limpeza” e “Nos Barracos da Cidade” colocar o dedo na ferida.

Qual o legado da atuação de Gilberto Gil, nesse sentido, para o Brasil de hoje, que vê o fortalecimento do conservadorismo nas mais diversas esferas?

PHVC: O artista como sujeito do discurso se inscreve na subjetividade hippie-antropofágica de matriz africana que tem sido um elemento de resistência à onda conservadora porque preconiza o direito às liberdades do corpo, contra o racismo. Suely Rolnik fala nas subjetividades dos anos 1960 que continuam a produzir sentido na sociedade. Assim, temos o “Coronel em nós”, “o hippie em nós”, “a tradição, família e propriedade em nós”. Essas subjetividades explicam muito das radicalizações e conservadorismo que eclodem nesse momento. Elas não surgem agora, são atualizadas, vêm à luz diante de uma nova ordem do discurso ainda de difícil apreensão. É algo que o trabalho apenas sugere, mas seria um prosseguimento dele.

Rolnik também tem uma discussão bastante interessante sobre o que denomina de “Zumbi antropofágico”, que seria uma banalização da mistura fazendo com que a energia revolucionária dos anos 1960 fosse domesticada pelo capitalismo. O resultado é um excesso de relativismo gerando misturas inodoras, sem alma, quase sempre a favor apenas do mercado. Há um núcleo de identidade a partir do qual se promovem as misturas. No caso de Gil é a baianidade de Caymmi e a poética sertaneja de Luiz Gonzaga. Gil resulta do encontro do sertão com o litoral.  É preciso uma dissociação do próprio tempo, demonstra-nos Agambem, para capturar o contemporâneo, traduzir em linguagem o que o real quer dizer. Esse é o principal ensinamento da trajetória deste artista ímpar.

Da Europa à América Latina

 

Por: Renata de Albuquerque

 

As cerca de quatro décadas e a questão geográfica que separam a Segunda Guerra Mundial da Guerra das Malvinas podem, em uma análise superficial, fazer com que não se consiga estabelecer relação entre esses dois conflitos. Mas o Doutor em História Osvaldo Coggiola vê pontos de intersecção entre essas duas guerras.

outra guerra fim do mundo“A Inglaterra e os EUA, que venceram a Guerra das Malvinas, também venceram a Segunda Guerra Mundial. A posse inglesa das Malvinas é um ressabio da hegemonia mundial ainda presente das potências anglo-saxãs. O único navio norte-americano não afundado em Pearl Harbor foi vendido depois à Argentina, onde foi se transformando no Cruzador General Belgrano, que foi afundado pela Inglaterra na  Guerra das Malvinas, com centenas de marinheiros argentinos mortos. São marcas muito profundas”, explica ele, que é autor de A Outra Guerra do Fim do Mundo, livro em que trata de detalhes do conflito (como dados e movimentações dos exércitos) e analisa a legitimidade dos discursos de ambos os países para justificar suas posições.

Coggiola nasceu na Argentina e, em 1976, foi expulso da Universidade Nacional de Córdoba por causa do Regime Militar vigente, então. Estudou na França, onde se doutorou em História, e hoje e Professor Titula e Chefe do Departamento de História da USP. Em sua avaliação, na Argentina, a questão Malvinas continua presente no sentido histórico, político e cultural. Já na Inglaterra, segundo o autor, formou-se um consenso acerca da necessidade de uma soberania compartilhada.

“O conflito pela soberania das ilhas continua presente, embora hoje por vias diplomáticas. A questão diz respeito a toda a América do Sul. Não só pela soberania territorial e pelas riquezas petroleiras hoje comprovadas do arquipélago, mas sobretudo porque existe uma forte base militar da OTAN a escassos 400 quilômetros da Argentina, a quinze minutos de voo de aviões militares, ou seja, vizinha às costas da América do Sul. As Malvinas, na posse da Inglaterra, e o embargo norte-americano a Cuba são as duas mais importantes questões pendentes a respeito da soberania territorial da América Latina”, afirma.