Entrevistas

Um muçulmano na África

 

Por: Renata de Albuquerque

Leão, o Africano é uma figura muito peculiar. Viajante, tradutor e diplomata, sua vida é tão cheia de reviravoltas que pode até parecer ficção. Leão, o Africano: a África e o Renascimento Vistos por um Árabe é um relato da viagem curioso deste muçulmano à África, em pleno século XVI. Nessa obra, que Murilo Sebe Bon Meihy traduziu para a Coleção Estudos Árabes, o leitor brasileiro tem a possibilidade de conhecer um universo que parece distante, mas que ainda é pouco conhecido e guarda muitas semelhanças com o contexto da atualidade. Nesta entrevista, o professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e em Estudos Árabes e Islâmicos pela Universidade Autónoma de Madrid (UAM); e Doutor em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP) fala sobre este título:

Murilo Sebe Bon Meihy

Quem foi Leão, o Africano e o que há de ficção e de realidade documental no livro que leva seu nome?

Murilo Sebe Bon Meihy: Leão, o Africano levou uma vida rica e fascinante.  Nascido no Reino de Granada, foi expulso de sua terra natal quando os reis Fernando e Isabel de Castela e Aragão, os chamados “reis católicos”, conquistaram Granada e expulsaram os muçulmanos da Península Ibérica. De família abastada, Leão, o Africano buscou refúgio em Fez (Marrocos). Em uma de suas viagens, foi preso por piratas cristãos no Mar Mediterrâneo e levado à Península Itálica. Por sua erudição, foi entregue ao Papa Leão X, e passou a sobreviver em Roma fingindo-se convertido ao cristianismo. Parte de sua vida está documentada por meio de registros de seus trabalhos na Biblioteca Apostólica Vaticana. É justamente sua obra mais célebre, um relato de viagem sobre a África, que apresento aos leitores nesse livro da Ateliê Editorial.

 

Em sua opinião, qual a importância de trazer ao público em geral seu trabalho que, por ser acadêmico, pode vir a ser considerado “muito complexo”?

MSBM: O relato de Leão, o Africano, conhecido de forma abreviada como “Descrição da África”, transformou-se na principal fonte de conhecimento geográfico e cultural sobre a África difundido na Europa até os séculos XVIII e XIX. Apesar da complexidade do texto histórico de Leão, o Africano, o leitor desse livro entrará em contato com um relato de viagem do século XVI mais fluido e prazeroso de ler, já que o texto do viajante granadino é exposto e explicado a partir do rico contexto cultural do Renascimento na Europa do século XVI, e da vida encantadora de nosso protagonista. Cheia de estratégias sedutoras de sobrevivência em um mundo marcado por diferenças culturais, a biografia de Leão, o Africano mostra que há um lugar de destaque para o Islã e a África na história cultural da Europa moderna.

A história de Leão, o Africano ainda pode ser considerada atual, levando-se em conta o cenário de conflitos do Oriente Médio?

MSBM: Mais do que atual, a história de Leão, o Africano é a própria narrativa de vida de muitos árabes muçulmanos no mundo atual. A condição de refugiado, que assola milhões de sírios, palestinos, e iraquianos hoje, por exemplo, ainda que por razões distintas, se combina ao esplendor cultural de uma civilização tão grandiosa quanto instável. Compreender o Oriente Médio atual é voltar os olhos para o seu passado de contato com o Ocidente.  Se precisamos de certo contato com o passado colonial para entendermos o Brasil e a América Latina de hoje, com o Islã e o Oriente Médio não é diferente.

Em que aspectos essa história pode ajudar os brasileiros que a lerem a entender esse complexo contexto?

MSBM: Sobreviver em tempos de incerteza é uma arte que brasileiros e árabes compartilham sem terem consciência disso. O homem moderno não é definido apenas pelas suas convicções, mas também pelas suas contradições. Desde a invenção do “Oriente” como uma categoria geográfica e cultural em oposição ao “Ocidente”, construímos uma visão soube o outro a partir de um conjunto de características que não queremos reconhecer em nós mesmos.

 

A tolerância, o respeito às diferenças culturais, e a empatia eram grandes desafios enfrentados pela humanidade no século XVI, e que sobrevivem na atualidade. Leão, o Africano e seu relato sobre a África nos ensinam que essas são lições constantes a serem aprendidas por todos, principalmente pelos brasileiros nos dias atuais.

Quais foram os desafios enfrentados pelo senhor durante o processo de edição da obra?

MSBM: Traduzir um texto de época é sempre um desafio, ainda mais quando acompanhado do esforço de revelar as contradições humanas de uma época passada. Essa é a essência do trabalho do historiador. Por ter sido parte de minha tese de doutorado defendida no setor de Estudos Árabes da USP, em 2013, a adaptação da linguagem acadêmica para a de um livro editado é praticamente um processo de reescrita do texto. A versão publicada pela Ateliê Editorial tem a pretensão de ser um texto com rigor científico, mas que prenda a atenção dos que se dispuserem à leitura. Para isso, contei com o excelente trabalho da equipe da editora, e espero que o resultado seja atraente para o público em geral.

As relações entre a Europa Latina e o Norte da África, mediadas pelo Islã, mudaram ao longo dos séculos? O que o senhor destacaria sobre este assunto?

MSBM: Em linhas gerais, essa relação sempre esteve marcada por dois fatores: a negociação e o conflito. Muitas vezes os especialistas e estudiosos recorrem a elementos culturais e até mesmo religiosos para a defesa da hipótese de que o motor da História é o confronto inevitável entre civilizações. Essa premissa é um equívoco, já que condiciona a experiência histórica à guerra e ao enfrentamento. Os momentos em que se estabeleceu o diálogo e o respeito mútuo entre povos distintos como cristãos, judeus, e muçulmanos, por exemplo, produziram avanços culturais extraordinários, ainda que algumas tensões não deixassem de existir.

Na relação histórica entre Europa, África e Islã não há opostos inegociáveis. Os radicalismos e excessos sempre existiram, mas nunca foram definidores de como esses povos interagiram na História. Desejo que os que lerem esse livro sejam convencidos disso ao final da leitura.

Qual a importância, para o brasileiro, de entender como a África e o Renascimento foram vistos pelos árabes? O que da cultura de nosso país pode-se ver refletido nesse espelho?

MSBM: Apesar de nossa proximidade cultural com a África, o Brasil produz pouca bibliografia sobre o tema. A maioria do material que temos trata a visão europeia e cristã sobre o continente africano. O relato de Leão, o Africano, ao trazer o olhar de um árabe muçulmano sobre a África, mostra que temos que estar abertos a novos interlocutores e olhares. Mesmo o Renascimento, que foi amplamente discutido na historiografia, sempre teve a preponderância da visão europeia. É chegada a hora de entrarmos em contato com uma perspectiva histórica diferente e não menos encantadora. Espero que esse livro ajude a inserir o debate sobre as diferenças culturais na História Moderna. Nesse período da História, são muitos os relatos de viajantes europeus sobre o Brasil colonial, e o olhar de Leão, o Africano sobre a África nos inspira a encontrarmos aproximações entre as experiências coloniais no Atlântico e no Mediterrâneo. Valores como alteridade, tradução e diferença culturais são princípios que reivindicamos na formação social do Brasil. Por que não buscarmos esses mesmos fundamentos no olhar estrangeiro sobre a África?

Quatro Ensaios Sobre Oscar Niemeyer

No ano em que o arquiteto faria 110 anos, lançamento coloca luz sobre novos aspectos da obra do arquiteto carioca

Por Renata de Albuquerque

Morto há cinco anos, Oscar Niemeyer continua sendo uma referência fundamental quando o assunto é arquitetura, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. A grandeza de sua obra permite que haja uma profusão de estudos a respeito e que, mesmo assim, novos aspectos sejam abordados a cada nova publicação, por meio de visões singulares. Quatro Ensaios Sobre Oscar Niemeyer, organizado por Paulo Bruna e Ingrid Quintana Guerrero, aborda sua obra em São Paulo, suas ligações com Le Corbusier, a crítica internacional e a arquitetura religiosa latinoamericana.

Para falar sobre o lançamento, a arquiteta colombiana concedeu uma entrevista para o Blog da Ateliê:

 

Ingrid Quintana Guerrero

Qual a importância da publicação de “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer”?

O livro oferece leituras inéditas da obra, discurso e influência de Oscar Niemeyer, dentro e fora do Brasil, sobre temas que parecem já esgotados: sua obra paulista; seu papel nos círculos internacionais da arquitetura, seu aprendizado dos grandes mestres e a recorrência dos programas religiosos nos encargos que recebeu. Autores como Hugo Segawa e Paulo Bruna são garantia da qualidade científica dos textos.

 

 

O que o leitor poderá encontrar nesse livro?

Apresentamos quatro textos, mais uma apresentação de Sylvia Ficher, professora da UnB. O primeiro deles, de Paulo Bruna, constitui uma revisão da profundidade da produção de Oscar Niemeyer no estado de São Paulo, com destaque aos projetos habitacionais , que hoje são cartões postais dessa cidade (o Copan; o edifício Montréal), sem esquecer sua intervenção mais ambiciosa nessa terra: o Parque do Ibirapuera. Por sua vez, Hugo Segawa reconstrói as opiniões da imprensa sobre a atuação internacional de Niemeyer, no período que vai da construção do emblemático pavilhão de Nova Iorque (com Lucio Costa, 1939), até o convite para erigir um novo pavilhão, na Serpentine Gallery (Londres, 2003). Ele revisa minuciosamente o episódio da constituição de uma equipe para a sede da ONU, decorrente do concurso ganho pelo jovem Niemeyer (1947). No seu texto, Rodrigo Queiroz, que há muitos anos investiga os traços de Le Corbusier na produção do carioca, revela os vínculos profundos entre a linguagem de ambos os arquitetos; vínculos que, por sinal, Niemeyer negou inúmeras vezes. Por fim, meu ensaio propõe uma leitura da produção de arquitetura religiosa latinoamericana em chave Niemeyer, em países como o México, a Colômbia e a Venezuela.

 

A obra pode chamar a atenção de leitores não ligados ao universo da arquitetura ou é dedicado apenas a profissionais da área? Por quê?

Eu acho que é um livro que, além de atrair profissionais da arquitetura (o texto de Rodrigo Queiroz aponta à universalidade de Niemeyer mediante sua relação plástica com a obra de outro gigante da arquitetura moderna, Le Corbusier), pode ser de interesse para os apaixonados pela história de São Paulo (o texto de Paulo Bruna oferece o panorama mais completo que eu já vi sobre a obra do carioca na capital paulista); para quem gosta das intrigas por trás dos encargos de arquitetura e da recepção e crítica desses pela mídia (texto de Hugo Segawa, com seu estilo único, quase de cronista); para quem estuda América Latina como bloco cultural e intelectual (acredito que meu texto contribui a essa perspectiva).

Existe uma vasta bibliografia sobre a obra de Niemeyer. De que maneira este livro se diferencia do que já existe no mercado editorial?

Qualquer resposta que eu der será fraca, considerando que todo dia, em algum canto do planeta, alguém publica uma tese, um artigo ou um livro sobre Niemeyer. Porém, Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer é mais do que uma coletânea: é um esforço de coletivo da equipe de pesquisa Arquitetura e Cidade Moderna e Contemporânea cujos membros, ao mesmo tempo, possuem abordagens e trajetórias totalmente diferentes. Isso só podia acontecer na FAU USP, a mais plural e cosmopolita das escolas de arquitetura brasileiras, embora sempre seja identificada com a herança de Vilanova Artigas e com o “brutalismo paulista”.

 

Neste ano, o arquiteto faria 110 anos e são lembrados os 5 anos de sua morte. Este pode ser considerado o “mote” do lançamento do livro ou há outras razões para tal publicação?

Sim. Infelizmente, inúmeros motivos fizeram com que a publicação, que iria aparecer no primeiro aniversário do falecimento de Niemeyer, fosse adiada. Daí que tivéssemos que revisar e atualizar os textos para sua publicação hoje. No entanto, o tempo passa muito rápido e nenhum desses perdeu vigência.

 

No texto de apresentação, Sylvia Ficher se refere a um livro que estaria prestes a ser lançado, uma coletânea em três seções. Há notícias sobre ele?

Sylvia é quem está envolvida no projeto. Ela diz que Andrey Schleee ela não perdem a esperança de conseguir publicar o projeto integral. Esperemos que isso aconteça em breve.

 

Foram escritos mais de 30 capítulos do trabalho ainda não editado. Como foi o processo de escolha desses 4 ensaios? Por que eles foram os escolhidos para fazer parte da edição da Ateliê?

Paulo Bruna, que fez parte da primeira iniciativa, na UnB, conhecia bem o material e fez a escolha. Na verdade, meu texto não faz parte desses 30 trabalhos: foi produto do convite que Paulo me fez diretamente. Ele conhecia bem minhas linhas de pesquisa e se interessou no olhar que uma arquiteta estrangeira como eu poderia aportar à leitura da obra de Oscar Niemeyer. Eu aceitei esse convite como um desafio, ainda maior considerando trajetória dos co-autores. Logicamente era pouco aquilo que eu podia acrescentar ao conhecimento de Niemeyer de uma perspectiva brasileira, daí que me concentrasse nos desdobramentos da sua obra na América do Sul. E me debrucei naquilo que eu acho mais fascinante da produção do carioca: sua arquitetura religiosa.

Ainda há muito a ser estudado sobre Oscar Niemeyer? O que, em sua opinião, ainda merece atenção dos pesquisadores? E de que forma este volume contribui com esta fortuna crítica?

Há alguns meses deixei o Brasil e voltei para meu país. Esse estranhamento, após ter vivenciado intensamente sua arquitetura, permitiu-me entender a dimensão monumental do legado de Niemeyer; sua universalidade e seu impacto até hoje.Com certeza, Niemeyer ainda é um dos maiores ícones da arte brasileira no mundo e referência vigente para os estudantes de arquitetura. Porém, o que dele se conhece lá fora é ainda uma versão carioca, ligada a sua produção fluminense e à riqueza visual que lhe forneceu o Rio de Janeiro. A atuação de Niemeyer fora do Rio e de Brasília, a profundidade do seu pensamento político, estético e social ficam num segundo lugar por causa da exuberância e sensualidade dos seus edifícios, apontadas desde a redação de Brazil Builds.

Meu ensaio e o texto de Rodrigo Queiroz contribuem a estender pontes entre Niemeyer e seus contemporâneos fora do Brasil, pontes delineadas pelas formas, mas sustentadas nas estratégias projetuais (que vão além da simples linha curva que imita o corpo feminino) e nas raízes culturais da condição latino-americana. Acredito que mais estrangeiros procurarão no Brasil as chaves para decifrar uma identidade própria e este livro suscitará novas questões neles.

 

Por que é importante conhecermos mais sobre a trajetória de Oscar Niemeyer?

Sylvia Ficher intitulou sua introdução “Niemeyer nunca é demais”. Concordo totalmente: quanto mais nos aprofundamos na sua produção, nos seus edifícios e nos seus desenhos, ficamos mais maravilhados pela sua criatividade, disciplina e coragem. Felizmente não é um caso isolado no Brasil: hoje Paulo Mendes da Rocha usufrui do prestígio e louvor da crítica especializada. Mas este não teve a sorte daquele, isto é, de agir em diferentes épocas e cenários, tão relevantes para a configuração histórica do continente americano moderno. Mesmo que não gostemos dos seus prédios, não é possível negarmos a condição de Niemeyer como mestre renascentista no meio do século 20: ativista comunista; homem da alta sociedade; poeta; pintor; arquiteto e urbanista. Sempre haverá uma lição para aprender nos seus bate-papos com sócios e amigos, nos seus croquis e na vitalidade que sua arquitetura oferece ao espaço urbano de cidades como São Paulo ou Belo Horizonte.

 

Conheça outras obras da Ateliê sobre arquitetura

Clássico, “O Ateneu”, de Raul Pompeia, ainda instiga leitores do século 21

“O Ateneu”, de Raul Pompeia, foi lançado há mais de um século, mas ainda instiga e provoca os leitores. A obra carrega em si características de diversas manifestações artísticas, como realismo, impressionismo e expressionismo, que se evidenciam no romance de dimensão autobiográfica do autor, Raul Pompeia, publicado pela primeira vez em 1888. Se, na época, ele foi recebido com estranhamento pela crítica, ainda hoje intriga leitores. Por isso, a Ateliê lança uma nova edição do clássico, com apresentação e notas de Emília Amaral, professora de Literatura e Doutora pela Unicamp, que fala ao Blog da Ateliê sobre o clássico:

 A edição traz ilustrações feitas pelo próprio Raul Pompéia. Ele era reconhecidamente um bom desenhista? Como essas imagens foram selecionadas para esta edição?

 Emília Amaral: Raul Pompeia era, sim, reconhecidamente, um excelente desenhista. Fazia caricaturas incríveis, e isso tem tudo a ver com a forma magistral como caracteriza seus personagens. As imagens desta edição são as mesmas feitas e escolhidas pelo autor desde a primeira edição da obra.

 

Esteticamente, quais são as inovações propostas por “O Ateneu”?

EA: Ele combinou de maneira brilhante estilos díspares e até então impensáveis numa mesma obra: o realismo, o naturalismo, o simbolismo, o parnasianismo.

 

Quanto de autobiográfico em relação ao autor, em sua opinião, há em “O Ateneu”?

EA: Bastante. Talvez nem tanto em termos factuais estritos, mas psicologicamente.
Por que Lúcia Miguel-Pereira teria classificado “O Ateneu” como um “romance estranho, diferente de tudo o que habitualmente se escrevia”?

EA: Justamente pela intersecção de estilos tão díspares, entre outros fatores.
Na opinião da senhora, o leitor do século XXI ainda é capaz de sentir esse estranhamento?

EA: Com certeza. Este livro, como toda grande obra, continua interessando e desafiando leitores por muito tempo.
Que interesse a obra desperta nos leitores de nossos dias, que ainda não leram este livro?

EA: Como se trata de um romance de formação, ele interessa muito, ao mostrar a passagem da adolescência para a vida adulta e assim trazer muitas questões existenciais pertinentes como objetos de reflexão.

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Fernando (Cabral Martins) estuda Fernando (Pessoa)

Em Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa um dos mais importantes críticos pessoanos coloca luz sobre a teoria e a história da heteronímia

Renata de Albuquerque

Pode parecer ao leitor desavisado que não há novidade em um livro como Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa. Entretanto, o lançamento é um excelente roteiro para o entendimento da obra de Pessoa, pois traz uma visão geral da escrita e da atividade pública do maior poeta português moderno, cujos documentos originais foram encontrados em 1935, ano de sua morte, em 91 envelopes arquivados numa célebre arca – a que se acrescentavam outros cinquenta guardados numa mala e em um armário.

Além de uma nova leitura do intrincado poema cujo fac-símile vem reproduzido no prefácio, Fernando Cabral Martins faz, em sua obra, importante contribuição sobre a teoria e a história da heteronímia. A seguir, um dos mais importantes críticos pessoanos em atividade fala  com exclusividade ao Blog da Ateliê:

O senhor estuda a obra de Fernando Pessoa há décadas. O que o atrai na obra desse autor? Quais são, em sua opinião, as questões mais instigantes? Qual razão o levou a estudar Pessoa?

Fernando Cabral Martins: Na verdade, eu estudo a obra de Pessoa desde o princípio dos anos 80, quando comecei a dar aulas de literatura portuguesa na Universidade Nova de Lisboa. Antes disso, já era um leitor, com toda a paixão de leitura de Pessoa que era comum a tantos amigos meus, paixão que estava nesses anos num especial crescendo, com a publicação, tão longamente esperada, do Livro do Desassossego em 1982. Mas é verdade que só a partir dos anos 90 comecei a publicar mais regularmente sobre Pessoa e o Modernismo português. Hoje, o que me parece de maior importância é analisar e integrar a ficção narrativa que tem surgido nos últimos anos, bem como os seus múltiplos escritos de filosofia.

 

O que o motivou a escrever uma “Introdução aos estudos” do autor?

FCM: O que se tem passado nos últimos anos é, pois, um avanço muito considerável na publicação de inéditos e no conhecimento dos vários aspectos de uma obra muito vasta. De tal modo que me pareceu que era altura de tentar obter uma visão geral da história da escrita e da atividade pública do maior poeta português moderno.

 

Como foi realizado o trabalho que resultou neste livro? Como foi feita a pesquisa? O senhor teve acesso a manuscritos, cartas e outros materiais?

FCM: O trabalho de pesquisa foi começado há muitos anos, com um especial enfoque no espólio de Pessoa disponibilizado pela Biblioteca Nacional, que é um verdadeiro tesouro, pois reúne o conjunto dos escritos e cartas de uma vida intensa e inteiramente dedicada à literatura. A biblioteca de Pessoa, por sua vez, que também foi digitalizada e é hoje consultável online no site da Casa Fernando Pessoa, constituiu igualmente uma fonte assinalável de informação pertinente.

 

A obra é destinada apenas a leitores que não conhecem Fernando Pessoa ou pode ser recomendada também a quem já tem conhecimento sobre o autor?


FCM
: O meu objetivo foi propor uma descrição e um comentário coerentes e, tanto quanto possível, completos da obra de Pessoa, à luz das mais recentes publicações, e fazê-lo procurando manter uma exigência de clareza e simplicidade. Neste sentido, pode interessar tanto aos leitores que só agora se iniciam como àqueles que já o conhecem, pois a existência de um mapa é sempre útil para viajar num território extenso e cheio de caminhos que se bifurcam.

 

Existe alguma informação inédita que o senhor tenha encontrado durante sua pesquisa e colocado neste livro, como algum poema, por exemplo? Qual?

FCM: Eu ofereço, por exemplo, uma leitura nova do intrincado poema cujo fac-símile vem reproduzido no prefácio. Mas este livro tinha antes a intenção de apresentar uma panorâmica de Pessoa tal como se conhece hoje. Aliás, depois de 75 anos de edições de inéditos, pode dizer-se que pelo menos a sua poesia está praticamente toda publicada, e que já se conhece talvez o essencial da sua obra.

Manuscrito do poema “Deixo ao Cego e ao Surdo” contido no livro

Do ponto de vista teórico e de crítica literária, em sua opinião, há alguma inovação em sua obra (como, por exemplo, a maneira de apresentar ou organizar o conhecimento sobre Pessoa)? Qual?

FCM: Creio que, para além da própria escolha dos aspectos textuais e temáticos a comentar, o meu principal contributo poderá estar nos dois últimos capítulos, em que tento fazer a história e a teoria da heteronímia. Tentei considerar na sua dinâmica esse tão singular modelo de escrita literária que inventa heterônimos, vendo-o na lógica da sua evolução e não como um sistema fixado.

 

Fernando Paixão destaca, na orelha do livro, a capacidade de interrelacionar informações que, de qualquer modo, estão colocadas de maneira autônoma na obra. Tal estrutura foi criada com que objetivo?

FCM: Esse procedimento tem a ver, penso eu, com a natureza da literatura de Pessoa, que é um constante diálogo entre as posições (estéticas, filosóficas, políticas, religiosas, etc.) que as diferentes figuras heterônimas defendem. É esse o desafio, precisamente, o de tentar ver os traços que unem o que é diferente, a coerência geral por detrás das coerências parciais dos heterônimos, as linhas que ligam dos múltiplos esboços e fragmentos que Pessoa nos deixou e a interrelação entre os muitos gêneros, temas e planos que o ocuparam toda a sua vida. Porque Pessoa é um escritor único e complexo, mas que nos transmite ao mesmo tempo a sensação constante de um pensamento luminoso, que não foge às contradições e à complexidade do mundo, mas antes as torna a matéria-prima da sua arte.

 

Conheça outras obras de Fernando Cabral Martins

“Cicatriz” revela o corte como procedimento da escrita

Por: Renata de Albuquerque

O quarto livro de poemas de Eduardo Guimarães traz para os leitores poemas reunidos entre 1995 e 2015. Os vinte anos que o poeta usou para concluir sua obra significaram, para ele, o processo de refinamento, em que ele reescreveu, editou, incluiu e excluiu poemas, em um processo que deixou marcas profundas no poeta e que podem ser percebidas no resultado final, não por acaso, chamado de Cicatriz. A seguir, ele fala sobre o livro recém-lançado:

 

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O poeta Eduardo Guimarães

O que o estimulou a trabalhar em Cicatriz? Quais foram suas inspirações para este livro?

Eduardo Guimarães: Escrever poesia é algo que me acompanha, mesmo que eu não queira. O que me movimentou fundamentalmente na escrita deste livro foi o sentido do corte como o que funda o sentido do poema. O corte como procedimento de escrita, e também o corte como aquilo de que se fala. O corte como o que encontramos na vida de tantos hoje.

Qual o tema central de Cicatriz? Por que o livro recebeu este nome?

EG: Seguindo o que acabo de dizer, poderia considerar que o que me guiou neste livro foi buscar uma certa escrita fundada na economia. Fui intensamente agenciado pelo sentido do corte, do que faz abandonar algo, que faz prestar atenção em algo, que faz o ritmo mudar de curso, que faz ver o sofrimento incontornável. E isto um pouco ligado a um olhar sobre o que são as coisas, a vida, a história. Os vestígios dos cortes, as cicatrizes. E diante das quase certezas destes vestígios, a dúvida que sempre nos indaga.

Você lançou três livros de poesia em um período de cerca de dez anos (1984-1995) e só agora, depois de vinte anos, lança Cicatriz.  A que se deve essa longa pausa?

EG: Num certo sentido, a demora se deveu a que, em um certo momento, pensei ter terminado o livro. No entanto, quando pensei em publicá-lo ele me pareceu um conjunto de poemas que parecia algo inacabado. Assim fiquei relendo refazendo, descartando poemas, fazendo outros, deixando o livro de lado, até que a solução veio quando cheguei na palavra cicatriz – que acabou por se impor como título. Era uma palavra que trazia o corte, o acontecimento e a cicatriz como o que é passado, presente e futuro. Como o que é também outras possibilidades. Isto me permitiu chegar ao peso da palavra como estava, em certa medida, procurando. É como se o corte suspendesse, quase, a sintaxe.

cicatriz2Os poemas de Cicatriz foram escritos de 1995 a 2015, portanto, durante 20 anos. Como foi realizar esse trabalho? Cicatriz é uma coletânea ou foi elaborado como um projeto que teve duração de vinte anos?

EG: Não é uma reunião de poemas escritos no decorrer do tempo e que reuni em algum momento. É efetivamente o projeto de um livro de poemas que fui procurando realizar. Foi um projeto em torno do sentido do acontecimento que produz significação.

Em sua opinião, sua produção poética amadureceu no período? Como harmonizar e equalizar essa produção realizada ao longo de duas décadas? O leitor consegue identificar essas diferenças ou você procurou amenizá-las?

EG: Acho que estes 20 anos levaram a um outro momento da minha escrita. A demora tem a ver com a busca disso também. E a diferença do momento da escrita, penso eu, está trabalhada pelas decisões finais de ajustes e de descartes de poemas. Por outro  lado, durante este período, escrevi outros poemas que apareceram em circunstâncias específicas, inclusive como letra de música.

Sua percepção em relação ao tema central dos poemas mudou? Em caso positivo, isso é perceptível na obra?  

EG: Aprofundou-se, e isto, se estou correto na minha percepção do que fiz, se organiza em torno do que é a palavra cicatriz, e as palavras vestígio e corte. Eu acho que a poesia é uma coisa de palavra.

Na apresentação da obra, Carlos Vogt diz que seus poemas “formam ausências, sentidas, contudo, no corte e na cicatriz de seus descartes”. Pode nos explicar melhor o que isso significa?

EG: Acho que ele percebeu muito claramente uma questão que de alguma forma expressei nas minhas respostas anteriores. O corte como modo de escrita leva tanto a cortar o verso, como cortar um poema, descartá-lo, e a ausência deste poema dá sentido aos outros, exatamente porque o descartado não está no livro.

Novos Poemas reúne a produção de Carlos Vogt já postada na internet

Por: Renata de Albuquerque

Novos Poemas, do poeta e linguista Carlos Vogt, reúne três pequenas coletâneas: “Bandeirolas”, “Bolinhos de Chuva” e “Dedo de Moça”. As duas primeiras não tinham aparecido em livro ainda, mas os poemas já haviam sido apresentados em canais da internet, como na página de poesia do autor: Cantografia. A terceira, por sua vez, foi publicada em 2011. A seguir, o autor fala sobre o recente lançamento:

Quais foram suas principais motivações e influências para este Novos Poemas?

Carlos Vogt: As influências permanecem como um dos substratos culturais e poéticos que foram se manifestando nos livros anteriores, na convivência no abrigo das novas formas em que foram se manifestando, no jogo de tensões entre o clássico, o moderno e o contemporâneo, na busca inevitável do poema em pretender sempre ser único, mas em não ter unicidade senão na multiplicação de si mesmo em outros poemas, em poemas na coletânea, da coletânea em livro.

Os poemas já haviam sido publicados em revistas eletrônicas antes. Qual a importância de reuni-los em livro? Esse suporte físico ainda é um diferencial para a recepção do leitor, na sua opinião?

CV: Sem dúvida, o livro, que se faz dos poemas que ele coleciona e reúne, desta reunião faz-se, ele próprio num poema feito de poemas. Por isso, ter publicado os poemas, anteriormente, em meios eletrônicos, importa e não importa, já que o livro é que constitui o objeto novo da expressão da poesia.

Carlos Vogt

Como é o trabalho, para um poeta que continua ativo e produzindo, de debruçar-se sobre uma antiga produção? O que mudou na sua percepção do material? Você fez muitas alterações nele?

CV: Na verdade, mais do que antiga, a produção dos poemas é contínua e esta continuidade integra também uma das características da poesia que os poemas, agora reunidos em livro, expressam.

Na “Nota” que abre o volume, está escrito: “De qualquer modo são Novos Poemas postos assim em livro para decantação.” Se, por um lado, decantar significa “celebrar em versos”, por outro também significa “separar impurezas, limpar, purificar”- algo que também remete ao trabalho de edição de textos em si. Que sedimentos poderão precipitar desses Novos Poemas? O que o leitor pode recolher e aproveitar deles, em sua opinião?

CV: Penso que a  melhor resposta a esta pergunta é a que pode ser lida na poética  formulada no poema “Metalurgia”, do livro do mesmo nome, que publiquei em 1991:

 

Metalurgia

Ponho a palavra em estado de gramatical ofensa,
no torno retalho suas redondezas,
desgasto obsessivo com a broca da caneta
o que há de angular e mole na sentença.
Fora, uma forma enxuta, dentro, amor de sequidões,
ovo sozinho sem nenhum conceito a circundar-lhe a norma
de ser só ovo, sêmen contido, casca de memória.
Fazer abrasivo:
a lima, a lixa, a mão desgastam por extornos
a rixa com o verso, a rima com o avesso;
no chão, limalhas, matéria de contornos;
na página, o poema:
liso, úmido, duro como gelo.

Como a própria “Nota” também frisa, há uma diversidade de conteúdos presentes nos poemas deste volume; bem como de formas. É possível estabelecer uma linha condutora a partir dessa diversidade ou a construção de Novos Poemas é, de fato, prismática; fragmentária?

CV: A construção é prismática, é fragmentária, mas pela tensão que o poema acima revela, esconde também a organicidade do universo cultural, linguístico e poético de minha história pessoal, social e literária: o poema curto não é o antípoda do poema longo, e vice-versa, só pelo tamanho, mas também pelo que contém do outro, na ausência, tanto na forma, como no conteúdo.

Você escreveu a apresentação de Cicatriz, de Eduardo Guimarães, que também está sendo lançado pela Ateliê, inclusive em um evento conjunto em Campinas. Esta é uma mera coincidência? Qual a relação entre vocês dois?

CV: Somos colegas de Departamento, na Unicamp, o Departamento de Linguística, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), e também no Núcleo de Criatividade (Nudecri), na mesma universidade. Sobretudo, somos amigos há muitos anos, com uma amizade que passa do existencial para o intelectual e para o institucional. No caso, se diz também no poético.

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“Minha avó me incentivou a gostar de ler”

Por: Renata de Albuquerque

Surpresa. Foi este o sentimento de Jardel Rodrigues Ferreira ao receber a notícia de que havia vencido o Concurso #tempodeler, promovido pela Ateliê Editorial, com o objetivo de dar dicas e ideias para que as pessoas consigam incluir o hábito da leitura em seu cotidiano. “Não imaginava que pudesse ganhar. Entrei no site da Ateliê cinco dias antes do prazo terminar, vi que o concurso estava acontecendo e resolvi me inscrever”, diz.

Jardel e sua avó compartilham o amor pela leitura

Jardel e sua avó compartilham o amor pela leitura

Jardel, que tem 19 anos e mora em Martinópolis, interior de São Paulo, terminou recentemente o Ensino Médio e planeja cursar Letras. A paixão pela literatura foi despertada pela convivência com sua avó, Marlene, ainda na infância. “Ela morava em São Paulo e eu só ficava mais com ela nas férias, quando ela vinha me visitar. Ela adora ler e lia muito. Então, ficávamos na cama, lado a lado, lendo juntos, noite adentro”, relembra ele, que hoje mora com a mãe e a avó no interior.

O hábito fez com que Jardel também passasse a ler muito. “No começo, eu dormia nas primeiras páginas, mas depois comecei a me interessar muito”. Hoje, ele escreve poemas, gosta de poesia e romances clássicos e cita autores como Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado e Dostoiévski entre os que já leu.

 

“Fico muito feliz em saber que ganhei, de verdade. Eu escrevo poesia e por isso tentei escrever o texto, em suas cinco linhas, o mais próximo de uma prosa poética que eu pudesse”, afirma.

“Era no Tempo do Rei” traz uma contribuição fundamental aos estudos críticos de literatura brasileira

Por Renata de Albuquerque

“Era no tempo do Rei”. A primeira frase de Memórias de um Sargento de Milícias foi escolhida como título da nova obra de Edu Teruki Otsuka, fruto de sua tese de Doutorado orientada pelo Professor José Antonio Pasta Júnior. No trabalho Era no Tempo do Rei – Atualidade das Memórias de um Sargento de Milícias ele mostra como o romance de Manuel Antônio de Almeida se organiza conforme uma lógica regida por conflitos interpessoais, que se manifestam no romance de maneiras diversas, mas que podem ser unificadas na noção de rixa. Segundo essa leitura, a lógica do espírito rixoso desempenha um papel estruturante na obra, sendo o ponto de articulação entre o plano da ficção e a matéria histórica e social que o romance elabora. Além de ser um dado temático, esse princípio “rege a configuração das personagens, modula a prosa, dita o ritmo da narrativa e organiza os episódios, dando consistência ao romance como um todo”, detalha Otsuka, que é professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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Como sublinha o próprio pesquisador, há uma diferença entre a leitura que ele propõe em Era no Tempo do Rei e o clássico Dialética da Malandragem, de Antonio Candido. Na interpretação de Candido, a alternância entre ordem e desordem sugere uma imagem da sociedade brasileira caracterizada pela flexibilidade tolerante. Já a obra de Otsuka procura mostrar os conflitos e as relações violentas na camada de homens livres e pobres, acentuando a pouca coesão social decorrente da escassez de trabalho. A seguir, Otsuka fala sobre seu novo livro:

 

O trabalho foi concluído em 2005. Por que somente em 2016 Era no Tempo do Rei tornou-se livro?

Edu Teruki Otsuka:  A tese foi pensada e escrita entre os anos de 2001 e 2005. A revisão do texto com vistas à publicação foi feita em 2008 e consistiu basicamente no corte de algumas minúcias analíticas desnecessárias, na fusão ou deslocamento de algumas seções do texto e na mudança de algumas formulações. A publicação acabou se dando somente em 2016 por motivos circunstanciais que não vêm ao caso, mas a distância no tempo tem uma vantagem, pois possibilitou maior clareza, para mim mesmo, sobre o sentido do que foi feito.

Quais características a obra Memórias de um Sargento de Milícias apresenta que foram fundamentais para que ela fosse escolhida como foco de seu trabalho? Por que decidiu estudar essa obra?

ETO: O projeto inicial da tese envolvia um estudo sobre o desenvolvimento do romance brasileiro no séc. XIX, em que as Memórias de um Sargento de Milícias eram uma das obras que seriam examinadas. O projeto foi apresentado, primeiramente, como uma pesquisa sobre a crítica de Antonio Candido, o que possibilitaria delimitar o corpus, com base em alguns romances que ele estudou, e avaliar as contribuições de Candido, cujos livros são fundamentais para o estudo então imaginado. No decorrer da pesquisa, compreendi que a questão que eu pretendia examinar já tinha sido, no essencial, desvendada por Roberto Schwarz, em seu livro Ao Vencedor as Batatas, ainda que ele tratasse apenas lateralmente de outros romancistas além de José de Alencar e Machado de Assis. Ao mesmo tempo, foi ficando claro que as Memórias de um Sargento de Milícias poderiam sustentar um trabalho mais aprofundado, o que me fez abandonar o primeiro projeto, que era mais abrangente no escopo, mas talvez mais restrito no problema crítico.

Em meu quadro de referências crítico-teóricas estavam os trabalhos de Antonio Candido e de Roberto Schwarz, bem como algumas ideias de José Antonio Pasta Junior, meu orientador, que vinha investigando questões – por exemplo, aquilo que ele denomina “luta de morte” – que igualmente atuaram como inspiração para mim e que procurei incorporar e elaborar ao meu modo.

A decisão de centrar a tese nas Memórias de um Sargento de Milícias só se deu depois do momento inicial do doutoramento, quando a finalidade da pesquisa era outra, e em que também me voltei ao estudo mais sistemático do trabalho dos críticos citados. Naquele momento inicial, foi ganhando contornos mais nítidos a questão das rixas, que se tornaria central na tese.

 

Edu Teruki Otsuka

Edu Teruki Otsuka

Qual o argumento central do livro?

ETO: A ideia central da tese é a de que as Memórias de um Sargento de Milícias se organizam conforme uma lógica regida por conflitos interpessoais, que se manifestam no romance de maneiras diversas, mas que podem ser unificadas na noção de rixa. São pequenos conflitos entre personagens, que na maior parte pertencem ao setor social dos homens livres e pobres, e ocorrem na forma de disputas pessoais, rivalidades, vinganças, zombarias etc. Esses conflitos se espalham e se renovam continuamente no plano do enredo e caracterizam os pensamentos e as ações predominantes entre as personagens da sociedade figurada no romance, sem limitar-se ao confronto central entre Leonardo e o major Vidigal. A lógica conflituosa dos comportamentos, que chamei de “espírito rixoso”, é generalizada na obra, desempenhando papel estruturador, sendo a um só tempo um dado temático e um princípio que rege a configuração das personagens, modula a prosa, dita o ritmo da narrativa e organiza os episódios, dando consistência ao romance como um todo.

O espírito rixoso é também o ponto de articulação entre o plano da ficção e a matéria histórica e social que o romance elabora. Para além da notação verista, que está presente na obra e que permite a comparação direta dos dados ficcionais com os dados já conhecidos da realidade do Brasil da primeira metade do século XIX, interessou-me investigar o que a lógica da configuração do romance podia revelar sobre a sociedade do período, tendo em vista não apenas a época joanina, em que se ambienta a ação, mas também o Brasil independente, já que a perspectiva do narrador se situa no Segundo Reinado.

A investigação sobre o sentido histórico e social do espírito rixoso conduziu à hipótese de que seu fundamento material está na disputa por trabalho que se acentuou na época em que o romance foi escrito. Com a intensificação da entrada de imigrantes pobres (sobretudo ilhéus portugueses) desde antes de 1850, verificou-se um acirramento na guerra por trabalho nas ruas do Rio de Janeiro: imigrantes pobres e escravos de ganho disputavam entre si por trabalho precisamente em um período em que se registra um aumento na incidência de conflitos com desenlace violento. E, embora nada disso seja diretamente tematizado nas Memórias de um Sargento de Milícias, a tese procura mostrar que o romance apreende e elabora, no plano ficcional, a lógica conflituosa que governava as camadas pobres do Rio em que Manuel Antônio de Almeida viveu, convertendo em forma literária um dinamismo social decisivo. A rixa será, para as personagens pobres, o precário recurso que prolifera especialmente quando se está fora tanto do circuito econômico do trabalho quanto das relações de favor.

 

Você considera a sua obra  uma superação dialética da Dialética da Malandragem? Quais são os pontos de conexão entre sua obra e a do Prof. Antonio Candido e o que as distancia?

ETO: A obra de Antonio Candido é uma das referências teóricas e críticas mais importantes na minha formação acadêmica. Espero ter assimilado alguma coisa de seu trabalho, não apenas dos conteúdos, mas também do ato crítico, que, a meu ver, encontra em sua obra algumas das mais altas realizações, dando primazia para o objeto literário e portanto para a análise estética, e investigando as articulações da forma literária com a matéria histórica e social.

A interpretação das Memórias de um Sargento de Milícias que proponho no livro se diferencia da de Antonio Candido sobretudo na ênfase que cada leitura dá a diferentes aspectos do romance e da sociedade brasileira. Candido demonstra que o romance formaliza a dinâmica da sociedade brasileira oitocentista, vista a partir de um de seus setores. A malandragem, entendida como alternância entre ordem e desordem, entre norma e infração, é decisiva para a reprodução da camada de homens livres e pobres do Brasil escravista. Acompanhando o ponto de vista da obra, que é simpático aos pobres e ao mesmo tempo atenua as limitações da malandragem pelo tratamento cômico, Candido termina seu ensaio enfatizando certa flexibilidade tolerante da sociedade brasileira, em oposição à rigidez moral de países como os Estados Unidos. Minha leitura procura mostrar a centralidade, não menos abrangente e estruturante, dos conflitos e das relações virtualmente violentas no interior da mesma camada de homens livres e pobres, deslocando a ênfase para a falta de coesão social, articulada à escassez de trabalho e à abrangência limitada da rede do favor.

A essas interpretações correspondem, sem dúvida, modos de ver o país impregnados por questões predominantes nas épocas em que foram escritas. No caso de Antonio Candido, terá pesado também o fato de que sua formação intelectual, sob todos os aspectos admirável, se deu em um quadro histórico cuja perspectiva construtiva se definiu em torno de 1930 e que se pode descrever como imbuída de um sentido histórico ascensional. Já minha tese foi produzida em um quadro bem diferente, em que as perspectivas construtivas pareciam barradas ou mesmo desmentidas, o que obrigava a um reajuste do ponto de vista crítico.

 

sgto-milicias-capaQuais os principais pontos que marcam a atualidade das Memórias de um Sargento de Milícias, como o subtítulo do livro destaca?

ETO: A questão da atualidade do romance de Manuel Antônio de Almeida, sugerida no subtítulo, de fato não é discutida explicitamente no livro. A leitura do romance direciona o foco para os pequenos conflitos de teor violento (quase sempre atenuado) que nem sempre se articulam a posições de classe divergentes e apontam antes para a pouca coesão social. Na época em que a tese foi feita, algumas das questões que estavam no ar eram, por exemplo, a assim chamada violência urbana e suas motivações, a reestruturação das relações de trabalho, o sentido da formação nacional, mas sem que o nexo entre essas questões estivesse inteiramente disponível. A pesquisa sobre as Memórias de um Sargento de Milícias implicava um olhar em alguma medida informado pelas questões contemporâneas, que certamente não poderiam ser respondidas por uma obra de meados do séc. XIX, mas minha aspiração era a de que o problema das rixas pudesse sugerir um termo de comparação histórica, que indicasse um ângulo diferente para pensar a especificidade das questões atuais, ao mesmo tempo em que o domínio das rixas no romance e a hipótese de explicação proposta na tese pareciam ganhar relevância para a reflexão, tendo em vista as questões do presente. Assim, pode ser sugestivo pensar que, nas Memórias de um Sargento de Milícias, a rixa se propaga, como fator de dessolidarização, sobretudo no setor social composto de homens descartáveis que, por não serem “integráveis”, são permanentemente vigiados e reprimidos pela força policial comandada pelo major.

 

Qual a importância da leitura da obra de Roberto Schwarz na construção de sua tese?  Em que aspectos ele contribuiu para a leitura inovadora que você faz da obra de Manuel Antônio de Almeida?

ETO: A obra crítica de Roberto Schwarz é fundamental para o meu trabalho, e a tese deixa claro o quanto minha leitura das Memórias de um Sargento de Milícias deve às descobertas e argumentos dele. Refiro-me ao conjunto dos estudos de Schwarz, e não apenas aos textos em que ele comenta a obra de Antonio Candido, como os “Pressupostos, salvo engano, de ‘Dialética da malandragem'”. O fato de meus argumentos no livro serem fortemente calcados no trabalho de Schwarz corresponde a um momento em que busquei estudar sua obra mais detidamente, no intuito de assimilar seus inúmeros achados críticos sobre a literatura brasileira, bem como o quadro geral da explicação histórica da dinâmica da formação nacional, implicada em suas análises estéticas. Esse quadro explicativo é, em grande parte, retomado em minha tese.

Dito isso, talvez deva assinalar que, hoje, com a distância no tempo, percebo que meu trabalho toma como referência vários estudos de sociologia e historiografia provenientes de um período anterior, colhidos nos estudos machadianos de Schwarz, embora no momento em que eu escrevia a tese estivesse em andamento certa renovação dos pontos de vista, em parte estimulada pelo próprio Schwarz de Sequências Brasileiras (1999), como “O ornitorrinco” (2003), de Francisco de Oliveira, e alguns ensaios de Zero à Esquerda (2004), de Paulo Arantes. Os desdobramentos desses pontos de vista já estavam sendo realizados por alguns pesquisadores, mas não tive, àquela época, contato ou interlocução com eles, devido a meu isolamento acadêmico. Hoje penso que tal interlocução poderia ter contribuído para ampliar o quadro interpretativo geral da tese.

 

Na introdução da obra você diz que a singularidade do romance de Manuel Antônio de Almeida foi assinalada pela crítica de várias maneiras, e, como acontece com frequência, a ideia se tornou um lugar-comum que, de tão repisado, pouco contribui para a reflexão. Você, por sua vez, fez uma reflexão sob um ponto de vista totalmente novo. Pode nos falar sobre a importância ou desafios de apresentar uma ótica diferente de uma ideia já consolidada?

ETO: O trecho referido na pergunta diz respeito a certas observações genéricas que se cristalizaram na crítica sobre as Memórias de um Sargento de Milícias, como a filiação à picaresca espanhola e o realismo do romance. Ambas as questões foram criticamente discutidas por Antonio Candido em seu ensaio de 1970, mas o fato de terem retornado em alguns estudos posteriores ao dele talvez seja indício de uma dificuldade básica da crítica literária: parte da crítica tende a não ver as coisas em termos históricos, deixando de captar a especificidade das formas.

Penso que a novidade em si mesma não é critério de qualidade, pois as novas tendências teóricas às vezes podem apenas repor noções ideológicas que, por sua vez, também se renovam; estudar assuntos novos em uma obra, por si só, não necessariamente redunda em uma leitura mais consistente do que as já estabelecidas. A meu ver, a crítica literária produz conhecimento e ganha relevância quando consegue apreender e conceitualizar a configuração formal própria de uma obra, especificando o modo como se dá a elaboração estética da matéria histórica e social, pois é nessa articulação que a obra pode revelar algo significativo para o presente. A dificuldade da crítica literária, assim, não está somente no embate com leituras prévias, que é um momento importante do processo crítico, mas está sobretudo na capacidade de, a partir do ângulo da atualidade, captar e tornar inteligível a lógica particular que organiza a obra e seu sentido histórico.

Paulinho da Viola: sambista-pensador

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor é uma reflexão sobre a lírica amorosa das composições de Paulinho, cujo eixo é a separação dos amantes”, explica Olgária Matos na apresentação do livro de Eliete Eça Negreiros que a Ateliê Editorial acaba de lançar. Ela é cantora e ensaísta, para além do título de Doutora em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da USP (FFLCH). A música é realmente um marco em sua vida. São dela discos como Outros Sons de 1982, produzido por Arrigo Barnabé e vencedor do Prêmio APCA na categoria cantora revelação. Depois vieram Ângulos – Tudo está dito (1986), Canção Brasileira- nossa bela alma (1992), com o qual ganhou o prêmio APCA de melhor cantora de música popular e 16 canções de tamanha ingenuidade (1996). Este já é seu segundo livro sobre o grande sambista brasileiro. O primeiro, Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros escritos (Ateliê editorial), foi lançado em 2012.

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A seguir, Eliete conversa com o Blog da Ateliê sobre seu mais novo livro:

Este não é seu primeiro livro sobre Paulinho da Viola. O que a instiga tanto na obra dele?

Eliete Negreiros: A obra do Paulinho da Viola é fascinante, profundamente bela e brasileira. Não foi uma decisão intelectual. Fui movida primeiro pelo afeto, por gostar muito de suas canções desde que o ouvi pela primeira vez, num radinho portátil, num final de tarde, quando papai me mostrou “Coisas do mundo minha nega” e me disse: -“ Presta atenção, minha filha, este moço é muito bom.” E, como diz o samba do Paulinho, “o meu pai tinha razão”. Em segundo lugar, sua obra tem uma grande amplitude: Paulinho não só faz samba tradicional e moderno, como é um sambista tradicional e moderno ao mesmo tempo. Como ele explicou no filme de Izabel Jaguaribe: o tempo dele é hoje. Então, esta virtude de ser um guardião da memória do samba e de ser um inovador, isto ao mesmo tempo, é coisa rara e de uma riqueza cultural e brasileira incalculável.  Em terceiro lugar, porque vejo a canção como uma forma de conhecimento e auto-conhecimento afetivo-intelectual. Vou me explicar: quando uma pessoa ouve certas canções meditativas do Paulinho da Viola, conhece a alma lírica do compositor ao mesmo tempo em que mergulha na sua própria alma, pois, na verdade,falando de si, ele fala da alma de muitos de nós e é neste ponto que há uma catarse e, ao mesmo tempo, um instante de alumbramento, de conhecimento do outro  (do poeta), de si mesmo (do ouvinte) e do mundo que nos rodeia. Paulinho é um sambista-pensador da alma humana e quando ele fala do seu coração, fala do nosso coração com profundidade, com sabedoria.

Agora, tudo isto que estou explicando, eu descobri no processo de reflexão sobre a obra do Paulinho da Viola. Não foi uma premissa para a escolha. A escolha deu-se porque eu adoro suas canções, porque elas me comovem e porque o acho um dos maiores compositores brasileiros.  A escolha foi pelo viés do afeto, da beleza e do estado de deleite que suas músicas desencadeiam nos ouvintes. Seus sambas são de uma perfeição rara. Depois, refletindo, só fui descobrindo ainda mais motivos para esta escolha.

 

Por que retratar o amor por meio da canção brasileira?

EN: Este trabalho nasceu de minha tese de doutorado. Depois, reescrevi alguma coisa, enfim, sempre gostei de pensar, tentar compreender o mundo, sempre senti muita afinidade com as canções reflexivas do Paulinho da Viola.  Algumas de suas canções foram para mim iluminadoras. Acho que a canção é uma forma de conhecimento e de auto-conhecimento, como já disse, uma “gaia ciência”,  no dizer de  José Miguel Wisnik. E, para o ser humano, o amor é uma das coisas fundamentais da existência, algo que a gente sempre está buscando, experimentando, refletindo, tentando entender o que é, como é, onde está,quais suas diversas formas de manifestação.

Eliete Negreiros, fotografada por Mallu Magalhães

Eliete Negreiros, fotografada por Mallu Magalhães

De que forma este novo livro se diferencia do anterior, Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e Outros Escritos?

EN: No livro anterior eu me detive mais no tecido das canções, na relação entre melodia e letra – claro que sempre em busca de um sentido – mas trabalhei mais a estrutura de algumas canções. Neste, a abordagem é temática, isto é: através de uma ampla reescuta – pois conhecia as canções que escolhi – fui buscando ver como o amor é retratado na obra do Paulinho da Viola. Digamos que neste livro há um viés mais reflexivo, mais filosófico, mais abrangente.

 

Qual foi o critério para a escolha das canções analisadas?

EN: Então, fui escutando, buscando ver as faces do amor reveladas nas canções. Foi através da escuta e do que encontrei nelas que selecionei as canções.

É possível fazer uma leitura psicanalítica da obra de Paulinho da Viola? Sobre quais conceitos teóricos está construída sua análise sobre a obra dele?

EN: Eu acho que sim, que é possível. Mas acho também que partir de uma teoria para abordar uma obra acaba reduzindo seu potencial expressivo, determinando o modo de interpretar uma obra e desconsiderando certos aspectos. Empobrece a fruição da arte. Prefiro, então, uma abordagem mais livre, ir ouvindo, ver o que a canção sugere,  diz e, a partir daí, fazer as relações com a teoria com a qual o que está sendo dito e a forma com que isto está sendo dito tenha alguma afinidade. Claro que nenhuma escuta é neutra, temos nossa forma de interpretar, mas acho que quanto mais livre, melhor.  No fundo, este livro contém muito do que já li, estudei e pensei e que veio à tona quando da escuta da música de Paulinho da Viola. Daí, ao escrever o livro, as questões foram sendo aprofundadas. Mas é importante dizer que eu não parti de um conceito, mas da escuta das canções, da experiência estética.

O livro é dividido em partes: amor breve, amor feliz e amor e melancolia. Do que trata cada parte?

EN: No amor breve, trato do amor que não resiste à ação do tempo, o amor fugaz. Este tema filia-se à tradição do pensamento ocidental que desde os gregos reflete sobre a fragilidade da condição humana e a brevidade da vida, como no topos estóico, principalmente em Sêneca, que escreve em suas Cartas Consolatórias: “Esta é a lei: nada é eterno, poucas são as coisas duradouras; cada coisa é frágil a seu modo, o fim das coisas é diferente, mas tudo que começa tem um fim.” Filia-se também à filosofia de Montaigne, que em seus Ensaios reflete sobre nossa inconstância interior: “Se minha alma pudesse fixar-se, eu não seria hesitante; falaria claramente, como um homem seguro de si. Mas ela não para e se agita sempre à procura do caminho certo.” Há diversos sambas de Paulinho que tratam desta modalidade do amor, entre eles “Pressentimento”, “Coração Leviano”, “A dança da solidão”.

Estátua de Platão

Estátua de Platão

No amor feliz, trato da busca da felicidade enquanto plenitude associada ao encontro entre amado e amante. Amor luminoso. “Eudaimonia” é o termo grego usado para designar felicidade. Se perguntarmos o que todos os homens almejam, buscam, podemos afirmar ainda hoje, o mesmo que disse Aristóteles na antiguidade: os homens buscam a felicidade. Nisto todos são iguais. Agora, saber o que é felicidade é que é a grande questão. E é aí que as respostas são diferentes.  Uma das formas da felicidade é o sentimento de plenitude que advém do encontro da “cara metade”. Este tema já está presente em “O Banquete” de Platão, no mito do andrógino. Segundo este mito, foi para enfraquecer os homens, plenos, que começaram a desafiar os deuses, que Zeus cortou-os ao meio. A partir de então, estes seres mutilados buscam sua outra metade para recuperar sua unidade perdida. Assim, a felicidade amorosa é causada pela união de dois seres que na verdade são um. “Bela manhã” é um samba do Paulinho que trata do amor feliz, da felicidade sentida pelo amante ao ver sua amada dormindo. É, nas palavras de Octavio Paz, a “consagração do instante”, do instante mágico e feliz de contemplação do ser amado. Alumbramento e plenitude.

No amor melancólico, trato do amor que não consegue se realizar e que fica preso a um mundo de ruínas e perdas, preso na lembrança do que já foi e não é mais. “Nada de novo/ capaz de despertar minha alegria”, canta o poeta. A melancolia é nuclear na lírica de Paulinho da Viola. Para refletir esta intrigante dimensão da alma humana, busquei compreender como o amor  e a melancolia se entrelaçam nas canções de Paulinho da Viola, partindo dos ensinamentos de Freud em seu antológico escrito “Luto e melancolia” e de pensadores que se debruçaram sobre este tema, como Aristóteles, Montaigne, Walter Benjamin, entre outros. Vários sambas de Paulinho da Viola representam o amor melancólico, entre eles “Nada de novo”, “Flor esquecida”, “Estou marcado”

A última parte do livro, “Educação Sentimental”, evoca Flaubert. De que maneira é possível relacionar a obra do autor francês à do compositor brasileiro?

EN: Foi mesmo uma evocação, sem nenhuma intenção de relacionar o trabalho destes dois grandes artistas, o sambista brasileiro e o romancista francês. Usei esta evocação por achar uma expressão feliz para sintetizar o ensinamento que a escuta das canções nos propicia, para falar como através das canções encontramos uma filosofia que nos orienta sobre os movimentos dos sentimentos. Ou, como diz Olgária Matos, uma “filosofia moral”, que nos ajuda a compreender e a nos orientar em meio ao tumulto e à instabilidade da vida e das paixões. Por isso falo em “educação sentimental”, pois o tema central é o conhecimento do amor  que resulta da escuta das canções entrelaçada à filosofia.

 

Em tempos de grande intolerância, um livro sobre o amor pode nos libertar? O que você pode falar sobre isso? Quais as relações possíveis?

EN: Não acho que um livro sobre o amor pode nos libertar nestes tempos sombrios, mas acho que pode nos ajudar no processo de libertação, ser um amigo querido, um companheiro de reflexão, pode nos ajudar a trilhar nosso caminho.  E é um convite para ouvir a obra de Paulinho da Viola que, com certeza, ilumina nossas mentes e corações e torna nossa vida melhor e mais bela.

 

O leitor pode encontrar o fantástico em textos de literatura antiga

Por: Renata de Albuquerque

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Costuma-se relacionar o  gênero fantástico à literatura praticada já no século XX. Ficcionistas geniais, como Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Marquez tornaram comum fazer uma ligação desse tipo de literatura à América Latina, mas a verdade é que a literatura fantástica extrapola esses limites geográficos e cronológicos. Com sua recém-lançada Antologia Fantástica da Literatura Antiga, o diplomata Marcelo Cid, que atualmente vive na China, mostra que o gênero pode ser notado na literatura até mesmo em textos anteriores à era cristã.

O organizador do volume – que já lançou, entre outros, Borges Centenário (organizador, EDUC), Philobiblon, ou O Amigo do Livro (tradutor, Ateliê Editorial) e Os Doze Nomes e Outros Contos (autor, Editora 7Letras) – alerta, entretanto, que encontrar o fantástico na literatura antiga é tarefa que requer um trabalho ativo do leitor. Isso porque, como o “fazer literatura fantástica” não era a intenção original dos autores (até porque esse conceito nem existia então), é da mistura de elementos reais, religiosos e mitológicos que esse gênero emerge. De certa forma, pode-se dizer até que essa peculiaridade torna a leitura desse tipo de texto mais lúdica, já que cabe ao leitor criar essa interlocução.

De qualquer maneira, detectar esse elemento em textos antigos é mais simples do que pode parecer. Basta, por exemplo, deparar-se com um texto como o de Sinésio de Cirene:

Um sonho dentro de um sonho

Pois quando um homem sonha, ele conquista, caminha ou voa ao mesmo

tempo, pois a imaginação tudo permite. Mas como reproduzir isso tudo

num discurso? Assim, um homem dorme e sonha; ele percebe que sonha

e abandona o primeiro sonho ainda dormindo, mas segue sonhando, imaginando-

se porém acordado, deitado em sua cama. Ele filosofa um pouco

sobre a visão que teve, de acordo com seu conhecimento. E este é um sonho,

mas um sonho duplo. […] Um outro sonha que está sendo atacado,

então ele foge, no sonho, e acorda seguro. Só então, refletindo, perceberá

seu engano. (Dos Sonhos, xii, 6).

 

A seguir, Marcelo Cid fala ao Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia da Antologia Fantástica da Literatura Antiga?

Marcelo Cid: Foi uma combinação natural de meus dois maiores interesses literários: a literatura antiga e a literatura fantástica. Sou fã de Jorge Luís Borges, e sentia que esse projeto era “borgeano” antes mesmo de ler a “Antologia de la literatura fantástica” de Borges, Bioy Casares e Silvina Ocampo, em cujo Prólogo Bioy Casares escreveu que las “ficciones fantásticas son anteriores a las letras”.  Com Borges, aprendi a “poética da leitura”, essa brincadeira muito séria de ler um texto procurando nele o que o autor pode não ter intentado, mas que nosso repertório permite achar. Com isso, foi natural ler trechos da literatura antiga como contos fantásticos. Isso era para mim um prazer que eu achava que devia divulgar numa antologia.

 

Marcelo Cid

Marcelo Cid

Como se deu a escolha dos textos presentes na Antologia? Qual período cronológico foi levado em conta?

MC: Foi difícil escolher os textos, primeiro pela vastidão das fontes. “Literatura antiga” é uma expressão muito imprecisa, inclui textos gregos e latinos num arco de uns 1000 anos… Mesmo limitando o escopo, digamos, escolhendo apenas textos latinos, ou só gregos, ou só de um século daquele período, seria assim mesmo uma coisa quase interminável. As pessoas geralmente não têm ideia da extensão, do volume, da literatura que Grécia e Roma nos legaram – e veja que só sobraram uns 20% de tudo, o resto se perdeu. Por esse motivo, minhas escolhas foram limitadas à disponibilidade dos textos em línguas que eu conheço e à tentativa de diversificar as fontes, sair um pouco da lista dos autores antigos mais conhecidos. Quanto ao período, o mais antigo da Antologia é Homero, que pode ter vivido no século 7 antes de Cristo (se é que ele existiu). Já o mais recente (com uma ou outra exceção) é Santo Agostinho, que morreu em 430 d.C. Esses extremos podem parecer aleatórios, mas para mim a escolha foi clara: os antigos todos tinham mais ou menos o mesmo repertório, liam as mesmas coisas, há uma espécie de “espírito comum” a todos eles, seja para elogiar ou refutar. Por exemplo, Santo Agostinho não sabia grego e era obivamente cristão, mas leu e releu (até às lágrimas) a Eneida, que é um decalque de Homero.

Quais são os traços fantásticos mais comumente presentes nos textos antigos?

MC: Essa é uma pergunta difícil… Primeiro porque um antigo não entenderia a expressão “literatura fantástica”. Para eles, as coisas eram reais, mitológias ou religiosas, e às vezes tudo isso se misturava. Eu diria que, para um leitor de hoje, o fantástico na literatura antiga ocorre quando essas coisas se misturam de uma maneira ou de outra. Por exemplo: um fantasma numa história não é propriamente um elemento fantástico. Mas se esse fantasma diz algo sobre o dia seguinte, sobre um acontecimento concreto, e assim salva a vida ou indica um tesouro real, ou seja, quando o irreal se mistura com o real, isso pode ser fantástico. O mesmo vale para o sonhos. Tudo é possível nos sonhos, mas quando sonho e realidade se misturam, temos um exemplo do fantástico.

Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Quais são as principais diferenças entre o fantástico notado nos textos da Antologia e o fantástico na concepção teórica como o conhecemos, presente na literatura de Murilo Rubião, Kafka e Borges, por exemplo?

MC: Acho que o fantástico na literatura antiga pede uma participação maior do leitor. Quando lemos Kafka, Borges ou qualquer autor moderno, sabemos que ele tem um propósito, que estamos sendo “manipulados”, por assim dizer – ele quer nos surpreender, ou nos emocionar ou confundir. Num texto antigo, é mais difícil saber qual a intenção do autor. Um historiador antigo pode nos surpreender, mas será que foi a intenção dele? Por esse ângulo, acho que é mais lúdico, o leitor precisa estar atento para fazer o texto dizer uma coisa a mais.

Há alguma aproximação da literatura antiga com a moderna e contemporânea em termos de temas também?

MC: Borges disse que só existem quatro histórias em toda a literatura, que as pessoas seguirão narrando e transformando enquanto o mundo existir. Tolstoi dizem que só existem duas: uma pessoa sai em busca de aventuras ou um estranho chega à cidade… Os autores de contos fantásticos do século dezenove tentaram variar os temas, o que levou à criação da ficção científica, por exemplo. Mas eu acho que basicamente qualquer tema da literatura fantástica moderna tem um paralelo na antiga, até mesmo a ficção científica (em Luciano de Samósata e outros). Histórias de fantasmas, viagem no tempo, viagem ao além, sonhos, metamorfoses, premonições, até a angústia metafísica ou a vertigem do infinito, também isso achamos nas duas épocas.

A literatura praticada no Classicismo, influenciada pelo pensamento humanista, por exemplo, parece idealmente bem distante do improvável que marca a literatura fantástica. Por outro lado, textos influenciados por questões religiosas, que retratam experiências místicas já podem ser considerados mais próximos do gênero.  Em sua opinião, que fatores levam ao aparecimento do fantástico nestes textos antigos?

MC: Acho que o ser humano, não importa de qual época ou sociedade, sempre será atormentado por  algumas questões básicas: como surgiu o universo?, Deus existe, ou os deuses? Meu destino é livre ou já foi escrito?, existe vida após a morte? Etc… Mesmo quando a ciência ou a religião dizem ter todas as respostas, sempre haverá pessoas que não estão convencidas disso, e essas costumam ser as mais imaginativas. Algumas delas deixam suas dúvidas e possíveis respostas em forma de literatura.