Entrevistas

A Questão da Ideologia no Círculo de Bakhtin

Por Renata de Albuquerque

 

O intelectual russo Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895-1975) é uma das mais importantes referências de análise do discurso em termos linguagem e literatura, tendo estudado noções, conceitos e categorias de análise da linguagem com base em discursos cotidianos, artísticos, filosóficos, científicos e institucionais.  O  chamado Círculo de Bakhtin é grupo multidisciplinar de intelectuais russos, que incluía, além de Bakhtin, Voloshinov e Medvedev. Eles se reuniram regularmente entre 1919 e 1929 e uma de suas mais importantes contribuições às ciências humanas foi foi enxergar a linguagem como um constante processo de interação mediado pelo diálogo – e não apenas como um sistema autônomo. Em A Questão da Ideologia no Círculo de Bakhtin, Luiz Rosalvo Costa organiza sua pesquisa em dois eixos centrais: a  compreensão de que a produção sígnica (verbal e não-verbal) é o lugar de materialização das relações entre as determinações do sistema econômico e as formas de significar e atribuir sentidos à realidade; e a análise da divulgação científica como um campo privilegiado de reflexo e refração do conjunto de transformações pelos quais passa o sistema produtivo e a sociedade de um modo geral. A seguir, o  mestre e doutor em Letras (Filologia e Língua Portuguesa) pela USP, onde atualmente realiza estágio de pós-doutorado. Integra o grupo de pesquisa Diálogo, fala sobre seu livro recém-lançado:

O que o motivou a estudar Bakhtin com o recorte feito em sua tese?

Luiz Rosalvo Costa: A minha pesquisa de doutorado, na verdade, é um desdobramento do estudo que realizei no mestrado, que também foi sobre o discurso da SBPC e também utilizou como base teórica o Círculo de Bakhtin. O doutorado foi, então, uma oportunidade para aprofundar um pouco mais o conhecimento sobre a concepção de linguagem desenvolvida por esse grupo de estudiosos russos. E este é um ponto crucial: embora a recepção ocidental da obra tenha transformado Bakhtin no centro dessa produção intelectual cujas bases se desenvolveram nas décadas iniciais do século XX na Rússia/União Soviética, estudos mais recentes vêm dando conta de que na realidade as coisas talvez não fossem bem assim, e que, no tocante à reflexão sobre a linguagem, havia no grupo dois outros intelectuais tão ou mais importantes que Bakhtin: Valentin Volóchinov e Pável Medviédev. Então essa foi uma das grandes motivações do meu estudo: conhecer um pouco mais sobre a relação entre os trabalhos desses três autores e, ao mesmo tempo, sobre o modo como esses trabalhos se articulavam em uma concepção de linguagem de fundo comum.

 

Por que a escolha de debruçar-se sobre os enunciados da Revista Ciência Hoje?

LRC: Neste caso também se trata de um desdobramento do estudo realizado no mestrado, que tinha se voltado para o discurso da SBPC materializado nos editoriais da revista Ciência Hoje na década de 1980. Esse estudo (do mestrado) mostrou que a revista Ciência Hoje (por sua linha editorial, concepção gráfica, espectro de temas e assuntos e, em especial, por seus editoriais) constituiu-se em um dos principais instrumentos de que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC, lançou mão para participar ativamente do debate que naquele período se desenrolava no País sobre a necessidade e os rumos da chamada redemocratização. Nessas condições, a atuação da revista se caracterizou (e os seus editoriais evidenciavam isso exemplarmente) por uma forte politização e uma considerável retorização, traduzidas, entre outras coisas, pela utilização de procedimentos estéticos e discursivos que tinham como propósito defender uma determinada concepção de sociedade e de política. Então a ideia no estudo de doutorado foi voltar à revista em um outro período, a fim de verificar se e de que maneira grandes transformações ocorridas nas últimas décadas se refletiam e se refratavam em suas concepções e práticas.

Que desafios encontrou durante esse percurso de estudos?

LRC: Penso que o principal desafio (e talvez fosse mais apropriado dizer ‘o principal problema’) foi o acesso ao material necessário para fazer a pesquisa, e aqui me refiro especialmente à bibliografia do próprio Círculo de Bakhtin e à bibliografia sobre o Círculo de Bakhtin. Apesar de todos os avanços e ‘facilidades’ decorrentes do desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação e de informação, enfrentei algumas dificuldades no acesso a certos textos com os quais precisava trabalhar. Só para exemplificar: há um texto de Bakhtin chamado Problemas da obra de Dostoiévski, que foi publicado na URSS em 1929. Muitos anos depois, em 1963, foi publicada uma nova versão (revisada, modificada) desse texto sob o título de Problemas da poética de Dostoiévski. A despeito de tudo o que possam ter em comum, os livros não são a mesma coisa. São, no mínimo, duas versões diferentes, produzidas em momentos diferentes, em diálogo com circunstâncias e realidades histórico-sociais diferentes etc etc. Ocorre que no mundo ocidental o livro que acabou ganhando proeminência foi o de 1963, o que é demonstrado, por exemplo, pelo fato de apenas essa versão ter sido traduzida para o português, o inglês, o espanhol e o francês. Como trabalhei com as traduções, tive que sair buscando alternativas quanto a isso, porque era fundamental fazer uma discussão sobre a primeira versão do livro, publicada por Bakhtin em 1929. Questões centrais (por exemplo: a relação de Bakhtin com o marxismo, a articulação do seu trabalho com os trabalhos de Medviédev e Volóchinov etc.) não poderiam ser adequadamente abordadas sem o recurso a esse texto. Afinal, acabei encontrando uma tradução para o italiano (em uma ótima edição, aliás) e foi com ela que pude, então, comparar as duas versões do livro.

Felizmente para os pesquisadores brasileiros atuais que não trabalham diretamente com o original em russo, há uma boa notícia. Informações dão conta de que uma tradução do livro de 1929, feita diretamente do russo, está sendo preparada. Vamos aguardar.

 

A questão da presença do marxismo em Bakhtin é bastante polêmica. Como, em sua tese, lidou com este aspecto teórico? De que maneira isso interferiu na sua análise?

LRC: Essa é realmente uma questão difícil e foi justamente um dos pontos tratados na tese. De modo geral, as posições dos comentaristas e estudiosos do Círculo situam-se entre dois extremos. Em um deles, caracteriza-se Bakhtin como um marxista. No outro, ele é qualificado como um antimarxista radical. A posição que defendi na tese e que, creio, pode ser demonstrada pela leitura dos textos do Círculo é que Bakhtin nem era marxista nem antimarxista. Era, sim, um estudioso e um pesquisador que teve com o marxismo uma relação ambígua. Por um lado, ele próprio chegou a declarar que nunca foi marxista e que, portanto, o marxismo não era uma das suas referências teóricas fundamentais. Por outro lado, há várias passagens e formulações em seus textos que estão claramente em diálogo (para dizer o mínimo) com proposições marxistas. Uma das coisas que se pode dizer sobre isso é que, mesmo não tendo o marxismo como sua principal referência teórica, não seria possível a Bakhtin ficar imune à presença dessa corrente teórica, dado que o marxismo em grande medida hegemonizou (primeiro como teoria revolucionária e depois, na versão stalinista, como uma espécie de corruptela transmutada em pensamento oficial do Estado) o ambiente intelectual em que Bakhtin produziu a sua obra. É importante dizer, no entanto, que se em relação a Bakhtin existe essa ambiguidade, o mesmo não ocorre com Volóchinov e Medviédev, que tinham na vida institucional soviética uma atuação muito mais expressiva que Bakhtin, e cujos textos se apresentavam como orientados diretamente por uma epistemologia marxista.

 

É possível perceber uma mudança no discurso de divulgação científica durante o período estudado? De que maneira essa mudança aconteceu? Que direção esse discurso tomou?

LRC: Sim, minha tese propõe exatamente uma leitura no sentido de que, durante a década de 1980, sob os influxos, condicionamentos e determinações da realidade histórico-social daquela época, o discurso de divulgação científica da SBPC na revista Ciência Hoje, inscrito em um projeto modernista de atuação, era marcado pela politização e pela retorização. Um dos efeitos disso é que o discurso da revista nesse período, materializado nos seus diversos enunciados,  era atravessado por posições associadas a matrizes ideológicas presentes na sociedade, que debatiam sobre os rumos do país, o estatuto das relações entre Estado e sociedade civil, o papel da ciência e dos cientistas na vida social etc. Nas décadas de 1990 e 2000 esse quadro muda um pouco e o discurso da revista passa aos poucos a assumir uma certa despolitização, traço refletido também nos seus editoriais, cujas mudanças vão no sentido de torná-los menos uma afirmação do ponto de vista da revista e mais uma apresentação neutra do conteúdo da edição.

Arabia Brasilica: o fio da memória costurado por Raduan Nassar, Milton Hatoum e Salim Miguel

Por: Renata de Albuquerque

Sem ter formação arabista, o italiano Alberto Sismondini, nascido em Ventimiglia, aproximou-se da cultura do Oriente fazendo um movimento parecido que o levara, na juventude, a aproximar-se da França, país fronteiriço à sua cidade natal. “Para ter a percepção de não estar a apodrecer no recanto mais recôndito da província italiana, era preciso ser bilíngue”, afirma. Foi por sentir falta de estar próximo de uma cultura “tão importante quanto a francesa” e por ler a literatura de autores libaneses francófonos que fez contato mais próximo com a cultura árabe.

Esta familiaridade o levou a conhecer a literatura de autores como Salim Miguel, Raduan Nassar e Milton Hatoum, que se tornaram seu objeto de estudo no livro Arabia Brasilica. A seguir, Alberto Sismondini, que é Mestre e Doutor em Literatura Comparada e Tradução Literária pela Universidade de Siena, subdiretor do Centro de Línguas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Membro do Centro de Literatura Portuguesa da mesma Universidade desde 2006, fala sobre sua obra:

 

Alberto Sismondini

O que despertou seu interesse no estudo da cultura árabe?

Alberto Sismondini: Não tenho uma formação de arabista. De alguma forma, quando já vivia em Coimbra, estava a ressacar  com a falta de uma cultura de proximidade tão importante como a francesa. Gosto do francês e  das marcas da cultura francesa impressas no imaginário colectivo global, daqueles signos que Annie Ernaux aproveita nas suas narrativas, tal como uma ferramenta para revigorar a memória dos leitores e desta forma criar uma atmosfera empática de partilha de eventos. Acho que a literatura francesa viveu uma fase de franca popularidade ao virar do século, melhor dizer, do milénio, como puderam testemunhar as recentes atribuições do prémio Nobel a Le Clézio, a Patrick Modiano, além do naturalizado francês Gao Xingjian. Em Itália e Portugal, autores como Daniel Pennac, Muriel Barbery e Amélie Nothomb vendem bem.  Pela prática do francês, isto é ler livros de autores francófonos, conheci os trabalhos de Amin Maalouf, Sélim Nassib e, a seguir, os de Farjallah Haïk, autores libaneses que escolheram o francês como língua de comunicação literária. Nessa altura lia os trabalhos de Yasmina Traboulsi publicados pela «Mercure de France».Pois, o Líbano é considerado em França um país importante, o filho varão da francofonia; os jovens libaneses desde sempre eram considerados campeões em «dictée» , o ditado francês, um autêntico rito de passagem na aprendizagem da língua. Conhecia o Líbano como importante centro editorial do Oriente Médio. No início, confesso, a aproximação à cultura árabe deu-se pela francofonia. A seguir, veio a leitura morosa das Mil e uma noites na primeira tradução italiana do árabe, coordenada por Francesco Gabrieli, um bem conseguido projecto da editora Einaudi (1948). As Mil e  uma noites representam a meu ver um autêntico tratado de cultura árabe clássica.  Sinto-me também grato para com os colegas  da Universidade de São Paulo que, pelo seus escritos, me iniciaram de forma acádemica,  Safa Jubran, Michel Sleiman e Mamede Jarouche, este último com a sua própria tradução de alto cariz filológico das Mil e uma noites …

O que o levou a estudar a obra de Raduan Nassar, Milton Hatoun e Salim Miguel? Como se deu essa escolha?

AS: Uma autêntica epifania literária: Milton Hatoum apareceu em Coimbra na quarta-feira de cinzas de 1999 a apresentar a edição portuguesa do seu Relato de um certo Oriente. Foi um deslumbramento, o exotismo amazonense sobreposto ao exotismo orientalista,tudo redigido numa língua tão elevada! A seguir, foram publicados em Portugal Lavoura arcaica e Um copo de cólera de Raduan Nassar e Dois irmãos de Milton. Deu vontade para ler mais:relembro também de ter conseguido arranjar em Lisboa um exemplar brasileiro do Menina a caminho.

Enquanto no Brasil se  aproximavam as celebrações dos 500 anos da carta do achamento, surgiu Nur na escuridão de Salim Miguel, fiquei intrigado e avancei para ter mais bibliografia dele… e a consegui ter. Quem muito me apoiou nessa procura foi a docente de Literatura Brasileira  em Coimbra, Maria Aparecida Ribeiro.

Arabia Brasilica reúne três autores cujas escritas são, a princípio, muito singulares. O que os liga ou aproxima em termos literários? Por outro lado, o que os distingue? 

AS: Acho que todos foram grandes consumidores de literatura na fase da sua formação.  Um elo comum a meu ver existe e é representado por um trabalho constante com a memória. Salim exerce o seu magistério de escritor expressando a memória da imigração no país  ou de eventos marcantes da história nacional (p. ex. o Golpe de 1964) com a linguagem polida e eficaz de jornalista. É natural que a história da diáspora libanesa ao Brasil seja por ele celebrada em Nur na escuridão. Em Raduan Nassar , cujo Lavoura arcaica foi traduzido em francês com o título La Maison de la mémoire, tal como em Milton Hatoum a memória passa por um processo de ficcionalização da realidade, aqui vislumbram-se as tais leituras da fase de formação: muitos dos meus “queridos franceses” mas também, para Raduan,  Almeida Faria e a sua A Paixão.    De Salim Miguel é bem salientar o papel importante que ele teve em publicar autores da África lusófona  censurados pela mordaça salazarista e impossibilitados de publicar no seu país.

Qual a importância, em sua opinião, de trazer à tona a cultura árabe dentro do contexto brasileiro?

AS: O Brasil é terra de acolhimento desde sempre, cerca de 7 milhões de Brasileiros têm  ascendentes árabes e certas práticas estão bem disseminadas: se alimentar-se é um acto cultural, então é só consumir uma refeição  a base de quibe e esfirra numa lanchonete qualquer do país e podemos afirmar que  todos  os brasileiros «praticam» a cultura árabe.

O Brasil sempre foi um país com tradição de acolher imigrantes. Atualmente, por conta da grande tensão e das guerras no Oriente Médio, há uma onda de imigração bastante forte de pessoas que fogem de seus países para virem ao Brasil. Em sua opinião, essa receptividade histórica continua viva ou há preconceito contra os recém-chegados? 

AS: Quando se fala de imigração no Brasil, logo penso em Graça Aranha e o seu Canaã, repetidamente citado por Salim Miguel no seu Jornada com Rupert. A dialéctica entre Milkau e Lentz voltou à tona, também no Brasil. Há dois anos, após uma conferência, cujo tema era a imigração italiana em São Paulo, um simpático casal catarinense confessou o seu desassossego em ver grupos  de migrantes económicos haitianos serem deslocados para o sul do Brasil… A migração de grupos coesos pobres que até podem subverter a ordem institucionalizada de um território, cria espanto, o mesmo que o Drummond criança, em Minas,  sentia a ouvir os turcos falar uma língua desconhecida ( que ele chama de «língua-problema») jogando cartas “com alaridos”. Acho seja uma questão antropológica de posse de espaços. A intolerância surge entre quem está incumbido a partilhar espaços com comunidades de estrangeiros recém-chegados, daí as piadas, cultura oral transcrita para folhetins, que no século passado vitimaram no Brasil  carcamanos, turcos, portugas… A alta cultura não tem medo da miscigenação, mas quem faz alta cultura institucionalizada não mora nas favelas, nem nos bairros onde mora o povão…

Ainda há ganhos/trocas culturais novas que podem ser verificadas nesta nova onda de imigração? Quais? 

AS: Acho que sim, muitos dos novos imigrantes vindos do Oriente Médio têm formação secundária o até superior e poderão contribuir a enriquecer a sociedade e a economia brasileiras, com projectos inovadores.

De alguma maneira a literatura pode atenuar as diferenças entre as duas culturas ou, por outro lado, ela as aprofunda? Em outras palavras, os autores estudados pelo senhor são profundamente brasileiros e profundamente árabes ou essas características são excludentes? Como isso acontece?

AS: Estamos a falar de autores profundamente brasileiros. Ninguém dos três  teve ou tem conhecimentos aprofundados da fala árabe. A questão das origens não interferiu com a plena adesão à cidadania brasileira, cujo resultado, a partir da segunda geração de migrantes, é a perda da fala de origem dos antepassados. Isso acontecia no antigamente, agora as novas gerações tenham mais recursos, devido à globalização.  No meu livro apenas defendo a inserção de formas narrativas orientais, de padrões artísticos presentes seja na cultura do Levante  como na dos autores libaneses francófonos analisados  (Maalouf, Nassib, Haïk) em paralelo com os brasileiros.

A arquitetura muito além da invenção de Oscar Niemeyer

Por Renata de Albuquerque

Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer, obra organizada por Ingrid Quintana Guerrero e Paulo Bruna e recém-lançada pela Ateliê Editorial, traz ao público textos com análises sobre pontos da criação do arquiteto carioca que parecem esgotados, mas não estão: sua obra em São Paulo, suas ligações com Le Corbusier, a crítica internacional e a arquitetura religiosa latino-americana. Autor do ensaio “A revisão crítica de Oscar Niemeyer”, que faz parte do livro, o Professor Livre-Docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP) Rodrigo Queiroz fala hoje sobre a contribuição que a obra pode dar ao público:

Qual a importância da publicação de “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer”?

Rodrigo Queiroz: Os quatro ensaios abordam aspectos fundamentais para a devida compreensão da obra de Oscar Niemeyer. Por se tratar de uma obra vastíssima e cercada pela ideia – dada pelo próprio arquiteto – de que “arquitetura é invenção”, a compreensão da dimensão histórica dessa obra tão importante, por vezes, acaba sendo eclipsada pelo mito da criação, da originalidade e da invenção. Na verdade, como qualquer outro grande arquiteto, Niemeyer possui um procedimento de trabalho e uma estratégia projetual que nos permite compreender o pensamento de um dos maiores nomes da arte e da arquitetura moderna.

É evidente que quatro ensaios não têm o objetivo de esgotar um tema que permite infinitas interpretações. Contudo, os ensaios aqui publicados abordam justamente aspectos ainda pouco discutidos sobre Niemeyer e sua obra.

O ensaio assinado pelo Prof. Paulo Bruna, “A obra de Oscar Niemeyer em São Paulo”, como o próprio nome já diz, discorre sobre os projetos de Niemeyer construídos em São Paulo, com destaque para os edifícios de habitação e escritórios localizados na região central da capital paulista. É possível perceber nesses projetos o apuro de Niemeyer na implantação dos edifícios, assim como a precisa relação com o contexto da cidade existente, aspectos pouco abordados nas obras de arquitetos pertencentes ao movimento moderno, invariavelmente lidos pela chave da forma abstrata que se sobrepõe ao contexto, à memória e ao tempo da cidade histórica.

Já Hugo Segawa, em “Entre dois pavilhões: a repercussão internacional de Oscar Niemeyer”, dedica-se à análise do impacto internacional da obra de do arquiteto carioca. Trata-se de uma reflexão importante pois nos permite compreender a recepção do ambiente estrangeiro à obra de Niemeyer, assim como seu reconhecimento internacional como um mito da arquitetura moderna.

Em “O espaço sagrado em Oscar Niemeyer e alguns desdobramentos na América Latina”, Ingrid Quintana Guerrero aborda os templos religiosos projetados por Niemeyer. Se uma das principais premissas da arquitetura moderna foi justamente a negação do caráter simbólico inerente à sua função, é natural imaginar que o tema do templo religioso sempre foi visto como um tabu pelo movimento moderno, principalmente pela sua vertente construtiva. Contudo, no caso das igrejas projetadas por Niemeyer, é possível diagnosticar o diálogo do arquiteto com a história do espaço religioso, seja na Igreja de São Francisco de Assis (1943), na Pampulha, cujas superfícies remetem inequivocamente à arquitetura religiosa colonial e ao Barroco; seja na Catedral Metropolitana de Brasília (1958), onde a cúpula que historicamente iluminou das igrejas, assume a escala da própria catedral; ou como na Capela de Nossa Senhora de Fátima (1958), diálogo franco com a Capela de Ronchamp, um dos mais conhecidos projetos de Le Corbusier, mestre de Oscar Niemeyer.

Laboratório de Ensaios do Centro Técnico da Aeronáutica em São José dos Campos – CTA (1947). Fonte: Hugo Segawa

Meu texto, “A revisão crítica de Oscar Niemeyer”, aborda o período de transição da obra do arquiteto, durante a segunda metade da década de 1950. Trata-se de um momento no qual o arquiteto revê o aspecto compositivo dos seus edifícios e, paulatinamente, substitui as formas carregadas de elementos acessórios por formas simplificadas, cujo contorno, na maioria das vezes, define-se pela própria solução estrutural do projeto.

A obra pode chamar a atenção de leitores não ligados ao universo da arquitetura ou é dedicado apenas a profissionais da área? Por quê?

RQ: Claro que o livro se presta como um importante conteúdo para estudantes, profissionais, docentes e pesquisadores da área da arquitetura e urbanismo. Contudo, por se tratar de um personagem de conhecimento público, e pelos ensaios fugirem, em certa medida, de uma estrutura eminentemente acadêmica, parece natural que o livro desperte o interesse de um público maior que o especializado.

 

Existe uma vasta bibliografia sobre a obra de Niemeyer. De que maneira este livro se diferencia do que já existe no mercado editorial?

RQ: Sim, há uma vasta bibliografia sobre a obra de Oscar Niemeyer. Mas devemos lembrar que a imensa maioria deles é composta por títulos que não têm como objetivo se aprofundar na análise de sua obra. Invariavelmente, são livros de grandes formatos, com ricos ensaios fotográficos, que se enquadram mais na categoria de livros de arte, os conhecidos “coffe table books”. O livro “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer” vem, justamente, conferir conteúdo a um tema ainda muito conhecido e interpretado pela imagem.

 

Ainda há muito a ser estudado sobre Oscar Niemeyer? O que, em sua opinião, ainda merece atenção dos pesquisadores? E de que forma este volume contribui com esta fortuna crítica? 

RQ: Sim, Niemeyer ainda precisa de uma publicação à altura de sua obra. Um livro de maior fôlego, e de perfil quase enciclopédico, uma espécie de “obra completa”. O livro “Quatro Ensaios” é um primeiro passo para a devida e merecida compreensão da obra de um dos principais personagens da história brasileira e da arquitetura moderna.

 

Por que é importante conhecermos mais sobre a trajetória de Oscar Niemeyer?

RQ: Propositalmente, Niemeyer sempre reduziu a importância de suas obras com um discurso surpreendentemente despretensioso. A presença de suas obras no imaginário e no cotidiano do povo brasileiro faz desse arquiteto uma figura singular, sem paralelo entre seus pares, seja no Brasil ou no exterior. Cabe a nós, professores e pesquisadores de sua obra, sistematizar um conhecimento tão rico e vasto e fornecer as informações necessárias à compreensão do maior arquiteto brasileiro.

Os corpos de Joyce

Por Renata de Albuquerque

Em Joyce Era Louco?, o Professor e tradutor Donaldo Schüler discute a criação literária de James Joyce a partir dos ensinamentos de Lacan e das teorias psicanalíticas. Assim, realiza uma análise da escrita de Joyce e das significações que ela sustenta. A seguir, em uma entrevista exclusiva para o Blog da Ateliê, ele fala de seu novo livro:

O título remete a uma citação de Lacan. O senhor pode explicar brevemente ao leitor, que ainda não teve contato com o livro, qual a importância dessa referência, já que tanto para Lacan quanto na obra de Joyce a linguagem é um elemento essencial de (des)construção do sujeito e da literatura (respectivamente)?

Donaldo Schüler: A loucura é a origem, a organização vem depois, são os dois momentos salientados por Nietzsche na Origem da tragédia: Dioniso e Apolo.  Dioniso é embriaguez, a loucura dionisíaca quebra regras, ponto de partida para a  invenção artística. Apolo está ligado ao que Lacan chama “saber fazer”. O saber fazer é animado pela embriaguez originária. A embriaguez, como tema, atravessa a obra de Joyce. Dioniso desconstrói, Apolo reconstrói, duas faces da mesma invenção.

O Professor Donaldo Schüler

Como teve a ideia para o livro Joyce Era Louco?

DS: Primeiro foi a tradução do  “Ulisses”, feita por Antônio Houaiss. Como professor de grego, levei meus alunos a saltar do mundo de Homero para a turbulenta Dublin de princípios do século XX, sacudia pela rebeldia das vanguardas. Apareceram concomitantemente traduções e reflexões dos irmãos Campos. Aconteceu em Paris, nos anos 70 do século passado, um ano inteiro dedicado a Joyce pelo inventivo psicanalista Jacques Lacan. As análises de Lacan foram gravadas em fita e estenografadas. Publicações feitas por sociedades psicanalíticas em vários países, também no Brasil, despertaram interesse.  Em 2005 apareceu a versão autorizada das lições de Lacan com o título “Le Séminaire, livre XXIII”. Solicitações contínuas para destrinchar o enredado texto de Lacan levaram-me a escrever “Joyce era louco?”. O livro confronta o Seminário, livro XXIII de Jacques Lacan com a obra literária  de James Joyce. Lacan focaliza a criação literária. Entra em discussão o corpo, o psicanalista divide o corpo do escritor em duas etapas: o corpo que adquiriu nos seus anos de formação e o corpo que o escritor passou a desenvolver a partir de um momento traumático em sua juventude.  A  obra literária é o corpo em que o escritor reside. Inadequado é procurar uma biografia fora da produção literária. O corpo do escritor é o corpo que ele artisticamente produziu.

Qual seu  objetivo com esta obra?

DS: A loucura é preocupação constante de poetas, escritores e teóricos desde Homero. Psiquiatras ocupam-se com a loucura desde princípios do século XIX. A loucura mereceu a atenção de psicanalistas desde os primeiros anos do século XX. Já que psicanalistas examinam textos literários, a teoria psicanalítica não pode ser ignorada por teóricos da literatura. Meu objetivo é participar da discussão para compreender melhor a invenção literária.

O que os leitores podem esperar desta obra, sendo o senhor tradutor do escritor irlandês?

DS: A obra literária é um corpo vivo e original. Traduzido, o corpo literário passa a viver em outro espaço, em outra língua. O tradutor sente a transfiguração no ato de traduzir. Joyce revive na tradução em corpo transfigurado. A tradução participa da invenção literária. O rio narrativo que atravessa a obra de Joyce continua a fluir. O tradutor é leitor de sua própria tradução. No texto reinventado, tradutor e leitor convivem. Todo leitor é tradutor. A obra lida é reinventada na experiência do leitor. A obra terá tantos corpos quantos forem os leitores.

James Joyce

O livro será lançado durante uma exposição de arte. Como se dá essa relação entre arte, psicanálise e literatura na obra de Joyce?

DS: A artista plástica, Elida Tessler, visita a obra de James Joyce, em várias ocasiões. Destaco Claviculário e Dubling. Um dos estojos de Claviculários é dedicado à tradução brasileira do Finnigans Wake. Elida destaca palavras e as grava em chaves, mistério penetra o metal, oferecido ao olhar, ao tato. A obra literária ganha um corpo imprevisto. O mistério aproxima literatura, arte e psicanálise. Ler em cada uma dessas atividades é decifrar mistérios. Quem decifra entra no labirinto sem saída e sem centro. No labirinto caminhos confluem e se dispersam.  Em Dubling, a cidade de Dublin se alarga e se desdobra. Garrafas, destinadas a fluir no rio da vida, encerram palavras que ecoam e se duplicam em quem as experimenta.  Na obra de Joyce, todas as artes convergem.

No início do livro, o senhor cita os gregos, sendo este universo bastante familiar ao senhor, já que traduziu diversas obras de autores como Homero e Sófocles e é professor de Língua e Literatura Grega. De que maneira seu conhecimento da cultura grega o influenciou no trabalho com Joyce? Que ligações, presentes neste novo livro, é possível estabelecer entre Joyce e os gregos, já que para o próprio autor irlandês esta é uma referência essencial, como nos lembra Ulisses?

DS: Em Joyce,  sou levado aos gregos por Joyce. Os gregos fundam o Ocidente.  Ao fundar Joyce funde e confunde. Todos os séculos ressoam na obra de Joyce. Finnegans Wake é uma ópera universal, Ocidente e Oriente colidem, ressoam.  Os gregos nos ensinaram a inventar. Joyce frequenta os gregos para reinventar, ele e os artistas de sua geração e da geração que o precedeu: Wagner, Nietzsche, Salvador Dalí, Picasso, o cinema, cineastas, poetas líricos… Estamos em presença de uma nova Renascença. Esta Renascença está à altura do Renascença dos séculos XIV, XV e XVI.

A pergunta, que é título do livro, parece, em alguma medida, uma pequena provocação ao leitor. Ela tem uma resposta para o senhor? O leitor pode encontrar essa resposta no livro?

DS: Provocar (de provocare) significa chamar para fora. Obra que não provoca não é lida. A leitura nos chama para fora de nós mesmos. Toda pergunta, por lançar ao não saber, inquieta. Acomodados vivem confortavelmente, não inventam. Por que  inventar? Se estamos acomodados sobre um abismo – hipótese que não pode ser excluída – necessitamos de vozes que nos despertem para reinventar caminhos. Repousar  ofende a condição humana, só a ação humaniza.

Conheça outros livros de Donaldo Schüler

Um muçulmano na África

 

Por: Renata de Albuquerque

Leão, o Africano é uma figura muito peculiar. Viajante, tradutor e diplomata, sua vida é tão cheia de reviravoltas que pode até parecer ficção. Leão, o Africano: a África e o Renascimento Vistos por um Árabe é um relato da viagem curioso deste muçulmano à África, em pleno século XVI. Nessa obra, que Murilo Sebe Bon Meihy traduziu para a Coleção Estudos Árabes, o leitor brasileiro tem a possibilidade de conhecer um universo que parece distante, mas que ainda é pouco conhecido e guarda muitas semelhanças com o contexto da atualidade. Nesta entrevista, o professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e em Estudos Árabes e Islâmicos pela Universidade Autónoma de Madrid (UAM); e Doutor em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP) fala sobre este título:

Murilo Sebe Bon Meihy

Quem foi Leão, o Africano e o que há de ficção e de realidade documental no livro que leva seu nome?

Murilo Sebe Bon Meihy: Leão, o Africano levou uma vida rica e fascinante.  Nascido no Reino de Granada, foi expulso de sua terra natal quando os reis Fernando e Isabel de Castela e Aragão, os chamados “reis católicos”, conquistaram Granada e expulsaram os muçulmanos da Península Ibérica. De família abastada, Leão, o Africano buscou refúgio em Fez (Marrocos). Em uma de suas viagens, foi preso por piratas cristãos no Mar Mediterrâneo e levado à Península Itálica. Por sua erudição, foi entregue ao Papa Leão X, e passou a sobreviver em Roma fingindo-se convertido ao cristianismo. Parte de sua vida está documentada por meio de registros de seus trabalhos na Biblioteca Apostólica Vaticana. É justamente sua obra mais célebre, um relato de viagem sobre a África, que apresento aos leitores nesse livro da Ateliê Editorial.

 

Em sua opinião, qual a importância de trazer ao público em geral seu trabalho que, por ser acadêmico, pode vir a ser considerado “muito complexo”?

MSBM: O relato de Leão, o Africano, conhecido de forma abreviada como “Descrição da África”, transformou-se na principal fonte de conhecimento geográfico e cultural sobre a África difundido na Europa até os séculos XVIII e XIX. Apesar da complexidade do texto histórico de Leão, o Africano, o leitor desse livro entrará em contato com um relato de viagem do século XVI mais fluido e prazeroso de ler, já que o texto do viajante granadino é exposto e explicado a partir do rico contexto cultural do Renascimento na Europa do século XVI, e da vida encantadora de nosso protagonista. Cheia de estratégias sedutoras de sobrevivência em um mundo marcado por diferenças culturais, a biografia de Leão, o Africano mostra que há um lugar de destaque para o Islã e a África na história cultural da Europa moderna.

A história de Leão, o Africano ainda pode ser considerada atual, levando-se em conta o cenário de conflitos do Oriente Médio?

MSBM: Mais do que atual, a história de Leão, o Africano é a própria narrativa de vida de muitos árabes muçulmanos no mundo atual. A condição de refugiado, que assola milhões de sírios, palestinos, e iraquianos hoje, por exemplo, ainda que por razões distintas, se combina ao esplendor cultural de uma civilização tão grandiosa quanto instável. Compreender o Oriente Médio atual é voltar os olhos para o seu passado de contato com o Ocidente.  Se precisamos de certo contato com o passado colonial para entendermos o Brasil e a América Latina de hoje, com o Islã e o Oriente Médio não é diferente.

Em que aspectos essa história pode ajudar os brasileiros que a lerem a entender esse complexo contexto?

MSBM: Sobreviver em tempos de incerteza é uma arte que brasileiros e árabes compartilham sem terem consciência disso. O homem moderno não é definido apenas pelas suas convicções, mas também pelas suas contradições. Desde a invenção do “Oriente” como uma categoria geográfica e cultural em oposição ao “Ocidente”, construímos uma visão soube o outro a partir de um conjunto de características que não queremos reconhecer em nós mesmos.

 

A tolerância, o respeito às diferenças culturais, e a empatia eram grandes desafios enfrentados pela humanidade no século XVI, e que sobrevivem na atualidade. Leão, o Africano e seu relato sobre a África nos ensinam que essas são lições constantes a serem aprendidas por todos, principalmente pelos brasileiros nos dias atuais.

Quais foram os desafios enfrentados pelo senhor durante o processo de edição da obra?

MSBM: Traduzir um texto de época é sempre um desafio, ainda mais quando acompanhado do esforço de revelar as contradições humanas de uma época passada. Essa é a essência do trabalho do historiador. Por ter sido parte de minha tese de doutorado defendida no setor de Estudos Árabes da USP, em 2013, a adaptação da linguagem acadêmica para a de um livro editado é praticamente um processo de reescrita do texto. A versão publicada pela Ateliê Editorial tem a pretensão de ser um texto com rigor científico, mas que prenda a atenção dos que se dispuserem à leitura. Para isso, contei com o excelente trabalho da equipe da editora, e espero que o resultado seja atraente para o público em geral.

As relações entre a Europa Latina e o Norte da África, mediadas pelo Islã, mudaram ao longo dos séculos? O que o senhor destacaria sobre este assunto?

MSBM: Em linhas gerais, essa relação sempre esteve marcada por dois fatores: a negociação e o conflito. Muitas vezes os especialistas e estudiosos recorrem a elementos culturais e até mesmo religiosos para a defesa da hipótese de que o motor da História é o confronto inevitável entre civilizações. Essa premissa é um equívoco, já que condiciona a experiência histórica à guerra e ao enfrentamento. Os momentos em que se estabeleceu o diálogo e o respeito mútuo entre povos distintos como cristãos, judeus, e muçulmanos, por exemplo, produziram avanços culturais extraordinários, ainda que algumas tensões não deixassem de existir.

Na relação histórica entre Europa, África e Islã não há opostos inegociáveis. Os radicalismos e excessos sempre existiram, mas nunca foram definidores de como esses povos interagiram na História. Desejo que os que lerem esse livro sejam convencidos disso ao final da leitura.

Qual a importância, para o brasileiro, de entender como a África e o Renascimento foram vistos pelos árabes? O que da cultura de nosso país pode-se ver refletido nesse espelho?

MSBM: Apesar de nossa proximidade cultural com a África, o Brasil produz pouca bibliografia sobre o tema. A maioria do material que temos trata a visão europeia e cristã sobre o continente africano. O relato de Leão, o Africano, ao trazer o olhar de um árabe muçulmano sobre a África, mostra que temos que estar abertos a novos interlocutores e olhares. Mesmo o Renascimento, que foi amplamente discutido na historiografia, sempre teve a preponderância da visão europeia. É chegada a hora de entrarmos em contato com uma perspectiva histórica diferente e não menos encantadora. Espero que esse livro ajude a inserir o debate sobre as diferenças culturais na História Moderna. Nesse período da História, são muitos os relatos de viajantes europeus sobre o Brasil colonial, e o olhar de Leão, o Africano sobre a África nos inspira a encontrarmos aproximações entre as experiências coloniais no Atlântico e no Mediterrâneo. Valores como alteridade, tradução e diferença culturais são princípios que reivindicamos na formação social do Brasil. Por que não buscarmos esses mesmos fundamentos no olhar estrangeiro sobre a África?

Quatro Ensaios Sobre Oscar Niemeyer

No ano em que o arquiteto faria 110 anos, lançamento coloca luz sobre novos aspectos da obra do arquiteto carioca

Por Renata de Albuquerque

Morto há cinco anos, Oscar Niemeyer continua sendo uma referência fundamental quando o assunto é arquitetura, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. A grandeza de sua obra permite que haja uma profusão de estudos a respeito e que, mesmo assim, novos aspectos sejam abordados a cada nova publicação, por meio de visões singulares. Quatro Ensaios Sobre Oscar Niemeyer, organizado por Paulo Bruna e Ingrid Quintana Guerrero, aborda sua obra em São Paulo, suas ligações com Le Corbusier, a crítica internacional e a arquitetura religiosa latinoamericana.

Para falar sobre o lançamento, a arquiteta colombiana concedeu uma entrevista para o Blog da Ateliê:

 

Ingrid Quintana Guerrero

Qual a importância da publicação de “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer”?

O livro oferece leituras inéditas da obra, discurso e influência de Oscar Niemeyer, dentro e fora do Brasil, sobre temas que parecem já esgotados: sua obra paulista; seu papel nos círculos internacionais da arquitetura, seu aprendizado dos grandes mestres e a recorrência dos programas religiosos nos encargos que recebeu. Autores como Hugo Segawa e Paulo Bruna são garantia da qualidade científica dos textos.

 

 

O que o leitor poderá encontrar nesse livro?

Apresentamos quatro textos, mais uma apresentação de Sylvia Ficher, professora da UnB. O primeiro deles, de Paulo Bruna, constitui uma revisão da profundidade da produção de Oscar Niemeyer no estado de São Paulo, com destaque aos projetos habitacionais , que hoje são cartões postais dessa cidade (o Copan; o edifício Montréal), sem esquecer sua intervenção mais ambiciosa nessa terra: o Parque do Ibirapuera. Por sua vez, Hugo Segawa reconstrói as opiniões da imprensa sobre a atuação internacional de Niemeyer, no período que vai da construção do emblemático pavilhão de Nova Iorque (com Lucio Costa, 1939), até o convite para erigir um novo pavilhão, na Serpentine Gallery (Londres, 2003). Ele revisa minuciosamente o episódio da constituição de uma equipe para a sede da ONU, decorrente do concurso ganho pelo jovem Niemeyer (1947). No seu texto, Rodrigo Queiroz, que há muitos anos investiga os traços de Le Corbusier na produção do carioca, revela os vínculos profundos entre a linguagem de ambos os arquitetos; vínculos que, por sinal, Niemeyer negou inúmeras vezes. Por fim, meu ensaio propõe uma leitura da produção de arquitetura religiosa latinoamericana em chave Niemeyer, em países como o México, a Colômbia e a Venezuela.

 

A obra pode chamar a atenção de leitores não ligados ao universo da arquitetura ou é dedicado apenas a profissionais da área? Por quê?

Eu acho que é um livro que, além de atrair profissionais da arquitetura (o texto de Rodrigo Queiroz aponta à universalidade de Niemeyer mediante sua relação plástica com a obra de outro gigante da arquitetura moderna, Le Corbusier), pode ser de interesse para os apaixonados pela história de São Paulo (o texto de Paulo Bruna oferece o panorama mais completo que eu já vi sobre a obra do carioca na capital paulista); para quem gosta das intrigas por trás dos encargos de arquitetura e da recepção e crítica desses pela mídia (texto de Hugo Segawa, com seu estilo único, quase de cronista); para quem estuda América Latina como bloco cultural e intelectual (acredito que meu texto contribui a essa perspectiva).

Existe uma vasta bibliografia sobre a obra de Niemeyer. De que maneira este livro se diferencia do que já existe no mercado editorial?

Qualquer resposta que eu der será fraca, considerando que todo dia, em algum canto do planeta, alguém publica uma tese, um artigo ou um livro sobre Niemeyer. Porém, Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer é mais do que uma coletânea: é um esforço de coletivo da equipe de pesquisa Arquitetura e Cidade Moderna e Contemporânea cujos membros, ao mesmo tempo, possuem abordagens e trajetórias totalmente diferentes. Isso só podia acontecer na FAU USP, a mais plural e cosmopolita das escolas de arquitetura brasileiras, embora sempre seja identificada com a herança de Vilanova Artigas e com o “brutalismo paulista”.

 

Neste ano, o arquiteto faria 110 anos e são lembrados os 5 anos de sua morte. Este pode ser considerado o “mote” do lançamento do livro ou há outras razões para tal publicação?

Sim. Infelizmente, inúmeros motivos fizeram com que a publicação, que iria aparecer no primeiro aniversário do falecimento de Niemeyer, fosse adiada. Daí que tivéssemos que revisar e atualizar os textos para sua publicação hoje. No entanto, o tempo passa muito rápido e nenhum desses perdeu vigência.

 

No texto de apresentação, Sylvia Ficher se refere a um livro que estaria prestes a ser lançado, uma coletânea em três seções. Há notícias sobre ele?

Sylvia é quem está envolvida no projeto. Ela diz que Andrey Schleee ela não perdem a esperança de conseguir publicar o projeto integral. Esperemos que isso aconteça em breve.

 

Foram escritos mais de 30 capítulos do trabalho ainda não editado. Como foi o processo de escolha desses 4 ensaios? Por que eles foram os escolhidos para fazer parte da edição da Ateliê?

Paulo Bruna, que fez parte da primeira iniciativa, na UnB, conhecia bem o material e fez a escolha. Na verdade, meu texto não faz parte desses 30 trabalhos: foi produto do convite que Paulo me fez diretamente. Ele conhecia bem minhas linhas de pesquisa e se interessou no olhar que uma arquiteta estrangeira como eu poderia aportar à leitura da obra de Oscar Niemeyer. Eu aceitei esse convite como um desafio, ainda maior considerando trajetória dos co-autores. Logicamente era pouco aquilo que eu podia acrescentar ao conhecimento de Niemeyer de uma perspectiva brasileira, daí que me concentrasse nos desdobramentos da sua obra na América do Sul. E me debrucei naquilo que eu acho mais fascinante da produção do carioca: sua arquitetura religiosa.

Ainda há muito a ser estudado sobre Oscar Niemeyer? O que, em sua opinião, ainda merece atenção dos pesquisadores? E de que forma este volume contribui com esta fortuna crítica?

Há alguns meses deixei o Brasil e voltei para meu país. Esse estranhamento, após ter vivenciado intensamente sua arquitetura, permitiu-me entender a dimensão monumental do legado de Niemeyer; sua universalidade e seu impacto até hoje.Com certeza, Niemeyer ainda é um dos maiores ícones da arte brasileira no mundo e referência vigente para os estudantes de arquitetura. Porém, o que dele se conhece lá fora é ainda uma versão carioca, ligada a sua produção fluminense e à riqueza visual que lhe forneceu o Rio de Janeiro. A atuação de Niemeyer fora do Rio e de Brasília, a profundidade do seu pensamento político, estético e social ficam num segundo lugar por causa da exuberância e sensualidade dos seus edifícios, apontadas desde a redação de Brazil Builds.

Meu ensaio e o texto de Rodrigo Queiroz contribuem a estender pontes entre Niemeyer e seus contemporâneos fora do Brasil, pontes delineadas pelas formas, mas sustentadas nas estratégias projetuais (que vão além da simples linha curva que imita o corpo feminino) e nas raízes culturais da condição latino-americana. Acredito que mais estrangeiros procurarão no Brasil as chaves para decifrar uma identidade própria e este livro suscitará novas questões neles.

 

Por que é importante conhecermos mais sobre a trajetória de Oscar Niemeyer?

Sylvia Ficher intitulou sua introdução “Niemeyer nunca é demais”. Concordo totalmente: quanto mais nos aprofundamos na sua produção, nos seus edifícios e nos seus desenhos, ficamos mais maravilhados pela sua criatividade, disciplina e coragem. Felizmente não é um caso isolado no Brasil: hoje Paulo Mendes da Rocha usufrui do prestígio e louvor da crítica especializada. Mas este não teve a sorte daquele, isto é, de agir em diferentes épocas e cenários, tão relevantes para a configuração histórica do continente americano moderno. Mesmo que não gostemos dos seus prédios, não é possível negarmos a condição de Niemeyer como mestre renascentista no meio do século 20: ativista comunista; homem da alta sociedade; poeta; pintor; arquiteto e urbanista. Sempre haverá uma lição para aprender nos seus bate-papos com sócios e amigos, nos seus croquis e na vitalidade que sua arquitetura oferece ao espaço urbano de cidades como São Paulo ou Belo Horizonte.

 

Conheça outras obras da Ateliê sobre arquitetura

Clássico, “O Ateneu”, de Raul Pompeia, ainda instiga leitores do século 21

“O Ateneu”, de Raul Pompeia, foi lançado há mais de um século, mas ainda instiga e provoca os leitores. A obra carrega em si características de diversas manifestações artísticas, como realismo, impressionismo e expressionismo, que se evidenciam no romance de dimensão autobiográfica do autor, Raul Pompeia, publicado pela primeira vez em 1888. Se, na época, ele foi recebido com estranhamento pela crítica, ainda hoje intriga leitores. Por isso, a Ateliê lança uma nova edição do clássico, com apresentação e notas de Emília Amaral, professora de Literatura e Doutora pela Unicamp, que fala ao Blog da Ateliê sobre o clássico:

 A edição traz ilustrações feitas pelo próprio Raul Pompéia. Ele era reconhecidamente um bom desenhista? Como essas imagens foram selecionadas para esta edição?

 Emília Amaral: Raul Pompeia era, sim, reconhecidamente, um excelente desenhista. Fazia caricaturas incríveis, e isso tem tudo a ver com a forma magistral como caracteriza seus personagens. As imagens desta edição são as mesmas feitas e escolhidas pelo autor desde a primeira edição da obra.

 

Esteticamente, quais são as inovações propostas por “O Ateneu”?

EA: Ele combinou de maneira brilhante estilos díspares e até então impensáveis numa mesma obra: o realismo, o naturalismo, o simbolismo, o parnasianismo.

 

Quanto de autobiográfico em relação ao autor, em sua opinião, há em “O Ateneu”?

EA: Bastante. Talvez nem tanto em termos factuais estritos, mas psicologicamente.
Por que Lúcia Miguel-Pereira teria classificado “O Ateneu” como um “romance estranho, diferente de tudo o que habitualmente se escrevia”?

EA: Justamente pela intersecção de estilos tão díspares, entre outros fatores.
Na opinião da senhora, o leitor do século XXI ainda é capaz de sentir esse estranhamento?

EA: Com certeza. Este livro, como toda grande obra, continua interessando e desafiando leitores por muito tempo.
Que interesse a obra desperta nos leitores de nossos dias, que ainda não leram este livro?

EA: Como se trata de um romance de formação, ele interessa muito, ao mostrar a passagem da adolescência para a vida adulta e assim trazer muitas questões existenciais pertinentes como objetos de reflexão.

Conheça outros títulos da Coleção Clássico Ateliê

Fernando (Cabral Martins) estuda Fernando (Pessoa)

Em Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa um dos mais importantes críticos pessoanos coloca luz sobre a teoria e a história da heteronímia

Renata de Albuquerque

Pode parecer ao leitor desavisado que não há novidade em um livro como Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa. Entretanto, o lançamento é um excelente roteiro para o entendimento da obra de Pessoa, pois traz uma visão geral da escrita e da atividade pública do maior poeta português moderno, cujos documentos originais foram encontrados em 1935, ano de sua morte, em 91 envelopes arquivados numa célebre arca – a que se acrescentavam outros cinquenta guardados numa mala e em um armário.

Além de uma nova leitura do intrincado poema cujo fac-símile vem reproduzido no prefácio, Fernando Cabral Martins faz, em sua obra, importante contribuição sobre a teoria e a história da heteronímia. A seguir, um dos mais importantes críticos pessoanos em atividade fala  com exclusividade ao Blog da Ateliê:

O senhor estuda a obra de Fernando Pessoa há décadas. O que o atrai na obra desse autor? Quais são, em sua opinião, as questões mais instigantes? Qual razão o levou a estudar Pessoa?

Fernando Cabral Martins: Na verdade, eu estudo a obra de Pessoa desde o princípio dos anos 80, quando comecei a dar aulas de literatura portuguesa na Universidade Nova de Lisboa. Antes disso, já era um leitor, com toda a paixão de leitura de Pessoa que era comum a tantos amigos meus, paixão que estava nesses anos num especial crescendo, com a publicação, tão longamente esperada, do Livro do Desassossego em 1982. Mas é verdade que só a partir dos anos 90 comecei a publicar mais regularmente sobre Pessoa e o Modernismo português. Hoje, o que me parece de maior importância é analisar e integrar a ficção narrativa que tem surgido nos últimos anos, bem como os seus múltiplos escritos de filosofia.

 

O que o motivou a escrever uma “Introdução aos estudos” do autor?

FCM: O que se tem passado nos últimos anos é, pois, um avanço muito considerável na publicação de inéditos e no conhecimento dos vários aspectos de uma obra muito vasta. De tal modo que me pareceu que era altura de tentar obter uma visão geral da história da escrita e da atividade pública do maior poeta português moderno.

 

Como foi realizado o trabalho que resultou neste livro? Como foi feita a pesquisa? O senhor teve acesso a manuscritos, cartas e outros materiais?

FCM: O trabalho de pesquisa foi começado há muitos anos, com um especial enfoque no espólio de Pessoa disponibilizado pela Biblioteca Nacional, que é um verdadeiro tesouro, pois reúne o conjunto dos escritos e cartas de uma vida intensa e inteiramente dedicada à literatura. A biblioteca de Pessoa, por sua vez, que também foi digitalizada e é hoje consultável online no site da Casa Fernando Pessoa, constituiu igualmente uma fonte assinalável de informação pertinente.

 

A obra é destinada apenas a leitores que não conhecem Fernando Pessoa ou pode ser recomendada também a quem já tem conhecimento sobre o autor?


FCM
: O meu objetivo foi propor uma descrição e um comentário coerentes e, tanto quanto possível, completos da obra de Pessoa, à luz das mais recentes publicações, e fazê-lo procurando manter uma exigência de clareza e simplicidade. Neste sentido, pode interessar tanto aos leitores que só agora se iniciam como àqueles que já o conhecem, pois a existência de um mapa é sempre útil para viajar num território extenso e cheio de caminhos que se bifurcam.

 

Existe alguma informação inédita que o senhor tenha encontrado durante sua pesquisa e colocado neste livro, como algum poema, por exemplo? Qual?

FCM: Eu ofereço, por exemplo, uma leitura nova do intrincado poema cujo fac-símile vem reproduzido no prefácio. Mas este livro tinha antes a intenção de apresentar uma panorâmica de Pessoa tal como se conhece hoje. Aliás, depois de 75 anos de edições de inéditos, pode dizer-se que pelo menos a sua poesia está praticamente toda publicada, e que já se conhece talvez o essencial da sua obra.

Manuscrito do poema “Deixo ao Cego e ao Surdo” contido no livro

Do ponto de vista teórico e de crítica literária, em sua opinião, há alguma inovação em sua obra (como, por exemplo, a maneira de apresentar ou organizar o conhecimento sobre Pessoa)? Qual?

FCM: Creio que, para além da própria escolha dos aspectos textuais e temáticos a comentar, o meu principal contributo poderá estar nos dois últimos capítulos, em que tento fazer a história e a teoria da heteronímia. Tentei considerar na sua dinâmica esse tão singular modelo de escrita literária que inventa heterônimos, vendo-o na lógica da sua evolução e não como um sistema fixado.

 

Fernando Paixão destaca, na orelha do livro, a capacidade de interrelacionar informações que, de qualquer modo, estão colocadas de maneira autônoma na obra. Tal estrutura foi criada com que objetivo?

FCM: Esse procedimento tem a ver, penso eu, com a natureza da literatura de Pessoa, que é um constante diálogo entre as posições (estéticas, filosóficas, políticas, religiosas, etc.) que as diferentes figuras heterônimas defendem. É esse o desafio, precisamente, o de tentar ver os traços que unem o que é diferente, a coerência geral por detrás das coerências parciais dos heterônimos, as linhas que ligam dos múltiplos esboços e fragmentos que Pessoa nos deixou e a interrelação entre os muitos gêneros, temas e planos que o ocuparam toda a sua vida. Porque Pessoa é um escritor único e complexo, mas que nos transmite ao mesmo tempo a sensação constante de um pensamento luminoso, que não foge às contradições e à complexidade do mundo, mas antes as torna a matéria-prima da sua arte.

 

Conheça outras obras de Fernando Cabral Martins

“Cicatriz” revela o corte como procedimento da escrita

Por: Renata de Albuquerque

O quarto livro de poemas de Eduardo Guimarães traz para os leitores poemas reunidos entre 1995 e 2015. Os vinte anos que o poeta usou para concluir sua obra significaram, para ele, o processo de refinamento, em que ele reescreveu, editou, incluiu e excluiu poemas, em um processo que deixou marcas profundas no poeta e que podem ser percebidas no resultado final, não por acaso, chamado de Cicatriz. A seguir, ele fala sobre o livro recém-lançado:

 

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O poeta Eduardo Guimarães

O que o estimulou a trabalhar em Cicatriz? Quais foram suas inspirações para este livro?

Eduardo Guimarães: Escrever poesia é algo que me acompanha, mesmo que eu não queira. O que me movimentou fundamentalmente na escrita deste livro foi o sentido do corte como o que funda o sentido do poema. O corte como procedimento de escrita, e também o corte como aquilo de que se fala. O corte como o que encontramos na vida de tantos hoje.

Qual o tema central de Cicatriz? Por que o livro recebeu este nome?

EG: Seguindo o que acabo de dizer, poderia considerar que o que me guiou neste livro foi buscar uma certa escrita fundada na economia. Fui intensamente agenciado pelo sentido do corte, do que faz abandonar algo, que faz prestar atenção em algo, que faz o ritmo mudar de curso, que faz ver o sofrimento incontornável. E isto um pouco ligado a um olhar sobre o que são as coisas, a vida, a história. Os vestígios dos cortes, as cicatrizes. E diante das quase certezas destes vestígios, a dúvida que sempre nos indaga.

Você lançou três livros de poesia em um período de cerca de dez anos (1984-1995) e só agora, depois de vinte anos, lança Cicatriz.  A que se deve essa longa pausa?

EG: Num certo sentido, a demora se deveu a que, em um certo momento, pensei ter terminado o livro. No entanto, quando pensei em publicá-lo ele me pareceu um conjunto de poemas que parecia algo inacabado. Assim fiquei relendo refazendo, descartando poemas, fazendo outros, deixando o livro de lado, até que a solução veio quando cheguei na palavra cicatriz – que acabou por se impor como título. Era uma palavra que trazia o corte, o acontecimento e a cicatriz como o que é passado, presente e futuro. Como o que é também outras possibilidades. Isto me permitiu chegar ao peso da palavra como estava, em certa medida, procurando. É como se o corte suspendesse, quase, a sintaxe.

cicatriz2Os poemas de Cicatriz foram escritos de 1995 a 2015, portanto, durante 20 anos. Como foi realizar esse trabalho? Cicatriz é uma coletânea ou foi elaborado como um projeto que teve duração de vinte anos?

EG: Não é uma reunião de poemas escritos no decorrer do tempo e que reuni em algum momento. É efetivamente o projeto de um livro de poemas que fui procurando realizar. Foi um projeto em torno do sentido do acontecimento que produz significação.

Em sua opinião, sua produção poética amadureceu no período? Como harmonizar e equalizar essa produção realizada ao longo de duas décadas? O leitor consegue identificar essas diferenças ou você procurou amenizá-las?

EG: Acho que estes 20 anos levaram a um outro momento da minha escrita. A demora tem a ver com a busca disso também. E a diferença do momento da escrita, penso eu, está trabalhada pelas decisões finais de ajustes e de descartes de poemas. Por outro  lado, durante este período, escrevi outros poemas que apareceram em circunstâncias específicas, inclusive como letra de música.

Sua percepção em relação ao tema central dos poemas mudou? Em caso positivo, isso é perceptível na obra?  

EG: Aprofundou-se, e isto, se estou correto na minha percepção do que fiz, se organiza em torno do que é a palavra cicatriz, e as palavras vestígio e corte. Eu acho que a poesia é uma coisa de palavra.

Na apresentação da obra, Carlos Vogt diz que seus poemas “formam ausências, sentidas, contudo, no corte e na cicatriz de seus descartes”. Pode nos explicar melhor o que isso significa?

EG: Acho que ele percebeu muito claramente uma questão que de alguma forma expressei nas minhas respostas anteriores. O corte como modo de escrita leva tanto a cortar o verso, como cortar um poema, descartá-lo, e a ausência deste poema dá sentido aos outros, exatamente porque o descartado não está no livro.

Novos Poemas reúne a produção de Carlos Vogt já postada na internet

Por: Renata de Albuquerque

Novos Poemas, do poeta e linguista Carlos Vogt, reúne três pequenas coletâneas: “Bandeirolas”, “Bolinhos de Chuva” e “Dedo de Moça”. As duas primeiras não tinham aparecido em livro ainda, mas os poemas já haviam sido apresentados em canais da internet, como na página de poesia do autor: Cantografia. A terceira, por sua vez, foi publicada em 2011. A seguir, o autor fala sobre o recente lançamento:

Quais foram suas principais motivações e influências para este Novos Poemas?

Carlos Vogt: As influências permanecem como um dos substratos culturais e poéticos que foram se manifestando nos livros anteriores, na convivência no abrigo das novas formas em que foram se manifestando, no jogo de tensões entre o clássico, o moderno e o contemporâneo, na busca inevitável do poema em pretender sempre ser único, mas em não ter unicidade senão na multiplicação de si mesmo em outros poemas, em poemas na coletânea, da coletânea em livro.

Os poemas já haviam sido publicados em revistas eletrônicas antes. Qual a importância de reuni-los em livro? Esse suporte físico ainda é um diferencial para a recepção do leitor, na sua opinião?

CV: Sem dúvida, o livro, que se faz dos poemas que ele coleciona e reúne, desta reunião faz-se, ele próprio num poema feito de poemas. Por isso, ter publicado os poemas, anteriormente, em meios eletrônicos, importa e não importa, já que o livro é que constitui o objeto novo da expressão da poesia.

Carlos Vogt

Como é o trabalho, para um poeta que continua ativo e produzindo, de debruçar-se sobre uma antiga produção? O que mudou na sua percepção do material? Você fez muitas alterações nele?

CV: Na verdade, mais do que antiga, a produção dos poemas é contínua e esta continuidade integra também uma das características da poesia que os poemas, agora reunidos em livro, expressam.

Na “Nota” que abre o volume, está escrito: “De qualquer modo são Novos Poemas postos assim em livro para decantação.” Se, por um lado, decantar significa “celebrar em versos”, por outro também significa “separar impurezas, limpar, purificar”- algo que também remete ao trabalho de edição de textos em si. Que sedimentos poderão precipitar desses Novos Poemas? O que o leitor pode recolher e aproveitar deles, em sua opinião?

CV: Penso que a  melhor resposta a esta pergunta é a que pode ser lida na poética  formulada no poema “Metalurgia”, do livro do mesmo nome, que publiquei em 1991:

 

Metalurgia

Ponho a palavra em estado de gramatical ofensa,
no torno retalho suas redondezas,
desgasto obsessivo com a broca da caneta
o que há de angular e mole na sentença.
Fora, uma forma enxuta, dentro, amor de sequidões,
ovo sozinho sem nenhum conceito a circundar-lhe a norma
de ser só ovo, sêmen contido, casca de memória.
Fazer abrasivo:
a lima, a lixa, a mão desgastam por extornos
a rixa com o verso, a rima com o avesso;
no chão, limalhas, matéria de contornos;
na página, o poema:
liso, úmido, duro como gelo.

Como a própria “Nota” também frisa, há uma diversidade de conteúdos presentes nos poemas deste volume; bem como de formas. É possível estabelecer uma linha condutora a partir dessa diversidade ou a construção de Novos Poemas é, de fato, prismática; fragmentária?

CV: A construção é prismática, é fragmentária, mas pela tensão que o poema acima revela, esconde também a organicidade do universo cultural, linguístico e poético de minha história pessoal, social e literária: o poema curto não é o antípoda do poema longo, e vice-versa, só pelo tamanho, mas também pelo que contém do outro, na ausência, tanto na forma, como no conteúdo.

Você escreveu a apresentação de Cicatriz, de Eduardo Guimarães, que também está sendo lançado pela Ateliê, inclusive em um evento conjunto em Campinas. Esta é uma mera coincidência? Qual a relação entre vocês dois?

CV: Somos colegas de Departamento, na Unicamp, o Departamento de Linguística, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), e também no Núcleo de Criatividade (Nudecri), na mesma universidade. Sobretudo, somos amigos há muitos anos, com uma amizade que passa do existencial para o intelectual e para o institucional. No caso, se diz também no poético.

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