Entrevistas

René Thiollier: o modernista redescoberto

Por: Renata de Albuquerque

“Macunaíma”

Os participantes da Semana de Arte Moderna de 1922 estão presente no currículo escolar brasileiro há décadas. Obras como Macunaíma e Serafim Ponte Grande têm espaço garantido nos vestibulares do país inteiro. Mário de Andrade e Oswald de Andrade são figuras bem conhecidas do grande público. Mas, quando se fala sobre René Thiollier, poucos sabem de quem se trata.

 

O rapaz de origem francesa esteve na Semana de 1922 e acompanhou Mário e Oswald na viagem de “redescoberta do Brasil” às cidades históricas de Minas Gerais, em 1924. Mas as referências ao advogado (formado em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco em 1906) e jornalista, responsável pelo aluguel do Teatro Municipal de São Paulo durante a Semana de 22, são escassas.

Valter Pinheiro fotografado por Diego Souza

Em René Thiollier – Obra e Vida do Grão-Senhor da Villa Fortunata e da Academia Paulista de Letras, o professor do Departamento de Letras Estrangeiras da Universidade Federal de Sergipe, Valter Cesar Pinheiro faz um perfil biográfico dessa figura histórica. O livro, recém-lançado, foi originalmente apresentado como Tese de Doutorado ao Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo em 2014. A seguir, Valter Cesar Pinheiro fala sobre sua pesquisa ao Blog da Ateliê.

 

Por que a figura de René Thiollier é tão pouco conhecida?

Valter Cesar Pinheiro: Conquanto não tenha sido esta a questão central de minha pesquisa, no livro que se apresenta são elencadas razões que talvez justifiquem esse desconhecimento (e alheamento por parte da crítica), dentre as quais destacaria a não reedição de seus livros (que se tornaram, por conseguinte, raros), a ruptura do autor, na década de 1950, com a Academia Paulista de Letras, e o seu conservadorismo (estético, pois passa ao largo dos cânones modernistas cultuados na época em que publicou seus principais títulos, e político, com seu antigetulismo exacerbado).

 

René Thiollier fotografado por Gregori Warchavchik

Em sua opinião, o fato de René Thiollier ter origem francesa tem alguma ligação com o fato de ser um “elo esquecido” da Semana de Arte Moderna?

VCP: A origem francesa de René Thiollier não me parece servir de justificativa para o esquecimento a que foi relegado o autor se se observa que vários partícipes da Semana, de origem estrangeira ou não, chegaram até a escrever – e publicar – em língua francesa, como Sérgio Milliet (que então assinava “Serge Milliet”), Guilherme de Almeida e Oswald de Andrade. Além disso, vários estrangeiros integraram com destaque o grupo (dentre os quais o italiano Victor Brecheret).

As referências a Thiollier na correspondência mariodeandradiana e nos escritos oswaldianos são modestas. Thiollier era brasileiro, morava em São Paulo – tendo exercido na capital um importante papel como “agitador cultural” (notadamente como secretário geral da Academia Paulista de Letras) – e escrevia em português. Não era, portanto, um estrangeiro no grupo. Não ao pé da letra: o que o distinguia (e o teria afastado dos demais) eram seus valores estéticos.

 

Como René Thiollier integrou-se ao grupo modernista? Quais as principais contribuições dele ao movimento?

VCP: Foi por meio de Paulo Prado que René Thiollier conheceu o grupo que se destacaria no evento realizado no Teatro Municipal de São Paulo. Foi Thiollier, aliás, o responsável pelo aluguel do teatro e teve função de destaque na Academia Paulista de Letras (sendo o fundador – e o primeiro diretor – da revista do sodalício).

Da lavra de Thiollier sobressaem, em relação à história do Modernismo Brasileiro, os testemunhos sobre a Semana de 22 (A Semana de Arte Moderna: depoimento inédito de 1922) e a viagem a Minas (“De São Paulo a São João del-Rei”, em O homem da galeria). Além de seu já mencionado importante papel junto à Academia Paulista de Letras, Thiollier destacou-se como sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Comédia e do Instituto da Ordem dos Advogados de São Paulo e como membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Associação Paulista de Imprensa.

Pode, por favor, explicar o título do livro?

VCP: Thiollier distinguia-se, segundo a quase unanimidade dos registros encontrados sobre ele, pelo porte aristocrático. Servi-me, ao compor o título do livro, do epíteto que lhe cunhara João de Scantimburgo (Memórias da Pensão Humaitá), amigo da APL e igualmente frequentador dos nababescos almoços oferecidos por Yan de Almeida Prado em seu solar da Rua Humaitá. Tal qual Yan, aliás, Thiollier também era um grande anfitrião. Seu palacete na Avenida Paulista, a Villa Fortunata, ficava no terreno em que hoje se situa o Parque Mário Covas.

 

Do ponto de vista literário, ele é um autor que merece ser conhecido? Por quê?

VCP: Sem sombra de dúvida. Já há alguns bons anos que a crítica tem reavaliado a importância (e o valor estético, por assim dizer) daquilo que ficou conhecido como “Pré-Modernismo”. Por muito tempo, falou-se muito de ruptura, mas pouquíssimo de permanência! A subsistência da estética naturalista na literatura brasileira é algo que merece ser investigado, e a obra de ficção de Thiollier pode contribuir para essa discussão. Em relação à temática, Thiollier deixa um considerável registro do getulismo sob o prisma da aristocracia paulista, assunto inesgotável e de interesse permanente. Eu recomendaria o segundo livro de contos do autor: A Louca do Juqueri.

Mario Pedrosa, política e arte

Por: Renata de Albuquerque

Quando se fala em Mario Pedrosa, o que primeiro se pensa é no renomado crítico de arte, com extensa obra no meio e passagem por museus e bienais no Brasil e ao redor do mundo. Mas em Pas de Politique Mariô! – Mario Pedrosa e a Política, o foco é a atuação política dessa importante figura brasileira. A obra de Dainis Karepovs –  doutor em História pela FFLCH-USP, pós-doutor em História pelo IFCH-UNICAMP e autor de A classe operária vai ao Parlamento (São Paulo: Alameda, 2006) e Luta subterrânea (São Paulo: Ed. UNESP; Hucitec, 2003) – é uma exposição concisa e coesa dos fios que ligam todas as suas transformações e guinadas de pensamento e atuação de Pedrosa, que aderiu ao comunismo em 1920 e foi o filiado número 1 do Partido dos Trabalhadores, quando de sua fundação.  A seguir, Dainis Karepovs fala ao Blog da Ateliê:

Dainis Karepovs

Como surgiu a ideia desse livro?

Esse livro tem duas origens. A primeira já vem de longe, dos anos 1980. Trata-se de um projeto de história sobre o movimento dos trabalhadores brasileiros iniciado no âmbito do Centro de Documentação do Movimento Operário Mario Pedrosa – CEMAP e que depois prosseguiu, de modo pessoal, abrigado na universidade (Universidade de São Paulo e Universidade de Campinas). Este projeto, que ainda prossegue, é focado no estudo da atuação da esquerda brasileira de origem marxista, incluindo-se aí a de origem trotskista, à qual Mario Pedrosa se filiou até 1940 e da qual foi o introdutor em terras brasileiras, já no final dos anos 1920. Tal atividade gerou diversos resultados: um arquivo (o CEMAP), livros, artigos, no Brasil e no exterior,  e exposições.

A segunda vertente tem um caráter mais prosaico e episódico, mas foi onde Pas de Politique Mariô! se materializou. No final de 2012 fui convidado, por conta desse trabalho em que estou envolvido, pela finada editora Cosac Naify, juntamente com Isabel Loureiro, para participar do projeto de publicação das obras de Mário Pedrosa, mais especificamente da parte sobre política. Prevista, a parte política, para ser publicada em dois volumes, dos quais um chegou a ser inteiramente organizado, ela não chegou a termo, pois, como se sabe, a referida editora encerrou suas atividades no final de 2015. Para este primeiro volume redigi inicialmente o Pas de Politique Mariô!, o qual, por sua extensa dimensão, acabou sendo substituído por outro texto de menor tamanho. Mas, enfim, o falecimento da casa publicadora fez com que, tanto o volume já organizado, bem como nenhum dos dois textos acima mencionados acabasse aproveitado. Por outro lado, não fazia mais sentido algum deixar de lado – embora desde sua substituição já se houvesse definido que Pas de Politique Mariô! teria vida própria – todo o trabalho realizado e saí à busca de uma casa editora para sua publicação. De imediato a Ateliê aceitou publicá-lo e, pouco depois, ainda em 2016, se concretizou uma parceria com a Editora da Fundação Perseu Abramo para uma coedição e agora em 2017 ele sai publicado.

 

Por que colocar luz na “parte política” da biografia de uma figura reconhecida por sua importância nas artes?

Mario Pedrosa é, reconhecidamente, um dos maiores expoentes da crítica de arte no Brasil e foi ele quem lhe deu o estatuto de respeitabilidade e seriedade que hoje goza, deixando de lado o caráter superficial e “impressionista” que existia quando Pedrosa passou a exercê-la, em meados dos anos 1940. No entanto, jamais pusera ele de lado a sua militância política, que vinha de meados dos anos 1920. Por uma série de circunstâncias sua atividade em torno da crítica artística se sobrepôs à política. Não por vontade própria, já que Pedrosa sempre enfatizou que ambas conviviam de modo pacífico e independentes uma da outra. Certamente, escapando da própria vontade, a sua militância política foi tratada de modo acessório, sobretudo pela defesa das ideias de Karl Marx e de alguns de seus herdeiros, em especial Leon Trotsky e Rosa Luxemburgo. Isso era, e ainda é, algo para o qual o reacionário mainstream cultural do Brasil nunca manifestou a menor aceitação e tolerância. Assim, os perfis biográficos de Mario Pedrosa enfatizam sua trajetória como crítico de arte e deixam à política um par de parágrafos. Neles se realça sua ligação com o marxismo, reduzida apenas à sua trajetória como trotskista nos anos 1930, e depois são destacadas apenas a Vanguarda Socialista, um jornal por ele dirigido em meados dos anos 1940, e sua condição de fundador e filiado número 1 do Partido dos Trabalhadores. Francamente, é muito pouco para quem atuou sob a bandeira do marxismo por quase seis décadas e em posições e condições de destaque, ressalte-se isto para que não se crie a possibilidade sequer de uma relação idílica e distanciada de Pedrosa com as ideias de Marx! Por isso, me pareceu extremamente relevante preencher esta lacuna e mostrar esse aspecto da vida de Pedrosa, o qual, durante toda a sua vida, jamais ocultou. Muito pelo contrário. Evidentemente, a par disso, que Mario Pedrosa ainda venha a ter uma biografia que conjugue arte e política. De todo o modo eu penso que Pas de Politique Mariô! pavimenta com solidez um caminho nessa direção.

Quais fontes de pesquisa e que material utilizou na edição?

Há uma vasta documentação, preservada em grande parte no Centro de Documentação do Movimento Operário Mario Pedrosa – CEMAP e que a ele foi doada pela companheira de Mario Pedrosa, Mary Houston Pedrosa, e por seu “secretário”, Darle da Silva Lara. Além disso, há também a importante documentação de Livio Barreto Xavier, grande companheiro de ideias e ideais de Pedrosa. Aliás, ambos, por uma dessas extraordinárias coincidências da vida, nasceram no mesmo dia, mês e ano: 25 de abril de 1900, apenas que Pedrosa nasceu em Pernambuco e Xavier nasceu no Ceará. Esta documentação e o acervo de Pedrosa no CEMAP estão preservados e disponíveis à pesquisa no mesmo lugar em São Paulo, o Centro de Documentação e Memória da UNESP – CEDEM. Além disso, me vali também do enorme conjunto de periódicos disponibilizado pela Biblioteca Nacional. Também é importante ressaltar a existência de um significativo número de fontes que encontrei na Biblioteca do Congresso estadunidense, em Washington e  no Centro de Documentação e Informação do O Globo – CDI. Além disso, me vali da convivência que tive com contemporâneos de Mario Pedrosa para a localização e identificação de documentação e a compreensão de uma série de episódios que tratei em Pas de Politique Mariô!. Devo ressaltar, em primeiro lugar, Fulvio Abramo, jornalista que conviveu com Pedrosa desde os anos 1930, e a quem devo parte significativa de minha educação (não aquela dos bancos escolares, mas a humana). Além disso, a convivência com outras personalidades, como Plinio Gomes de Mello, Edmundo Moniz, Hilcar Leite e Livio Barreto Xavier, permitiram-me também compreender a amplitude da figura de Pedrosa.

 

De alguma maneira a crítica de arte influenciou as ideias políticas de Pedrosa?

Maria Pedrosa, sempre que perguntado a este respeito, afirmava: “Sempre convivi muito bem com a política e as artes. Nunca misturei setores”. Para que não pairassem dúvidas, Pedrosa, além disso, sempre foi enfático ao deixar clara a sua postura em não ver a arte e a política como irreconciliáveis: “Ser revolucionário é a profissão natural de um intelectual”. Além disso, Pedrosa cunhou uma frase que sintetizava o seu pensamento sobre a arte: “A arte é o exercício experimental da liberdade”.

Mas, embora eu não tenha tratado especificamente de sua trajetória como crítico de arte e de suas convicções no campo artístico em minha obra, é inegável que há uma influência mútua entre arte e política. No entanto, é bom que isto fique claro, Pedrosa sempre deixou claro que elas deveriam conviver em harmonia, não se sobrepondo uma à outra. Para ele, o ser humano ideal e completo era aquele capaz de lutar por um novo mundo, equânime e sem exploração do homem pelo homem, e deter a capacidade de fruir da cultura em seu mais amplo espectro, arte inclusive, sendo tal capacidade propiciada através de uma formação moldada em uma educação igualitária e humanista. Pedrosa, a esse respeito, sempre foi muito claro e sua reação adversa ao chamado “realismo socialista”, uma forma dirigida e utilitária de “cultura artística”, era a prova mais evidente de sua concepção libertária de arte.

 

Em tempos de debates e embates tão violentos, não seria mais natural “separar” os temas para “preservar” a imagem do crítico de arte?

Pelo contrário. Trata-se de um momento propício e adequado. Hoje, quando se criou a aparência de vitória de uma ideologia retrógrada, um pensamento único, intolerante e xenofóbico, evidenciar a atuação política de alguém que jamais abriu mão de sua crença no socialismo e na igualdade entre os homens é algo mais do que necessário. No Brasil, do mesmo modo, o caminho que foi construído para o golpe jurídico-parlamentar de 2016 deixou no país um rastro de ódio e intolerância, fomentado, em especial, pela chamada mídia. Quando se assiste ao espetáculo degradante no qual o Brasil e o mundo se debatem hoje em dia é evidente a necessidade de o planeta se insurgir contra esse estado de coisas e lutar pela defesa de uma política humanista e igualitária. Ver tais valores, encarnados na figura de Mario Pedrosa, é, indubitavelmente, um dos caminhos da recuperação da humanidade frente à degradação em que se vê jogada neste início de século XXI. Muitos se perguntam se Mario Pedrosa estivesse vivo hoje, o que ele faria neste nosso mundo. Não tenho dúvidas que, além da permanente defesa de seus ideais socialistas, ele estaria na vanguarda de um movimento pela regulamentação e a democratização da mídia.

 

Mario Pedrosa (década de 1920)

Quais as contribuições de Mario Pedrosa para o debate político do século XX?

Sem dúvida elas estão tanto em importantes textos para a compreensão política e social do Brasil, mais especificamente os ensaios “Esboço de análise da situação brasileira” (este escrito em parceria com Livio Barreto Xavier), “A situação nacional” e os livros A Opção Brasileira e A crise mundial do imperialismo e Rosa Luxemburgo, bem como em sua atuação como dirigente político das correntes trotskista e socialista, ao longo dos anos que vão de 1930 a 1950, além de sua atividade como comentarista político nos principais jornais brasileiros. Afora isso, como se diz – como blague – que o comunismo chegou antes do marxismo no Brasil, é de grande relevo destacar o importante papel na educação e formação de uma cultura marxista por aqui para a qual Pedrosa jogou um relevante papel, em especial por sua atuação e projetos desenvolvidos na editora Unitas, nos anos 1930, e pelas páginas do semanário Vanguarda Socialista, nos anos 1940, no qual publicou uma infinidade de textos a este respeito. Todo este conjunto de fontes, aliás, está referenciado nos anexos de Pas de Politique Mariô!.

 

O que os leitores brasileiros do século XXI podem aproveitar do legado desse grande intelectual?

Além dos seus trabalhos sobre arte, reunidos nos quatro volumes de Textos Escolhidos, publicados pela Editora da Universidade de São Paulo entre 1995 e 2000, organizados e selecionados pela professora Otília Arantes, alguns dos textos de política de Pedrosa estão publicados em uma coletânea que organizei com Fulvio Abramo e que recentemente teve uma segunda edição revista e ampliada (Na contracorrente da história. São Paulo: Sundermann, 2015) e os demais, infelizmente, somente podem ser encontrados em sebos ou arquivos, neste caso, especialmente no CEMAP. Os textos políticos, reitero, estão referenciados nos anexos de Pas de Politique Mariô!. O conjunto da obra de Pedrosa permite uma visão ainda acurada e muito atual sobre a formação e a consolidação do Brasil, afora o contato com uma personagem encantadora e entusiasmada, especialmente pela transformação do Brasil.

“Temos que redimensionar o papel de Lima Barreto na literatura brasileira”, diz pesquisador

Por Renata de Albuquerque

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá é um caso raro na literatura brasileira. Apesar de escrito por um dos mais importantes autores nacionais, é um livro pouco lido, pouco conhecido, pouco estudado e pouco editado. No ano em que Lima Barreto é escolhido o autor homenageado da FLIP – Festa Literária de Paraty – a Ateliê Editorial repara este equívoco e lança, em uma edição especial, o romance.

O volume é organizado por Marcos Scheffel, professor da UFRJ, que fala a seguir sobre este livro ainda obscuro de Lima Barreto:

Marcos Scheffel

O que o levou a estudar esta obra, que, ao contrário de outras de Lima Barreto, ainda é praticamente desconhecida do público?

Marcos Scheffel: Em 2005, ingressei no mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina sob orientação da professora Helena Fava Tornquist. No mestrado, meu trabalho estava focado no Recordações do Escrivão Isaías Caminhas e nas anotações da intimidade de Lima Barreto. Foi ali que conheci mais de perto o Vida e Morte, vindo a descobrir que os dois romances (Vida e Morte e Recordações) tinham sido idealizados pelo autor num período semelhante. Quando ingressei no doutorado, em 2007, comecei a perceber as relações do Vida e Morte com as crônicas de Lima Barreto, que ganharam maior visibilidade a partir do livro Toda Crônica de Lima Barreto, organizado por Beatriz Resende e Rachel Valença. Além da qualidade estética, acredito que o fator determinante para escrever sobre o Vida e Morte – que resultou na tese Estações de passagem da ficção de Lima Barreto (UFSC, 2011) – foi justamente a menor incidência de estudos a respeito deste romance, que normalmente era citado de maneira vaga.

 

A demora em publicar o livro leva a crer que Lima Barreto pode ter reescrito vários trechos. Há registros desse processo?  Se sim, o que se pode apreender do que apontam as alterações?

MS: Há uma série de apontamentos sobre o romance que foram colocados por Francisco de Assis Barbosa no Diário Íntimo de Lima Barreto no ano de 1906. No entanto, essa data pode ser imprecisa, pois, como explica o biógrafo, foi baseado no texto “Explicação necessária”, em que o personagem narrador Augusto Machado explica os motivos que levaram a escrita do livro, que esse conjunto de anotações foi posto neste ano. Acredito que estes apontamentos sejam deste período ou de um período próximo. Isso pode ser comprovado por uma crônica publicada na Revista Fon-Fon em abril de 1907 e recentemente descoberta pelo pesquisador Felipe Botelho Corrêa. A crônica é na verdade o que viria a ser o terceiro capítulo do romance, intitulado Emblemas Públicos, com pequenos acréscimos. Além desse aproveitamento, há temas e técnicas comuns a produção do cronista Lima Barreto.

No texto de abertura da edição da Ateliê, algumas razões para que o livro não se tornasse tão conhecido são elencadas. Para quem ainda não teve acesso a esta edição, o que se poderia destacar a respeito? Por que esse texto se manteve quase desconhecido ao longo do século XX, mesmo depois da morte do autor?

MS: Este romance foi publicado pela primeira vez em 1919 pela Revista Brasileira sob a direção de Monteiro Lobato, que nutria grande admiração pelo autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma. Apesar de ter recebido uma prêmio da Academia Brasileira de Letras, o romance encalhou. Para Lobato, os motivos desse encalhe teriam sido o título longo pouco atrativo e a percepção

dos leitores que se trataria da biografia de algum desconhecido. A partir dos anos 40, Vida e Morte ganha novas edições como a da Mérito (1943), com um belo prefácio de Paulo Rónai, e da Brasilense (1956) nas obras completas. Essas edições eram acompanhadas de uma série de contos – muito provavelmente por conta do tamanho do romance, que no caso da edição da Brasilense fugiria aos padrões dos demais volumes (tratava-se de padronização do formato, mas que trazia a ideia que o romance em si não bastava). No correr das décadas seguintes, Vida e Morte não mereceu tanta atenção da crítica, dos leitores e do mercado editorial – gerando uma espécie de ciclo de esquecimento. Espero que a partir desta edição possamos ver novos estudos sobre esta importante obra.

Lima Barreto, homenageado na FLIP 2017

Lima Barreto é um escritor que imprime em sua obra uma forte crítica ao seu tempo. Em “Vida e Morte…” temos um narrador mulato. Como isso ecoa na obra?

MS: No ensaio “Os olhos, a barca e o espelho”, Antonio Candido afirmava que Lima Barreto teria uma grande capacidade de criação quando queria apenas registrar (citando um exemplo do Diário Íntimo) e por outro lado quando queria “criar” via sua obra invadida por dados pessoais e por um engajamento demasiado. Uma objeção que faria a essa observação é que o Diário Íntimo é na verdade um livro montado / organizado depois da morte de Lima Barreto com apontamentos que o autor fazia com um nítido propósito ficcional, ou seja, há muito pouco de Diário ali, de registro das pequenas coisas do cotidiano.  Na minha percepção os romances de Lima Barreto sempre trazem essa perspectiva subjetiva que era uma marca da escrita dele, que pode ser percebida inclusive nas suas crônicas que são marcadas por um registro poético do cotidiano e por um desejo de diálogo e de ação na cena pública. A denúncia ao preconceito racial surgiu como uma necessidade de expressão de algo vivenciado por ele de uma maneira dramática.

 

Para o leitor do século XIX, que interesse “Vida e Morte…” pode despertar? Que questões ainda atuais o livro carrega?

MS: São muitas questões atuais, como a crítica à burocracia e ao uso da coisa pública em favor próprio

 

(no caso as críticas que são feitas ao Barão do Rio Branco). Tendo trabalhado muitos anos como amanuense, Lima Barreto pode observar as coisas mais antirrepublicanas que aconteciam na República e nunca deixou de denunciá-las.

 

Lima Barreto é um autor cujas obras têm um cunho político e filosófico/ideológico bastante acentuado. O que há em “Vida e Morte…”, sob este aspecto, que pode ser destacado?

MS: Lima Barreto apresenta no livro uma visão histórica que se opunha à visão Positivista (teleológica) que predominava em nosso meio intelectual. Quando havia um coro favorável a se soterrar nosso passado colonial, ele trazia uma noção relativa do belo e de uma história que não devia ser lida de maneira linear.  Aqueles prédios que eram considerados “feios” no início do século XX e que deveriam ser derrubados para modernização da cidade traziam um registro de outras épocas, de outras formas de ver o mundo. Nesse sentido, um dos trechos mais bonitos do livro é quando Gonzaga de Sá apresenta sua visão da história da cidade, uma visão que pressupõe o entrecruzamento de diferentes tempos que podiam ser percebidos numa caminhada ou num passeio de trem.

 

Quais inovações estéticas o livro traz?

MS: O romance praticamente não tem enredo, como observou Paulo Rónai. O enredo consiste basicamente nos diálogos entre Gonzaga de Sá e Augusto Machado (que relembra essas conversas com o velho funcionário público). Nesse sentido, temos um livro composto em quadros, com tomadas quase cinematográficas, como por exemplo, a cena em que o caixão de um personagem é transportado no trem da central do Brasil num domingo de sol em que as famílias saíam para passear. Tudo é visto da janela do trem e do bonde dando uma impressão cinematográfica. É um romance visual, imagético e marcado por percepções líricas do cotidiano. Isto era bastante inovador se pensarmos que foi um romance escrito em 1919 – três anos antes da Semana de Arte Moderna.

 

Lima Barreto é o homenageado da FLIP deste ano. Qual a importância de editar “Vida e Morte…” neste contexto?

MS: Um evento como a FLIP traz uma grande visibilidade para o autor homenageado. Há um movimento importante do mercado editorial com o lançamento de novas edições e estudos sobre o autor. Para aqueles que não conhecem o autor, é a oportunidade de travar um primeiro contato. Para os que já admiram a obra de Lima Barreto será um momento de atualizar os debates em torno de sua obra. Estou muito ansioso para ver todas as discussões que surgirão a partir da FLIP.

 

O que há, ainda, para ser (re)descoberto sobre a obra de Lima Barreto?

MS: Há muitas pesquisas ligadas a arquivos. Destaco por exemplo o trabalho da professora Carmem Negreiros (UERJ) em torno de uma série de recortes de jornais colecionados por Lima Barreto e com anotações pessoais às margens desses recortes. Também é necessário entender a ligação de Lima Barreto com os jornais e revistas onde publicou suas crônicas no sentido de termos uma clareza maior sobre a orientação dessas publicações (para que público se dirigiam, periodicidade, tiragens, posicionamentos ideológicos etc). Por fim, acho que temos que redimensionar o papel de Lima Barreto na literatura brasileira dando maior relevo ao seu projeto estético e ao fato de ter produzido uma obra significativa apesar de sua morte precoce aos 41 anos de idade.

A Questão da Ideologia no Círculo de Bakhtin

Por Renata de Albuquerque

 

O intelectual russo Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895-1975) é uma das mais importantes referências de análise do discurso em termos linguagem e literatura, tendo estudado noções, conceitos e categorias de análise da linguagem com base em discursos cotidianos, artísticos, filosóficos, científicos e institucionais.  O  chamado Círculo de Bakhtin é grupo multidisciplinar de intelectuais russos, que incluía, além de Bakhtin, Voloshinov e Medvedev. Eles se reuniram regularmente entre 1919 e 1929 e uma de suas mais importantes contribuições às ciências humanas foi foi enxergar a linguagem como um constante processo de interação mediado pelo diálogo – e não apenas como um sistema autônomo. Em A Questão da Ideologia no Círculo de Bakhtin, Luiz Rosalvo Costa organiza sua pesquisa em dois eixos centrais: a  compreensão de que a produção sígnica (verbal e não-verbal) é o lugar de materialização das relações entre as determinações do sistema econômico e as formas de significar e atribuir sentidos à realidade; e a análise da divulgação científica como um campo privilegiado de reflexo e refração do conjunto de transformações pelos quais passa o sistema produtivo e a sociedade de um modo geral. A seguir, o  mestre e doutor em Letras (Filologia e Língua Portuguesa) pela USP, onde atualmente realiza estágio de pós-doutorado. Integra o grupo de pesquisa Diálogo, fala sobre seu livro recém-lançado:

O que o motivou a estudar Bakhtin com o recorte feito em sua tese?

Luiz Rosalvo Costa: A minha pesquisa de doutorado, na verdade, é um desdobramento do estudo que realizei no mestrado, que também foi sobre o discurso da SBPC e também utilizou como base teórica o Círculo de Bakhtin. O doutorado foi, então, uma oportunidade para aprofundar um pouco mais o conhecimento sobre a concepção de linguagem desenvolvida por esse grupo de estudiosos russos. E este é um ponto crucial: embora a recepção ocidental da obra tenha transformado Bakhtin no centro dessa produção intelectual cujas bases se desenvolveram nas décadas iniciais do século XX na Rússia/União Soviética, estudos mais recentes vêm dando conta de que na realidade as coisas talvez não fossem bem assim, e que, no tocante à reflexão sobre a linguagem, havia no grupo dois outros intelectuais tão ou mais importantes que Bakhtin: Valentin Volóchinov e Pável Medviédev. Então essa foi uma das grandes motivações do meu estudo: conhecer um pouco mais sobre a relação entre os trabalhos desses três autores e, ao mesmo tempo, sobre o modo como esses trabalhos se articulavam em uma concepção de linguagem de fundo comum.

 

Por que a escolha de debruçar-se sobre os enunciados da Revista Ciência Hoje?

LRC: Neste caso também se trata de um desdobramento do estudo realizado no mestrado, que tinha se voltado para o discurso da SBPC materializado nos editoriais da revista Ciência Hoje na década de 1980. Esse estudo (do mestrado) mostrou que a revista Ciência Hoje (por sua linha editorial, concepção gráfica, espectro de temas e assuntos e, em especial, por seus editoriais) constituiu-se em um dos principais instrumentos de que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a SBPC, lançou mão para participar ativamente do debate que naquele período se desenrolava no País sobre a necessidade e os rumos da chamada redemocratização. Nessas condições, a atuação da revista se caracterizou (e os seus editoriais evidenciavam isso exemplarmente) por uma forte politização e uma considerável retorização, traduzidas, entre outras coisas, pela utilização de procedimentos estéticos e discursivos que tinham como propósito defender uma determinada concepção de sociedade e de política. Então a ideia no estudo de doutorado foi voltar à revista em um outro período, a fim de verificar se e de que maneira grandes transformações ocorridas nas últimas décadas se refletiam e se refratavam em suas concepções e práticas.

Que desafios encontrou durante esse percurso de estudos?

LRC: Penso que o principal desafio (e talvez fosse mais apropriado dizer ‘o principal problema’) foi o acesso ao material necessário para fazer a pesquisa, e aqui me refiro especialmente à bibliografia do próprio Círculo de Bakhtin e à bibliografia sobre o Círculo de Bakhtin. Apesar de todos os avanços e ‘facilidades’ decorrentes do desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação e de informação, enfrentei algumas dificuldades no acesso a certos textos com os quais precisava trabalhar. Só para exemplificar: há um texto de Bakhtin chamado Problemas da obra de Dostoiévski, que foi publicado na URSS em 1929. Muitos anos depois, em 1963, foi publicada uma nova versão (revisada, modificada) desse texto sob o título de Problemas da poética de Dostoiévski. A despeito de tudo o que possam ter em comum, os livros não são a mesma coisa. São, no mínimo, duas versões diferentes, produzidas em momentos diferentes, em diálogo com circunstâncias e realidades histórico-sociais diferentes etc etc. Ocorre que no mundo ocidental o livro que acabou ganhando proeminência foi o de 1963, o que é demonstrado, por exemplo, pelo fato de apenas essa versão ter sido traduzida para o português, o inglês, o espanhol e o francês. Como trabalhei com as traduções, tive que sair buscando alternativas quanto a isso, porque era fundamental fazer uma discussão sobre a primeira versão do livro, publicada por Bakhtin em 1929. Questões centrais (por exemplo: a relação de Bakhtin com o marxismo, a articulação do seu trabalho com os trabalhos de Medviédev e Volóchinov etc.) não poderiam ser adequadamente abordadas sem o recurso a esse texto. Afinal, acabei encontrando uma tradução para o italiano (em uma ótima edição, aliás) e foi com ela que pude, então, comparar as duas versões do livro.

Felizmente para os pesquisadores brasileiros atuais que não trabalham diretamente com o original em russo, há uma boa notícia. Informações dão conta de que uma tradução do livro de 1929, feita diretamente do russo, está sendo preparada. Vamos aguardar.

 

A questão da presença do marxismo em Bakhtin é bastante polêmica. Como, em sua tese, lidou com este aspecto teórico? De que maneira isso interferiu na sua análise?

LRC: Essa é realmente uma questão difícil e foi justamente um dos pontos tratados na tese. De modo geral, as posições dos comentaristas e estudiosos do Círculo situam-se entre dois extremos. Em um deles, caracteriza-se Bakhtin como um marxista. No outro, ele é qualificado como um antimarxista radical. A posição que defendi na tese e que, creio, pode ser demonstrada pela leitura dos textos do Círculo é que Bakhtin nem era marxista nem antimarxista. Era, sim, um estudioso e um pesquisador que teve com o marxismo uma relação ambígua. Por um lado, ele próprio chegou a declarar que nunca foi marxista e que, portanto, o marxismo não era uma das suas referências teóricas fundamentais. Por outro lado, há várias passagens e formulações em seus textos que estão claramente em diálogo (para dizer o mínimo) com proposições marxistas. Uma das coisas que se pode dizer sobre isso é que, mesmo não tendo o marxismo como sua principal referência teórica, não seria possível a Bakhtin ficar imune à presença dessa corrente teórica, dado que o marxismo em grande medida hegemonizou (primeiro como teoria revolucionária e depois, na versão stalinista, como uma espécie de corruptela transmutada em pensamento oficial do Estado) o ambiente intelectual em que Bakhtin produziu a sua obra. É importante dizer, no entanto, que se em relação a Bakhtin existe essa ambiguidade, o mesmo não ocorre com Volóchinov e Medviédev, que tinham na vida institucional soviética uma atuação muito mais expressiva que Bakhtin, e cujos textos se apresentavam como orientados diretamente por uma epistemologia marxista.

 

É possível perceber uma mudança no discurso de divulgação científica durante o período estudado? De que maneira essa mudança aconteceu? Que direção esse discurso tomou?

LRC: Sim, minha tese propõe exatamente uma leitura no sentido de que, durante a década de 1980, sob os influxos, condicionamentos e determinações da realidade histórico-social daquela época, o discurso de divulgação científica da SBPC na revista Ciência Hoje, inscrito em um projeto modernista de atuação, era marcado pela politização e pela retorização. Um dos efeitos disso é que o discurso da revista nesse período, materializado nos seus diversos enunciados,  era atravessado por posições associadas a matrizes ideológicas presentes na sociedade, que debatiam sobre os rumos do país, o estatuto das relações entre Estado e sociedade civil, o papel da ciência e dos cientistas na vida social etc. Nas décadas de 1990 e 2000 esse quadro muda um pouco e o discurso da revista passa aos poucos a assumir uma certa despolitização, traço refletido também nos seus editoriais, cujas mudanças vão no sentido de torná-los menos uma afirmação do ponto de vista da revista e mais uma apresentação neutra do conteúdo da edição.

Arabia Brasilica: o fio da memória costurado por Raduan Nassar, Milton Hatoum e Salim Miguel

Por: Renata de Albuquerque

Sem ter formação arabista, o italiano Alberto Sismondini, nascido em Ventimiglia, aproximou-se da cultura do Oriente fazendo um movimento parecido que o levara, na juventude, a aproximar-se da França, país fronteiriço à sua cidade natal. “Para ter a percepção de não estar a apodrecer no recanto mais recôndito da província italiana, era preciso ser bilíngue”, afirma. Foi por sentir falta de estar próximo de uma cultura “tão importante quanto a francesa” e por ler a literatura de autores libaneses francófonos que fez contato mais próximo com a cultura árabe.

Esta familiaridade o levou a conhecer a literatura de autores como Salim Miguel, Raduan Nassar e Milton Hatoum, que se tornaram seu objeto de estudo no livro Arabia Brasilica. A seguir, Alberto Sismondini, que é Mestre e Doutor em Literatura Comparada e Tradução Literária pela Universidade de Siena, subdiretor do Centro de Línguas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Membro do Centro de Literatura Portuguesa da mesma Universidade desde 2006, fala sobre sua obra:

 

Alberto Sismondini

O que despertou seu interesse no estudo da cultura árabe?

Alberto Sismondini: Não tenho uma formação de arabista. De alguma forma, quando já vivia em Coimbra, estava a ressacar  com a falta de uma cultura de proximidade tão importante como a francesa. Gosto do francês e  das marcas da cultura francesa impressas no imaginário colectivo global, daqueles signos que Annie Ernaux aproveita nas suas narrativas, tal como uma ferramenta para revigorar a memória dos leitores e desta forma criar uma atmosfera empática de partilha de eventos. Acho que a literatura francesa viveu uma fase de franca popularidade ao virar do século, melhor dizer, do milénio, como puderam testemunhar as recentes atribuições do prémio Nobel a Le Clézio, a Patrick Modiano, além do naturalizado francês Gao Xingjian. Em Itália e Portugal, autores como Daniel Pennac, Muriel Barbery e Amélie Nothomb vendem bem.  Pela prática do francês, isto é ler livros de autores francófonos, conheci os trabalhos de Amin Maalouf, Sélim Nassib e, a seguir, os de Farjallah Haïk, autores libaneses que escolheram o francês como língua de comunicação literária. Nessa altura lia os trabalhos de Yasmina Traboulsi publicados pela «Mercure de France».Pois, o Líbano é considerado em França um país importante, o filho varão da francofonia; os jovens libaneses desde sempre eram considerados campeões em «dictée» , o ditado francês, um autêntico rito de passagem na aprendizagem da língua. Conhecia o Líbano como importante centro editorial do Oriente Médio. No início, confesso, a aproximação à cultura árabe deu-se pela francofonia. A seguir, veio a leitura morosa das Mil e uma noites na primeira tradução italiana do árabe, coordenada por Francesco Gabrieli, um bem conseguido projecto da editora Einaudi (1948). As Mil e  uma noites representam a meu ver um autêntico tratado de cultura árabe clássica.  Sinto-me também grato para com os colegas  da Universidade de São Paulo que, pelo seus escritos, me iniciaram de forma acádemica,  Safa Jubran, Michel Sleiman e Mamede Jarouche, este último com a sua própria tradução de alto cariz filológico das Mil e uma noites …

O que o levou a estudar a obra de Raduan Nassar, Milton Hatoun e Salim Miguel? Como se deu essa escolha?

AS: Uma autêntica epifania literária: Milton Hatoum apareceu em Coimbra na quarta-feira de cinzas de 1999 a apresentar a edição portuguesa do seu Relato de um certo Oriente. Foi um deslumbramento, o exotismo amazonense sobreposto ao exotismo orientalista,tudo redigido numa língua tão elevada! A seguir, foram publicados em Portugal Lavoura arcaica e Um copo de cólera de Raduan Nassar e Dois irmãos de Milton. Deu vontade para ler mais:relembro também de ter conseguido arranjar em Lisboa um exemplar brasileiro do Menina a caminho.

Enquanto no Brasil se  aproximavam as celebrações dos 500 anos da carta do achamento, surgiu Nur na escuridão de Salim Miguel, fiquei intrigado e avancei para ter mais bibliografia dele… e a consegui ter. Quem muito me apoiou nessa procura foi a docente de Literatura Brasileira  em Coimbra, Maria Aparecida Ribeiro.

Arabia Brasilica reúne três autores cujas escritas são, a princípio, muito singulares. O que os liga ou aproxima em termos literários? Por outro lado, o que os distingue? 

AS: Acho que todos foram grandes consumidores de literatura na fase da sua formação.  Um elo comum a meu ver existe e é representado por um trabalho constante com a memória. Salim exerce o seu magistério de escritor expressando a memória da imigração no país  ou de eventos marcantes da história nacional (p. ex. o Golpe de 1964) com a linguagem polida e eficaz de jornalista. É natural que a história da diáspora libanesa ao Brasil seja por ele celebrada em Nur na escuridão. Em Raduan Nassar , cujo Lavoura arcaica foi traduzido em francês com o título La Maison de la mémoire, tal como em Milton Hatoum a memória passa por um processo de ficcionalização da realidade, aqui vislumbram-se as tais leituras da fase de formação: muitos dos meus “queridos franceses” mas também, para Raduan,  Almeida Faria e a sua A Paixão.    De Salim Miguel é bem salientar o papel importante que ele teve em publicar autores da África lusófona  censurados pela mordaça salazarista e impossibilitados de publicar no seu país.

Qual a importância, em sua opinião, de trazer à tona a cultura árabe dentro do contexto brasileiro?

AS: O Brasil é terra de acolhimento desde sempre, cerca de 7 milhões de Brasileiros têm  ascendentes árabes e certas práticas estão bem disseminadas: se alimentar-se é um acto cultural, então é só consumir uma refeição  a base de quibe e esfirra numa lanchonete qualquer do país e podemos afirmar que  todos  os brasileiros «praticam» a cultura árabe.

O Brasil sempre foi um país com tradição de acolher imigrantes. Atualmente, por conta da grande tensão e das guerras no Oriente Médio, há uma onda de imigração bastante forte de pessoas que fogem de seus países para virem ao Brasil. Em sua opinião, essa receptividade histórica continua viva ou há preconceito contra os recém-chegados? 

AS: Quando se fala de imigração no Brasil, logo penso em Graça Aranha e o seu Canaã, repetidamente citado por Salim Miguel no seu Jornada com Rupert. A dialéctica entre Milkau e Lentz voltou à tona, também no Brasil. Há dois anos, após uma conferência, cujo tema era a imigração italiana em São Paulo, um simpático casal catarinense confessou o seu desassossego em ver grupos  de migrantes económicos haitianos serem deslocados para o sul do Brasil… A migração de grupos coesos pobres que até podem subverter a ordem institucionalizada de um território, cria espanto, o mesmo que o Drummond criança, em Minas,  sentia a ouvir os turcos falar uma língua desconhecida ( que ele chama de «língua-problema») jogando cartas “com alaridos”. Acho seja uma questão antropológica de posse de espaços. A intolerância surge entre quem está incumbido a partilhar espaços com comunidades de estrangeiros recém-chegados, daí as piadas, cultura oral transcrita para folhetins, que no século passado vitimaram no Brasil  carcamanos, turcos, portugas… A alta cultura não tem medo da miscigenação, mas quem faz alta cultura institucionalizada não mora nas favelas, nem nos bairros onde mora o povão…

Ainda há ganhos/trocas culturais novas que podem ser verificadas nesta nova onda de imigração? Quais? 

AS: Acho que sim, muitos dos novos imigrantes vindos do Oriente Médio têm formação secundária o até superior e poderão contribuir a enriquecer a sociedade e a economia brasileiras, com projectos inovadores.

De alguma maneira a literatura pode atenuar as diferenças entre as duas culturas ou, por outro lado, ela as aprofunda? Em outras palavras, os autores estudados pelo senhor são profundamente brasileiros e profundamente árabes ou essas características são excludentes? Como isso acontece?

AS: Estamos a falar de autores profundamente brasileiros. Ninguém dos três  teve ou tem conhecimentos aprofundados da fala árabe. A questão das origens não interferiu com a plena adesão à cidadania brasileira, cujo resultado, a partir da segunda geração de migrantes, é a perda da fala de origem dos antepassados. Isso acontecia no antigamente, agora as novas gerações tenham mais recursos, devido à globalização.  No meu livro apenas defendo a inserção de formas narrativas orientais, de padrões artísticos presentes seja na cultura do Levante  como na dos autores libaneses francófonos analisados  (Maalouf, Nassib, Haïk) em paralelo com os brasileiros.

A arquitetura muito além da invenção de Oscar Niemeyer

Por Renata de Albuquerque

Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer, obra organizada por Ingrid Quintana Guerrero e Paulo Bruna e recém-lançada pela Ateliê Editorial, traz ao público textos com análises sobre pontos da criação do arquiteto carioca que parecem esgotados, mas não estão: sua obra em São Paulo, suas ligações com Le Corbusier, a crítica internacional e a arquitetura religiosa latino-americana. Autor do ensaio “A revisão crítica de Oscar Niemeyer”, que faz parte do livro, o Professor Livre-Docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP) Rodrigo Queiroz fala hoje sobre a contribuição que a obra pode dar ao público:

Qual a importância da publicação de “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer”?

Rodrigo Queiroz: Os quatro ensaios abordam aspectos fundamentais para a devida compreensão da obra de Oscar Niemeyer. Por se tratar de uma obra vastíssima e cercada pela ideia – dada pelo próprio arquiteto – de que “arquitetura é invenção”, a compreensão da dimensão histórica dessa obra tão importante, por vezes, acaba sendo eclipsada pelo mito da criação, da originalidade e da invenção. Na verdade, como qualquer outro grande arquiteto, Niemeyer possui um procedimento de trabalho e uma estratégia projetual que nos permite compreender o pensamento de um dos maiores nomes da arte e da arquitetura moderna.

É evidente que quatro ensaios não têm o objetivo de esgotar um tema que permite infinitas interpretações. Contudo, os ensaios aqui publicados abordam justamente aspectos ainda pouco discutidos sobre Niemeyer e sua obra.

O ensaio assinado pelo Prof. Paulo Bruna, “A obra de Oscar Niemeyer em São Paulo”, como o próprio nome já diz, discorre sobre os projetos de Niemeyer construídos em São Paulo, com destaque para os edifícios de habitação e escritórios localizados na região central da capital paulista. É possível perceber nesses projetos o apuro de Niemeyer na implantação dos edifícios, assim como a precisa relação com o contexto da cidade existente, aspectos pouco abordados nas obras de arquitetos pertencentes ao movimento moderno, invariavelmente lidos pela chave da forma abstrata que se sobrepõe ao contexto, à memória e ao tempo da cidade histórica.

Já Hugo Segawa, em “Entre dois pavilhões: a repercussão internacional de Oscar Niemeyer”, dedica-se à análise do impacto internacional da obra de do arquiteto carioca. Trata-se de uma reflexão importante pois nos permite compreender a recepção do ambiente estrangeiro à obra de Niemeyer, assim como seu reconhecimento internacional como um mito da arquitetura moderna.

Em “O espaço sagrado em Oscar Niemeyer e alguns desdobramentos na América Latina”, Ingrid Quintana Guerrero aborda os templos religiosos projetados por Niemeyer. Se uma das principais premissas da arquitetura moderna foi justamente a negação do caráter simbólico inerente à sua função, é natural imaginar que o tema do templo religioso sempre foi visto como um tabu pelo movimento moderno, principalmente pela sua vertente construtiva. Contudo, no caso das igrejas projetadas por Niemeyer, é possível diagnosticar o diálogo do arquiteto com a história do espaço religioso, seja na Igreja de São Francisco de Assis (1943), na Pampulha, cujas superfícies remetem inequivocamente à arquitetura religiosa colonial e ao Barroco; seja na Catedral Metropolitana de Brasília (1958), onde a cúpula que historicamente iluminou das igrejas, assume a escala da própria catedral; ou como na Capela de Nossa Senhora de Fátima (1958), diálogo franco com a Capela de Ronchamp, um dos mais conhecidos projetos de Le Corbusier, mestre de Oscar Niemeyer.

Laboratório de Ensaios do Centro Técnico da Aeronáutica em São José dos Campos – CTA (1947). Fonte: Hugo Segawa

Meu texto, “A revisão crítica de Oscar Niemeyer”, aborda o período de transição da obra do arquiteto, durante a segunda metade da década de 1950. Trata-se de um momento no qual o arquiteto revê o aspecto compositivo dos seus edifícios e, paulatinamente, substitui as formas carregadas de elementos acessórios por formas simplificadas, cujo contorno, na maioria das vezes, define-se pela própria solução estrutural do projeto.

A obra pode chamar a atenção de leitores não ligados ao universo da arquitetura ou é dedicado apenas a profissionais da área? Por quê?

RQ: Claro que o livro se presta como um importante conteúdo para estudantes, profissionais, docentes e pesquisadores da área da arquitetura e urbanismo. Contudo, por se tratar de um personagem de conhecimento público, e pelos ensaios fugirem, em certa medida, de uma estrutura eminentemente acadêmica, parece natural que o livro desperte o interesse de um público maior que o especializado.

 

Existe uma vasta bibliografia sobre a obra de Niemeyer. De que maneira este livro se diferencia do que já existe no mercado editorial?

RQ: Sim, há uma vasta bibliografia sobre a obra de Oscar Niemeyer. Mas devemos lembrar que a imensa maioria deles é composta por títulos que não têm como objetivo se aprofundar na análise de sua obra. Invariavelmente, são livros de grandes formatos, com ricos ensaios fotográficos, que se enquadram mais na categoria de livros de arte, os conhecidos “coffe table books”. O livro “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer” vem, justamente, conferir conteúdo a um tema ainda muito conhecido e interpretado pela imagem.

 

Ainda há muito a ser estudado sobre Oscar Niemeyer? O que, em sua opinião, ainda merece atenção dos pesquisadores? E de que forma este volume contribui com esta fortuna crítica? 

RQ: Sim, Niemeyer ainda precisa de uma publicação à altura de sua obra. Um livro de maior fôlego, e de perfil quase enciclopédico, uma espécie de “obra completa”. O livro “Quatro Ensaios” é um primeiro passo para a devida e merecida compreensão da obra de um dos principais personagens da história brasileira e da arquitetura moderna.

 

Por que é importante conhecermos mais sobre a trajetória de Oscar Niemeyer?

RQ: Propositalmente, Niemeyer sempre reduziu a importância de suas obras com um discurso surpreendentemente despretensioso. A presença de suas obras no imaginário e no cotidiano do povo brasileiro faz desse arquiteto uma figura singular, sem paralelo entre seus pares, seja no Brasil ou no exterior. Cabe a nós, professores e pesquisadores de sua obra, sistematizar um conhecimento tão rico e vasto e fornecer as informações necessárias à compreensão do maior arquiteto brasileiro.

Os corpos de Joyce

Por Renata de Albuquerque

Em Joyce Era Louco?, o Professor e tradutor Donaldo Schüler discute a criação literária de James Joyce a partir dos ensinamentos de Lacan e das teorias psicanalíticas. Assim, realiza uma análise da escrita de Joyce e das significações que ela sustenta. A seguir, em uma entrevista exclusiva para o Blog da Ateliê, ele fala de seu novo livro:

O título remete a uma citação de Lacan. O senhor pode explicar brevemente ao leitor, que ainda não teve contato com o livro, qual a importância dessa referência, já que tanto para Lacan quanto na obra de Joyce a linguagem é um elemento essencial de (des)construção do sujeito e da literatura (respectivamente)?

Donaldo Schüler: A loucura é a origem, a organização vem depois, são os dois momentos salientados por Nietzsche na Origem da tragédia: Dioniso e Apolo.  Dioniso é embriaguez, a loucura dionisíaca quebra regras, ponto de partida para a  invenção artística. Apolo está ligado ao que Lacan chama “saber fazer”. O saber fazer é animado pela embriaguez originária. A embriaguez, como tema, atravessa a obra de Joyce. Dioniso desconstrói, Apolo reconstrói, duas faces da mesma invenção.

O Professor Donaldo Schüler

Como teve a ideia para o livro Joyce Era Louco?

DS: Primeiro foi a tradução do  “Ulisses”, feita por Antônio Houaiss. Como professor de grego, levei meus alunos a saltar do mundo de Homero para a turbulenta Dublin de princípios do século XX, sacudia pela rebeldia das vanguardas. Apareceram concomitantemente traduções e reflexões dos irmãos Campos. Aconteceu em Paris, nos anos 70 do século passado, um ano inteiro dedicado a Joyce pelo inventivo psicanalista Jacques Lacan. As análises de Lacan foram gravadas em fita e estenografadas. Publicações feitas por sociedades psicanalíticas em vários países, também no Brasil, despertaram interesse.  Em 2005 apareceu a versão autorizada das lições de Lacan com o título “Le Séminaire, livre XXIII”. Solicitações contínuas para destrinchar o enredado texto de Lacan levaram-me a escrever “Joyce era louco?”. O livro confronta o Seminário, livro XXIII de Jacques Lacan com a obra literária  de James Joyce. Lacan focaliza a criação literária. Entra em discussão o corpo, o psicanalista divide o corpo do escritor em duas etapas: o corpo que adquiriu nos seus anos de formação e o corpo que o escritor passou a desenvolver a partir de um momento traumático em sua juventude.  A  obra literária é o corpo em que o escritor reside. Inadequado é procurar uma biografia fora da produção literária. O corpo do escritor é o corpo que ele artisticamente produziu.

Qual seu  objetivo com esta obra?

DS: A loucura é preocupação constante de poetas, escritores e teóricos desde Homero. Psiquiatras ocupam-se com a loucura desde princípios do século XIX. A loucura mereceu a atenção de psicanalistas desde os primeiros anos do século XX. Já que psicanalistas examinam textos literários, a teoria psicanalítica não pode ser ignorada por teóricos da literatura. Meu objetivo é participar da discussão para compreender melhor a invenção literária.

O que os leitores podem esperar desta obra, sendo o senhor tradutor do escritor irlandês?

DS: A obra literária é um corpo vivo e original. Traduzido, o corpo literário passa a viver em outro espaço, em outra língua. O tradutor sente a transfiguração no ato de traduzir. Joyce revive na tradução em corpo transfigurado. A tradução participa da invenção literária. O rio narrativo que atravessa a obra de Joyce continua a fluir. O tradutor é leitor de sua própria tradução. No texto reinventado, tradutor e leitor convivem. Todo leitor é tradutor. A obra lida é reinventada na experiência do leitor. A obra terá tantos corpos quantos forem os leitores.

James Joyce

O livro será lançado durante uma exposição de arte. Como se dá essa relação entre arte, psicanálise e literatura na obra de Joyce?

DS: A artista plástica, Elida Tessler, visita a obra de James Joyce, em várias ocasiões. Destaco Claviculário e Dubling. Um dos estojos de Claviculários é dedicado à tradução brasileira do Finnigans Wake. Elida destaca palavras e as grava em chaves, mistério penetra o metal, oferecido ao olhar, ao tato. A obra literária ganha um corpo imprevisto. O mistério aproxima literatura, arte e psicanálise. Ler em cada uma dessas atividades é decifrar mistérios. Quem decifra entra no labirinto sem saída e sem centro. No labirinto caminhos confluem e se dispersam.  Em Dubling, a cidade de Dublin se alarga e se desdobra. Garrafas, destinadas a fluir no rio da vida, encerram palavras que ecoam e se duplicam em quem as experimenta.  Na obra de Joyce, todas as artes convergem.

No início do livro, o senhor cita os gregos, sendo este universo bastante familiar ao senhor, já que traduziu diversas obras de autores como Homero e Sófocles e é professor de Língua e Literatura Grega. De que maneira seu conhecimento da cultura grega o influenciou no trabalho com Joyce? Que ligações, presentes neste novo livro, é possível estabelecer entre Joyce e os gregos, já que para o próprio autor irlandês esta é uma referência essencial, como nos lembra Ulisses?

DS: Em Joyce,  sou levado aos gregos por Joyce. Os gregos fundam o Ocidente.  Ao fundar Joyce funde e confunde. Todos os séculos ressoam na obra de Joyce. Finnegans Wake é uma ópera universal, Ocidente e Oriente colidem, ressoam.  Os gregos nos ensinaram a inventar. Joyce frequenta os gregos para reinventar, ele e os artistas de sua geração e da geração que o precedeu: Wagner, Nietzsche, Salvador Dalí, Picasso, o cinema, cineastas, poetas líricos… Estamos em presença de uma nova Renascença. Esta Renascença está à altura do Renascença dos séculos XIV, XV e XVI.

A pergunta, que é título do livro, parece, em alguma medida, uma pequena provocação ao leitor. Ela tem uma resposta para o senhor? O leitor pode encontrar essa resposta no livro?

DS: Provocar (de provocare) significa chamar para fora. Obra que não provoca não é lida. A leitura nos chama para fora de nós mesmos. Toda pergunta, por lançar ao não saber, inquieta. Acomodados vivem confortavelmente, não inventam. Por que  inventar? Se estamos acomodados sobre um abismo – hipótese que não pode ser excluída – necessitamos de vozes que nos despertem para reinventar caminhos. Repousar  ofende a condição humana, só a ação humaniza.

Conheça outros livros de Donaldo Schüler

Um muçulmano na África

 

Por: Renata de Albuquerque

Leão, o Africano é uma figura muito peculiar. Viajante, tradutor e diplomata, sua vida é tão cheia de reviravoltas que pode até parecer ficção. Leão, o Africano: a África e o Renascimento Vistos por um Árabe é um relato da viagem curioso deste muçulmano à África, em pleno século XVI. Nessa obra, que Murilo Sebe Bon Meihy traduziu para a Coleção Estudos Árabes, o leitor brasileiro tem a possibilidade de conhecer um universo que parece distante, mas que ainda é pouco conhecido e guarda muitas semelhanças com o contexto da atualidade. Nesta entrevista, o professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e em Estudos Árabes e Islâmicos pela Universidade Autónoma de Madrid (UAM); e Doutor em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP) fala sobre este título:

Murilo Sebe Bon Meihy

Quem foi Leão, o Africano e o que há de ficção e de realidade documental no livro que leva seu nome?

Murilo Sebe Bon Meihy: Leão, o Africano levou uma vida rica e fascinante.  Nascido no Reino de Granada, foi expulso de sua terra natal quando os reis Fernando e Isabel de Castela e Aragão, os chamados “reis católicos”, conquistaram Granada e expulsaram os muçulmanos da Península Ibérica. De família abastada, Leão, o Africano buscou refúgio em Fez (Marrocos). Em uma de suas viagens, foi preso por piratas cristãos no Mar Mediterrâneo e levado à Península Itálica. Por sua erudição, foi entregue ao Papa Leão X, e passou a sobreviver em Roma fingindo-se convertido ao cristianismo. Parte de sua vida está documentada por meio de registros de seus trabalhos na Biblioteca Apostólica Vaticana. É justamente sua obra mais célebre, um relato de viagem sobre a África, que apresento aos leitores nesse livro da Ateliê Editorial.

 

Em sua opinião, qual a importância de trazer ao público em geral seu trabalho que, por ser acadêmico, pode vir a ser considerado “muito complexo”?

MSBM: O relato de Leão, o Africano, conhecido de forma abreviada como “Descrição da África”, transformou-se na principal fonte de conhecimento geográfico e cultural sobre a África difundido na Europa até os séculos XVIII e XIX. Apesar da complexidade do texto histórico de Leão, o Africano, o leitor desse livro entrará em contato com um relato de viagem do século XVI mais fluido e prazeroso de ler, já que o texto do viajante granadino é exposto e explicado a partir do rico contexto cultural do Renascimento na Europa do século XVI, e da vida encantadora de nosso protagonista. Cheia de estratégias sedutoras de sobrevivência em um mundo marcado por diferenças culturais, a biografia de Leão, o Africano mostra que há um lugar de destaque para o Islã e a África na história cultural da Europa moderna.

A história de Leão, o Africano ainda pode ser considerada atual, levando-se em conta o cenário de conflitos do Oriente Médio?

MSBM: Mais do que atual, a história de Leão, o Africano é a própria narrativa de vida de muitos árabes muçulmanos no mundo atual. A condição de refugiado, que assola milhões de sírios, palestinos, e iraquianos hoje, por exemplo, ainda que por razões distintas, se combina ao esplendor cultural de uma civilização tão grandiosa quanto instável. Compreender o Oriente Médio atual é voltar os olhos para o seu passado de contato com o Ocidente.  Se precisamos de certo contato com o passado colonial para entendermos o Brasil e a América Latina de hoje, com o Islã e o Oriente Médio não é diferente.

Em que aspectos essa história pode ajudar os brasileiros que a lerem a entender esse complexo contexto?

MSBM: Sobreviver em tempos de incerteza é uma arte que brasileiros e árabes compartilham sem terem consciência disso. O homem moderno não é definido apenas pelas suas convicções, mas também pelas suas contradições. Desde a invenção do “Oriente” como uma categoria geográfica e cultural em oposição ao “Ocidente”, construímos uma visão soube o outro a partir de um conjunto de características que não queremos reconhecer em nós mesmos.

 

A tolerância, o respeito às diferenças culturais, e a empatia eram grandes desafios enfrentados pela humanidade no século XVI, e que sobrevivem na atualidade. Leão, o Africano e seu relato sobre a África nos ensinam que essas são lições constantes a serem aprendidas por todos, principalmente pelos brasileiros nos dias atuais.

Quais foram os desafios enfrentados pelo senhor durante o processo de edição da obra?

MSBM: Traduzir um texto de época é sempre um desafio, ainda mais quando acompanhado do esforço de revelar as contradições humanas de uma época passada. Essa é a essência do trabalho do historiador. Por ter sido parte de minha tese de doutorado defendida no setor de Estudos Árabes da USP, em 2013, a adaptação da linguagem acadêmica para a de um livro editado é praticamente um processo de reescrita do texto. A versão publicada pela Ateliê Editorial tem a pretensão de ser um texto com rigor científico, mas que prenda a atenção dos que se dispuserem à leitura. Para isso, contei com o excelente trabalho da equipe da editora, e espero que o resultado seja atraente para o público em geral.

As relações entre a Europa Latina e o Norte da África, mediadas pelo Islã, mudaram ao longo dos séculos? O que o senhor destacaria sobre este assunto?

MSBM: Em linhas gerais, essa relação sempre esteve marcada por dois fatores: a negociação e o conflito. Muitas vezes os especialistas e estudiosos recorrem a elementos culturais e até mesmo religiosos para a defesa da hipótese de que o motor da História é o confronto inevitável entre civilizações. Essa premissa é um equívoco, já que condiciona a experiência histórica à guerra e ao enfrentamento. Os momentos em que se estabeleceu o diálogo e o respeito mútuo entre povos distintos como cristãos, judeus, e muçulmanos, por exemplo, produziram avanços culturais extraordinários, ainda que algumas tensões não deixassem de existir.

Na relação histórica entre Europa, África e Islã não há opostos inegociáveis. Os radicalismos e excessos sempre existiram, mas nunca foram definidores de como esses povos interagiram na História. Desejo que os que lerem esse livro sejam convencidos disso ao final da leitura.

Qual a importância, para o brasileiro, de entender como a África e o Renascimento foram vistos pelos árabes? O que da cultura de nosso país pode-se ver refletido nesse espelho?

MSBM: Apesar de nossa proximidade cultural com a África, o Brasil produz pouca bibliografia sobre o tema. A maioria do material que temos trata a visão europeia e cristã sobre o continente africano. O relato de Leão, o Africano, ao trazer o olhar de um árabe muçulmano sobre a África, mostra que temos que estar abertos a novos interlocutores e olhares. Mesmo o Renascimento, que foi amplamente discutido na historiografia, sempre teve a preponderância da visão europeia. É chegada a hora de entrarmos em contato com uma perspectiva histórica diferente e não menos encantadora. Espero que esse livro ajude a inserir o debate sobre as diferenças culturais na História Moderna. Nesse período da História, são muitos os relatos de viajantes europeus sobre o Brasil colonial, e o olhar de Leão, o Africano sobre a África nos inspira a encontrarmos aproximações entre as experiências coloniais no Atlântico e no Mediterrâneo. Valores como alteridade, tradução e diferença culturais são princípios que reivindicamos na formação social do Brasil. Por que não buscarmos esses mesmos fundamentos no olhar estrangeiro sobre a África?

Quatro Ensaios Sobre Oscar Niemeyer

No ano em que o arquiteto faria 110 anos, lançamento coloca luz sobre novos aspectos da obra do arquiteto carioca

Por Renata de Albuquerque

Morto há cinco anos, Oscar Niemeyer continua sendo uma referência fundamental quando o assunto é arquitetura, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. A grandeza de sua obra permite que haja uma profusão de estudos a respeito e que, mesmo assim, novos aspectos sejam abordados a cada nova publicação, por meio de visões singulares. Quatro Ensaios Sobre Oscar Niemeyer, organizado por Paulo Bruna e Ingrid Quintana Guerrero, aborda sua obra em São Paulo, suas ligações com Le Corbusier, a crítica internacional e a arquitetura religiosa latinoamericana.

Para falar sobre o lançamento, a arquiteta colombiana concedeu uma entrevista para o Blog da Ateliê:

 

Ingrid Quintana Guerrero

Qual a importância da publicação de “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer”?

O livro oferece leituras inéditas da obra, discurso e influência de Oscar Niemeyer, dentro e fora do Brasil, sobre temas que parecem já esgotados: sua obra paulista; seu papel nos círculos internacionais da arquitetura, seu aprendizado dos grandes mestres e a recorrência dos programas religiosos nos encargos que recebeu. Autores como Hugo Segawa e Paulo Bruna são garantia da qualidade científica dos textos.

 

 

O que o leitor poderá encontrar nesse livro?

Apresentamos quatro textos, mais uma apresentação de Sylvia Ficher, professora da UnB. O primeiro deles, de Paulo Bruna, constitui uma revisão da profundidade da produção de Oscar Niemeyer no estado de São Paulo, com destaque aos projetos habitacionais , que hoje são cartões postais dessa cidade (o Copan; o edifício Montréal), sem esquecer sua intervenção mais ambiciosa nessa terra: o Parque do Ibirapuera. Por sua vez, Hugo Segawa reconstrói as opiniões da imprensa sobre a atuação internacional de Niemeyer, no período que vai da construção do emblemático pavilhão de Nova Iorque (com Lucio Costa, 1939), até o convite para erigir um novo pavilhão, na Serpentine Gallery (Londres, 2003). Ele revisa minuciosamente o episódio da constituição de uma equipe para a sede da ONU, decorrente do concurso ganho pelo jovem Niemeyer (1947). No seu texto, Rodrigo Queiroz, que há muitos anos investiga os traços de Le Corbusier na produção do carioca, revela os vínculos profundos entre a linguagem de ambos os arquitetos; vínculos que, por sinal, Niemeyer negou inúmeras vezes. Por fim, meu ensaio propõe uma leitura da produção de arquitetura religiosa latinoamericana em chave Niemeyer, em países como o México, a Colômbia e a Venezuela.

 

A obra pode chamar a atenção de leitores não ligados ao universo da arquitetura ou é dedicado apenas a profissionais da área? Por quê?

Eu acho que é um livro que, além de atrair profissionais da arquitetura (o texto de Rodrigo Queiroz aponta à universalidade de Niemeyer mediante sua relação plástica com a obra de outro gigante da arquitetura moderna, Le Corbusier), pode ser de interesse para os apaixonados pela história de São Paulo (o texto de Paulo Bruna oferece o panorama mais completo que eu já vi sobre a obra do carioca na capital paulista); para quem gosta das intrigas por trás dos encargos de arquitetura e da recepção e crítica desses pela mídia (texto de Hugo Segawa, com seu estilo único, quase de cronista); para quem estuda América Latina como bloco cultural e intelectual (acredito que meu texto contribui a essa perspectiva).

Existe uma vasta bibliografia sobre a obra de Niemeyer. De que maneira este livro se diferencia do que já existe no mercado editorial?

Qualquer resposta que eu der será fraca, considerando que todo dia, em algum canto do planeta, alguém publica uma tese, um artigo ou um livro sobre Niemeyer. Porém, Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer é mais do que uma coletânea: é um esforço de coletivo da equipe de pesquisa Arquitetura e Cidade Moderna e Contemporânea cujos membros, ao mesmo tempo, possuem abordagens e trajetórias totalmente diferentes. Isso só podia acontecer na FAU USP, a mais plural e cosmopolita das escolas de arquitetura brasileiras, embora sempre seja identificada com a herança de Vilanova Artigas e com o “brutalismo paulista”.

 

Neste ano, o arquiteto faria 110 anos e são lembrados os 5 anos de sua morte. Este pode ser considerado o “mote” do lançamento do livro ou há outras razões para tal publicação?

Sim. Infelizmente, inúmeros motivos fizeram com que a publicação, que iria aparecer no primeiro aniversário do falecimento de Niemeyer, fosse adiada. Daí que tivéssemos que revisar e atualizar os textos para sua publicação hoje. No entanto, o tempo passa muito rápido e nenhum desses perdeu vigência.

 

No texto de apresentação, Sylvia Ficher se refere a um livro que estaria prestes a ser lançado, uma coletânea em três seções. Há notícias sobre ele?

Sylvia é quem está envolvida no projeto. Ela diz que Andrey Schleee ela não perdem a esperança de conseguir publicar o projeto integral. Esperemos que isso aconteça em breve.

 

Foram escritos mais de 30 capítulos do trabalho ainda não editado. Como foi o processo de escolha desses 4 ensaios? Por que eles foram os escolhidos para fazer parte da edição da Ateliê?

Paulo Bruna, que fez parte da primeira iniciativa, na UnB, conhecia bem o material e fez a escolha. Na verdade, meu texto não faz parte desses 30 trabalhos: foi produto do convite que Paulo me fez diretamente. Ele conhecia bem minhas linhas de pesquisa e se interessou no olhar que uma arquiteta estrangeira como eu poderia aportar à leitura da obra de Oscar Niemeyer. Eu aceitei esse convite como um desafio, ainda maior considerando trajetória dos co-autores. Logicamente era pouco aquilo que eu podia acrescentar ao conhecimento de Niemeyer de uma perspectiva brasileira, daí que me concentrasse nos desdobramentos da sua obra na América do Sul. E me debrucei naquilo que eu acho mais fascinante da produção do carioca: sua arquitetura religiosa.

Ainda há muito a ser estudado sobre Oscar Niemeyer? O que, em sua opinião, ainda merece atenção dos pesquisadores? E de que forma este volume contribui com esta fortuna crítica?

Há alguns meses deixei o Brasil e voltei para meu país. Esse estranhamento, após ter vivenciado intensamente sua arquitetura, permitiu-me entender a dimensão monumental do legado de Niemeyer; sua universalidade e seu impacto até hoje.Com certeza, Niemeyer ainda é um dos maiores ícones da arte brasileira no mundo e referência vigente para os estudantes de arquitetura. Porém, o que dele se conhece lá fora é ainda uma versão carioca, ligada a sua produção fluminense e à riqueza visual que lhe forneceu o Rio de Janeiro. A atuação de Niemeyer fora do Rio e de Brasília, a profundidade do seu pensamento político, estético e social ficam num segundo lugar por causa da exuberância e sensualidade dos seus edifícios, apontadas desde a redação de Brazil Builds.

Meu ensaio e o texto de Rodrigo Queiroz contribuem a estender pontes entre Niemeyer e seus contemporâneos fora do Brasil, pontes delineadas pelas formas, mas sustentadas nas estratégias projetuais (que vão além da simples linha curva que imita o corpo feminino) e nas raízes culturais da condição latino-americana. Acredito que mais estrangeiros procurarão no Brasil as chaves para decifrar uma identidade própria e este livro suscitará novas questões neles.

 

Por que é importante conhecermos mais sobre a trajetória de Oscar Niemeyer?

Sylvia Ficher intitulou sua introdução “Niemeyer nunca é demais”. Concordo totalmente: quanto mais nos aprofundamos na sua produção, nos seus edifícios e nos seus desenhos, ficamos mais maravilhados pela sua criatividade, disciplina e coragem. Felizmente não é um caso isolado no Brasil: hoje Paulo Mendes da Rocha usufrui do prestígio e louvor da crítica especializada. Mas este não teve a sorte daquele, isto é, de agir em diferentes épocas e cenários, tão relevantes para a configuração histórica do continente americano moderno. Mesmo que não gostemos dos seus prédios, não é possível negarmos a condição de Niemeyer como mestre renascentista no meio do século 20: ativista comunista; homem da alta sociedade; poeta; pintor; arquiteto e urbanista. Sempre haverá uma lição para aprender nos seus bate-papos com sócios e amigos, nos seus croquis e na vitalidade que sua arquitetura oferece ao espaço urbano de cidades como São Paulo ou Belo Horizonte.

 

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Clássico, “O Ateneu”, de Raul Pompeia, ainda instiga leitores do século 21

“O Ateneu”, de Raul Pompeia, foi lançado há mais de um século, mas ainda instiga e provoca os leitores. A obra carrega em si características de diversas manifestações artísticas, como realismo, impressionismo e expressionismo, que se evidenciam no romance de dimensão autobiográfica do autor, Raul Pompeia, publicado pela primeira vez em 1888. Se, na época, ele foi recebido com estranhamento pela crítica, ainda hoje intriga leitores. Por isso, a Ateliê lança uma nova edição do clássico, com apresentação e notas de Emília Amaral, professora de Literatura e Doutora pela Unicamp, que fala ao Blog da Ateliê sobre o clássico:

 A edição traz ilustrações feitas pelo próprio Raul Pompéia. Ele era reconhecidamente um bom desenhista? Como essas imagens foram selecionadas para esta edição?

 Emília Amaral: Raul Pompeia era, sim, reconhecidamente, um excelente desenhista. Fazia caricaturas incríveis, e isso tem tudo a ver com a forma magistral como caracteriza seus personagens. As imagens desta edição são as mesmas feitas e escolhidas pelo autor desde a primeira edição da obra.

 

Esteticamente, quais são as inovações propostas por “O Ateneu”?

EA: Ele combinou de maneira brilhante estilos díspares e até então impensáveis numa mesma obra: o realismo, o naturalismo, o simbolismo, o parnasianismo.

 

Quanto de autobiográfico em relação ao autor, em sua opinião, há em “O Ateneu”?

EA: Bastante. Talvez nem tanto em termos factuais estritos, mas psicologicamente.
Por que Lúcia Miguel-Pereira teria classificado “O Ateneu” como um “romance estranho, diferente de tudo o que habitualmente se escrevia”?

EA: Justamente pela intersecção de estilos tão díspares, entre outros fatores.
Na opinião da senhora, o leitor do século XXI ainda é capaz de sentir esse estranhamento?

EA: Com certeza. Este livro, como toda grande obra, continua interessando e desafiando leitores por muito tempo.
Que interesse a obra desperta nos leitores de nossos dias, que ainda não leram este livro?

EA: Como se trata de um romance de formação, ele interessa muito, ao mostrar a passagem da adolescência para a vida adulta e assim trazer muitas questões existenciais pertinentes como objetos de reflexão.

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