Entrevistas

“A Nebulosa” volta às prateleiras, depois de 150 anos

Joaquim Manuel de Macedo é conhecido por romances como A Moreninha. Mas quem lê outros títulos do autor, como A Luneta Mágica, consegue entrever que há muito mais do que o um “Romantismo” estrito em sua obra. A Nebulosa, “talvez o melhor poema-romance do romantismo [brasileiro]”, segundo Antonio Candido é uma dessas obras que resistem a classificações. O texto ficou mais de um século e meio fora de circulação e agora volta às prateleiras, com apresentação de Ângela Maria Gonçalves da Costa, que fala a respeito nesta entrevista:

 

O livro é tema de sua tese. Por que escolheu esse tema?

Ângela Maria Gonçalves da Costa: Escolhi esse tema por ser um poema esquecido pela crítica acadêmica e estar há anos fora do mercado editorial, sendo raros seus leitores, devido às dificuldades de acesso à obra. Me interessou também em A Nebulosa a problemática que o poema traz, já que está longe das exigências da produção de uma literatura nacionalista. É um poema mais próximo dos sentimentos universalistas e da vertente ultrarromântica. Um canto nórdico medieval produzido em terras tropicais no século XIX.

Como foi feita a pesquisa e que desafios ela impôs?

AMGC: A pesquisa começou com a procura da resposta para uma indagação: Por que um poema de sucesso extraordinário na época da publicação e nos anos posteriores acabou caindo no esquecimento? Com a curiosidade aguçada, alguns livros de história literária brasileira foram consultados para buscar informações sobre o poema. Um comentário elogioso de Antônio Candido, dizendo que “talvez fosse o melhor poema-romance do Romantismo” deu pista de que estava no caminho certo. O interesse foi aumentando. A pesquisa se estendeu para bibliotecas públicas e particulares de Campinas, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais para encontrar a obra. Foram encontrados cinco exemplares da 1ª edição e nove exemplares da 2ª edição, número satisfatório para uma obra não editada há um século e meio, o que levou a pensar na hipótese de tiragem alta e com prestígio na época. Depois do contato com o poema, a próxima fase foi pesquisar a fortuna crítica existente, ou seja, qualquer notícia ou comentário sobre o poema que apareceram em periódicos, cursos e histórias literárias entre os séculos XIX e XXI. Me deparei com vários desafios, como entender o porquê da obra cair no esquecimento, o que levou Macedo a enveredar pela poesia e destoar de outros poemas que apareceram na mesma época. Entretanto, merece destaque a busca pela localização de algumas críticas ao poema que Galante de Souza, nos anos vinte, dizia existir. Segundo ele, no Jornal A Atualidade, em 1860, Bernardo Guimarães escreveu uma série de censuras na Parte Literária do referido jornal, no entanto lamentava não ter localizado nenhum exemplar. Tânia Serra também deu notícia dessas críticas, mas garantiu não ter encontrado nenhuma informação. A busca a esse periódico durou meses e nenhuma pista. Quando já pensava em desistir, estava pesquisando no arquivo Edgard Leuenroth, na Unicamp, quando as sete partes da crítica de Bernardo Guimarães apareceram na minha frente, em ótimo estado de conservação. Foi muito gratificante.

 

Ângela Maria Gonçalves da Costa

A senhora aponta uma ligação desta obra com a poesia celta. Tendo sido escrita em um momento de valorização da “cor nacional”, não seria surpreendente se a obra tivesse passado despercebida (ou negativamente criticada) no momento de sua publicação; mas não foi isso o que ocorreu. O que, em sua opinião, levou A Nebulosa a ter tão boa recepção crítica no primeiro momento?

AMGC: Primeiramente, a obra foi dedicada ao imperador Pedro II, lida e patrocinada no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, local de divulgação da literatura, ciência e política na época. O local era parte de um grande projeto que implicava, além do fortalecimento da monarquia e do Estado, a própria unificação nacional, que seria também cultural. No entanto, a aceitação da oferta ao imperador e a posterior publicação custeada por ele não significava que a obra obteria sucesso. O monarca incentivava, mas a obra deveria caminhar por si só. E A Nebulosa seguiu seu caminho como um poema de rara beleza. O fato de não possuir um caráter nacional – ao menos não da maneira como se compreendia o nacional naquele momento – não afetou a sua boa recepção. Apesar da nacionalidade na literatura brasileira provar a atualidade do poema e a sua inserção nos modelos do que se esperava ser uma poesia brasileira naquele momento, havia também um outro grupo de pensamento na época que acreditava que a poesia poderia ser nacional, mesmo quando abusava do subjetivismo lírico, quando se tratava de uma poesia reflexiva, que analisava os pensamentos e sentimentos, tal qual o que se encontrava em A Nebulosa. Antônio Candido afirmou que, ao lado do nacionalismo, havia no romantismo a miragem da Europa, o norte brumoso. A Nebulosa se insere nessa vertente de temática mais universal. A atmosfera nebulosa, soturna, a descrição da natureza orgânica, o dilaceramento interior das personagens dementes de paixão, brancas e pálidas como “neve” e “cristal” transportados para a imaginação tropical, nos sugere um poema escrito na contramão do projeto nacionalista, mas ainda assim ovacionado pela crítica e pelos leitores em geral.

 

A Nebulosa é uma obra que praticamente ficou desaparecida por mais de um século. Quais são as hipóteses para que isso tenha acontecido?

AMGC: Depois de duas edições no século XIX A Nebulosa praticamente desapareceu das prateleiras de livrarias e bibliotecas. Em 2006 foram localizados cinco exemplares da primeira edição e nove da segunda. Dois fatores podem ter contribuído para isso. Um deles se deve ao esparsamento das críticas em periódicos e histórias literárias. No século XX contamos apenas quinze, menos da metade do que foi produzido no XIX. O último comentário de fôlego data de 1863, por Ferdinand Wolf. Depois disso um longo silêncio até 1882, ano da morte do autor. No século XX, apenas algumas pequenas notas, de tempos em tempos, excetuando Antônio Candido, em 1957, que se debruça na análise do poema na sua Formação da Literatura Brasileira. Os livros didáticos ou obras que interessam ao público universitário nem sequer citam o poema de Macedo, tornando-o desconhecido tanto para estudantes como para estudiosos da obra de Macedo ou do romantismo. Outro fator para o desaparecimento de A Nebulosa pode estar relacionado com o caminho escolhido pelo autor. No seu necrológio, em 1882, um crítico, ao fazer o inventário do autor, assim diz: [A Nebulosa] pode considerar-se como a última corda de sua lira, como o último trabalho que ele fez dominado unicamente por preocupações literárias” (Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 12 de abril de 1882). Macedo foi o representante oficial da literatura romântica e sua popularidade se deve à sua primeira fase, mais romântica. O romance, nessa época, passou a ter um público cada vez mais crescente e encontra o seu lugar na literatura brasileira. O Macedinho, como era popularmente conhecido, para satisfazer a exigência desse público, chegou a publicar entre 1867 e 1870 nada menos que dez títulos! Assim, é possível que com essa fecundidade numérica e um público ávido por romances ou até reedições – Vicentina estava na terceira edição em 1870 – as editoras se empenhassem na circulação dessas obras em detrimento de novas edições de A Nebulosa.

 

Joaquim Manuel de Macedo.

Joaquim Manuel de Macedo é popularmente conhecido por A Moreninha. Para além da questão do gênero literário, que surpresas a leitura de A Nebulosa reserva ao leitor?

AMGC: A Nebulosa pode surpreender não só pelo tema e versos fáceis, mas pela expressão natural dos sentimentos. O poema narra a história de um amor impossível. Essa impossibilidade seria tema recorrente do ultrarromantismo, no entanto, o amor desprezado e o efeito da paixão são desenvolvidos como sentimentos contrastantes no homem e na alma feminina. A mulher é representada como o arquétipo da mulher fatal, que sem misericórdia recusa o amor do Trovador, demonstrando vontade e poder de decisão, ao contrário do papel remissivo comumente dado a ela na literatura europeia. O leitor encontrará no poema toda a matéria romântica, como o gosto pelo passado, o medievalismo, o mistério e o horror, os elementos fantásticos, folclóricos e populares, as elegias de caráter rústico, o pitoresco das bruxarias e malefícios, as fadas e feitiçarias, a poesia tumular, o amor e a morte, a fusão de gêneros e a ingenuidade de sentimentos exacerbados. O que pode surpreender na leitura de A Nebulosa é a percepção de que todas essas características são próprias da poesia ossiânica e medieval e se encontram entranhadas no poema de Macedo.

 

Em sua opinião, esta nova edição de A Nebulosa pode ajudar o leitor (e os críticos) do século XXI a (re)descobrir a obra? Ela ainda é uma leitura impactante, que oferece matéria prima para novas críticas e estudos?

AMGC: A terceira edição de A Nebulosa tanto pode ajudar o leitor quanto os críticos de hoje a redescobrirem a obra há muito esquecida no ossuário do romantismo. O poema é importante enquanto fato estético e como fato da historiografia literária. Sua leitura permite ao leitor entrar num mundo romântico e conhecer os conceitos fundamentais do romantismo: a beleza da morte e seu caráter de fatalidade, a comunicabilidade entre os elementos e os seres, a vida e a morte, a dor e a paixão, um canto fúnebre que sugere uma existência mais bela e essencial, resultando num dos mais belos do romantismo brasileiro. Com o restabelecimento da obra, a crítica literária terá instrumentos que possibilitarão o entendimento total do poema e a constatação de sua importância para a história literária. A publicação de A Nebulosa poderá contribuir para que a crítica e leitores atuais possam apreciar essa obra de grande interesse para o conhecimento mais amplo do romantismo no Brasil, bem como da hoje obscura face poética de Joaquim Manuel de Macedo.

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Irradiações da Literatura Grega na cultura ocidental

Por: Renata de Albuquerque

Dizer que a Grécia é o berço da cultura ocidental é quase um clichê. Mas, você já parou para pensar de que maneira os clássicos gregos ecoam até os nossos dias? O professor, escritor e tradutor Donaldo Schüler não apenas pensou, como estudou a fundo e compartilha esse conhecimento com os leitores no livro Literatura Grega: Irradiações. Ele é Doutor em Letras e Livre-Docente pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde foi professor de língua e literatura gregas. A seguir, ele fala sobre seu mais novo livro ao Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia do livro?

Donaldo Schüler: A ideia vem de longe. Interessa-me a Literatura Comparada, a relação do que se escreve hoje com o que escreviam os gregos. A comparação revela continuidades, interrupções, diferenças. A literatura é construída por nossos interesses. Se lemos Homero, ele entra na esfera das nossas preocupações. Homero é autor vivo. Os leitores lhe dão vida.

O que levou em conta para escolher os autores gregos citados no livro?

DS: A seleção dos autores antigos já foi feita há muitos séculos. Noventa por cento do que os gregos escreveram está perdido. Estamos diante de ruínas. Cada geração constrói a sua própria Grécia. Enquanto refazemos a Grécia com o que resta, nós nos construímos a nós mesmos. A ênfase é dada por nossas preferências. Como estamos ligados à época em que escrevemos, o momento participa de nossas escolhas, nem sempre podemos dar conta da seleção  que fazemos. Dos autores mais recentes, figuram aqueles que entram no horizonte  dos nossos interesses.

Donaldo Schüler

Como foi feito o trabalho de realizar uma “ponte” entre os autores gregos e os autores mais “recentes”, como Machado de Assis, Borges, Guimarães Rosa e Shakespeare?

DS: Os autores que você cita são leitores de textos antigos. Quando Shakespeare põe em cena personagens de outros tempos, ele discute questões do seu tempo. Quem encena Shakespeare hoje está atento ao que acontece agora. O palco é um lugar de muitas ressonâncias. Os heróis buscados no sertão brasileiro preservam traços dos heróis de outros tempos. Mesmo a leitura de autores atuais nos leva às origens. Os textos de Machado de Assis conectam o Brasil com o mundo.

Sob que aspecto é possível dizer que a herança grega é ressignificada por autores mais atuais?

DS: Os gregos estão presentes mesmo quando  nossa atenção não está voltada a eles. Quando pensamos, afirmamos ou negamos o que eles pensaram. Eles são nossos interlocutores. Assim os preservamos vivos. O mundo se amplia quando ultrapassamos o que nos cerca. Nunca somos herdeiros passivos. O que não conquistamos não nos pertence.

Há algo na literatura grega que ainda persiste intocado? Ou: existem “irradiações” sem outras intervenções externas, que mantenham os conceitos inalterados desde a Grécia Antiga?

DS: O tempo modifica tudo.  O que experimentamos acontece pela primeira vez. Aquilo que não tocamos nos escapa.  Vivemos dias acelerados. Muitas são as vozes que advertem o excesso de informações. Se não decidimos parar para pensar, para meditar, para escrever, as informações  nos dilaceram. Paramos para viver.

Em sua opinião, qual a “irradiação” mais interessante enfocada pelo livro e por quê?

DS: O que escrevemos se divide no interesse dos leitores, a irradiação acontece assim. O leitor é ativo. O leitor desmonta e remonta o que lê. O leitor participa da invenção. Significativo é o texto que leva a inventar. O texto provoca, o interesse é a participação do leitor.

 

Conheça mais sobre a obra de Donaldo Schüler

Cinematografia: a poesia da narrativa em movimento

Por: Renata de Albuquerque

Cinematografia é a técnica de projetar imagens estáticas  e sequenciais em uma tela, com velocidade suficiente para dar movimento a elas. As imagens presentes nos 90 poemas de Paulo Lopes Lourenço reunidos em Cinematografia criam narrativas a partir desse conceito. Ilustrado por Fernando Lemos, este é o primeiro livro de poemas de Lopes Lourenço lançado no Brasil. Os textos aqui reunidos foram quase todos escritos durante a estada do autor no país – ele foi Cônsul Geral de Portugal em São Paulo entre 2012 e 2018. A seguir, o autor fala ao Blog da Ateliê:

 

Que autores o influenciam como poeta?

Paulo Lopes Lourenço: Há muito ecletismo nas minhas referências, tanto nas literárias quanto nas plásticas ou visuais, que de resto são até mais marcantes do que as influências sobre os processos de escrita. A tradição poética portuguesa não me passou ao lado, claro, mas seria impossível ignorar anos e anos de paixão pelos clássicos russos ou pela literatura contista americana, ou até mesmo a “escrita automática”. E embora eu escreva de facto poesia, o que escrevo parece radicar mais nas artes visuais, em especial na fotografia e no cinema. Nesse sentido, tanto me sinto impelido a partir de uma peça do Brancusi, quanto por um romance do Scott Fitzgerald, um quadro do Hopper ou por uma canção indy bem escrita. O teatro e o cinema foram uma presença constante enquanto crescia.

 

O que este livro tem de diferente de seus livros anteriores?

PLL: O período que o livro cobre é biográfica e literariamente de transição. Nele se procurou uma certa condição de apaziguamento interior, um armistício íntimo entre o que procuro na escrita – uma liberdade mais irrestrita, a generosa transigência plástica das palavras, a sua possível transmutação estética – com um desejo de honestidade verbal. Nesse sentido, este é um livro mais sereno, mais convalescido, mas também menos inocente, sempre se auto-testando.

 

Por que a escolha do título Cinematografia?

PLL: Este livro poderia ter-se chamado Crónicas dos Primeiros Dias Velhos, expressão que aliás dá nome a um dos poemas da coletânea agora lançada. Cinematografia, porém, tem a vantagem de oferecer uma senha de acesso mais clara sobre o que proponho ao leitor e de algum modo me reconciliar com a ideia que sempre cultivei sobre o processo da escrita: uma fórmula, simultaneamente mais rica e mais limitada, de fazer cinema. Estes poemas poderiam ser fotogramas, fabricados visuais ou instalações. E embora contenham, também, uma experiência narrativa precisa e oculta, eles são a minha coleção particular e pessoal de curtas metragens.

 

Como foi feita a seleção dos poemas que fazem parte deste volume? Eles foram escritos especialmente ou selecionados dentro de universo mais amplo?

PLL: Estes poemas foram escritos nos últimos 7 a 8 anos, formando dois corpos distintos, onde coexistem temas diversos, mas no essencial unidos por uma certa procura de coerência: um mais antigo (e mais curto) e outro mais recente (e mais amplo). Ao longo dos últimos dois ou três anos, começou a surgir a ideia de os publicar como uma peça única que pudesse juntar dois períodos distintos de escrita e, ao fazê-lo, desvendar uma espécie de rito de passagem, de caminho interior consumado, mais reconciliado consigo próprio e, talvez por isso, um pouco mais irônico. Essa transição é, acredito, muito clara para quem lê o livro em sequência.

 

Este é seu primeiro livro publicado no Brasil, escrito durante o período em que morou em São Paulo e lançado no momento em que se despede de sua função como cônsul no país. De que maneira isto afeta a poesia deste livro, os personagens que fazem parte dele, os temas que de ele trata?

PLL: É inegável que muitos dos textos foram escritos nestes últimos 6 anos e que a minha estada aqui os marcou. Não é aliás por acaso que dedico o livro também a São Paulo, a que retribuo de modo muito sincero pelos anos gratos que aqui vivi. E sendo embora verdade que esta cidade tem uma densidade e um lastro próprios que fazem dela intensamente cinematográfica, seria exagerado porém dizer que ela afetou a razão de ser do livro. Ele teria acontecido provavelmente sem São Paulo, embora não lhe pudesse ser indiferente. Longe disso.

Ilustração de Fernando Lemos

A paisagem urbana de São Paulo é parte do cenário de Cinematografia? Como a cidade está presente no livro?

PLL: Há apenas um curto poema alusivo no livro que procura sintetizar o magnetismo da cidade a partir de um olhar conciso e despojado, mas quanto mais falamos sobre S.Paulo, mais corremos o risco de não lhe fazer justiça. Sempre me fascinei pela beleza anônima que se revela inesperadamente numa grande urbe. De uma forma ou de outra, porém, interessa-me mais o ponto de vista do que aquilo que se vê. Interessa-me mais a frase do que o sujeito.

 

No prefácio do livro, Manuel da Costa Pinto escreve: “Paisagens, ruas, casas, interiores, móveis e utensílios imantados de lembranças são, mais do que “correlato objetivo” (o procedimento fundamental da poesia moderna identificado por Eliot), coordenadas espaciais: como no cinema – entendido aqui como arte de esculpir o tempo –, colocam os seres em situação, transformando-os porém em aparição destinada a logo desaparecer, a irmanar-se às coisas”. Como o senhor idealizou esculpir essas imagens de maneira a colocá-las em movimento, criando essa cinematografia?

PLL: Foi de fato como Manuel Costa Pinto que me dei conta pela primeira vez dessa tentação cenográfica, como se de alguma forma eu convocasse figurantes com um determinado propósito cênico, para compor um quadro, uma paisagem ou uma cena, mas que não vingam além do desejo descritivo ou onírico que os anima. De certa forma, embora se tratem de poemas totalmente narrativos (há sempre uma história, um olhar, um pensamento, uma alusão ou até mesmo um axioma ensaiado por detrás de cada um dos textos), a sua natureza é a de uma abstração plástica. Nesse sentido, uma personagem tem a mesma importância que um substantivo ou uma imagem. Por trás de cada composição fotográfica ou de cada encenação, uma narrativa alusiva, um conto em miniatura ou até um esboço de novela – mas o que eu quero provavelmente compartilhar mesmo é a anti-história que se esconde por detrás dessa aparente – e ainda assim convicta – narrativa. É a contra-narrativa que eu busco. É o adjetivo que eu quero contar. Como no cinema, o que me interessa mais é o plano e o movimento da câmera.

“Cenas em Jogo” conecta literatura, psicanálise e cinema

Por: Renata de Albuquerque

“Cenas em Jogo” é o título do livro que traz ao público o resultado do Doutorado do psicanalista, escritor e professor Renato Tardivo. No estudo, ele retoma a intersecção entre psicanálise, cinema e literatura, abordando diversos títulos, como Abril Despedaçado, O Cheiro do Ralo e Linha de Passe. Todas as obras analisadas por Tardivo são brasileiras e carregam consigo uma afinidade temática: “liberdade e opressão, ressignificação da lei e perversão, realidade e ficção, entre outras”. A seguir, o autor fala sobre o lançamento ao Blog da Ateliê:

O livro é resultado da sua tese de Doutorado. Que adaptações foram feitas ao texto original para transformá-lo em livro?

Renato Tardivo: Muito poucas. Desde a minha dissertação de mestrado, também publicada em livro pela Ateliê, percebi que desenvolvia uma escrita ensaística que, conquanto procurasse certo rigor acadêmico, tinha por objetivo principal ser acessível e comunicar-se com o leitor. Nesse sentido, a forma das análises está em íntima conexão com seu conteúdo, uma vez que, mais importante do que defender uma tese junto a este ou àquele grupo, procuro sempre uma forma autoral de expressão e, portanto, de abertura ao diálogo. De forma resumida, é a esta perspectiva que, ao fim do livro, dou o nome de “poético-crítica”.

O título do livro “Cenas em Jogo” remete ao “Jogo de Cena” de Eduardo Coutinho, que também faz parte do livro. De que maneira a problematização da ficção se coloca em “Cenas em Jogo”? Por que essa referência à obra de Coutinho e qual o impacto dela na sua obra?

RT: O capítulo em que me debruço sobre o filme “Jogo de Cena” é, do meu ponto de vista, um dos mais importantes do trabalho, uma espécie de clímax, porque, nele, discuto os temas principais da pesquisa e é a partir dele que o trabalho caminha para um desfecho. É nesta seção do livro, por exemplo, que destaco uma espécie de colapso provocado pela profusão de imagens, informações, discursos, isto é, certa banalização entre a realidade e o artifício. Como resistência a essa conjuntura, talvez a principal mensagem de “Jogo de Cena” seja convocar o espectador a viver o sobressalto inerente à ambiguidade entre ficção e realidade, o que não significa tomar puramente uma pela outra, mas impactar e ser impactado de modo a ampliar as experiências acerca de si e do outro. Dessa perspectiva, ficção e realidade se alimentam reciprocamente e contribuem para construções mais autênticas.

Como se deu a escolha dos títulos que seriam enfocados em sua tese? O que você levou em consideração para eleger cada um?

Renato Tardivo

RT: A escolha não foi imediata. Ao começar o doutorado, tinha consciência de que queria terminá-lo refletindo minha própria tomada de contato com obras literárias e cinematográficas, na interface da arte com a psicanálise. Mas não tinha clareza de como atingir esse objetivo. Foi então que percebi que se tratava de uma pesquisa de processo e que deveria retomar obras com as quais havia entrado em contato nos últimos anos, seja em sala de aula, em debates ou palestras. Por isso, também, retomar o trabalho anterior com o romance Lavoura Arcaica e o filme homônimo, que é o ponto de partida desse processo. Quando defini o corpus, notei que havia uma coerência temática entre as obras, embora diversas à aparência: liberdade e opressão, ressignificação da lei e perversão, realidade e ficção. Daí encontrei um campo fértil para refletir em que medida as leituras acrescentavam sentidos às obras e, reversivelmente, em que medida as obras acrescentavam sentidos à leitura, isto é, em que medida a tomada de contato com as obras pôde construir e fundamentar uma perspectiva de leitura.

Estudos que envolvam a intersecção dos campos da literatura, psicanálise e cinema não são exatamente uma novidade. Por outro lado, esta parece ser uma fonte inesgotável de pesquisa.  De que forma sua obra contribui para esse cenário?

RT: De fato, não são poucos os trabalhos que articulam os campos da literatura, do cinema e da psicanálise. No entanto, grande parte deles parece se apropriar das obras de arte a fim de validar conceitos da psicanálise, fazendo das obras mero receptáculo de teoria psicanalítica, sem contribuições à arte e à própria psicanálise. Em outra direção, encampando a perspectiva da psicanálise implicada, a partir do campo delineado por João A. Frayze-Pereira, orientador da minha pesquisa, procurei me aproximar das obras assumindo o potencial criativo e inventivo da psicanálise e, assim, buscando ampliar as possibilidades de sentido às obras e às leituras que se voltam a elas. Há, nessa medida, certa autonomia entre os ensaios.

Em sua opinião, qual foi o “achado”, a constatação, a “descoberta” mais interessante desse estudo?   

RT: Operar no plano da estética em diálogo com a psicanálise me permitiu desenvolver, no último capítulo do livro, aspectos caros à relação autor-leitor-obra, como “entre o vivido e o imaginado”, “realidade, ideologia, ficção” e minha proposta de “perspectiva poético-crítica”. Mas, sobretudo, mais do que chegar a um “achado”, espero que o trabalho tenha funcionado, parafraseando o esteta Luigi Pareyson, como “um fazer que, enquanto faz, inventa o modo de fazer”.

Conheça a obra de Renato Tardivo

“Konstantinos Kaváfis – 60 poemas” ganha nova edição

A literatura grega não é feita apenas de textos do período clássico da Idade Antiga. Autores mais recentes também reservam ao leitor experiências literárias impactantes, como é o caso de Konstantinos Kaváfis (1863 – 1933), considerado um dos mais importantes escritores cuja produção foi elaborada em grego moderno. Autor de mais de 150 poemas, teve sua obra reunida apenas postumamente.

 “Konstantinos Kaváfis – 60 poemas”, tem seleção e notas de Trajano Vieira, um dos mais importantes pesquisadores da cultura helênica no Brasil. Na obra, o leitor tem a oportunidade de entrar em contato com um universo esteticamente rico e provocador. A seguir, Trajano Vieira fala ao Blog da Ateliê sobre o livro:

Que alterações foram feitas em relação à primeira edição?

Trajano Vieira: A segunda edição mantém exatamente os princípios que nortearam a primeira: tentar apresentar ao leitor, através da linguagem poética, algo da expressividade estética de um autor extraordinário.

Como se deu o processo de tradução dos poemas para esta antologia, à época da primeira edição? Houve ajustes para esta segunda edição?

TV: O processo de tradução foi uma decorrência do processo de leitura dos poemas do autor. Aqueles textos que me tocavam mais, eu os tentava traduzir. Preservei as traduções que, pelo menos para o meu gosto, atingiram alguma qualidade estética. As demais, deletei. De um modo geral, costumo trabalhar assim: só consigo traduzir obras que, no processo de leitura, me motivam a vertê-las. Isso não é garantia de sucesso, apenas um princípio de trabalho.

 

No prefácio do livro, o senhor fala da poesia fantasmagórica e do exotismo dos personagens de Kaváfis. Poderia, por gentileza, falar um pouco sobre isso para os leitores que não conhecem esse autor?

TV: Trata-se da atmosfera que prevalece nos poemas de Kaváfis. Seus personagens são avessos ao banal e previsível. Normalmente suas atitudes sugerem naturezas excêntricas. Parecem viver num universo deslocado, em que não é mais possível realizar suas fantasias. Daí o tema da morte ser tão recorrente em sua produção. Quase nada do tempo histórico vale a pena ser vivido. O imaginário refinado se expande e domina as ações dos personagens. Um dos parâmetros fortes dessa experiência é o ideal clássico, o tom contemplativo avesso ao utilitarismo e à redundância cotidiana.

 

Konstantinos Kaváfis

O senhor destaca ainda a dimensão estética da linguagem de Kaváfis. O que se pode dizer a respeito disso?

TV: Destacam-se, em sua linguagem, o coloquialismo e o distanciamento da elocução, num padrão verbal de elevadíssimo domínio formal, fazendo às vezes pensar em T. S. Eliot. A erudição do autor se evidencia em seu conhecimento profundo da tradição greco-latina. Muito do desespero que se depreende de situações que ele representa se deve à constatação de que certo gosto literário se perdeu irremediavelmente na modernidade. Registre-se, entretanto, que sua poesia é tributária, por outro lado, de um forte traço da produção moderna: a ironia.

 

Como se dá a inserção de elementos teatrais na poesia do autor grego?

TV: Normalmente, através da configuração de um personagem exótico, que parece histórico, mas não é. Esse personagem desenvolve comportamento incomum diante de uma situação. Tal aspecto que denominaríamos ficcional prende a atenção do leitor, surpreendido com a imprevisibilidade da ação. A beleza é um parâmetro central para esse tipo de personagem, não só a beleza de certa forma física, mas a que se busca num determinado estado de espírito, impossível de perdurar ou até mesmo de se provar. Algumas vezes, fica no ar a sugestão de que nada vale a pena, porque até o êxtase mais intenso não passa de uma quimera na temporalidade transitória.

 

Existe um elemento de coloquialismo na poesia de Kaváfis que permitiria fazer uma aproximação deste poeta com a poesia de Drummond. O senhor pode falar brevemente a respeito, por favor?

TV: Haroldo de Campos, em sua tradução notável do poema mais famoso de Kaváfis, “À espera dos bárbaros”, introduz, num certo momento, uma expressão de um poema de Drummond, correlata ao do poeta neogrego. A aproximação seria possível justamente por causa da confluência de ironia e registro coloquial, presente nos dois autores. Certa visão sobre a trágica experiência humana, um reflexo da percepção da brevidade da vida, é outro aspecto que poderia aproximar os dois autores. Contudo, as figuras emblemáticas da poesia de Kaváfis nada têm a ver com as representações de Drummond. A luxúria que retoma certa visão do classicismo tardio é algo que afasta o primeiro escritor do segundo. A melancolia diante da vulgaridade dos fatos cotidianos leva Kaváfis a outra direção, em que os personagens se arriscam e se excedem em sua incontida sensualidade. Esse tipo de risco é menos presente em Drummond, que se retrai muitas vezes diante da potencialidade do desastre.

 

O senhor considera que há um elemento de ironia na poesia de Kaváfis? Como ela se coloca na obra?

TV: A ironia está presente sobretudo no comportamento de personagens que cultivam a hiperestesia, diante da qual os fenômenos cristalizados pelo senso comum num certo contexto não têm nenhuma importância. É da ausência de ilusão sobre a positividade dos fatos históricos que nasce a ironia extremamente sutil com que o autor constrói a experiência incomum. Registre-se, contudo, que sua linguagem é bastante precisa. Ela não padece de indefinições redundantes, nem de evasões de transes surrealistas.

 

Conheça a obra de Trajano Vieira

 

Um mito, duas versões

Por: Renata de Albuquerque

Trajano Vieira é um dos mais reconhecidos pesquisadores da literatura grega no Brasil. Com uma bagagem de décadas de estudo e dedicação ao tema, ele preparou, exclusivamente para a Ateliê Editorial, a tradução de duas versões da tragédia Electra: uma de Sófocles; outra de Eurípedes. O desejo de vingar a morte do pai desdobra-se, em cada autor, com características próprias, que vão da tensão ao humor. A seguir, o Doutor em literatura grega pela USP, livre docente e professor do IEL,  na Unicamp, fala sobre seu Electra(s):

 

Qual a importância em reunir as duas “Electra” em só volume? Esta é uma iniciativa inédita?

Trajano Vieira: O objetivo maior da publicação num único volume das duas Electra, que apresentam o mesmo mito, foi dar ao leitor a oportunidade de comparar o diferente tratamento conferido ao tema por dois poetas trágicos com características bastante distintas: Sófocles e Eurípides. Desconheço a existência de projetos tradutórios com a mesma motivação. Creio que não há, pelo menos entre nós.

Quais os desafios da tradução para compor um volume como esse? As traduções foram realizadas especialmente para este volume ou já haviam sido feitas anteriormente e foram apenas reunidas?

TV: As duas traduções foram pensadas em função da publicação da Ateliê. Os desafios que obras dessa magnitude impõem ao tradutor são inúmeros. Destacaria, entre outros, a necessidade de encontrar uma coerência formal em português, que dialogue com aspectos centrais da linguagem do original. Se o resultado é positivo ou não, cabe ao leitor avaliar. Contudo, deve-se considerar a relevância ou não do gesto tradutório. Nesse tipo de trabalho, o tradutor se arrisca ao buscar formulações que escapem dos sentidos cristalizados nos dicionários e nas gramáticas. Esses instrumentais são ponto de partida e não de chegada, como costuma ocorrer em traduções escolares convencionais.

 

A bibliografia sobre as Electra(s) é vasta. Para este trabalho especialmente, quais foram as referências utilizadas e por quê?

TV: Eis uma questão de difícil resposta. Como você observa, a bibliografia sobre as duas tragédias é imensa. Até por dever de ofício, por causa da minha atividade de professor na Unicamp, procuro me manter atualizado sobre as publicações especializadas, dando preferência àquelas que abordam questões poéticas e retóricas. Acabo privilegiando os ensaios com qualidade estilística e procuro me distanciar dos que exibem argumentação esquemática e perfunctoriamente acadêmica. Estes últimos trabalhos dão muitas vezes a impressão de estar fazendo uma grande descoberta científica, quando na verdade revelam apenas o uso nem sempre significativo de uma vírgula ou de um ponto e vírgula. Entre os especialistas de tragédia que admiro muito, não só pela agudeza e erudição, como pela elegância da escrita, mencionaria Bernard Knox.

 

Quais são os principais pontos de contato entre os textos de Sófocles e Eurípides?

TV: O principal ponto de contato entre ambos decorre das características de fundo do gênero trágico. Refiro-me à questão do destino e de sua inesperada reviravolta, cujos efeitos nefastos exibem a fragilidade da experiência humana. O personagem atua como senhor de sua história e descobre, ao final, que outros aspectos foram responsáveis por sua forma de agir e de enxergar a vida. Normalmente isso ocorre tarde demais, quando o cenário negativo conduz o herói à própria destruição.

 

O que os distancia mais?

TV: A concepção de linguagem e do próprio gênero trágico afasta os dois escritores. A grosso modo, apenas para situar o leitor que desconhece os autores, pode-se dizer que em Sófocles prevalece o tom sereno e a abordagem clássica do acontecimento trágico. Eurípides é sobretudo moderno e chega a introduzir elementos cômicos em sua obra (notem-se, por exemplo, as características acentuadamente simplórias do marido oficial de Electra…), dando a impressão, muitas vezes, de que seu projeto procura ir além do gênero trágico tradicional. Há um aspecto dramático na Electra de Eurípides que antecipa certos traços romanescos.

 

De que maneira o senhor recomenda a leitura, para que as diferenças e semelhanças fiquem mais claras para o leitor? Cena a cena ou cada peça em sua totalidade?

TV: Cada um de nós deve descobrir o modo mais adequado de realizar a própria leitura. Eu prefiro ler integralmente cada uma das obras, para, num segundo momento, retomar trechos marcantes e estabelecer paralelos.

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Mistura de técnicas marca ilustrações de “Coração, Cabeça e Estômago”

Gustavo Piqueira, da Casa Rex, é um designer premiado internacionalmente. Ele foi convidado a ilustrar a edição de “Coração, Cabeça e Estômago”, de Camilo Castelo Branco, que a Ateliê acaba de lançar, pela coleção Clássicos Ateliê. Nesta entrevista, ele fala ao Blog da Ateliê sobre como foi a experiência:

Quando surgiu o convite para ilustrar a obra, você a leu? Ou o interesse veio após a leitura?

Gustavo Piqueira: Eu a li após o convite, o Plínio Martins Filho me chamou para ilustrar pois considerou que eu gostaria da obra (o que de fato ocorreu).

Caso tenha lido a obra, qual foi sua primeira impressão a respeito?

GP: Confesso que foi surpreendente: como muitos, o que conhecia de Camilo Castelo Branco era “Amor de Perdição” — não esperava uma obra tão divertida como “Coração, Cabeça e Estômago”.

 

Quais foram suas inspirações e referências para ilustrar a obra?

GP: Já que o texto apresentava esse viés cômico, quis brincar com a própria ideia de ilustração contemporânea para um clássico: quase todos os personagens masculinos que ilustrei (inclusive aquele que representa o protagonista) tem o rosto do próprio Camilo Castelo Branco. Mesmo os outros rostos que compõe as ilustrações vem de retratos expostos em sua antiga casa, hoje tornada museu. Além disso, misturei não apenas técnicas de desenho — colagem, pincel, caneta — como também uma execução de aparência mais “descontraída” tomando, contudo, o tipo de caricatura que predominava nos periódicos da segunda metade do século 19 como base gráfica estrutural. Ou seja, a ideia foi mesclar técnicas, épocas e tons.

 

Qual a função, em sua opinião, das ilustrações nesta edição?

GP: Penso que ajudar a aproximar o leitor contemporâneo do texto, ajudar a remover uma eventual torcida de nariz que aqueles livros considerados “clássicos” podem trazer a tiracolo, como se a classificação fosse sinônimo de conteúdo pouco interessante ou ultrapassado.

 

Camilo Castelo Branco é um autor considerado romântico, mas nesta obra ele mostra uma veia cômica bastante marcada. Isto, para o trabalho de ilustração, foi um desafio ou um elemento que ajuda na desconstrução da imagem canônica do “clássico para vestibular”?

GP: Para a ilustração não foi nenhum problema, pois os desenhos terminam por se vincular muito mais à narrativa específica do livro do que à obra do autor como um todo.

Como essa veia cômica do autor foi traduzida no trabalho de ilustração?  

GP: Escolhi passagens específicas que pudessem ser traduzidas em desenhos divertidos e, mesmo naquelas imagens que ilustram trechos mais neutros, busquei acrescentar alguma expressão ou movimento que carregasse um pouco de graça. O objetivo foi o de criar uma série engraçada, mas sem passar do ponto.

 

Como foi o trabalho de elaboração da capa? Qual foi sua preocupação maior quanto a este aspecto?

GP: A capa deveria seguir o padrão da coleção Clássicos Ateliê. Logo, penso que o trabalho foi muito mais o de encontrar um “encaixe” entre a linguagem que adotei nas ilustrações e essa estrutura.

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“Coração, Cabeça e Estômago”: o humor de Camilo Castelo Branco

A nova edição de Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco, da Ateliê Editorial, chega às prateleiras como um dos escolhidos a leitura obrigatória do vestibular da Unicamp. A edição busca ajudar o estudante a entender melhor a obra e, para isso, tem apresentação de Jean Pierre Chauvin, doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada, e notas e estabelecimento de texto feitos por ele e por José de Paula Ramos Jr., coordenador da coleção Clássicos Ateliê.

Para além da recomendação do vestibular da Unicamp, Coração, Cabeça e Estômago tem um humor que desperta a atenção do leitor e traz prazer à leitura. A seguir, Jean Pierre Chauvin fala sobre a obra:

Quais foram os principais desafios para o estabelecimento deste texto?

Jean Pierre Chauvin: Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco, data de 1862. De modo a cumprir a vontade do autor e apresentar a versão mais fidedigna possível da obra, o texto do romance foi cotejado com a sua segunda e última edição publicada em vida, ou seja, a versão de 1864. O trabalho, minucioso, foi realizado a quatro mãos, em produtiva parceria com o Professor José de Paula Ramos Júnior, docente do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, USP. Preservamos o texto original em sua íntegra, ao qual foram implementados ajustes que resultaram em atualizações na grafia e pontuação. Edições posteriores do romance também foram consultadas, com o objetivo de dirimir eventuais dúvidas, respeitados os critérios editoriais.

 

Que tipo de barreiras que o leitor brasileiro possa encontrar neste livro o trabalho de estabelecimento de textos e notas desta edição da Ateliê procurou minimizar? Como se deu a realização desse trabalho?

JPC: Creio que o maior obstáculo, para o leitor de hoje, estaria em compreender o léxico empregado pelo romancista português. Por ser uma obra de 1862 – redigida em linguagem castiça e em acordo com o vasto repertório do autor –, Coração, Cabeça e Estômago demandou cuidadoso levantamento do glossário da época, além de numerosas referências e dados culturais a que o autor alude. Este trabalho também foi realizado em parceria com o Professor José de Paula Ramos Júnior.

 

É possível dizer que este livro  é “um ponto fora da curva” dentro do contexto da obra de Camilo Castelo Branco, devido ao humor que contém, ou outras obras do autor também contam com esta característica?

JPC: Camilo Castelo Branco é reconhecido com um dos autores mais prolíficos da língua portuguesa, tendo legado mais de cento e trinta romances e novelas, compostos ao longo de sua carreira. Não se pode afirmar que se trate de um romance atípico, tendo em vista que o escritor alternou narrativas de diversos modos, temas e características, em que predominavam ora o motivo lírico, ora o tom jocoso. Chamaria a atenção para obras como Vinte horas de liteira e A queda dum anjo, acentuadamente pautadas pela ironia.

Camilo Castelo Branco

O humor de “Coração, Cabeça e Estômago” é talvez o aspecto que torna o livro mais conhecido. Este humor consegue divertir o leitor brasileiro do século XXI? Que outros atrativos ele terá na obra?

JPC: O humor se manifesta de várias formas, no romance. Afora as peripécias em que o narrador se envolve, há que se levar em conta o modo como ele maneja a linguagem, ora a conceder menor importância a fatos de grande relevo, ora a sobrevalorizar eventos que, aparentemente, não mereceriam maior atenção. Aí está um dos truques que realçam o traço humorístico e evidenciam o acento irônico do romance. Um leitor que admire e se divirta com a obra de Machado de Assis em nossos dias certamente reconhecerá em Camilo uma de suas matrizes estilísticas e temáticas.

 

Como se estrutura a metalinguagem neste romance?

JPC: Em diversas ocasiões, o narrador discute o ato de recontar os episódios que presenciou e, inclusive, os lances decisivos de que tomou parte. Além disso, há constantes interferências do protagonista nos episódios em andamento, na forma de digressões que relembram ao leitor o caráter convencional da arte literária e permitem-lhe extrapolar os limites do gênero e a filiação do romance, seja como obra romântica, seja como romance realista.

 

Machado de Assis

Há quem tente aproximar esta obra às “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, marcadamente graças à condição pós-morte estabelecida em ambas. O senhor concorda com esta aproximação? Por que?

JPC: A aproximação entre os romances é possível e produtiva, especialmente se considerarmos os constantes diálogos que ambos os narradores ensaiam com o leitor. No entanto, a condição do “defunto-autor”, concebida por Machado de Assis, soa ainda mais radical que a do romancista português. Em Coração, Cabeça e Estômago, o leitor toma contato com um relato aparentemente deixado para a posteridade; já em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o morto fala e, de certo modo, revive enquanto escreve: o tempo do relato e a modalidade do registro difere consideravelmente de uma narrativa para a outra. No que se refere ao enredo, há episódios que apontam relações intertextuais entre os romances de Camilo e o de Machado. Esse diálogo entre as obras sugere a admiração que o escritor brasileiro nutria pelo romancista português.

A obra está na lista de vestibular da Unicamp. A que aspectos da obra o estudante  deve estar atento, se o objetivo da leitura for o vestibular?

JPC: A seleção de Coração, Cabeça e Estômago para o vestibular é oportuna. Como experiência, a fruição do romance é prazerosa e, por isso mesmo, demanda maior atenção. O primeiro alerta diz respeito à advertência, também apontada pela crítica machadiana, de que se deve desconfiar do narrador camiliano. Por ser uma narrativa em primeira pessoa, seu ponto de vista é necessariamente parcial: o leitor acessa a uma das versões dos acontecimentos, segundo a sua ótica peculiar. Além disso, é preciso detectar os momentos em que o protagonista diz uma coisa para sugerir outra. Para isso, ele tece afirmações que afetam modéstia; elogia ações que, no fundo, condena; finge criticar atitudes que nos parecem louváveis. No que se refere à linguagem utilizada por Camilo, orienta-se que o leitor recorra às notas explicativas, de modo a captar precisamente o que o seu narrador descortina, disfarça ou esconde. Afinal, ele não diz o mesmo da mesma forma nas três partes da autobiografia. O seu temperamento muda em acordo com as fases da vida. Poder-se-ia afirmar que se trata de uma narrativa, por assim dizer, fisiológica.

 

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Os Sertões ganha reedição

A Ateliê acaba de lançar a 5ª edição revista e ampliada de Os Sertões. Segundo o professor Leopoldo M. Bernucci, responsável pela edição, cronologia, notas e prefácio, ela “é a única no mercado que oferece de modo abundante e detalhado” notas explicativas sobre a obra e seu contexto histórico. “Tivemos o cuidado de preparar um índice onomástico que acreditamos ser bastante útil para dilucidar muitas das biografias ligadas aos personagens e autores citados por Euclides. O índice remissivo não é menos proveitoso, pois auxilia na busca temática e onomástica com maior agilidade. Incluímos um prefácio nosso também que serve de introdução para os leitores apreciarem a diferentes linguagens que se entrecruzam em Os Sertões”, resume o professor na University of California-Davis, localizada em Davis, California (USA). A seguir, ele fala sobre o trabalho em entrevista para o Blog da Ateliê:

Quais os desafios de preparar uma edição de “Os Sertões”, um clássico brasileiro?

Leopoldo M. Bernucci: A complexidade inerente ao preparo de uma edição como a de Os sertões publicada pela Ateliê desde 2001 se observa no número e na qualidade de notas explicativas a um texto considerado até hoje “difícil”. O desafio maior neste caso, para nós, foi torná-lo minimamente acessível ao público leitor. De que maneira isto foi feito? Em primeiro lugar, contextualizando muitas das referências e alusões encontradas no texto; em seguida, levando os leitores às possíveis fontes de informação utilizadas pelo autor e, finalmente, oferecendo um glossário para o léxico algo hermético de Euclides da Cunha.

As razões para vencer tais desafios são de caráter principalmente técnico, pois o objetivo era apresentar ao público a atualidade de Os Sertões e explicar o seu caráter de obra “clássica”. Para tanto, basta mencionar aqui alguns aspectos do livro e remeter os leitores interessados por este assunto específico a um ensaio que publiquei há uma década  no livro João Alexandre Barbosa: O Leitor Insone. O ensaio se chama “Os sertões como um clássico”. Aclamado ao longo dos anos, depois de mais de um século de sua publicação, Os sertões sem sombra de dúvida é um clássico em todos os sentidos. É lido e relido por um público-leitor diverso, inclusive em muitas de suas versões traduzidas; tem influenciado uma série de escritores estrangeiros como José Eustasio Rivera (Colômbia), Mario Vargas Llosa (Peru), Sándor Márai (Hungria), e brasileiros como Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Paulo Dantas. A sua capacidade universalizante, ainda, faz com que o livro toque os nossos corações tanto pela narração dos fatos regionalizados (interior do nordeste do Brasil) quanto por aquela que, desbordando da esfera local, passa ao mundo da tragédia humana e dos sentimentos comuns e gerais a todos nós. Além disso, como grande clássico, Os sertões revela a consciência que esta obra tem de sua própria linguagem. Isto é, a linguagem euclidiana sinaliza direta e indiretamente as pulsações de sua presença e o valor de sua importância, não só como instrumento para narrar fatos, mas também como veículo de enorme poder de representação destes. Em síntese, é um livro de denúncia social de um dos maiores massacres ocorridos na história do Brasil e que está narrado com uma das mais belas e eficazes linguagens artísticas de todos os tempos.

Leopoldo M. Bernucci

A presente reedição foi revista e ampliada. O que ela traz de diferente da edição anterior?

LMB: Como fizemos com as demais, esta 5ª. edição revista busca aperfeiçoar e expandir o que havíamos feito antes. Isto é, além de preencher as lacunas deixadas nas edições anteriores, retocamos a biografia do autor com base nas últimas e contínuas pesquisas sobre a obra monumental de Euclides. Tal tarefa não é das mais fáceis, já que qualquer pesquisador sério tem que necessariamente enfrentar as dificuldades ligadas à investigação nos arquivos e bibliotecas. Referimo-nos ao fato de, ainda em pleno século XXI, nos depararmos com inéditos do autor que iluminam sobremaneira a sua biografia e obra. A leitura, organização e a interpretação desse material desconhecido implicam enorme esforço de revisão do que já foi escrito pela crítica.

 

No prefacio, é abordada a questão das diferentes linguagens de Os Sertões. Pode explicar muito brevemente a quem não leu ainda o prefácio quais são essas linguagens e por que são usadas?

LMB: Homem de ciências e letras, Euclides manejou como ninguém uma variedade de dicções que refletem o amplo espectro de saberes que ele possuía. Neste texto clássico da nossa literatura brasileira há um encontro fortuito de linguagens que se entrecruzam e que são particularmente específicas a certos tipos de livro, gênero literário, instituições e disciplinas: a Bíblia, a Geologia, o Exército, a Arquitetura, a Meteorologia, a Épica e o Teatro, para ficarmos com apenas alguns exemplos. Esse hibridismo linguístico, num primeiro momento visível no nível lexical, transforma-se depois em imagens homólogas no discurso euclidiano. Por exemplo, para explicar a formação racial no Brasil, nas Notas à 2ª. Edição, Euclides lança mão de uma comparação geológica com os três elementos principais do granito. Da épica, o nosso autor extrai as cenas de luta entre os soldados do exército e os canudenses, a descrição dos instrumentos de guerra, o heroísmo de alguns indivíduos (João Grande, o major Henrique Severiano), e a invocação homérica plasmada na frase Tróia de taipa para definir Canudos. Frases ou vocábulos como Anticristo, Canaã sagrada, arca da aliança e muitos outros estariam aproximando a linguagem bíblica da que procura configurar o mundo religioso de Canudos permeado de um Cristianismo antigo ou primitivo. Poderíamos prosseguir com mais exemplos, porém, fiquemos com esses três e convidemos os leitores a lerem o nosso Prefácio para observarem outras manifestações discursivas.

 

Quais as principais qualidades artísticas de Os Sertões que fazem com que a obra mereça ser lida ainda hoje?

LMB: Entre as mais destacadas qualidades artísticas do livro, estariam a extraordinária erudição de Euclides e a sua habilidade no uso da língua portuguesa transformada pelo seu talento de escritor em linguagem artística. Um grande autor como ele, não somente conhece a tradição da historiografia ou da literatura, mas como já afirmamos acima, exibe um notável conhecimento científico que termina casando-se perfeitamente com essa linguagem. Em resumo, neste famoso escritor, o consórcio entre ciência e arte, como Euclides gostava de assim definir a sua maneira de escrever, é perfeita. Com essa mistura de dotes artísticos, que tão bem caracterizam a sua forma de contar uma história, dando-lhe um significado profundamente épico e trágico, e enriquecendo-a de conhecimentos científicos, o nosso autor eleva a sua narrativa, principalmente sobre Canudos, a um nível máximo de qualidade estética, de argumentação retórica e de uma invulgar precisão no narrar dos fatos.

Já faz alguns anos o professor Alfredo Bosi definiu muito bem a qualidade imperecível que possui Os Sertões. Segundo ele, a atualidade desta obra está na ‘’inegável potência de sua representação”, ou seja no grande talento empregado pelo escritor na criação de sua linguagem artística. Diz ainda este arguto crítico, que Euclides foi mestre em “ler atrás do fato o seu contexto”, confirmando aquilo que sempre se verifica nele: um estudioso, de raciocínio lógico, dedutivo, guiado pela lei da causalidade. É um autor que, em última análise, quer e sabe questionar; e portanto, as suas arguições sempre buscam “superar fáceis esquemas ideológicos” emprestando assim maior vigor e complexidade às unidades caracterizadoras daquilo que ele procura entender. Litoral/sertão, branco/mestiço, ciência/superstição são alguns dos pares antitéticos que uma vez dialetizados por Euclides, saem da zona de conforto das oposições para se tornarem núcleos sintéticos de alta relevância para a compreensão da cultura e história brasileiras.

Conheça Leopoldo M. Bernucci

Ler livro, ser livre (a importância da leitura na formação do jovem leitor)

Por Renata de Albuquerque

Em abril, celebra-se o Dia Internacional do Livro Infantil. Para falar sobre a importância da leitura para crianças, o Blog da Ateliê entrevistou Marise Hansen. Ela é Professora de Literatura e subcoordenadora de Português no Colégio Bandeirantes. Mestre e doutoranda em Literatura Brasileira – USP, é autora de “Porta-retratos” e responsável pela apresentação e notas da edição de “A Ilustre Casa de Ramires”.

Qual a importância da leitura na infância?

Marise Hansen: A leitura na infância é tão importante quanto o se alimentar e o brincar. Estimula a imaginação, incrementa o repertório cultural, desenvolve a empatia. São histórias de “outros”, mas que a criança consegue imaginar como suas, guardado o limite de segurança da representação ficcional, e “viver” experiências e sentimentos que, do contrário, não viveria. Uma criança que lê tende a tornar-se um adulto mais empático, porque só a leitura propicia um “viver outra vida”, o ver o mundo sob outros olhos.

A partir de qual idade já se pode estimular esse hábito?

MH: Por experiência própria, porque fiz isto com meus dois filhos, penso que se deva estimular esse hábito desde a idade de meses. Quando o bebê já consegue segurar objetos, os livros devem ser colocados em suas mãos, e toda hora é hora de folhear páginas, imaginar situações e histórias, ver o mundo representado: na troca de fraldas, no banho (com os livros de plástico). Se o bebê leva o livro à boca, sem problemas, é seu modo de apreendê-lo, faz parte da fase oral. Aos poucos ele vai descobrindo que pode “devorar” o livro sem ser literalmente. Mas já está dado o primeiro passo para a familiaridade da criança com os livros. O primeiro presente que faço questão de dar aos filhos recém-nascidos de amigos é um livro, de pano, plástico, ou cartão grosso.

Como estimular o hábito da leitura? 

MH: Continuando a resposta anterior, o hábito da leitura deve ser estimulado desde cedo. A manipulação do objeto livro é fundamental, o bebê se diverte, sente prazer ao ver figuras e ouvir a voz dos pais se referindo a elas, contando uma história. Sem dúvida, a leitura em voz alta para a criança de qualquer idade é um momento decisivo, até “sagrado”, eu diria. Nada melhor do que silenciar uma TV e ouvir a apenas a voz do contador de histórias, ou contadores, porque as crianças muitas vezes participam ativamente da narração, seja perguntando, comentando, complementando ou até “corrigindo” a história! Comentam as ilustrações, o enredo, os valores envolvidos. Trata-se, portanto, de um momento em que se dão, simultaneamente: aproximação física e emocional com a criança; estímulo da imaginação a partir de tudo o que a história sugere, ou diz sem dizer integralmente; estímulo da percepção visual, com as ilustrações, e da auditiva, com a ênfase no dizer e no pronunciar. A meu ver, tudo isso junto é responsável por desenvolver na criança um tipo muito particular de inteligência, que costumo chamar de “inteligência poética”.

A escola estimula a leitura, mas por outro lado, como existem as “leituras obrigatórias”, muitas crianças e adolescentes acabam por não ter o hábito da leitura. O que os adultos (pais, professores, responsáveis, familiares) podem fazer para diminuir essa sensação de obrigatoriedade?

MH: Acho que deve haver quem mostre ao jovem leitor a pertinência e a atualidade das obras “obrigatórias”, via de regra, as “clássicas”. Se há quem as apresente, leia com eles (filhos, alunos) as páginas iniciais (normalmente, as mais difíceis, pois são a entrada num universo novo, inclusive quanto à linguagem), discuta algumas ideias, eles acabam se interessando, sim, a despeito da obrigatoriedade. Se você apenas “manda” ler, por exemplo, o Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, obra de 1517, é uma coisa; se você lê trechos com os alunos, explorando a sonoridade do texto, o humor das falas e a atualidade dos temas (corrupção, preconceito, prepotência da elite), é outra, muito diversa. Algo que tem tido êxito na escola em que trabalho é associar a leitura dos clássicos a obras contemporâneas, compará-las, aproximá-las, identificar o conteúdo comum às questões humanas, independentemente da época em que foram escritas.

Os livros paradidáticos podem contribuir para que crianças cultivem o hábito da leitura? Que livros podem ser oferecidos a cada faixa etária?

MH: Eles não só podem, como devem contribuir para a criação e manutenção desse hábito, desde que lidos de modo significativo, compartilhado. O professor deve atuar como um mediador das leituras e discussões, não como alguém que “manda” ler para apenas fazer perguntas, fazer uma prova, verificar a leitura, o que até pode ser feito, mas não como objetivo primeiro. Na primeira infância devem ser oferecidos inicialmente os livros coloridos, bem ilustrados, com histórias simples, poucas personagens e cenas estimulantes, depois as fábulas e contos de fada, que tratam de valores, medos, emoções a partir de um universo fantasioso. Depois de consolidada a alfabetização, pode-se partir para os livros de aventura, e então para os que tratam do cotidiano de pré-adolescentes e adolescentes, ou biografias, que abordam conflitos, dilemas, tomadas de decisão.

Os professores que, por dever curricular, precisam trabalhar os clássicos em sala de aula, muitas vezes encontram uma barreira: os alunos não entendem o vocabulário (por conta da data em que os clássicos foram escritos) ou ficam resistentes ao conteúdo. Como lidar com esta situação e em vez de criar uma barreira, fazer com que os alunos possam aderir e entender a importância desses livros?

MH: Como diz Ana Maria Machado: “Clássico não é livro antigo e fora de moda. É livro eterno que não sai de moda”. O primeiro passo é o próprio professor se convencer disso. Se ele mesmo está convencido da atualidade e do sentido que a leitura de determinado clássico pode fazer, ele apresenta o livro como um verdadeiro convite, uma oportunidade, e não como uma obrigação. Se “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, de acordo com Ítalo Calvino, o aluno tem de ser estimulado, até desafiado, a atualizar seu sentido: como a sua leitura pode extrair do clássico aquilo que ele ainda não disse? Os alunos costumam apresentar hipóteses surpreendentes de leitura, quando se aborda o clássico sob essa perspectiva.

Conheça a obra de Marise Hansen