Contos

Silenciosamente e no Breu: Rosa e Carrascoza em “Silêncios no Escuro”

Renato Tardivo*

Silêncios no escuro, primeira obra de ficção adulta de Maria Viana, como já aponta o título, é construído por metáforas sensíveis. A referência mais direta talvez seja Guimarães Rosa, mas, entre os autores contemporâneos, os contos do livro também dialogam com a poética de João Carrascoza, um dos principais escritores brasileiros contemporâneos.

Por meio do trabalho com a palavra que diz ao não dizer, do retrato do Sol que ilumina ao se pôr, as narrativas não desvendam o mistério em seus desfechos. São metafísicas por excelência.

“Em nome do pai”, conto que abre o livro, é tocante. Mostra o triunfo da vida, ainda que na “17ª tentativa”, e, invertendo a ordem natural das coisas, coloca a vida como herdeira da morte.

“A cobra na cabaça” narra o encontro invisível entre duas pessoas, através da música, separadas ainda (para sempre?) pela “madeira da porta”. “Balaio de cabeças” dialoga com o clássico “A terceira margem do rio”, do já mencionado Guimarães Rosa: o desparecimento de um marca o surgimento da lenda.

Como nos contos de João Carrascoza, a temática da morte é frequente: a morte que “poupa de gritos dilacerantes”, em um dos contos mais longos do livro, “A praga”. Em “A santa que fugiu do altar”, pródigo em metafísica, Manuelinha lembra muito Niilinha, do conto “A menina de lá”, de Rosa. “Condensação e deslocamento”, noções fundamentais para a definição de sonho, por Freud, retrata algumas cenas, como em um filme (um sonho?), de modo que a ligação entre elas perfaça o percurso de uma vida, ainda em aberto.

A última narrativa, “Em busca do pai”, cujo título remete à primeira, a filha encontra o pai, em sonho, no céu. Sonhar, aqui, forma caráter; confere densidade à subjetividade. Uma vez mais, é a vida a herdeira da morte – silenciosamente e no breu.

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

COMO VOCÊ CHAMA ?

tiago

 

Amadeu era inseguro com seu nome porque soava pra ele como um “nome gay”. Talvez fosse pelo “deu” no final, ou pelo “ama” no início, ele não sabia ao certo. Não explicava pra ninguém porque, mas não gostava do nome e não fazia questão de esconder.

Matias também não curtia seu nome. Não possuía muita consciência disso porque fazia parte dessa juventude que não pensa muito sobre nada. Juventude irrefletida, crianças ípsolon ou coisa que o valha. A moda já é feia por si só e fica pior quando substitui a mente. A verdade oculta por trás da ignorância é que Matias soava como o futuro do pretérito deve soar: ias, pensastes, pretendias… Seu nome soava como a sensação de habituar-se ao fracasso.

Devid odiava seu nome de pobre, desses que tem a intenção de soar chique e estrangeiro, mas que devido à maldade ou ignorância do escrivão do cartório, pra sempre soaria como um erro de grafia. Preferiria ser chamado de Dáivide por uma má pronúncia abrasileirada dum David bem grafado do que o contrário…

Joanderson não ligava pra como seu nome soava. Era surdo-mudo e por toda a vida jamais desconfiaria de quantos professores e colegas de sala ironizavam a feiura do seu nome. E esses nunca entenderiam como Joanderson fica legal quando dito em libras.

Seu Luís nunca comentara nada com ninguém sobre seu nome, apesar da idade avançada. Seu nome era normal, um nome comum, e ele um senhor tímido… Não havia porque fazer alarde. Mas no fundo, detestava ser chamado de Seu Luís. Porque era negro e o tratamento “seu” lhe remetia posse. Como se de alguma forma ele fosse dono de algum outro Luís. E isso, muito lá no fundo de verdade, lhe fazia mal, mesmo que seu Luís fosse ele mesmo.

Catherine insistia que a pronúncia correta do seu nome era Quétrhine, mas como quase ninguém conseguia, pra simplificar sugeria que a chamassem de Quéti, porque na sua imaginação se sentia uma gata assim…

Jansem adorava seu nome porque, por alguma razão, isso o fazia sentir-se um galã de filme americano.

Dandara é uma menina linda, negra, forte, cheia de vida, coragem e esplendor, mas sentia vergonha do seu nome porque o achava meio estranho. Tinha perdido o lastro da origem histórica do seu nome, dado pela avó que faleceu antes que pudesse explicar. Queria chamar Kéthlin, como a gordinha mal educada que monopolizava as atenções dos garotos no grito e no shortinho. E olha que Dandara nem gostava de garotos…

Zenaide não conheceu seus pais e era curiosa de saber porque se chamava assim, mas não tinha problemas com o nome. Seus amigos a chamavam de Zê.

Joyce Maria gostava do seu nome, mas detestava que fosse composto. Sempre escondia o Maria. Preferia que não soubessem e achava que abreviando só com um discreto Ma, escondido sob uma rubrica bem rabiscada ninguém perceberia.

Nogueira se acostumou a ser chamado pelo sobrenome. Sentia que assim pareceria mais competente, mais sério. E decerto ninguém se importava quando chegava atrasado.

Cesinha era um cara imenso, grandalhão de corpo – forte, mas menor que seu espírito gigante. Amante de Prí e pai de Ravi. Segue adiante sem saber o quão orgulhoso é de si.

Sebastião dos Santos ouviu quando criança que “dos Santos” era nome de bastardo. Nome dado pra quem não sabia quem era o pai. Ele conhecia pai e mãe, de quem herdara o sobrenome. Gente boa, trabalhadera. Mesmo assim se constrangia dos santos.

Lívia era loira e tinha um sobrenome europeu. Temia que todos pensassem que era uma almofadinha filhinha de papai. E era mesmo.

Neto aceitara seu nome desde bem cedo. Nunca desgostou nem nunca contestou. Só parecia certo pra ele. A força impositiva da tradição. Seu primeiro nome sumia, era Neto, filho do seu pai que tinha de nome Filho e neto do seu vô, como se isso fosse exclusivo só da sua família.

Carlos não tava nem aí. Carlão é grosso, todos diziam. “Foda-se” ele respondia num silêncio-sorriso vago.

Romário, Ronaldo e Richarlisson só desprezavam futebol mais do que seus próprios nomes. Nunca teriam sucesso porque nunca seriam capazes de falar seu próprio nome com convicção. Diz-se que, pra se ter sucesso, ser avante na vida, é preciso saber bradar o próprio nome. Um dia, na praia, urrando pro mar, ou em noite de lua, uivando alto, ou na rua, na madruga, evocando sem medo seus deuses e diabos de dentro.

Quem sabia disso era Zé. Seu nome era Daniel, mas seu apelido é Zé, e dentre tantos amigos, intuiu isso sozinho. Entre Ti, Tatu, Moa, Rafa, Tati, Ju, Mári, Dúdi, Rô, Gabs, Regs, Will, Gui, Tom, Tchéllo, Giba, Fê e Di, aprendeu que o nome escrito é detalhe num pedaço bobo de papel, que o que pega mesmo é o Zé, a pronúncia, o verbo feito no ar: som, vibração, intenção. O chamado. O nome que flui fácil, que logo deixa todo mundo habituado.

Dona Helena, por exemplo, é o nome ocidental da senhora Kuniko. Ela acha que terão dificuldade de sacar seu nome japonês no Brasil, ou talvez seja só um jeito de preservar um nome meio secreto, um pseudônimo no RG. Como Gê, apelido de Geni que foi formalizado no papel passado porque ela já não suportava mais a associação com a canção do Chico. Ou Adão, cujo sobrenome era impronunciável e ninguém sabia direito apesar de estar nos jornais todas as semanas. E tinha também o caso de Beila, que no registro era Berta, mas que era chamada de Beila há tanto tempo que quando a chamavam por Berta ela nem se dava conta de que era com ela. Não respondia e às vezes chegava ao cúmulo de esquecer o próprio nome e surpreender-se com a redescoberta.

Tem os bebês gordinhos que mesmo estando na maternidade, com seus nomes escritos em uma ficha pela primeiríssima vez, nem parecem ter nomes de criança: Jasão, Arão, Rubens, Vladimir, Conceição. Tem também o filho do Rodras com a Ana, que não é Arthur, mas Tuco. Ou o Thiago que não é Thi, mas T.H.

Tem os nomes ocidentais preferidos de pessoas orientais: Hélio, Cássio, Cristina, Reginaldo. Ou ainda os nomes afrescalhados: Marianne com com dois enes, Lecy com ípsolon, Orácio sem agá…

Tantos seres que nem pensavam em seus nomes, influenciados ou não por eles. O nome é como o casco de uma tartaruga. Exerce um peso sobre você, está a sua volta, faz parte do que você é, define sua natureza. E não há como fugir dele.

Kelly, por exemplo, era super recatada pra compensar seu apelido. Max tinha complexo de inferioridade. Iraê descendia de índios e era técnico de informática. Givanildo era super simpático e considerado boa praça. E diz que no interior de Pindamonhangaba, tem um roceiro de oitenta e quatro anos chamado Aristóteles. Alceu, Pompeu e Abreu, gostam de dizer “só sei que não fui eu”. Amarildo partiu, ninguém sabe, ninguém viu. Aratan é grande demais até pro sobrenome Brasil. Silas o primeiro tem nome de guerreiro. João, vulgo Jão, nascido em Junho, faz seu corre como ladrão. Sandro sorri tão gostoso que seu apelido é Simpatia, quer ser diplomata, fala manso e esbanja empatia. Salomão é chamado Saloma, tão generoso que por onde passa, soma. Isaac sentia que seu nome estava extinto e que nunca encontraria um xará. Gisela ficou na moda e virou nome de magrela.

Serão os nomes que interferem nas pessoas ou o contrário? Esse mistério pra sempre permanecerá, o velho paradoxo da criação. Pela tradição hebraica, parece que a palavra faz o poder e não o contrário. Então Adonai, não nos abandonai! Mas também não vamos só dizer amém pra tudo quanto é HaShem. Pensa bem, pensa bem nos nomes que as coisas têm. E não vem com besteirol verborrágico, porque quando desperdiçamos palavras isentas de sentido, a mágica se vai do verbo e os nomes ficam sem: Encanto? Engenho? Ensino? Entretanto, lamento ver tantos seres lindos envergonhados de seus nomes como se isso definisse o que são. A tartaruga tem uma impressão única no tal do casco duro, assim como temos nas pontas dos dedos. Mas tem também as tartarugas de desenho animado, que abandonam as casinhas e partem com trouxinhas nas costas pra outras paragens. Em condições mais ou menos cartunescas, o mesmo vale pra caramujos, peixes de aquário e o homem civilizado. Cada ser pode ser outra coisa, se fizer deixar ou assim permitir. Glutões insensíveis às vezes viram mesmo porcos. Canalhas obedientes às vezes viram mesmo cães. Pessoas lindas e frágeis às vezes viram mesmo flores. E o parceiro de todas as horas às vezes vira mesmo uma rocha.

Então a lição é equilibrar o cala e o fala no meio da tua cabala. Faço votos de que abra a trava da tua cadabra. E de que dê mais atenção a uma pergunta tão cara quanto barata:

Como você chama?

Lua Cheia em Sampa – Sexta-Feira, 13 de Junho, 2014.

Tiago Abreu é historiador  formado pela PUC-SP e trabalha como educador de todas as áreas das ciências humanas. Desde 2004 coordena e participa do coletivo de arte e grupo de estudos NeoMitoSofia , que tem por objetivo interelacionar histórias em quadrinhos e diversos desdobramentos da arte contemporânea com a filosofia. Atualmente também tem atuado como colaborador da Revista Córrego, como escritor de crônicas, artigos e poesias. 

Chuva de dúvidas

Bruno Molinero | Folha de São Paulo | 29 de março de 2014

"Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura", de Liev TolstóiUm rato vivia embaixo de um celeiro e se alimentava de restos de comida que caíam por um buraquinho no chão. Certo dia, ele decidiu aumentar o tamanho do furo. Um camponês, porém, percebeu o grande buraco e decidiu tapá-lo.

Essa é uma das histórias que o escritor russo Liev Tolstói (1828-1910) contava para crianças que estudavam na escola que ele mantinha em sua propriedade. Os textos agora estão reunidos em Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura, que tem também um outro volume a ser lançado.

Mas o que a história do rato quer dizer? Que é ruim ter o olho maior que a barriga? Ou que é melhor não chamar a atenção? As histórias não trazem uma conclusão. Ao contrário: inundam a cabeça de dúvidas. É da troca de ideias que o escritor acreditava nascer a educação.

E tudo isso sem ser cansativo. Tolstói para crianças é bem diferente do que adultos estão acostumados: suas fábulas são curtinhas, ao contrário de seus romances famosos, que podem ter mais de mil páginas.

Os alunos de uma escola da Rússia que o digam. Após lerem os contos, mais de cem anos depois de escritos, eles os ilustraram. São esses desenhos que dão cor às páginas do novo livro.

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Leia a resenha de Renato Tardivo sobre o livro

Veja mais ilustrações do livro

Ilustração de Mikhail Morósov, 14 anos

Ilustração de Ksiucha Melnitchenko, 14 anos

 

 

 

Ilustrações do livro Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1

Neste Dia Internacional do Livro Infantil selecionamos do livro algumas das belas ilustrações feitas por crianças russas a partir das narrativas escritas por Liev Tolstói

Escrito por Liev Tolstói e ilustrado pelas crianças da Escola Infantil de Artes n. 9, da cidade de Ijevsk, na Rússia, este livro traz 38 narrativas baseadas em fábulas, histórias reais, contos folclóricos e outros textos que eram usados em sala de aula na escola rural criada pelo escritor russo. Preocupado com a educação das crianças e dos pequenos camponeses, Tolstói produziu muitos livros de histórias para crianças e cartilhas. Leia o release

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Leia a resenha sobre o livro escrita por Renato Tardivo

Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1" Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1" Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1" Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1" Ilustração do livro "Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1"

A Transmissão da Palavra ao Imaginário Infantil

Renato Tardivo

Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1Liev Tolstói (1828-1910), escritor russo, é o célebre autor de Guerra e Paz e Ana Karenina, obras que se tornaram marcos da literatura mundial. Também difundidos são os textos de inclinação anarquista que fazem do autor uma referência importante em estudos sobre política. No entanto, nem tão conhecidos do grande público – embora lidos  por milhões de crianças pelo mundo – são os escritos de Tolstói dirigidos às crianças. O escritor manteve uma escola, em sua propriedade próxima a Moscou, onde lecionava a camponeses pautado pelo princípio da liberdade.

Em Contos da Nova Cartilha­ – segundo livro de leitura (vol. 1), reúnem-se fábulas, contos, raciocínios e histórias verdadeiras escritos por Tolstói que facultam ao leitor a experiência da liberdade para criar, imaginar, pensar. Assim, não se trata de narrativas com uma simples “moral da história”; em outra direção, os textos convidam a pensar sobre seus dilemas, despertando o interesse pelo conhecimento. Com efeito, interessantes e inteligentes, as narrativas não se destinam apenas ao público infantil, mas a todo leitor que se dispuser a ampliar a gama de significações acerca de si, dos outros, do mundo.

Parece atravessar os textos a tese de que aprender é criar e, por extensão, de que não há pensamento ou filosofia que se justifiquem senão aqueles que se questionem continuamente. É emblemático, nesse sentido, o texto “O Tato e a Visão”, em que, no primeiro momento, o autor evidencia a tese de que “os dedos enganam, mas os olhos corrigem”, e, em seguida, desconstrói a verdade absoluta que se poderia encerrar na tese anterior explicitando que também “os olhos enganam, mas os dedos corrigem”. Essa confusão, no limite insuperável, se coloca sempre que há abertura à alteridade, na medida em que não há conhecimento a respeito do outro que o encerre.

Trocas mercantis, relações do homem do campo entre si e com a natureza, a luta pela sobrevivência, variadas são as temáticas das narrativas, que na presente edição são acrescidas de belíssimos desenhos produzidos a partir dos textos por crianças russas dos dias de hoje. Note-se, entretanto, que não se trata de ilustração no sentido de dar aos textos sua justa medida, uma vez que a justa medida das coisas – e da palavra – nunca se atinge, mas é a própria transmissão dos textos ao imaginário infantil que ganha forma também na comunicação que se estabelece no nível das diferentes linguagens – palavra e imagem –, deixando para sempre em aberto (o que provavelmente agradaria Tolstói) a questão: onde mora o saber, no professor ou no aluno?

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Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. É professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Livro apresenta parte de Tolstoi

Dirce Waltrick do Amarante |  A Gazeta – Cuiabá |  7 de janeiro de 2014

Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1Em 1849, Liev Tolstoi (1828-1910), depois de ter residido em Moscou e Kazan e frequentado dois cursos universitários – Línguas Orientais e Direito –, ambos abandonados apesar das boas notas, fundou uma escola na pequena propriedade rural de Iásnaia Poliana, onde havia nascido.

A questão escolar na Rússia foi uma preocupação constante de Tolstoi a ponto de ter afirmado, numa de suas cartas, que poderia morrer em paz se duas gerações de crianças russas aprendessem as primeiras letras nas cartilhas que escrevera, das quais receberiam também as primeiras lições poéticas.

Considerado por Stephan Zweig o “pedagogo do universo”, o escritor russo não só elaborou o projeto de uma publicação pedagógica, chamada Revista da Escola de Iásnaia Poliana, como dedicou ao tema cerca de 629 trabalhos.

Contos da Nova Cartilha – Primeiro Livro de LeituraNo fim de 2013, a Ateliê Editorial lançou Contos da Nova Cartilha: Segundo Livro de Leitura – vol. 1, na tradução de Aurora Bernardini e Belkiss Rabello, com ilustrações contemporâneas feitas por crianças russas. Com esse livro, o leitor brasileiro passara a conhecer parte das ideias pedagógicas de Tolstoi e poderá confrontá-las com Contos da Nova Cartilha: Primeiro Livro de Leitura, obra publicada em 2005 pela mesma editora.

O autor das “Cartilhas” foi também grande leitor de Michel de Montaigne e parece ter incorporado dele algumas ideias sobre educação, principalmente aquelas contidas no ensaio intitulado “Sobre a educação das crianças”, de 1580, no qual o ensaísta francês afirma que o preceptor deve fazer com que tudo passe pelo próprio crivo da criança e que nada “se aloje” na sua cabeça por simples autoridade ou confiança. Esse pensador acreditava que não se devia pedir aos pequenos “contas somente das palavras de sua lição mas do sentido e da substância”. Para Montaigne, o educador devia ora abrir caminho para o seu aluno, ora deixá-lo caminhar por si mesmo.

Pode-se perceber que o russo foi um ferrenho defensor da liberdade no processo educacional, pois acreditava que somente ela é capaz de desenvolver a personalidade do aluno, o seu lado criativo e de fazê-lo tornar-se até mesmo o próprio tutor. Isso se harmoniza com o que diz Montaigne ao tratar justamente da relevância da liberdade de pensamento na educação: “tanto nos submeteram às andadeiras que já não temos os passos soltos: nosso vigor e nossa liberdade se extinguiram”, e, citando Sêneca, conclui: “não estamos sob um rei, que cada um disponha livremente de si mesmo”.

Na opinião de Tolstoi, tão importante quanto conhecer as narrativas históricas, é conhecer as lendas e as narrativas ficcionais, pois são essas que apresentam as “leis fundamentais que regem a vida do povo”. Por isso, suas “Cartilhas” são compostas de histórias maravilhosas, contos, fábulas, as quais visam estimular as crianças e fazê-las refletir e filosofar. Aliás, sem filosofia toda educação é inócua, dizia Montaigne, mestre de Tolstoi.

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50 letras, sem tirar nem pôr

Marcelino Freire | Folha de São Paulo | 17.11.2013

Os Cem Menores Contos Brasileiros do SéculoDALTON TREVISAN NÃO poderia faltar. Pus no juízo: vou atrás, insisto, me rastejo, ínfimo. Uma antologia de microcontos não ficaria completa sem ele. Mestre da concisão. Alto Dalton. Máximo, grande. Mas ele vive recluso, não dá as caras. Eu não desisto. O ano era de 2004. Muito antes do Twitter. Resolvi criar a antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial). Uma referência à organizada pelo Italo Moriconi, “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século“. Ao Italo, pedi a assinatura de um microprefácio. Que ele generosamente fez. Em 50 palavras. Os contos, esses não, teriam de ter até 50 letras. Sem contar o título. Isso, inspirado que fui pelo microconto mais famoso do mundo, o do guatemalteco Augusto Monterroso. Uma história de 37 letrinhas, a saber: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Toparam participar Sérgio Sant’Anna, Adriana Falcão, João Gilberto Noll, Manoel de Barros, Modesto Carone, Andréa DeI Fuego, Glauco Mattoso…

Lygia Fagundes Telles escreveu um, genial, só em diálogos: “- Fui me confessar ao mar. / – E o que ele disse? / – Nada.”.

Maravilha!

Mas faltava o Dalton.

Até o Millôr Femandes topou – esse, antigo seguidor dos microformatos. Com Millôr foi relativamente fácil. Eu já tinha estado com ele no Rio para um papo raro. Cheio de humor e irreverência. Ligou-me para se certificar: “Até 50 letras, sem contar o título, é isto?”. É isto, Millôr. E não é que ele me mandou um conto em contadinhas 50 letras? No entanto, o título era imenso. “Fiz o que você me pediu, não fiz?”

Fez, sim, fez.

Mas repito: faltava a presença do Vampiro de Curitiba. Eu havia mandado uma carta para ele. Havia mais de um mês.

Esperei, esperei. Noventa e nove escritores já reunidos. O livro todo diagramado. Organizado por ordem alfabética. Na letra “D”, antes de Daniel Galera, deixei o espaço vago.

Qualquer coisa, se o Dalton não me responder, eu invento um autor:

Dalvan Trigueiro. Faço uma homenagem, sei lá, à revelia. E mando o livro para a gráfica, entristecido.

O tempo ficando miúdo. A esperança é a última que chega. Em cima da hora. Eis que recebo um envelope. E, dentro, o conto, também em diálogos: “- Lá no caixão…/ – Sim, paizinho./ -… não deixe essa aí me beijar”.

E eu quase morro.

Dalton Trevisan é desses escritores que me deixam sem fôlego. É ele em que me espelho quando coloco minhas neuroses na página. Gosto de suas obsessões. Inquietações. A cada livro seu, uma surpresa. Dalton escreve na velocidade da luz.

Não se engane. Ele não é só o “dono” de um estilo rápido. Vupt, vapt. Dalton escreve à velocidade da sombra. Vai sempre longe.

E foi assim.

A antologia finalmente saiu. Até hoje é referência para quem quer estudar as narrativas curtas. Foi trabalho, fiquei sabendo, inédito no mundo, à época: esse de reunir tantos autores, de uma vez só, escrevendo “enormemente menor”.

A todos, até hoje agradeço. Sobretudo aos que já se foram: Moacyr Scliar, Manoel Carlos Karam, Alberto Guzik, Wilson Bueno. E idem ao sempiterno Millôr.

E essa antologia também me deu, ave, a amizade do Dalton. De quando em quando, assim, a gente se fala. Via correios.

O contato mais surpreendente foi pouco antes de ele ganhar o Prêmio Camões, em maio de 2012. Enviei a ele o meu livro de contos “Amar É Crime” (Edith).

Recebi, em troca, “O Anão e a Ninfeta“, com a seguinte dedicatória:

“Ao Marcelino Freire, com a muita admiração do seu leitor fiel”.

Dedicatória Dalton Trevisan

E eu quase morro. De novo. Em saber que ele se diz o meu “leitor”. Eu que aprendi a ler com ele. Nas entrelinhas. E continuo a apreender.

E a me surpreender.

A dedicatória do Dalton, por exemplo, tem exatas 50 letras. Sem tirar nem pôr. Pode crer.

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Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura, Liev Tolstói

Ateliê Editorial | Assessoria de Imprensa

Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura – Vol. 1A Ateliê Editorial lança, Contos da Nova Cartilha – Segundo Livro de Leitura. Escrito por Liev Tolstói, traduzido por Aurora F. Bernardini e Belkiss Rabello, e ilustrado pelas crianças da Escola Infantil de Artes n. 9, da cidade de Ijevsk, na Rússia, este livro traz 38 narrativas baseadas em fábulas, histórias reais, contos folclóricos e outros textos que eram usados em sala de aula na escola rural criada pelo escritor russo. Preocupado com a educação das crianças e dos pequenos camponeses, Tolstói produziu muitos livros de histórias para crianças e cartilhas.

Nestes (livros de história e cartilhas), postulava como essencial uma pedagogia nascida da experiência da liberdade, incorporada como prática cotidiana e caminho para o conhecimento das várias ciências do mundo, a pardas atividades da imaginação e da fantasia. (Alcides Villaça)

A Ateliê Editorial já havia publicado o primeiro livro, Contos da Nova Cartilha – Primeiro Livro de Leitura, o segundo sairá em dois volumes, lançados separadamente. Organizada por Belkiss Rabello e com prefácio de Alcides Villaça, esta edição é colorida e traz uma novidade. Com o apoio de Nádia Wolkonsky, Lev Rodnov e Elena Vássina, o Segundo Livro de Leitura conseguiu juntar algumas crianças de uma escola russa, que leram os textos originais, conversaram e depois fizeram as ilustrações. Cada história tem uma ou mais ilustrações, com o nome e a idade do autor.

Um ex-aluno de Tolstói, Vassíli Marózov, que se tornou escritor, narra como ele e seus companheiros ficavam acordados até altas horas para ouvirem os contos, que mais tarde eles mesmos recontavam à sua maneira e Tolstói anotava em suas versões. A tarefa principal do pedagogo, dizia Tolstói, é “conduzir a mente dos alunos através daqueles detalhes que tornam mais fácil a assimilação do saber”.

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Liev Tolstói nasceu na Rússia em 1828, numa grande propriedade chamada Iasnaia Poliana (campina clara). Filho de uma importante família ligada aos czares, ficou órfão ainda criança. Na universidade, na cidade de Kazan, estudou línguas orientais e direito. Em 1847 recebeu como herança a Iasnaia Poliana. Em seguida viajou por vários países da Europa e regressou à Rússia para administrar as terras e dedicar-se à literatura. Em 1859 criou em sua propriedade uma escola rural para crianças pobres, e ele mesmo escrevia as cartilhas e os livros usados em sala de aula. Seus romances Guerra e Paz e Anna Karenina, são duas das maiores obras literárias de todos os tempos. Perseguido e excomungado pela Igreja, seus últimos anos são de engajamento social. Tolstói morreu em 1910, aos 82 anos de idade.

Literatura ou Psicanálise?

Renato Tardivo

Contos do Divã, de Sylvia LoebContos do Divã, da psicanalista e escritora Sylvia Loeb, coloca (já a partir do título) a seguinte pergunta: psicanálise ou literatura? Com efeito, a questão é antiga e, mais de uma vez, foi discutida pelo próprio Freud. Em Estudos sobre a Histeria (1893-95), o pai da psicanálise afirma que seus casos clínicos guardavam mais semelhanças com as novelas do que com os relatos científicos. De modo ainda mais contundente, em uma carta de 1922 endereçada ao escritor Arthur Schnitzler e que não veio à luz enquanto o psicanalista era vivo, Freud confessa: “Penso que o evitei a partir de uma espécie de temor de encontrar meu duplo”.

Entre nós, alguns são os estudiosos do tema: Noemi Moritz Kon (que, aliás, trabalhou em uma de suas pesquisas justamente a carta de Freud a Schnitzler e, em outra, construiu uma novela acerca do período de criação da psicanálise), Yudith Rosenbaum, Fabio Herrmann, Fernanda Sofio, entre outros.

Sylvia Loeb, em Contos do Divã, mergulha na questão sem precisar falar diretamente a respeito (a não ser no breve pós-escrito). O livro é uma coletânea de contos, e dos bons. Sua especificidade? São frutos da escuta clínica da autora, em sua vasta experiência enquanto psicanalista.

Na primeira parte, intitulada “pulsão de morte…”, a ambiência ficcional das narrativas é o consultório; na segunda, “… e outras histórias”, os relatos são ainda mais breves e, conquanto se refiram aos mistérios da alma humana, não são recortes de sessões de análise. Há, ainda, a seção “Um texto, quatro olhares”, com comentários sobre o livro, por Cristina Perdomo, Luís Carlos Menezes, Silvia Leonor Alonso e Sérgio Telles.

Nos contos da primeira parte, em vez de casos “bem sucedidos”, as narrativas dizem respeito a análises que não foram adiante – como se tivessem terminado antes do fim. E é nessa medida que os contos funcionam bem, porque exploram, a partir da relação entre analista e analisando, a dimensão trágica da existência.

Na segunda parte, quem conta é o narrador onisciente – em uma primeira interpretação, a própria analista, que amalgamaria vestígios de sua escuta nesses instantâneos. Mas podemos também sugerir que as outras histórias foram narradas pelos pacientes que, após a análise, mesmo “interrompida”, enfim puderam olhar para a própria destrutividade e transformá-la em poesia. Por que não?

Literatura ou psicanálise? – voltamos à questão. Diferentemente de registros que pretendem imitar a dinâmica de uma terapia por meio de roteiros técnicos, como ocorre na série televisa “Sessão de Terapia”, sobre a qual já escrevi neste espaço, Contos do divã é um relato visceral. Não se trata de vestir a literatura com os traços da psicanálise, e tampouco se pode afirmar que se está diante de uma psicanálise literária.

Psicanálise e literatura, aqui, comparecem com igual intensidade. Se a autora obtém êxito em escrever a clínica, é também justo dizer que os contos têm vida própria e não se subordinam à psicanálise. Ainda, se o trágico encontra nas artes um campo fértil, também a psicanálise lida com o seu atravessamento.

A opção “inconsciente” da autora pelos casos clínicos em que a “interrupção do tratamento era o mais evidente”, mesmo que a fim de “mostrar com todas as letras as dificuldades e os sofrimentos de todos os atores envolvidos”, como afirma Sylvia no pós-escrito, traz para e pela palavra a repetição do trauma com vistas à experiência de solidão – o que visa toda análise e o que nos provoca toda história. Elas sempre têm um fim.

Coluna Resenhas - Renato Tardivo

Renato Tardivo é mestre e doutorando em Psicologia Social da Arte pela USP e escritor. Atua na interface entre a estética, a fenomenologia e a psicanálise. Foi professor universitário e escreveu os livros de contos Do Avesso (Com-Arte) e Silente (7 Letras), e o ensaio Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Até a Margem do Grande Rio, de Edu Campos

Bruno Zeni | Guia da Folha – Livros, Discos e Filmes

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Até a Margem do Grande RioO primeiro livro do fotógrafo e escritor Edu Campos reúne textos de diferentes gêneros, acompanhados de algumas fotografias em preto e branco. O tema da paisagem interiorana dá unidade à compilação. São poemas, fragmentos de diário, contos breves, diálogos, anotações, registros e impressões sobre o cenário e a sociabilidade do interior paulista.
A paisagem é desidealizada, feita de mato, pasto, rios de margens ocupadas, urbanidade comercial e selvagem. Os pesonagens são homens rústicos e desconfiados, mulheres que já não se adequam nem se conformam com o papel tradicional, índios adulterados ou acuados, vira-latas, bois, animais selvagens e ameaçadores.
A beleza profunda dos textos está no procedimento instável, no impulso investigativo e tateante promovido pelo narrador, adestrando a incapacidade do sentido último, a fragilidade dos laços sociais, as ambiguidades do convívio e da violência, a fantasmagoria nostálgica de uma natureza bucólica que não tem lugar –e talvez nunca tenha tido conquista do interior de São Paulo.
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