Clippings

Dica do Guia da Folha

Clique para ampliar

INTERIOR VIA SATÉLITE

O interior sempre esteve presente na poesia de Marcos Siscar, poeta nascido em Borborema e autor de Não se Diz e Metade da Arte, entre outros. No entanto, este tema se entrelaçava com outros, principalmente com a sua preocupação com o desgaste da palavra na poesia, e com as possibilidades da expressão, sempre tão escorregadia. Em Interior Via Satélite, seu quarto livro de poemas, o poeta explora as acepções da palavra “interior”, que é tanto um lugar à margem do grande centro quanto a subjetividade do poeta. Para isso, ele trabalha num jogo vertiginoso de aproximação e distanciamento, vendo as coisas de perto e de longe, de seu miolo e de sua casca.

A beleza do livro nasce desse enfoque com vários desfoques, ou dessa “discordância” do olho, como ele mesmo diz num poema. Algo que toca a estrutura dos poemas, ora em verso, ora em prosa, ora pontuado, ora correndo solto. Os temas do livro – a memória afetiva, a linguagem da poesia, o olhar para o mundo da mercadoria – são perpassados por este paradoxo. (HFM)

Resenha de Sérgio Medeiros do livro Escrito sobre Jade no Sibila

LI PO E MAO TSÉ-TUNG EM PORTUGUÊS
Sérgio Medeiros

O poeta e tradutor Haroldo de Campos (1929-2003) “reimaginou”, em língua portuguesa, a poesia clássica da China. Publicada originalmente em 1996, a antologia Escrito sobre Jade, acrescida de novas traduções de sua autoria, saiu em segunda edição apenas em 2010. A novidade, que comentarei, é a inclusão de poemas “clássicos” do líder revolucionário Mao Tsé-tung. Mas, a meu ver, os poemas de Li Po, que já constavam da primeira edição, ainda são o ponto culminante desse pequeno volume.

O lúcido e irrequieto Haroldo indaga, em um texto inserido quase no final desse volume (pena que, em edição tão cuidadosa, as letras das partes em prosa sejam incompreensivelmente miúdas): “Como fazer para que essa poesia, procedente de uma linguagem isolante, monossilábica, de sintaxe posicional, resulte eficaz em idiomas analítico-discursivos, mais lógicos do que analógicos, mais hipotáticos do que paratáticos?” (Campos, 2010, pp. 97-98).

Para obter, em português, versos poeticamente eficazes, que correspondessem ao seu exigente padrão de poesia, o tradutor recorreu, nessas versões, a um procedimento hiperpoundiano, que comentarei a seguir. Mas talvez seja necessário, antes de tudo, apresentar, em poucas linhas, o poema chinês clássico, ou, pelo menos, alguns nomes exponenciais do período literário em questão, destacando, a partir daí, certos temas e procedimentos recorrentes. [Resenha completa]

Suplemento Literário destaca poesia de Mariana Botelho

Mariana Botelho terá seu primeiro livro de poesia lançado pela Ateliê Editorial em breve, mas mesmo antes de chegar ao grande público sua obra já é destaque no Suplemento Literário de Minas Gerais. Leia alguns dos poemas selecionados pelo periódico para sua edição de abril.

amanhecer

ter o silêncio incrustado de
pássaros

vê-lo desfazer-se logo em
crianças

sentir-se pleno de
chuva nos
olhos

.

dor

cada dor
que passa
arranca lascas
desses ombros frágeis

fico cada
vez
menor
quando essa dor
me escreve

.

gruta

um corpo feito de aberturas
onde
silêncios entram
saem
como águas de longe

fonte

foz de um rio

vozes

Visite o blog da autora

Coletivo Angú – Teatro que se diferencia pela urgência do assunto

Após sete anos de estrada, três peças no repertório, o grupo consolida linguagem e linha estética próprias, ganhando reconhecimento nacional

“É lindo!”, entre todas as críticas e elogios que o ator Fábio Caio esperava ouvir depois da estreia da peça Angu de sangue (2004), esse era o único comentário inesperado. “A gente se perguntava se as pessoas iam sair de casa para assistir a um espetáculo com esse nome indigesto”, confessa Fábio. A encenação, baseada no livro homônimo do autor pernambucano Marcelino Freire, trata de violência urbana, miséria e outros temas estampados nas manchetes dos jornais. Durante os dois meses da primeira temporada, as arquibancadas do teatro Hermilo Borba Filho, no Recife, ficaram cheias. Para Marcondes Lima, diretor da montagem, um novo filão foi descoberto. “O diferencial do nosso teatro é a urgência dos assuntos”, afirma.

Hoje, os integrantes do grupo – que agora se chama Coletivo Angu de Teatro – comemoram. São três peças no repertório em apenas sete anos, o reconhecimento nacional e a consolidação de linguagem e linha estética próprias. [Clarissa Falbo – Continente Online]

.

Angu de Sangue – Marcelino Freire

Em seu primeiro livro de contos, Marcelino Freire faz um retrato realista e inusitado do submundo das grandes cidades. Os protagonistas são violentados pelas dores e frustrações de uma sociedade injusta, que os estigmatiza. O autor aborda a realidade dos conflitos urbanos sem demagogias, escapando de uma armadilha comum da ficção social: a sentimentalização da miséria. Seus contos “irradiam uma terceira dimensão que ainda nem tivemos tempo de decifrar”, segundo o escritor João Gilberto Noll.

Poesia por dentro e por fora

Igor Fagundes – Jornal Rascunho

Depois de Interior Via Satélite, ou ainda agora, em seu não ultrapassado instante, a crítica inquietamente se pergunta em que medida atinge o interior de um livro mantendo-se fora dele; em que medida, satélite, se faz via de proximidade extrema com o que persiste longe; em que medida, estrangeira, da geologia de um livro revela-se íntima; em que medida, íntima, se contradiz uma vez mais estrangeira, pois, afinal, “estar perto da própria coisa não está longe do extravio”.

Em que medida parece a pergunta e a resposta de uma obra debruçada nos limites do próprio limite, daquele ínterim no qual as coisas começam, dimensionam-se e esboçam seu suposto fim que as distingue quando em fronteira com as demais; quando, no além do limítrofe, cada coisa encontra o abismo como o seu princípio e, de pequenas, passam a infladas e inchadas de grandeza. No fronteiriço, em que, antes de apartadas, encontram-se unidas, o que as inscreve fora duma da outra comemora o mútuo pertencimento: a segunda é parte da primeira e vice-versa, num círculo de cores investido de inclusões recíprocas onde toda exterioridade culmina ilusória, pois necessariamente dentro de outra e de outro plano que, por sua vez, paira dentro de algum, também, nunca fora de, na medida em que (sempre na medida em que) todos se erguem dentro de uma misteriosa abertura, telúrica e originária, a qual, fora de qualquer medida, pode conceder todas ao conceber-se como o único dentro (im)possível: “o poema é o ponto que suspende esse tecido/ que edifica em torno o vazio que dá abrigo/ à urgência da terra e à possibilidade/ de perder-se nas encruzilhadas”.

Não estranha, portanto, que a obra de Marcos Siscar nos suspenda e nos lance nas encruzilhadas de uma escrita que entrecruza prosa e verso de modo artisticamente responsável e jamais modernosamente gratuito, na exploração das alfândegas discursivas que fundam a afundam aquilo que pertence (e não) exclusivamente a um e a outro território de forma e estrutura, arriscando-se apontar o mais essencial – aquilo a que ambos pertencem: não só ao limite a partir do qual se desdobram, mas o ainda-não-limite a que pertence o próprio limite como dobra sem o qual o poético não pode desdobrar-se como a voz do silêncio que é. Segundo os ditames do movimento com que as palavras exibem seu peso em diferentes graus de contundência e leveza, o poeta escreve segundo o ritmo deste corpo gravitacional e dançante (ora flutuante) entre a pausa e a ânsia, entre o salto par ao céu e o raizamento na terra, entre o avanço e o recuo de si mesmo porquanto hesitante de estar dentro ou fora de. Não no que diz respeito apenas ao dimensionamento espacial, mas sobretudo no que (já não) narra o tempo como um antes, agora e depois. Depois e antes, a memória, em Interior Via Satélite desobriga a crítica a uma exterioridade, posto que inviável. Exterior, apenas, o que ficou por criticar-se, esquecido. O livro, então, satélite da crítica, parece “alterar o espaço do visível por adiamento, até reconhecer o invisível que está em jogo no visível”.

Quando o interior da obra entra pelos olhos de quem lê, dela não se escreve o que se mira, mas o que se admira: o que, junto de nós, em nossas juntas, já nos mirou e adentrou para que pudéssemos mirar e adentrar. O que, adentrado, não pode mais ser visto, porque “ver é estar fora do lugar que se vê” e, dentro de onde nada se enxerga, encontramo-nos com a verdade desta cegueira que é o mundo nascido e multiplicado para além da visibilidade. O que nos admira, enfim, e em especial neste livro, é essa persistente falta de alcance do limite em que as coisas dão-se à vista e misteriosamente se encobrem para, paradoxalmente, se mostrarem e nos alcançar. É a revelação de que estamos sempre perto do longe, pois não há mensurável distância para o que, sem-lugar, ou em todos, chama-nos e chama-se Infinito.

[Resenha publicada no Jornal Rascunho na edição de junho de 2010]

Visões da natureza humana dentro e fora do banheiro

“É preciso muita coragem para dar um livro de contos o título Histórias de Banheiro, já que o possível comprador, ao vê-lo nas prateleiras das livrarias, assim como pode ficar intrigado ou curioso, pode também ficar com o receio de escatologias ou, ao menos, de se ver diante de histórias muito prosaicas. Consequentemente, tenderia a rejeitar a idéia de levar o volume recém-lançado pela Ateliê Editorial para casa. Coragem, porém, é o que não falta a Dirce de Assis Cavalcanti, poeta, escultora, escritora e agora também contista. Uma conquista que eu só não ousaria dizer de ‘mão cheia’ por ser Dirce uma mulher delicada, de beleza frágil e diáfana, com o rosto claro aberto para o mundo por duas janelas verdes, emocionadas e sensíveis, mas também espectrais, como é o caso de todos os olhos verdes.

Ampliar

OU SERÁ QUE Dirce tem os olhos azuis? Não importa. Importa que são olhos que tudo vêem. A eles nada escapa. Sobretudo no que diz respeito à alma humana. Não é qualquer um que tem este dom, mas, sem dúvida, a autora dessas deliciosas Histórias de banheiros o tem. Ela mesma nos confessa, num de seus textos: ‘Saber olhar é como saber ler. Depois que se aprende nunca mais se volta à inocência primeira. Nunca mais se consegue desligar o botão do conhecimento. Lê-se tudo o que se passa pelos olhos. E com os olhos, vê-se, tudo. Mesmo o que não se quer ver. O que é feio ou o que choca. O que fere, o que tenta, o que agride, o que seduz. Tudo, pelos olhos adentro. As pessoas, a paisagem. O carro que passa. O céu por detrás do vidro da janela. A chuva…'”

[Cecília Costa – Jornal do Commercio]

Escrito sobre Jade é sugestão de presente da Marie Claire

Ainda na dúvida sobre o que comprar para a sua namorada? Aí vai uma dica da Marie Claire para os homens…

“PARA ELA:
Mais que traduzir: transcriar, reimaginar. Essa é a proposta de Haroldo de Campos no belo “Escrito sobre Jade – Poesia Clássica Chinesa” (Ateliê Editorial, R$ 32, 152 págs.). Para compensar as características formais dos ideogramas, o autor se vale da concisão e da espacialização gráfica. Organizado por Trajano Vieira, o volume traz também um ensaio de Haroldo originalmente publicado na Folha de S.Paulo, seguido de sete outros poemas traduzidos do chinês. Um verdadeiro mimo para garotas à moda antiga.” [Leia a matéria]

Resenha de Liberalismo e Natureza na ilustrada

Ampliar

Formado em filosofia pela USP, Rodrigo Cintra investiga os fundamentos do discurso liberal moderno a partir das teorias políticas de John Locke (1632 – 1704). O livro mostra de que forma os conceitos estudados por Locke, como o da propriedade privada e da universalidade de direitos, tornaram-se fundamentos do capitalismo da sociedade atual. Cintra ainda revela contradições por trás dessas ideias que colocam em xeque temas como justiça e igualdade. [Release]