Clippings

Dez Mitos Sobre os Judeus faz sucesso na Espanha

Lançado em 2015 no Brasil, Dez Mitos Sobre os Judeus ganhou o mundo em edições traduzidas para outras línguas. Agora chegou a vez da Espanha, onde “Diez Mitos Sobre Los Judíos” tem sido aclamado.

Dez Mitos sobre os Judeus

O livro de Maria Luiza Tucci Carneiro, originalmente publicado pela Ateliê Editorial com o apoio do Conip, tem como objetivo desvendar não só a imagem do povo judeu, como também entender como acontece o processo de manipulação da mentira e a compreensão da verdade nos mundos atuais. Nesse sentido, a autora busca as raízes do antissemitismo, questiona sua proliferação, seu discurso e aplicação no mundo contemporâneo. O livro reúne os dez mitos mais populares sobre esse povo e é composto por textos breves que, apesar de numerados, são independentes, sem ordem obrigatória de leitura.

O assunto desperta interesse de leitores de todas as partes, pois os judeus marcam presença ao redor do mundo todo. Veja a seguir alguns destaques da imprensa espanhola.

 

Mas, se quiser ler em português, ele está disponível no site!

Escritor Marcelino Freire viaja pelo Brasil mapeando iniciativas culturais e conta tudo em blog

Mariana Filgueiras  | O Globo | Seção: Livros | 06 de fevereiro de 2015

Projeto Quebras passa por 15 capitais até junho; ao final, o autor publicará um livro com os relatos do percurso

IMG_1422

Foto: Jorge Filholini

RIO — Desde setembro do ano passado, o escritor Marcelino Freire está vivendo aquele que é, no fundo, o sonho de muito artista brasileiro. Ganhador do prêmio Jabuti em 2006 pelo livro de contos Angu de Sangue e finalista na categoria romance em 2014 com Nossos Ossos, o pernambucano Freire está percorrendo 15 capitais do país, aquelas mais fora do eixo cultural sudestino, para registrar as manifestações culturais que encontra pelo caminho. Anota tudo num blog, que ao final da viagem será transformado em livro. Com a ajuda do fotógrafo Jorge Filholini, que viaja com ele, também produz vídeos e fotos, grava podcasts e ministra oficinas literárias por onde passa.

Batizado de Quebras, o projeto remete à viagem feita pelo modernista Mário de Andrade, em 1927 (que deu origem ao livro O Turista Aprendiz, publicado em 1976), mas na verdade foi inspirado pelo livro Quarto de Despejo (1960), de Carolina Maria de Jesus, e pela possibilidade de garimpar bons escritores escondidos pelo Brasil, conta Freire. Aprovado no edital Rumos Itaú Cultural no ano passado, tem custo total de R$ 200 mil. Os dois já passaram por cinco capitais: Teresina, Belém, São Luís, Campo Grande e Vitória. Todo o roteiro é decidido no calor da hora.

— A viagem é muito aberta nesse sentido. É o que a gente vai colhendo pelo caminho. Recebemos sugestões de amigos também. Ao irmos para Belém, o querido Milton Hatoum nos deu desde indicações de poetas até de sorvete. É um projeto para encontrar pessoas. A gente tem a ideia burra e preguiçosa de que nada está acontecendo no Brasil fora do grande eixo — conta Freire, de São Paulo, enquanto se prepara para ir para João Pessoa, na Paraíba, a próxima parada do projeto, que finda em junho.

Filholini completa:

— O inusitado sempre resulta em uma ótima conversa. Aconteceu um momento muito bacana em São Luís, quando o poeta Salgado Maranhão, que vive em Teresina, estava em seu estado natal para a Feira do Livro. Foi uma das entrevistas mais impactantes que fizemos, assim, já de volta para casa, com pouca luz, embaixo de um poste, à noitinha. Foi uma aula de paixão e de literatura.

Quem acompanha o blog vai descobrindo o país com os autores. Em Teresina, onde pousaram primeiro, chegaram sob sol forte, “derrubaram” dois pratos de comida e na mesma noite já foram conhecer o Galpão do Dirceu, que chamou a atenção dos autores pela semelhança com o Clariô de Teatro, de Taboão da Serra, em São Paulo. “Todos os artistas ocupam o centro desse misto de galpão e circo. Chegamos e ele estava tomado por 13 drag queens que ensaiavam uma invasão a São Paulo, num espetáculo chamado Racha Show”, escreveu Freire na mesma noite no blog. Também escreveriam sobre as revistas culturais Acrobata e Revestrés, esta apelidada pelo escritor de “a verdadeira Piauí”, referindo-se à revista carioca.

— Gostamos de encontrar pessoas que estão sempre ligadas no movimento cultural, espalhando arte para todo lado. Em Vitória, foi sensacional conhecer a militância de Fabricio Noronha, que produz de tudo: poesia, rock, festival. É muita gente produzindo e se virando. Lá também encontramos muitas editoras independentes e uma cena de fanzines e HQs muito forte — comenta Filholini.

Depois da passagem da dupla pelas cidades — que é sempre monitorada por outra dupla, a dos programadores Bruno e Mozart Brum, que alimentam o site do projeto de São Paulo —, eles fazem o possível para que as turmas das oficinas literárias continuem a se frequentar e produzir. Em Campo Grande, por exemplo, onde estiveram há duas semanas, já soubemos que os alunos marcaram um sarau para o final de março num espaço chamado Casa de Ensaio.

— É um lugar sensacional. A casa existe há 19 anos, e eles trabalham com crianças e adolescentes, dando aulas de teatro, de literatura, de pintura e cinema. É gratificante juntar os artistas que estão a poucos metros de distância, mas que nunca se conheceram, e que graças às oficinas do “Quebras” puderam ter esse contato — detalha Filholini.

Freire conclui:

— O Brasil é imenso, e eu sempre quis estreitar esses contatos, essas pulsações. É muita gente produzindo e se virando.

Conheça aqui as obras de Marcelino Freire publicadas pela Ateliê.

Veja o post original aqui.

 

A paz com o Islã não será feita sem os muçulmanos moderados

Edson Passetti | Zero Hora | 10 de Janeiro de 2015

Para encontrar um caminho que permita a convivência entre as democracias ocidentais e os islamitas, será imprescindível contar com a participação dos pacifistas já integrados às sociedades europeias

17154412

Foto: JEAN-PHILIPPE KSIAZEK/AFP / AFP

Edson Passetti

O islamismo assombra o ocidente do Estado laico e da sua respectiva tolerância com as várias religiões. A reviravolta produzida em 1979 pela chamada revolução iraniana contra o despotismo ocidental firmou o Estado em uma república islâmica teocrática. Este islamismo político precisa tanto de Estado quanto de terror transterritorial. Não está disponível a uma negociação possível. Não insinua uma guerra entre deuses, mas a uma guerra de homens para impor um deus exclusivo em qualquer lugar. Pode se erguer em um espaço tradicional, como no Irã, encontrar refúgios em outros Estados, como faz a Al-Qaeda, ou ser uma variante no interior de outro Estado, como no Iraque e na Síria.

Entre os islâmicos europeus pacifistas e integrados repousam as expectativas de condutas democráticas moderadas. Seus direitos são observados segundo as leis do Estado laico e a eles devem se ajustar com tolerância. Mesmo assim, por vezes ocorrem tensões com os pacifistas quando estes pretendem obter reconhecimento de suas condutas ajustadas aos preceitos religiosos. Estado e religião, mesmo depois do Iluminismo, permanecem intrinsecamente relacionados.

A Europa vive sob o crescimento do islamismo pacífico e do violento. Na Alemanha, no final de 2014, o movimento Pegida (sigla para “europeus patrióticos contra a islamização do ocidente”) comandou a mobilização fascista contra o islamismo e o direito de asilo político – já restrito pelo Parlamento conservador desde 1993. Incomoda na Alemanha a presença crescente de sírios fugidos do Estado Islâmico. Incomoda na França que os descendentes franceses do islamismo estejam combatendo ao lado do Estado Islâmico e que em breve poderão regressar e inaugurar práticas de ocupação territorial por atos terroristas. Há um temor acentuado do islamismo violento e ao mesmo tempo uma movimentação democrática em função de “apagar a luz do Pegida”. Este movimento de marcantes traços fascistas utiliza o lema “Somos o povo”, capturado do movimento dos alemães da antiga RDA do leste quando da unificação das Alemanhas, e objetiva “conservar a identidade alemã”.

Se em dezembro de 2014 o crescimento da mobilização xenófoba foi visível, em janeiro na França o ataque ao Charlie Hebdo introduziu outra reação de rua contra o terror islâmico. Em poucos dias a Europa deixou claro que as lutas de direita e esquerda em torno da questão islâmica se tornam cada vez mais intensas e difíceis. De um lado, a reação xenófoba, de outro lado, os atos de terror organizado islâmico. De um lado, a democracia a ser preservada e, de outro lado, a democracia que mais uma vez alimenta as forças reativas fascistas em nome da defesa da identidade nacional e/ou europeia.
Há uma violência intrínseca ao governo do Estado, à sua segurança e aos modos como trata o islamismo pacífico ou violento como perigo à segurança de cada europeu. Mais uma vez, democracia e teocracia se batem, desde os anos 1990, alastrando os chamados estados de violência cada vez mais comuns. Com isso, a tolerância e a moderação apregoadas tendem a escorrer pela vala da retórica. Cresce a olhos vistos o medo do islamismo como difusor de uma guerra santa, o que fortalece a direita. A esquerda, por sua vez, recorre aos preceitos legais e de direitos, mas se torna inofensiva diante do islamismo político e violento refratário à democracia. Ela precisa dos islamitas pacíficos e ajustados. Ela precisa recuperar a importância para seu próprio saber das inovações trazidas pelas invasões islâmicas desde o século 8 e se afastar do regime de segregações, expulsões e massacres cujo apogeu se deu no século 15. Mas a Europa, hoje unificada, pensa a si mesma a partir de si própria. E teme o islamismo.

O episódio de 7 de janeiro contra a sede do Charlie Hebdo atentou contra a liberdade de pensamento, mas também contra o anticlericalismo sempre inaceitável no mundo burguês e democrático. Jornais como o New York Daily News, o The Independent, a rede CNN e a Associated Press noticiaram o atentado, mas borraram as imagens iconoclastas do semanário francês com medo de represálias. Comentaristas se pronunciaram contra os excessos de Charlie Hebdo. Enfim, livre pensar supõe nesta democracia a moderação na crítica às religiões. Moderação esta que se ajusta aos preceitos da tolerância, mas cujo reverso é também o medo, e como tal entrega vitórias aos inimigos.

O semanário francês, coincidentemente, publicou antes do episódio o lançamento do livro de Michel HouellebecqSoumission, sobre um futuro governo islâmico na França (leia aqui a resenha do livro por Luis Augusto Fischer). Pelo sim ou pelo não, o atentado ocorreu no dia do lançamento do livro. Metralharam a polícia que fazia a segurança da sede do semanário, seus criadores e desapareceram diante do arsenal de homens armados e seus equipamentos de segurança. Foram saudados pelo Estado Islâmico. Diante do “Je suis Charlie” estampado pelos cidadãos livres pelas ruas francesas ou da hashtag #notinmyname, formada por religiosos islâmicos pacifistas contra o Estado Islâmico, ficam a rapidez e a agilidade do terror político em atentar contra o livre pensamento. O Charlie Hebdo também é perigoso para quem se veste de democrático tolerante.

Confira aqui todas as obras publicadas por Edson Passetti pela Ateliê.

 

Concreto flexível

Rogério Borges | O Popular | Seção: Magazine | Pág. 01 | 28 de dezembro de 2014

Poeta da experimentação, Décio Pignatari também era contista, cronista de futebol e dramaturgo. Essas outras facetas podem ser conferidas em coleção que acaba de ser lançada

image

FOTO: JONAS OLIVEIRA

Brincar com as letras, fazê-las cair e subir nas frases, incitá-las a formar novos vocábulos, outros sentidos, despertar os segredos que o idioma pode guardar usando para isso a criatividade e a experimentação. Assim agiam os concretistas, poetas que emprestavam aos versos a ousadia das artes plásticas, unindo linguagens, reinventando métodos, retirando as teias de aranha do cérebro de seus leitores que precisavam se esforçar para traduzir obras literárias que também eram arquiteturas gráficas cheias de símbolos, traquinagens e ludicidade. Um dos expoentes desse movimento da literatura nacional dos anos 1950 foi Décio Pignatari, que morreu em 2012. O autor, irreverente e polêmico, está sendo resgatado em uma coleção, que revela outras de suas habilidades.

As obras Viagem Magnética, Terceiro Tempo O Rosto da Memória trazem três facetas que nem todo mundo conhece da produção do escritor. O primeiro é uma peça de teatro, a segunda que escreveu em sua carreira e que foi composta em sua última década de vida. Terceiro Tempo revela um Pignatari que, com verve ferina, encaminha-se para um humor saboroso ao escrever crônicas de futebol. São 26 textos publicados em 1965 no jornal Folha de S. Paulo. Por fim, O Rosto da Memória é um volume de contos em que se vê (e não só se lê) com maior nitidez as marcas registradas desse concretista, em que a linguagem e a diagramação do texto nas páginas sugerem outras concepções do enredo, a começar com inversões nos títulos e subversões na forma narrativa.

Os três títulos, lançados em conjunto pela Ateliê Editorial, dão uma nova roupagem a obras de Décio Pignatari que ficaram eclipsadas por sua intensa participação, junto com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, em uma das principais vanguardas culturais que o Brasil produziu no século 20 nos campos da literatura e das artes. Além disso, ele tornou-se uma referência na publicação de obras teóricas e de crítica, além de destacar-se como tradutor. Foi ainda uma autoridade internacional nos estudos de Semiótica, sendo membro e até fundador de diversas associações de semiologia no Brasil e no exterior. Outra habilidade que o autor chegou a exercer com alguma frequência foi o de publicitário, contribuindo até com reflexões sobre Teoria da Comunicação.

Com múltiplas atividades, não seria de se espantar que Décio tivesse outro tipo de produção literária que não se concentrasse apenas na poesia. A reedição desses livros, assim, não surpreendem por trazer o que trazem e sim por esses textos terem ficado recolhidos a um esquecimento que, em certos casos, durou décadas. A reunião de crônicas nunca havia sido publicada em livro, e olha que lá se vão 50 anos que chegaram pela primeira vez aos leitores. O volume de contos estava fora de catálogo há quase 30 anos. Talvez por sua trajetória singular, Décio Pignatari tenha criado em torno de si uma imagem de vanguarda que chegava a assustar, prejudicando, dessa forma, sua produção literária mais aberta a grandes públicos, em que não há códigos intrincados de interpretação.

Os livros

viagem magneticaVIAGEM IMAGNÉTICA

Essa obra teatral de Décio Pignatari era inédita até agora. Ela foi escrita entre 2004 e 2007 e é baseada na vida de Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo da potiguar Dionísia Gonçalves Pinto, uma mulher de vanguarda no século 19. Radicada no Rio de Janeiro, foi educadora e dona de um dos principais colégios da então capital do Império, além de poetisa e uma das pioneiras na divulgação das ideias positivistas de Auguste Comte entre a intelectualidade nacional. Para dar a dimensão dessa personagem, Pignatari coloca em cena diversas personalidades do Brasil daquela época, como os escritores Fagundes Varela, Gonçalves Dias e Bernardo Guimarães, que testemunham como a protagonista sofre em impor a sua aguçada inteligência a convivência com afetações e convenções sociais pueris e vazias. É como se o autor tivesse se identificado com a inquietude de Nísia, demonstrando isso em cenas curtas, picotadas e enervantes. A grande cultura que essa mulher possuía choca-se com a fragilidade intelectual de muitos que a cercam.

(120 páginas, R$ 27)

terceiro tempoTERCEIRO TEMPO

Não é qualquer um que teve o privilégio de ver alguns dos maiores craques do futebol brasileiro jogando na era de ouro de nossa paixão nacional. Décio Pignatari foi um desses premiados e escreveu a respeito em uma série de 26 crônicas publicadas no jornal Folha de S. Paulo em 1965. Naquele tempo em que o Brasil era bicampeão mundial e preparava a maior de suas seleções, a do tricampeonato de 1970, o escritor percebeu que assistia verdadeiros gênios em ação, como a locomotiva santista duas vezes campeã do mundo, capitaneada pela tabelinha Pelé e Coutinho. Outros clubes também mereciam atenção do escritor, como o antológico Botafogo, que tinha de um lado do campo Garrincha e do outro Nilton Santos, simplesmente o maior ponta-direita e o melhor lateral esquerdo da história do futebol. Despejando admiração e fazendo isso de formas menos óbvias, Pignatari imortalizou em suas crônicas o talento de Rivellino e a elegância de Ademir da Guia, sem deixar de perceber, já naqueles tempos, a influência da política no esporte.

(128 páginas, R$ 29)

rosto da memóriaO ROSTO DA MEMÓRIA

Não esperem encontrar uma obra convencional nesse volume de contos, publicado pela primeira vez em 1986 e só agora reeditado. O tema central do livro já dá uma pista de que Décio Pignatari deu vazão a sua veia de vanguarda ao escrever as narrativas curtas que compõem o volume. Ele trata de como as imagens são fundamentais para inscrever nas recordações nossas vivências e visões de mundo. Para isso, o escritor promove uma série de provocações, em que abundam sinais gráficos, em fontes diferenciadas e até em fotos e mapas para incitar a imaginação do leitor. Enquanto um conto tem uma única e solitária frase, outro despeja uma torrente de palavras (várias delas rabiscadas ou encadeadas um tanto confusamente), causando certo choque em quem segue os enredos que podem estar cheios de ternura e inocência ou recobertos de vitupérios e palavrões. Retirando o título das Confissões, de Santo Agostinho, Décio Pignatari convida a uma viagem literária imprevisível.

(168 páginas, R$ 38)

Luiz Tatit

Folha de S. Paulo | Seção: Ilustríssima | Pág. 02 | 21 de dezembro de 2014

764_01A nova edição de Todos Entoam – Ensaios, Conversas e Lembranças traz seis textos que não estavam na primeira publicação, de 2007, além da autobiografia do autor, ampliada e atualizada. O músico e professor de linguística da USP narra ainda, em entrevista organizada por Arthur Nestrovski, suas experiências dos tempos de Vanguarda Paulista e do Grupo Rumo.

 

 

 

Confira esta e outras obras do autor no site da Ateliê.

Viagem ao redor do engenho teatral

Welington Andrade | Revista Cult | Colunas: Cena Contemporânea | 12 de dezembro de 2014

Inédita nos palcos, chega às livrarias uma inquieta forma teatral concebida por um grande mestre

 

Décio Pignatari (Foto: Vilma Slomp)

São inúmeras as qualidades de Viagem magnética, o segundo texto para teatro saído da pena do poeta, prosador, ensaísta, semioticista e tradutor de poesia Décio Pignatari. Se em Céu de lona, publicada em 2003 pela Travessa dos Editores, ele transformava Machado de Assis e Carolina Xavier de Novaes, mulher do escritor, em personagens de uma comédia fescenina de ritmo ágil e atmosfera delirante, nesta sua segunda incursão pela área da dramaturgia, Décio se dedica a conferir estatuto de personagem teatral a outra figura histórica de destaque do século XIX no Brasil: a escritora, educadora, feminista e tradutora Nísia Floresta Brasileira Augusta. E o resultado dessa experiência não poderia ser mais estimulante aos estudiosos da dramaturgia brasileira, em especial, mas também aos admiradores dos estudos literários, de modo mais amplo: trata-se de uma peça de teatro pautada por uma inventividade desconcertante, plena de possibilidades cênicas.

Nascida no povoado de Papari, Rio Grande do Norte, oriunda de uma família tradicional – a mãe, potiguar, era herdeira de vastas extensões de terra, enquanto o pai, português, era um advogado culto e liberal –, Nísia Floresta (1810-1885) publicou em 1832 no Recife, o livroDireitos das mulheres e a injustiça dos homens – traduzido livremente de Vindication of rights of woman, de autoria da ativista do feminismo inglês Mary Wollstonecraft (mãe da escritora Mary Shelley) –, obra que, segundo o Dicionário de mulheres do Brasil, atribuiu-lhe o “título incontestável de precursora dos ideais de igualdade e independência da mulher em nosso país”.

Não bastasse a militância feminista desbravadora, Nísia – que abriu em 1837, no Rio de Janeiro, o Colégio Augusto, onde colocou em prática suas ideias nada ortodoxas sobre educação feminina – dedicou-se também a outras causas fervorosas, defendendo, ainda na primeira metade do século XIX, o fim da escravidão, a liberdade religiosa e o regime republicano. Detentora de uma atividade literária e intelectual das mais férteis, ela viajou em 1849 para a Europa, onde entrou em contato com o positivismo de Augusto Comte, vindo a se tornar uma amiga bastante próxima do filósofo, cuja casa passou a frequentar e com quem manteve uma expressiva atividade epistolar.

É em torno não somente dessa fascinante personagem, mas também das figuras de Lívia (a filha que Nísia teve de seu segundo casamento) e de Malwida von Meysenbug (a escritora alemã que foi amiga de Friedrich Nietzsche e Richard Wagner, com quem Nísia, a rigor, nunca se encontrou) que Décio Pignatari constrói sua peça de teatro, por meio da qual pôde visitar uma vez mais o efervescente século XIX brasileiro, quando o país parecia estar muito ocupado ora em se espelhar em sua ascendência pretensamente europeia, ora em especular sobre o que fazer com sua progênie realisticamente tropical. Entretanto, tal como era de se esperar, o olhar do autor sobre o século que abrigou as musas romântica e positivista não se dá em chave passadista ou anacrônica. O que mais chama a atenção na feitura da obra é o fato de o dramaturgo ter feito uma série de conteúdos comportamentais, artísticos e intelectuais doOttocento que estão na base de nossa modernidade precipitarem-se em formas propriamente modernas, em virtude da perspectiva sincrônica que Décio, como autêntico representante do movimento concretista, sempre procurou fazer incidir sobre as mais variadas manifestações culturais e artísticas de todos os tempos. Aproveitando a grande moda oitocentista do magnetismo de Mesmer e do espiritismo de Kardec, Décio então nos propõe essa viagem sobre o tempo e o espaço, fazendo ecoar ainda o nome de uma das obras centrais para a formação do romance moderno, a Viagem à roda do meu quarto, de Xavier de Maistre. (“Trata-se de uma viagem magnética, galvânica, espiritual que fiz ao Brasil, sem sair do quarto…” declara Nísia a seu tradutor italiano).

O texto está dividido em vinte e seis segmentos que, embora pautados por concisão e autonomia, restituem em linhas gerais a trajetória da protagonista – de sua saída do Nordeste (em virtude do violento clima de instabilidade política na região que antecedeu a independência do Brasil, clima este responsável, inclusive, pelo assassinato do pai de Nísia) até o traslado de seus restos mortais, em 1954, da cidade francesa de Bonsecour, onde ela estava enterrada, para o município potiguar de Papari, que alguns anos antes passara a se chamar Nísia Floresta. Entretanto, Décio não explora tais fatos em chave dramática, preferindo antes imprimir a eles – dada a organização dos segmentos sob a forma de colagem – a perspectiva crítica do teatro épico. Ou melhor, de um épico à brasileira.

Nesse sentido, é visível a filiação de Viagem magnética às experiências teatrais de vanguarda conduzidas por Oswald de Andrade, sobretudo em O rei da vela, embora haja diferenças também entre ambos os projetos dramatúrgicos. A atmosfera que se pode depreender das aventuras de Nísia é a de um humor solto, desavergonhado, anti-intelectualista até, mas quase nunca “espinafrador” em essência. Já o caráter lúbrico que paira de ponta a ponta – dos “muxoxos lambidos” que o editor Duvernoy dá em Nísia, passando pela ligação tribádica entre esta e Malwida, até chegar ao êxtase final da protagonista, flechada por um “coro de Eros” – também se assemelha à tessitura erótica que está na base de O rei da vela. Entretanto, a lascívia cênico-poética de Décio Pignatari parece apontar para outras direções. Não é propriamente a Heloisa de Lesbos que Nísia presta tributo e, sim, à própria Safo, cuja obra, luminosa, inconclusa, fragmentada, tal como chegou a nós, Décio tanto admirava. Não à toa, o dramaturgo interessou-se por uma figura histórica nascida Dionísia, remetendo ao deus que, segundo a tradição retomada por Nietzsche, está ligado a Eros “mythóplokos”, isto é, o tecelão de mitos, a divindade grega que faz e desfaz as tramas das palavras e dos discursos. Nada mais erótico, dionisíaco e sáfico, portanto, do que a urdidura temática e formal desta Viagem magnética.

Concebida pelo poder de invenção de um homem das Letras e da Comunicação que sempre primou por revisitar a tradição literária sob a ótica da ousadia e da experimentação, a peça apresenta um sem-número de ressonâncias históricas, literárias, filosóficas, estéticas, musicais e plásticas, conduzidas ao limite do paroxismo – por levar tanto ao deleite como à entropia. Não bastassem as muitas rubricas repletas de informações complexas, que merecem uma decifração cênica à altura de sua engenhosidade, e as inúmeras falas de deliberado caráter enciclopédico (no 10º segmento, por exemplo, Malwida articula os nomes de Darwin, Marx, Nietzsche, Wagner, Cosima, Liszt, Lou Salomé, Gerge Sand e Augusto Comte, com insuspeita naturalidade), Décio ainda lança mão de dois recursos discursivos bastante genuínos: o uso destreakers (apresentados em Céu de lona como “personagens-personalidades que atravessam a cena, qualquer cena, fazendo proclamações, sem serem ouvidos e vistos”) e de solos proferidos ao ritmo do rap. Vale lembrar que Nísia Floresta é citada em Céu de lona como “a musa positivista brasileira, discípula e ex-amante de Augusto Conte” por ninguém menos do que a princesa Isabel na pele de uma streaker.

Estamos diante, assim, de um espécime dramatúrgico que pode simplesmente enganar os mais afoitos, sempre dispostos a anunciar o ostracismo de um grande número de peças brasileiras feitas para serem lidas e não montadas. O fragoroso caso de O rei da vela, incompreendida por cerca de três décadas até ter encontrado um encenador à altura de sua verve, parece não ter servido para muita coisa. A despeito de sua feérica estrutura referencial enciclopédica, orgulhosa por expressar em termos teatrais o mesmo caráter de “vertiginosa montagem/colagem de arqueologia cultural” – na feliz expressão de Paulo Venancio Filho – que Ezra Pound conferiu à poesia de Os cantos (outro autor com quem Décio sempre procurou estabelecer uma vigorosa interlocução), Viagem Magnética é um texto para ser encenado, sim. Se Hugh Kenner definiu a ciclópica obra de Pound como “uma épica sem enredo”, estamos aqui diante de uma peça de teatro épica cujo tênue entrecho dramático se converte o tempo todo em puros jogos de linguagem, sem que se abra mão, entretanto, da tridimensionalidade do espaço cênico onde tais jogos precisam acontecer. Trata-se, portanto, de uma peça de linguagem poética muito particular, mas, acima de tudo, de uma peça de teatro. A agilidade dos cortes e da edição das cenas, de acentuado caráter cinematográfico, e o tom feérico de muitos dos ambientes onde as ações transcorrem (as prisões de Piranesi são um verdadeiro achado cenográfico) atestam uma teatralidade inequívoca. Oxalá o texto de Décio Pignatari encontre um diretor ou grupo de teatro disposto ao desafio de estabelecer com ele uma interlocução pra lá de inventiva.

Em plena era de percepções controladoras e de excitações controladas, sem que se dê muito conta disso, porque a histeria é atualmente a prova dos nove, Viagem magnética há de soar mesmo um tanto quanto racionalista e cerebral. Poucos talvez se deem conta de que os domínios do Logos também se prestam a uma materialidade sensível das mais fecundas. A imaginação teatral concretista de um poeta que já se dispôs a traduzir os lances verbais eróticos de Shakespeare e os ruídos semânticos de Sheridan pode constituir uma surpresa para quem quer estar com Baco sem perder a companhia de Apolo.

Ao coquetel grego-europeu-americano-tropical servido por Décio Pignatari e sua musa brasílica, o leitor-espectador somente poderá responder com uma única saudação:

Evoé Dionísia!

Obs.: O presente artigo está publicado como texto de apresentação da peça, editada pela Ateliê.

Conheça essa e mais outras obras de Décio Pignatari no site da Ateliê.

 

 

Luiz Tatit: uma dupla relação com a música brasileira

| Jornal Hoje em Dia | Seção: Geral | Pág. 34 | 07 de dezembro de 2014

O respeitado compositor e pesquisador reúne apontamentos e reflexões no recém-lançado livro “Todos Entoam – Ensaios, Conversas e Lembranças”

image

Luiz Tatit – (Gal Oppido/Divulgação)

Figurinha carimbada para quem se interessa pela música popular brasileira, Luiz Tatit escreve sobre seu ofício com a mesma dedicação que compõe. Como músico, fundou o icônico Grupo Rumo, que entre 1974 e 1992 foi um dos principais expoentes do chamado movimento “Vanguarda Paulistana”, que também revelou nomes como Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé.

Como teórico, professor do Departamento de Linguística na USP, Tatit se tornou um dos principais nomes no estudo da semiótica da canção brasileira, com sete livros lançados sobre o assunto. Essa dupla relação de Tatit com a MPB pode ser conferida na nova edição do livro Todos Entoam – Ensaios, Conversas e Lembranças, lançado pela Ateliê Editorial.

Segundo o autor, o destaque da obra é reunir o lado teórico e compositor em uma linguagem simples para quem se interessa pela tema. “É muito diferente produzir e analisar. Geralmente quem sabe compor não se sai muito bem para analisar, porque a composição vem a partir da criatividade, mas existe uma linguagem que precisa ser compreendida e este é meu único livro que une os dois temas”.

[HED - 34]  DIARIOS/CULTURA/1_MATERIAL ... 07/12/14

COM O GRUPO RUMO – Momento emblemático da música feita em São Paulo

Dividido em três partes (autobiografia, entrevista e ensaios), “Todos Entoam” se revela como um registro essencial para compreender a dimensão da música brasileira, desde os clássicos festivais da TV Record nos anos 1960 até 2013, na contemporaneidade da música urbana. Escrito em primeira pessoa, a primeira parte mostra a vida de Tatit rumo a canção e semiótica. Na parte de entrevistas, Tatit expõe a músicos e pensadores da MPB como Zélia Duncan, Ná Ozzetti e o mineiro Kristoff Silva, seu ponto de vista sobre a linguagem da canção, suas criações e publicações nessa área, o projeto Rumo e as influências de São Paulo em sua trajetória cultural. Na terceira e última parte, 22 ensaios focalizam a relação entre melodia e letra, amparada sobre o impacto cultural que obras artísticas tiveram na sociedade brasileira.

A escolha do nome do livro (“Todos Entoam”), segundo Tatit, vem da capacidade de toda pessoa compor uma canção a partir da entonação da voz. “A canção para mim é a forma básica da composição, a maneira de falar é sempre o ponto de partida, a parte musical é para estabilizar aquilo que se compõe”. Ao final da leitura, vem a conclusão de que, sim, vale a pena um lugar na estante para “Todos Entoam”. Além da leitura prazerosa, é do tipo do livro para volta e meia ser consultado.

Confira esta e outras obras de Luiz Tatit , no site da Ateliê.

Anatomia da estupidez

Marcos Guterman | O Estado de S.Paulo| Aliás | Pág. E3 | 07 de dezembro de 2014

Livro destrincha mitos mais duradouros que explicam a perseverança do ódio aos judeus

10-MitosTucciMitos são simplificações destinadas a dar, por meio da lógica, conforto moral àqueles que se sentem miseravelmente perdidos em meio ao caos da História. Não são verdades nem pretendem sê-lo; servem somente para conferir sentido à vida do homem-massa, essa criação contemporânea que ocupa a sociologia e serve aos propósitos do poder totalitário. E não se prestam necessariamente à narrativa religiosa – seu uso tem sido basicamente político desde o século 19. Ao longo de todo esse tempo, observa-se que os mitos mais resistentes, renovados com notável energia, têm sido aqueles relacionados aos judeus. Tamanha é a força da narrativa fantasiosa a respeito desse povo ao longo dos séculos que é possível identificar até mesmo a consolidação de uma mitologia sobre os mitos – isto é, também as explicações para a perseverança do ódio aos judeus estão, boa parte delas, contaminadas por mistificações. Assim, é bem-vinda toda tentativa de compreender o antissemitismo à luz não do senso comum, mas da ciência histórica – como faz o mais recente livro da historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, Dez Mitos sobre os Judeus, que procura identificar as razões da permanência desse misto de hostilidade aberta e admiração latente que resulta na singularização dos judeus.

Mitos não são criações aleatórias. Para que adquiram perenidade, característica primária da mitologia, tais narrativas devem ser vistas, sem reservas ou contestações, como a exata tradução do real. Mais do que isso: o mito, para sê-lo em toda a sua extensão e força, deve até mesmo substituir o real, isto é, deve ser a referência natural, mecânica, para que se faça a leitura dos conflitos e paixões da sociedade. Como mostra o livro de Tucci Carneiro, o que importa é a verossimilhança da narrativa, ainda que esta tenha escassa correspondência com a realidade. No caso dos mitos antissemitas que serviram aos nazistas, por exemplo, trata-se, no dizer de Hannah Arendt, de uma “ofensa ao bom senso”, pois os judeus passaram a ser perseguidos implacavelmente na Europa do século 20 justamente no momento em que seu alegado poder – aquele que serviu de pretexto para as perseguições – declinava junto com o Estado-Nação e quando os valores religiosos do judaísmo, cuja leitura deturpada alimentava a imaginação dos antissemitas, estavam perdendo força em meio ao acelerado processo de assimilação.

Essa incoerência é apenas aparente. O “Judeu”, entendido aqui como a imagem estereotipada dos judeus, era o inimigo ideal, pois, enquanto representava todo o Mal sobre a Terra, na realidade não tinha como se defender, nem pela força nem com argumentos racionais. Eis a potência do mito que encantou gerações até hoje.

Não é possível estabelecer uma cronologia da construção do mito do “Judeu”, mas não se pode negar que o elemento fundador desse empreendimento fabuloso seja a acusação de que os judeus mataram Jesus Cristo, provável razão pela qual Tucci Carneiro a tenha escolhido para abrir seu livro. A gravíssima condenação serviu para dar força ao cristianismo em seus primeiros tempos e ainda ofereceu ao mundo a imagem mais bem acabada do traidor – Judas. Queimar esse Judas, como se faz simbolicamente ainda hoje, como brincadeira de criança, serve para expurgar o Mal, que ameaça a ordem celestial.

O deicídio está na base do antissemitismo, mas desde o século 19 foi largamente superado como seu elemento central. Este agora reside na certeza de que os judeus, reunidos em entidades secretas, fazem parte de uma conspiração internacional. Tucci Carneiro observa que essa ideia ganhou sua melhor interpretação por meio dos Protocolos dos Sábios de Sião, que reproduzem as atas de uma fictícia assembleia de judeus dispostos a enganar e dominar o mundo. A historiadora também nota que de nada adiantou alguns importantes jornais europeus contemporâneos dos Protocolos (1905) informarem que se tratava de um embuste, pois o texto dava “sentido” às convulsões revolucionárias do mundo, atribuindo-as ao plano de dominação judaica. Mesmo Hitler, no seu livro Minha Luta, deixa claro que, para ele, não importava se os Protocolos eram autênticos ou não; o que interessava, em suas palavras, era que a “realidade” tornavam “patentes” as maquinações dos judeus relatadas no livro.

Como demonstra Tucci Carneiro, os Protocolos, portanto, não são a fonte, mas sim resultado do sucesso do antissemitismo político, fenômeno que se espraiou pelo mundo – razão pela qual o texto foi traduzido para dezenas de idiomas e até hoje é publicado em diversos países, onde sempre há expressiva ralé em busca de argumentos lógicos para justificar seus fracassos e para seguir líderes com vocação autoritária.

Tucci Carneiro se ocupa ainda de explicar diversos outros mitos, como aquele que há tempos atribui aos judeus o domínio da mídia global e das grandes finanças internacionais, e também o mais recente deles, que diz que a política externa americana se dobra aos caprichos dos judeus – como se as relações dos judeus com os Estados Unidos não estivessem baseadas numa identidade comum construída desde o século 17. Ao procurar refazer a trajetória histórica dessas imputações, com seus efeitos inclusive no Brasil, a pesquisadora disseca a lógica desse monumento à estupidez que é o antissemitismo e presta um bom serviço à razão.

Confira abaixo as fotos do lançamento da obra Dez mitos sobre os judeus, ocorrido no dia 04 de dezembro na Livraria da Vila – Pátio Higienópolis, (Fotos por Douglas Mansur):

10365896_722970601133394_5368704362297022188_n 10175955_722973704466417_7627885864677541756_n 10383103_722971431133311_5704839493041450762_n 10846209_722971134466674_4433151059315456080_n 1526814_722971184466669_963415793615507882_n 10696345_722969467800174_4428887992551987497_n 10848060_722969837800137_1138567834583708530_n 10407062_722969804466807_4842262845232889872_n 10420217_722969551133499_8484613130614534706_n 10417785_722969171133537_6436254647258248063_n 10704090_722969224466865_2674612949502256546_n

 

O renascimento de Sofia

Diogo Guedes | Jornal do Commercio Seção: Caderno C | Pág. 01 | 13 de setembro de 2014

Sidney reescreve o primeiro romance, lançado há 20 anos, e cai na estrada para divulgá-lo. É a terceira versão para a obra

Um romance nunca termina para a maioria dos escritores, enquanto o texto continuar na suas mãos, haverá mudanças, aperfeiçoamentos, testes, transformações. O cearense radicado em Pernambuco Sidney Rocha é um grande exemplo disso: publicou há 20 anos o livro Sofia, uma ventania para dentro (Fundape), que ganhou o Prêmio Osman Lins, mas a história não parou de se mover. Saiu em outra versão, bilíngue e modificada, pela Ateliê Editorial, em 2005. Agora, o autor publica uma terceira versão da narrativa, chamada só de Sofia, completamente alterada, com edição pela Iluminuras.

Sidney começa a viajar hoje pelo Paraná para divulgar a obra, com lançamentos em cidades como Ivaporã, Campo Mourão, Paranavaí, Umuarama e Maringá. “Sempre me senti um escritor inconeluso, mesmo quando termino algo. Nesses anos vim alterando o texto, e isso já é bem visível já na segunda edição. Agora o romance se transformou em um novo romance. Quem leu antes se “reconhecerá nele tanto quanto o novo leitor, de novíssima geração”, conta o autor. “E, ora, o que realmente significa escrever? Escrever é criar um sistema que se valida a cada vez que se escreve. Por isso me sinto à vontade para alterar o que escrevo o tempo todo, se possível.”

Sofia, em todas as suas versões, apesar das grandes singularidades de cada, conta a história de uma paixão por uma personagem misteriosa, que prefere não entender as coisas e nem se prender a elas. O nome dela é repetido, como um pequeno prazer do narrador do volume. Ela provoca uma fascinação equivalente à Lolita de Nabokov – Sidney vê semelhanças entre os narradores das duas histórias, ambos pouco confiáveis apesar da diferença no enredo e na abordagem. “Um romance sobre nada”, esse foi o ponto na minha linguagem que já antecipava Carrero, há 20 anos, na quarta capa da primeira edição de Sofia, lembrando do mesmo desejo: escrever sobre o nada que tinha Flaubert”, lembra.

Segundo ele, as alterações não foram só em palavras, frases ou parágrafos “Capítulos desapareceram e reaparecem noutro formato. Ou se transformam numa única oração. Uma frase ganha peso e compactação de capítulo. Quem ler essa Sofia notará que a proposta é radical e que as alterações durante esse tempo legitimam a personagem: ela quer mudanças, exige. E para mudar, segundo ela, é necessário perder-(se) um pouco. Mas ganhar noutras partes. O livro ganhou arejamento, limpeza, novos pontos de vista”, explica “Mudar de verdade é ser um outro.”

Se Sofia mudou tanto, é um sinal de que Sidney também é outro? “Sim, sou outro paradoxalmente, sendo o mesmo. Esse romance é uma anamnese completa”. Brinca. “Algum dia deverão ler os três livros profundamente para tentar não puramente uma crítica genética, mas para notar como um autor procura uma linguagem própria, que é o que deve buscar sempre um escritor de verdade.”

O próximo livro de Sidney, Geronimo, é também a sua primeira narrativa completa inédita no gênero desde Sofia – nesse intervalo, publicou dois volumes de contos, Matriuska e O destino das metáforas, vencedor do Jabuti. Geronimo, como é de se esperar de um autor 20 anos mais experiente, é uma obra muito distinta da primeira. “Há pontos que sempre estarão lá, nos dois, mas como eu disse ao Vacatussa: No caminho, a vida tratou de agir com toda a força que podia. Minha literatura sempre refletirá o que sou, por isso será sempre transgressora. Fugi de casa pela janela. Boas maneiras não combinam com literatura”, afirma. “Agora, quero que meus leitores se comportem, e leiam esse livro novo”.

Leia trechos de duas versões de Sofia no canal www.jconline.com.br/cultura 

EÇA DE QUEIROZ – UMA BIOGRAFIA

Oscar Pilagallo | Guia Folha Seção: Livros | Pág. 18 | 30 de agosto de 2014

16x23 - 35mm lombadaCom elegância estilística e dicção lusitana que remetem ao universo literário de seu personagem, Campos Matos escreveu uma biografia rigorosa e abrangente de Eça de Queiroz (1845-1900). A primeira metade foca a vida do autor de “Os Maias”, com ênfase na formação intelectual: a influência de Flaubert, a admiração crítica por Victor Hugo, a relação com Machado de Assis – registrando o teor moralista da acusação do brasileiro e o impacto que sua intervenção teve na trajetória de Eça.

Na segunda metade, o autor se debruça sobre temas definidores do personagem –anticlericalismo, erotismo, jornalismo. Quanto à ideologia, fica com a etiqueta “socialista cristão”. O biógrafo trata da rejeição de Fernando Pessoa ao conterrâneo, a quem chamava de provinciano, mas não a leva muito a sério, notando ser frequente o desentendimento entre os grandes.

Matos faz severas críticas a João Gaspar Simões, primeiro e muito utilizado biógrafo de Eça. Diz que ele se deixou levar pela “imaginação de romancista” e foi incoerente ao usar instrumentos freudianos para analisar o autor, com quem teria desenvolvido uma relação de amor e ódio. Esta edição se beneficia das revisões feitas por Campos Matos depois da primeira edição portuguesa, de 2010.

Eça de Queiroz: Uma Biografia

AUTOR A. Campos Matos

EDITORA Ateliê

QUANTO R$ 110 (600 págs.)

AVALIAÇÃO ótimo