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Nota de falecimento de Segismundo Spina, professor emérito da USP

Segismundo Spina

A Ateliê lamenta profundamente a perda do professor emérito da USP, Segismundo Spina, que publicou obras importantes, tais como Do Formalismo Estético Trovadoresco e História da Língua Portuguesa. Conheça os livros do autor publicados pela Ateliê: http://www.atelie.com.br/livros/segismundo-spina

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Leia abaixo a nota de falecimento publicada no site da USP:

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Com pesar, comunicamos o falecimento do professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Segismundo Spina, ocorrido no dia 22 de dezembro de 2012.

Nascido em Itajobi, em São Paulo, em maio de 1921, Spina fez a graduação no curso de Letras Clássicas e a pós-graduação na USP. Em 18 de setembro de 1944, iniciou na FFLCH como auxiliar técnico da cadeira de literatura portuguesa, aposentando-se como professor titular do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas em 12 de fevereiro de 1987. E, em 13 de abril de 1989, recebeu o título de professor emérito pela Faculdade.

Ao longo de sua carreira de professor dos cursos de Letras da USP – atuando principalmente nas áreas de linguística, letras e artes; literaturas vernáculas – Spina deu contribuições fundamentais à filologia, à crítica textual e aos estudos literários. No Brasil, tornou-se referência obrigatória para os estudos da obra camoniana e da estética barroca. Foi também responsável pela difusão do conhecimento objetivo das estruturas do poema.

É autor de diversos livros, tendo como obras mais destacadas os estudos Do Formalismo Estético Trovadoresco e Apresentação da Poesia Barroca Portuguesa. Na Editora da USP (Edusp), tem três títulos publicados: A Lírica Trovadoresca, A Poesia de Gregório de Matos e Ensaios de Crítica Literária.

Paralelamente, ensinou ainda Literatura Portuguesa na Universidade Presbiteriana Mackenzie, e regeu a cadeira de Filologia e Língua Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

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A Ateliê lamenta profundamente a perda de Décio Pignatari

Décio Pignatari

Deixamos registrados aqui nossos sentimentos e homenagens a este grande poeta e sua família. Foi um imenso prazer e honra ter realizado projetos junto com um dos maiores poetas brasileiros. Veja abaixo a notícia publicada pelo G1.

Morreu de insuficiência respiratória neste domingo (2) o poeta paulista Décio Pignatari, aos 85 anos. Ele estava internado desde sexta-feira (30), no Hospital Universitário de São Paulo, e faleceu por volta das 9h da manhã, segundo a assessoria do hospital. Ele também sofria de Mal de Alzheimer, informou o hospital.

Décio nasceu em Jundiaí, São Paulo, em 1927, e ficou conhecido, ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, como um dos nomes do movimento concretista, que realizou experimentos formais nas artes brasileiras a partir da década de 50.

As primeiras poesias de Décio Pignatari foram publicadas na Revista Brasileira de Poesia, em 1949. O livro de estreia, Carrossel, saiu em 1950. Com os irmãos Campos publicou, em 1965, Teoria da Poesia Concreta.

“O Décio, numa carta que me escreveu, foi o primeiro poeta que usou para mim essa expressão [poesia concreta]. Ele caracterizava como concreta a poesia do [escritor americano E.E.] Cummings, distinguindo-a de outros poetas. E aquilo ficou na nossa correspondência”, conta Augusto ao programa Umas Palavras, sobre a adoção do rótulo pelo grupo.

“Além de poeta, Pignatari escreveu romance, peça de teatro e foi tradutor, professor e estudioso de semiótica, assunto de diversos de seus livros. Sua obra poética está reunida em Poesia Pois É Poesia (Ateliê Editorial, 1977)”, descreve em seu site a editora Cosac Naify, que lançou em 2009 seu livro Bili com Limão Verde na Mão.

Livros de Décio Pignatari pela Ateliê

O Poeta Vingador

Em entrevista à H, Marcelino Freire revela que escreve para se vingar de si mesmo e de um mundo meloso e falso onde o amor é apenas uma ilusão

Marcelino Freire

Hélio Filho | H Magazine | 01/11/2012

O escritor pernambucano Marcelino Freire gostaria de ter o tempo de vida de uma mosca, apenas um dia, porque acredita que a vida é longa demais e a velhice é uma perda de tempo. O que poderia parecer melancolia é apenas indignação frente a um mundo onde, como diz o nome de seu mais novo livro, amar é crime – e principalmente significa correr atrás de um ideal que a própria Literatura criou, um romance ultrarromântico. Marcelino prefere o respeito e a praticidade em um relacionamento.

Em um bate papo recheado de sonoras gargalhadas no Espaço Haroldo de Campos, Casa das Rosas, antiga residência [sic] de um dos maiores poetas brasileiros e símbolo da poesia em São Paulo, Marcelino revela que escreve para se vingar de um mundo intolerante e artificial, onde o sentimento fica escondido atrás de convenções. Mais do que isso, ele é sincero o bastante para dizer que quer se vingar de si mesmo porque acha que poderia ser mais atuante, sair da redoma que protege os escritores e suas ficções.

A vida de Marcelino não é um romance, muito menos uma poesia. É uma prosa solta, clara, direta e sem meias-palavras que diz o que quer para quem precisar ouvir, e espera que esse dizer provoque algo além de uma emoção passageira, mais rápida do que um virar de páginas, mais leve do que o bater das asas de uma mosca.

Você me deu seu mais novo livro e eu fiquei curioso sobre o título Amar É Crime?

Amar continua sendo crime. Eu acho que quando a gente está amando uma pessoa, a gente tem que matar muita coisa dentro da gente pra começar uma relação. Amar é o recomeço de alguma coisa, então você mata algumas coisas dentro de si para se renovar e reviver essas coisas na outra pessoa. Amar é crime também porque às vezes você está vivendo uma grande paixão e esse amor que você está vivendo é crime para o olhar do outro, para a sociedade, aí entra a questão dos ataques homofóbicos e tudo. Para a sociedade aquele amor é crime, aquele amor é errado. Amar é crime também porque em nome do amor muitas pessoas cometem assassinatos e não são julgadas por isso. Eu acho, por exemplo, que a Igreja prega muito o amor, mas ela matou muito em nome dessa pregação do amor. A televisão também. O comércio do amor, o Padre Marcelo (Rossi) com seus discos, com seus livros, com seus DVDs.

Você acha que o amor hoje está diferente? Ele está mudando com o mundo?

Não, o amor é o mesmo. O amor é uma coisa que a gente não consegue explicar, não consegue entender, a gente sente, a gente se aperreia por causa do amor, não é? Esse sentimento aí já vem atravessando o homem há muito tempo, mas o que eu digo é que com esse livro eu quis fazer um testemunho, ou um testamento, dessas relações. Eu percebi que os meus contos falavam de começos de relacionamentos, finais de relacionamentos. Percebi que tinha a questão do preconceito, a questão dos ataques homofóbicos. Aí eu disse, me parece que o amor é crime, me parece que cada vez mais uma pessoa estar vivendo um amor muito intenso, esse amor é crime para o olhar do outro, da sociedade, para o julgamento das pessoas. E também no sentido positivo. O amor é crime também porque ele nos renova, ele mata algumas coisas, alguns vícios, alguns preconceitos que a gente tem e ele nos renova. Então todas essas questões estão nesse livro.

O título é bem forte. Por quê?

Eu sou um escritor muito passional, muito aperreado, aí nos meus títulos eu já quero dizer que, sabe, amar é crime. Eu escrevo para me vingar, aí eu quero me vingar do Padre Marcelo, aí eu digo que amar é crime. Eu acho que de alguma forma eu estou me vingando dele, sabe?

Mas é só o amor que te serve de combustível? Pelo jeito a vingança também.

Não, eu escrevo para me vingar. Posso dizer que escrevo para me vingar de um amor que foi embora, para me vingar de uma paixão que não deu certo, para me vingar de um governo que não caminha, não vai bem. Eu escrevo para me vingar das injustiças sociais, das coisas que me afetam. Esse livro mesmo, quando eu estava fazendo esse livro, fechando para ser publicado, e eu já sabia que ele se chamava “Amar É Crime”, eu já sabia que esses contos falavam de amor, desse preconceito, do julgamento etc., quando começaram a pipocar aqueles ataques homofóbicos em São Paulo. Claro que esses ataques todos já acontecem há muito tempo, mas aí aquele episódio que um garoto tascou uma lâmpada na cara do outro e etc. etc., aí quando eu estava com o livro pronto eu disse que tinha que fazer alguma coisa para que esse livro também abarque ou seja um instrumento da minha indignação. Aí eu lembro de um poeminha que eu fiz faz tempo, um poeminha de amor concreto, que é o que abre o livro, ele é exatamente contra isso, dizendo do meu choque com esse tipo de atitude. Esse poeminha já foi publicado na revista Junior uma vez, eu não digo que é a minha contribuição, mas eu escrevo justamente, volto a dizer, para me vingar, e eu escrevo porque eu quero que meu livro também seja um instrumento dessa minha não-conformação com essa série de coisas.

E tem mais gente que você queira se vingar?

Ah, bastante gente (risos).

Então teremos muitos mais livros de Marcelino Freire?

É muita coisa pra se vingar. É uma vingança também contra mim, eu sou um bundão, eu me sinto um bundão. Eu me sinto impotente diante de tanta coisa, que a gente poderia fazer para mudar alguma coisa, eu me sinto impotente. Digo: porra, eu sou um escritor, escrevo os meus livros, mas eu não posso ser só isso, esse escritor na redoma, esse escritor que escreve e acha que já deu sua contribuição para a sociedade.

Mas você se vê em uma redoma? Não acha que fazendo esse tipo de prosa, mais engajada, provocativa, sai dessa redoma? Quem lê o seu livro é tocado, alguma coisa vai mudar na pessoa.

Eu acho, mas a minha vontade é… eu tenho uma inveja imensa daquelas pessoas que tocam fogo nas vestes e saem correndo, sabe? Aquilo é uma coragem da porra! Coragem extrema, coloca ali aquele querosene e sai correndo. A minha vontade às vezes é fazer isso, mas eu sou um bundão, eu sou covarde demais. Aí eu escrevo e tento ver se a minha escrita de alguma forma se vinga de mim, no sentido de que ela me fale “oh, bundão”. Porque eu sou pacato, a minha escrita é uma escrita que dá vexame, é uma escrita que toca fogo no próprio corpo. Claro que a Balada Literária (www.baladaliteraria.zip.net), que eu organizo em São Paulo há sete anos, é também um instrumento de vingança, um instrumento de atitude diante de tanta coisa que acontece. Eu faço um evento para não ser só esse escritor que escreve, eu tenho que fazer alguma coisa também. Aí eu faço esse evento há sete anos sem dinheiro nenhum porque eu quero que a Literatura esteja presente e viva na vida das pessoas, que ela seja legal, seja algo pulsante. Esse meu desejo, também fora da escrita, é de movimentar uma cena literária.

Bom, você já se vingou de um monte de gente, como você disse, tem mais gente que você ainda vai se vingar, mas e amor? Você amou muita gente?

Eu amei muito pouco, o problema do amor é que é muito caro (risos). Eu vou até dar meu telefone aqui na revista, vai que me ligam. Eu estou solteiro já há um tempo, mas eu na verdade sou muito desligado para essas coisas assim, eu não sei, eu me dediquei tanto à Literatura durante um tempo, com tanta vontade de fazer os meus livros, de fazer esses movimentos que eu faço, não sou desses também de dizer que está em um segundo plano isso aí, não, mas eu também não tenho muito tempo, não acredito muito no amor. Eu acho que é tudo mentira. Mentira da gente. A gente inventa alguma coisa do que gostar. A gente inventa uma possibilidade de gostar, de viver junto, de criar uma vida. O que une um casal é o respeito, o amor a gente inventa. Eu acho que o amor que eu acredito é aquele que tem absoluto respeito pelo outro, a vontade de se unir com outra pessoa para você conseguir as coisas que você quer. É ir junto, tentar modificar a vida da gente, tentar ser um melhor cidadão, pai, filho, irmão. Vamos tentar mudar um pouquinho aqui o nosso quarto, a nossa rua, começar por aqui mesmo. Eu acho que esse é um exercício de amor muito possível na prática, eu acredito na prática desse amor. Já passei essa fase tuberculosa, essa fase daqueles escritores muito românticos. Abandonemos esse romantismo tuberculoso.

É, você não tem livros melosos de mocinhas que sofrem pelo amor e no fim do livro encontram o amor e por aí vai.

Não, não tenho. Uma das pessoas mais importantes da minha vida, que me deram muito exemplo desse exercício, foi a minha mãe. Eu olho para tudo que ela realizou e digo que é aquilo ali que era a personificação de um sentimento bonito, de vontade de crescer, de vontade de exercer a honestidade, o respeito, criar os filhos. Aquilo era uma entrega muito plena. Eu faço isso naquilo que eu escrevo, naquilo que eu organizo com os amigos.

Mas com uma visão assim não fica complicado encontrar alguém para amar? Porque a maioria das pessoas tem a visão melosa do amor.

Aí fudeu, quando fica muito essa coisa de nhem nhem nhem pra cá e pra lá fudeu. Aí meu Jesus, não, pelo amor de Deus! Não, vai-te pra lá! Muito nhem nhem nhem eu não gosto não. Sou mais prático. Vai que é porque não me pegaram de jeito até agora! Vai saber. Não sou meloso.

Têm muitos textos seus no Teatro. Você gosta de Teatro, escreve para Teatro?

Tem bastante sim. Eu vou bastante ao Teatro. No começo do ano que vem o Rodolfo Lima vai voltar a fazer o Bicha Oca, parece que já conseguiu o espaço. É um grande ator, ele fez muito bem o Bicha Oca. Eu adoro Teatro porque eu queria muito ser ator, mas descobri que tinha muito pudor para ser ator. Eu fiz Teatro dos 9 aos 19 anos de idade, mas aos 19 eu desisti porque eu fui ver uma peça uma vez e todos os atores estavam pelados. E era uma peça muito boa, não era uma nudez gratuita. Eu disse “meu Jesus, eu não vou ficar pelado nunca em cena!” Aí eu desisti porque eu seria um ator limitado. E eu também não precisava causar esse vexame à plateia, de ficar pelado, balançando o bilau para cima e pra baixo, então eu desisti.

Hoje em dia você ainda é tímido assim?

Eu tiro roupa, eu faço miséria… Escrevendo. Quando eu escrevo eu não tenho pudor nenhum, mas me colocar em cena assim para fazer um personagem não. Eu queria ser ator, achava muito bonito, quando eu descobri que tinha essa limitação, que eu não seria um ator que ia se entregar completamente, eu desisti. Hoje em dia eu faço um espetáculo, tem um que eu faço com a cantora Fabiana Cozza, de quando em quando a gente se apresenta, mas sou eu como escritor lá, interpretando alguns contos meus, uma espécie de leitura, nada decorado, uma leitura cênica disso. Mas é o autor que está ali, não é o ator. Faço isso também em outros eventos, quando eu vou e posso interpretar um conto meu, ler um conto meu, eu gosto muito. O Teatro me ajudou muito nisso, respeitar os silêncios, as pausas. Quando eu escrevo eu penso em Teatro, quando eu escrevo eu penso em um ator, em uma atriz fazendo, me interpretando. Porque eu escrevo em voz alta, escrevo falando. Aí termino de escrever e vou ler aquilo, ver como está se processando. Por isso que quando os atores vêm para os meus livros, eles reconhecem ali um monólogo pronto, algo que eles podem apresentar. Eu vou escrever agora, entre dezembro e janeiro, o próximo espetáculo do Coletivo Angu de Teatro, que é do Recife. Uma das atrizes é a Ermila Guedes. Adoro e respeito profundamente o grande ator, a grande atriz. Respeito essa entrega do corpo e da alma.

E sobre o que é esse espetáculo?

É sobre velhos. Estou escrevendo meu primeiro romance, vai sair no final do ano que vem pela Editora Record. E paralelo ao romance, estou escrevendo, pela primeira vez, pensando na costura desse espetáculo. Não tem título ainda, mas eu sei que a temática é de velhos, só velhos em cena. Eu tenho vários contos que têm personagens velhos, me fascinam por uma falência múltipla dos órgãos. Eu gosto das falências, do velho quando começa a falhar a memória, a fala, as lembranças, eu gosto dessa falência. Engraçado, eu não gosto de saúde, eu gosto dessa fragilidade, dessa humanidade.

Você se sente velho aos 45 anos?

Não, me sinto bem. Até me deram 10 anos a menos esta semana. Vai ver que é porque eu estava de costas (risos). Eu estou com 45 agora, pode não parecer, mas eu tenho muita preguiça de viver. Toda vez que eu acordo eu digo: de novo? É uma preguiça, mas vamos lá, vamos embora, não estamos aqui pra isso? Aí eu vou lá, faço as coisas. Acho que até para não me sentir tão desocupado, alheio, eu quero dar sentido àquilo que não tem sentido nenhum, sabe? Aí eu escrevo, acho que é exatamente para isso. Mas eu tenho uma preguiça imensa. As pessoas dizem que a vida é muito curta, não, a vida é muito longa. É muita coisa, Jesus. Eu queria ter o tempo de vida de uma mosca, que parece que é um dia. É uma beleza isso, você faria tudo em um dia. Não era não? Aí nascia de novo lá em outra mosca. Mas essas etapas todas, e cresce, e vai estudar, e casa, é um inferno. Eu não casei não, mas menino, pelo amor de Deus, eu vejo os meus sobrinhos casando com 18, 19 anos, aí já engravida não sei quem, vai fazer família, criança, leite, leva menino não sei onde, sogra no domingo.

Você nunca casou?

Não, nunca casei, nunca morei junto. Namorei já, mas não morei junto. Eu adoro fechar meu apartamento e só eu estar respirando ali naquele lugar, mais ninguém. Às vezes vem alguém que fica hospedado em casa durante um tempo, não tem problema nenhum, mas tem uma hora em que me perturba. É o lugar em que eu me isolo, porque eu acho que na verdade eu faço um monte de coisas: viajo, vou daqui, vou dali, então é o momento em que eu fecho ali e pronto. E as pessoas têm uma mania de achar que quem mora sozinho é triste. Tudo bem que eu falo que acho a vida longa demais, mas é porque eu sou trágico.Ou que porque moram sozinhas estão disponíveis sempre. Dizem: “vamos pra casa do Marcelino, estamos chegando aí nesse sábado”. Que conversa é essa? Não venham programar meu final de semana, eu detesto. Não, eu quero acordar primeiro antes de decidir. Eu sou livre demais e as pessoas tentam me prender, mas eu não deixo não.

Qual a palavra que você mais gosta?

Fôlego. É uma palavra bonita.

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Acesse aqui os livros do Marcelino Freire pela Ateliê

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Singular Filosofia

O veio transcendental da prosa de Juliano Garcia Pessanha, cuja obra merece ser descoberta

Juliano Pessanha

Alcir Pécora | Cult | 01/11/2012

O paulistano Juliano Garcia Pessanha (1962) tem produzido uma obra literária consistente, composta até agora de quatro títulos: Sabedoria do Nunca (1999), Ignorância do Sempre (2000), Certeza do Agora (2002) e Instabilidade Perpétua (2009), todos lançados pela Ateliê Editorial. São livros sérios, nascidos de questões que se dão a ver vigorosamente no corpo mesmo de sua forma; não tão isentos de defeitos, pois não buscam terreno batido ou aplainado.

E a principal questão enfrentada por Juliano Garcia Pessanha é justamente a de como habitar de maneira íntegra um mundo dessencializado, tomado por entidades institucionais e figuras blindadas por “homens em serviço”, como ele diz, sem mais quase traço de humanidade. Diante da evidência da devastação contemporânea, ele se pergunta se ainda há possibilidade de fundar – ou melhor, já que se trata de um mundo sem fundamentos -, de “pendurar” um rosto de pessoa numa vida “em aberto”, sem graça e sem metafísica.

A resposta que Juliano oferece em seus livros é um valente e generoso “sim’. É verdade também que a força volitiva do “sim” se esgarça, por vezes, em certa nostalgia heideggeriana do Ser, manifesta, por exemplo, em lances de devaneio sentimental sobre a própria infância infeliz. No pior dos casos, isso acaba resultando num contraponto especular do “narcisismo trabalhista” acusado nos homens “de carreira”. Contudo, não esta aí, de nenhum modo, a versão mais justa de sua obra.

Tornemos ao ponto: na literatura de Juliano Garcia Pessanha, a ideia de “singularidade” do sujeito se inscreve no âmbito de uma noção de “natalidade” dolorosa, que perdura ao longo da vida, surgindo à consciência menos como um esclarecimento do que um abismar-se diante do que parece esquecido ou domado.

Esta é, paradoxalmente, a esperança de que a lucidez se mantém: apenas a dor persistente desse momento resistente à cura e à normalização do curso da vida pode fazer frente ao nada presentificado. A consciência nada tem de plena; como, por vezes, sequer alcança um fio de enredo familiar, mal se distingue de uma espécie de “aparição”, uma presença assombrada.

O paradoxo postula, portanto, que a dor pode se tornar aliada de uma pessoalidade adversa à neutralização da experiência. A busca de si equivale a uma travessia na qual o sujeito nada leva consigo, a não ser uma perigosa “confiança” – uma “esperança radical”, como diria Jonathan Lear – no ser destituído pelo presente, cujo caminho de destruição admite trilhar até o fim.

De maneira apropriada, a realização formal da obra de Juliano Garcia Pessanha se apresenta como um discurso inquieto, dramático e autopensante, análogo à expectativa difícil de encontrar uma vida própria, aberta afetivamente ao outro. O custo imediato a pagar é o enfrentamento das armadilhas e expedientes dos vocabulários à mão: narrativas deliberadamente esquemáticas – literatura prêt-à-porter -, as quais, por isso mesmo, estão impossibilitadas de tocar o abandono e a tragédia na qual existe uma experiência real.

Ainda em termos formais, dois aspectos ajudam a pensar o que ficou dito. O primeiro é a composição estruturada como um cuidadoso arranjo de diferentes gêneros. Alternam-se ensaios filosóficos (ajustadíssimos academicamente, sem que faltem notas, domínio profissional do assunto e bibliografia especializada), com contos, fragmentos de prosa, comentários eruditos, formas breves, como sentenças e aforismos, poemas, além de anotações de caráter manifestamente biográfico e até confessional. Tal variedade de registros logra um notável efeito de expansão de universo de referência da narrativa que se vai construindo residualmente – um fenômeno que, visto pelo lado inverso, também evidencia a potência teórica e analítica da ficção assim elaborada.

O segundo aspecto diz respeito à dinâmica de enredo, análise e afetividade implicada numa narrativa cujo andamento se faz usualmente sem concessões ao romanesco. Juliano a compõe de forma insólita e minuciosa, ora conduzida com sutileza e precisão cerebrais, ora favoravelmente disposta à deslocação de violenta massa de sentimento. Num terreno exíguo de ação, trabalham guindastes espirituais de grandes proporções.

Sincronizando ritmos tão diversos – sutil e analítico, brutalista e afetivo -, Juliano tateia o corpo do discurso em busca de uma espécie de veio transcendental. Aquele, raro, que permanece apto à inscrição de um rosto singular, que é também o de uma autoria.

Juliano Garcia Pessanha estudou direito e filosofia, e é mestre em Psicologia. É professor e dirige oficinas de escrita. Também é autor da trilogia: Sabedoria do Nunca (1999, com textos que ganharam o Prêmio Nascente, promovido pela Abril/USP), Ignorância do Sempre (2000) e Certeza do Agora (2002).

A ponte bandeirante

Viaduto do Chá ampliou o horizonte do paulistano, pondo fim a um confinamento espacial de 350 anos

José de Souza Martins | O Estado de S. Paulo | 11.11.2012

Viaduto do Chá (1929)

Os 120 anos do Viaduto do Chá, completados no dia 6, merecem registro e análise pela importância que ele teve na transformação do povoado paulistano na cidade que São Paulo é. Por ele, São Paulo atravessou do passado em direção a um novo presente e ao futuro. Tanto no real quanto no imaginário. Ele foi a Lei Áurea da cidade, libertando-a do confinamento espacial a que esteve condenada por 350 anos. O Viaduto do Chá, inaugurado em 1892, demolido em 1938 e substituído pelo que hoje conhecemos, mudou a economia da cidade, mas principalmente alterou a mentalidade dos paulistanos.

Num painel de bronze do século XIX, no Cemitério da Consolação, no túmulo antigo dos operários da Fábrica de Chapéus de Adolfo Schritzmeyer, há em relevo uma vista panorâmica do vale do Ribeirão Anhangabaú. A fábrica aparece na roça, ladeada de canteiros de verduras espalhados por toda sua extensão, a poucos metros do centro da cidade. Anhangabaú tido como maldito, é bom que se diga: desde antes da fundação da vila de Piratininga, era crença dos índios, e continuou crença dos moradores, que aquele era o lugar de Anhangá, versão indígena do demoníaco, um ente dos limites e confins. No folclore paulistano, ficou a cantiga infantil que celebra a ponte antiga e rústica que precedeu o viaduto imponente, em outro ponto:

“Eu fui passar na ponte, a ponte estremeceu. A água tem veneno, morena, quem bebeu, morreu”.
Análises antigas da água do Anhangabaú revelaram que ela continha arsênico.
É só se afastar poucas centenas de metros do centro que o paulistano descobre as encostas do outeiro transformadas em ladeiras: a Ladeira de São João, a Ladeira Porto Geral, a Ladeira General Carneiro, o Beco do Pinto, que desce para a Rua Frederico Alvarenga, onde ficava o necrotério. Resquícios da encosta que, com o muro de taipa, teve funções de muralha protetiva contra os ataques dos índios, como o ataque maciço de 1562, com seus inúmeros mortos e moradoras e moradores capturados e levados. Várias gerações de paulistanos foram educadas na cultura do confinamento, refugiadas quase ao redor do Pátio do Colégio.
A poderosa cultura do confinamento dos moradores, que atingiu sobretudo as mulheres, atingiu também os homens por meio do disseminado costume endogâmico de casarem-se com as primas, sempre alguém “de dentro” da própria família, numa enorme resistência aos “de fora”. Desdobramento do lugar da casa de família nessa cultura como lugar de refúgio e verdadeiro esconderijo em relação a uma exterioridade tida como espaço do estranho e do inimigo. A antiga vila e, depois, cidade ajustou-se espacialmente aos requisitos e ameaças desses temores de origem e restringiu-se ao espaço do chamado Triângulo, nos confins do estreito terreno entre o Tamanduateí e o Anhangabaú. Não por acaso, os aldeamentos de confinamento dos índios descidos do sertão e reduzidos à condição servil foram localizados no exterior dos limites representados pelo Rio Tiete e pelo Pinheiros, limites de um cenário da guerra contra o gentio. As pessoas passam e os vindouros se esquecem, mas as determinações espaciais continuam ditando suas regras de convivência, de proximidades e distâncias muito depois de passado o tempo de suas razões de ser.
Os paulistanos urbanos atravessaram os séculos confinados no centro. Sobreviveu desse costume, até hoje, a expressão “vou à cidade”, “estive na cidade”, para os moradores se referirem ao verdadeiro centro, que é o antigo. O Viaduto do Chá estendeu esse centro até o outro lado do ribeirão. Abriu e modernizou um território novo para a expansão urbana. De fato, para ir do Largo da Sé até o Largo dos Curros, atual Praça da República, antes era necessário passar pelo Largo de São Francisco, descer a atual Rua Riachuelo em direção ao Vale do Anhangabaú, atravessar o ribeirão pela Ponte do Lorena, ladear o Chafariz do Piques e o obelisco que ainda existe pela Ladeira da Memória, usurpada pelas escadas rolantes do metrô, e entrar pela Rua da Palha ou Sete de Abril. O viaduto encurtou o caminho e até diminuiu cansaços, com o bonde puxado a burro. Isso para quem quisesse pagar os tostões do pedágio. Na entrada do viaduto havia cancela e guarita com cobrador. Passava quem pagava. Quem não quisesse, que fosse pelo brejo ou desse a volta imensa.
Pode-se falar no viaduto como marco de nossa revolução urbana justamente porque foi uma das mais poderosas obras de demolição da mentalidade de confinamento dos paulistanos e dos paulistas de então. Ao alargar a cidade, ao expulsar as grandes moradias do centro, os novos espaços expressavam uma nova divisão do trabalho e uma nova espacialização da cidade. O Viaduto do Chá contribuiu para difundir o que é próprio do urbano e da modernidade: a fragmentação do modo de vida, a moradia num lugar, o trabalho em outro, a religião em outro, a festa em outro, o transitar como nova e decisiva atividade do estar em lugar nenhum para poder estar, em seu devido tempo, nos diversos lugares do novo modo de viver.

José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre outros, de Uma Arqueologia da Memória, da Ateliê Editorial.

Ler, escrever e contar não basta

“É preciso ler o mundo”

NíIson José Machado

Fonte: Revista Kalunga | Edição 254 | Outubro 2012

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Nílson José MachadoEntre a carreira de engenheiro, formado pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), e a de professor de matemática, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Nílson José Machado ficou com a segunda opção. Abandonou o ITA, após três anos, doutorou-se em Filosofia da Educação, também pela USP, e passou a lecionar na instituição em 1972. A princípio, formou estudantes no Instituto de Matemática e Estatística e na década seguinte migrou para a Faculdade de Educação. Machado tem diversos livros publicados, entre os quais, Ética e Educação, que traz 256 microensaios sobre os temas cidadania, pessoalidade, didática e epistemologia, recém-saído da gráfica, publicado pela Ateliê Editoral, e Educação, Competência e Qualidade, pela Editora Escrituras. Nesta entrevista, ele discorre sobre várias questões a respeito de um dos temas mais pertinentes a toda sociedade brasileira.

Qual a sua avaliação sobre a Educação no Brasil?

Temos um problema crônico que é não ter políticas de Estado para a Educação. O que se tem são políticas de governo, ou pior ainda, de governantes. Às vezes muda o governante, mesmo que seja do mesmo partido, mudam as políticas. Isso ocorre em todos os níveis, federal, estadual e municipal. Em São Paulo, tivemos governos sucessivos de um mesmo partido e as políticas mudaram com os secretários de Educação. Essa é a grande mazela, faltam pessoas pensando na Educação com visão e nível de Anísio Teixeira, que pensava grande, que pensava no País, instituição educacional e não coisas de curtíssimo prazo e de “imediatez” que são desapontadoras.

Dê sua opinião a respeito da doação de livros?

É uma ação muito pequena em termos de política. Ninguém vai resolver os problemas educacionais distribuindo livros aos montes. O governo faz isso há pelo menos 15, 20 anos. Essa é uma iniciativa que faz a alegria das grandes editoras. Falta política educacional com P maiúsculo, que é uma política de Estado.

O governo tem investido o suficiente na democratização do ensino?

No meu entender, não há que se ter investimento em democratização do ensino. Não é esse o foco. Dewey Uchn, filósofo e pedagogo norte-americano, no início do século 20, dizia que democracia sem educação é algo canhestro. A educação sem democracia também. Aliviar a população de uma dessas duas coisas é como aliviar um condenado à morte, com duas penas de morte, será aliviada apenas uma. Democracia e educação são par fundamental. O que se pretende é uma educação de qualidade, esse é o processo de democratização legítimo. É garantir uma educação básica de qualidade, completa, até o final do ensino médio.

É correta a política de cotas na Educação?

A meu ver essa é uma política equivocada e polêmica. A democratização que se precisa buscar é por meio da educação básica de qualidade, não é oferecendo vaga no ensino superior para quem não está preparado. Isso é pura demagogia. Nós (USP) temos dificuldades com alunos, mesmo sem a questão de cota. Recentemente foi feita uma pesquisa apontando que 38% dos universitários brasileiros são considerados analfabetos funcionais, ou seja, são capazes de ler e escrever, mas não conseguem interpretar e associar informações, isso independente de qualquer política de cota.

Que contribuição a Universidade pode dar para mudar essa realidade?

No sistema educacional brasileiro, a universidade vive uma realidade diferente da escola básica, não é uma maravilha das maravilhas, mas é uma situação mais confortável. Como prima rica, a universidade deveria se envolver mais no processo de melhoria da educação básica. Não é abrindo mais vagas, mas acolhendo os alunos da escola pública em um curso pós-médio, de formação. Após esse período, ele poderia se candidatar a uma vaga na universidade.

Como seria esse curso?

Estou falando de um mutirão em que grande parte das pesquisas teria de ser colocada de molho. Como isso não dá visibilidade imediata, ele só poderia ser avaliado quando a primeira turma estivesse saindo. É atividade para sete, dez anos. Não é dar um cursinho de dois anos para esses alunos. As atividades na universidade e na escola básica não precisam ser somente aulas. Deve haver tutoria, orientação, conversa pessoal.

Qual o papel do educador?

O educador tem sido tratado pelos órgãos públicos de governo como um técnico. Quando se fala em capacitar professores, sempre se pensa exclusivamente na capacitação técnica. A competência técnica é fundamental, mas não basta para caracterizar um bom profissional. São necessários comprometimento e envolvimento com o projeto, ou seja, com as tarefas educacionais. Isso não vem graciosamente, mas na medida em que os professores participam desse projeto. É comum a todas as profissões, por exemplo, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) não discute salário de advogado, mas a atuação deste profissional.

E a política de reciclagem de professores?

É preciso melhorar a condição de trabalho do professor da escola básica. Ela é muito ruim. Se ocorre essa melhora, o professor espontaneamente vai buscar voluntariamente aperfeiçoamento e capacitação. Quando eu digo que a condição de trabalho não é boa, não me refiro a salário. Isso está no pacote. Vou dar um exemplo: no Estado de São Paulo, um professor de Física tem duas aulas por turno no ensino médio. No regime de 40 horas, que é o mais frequente, ele tem de dar 32 horas na sala de aula. Para isso, tem que ter 16 turmas. Nenhuma escola no Estado tem 16 turmas de Física para oferecer a um professor. Ele terá que dar aulas em outras escolas para completar a carga.

No que se refere às competências, os professores estão preparados?

Esse discurso de competência é antigo e foi reavivado pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), a partir de 1998. Na escola, o professor precisa desenvolver as competências pessoais dos alunos. Esse é um dos discursos que os avós da gente tinham. Eles diziam “você vai para a escola, aprende um monte de matéria, mas no fundo o que você aprende é ler, escrever e contar”. Atualmente, saber apenas isso não dá mais conta. Antigamente, a pessoa podia ser só analfabeta, hoje, ela pode ser polianalfabeta. Analfabeta em ciências, em tecnologia e em muitas coisas.

O que o professor precisa desenvolver na sala de aula?

Eu acho que em vez de ler, escrever e contar, ele tem que desenvolver a capacidade de expressão e compreensão. Expressão de si e compreensão do outro. Expressão em diferentes linguagens. Antigamente, a ideia geral de leitura era ler e entender um texto, agora, é preciso ler o mundo.

Regras e juízos devem ser transmitidos pelos pais ou pelos educadores?

Ambos têm tarefas que devem ser partilhadas, não dá para os pais delegarem tudo à escola, nem a escola delegar tudo aos pais. Claro que há especificidades na atuação de um e de outro. Quem pensa em um projeto de vida para a criança é a família, depois ela escolhe uma escola adequada para aquele projeto. Por sua vez, quem pensa no caminho pedagógico para buscar esse projeto é a escola. Não cabe ao pai ir à escola dizer qual é o livro que deve ser adotado ou como o professor tem que dar a aula ou avaliar. De maneira geral, não há exemplo de escola bem-sucedida sem partilhar metas e objetivos com a família. A escola precisa ter participação dos pais ou ela não se sustenta.

Há trabalho para todos os jovens que saem dos cursos? Eles estão aptos para educar?

Existe campo de trabalho para todos. Agora, ninguém sai apto para educar. O curso é o pontapé inicial. Há três fases na vida do professor. A primeira, assim que se forma, ele começa a dar aula. Ensina o que não sabe. Ele está aprendendo a lidar com os alunos. A fase dois é aquela em que ele dá aula sobre o que sabe. Essa fase é um perigo, porque ele sabe algumas coisas e dá aula disso. O que ele não sabe, diz “estou fora, não dou aula”. Isso é terrível. Ele perde o interesse por certas áreas e não consegue mais entender a dificuldade dos alunos. A terceira, que é a mais madura, só vem trabalhando, após alguns anos dando aulas. É quando o professor não está mais preocupado com o que ele sabe ou não. Ele se preocupa com o que os alunos precisam.

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Ética e Educação

Nílson José Machado
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Ética e Educação, de Nílson José MachadoÉtica e Educação são temas candentes que se entrelaçam e se alimentam mutuamente. No cerne de ambos encontram-se as ideias de conhecimento e valor. Um mapeamento de questões relativas a tais temas é apresentado pelo autor, em busca de uma perspectiva crítica ao alcance de educadores e de cidadãos em geral.
Os focos que aglutinam os textos são os pares pessoalidade/cidadania e didática/epistemologia. Iguais como cidadãos, somos diferentes como pessoas, e não buscamos a escola para esquecer tais diferenças: metade dos microensaios reunidos examina tal fato. A outra metade trata de explicitar como o modo de pensar sobre o conhecimento influencia decididamente as ações educacionais, ou seja, como a epistemologia interfere diretamente na didática.
Numa época marcada pelo excesso de informações e análises, optou-se, aqui, por uma forma sintética de apresentação das reflexões. Os microensaios são como sementes: as discussões que vierem a alimentar são a razão primordial de trazê-los a lume.
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Educação e Pedagogia, Cidadania
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Morre o poeta Affonso Ávila (1928-2012)

A Ateliê lamenta profundamente a perda de um dos mais importantes poetas brasileiros, Affonso Ávila, que recentemente publicou pela Ateliê seu último livro de poesia, Égloga da Maçã. É uma honra para a Ateliê ter trabalhado com este grande poeta, ensaísta e pesquisador, que tanto contribuiu para a literatura no Brasil.
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Leia abaixo a notícia publicada no Jornal Hoje em Dia (BH)
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Affonso AvilaMorreu nesta quarta-feira (26) o pesquisador, ensaísta e poeta mineiro Affonso Ávila. Ele teve uma parada cardíaca em casa e, de acordo com informações dos familiares, estava tratando um enfisema pulmonar. Ávila destacou-se ao longo deste ano pela poesia voltada para a vida, após passar pelo sofrimento de perder a mulher Laís Correa de Araujo, em 2006, e construir uma linha amarga na escrita.
Detentor do Prêmio Jabuti de Literatura, o escritor nasceu em 1928. Influenciou movimentos literários, organizou a Semana de Poesia de Vanguarda e criou o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha).
Filho de Lindolfo de Ávila e Silva e Liberalina de Barros Ávila, Affonso foi auxiliar de gabinete do Juscelino Kubitshek enquanto ele era governador do Estado.
Além da escrita, sua carreira foi marcada pela dedicação ao patrimônio artístico e arquitetônico de Minas, principalmente por meio do Iepha, buscando levantar e conservar o material histórico.
O poeta também atuou como colunista no jornal “O Estado de São Paulo”, dirigiu por mais de 30 anos a revista “Barroco”, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Dentre as obras de Affonso Ávila, estão: “O Açude” (1953), “O lúdico” e “As projeções do Mundo Barroco” (1971), “O visto e o imaginado” (1990), “Poeta Poente” (2010), e “Égloga da maçã” (2012).
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Livros de Affonso Ávila publicados pela Ateliê:
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Matérias recentes sobre Affonso Ávila:
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O ridículo das ‘verdades’, ainda mais ridículo

Gustavo Piqueira, tradutor A História Verdadeira, responde a resenha do livro publicada no jornal O Globo

A História VerdadeiraEstá lá, no quarto parágrafo da resenha: “Luciano é bem atual.” Já no sétimo: “Sim, Luciano é um ficcionista, mas sua intenção não é apenas fazer rir. Mas será que isto importa quando lemos ‘A história verdadeira’? Não! Podemos apenas fluir com Luciano em seu saboroso desatino.” Tudo ótimo, tudo ótimo…

Tudo ótimo até tropeçarmos na edição. Em primeiro lugar, pecado mortal, “a concepção visual impressiona”. Pior: a tradução… Ah, a tradução. “(…) a fonte original nem é mencionada”, imagine só! Afinal, todos sabem que “o que difere uma obra de outra é o estilo de quem a escreve”. Apenas isso, nada mais — ou seja, todas as obras escritas até hoje sempre abordaram sempre o mesmo tema, com o mesmo olhar. Como conclusão, “é difícil não lamentar que o mundo contemporâneo se deleite cada vez mais com a ideia de reduzir o passado aos seus próprios valores e medida.

Escrevo isto, portanto, não como uma réplica ao artigo. Pelo contrário. Este texto não passa de um humilde e envergonhado pedido de desculpas, dirigido não apenas à autora como a todos os medievalistas do Brasil. Confesso, porém, ter imaginado que minha tradução relativamente fiel para A história verdadeira era uma opção, não um erro. Opção, aliás, assumida na capa e no texto introdutório do livro. Na minha cabeça, era possível tornar a obra acessível ao leitor de hoje sem precisar descaracterizá-la. Editar um livro para ser lido, não para ser estudado. Mesmo porque, até onde meu restrito conhecimento alcança, Luciano chegou aos dias de hoje como satirista, não como mestre do estilo literário. Não por coincidência, “Luciano influenciou Voltaire, Machado de Assis e Swift.” Eles tinham senso de humor, os três, não tinham? Um pouco iconoclastas também, não? Mas, que eu saiba, Voltaire não revolucionou a literatura francesa.

Sim, toda opção deixa algo para trás. No meu caso, a fidelidade formal e o contexto histórico deram lugar à fluidez da narrativa. E, já que estamos falando de ortodoxia, escolhas que a aproximaram da “edição” original muito mais do que a grande maioria das demais (ou você acha que Luciano incluiu notas explicativas em sua “edição” original? Ou que todos os que a leram decifraram, de primeira, todas as citações e menções do autor? Ou que sua linguagem não era reflexo de seu tempo presente?) Opção, portanto. Não erro. Escolha consciente daquilo que me pareceu uma boa possibilidade — não a única, mas a que me atraiu a conceber e desenvolver o projeto. Se, afinal de contas, Luciano é atual e o mundo contemporâneo carece de suas ideias, por que não difundí-las para além dos muros do feud… ops, da universidade? Por que não permitir que um número maior de pessoas possa “fluir com Luciano” sem que sua leitura deva assemelhar-se a uma aula de História?

Eu estava enganado, claro. Deveria ter sido mais reverente — dane-se que livro é um dos mais irreverentes da história. Mantido Luciano mumificado, enquanto o próprio avacalha sem piedade Homero, Platão e Sócrates — para ater-me aos mais sagrados. Deveria ter preservado o “estilo encantador” de Luciano, mesmo que isso restringisse sua leitura a doze pessoas (numa projeção otimista). Adicionado centenas de notas de rodapé, pois como rir de uma sátira sem o auxílio de duzentas e quinze notas de rodapé? Além de ter evitado ilustrações, capa dura…Cores! Como pude usar cores num livro clássico? Desculpe, desculpe, desculpe.

Mas sou esforçado e sigo aprendendo. A instrutiva leitura da resenha me ensinou, por exemplo, que um medievalista não apenas detem o saber avançado sobre a referida época, mas também absorve parte de seus valores — como tachar qualquer opção diferente da sua como errada. Pode me enviar o endereço da fogueira por email mesmo, ok? Prometo comparecer sem demora e expiar todos meus erros.

E, nunca é demais repetir: desculpe, desculpe, desculpe!

(Nota de rodapé: o primeiro parágrafo do artigo é uma pérola, repare só. Uma elegia a “um tempo bem diferente do nosso, no qual não se aplaudiam os vícios e nem se desprezavam as virtudes, como se os valores humanos fossem ninharias sem importância.” Grécia e Roma antiga, além da Idade Média. É verdade. Tempos áureos… O coliseu, onde não se aplaudiam os vícios. Tantos imperadores vivendo a virtude em estado puro. Inquisição, cruzadas e similares não tratando os valores humanos como ninharias sem importância… época boa, mesmo. Dá saudade, né?)

Saiba mais sobre o livro A História Verdadeira

Acesse aqui a resenha publicada no jornal O Globo

Gustavo Piqueira é autor de dez livros entre eles Marlon Brando – Vida e Obra (WMF Martins Fontes, 2008), Manual do Paulistano Moderno e Descolado (WMF Martins Fontes, 2007), Morte aos Papagaios (Ateliê Editorial, 2004), A Vida sem Graça de Charllynho Peruca (Biruta, 2009) e Eu e os Outros Pioneiros da Aviação (Escala Educacional, 2007), ambos selecionados para o PNBE 2010. Também ilustrou livros infantis, desenhou alfabetos e, à frente da Casa Rex, é um dos designers gráficos mais premiados do país, com mais de 100 prêmios internacionais de design, além de dois Jabutis.

O geógrafo humanista

Aziz Ab’Saber desvendou não só detalhes das leis da natureza, mas também observou a organização da sociedade e suas contradições

Vicente Eudes Lemos Alves / Revista Carta Fundamental

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Aziz Ab'Saber

Herdeiro de uma filosofia nos moldes das antigas escolas de formação humanística, o professor Aziz Nacib Ab’Saber é dono de uma importante trajetória intelectual associada à geografia, às ciências humanas e à sociedade em geral. Embora geógrafo especializado em geomorfologia. Aziz fazia parte de uma geração de cientistas rara, com formação escolar holística, característica da educação pública brasileira até os anos 1960. Nela, valorizavam-se a transmissão do conhecimento, a preparação do aluno para compreender o mundo na sua totalidade e o saber como algo constituinte da soma interdisciplinar das diferentes ciências. Essa herança resulta dos ensinamentos das escolas da Grécia Antiga, em que os filósofos também possuíam conhecimento de Matemática, Medicina e Economia, entre tantos outros campos do saber. Enfim, dedicavam-se a resolver os mistérios da vida em todos os seus aspectos, do natural ao social, do universal ao particular. Sua produção acadêmica tem grande relevância para vários campos do saber e vem carregada de inovações no uso do método para analisar as questões associadas à dinâmica da natureza e da relação do homem com seu espaço geográfico. Conhecedor como poucos do território brasileiro em suas múltiplas escalas, Ab’Saber foi um dos precursores da Teoria dos Redutos, importante para explicar a evolução e a dinâmica de determinados ambientes naturais do território nacional. Esse estudo pioneiro (complementar à Teoria dos Refúgios) foi acompanhado de muitos outros tratando de temas que possuem interface entre as ciências naturais e humanas.
Pesquisou de maneira detalhada o relevo brasileiro, sua gênese e evolução desenvolvendo classificações que se tornaram referência tanto para os estudos geográficos quanto para os de outras ciências. Entre os muitos trabalhos, destaca-se a proposta de análise da estrutura e compartimentarão do relevo brasileiro, estabelecendo associação da geomorfológica com os processos geológicos, edáficos, climáticos e botânicos. É a partir dessa concepção que o professor propôs uma classificação para o que ele chamou de os grandes domínios morfoclimáticos e fitogeográficos do País. Essa proposta de classificação do relevo brasileiro, juntamente com o material cartográfico e os desenhos esquemáticos elaborados é um rico acervo didático, amplamente utilizado no ensino da Geografia nos níveis da Educação Básica e superior.
No campo da geografia humana, dedicou-se em parte à compreensão da interferência do homem no ambiente natural. Nesse sentido, uma de suas preocupações incidia sobre o papel da urbanização como fator de alteração da natureza e seus reflexos no conjunto da sociedade, especialmente de que maneira o crescimento urbano desordenado produzia exclusão e perigos para as pessoas que habitavam as vertentes íngremes e as várzeas inundáveis. Com o enfoque na geografia urbana, Ab’Saber desenvolveu vários trabalhos versando, entre outras, sobre as cidades de Salvador, Porto Alegre, Manaus e São Paulo. No que se refere à última, fez relevantes reflexões sobre o sítio urbano, descrevendo e analisando as diferentes regiões da cidade. Em sua tese de doutorado “A Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo”, defendida em 1957, observou a ocupação da planície do Rio Tietê com suas colinas no entorno, quando o rio ainda era mandante e a planície uma várzea coberta de pastos onde os animais de serviço pastavam, frequentemente muares que transportavam em suas carroças mercadorias para o centro da cidade. Nessas áreas, havia também, além dos clubes de resgata e natação, os campos de futebol de várzea, chamados “campos de várzea”, onde sugiram tradicionais clubes e importantes jogadores do futebol paulista.

Os grandes romances e o ambiente

A formação acadêmica e humanista de Aziz Ab’Saber foi também inspirada na produção literária, especialmente a de caráter regional. Ele fazia questão de lembrar que a leitura de importantes romancistas representava o passaporte para o resgate de uma gama de elementos presentes na paisagem e que as narrativas dos romances permitiam explicar a geografia no seu sentido mais amplo, incluindo tanto a natureza quanto o homem. Foi um leitor atento dos seguintes romances: “Os Sertões”, de Euclides da Cunha; “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos; “Capitães da Areia e Jubiabá”, de Jorge Amado, entre muitos outros. Em algumas dessas obras aparecem características associadas à dinâmica da natureza, mas também as mazelas humanas, como as grandes desigualdades sociais, em lugares marcados pela concentração da propriedade da terra e pela exploração da população mais pobre. Contrastes semelhantes ao que o professor verificou em seus trabalhos de campo tanto sítio urbano da cidade de São Paulo e em seus arredores quanto nos distintos lugares do Brasil por onde ele passou.

Ab’Saber obteve reconhecimento também por seus estudos e atuações em favor da causa ambiental. No Brasil, foi um dos primeiros a ser reconhecido como ambientalista por sua obstinação pela preservação das áreas naturais, já prevendo que esse seria um dos grandes problemas que a humanidade enfrentaria no fim do século XX e início deste novo milênio. Quando foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), de 1993 a 1995, conclamava os pesquisadores brasileiros a realizar estudos que tivessem caráter interdisciplinar e lhes chamava a atenção para nossas riquezas naturais. Foi, nesse sentido, um defensor da Amazônia e do uso racional dos seus recursos naturais e da preservação dos modos de vida das populações dessa região. Com essa mesma ênfase defendeu, nos anos 1990, a não privatizacão da Companhia Vale do Rio Doce, um patrimônio da sociedade brasileira que estava sendo usurpado pelos representantes do neoliberalismo, sem que esses esboçassem qualquer compromisso pelo bem-estar da nossa população.

Biografia

Aziz Ab’Saber assistiu e participou de alguns dos grandes eventos da história do Brasil. Nascido em 1924, em São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba paulista, mudou-se para São Paulo ainda jovem, em 1939. Entre os anos de 1940 e 1944, freqüentou o curso de História e Geografia na antiga Faculdade de Filosofia da USP, onde foi aluno de importantes professores como Pierre Monbeig e Roger Bastide. Torna-se professor da USP em 1965. Durante a sua trajetória acadêmica, produziu vasta obra científica e ocupou cargos em diversas instituições.

O professor Ab’Saber pertencia a um grupo de expoentes intelectuais que não via a academia apenas como um lugar de produção de conhecimento destinada a uma parcela privilegiada da população ou de poucas empresas hegemônicas. Antes, acreditava que a universidade deveria cumprir o seu papel social, de produzir conhecimento também para o excluídos, exatamente os que mais necessitam dos avanços conquistados pela academia. Por isso, pregava uma democratização desse espaço de produção do conhecimento, rompendo os seus muros e irradiando o conhecimento gerado para os diversos cantos do País. Essa democratização, entretanto, passa também, segundo avaliava, pelo acesso dos pobres à universidade e, nesse sentido, foi um incansável defensor de melhorias nas escolas públicas do Ensino Básico, por achar que essa seria a melhor alternativa para que o Brasil verdadeiramente se transformasse numa nação. Foi com esse espírito humanista que ele também se juntou aos movimentos sociais, buscando apoiá-los em suas manifestações, especialmente naquelas que lhes davam mais possibilidades de exercer a sua cidadania.

O acesso das pessoas ao livro, por exemplo, foi uma das suas buscas obstinadas. Para ele, a leitura permitia o ser humano alcançar novas descobertas e se emancipar das amarras das classes dominantes. Por isso, empreendeu uma luta para ampliar os canais de leitura nas periferias das grandes cidades, especialmente do estado de São Paulo.

A Geografia em sala

A mesma dedicação que possuía em relação à pesquisa, ao trabalho de difundir atividades de leitura ou de defender a nossa biodiversidade, também demonstrava em relação ao ensino de Geografia. Preocupou-se sempre em fazer mais acessível às pessoas aos seus estudos, produzindo material didático que pudesse ser utilizado no ensino da disciplina. Como professor, não fazia distinção se o local era uma universidade renomada ou um pequeno salão coberto por lona, se era para alunos de pós-graduação ou pré-vestibulandos da periferia, a postura sempre foi a mesma e com o mesmo entusiasmo discutia seus apontamentos.

A erudição era ponto de destaque em suas aulas, entretanto, sem que a análise de uma teoria se transformasse em algo que pudesse caminhar para a incompreensão de seus alunos e/ou ouvintes. Ab’Saber possuía uma didática invejável. Nas suas exposições eram transmitidos os conceitos de determinados fenômenos físicos ou humanos com todo o rigor acadêmico, mas também para ensiná-los recorria a situações do cotidiano, contadas freqüentemente com muito humor.

Essa maneira de ensinar do professor Ab’Saber, combinada com o seu amplo conhecimento teórico e empírico das dinâmicas geográficas, especialmente do território brasileiro, fazia com que as salas de aula, os anfiteatros ou qualquer outro recinto estivessem sempre lotados por distintos tipos de público, especialmente por jovens estudantes que viam no discurso do velho professor a proposição de questões muito atuais sobre os problemas do mundo contemporâneo.

Conheça os livros do Prof. Aziz Ab’Saber publicados pela Ateliê