Artigo

A Força Dos Louros

por Alex Sens

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O ano é 2012, uma quinta-feira, a última do mês de novembro. Saio e esqueço o celular em casa. Quando volto, há uma mensagem na caixa postal, sotaque mineiro da Secretaria de Estado da Cultura pedindo para eu retornar. A consciência inunda o meu corpo, se inicia uma breve palpitação, mas eu retorno trêmulo. A notícia de que eu ganhei o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura na categoria “jovem escritor” é a faísca que vai causar o incêndio do meu primeiro livro. O prêmio, uma espécie de bolsa para escrever um livro durante seis meses, me coloca dentro do universo literário quase à força. “Vai, Alex! ser escritor na vida”, me sussurra o coração, empurrando meu corpo diante da escrivaninha, preparado para os próximos meses de muita dedicação e muito trabalho.

A importância dos prêmios literários é inquestionável e imensurável. Quando voltados para o fomento da cultura, para incentivar escritores, colocar óleo nas engrenagens do mercado editorial, da produção artística, e não como fertilizante de egos, os prêmios podem fazer borbulhar diamantes no meio de uma massa escura de carvões opacos. O Frágil Toque dos Mutilados, meu romance de estreia, lançado em 2015 pela Autêntica Editora, foi escrito a partir de um prêmio. Com a publicação, vieram as indicações aos prêmios São Paulo de Literatura e Oceanos, algumas das maiores vitrines da literatura brasileira contemporânea. “Vitrine” é uma palavra perigosa, traz no som o vidro do capitalismo, da exposição, do consumo, do comércio. No entanto, os prêmios não deixam de ser, além de uma forma de reconhecimento do difícil e pouco remunerado trabalho do artista, essa bela galeria do que podemos conhecer da nossa cultura, da nossa imaginação. Sem os prêmios, talvez tivéssemos menos escritores, menos leitores, editoras menores desconhecidas ou até inexistentes.

Sustentado ou não por conluios, formado muitas vezes de polêmicas, escopo da lapidação do ego ou da luta por um espaço já tão ocupado, tão apertado de opiniões, técnicas, histórias e ideias, o universo dos prêmios literários, dos triunfos trazidos pela imaginação ou pela construção de um nome, pode ser a única forma de não apenas valorizar a literatura, mas respeitá-la. Reconhecer seu espaço precioso. Resistir (porque a arte também é movimento de resistência) à força esmagadora da cultura da preguiça, da mídia fácil e mastigada. Dar voz a quem tem na linguagem, nas palavras, a sua forma de sobrevivência. Assim como tornar a vida do escritor mais possível, menos romântica — sem anular seu romantismo. A literatura precisa ser premiada, ela é a natureza das ideias, das possibilidades. Ela é o registro axiomático da dúvida, portanto, do pensamento de um tempo.

Neste ano, a Ateliê Editorial possui três finalistas no mais tradicional prêmio literário brasileiro, o Prêmio Jabuti, nas categorias Poesia e Projeto Gráfico. São eles: a Antologia da Poesia Erótica Brasileira, organizada por Eliane Robert Moraes, Viagem a um Deserto Interior, de Leila Guenther, e Capas de Santa Rosa, um trabalho de Luís Bueno, com projeto da Negrito Produção Editorial e lançado em coedição com as Edições SESC SP. São livros que, como todos os outros finalistas, foram reconhecidos por sua qualidade e têm, através de suas indicações, o papel de estimular ainda mais novos olhares, novos leitores e expandir a qualidade literária atual, seja na criação, a partir de várias ideias, seja num projeto que as organize com mestria.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

Produção Gráfica para Designers é especialmente útil para estudantes universitários

Thiago Cesar Teixeira Justo*

A Ateliê Editorial acaba de lançar Produção Gráfica para Designers, livro do qual fui revisor técnico. O livro é resultado da primeira tradução em português, feita por Alexandre Cleaver, do fundamental Production for Print, de Mark Gatter.

capa produção gráfica

Produção Gráfica para Designers é, ainda hoje, uma obra de referência para o mercado, porque, mesmo com o avanço das mídias digitais, a mídia impressa continua sendo um dos meios de comunicação mais eficazes. Daí vem a importância desta obra, que esclarece os principais pontos técnicos que precisam ser levados em consideração no momento de criar um arquivo para impressão.

Entre os erros mais comuns que a leitura da obra pode ajudar a evitar estão: falta de sangria no documento, textos preto de corpo pequeno que contém as quatro cores de impressão, escolha de perfil de cor errado no momento de tratar uma imagem para impressão, sem esquecer a falta de trapping e overprint.

O livro ajuda o designer gráfico a dominar os principais itens referentes à produção gráfica de um trabalho impresso em offset. Deste modo, o profissional pode ter maior controle sobre os trabalhos que envia para a gráfica e pode ganhar muito tempo de produção, caso não disponha do serviço de um produtor gráfico.

Por ter essa característica, o livro é destinado especialmente a designers gráficos, mas a obra pode servir para publicitários que atuam na criação de peças gráficas; marqueteiros que trabalham com criação; artistas plásticos e fotógrafos que produzem peças para impressão; e jornalistas, diagramadores e ilustradores que pretendam dominar conhecimentos básicos de produção gráfica.

Como a maioria dos designers não possui uma formação profunda em produção gráfica, o livro contribui para esclarecer os principais aspectos técnicos que devem ser verificados ao enviar um trabalho para ser reproduzido em tecnologia de impressão offset. Atualmente os processos de verificação prévia dos arquivos fazem com que a maioria dos erros seja encontrada antes de o trabalho ser produzido. De qualquer forma, mesmo nestes casos, é preciso corrigir o arquivo, o que demanda tempo, um item cada vez mais precioso nos dias atuais. Por isso, preparar o trabalho o mais próximo da necessidade real representa economia de tempo e recurso.

“Produção Gráfica para Designers” também tem uma utilidade especial para estudantes, pois nem todo universitário é fluente em inglês (língua em que o livro estava disponível até agora) e porque a obra explica todos os aspectos mais importantes do assunto, desde o básico.Ela pode ser adotada pela maioria das faculdades de comunicação (jornalismo, publicidade, editoração, design gráfico e artes visuais) e de arquitetura e urbanismo (design e comunicação visual).

É muito importante que designer gráfico conheça “as reais necessidades do processo de impressão”, como aponta Gatter no prefácio do livro. Conhecendo essas necessidades, o profissional já começa o projeto ciente das limitações técnicas das tecnologias de impressão que serão utilizadas. Dominar as necessidades do processo de impressão também contribui para menos retrabalho e insatisfação com o resultado do produto gráfico finalizado.

Esse conhecimento acelera o processo à medida que, com ele, o designer gráfico prescinde da análise de um profissional de fora da área de criação caso seja necessário corrigir o trabalho por causa de alguma especificação técnica que possa prejudicar o resultado final do trabalho impresso.

 

 

* Sou mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP, graduado em Desenho Industrial pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e técnico em pré-impressão pela escola SENAI Theobaldo De Nigris. Há mais de 5 anos sou professor no curso de graduação e pós-graduação da Faculdade SENAI de Tecnologia Gráfica, ministrando disciplinas ligadas a tecnologia de impressão digital e pré-impressão.

Shakespeare e Cervantes, pedras fundamentais da literatura

Por: Renata de Albuquerque*

 

Em dez dias, o mundo perdeu dois dos mais importantes escritores da História: Cervantes e Shakespeare. O ano era 1616 e as notícias ainda não se espalhavam tão rápido quanto hoje. Em 22 de abril, em Madri, na Espanha, Miguel de Cervantes, poeta, dramaturgo e autor daquele que é considerado o primeiro romance moderno da literatura, Dom Quixote, faleceu. Sua morte foi registrada apenas no dia seguinte.

Miguel de Cervantes Saavedra

Miguel de Cervantes Saavedra

Dom Quixote, ou, no título e grafia originais, El ingenioso hidalgo Don Quixote de La Mancha, foi publicado em 1605 e conta a história de um fidalgo que alucina devido à leitura de romances de cavalaria, como, por exemplo, Tirant Lo Blanc, o primeiro romance de cavalaria ibérico. A partir disso, ele realiza incursões aventureiras ao lado do amigo Sancho Pança, de certa forma para imitar seus heróis.

“Desde suas primeiras páginas, o primeiro livro de cavalaria da Espanha parece querer nos advertir de que todo livro de cavalaria pressupõe um livro de cavalaria precedente, necessário para que o herói se torne cavaleiro”, explica Ítalo Calvino em seu Por Que Ler os Clássicos. Só esta razão já é suficiente para que quem queira entender melhor a grandiosidade de Dom Quixote recorra a Tirant Lo Blanc – que narra as façanhas de um cavaleiro andante que se transforma em grande general.

O livro de Cervantes é o segundo livro mais traduzido no mundo, ficando apenas atrás da Bíblia e inaugura o que chamamos de romance moderno, com personagens que defendem a paz e a justiça – valores, até hoje, muito enfocados na literatura.

Shakespeare

Como na Inglaterra o calendário gregoriano só foi adotado no século XVIII, a data de 23 de abril também foi, por muito tempo, considerada a data da morte do bardo inglês. Esta é a razão pela qual 23 de abril é data que a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) escolheu para comemorar o Dia Mundial do Livro. Mas, devido a essa diferença de tempo na adoção do calendário gregoriano, hoje sabe-se que Shakespeare, na verdade, morreu em 3 de maio.

William Shakespeare

William Shakespeare

Além de poeta (escreveu mais de 150 sonetos), Shakespeare escreveu peças de teatro que definiram a dramaturgia desde então, tanto em termos de personagens quanto nos temas tratados. Sua influência é inequívoca e seus textos servem, até hoje, como base para filmes, musicais e até novelas.  Quem não se lembra de Romeo + Juliet, com Leonardo Di Caprio? Ou da novela O Cravo e a Rosa, inspirada em A Megera Domada?

A importância de Shakespeare é tamanha que sua obra inspirou também outros clássicos. Machado de Assis, por exemplo, é conhecido por aludir a Shakespeare em várias de suas obras. Foi essa ligação entre o autor inglês e o brasileiro que inspirou Helen Caldwell a escrever O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, um marco na crítica literária mundial, no qual pela primeira vez, em um estudo publicado em livro, levanta-se a hipótese de que Capitu poderia não ter traído Bento Santiago em Dom Casmurro. Lançado em 1960 e escrito por uma americana que tinha acesso ao então pulsante feminismo da época, O Otelo Brasileiro de Machado de Assis revolucionou a crítica, colocando novas questões nas possibilidades de análise de um clássico que, já então, havia sido publicado há mais de seis décadas.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Sementes de sentido em Girassol voltado para a terra podem germinar em aulas de interpretação de texto

Katherine Funke*

 

Em Girassol voltado para a terra (Ateliê Editorial, 2016), o escritor e psicanalista Renato Tardivo (SP) nos presenteia com sementes para histórias nunca ditas ou escritas por inteiro, mas certamente, por isso mesmo, íntegras: vividas ou vislumbradas de modo singular a cada leitura.

A alta concentração de sentido em um mínimo espaço escrito expande o poder da ficção à máxima potência. Quando bem feito, o microconto “explode” dentro do olho/corpo/mente do leitor. Já o primeiro texto do volume deixa essa provocação:

 

Volta

Há dias que, de tão reais, dão a volta toda. Viram ficção.

Um cronista teria uma história real para justificar a ideia central de “Volta”. Um contista convencional inventaria outra, talvez até mesmo duas, paralelas, mas não chegaria a conclusão alguma, deixando algumas pistas para esta verdade oculta. Já um romancista escreveria 300 páginas e este seria o slogan do livro…

Girassol voltado para terra 1

Ilustração de Anna Anjos

Tardivo, econômico e direto, opta por ocultar qualquer enredo superficial, qualquer enredo exemplar que dê uma forma fechada à história. Em vez disso, deixa vir à tona apenas a “verdade”, aquilo que é essencial e inegável, mas quase sempre fica oculto no cotidiano do próprio uso da linguagem. O “resto”, no caso, a história não contada, o que o levou a chegar a este aforisma conclusivo, é com o leitor.

Dessa forma, Girassol surge como esfinge que pede para ser decifrada ou poderá nos devorar. A epígrafe escolhida abre caminhos para o entendimento desta proposta do livro. É de Maurice Merleau-Ponty: “Toda tentativa de elucidação traz-nos de volta aos dilemas”.

Embora traga contos curtíssimos, aforismas e sementes de sabedoria, o livro não nasceu rápido. Foram anos de maturação de cada palavra. Enquanto o escrevia, Renato lançou outros livros, continuou trabalhando, vivendo, elucidando e voltando aos dilemas, a cada dia.

A falta de pressa fez bem ao contista. Sementes de girassol precisam mesmo de tempo para, quando forem plantadas, eclodirem com toda força: de poesia.

 

Sala de aula

Quem pretende trabalhar com este livro em sala de aula recebeu um presente e tanto. Para quem quer propor exercícios de interpretação de texto, cada página do livro é uma possibilidade. Vejamos, por exemplo, a página 35 de Girassol voltado para a terra:

 

“Ponto final

 

Ela é exclamação; ele, interrogação.”

 

O que aconteceu? Alguém terminou um relacionamento? Mas quem? Como? Em um tempo em que a síntese está cada vez mais presente na vida cotidiana, instigar a interpretação de texto pede atenção plena do aluno e uso do pensamento lógico, além da sensibilidade poética. Estimula a expressão e a desinibição. Afinal, falar/escrever pouco, comunicar-se o tempo todo em códigos, pode levar a muitos malentendidos. Principalmente, o entendimento de si mesmo, que é a base da felicidade; depois, o entendimento do outro e do mundo, compreensão que é a base da comunicação e, portanto, de bons relacionamentos.

Para quem quer propor criação de texto, Girassol também surge como ponto de partida. De cada microconto, pode nascer um conto único, original, singular para cada leitor. Este é um exercício possível a partir do livro: os textos de Tardivo (com os devidos créditos, claro) podem ser levados para dentro de novos textos, tornando-se trechos de outras histórias.

Ilustração de Anna Anjos

Ilustração de Anna Anjos

Um segundo exercício de criação literária, um pouco mais complicado, é tentar, como Tardivo, chegar à exatidão com poucas palavras. Contudo, um bom microconto não pode desperdiçar tempo nem espaço. “Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas”, escreveu o uruguaio Horácio Quiroga no conhecido “Decálogo do perfeito contista”, um conjunto de ideias mais ou menos polêmicas sobre a arte do conto.

Quando tentamos aplicar essa premissa de Quiroga ao microconto, como fica? No micronto, todas as linhas, as primeiras e as últimas, coincidem em importância. Cada palavra, vírgula, pausa, ponto, deve assumir seu lugar exato, para que o contista passe adiante o vislumbre, a epifania ou iluminação profana que o levou a escrever.

Um exercício possível é propor uma ação incompleta e pedir para o aluno finalizar. Por exemplo: “Abriu o livro e leu…”? Cada um poderá completar como quer. Depois, colocar o título. Que pode fazer nascer, por exemplo, uma contradição iluminadora. (Como: “Cartório. Abriu o livro e leu seu atestado de óbito.” Acabo de inventá-lo; para ver como é um exercício fácil e divertido.)

Aprendi essa brincadeira boa com o escritor pernambucano Marcelino Freire,  em uma oficina literária em Curitiba (PR), e gosto de aplicar com os meus alunos. Adoro ver o que se passa a cada recriação da cena. Pode-se ir do poético ao escatológico, do humano ao desumano, do sublime ao diabólico, em menos de um minuto. Em duas ou três palavras diferentes. É o conhecimento do poder a linguagem exposto sem mediação.

Outro bom modo de iniciar-se na escrita de microcontos é escolher títulos abertos e propor aos alunos que escrevem sob este guarda-chuva inicial. Os títulos completam o sentido do que vem a seguir, em uma relação simbiótica que não se vê tão íntegra em todos os gêneros literários. O livro de Renato Tardivo está cheio de bons exemplos nesse sentido.

 

Olhos, foguetes, conchas

O cuidadoso trabalho gráfico da Ateliê Editorial torna o livro um ótimo presente. É um livro-objeto, com páginas cuidadosamente diagramadas e papel bem escolhido para dar vida e destaque aos microcontos.

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Na capa, o desenho de Anna Anjos mira o leitor: convida a abrir o livro e olhar para a terra para onde olha o Girassol, este solo onde linguagem é vida, onde vivemos todos, mas nem todos sabemos dizê-lo com tamanha precisão.

Nas páginas internas, os mesmos olhos abstratos e futuristas parecem ter se transformado em foguetes, onde o leitor pode entrar e partir para as dimensões ocultas nas verdades relevadas. Foguetes, sim, ou conchas, ou outra imagem à sua escolha (depende de quem olha, e quando o faz), isto é, lugares seguros onde se podem dizer certos segredos.

O chão que sustenta Girassol é formado de silêncios e de descobertas, vislumbres e epifanias. Portanto, solo fértil para o leitor atento, que se une ao movimento de Girassol. O escritor Nelson de Oliveira, no prólogo, destaca a interação proporcionada por esse tipo de escrita: o leitor é convidado a preencher a História, as camadas de história não-ditas, mas contidas na sabedoria do microconto.

Girassol Voltado para a Terra, com suas sementes de histórias, seus olhares, foguetes e conchas, nos convida a interagir e pensar. A leitura do livro de Renato Tardivo, se não elucida dilemas, ao menos nos mostra que pode valer a pena tentar. Mesmo que demore anos, que seja preciso antes outros voos, outros silêncios, este movimento de olhar para dentro (para a terra, de onde viemos, para onde vamos) é, talvez, o que nos falta em nossa rotina cada vez mais verborrágica, cheia de palavras mas tão vazia de sentido e plenitude.

 

 

* Escritora, 34 anos, está ministrando o Curso Livre de Contos na Biblioteca de Pirabeiraba (livre2016.tumblr.com ) , em Joinville (SC), em projeto selecionado pela Bolsa de Fomento à Literatura do Ministério da Cultura. Escreveu outra resenha de Girassol voltado para terra em seu blog pessoal, Histórias da Katherine (historiasdakatherine.wordpress.com) .

O Diário de Bordo do Velho Chico: um roteiro da vida real

Por: Renata de Albuquerque

Autora de O Velho Chico ou A Vida É Amável – livro homônimo à novela das 21h da Rede Globo, que estreia hoje, Dirce de Assis Cavalcanti diz que a viagem que fez na região, durante os anos 70, foi “um divisor de águas”. A sinopse e o enredo do livro O Velho Chico foram escritos a partir de uma experiência marcante, cheia de personagens, símbolos e histórias inesquecíveis. Acompanhe abaixo o que a autora diz sobre essa experiência:

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Como teve a ideia de escrever o livro O Velho Chico?

Dirce de Assis Cavalcanti: A viagem pelo Velho Chico a fiz a trabalho. Era, na época, Diretora do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura, em Brasília, e decidimos fazer uma exposição com as Carrancas do rio São Francisco.

Qual a importância das carrancas no enredo do Velho Chico?

DAC: Preciso dizer que é o único rio do Brasil em que existiram, nasceram, procriaram, a princípio surgidas das mãos e da imaginação do velho Guarani, que “retirava do mato o pau que já vinha pronto”, como ele contava, e então era só ir descascando a cara, os dentes, a cabeleira, e a carranca pronta, primeiramente utilitária, depois ornamento, se tornava um símbolo, o símbolo do Velho Chico.
Destinadas a assustar os monstros aquáticos que os caboclos tanto temiam, eram colocadas na proa das embarcações, e quanto mais ameaçadoras fossem, melhor cumpriam sua missão.

A novela Velho Chico, que estreia hoje, tem o mesmo cenário de seu livro. Por que acha que essa região é tão marcante?

DAC: Para mim, como relato no “diário de bordo”, a vida se dividiu entre o antes e o depois do São Francisco. Conhecer aquela gente extraordinária na sua pobreza, no asseio de suas casas de chão de barro liso, como que encerado, na sua generosidade, coragem e simpleza, foi um presente dos céus. Sobretudo a população mais distante do mundo, na margem esquerda, é muito surpreendente. Uma mulher alta e magra, como eu conto no livro, que ia pagar promessa em Bom Jesus da Lapa para que lhe curasse uma papeira, me deu o significado da vida, numa frase, dita depois de contar tantas misérias por que passou, a perda do marido e de onze filhos por doença e má nutrição, ela, Ambrosina, me disse: …”mas a vida é amável, não é dona menina?”

Não vou dizer mais nada, está tudo no livro…

Velho Chico: um rio, uma novela, um livro

Por Renata de Albuquerque

RioSaoFrancisco

Título da nova novela das 21h da Globo, Velho Chico é muito mais que isso. É também a maneira como as pessoas da região chamam o rio, com uma intimidade incomum. Mas isso talvez tenha explicação: parece que a história daquelas pessoas não poderia ser escrita sem que o Rio São Francisco existisse. E é isso que Dirce de Assis Cavalcanti retrata nas páginas de seu livro O Velho Chico ou A Vida É Amável.

O livro, homônimo da nova novela, é o relato de uma viagem da autora pelo Rio São Francisco feita na década de 70 – a mesma época em que a história da novela se inicia. Mas a novela é explicitamente uma obra de ficção, com um enredo que mistura rixas familiares, amores proibidos e um grande elenco, que conta com Tarcísio Meira, Rodrigo Santoro e Antonio Fagundes, entre outros. Na sinopse de Velho Chico, também há espaço para um fundo histórico (a construção de uma hidrelétrica faz parte da trama).

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Já o livro de Dirce de Assis Cavalcanti é “um relato factual, mas cheio de poesia”, como definiu José Mindlin, no prefácio da obra. O livro mistura relatos do que a autora testemunhou durante sua viagem com impressões, pensamentos e emoções do que sentiu ao visitar o lugar e conhecer os habitantes do local.

O Velho Chico já seria uma leitura atraente, mesmo que se limitasse à descrição dos lugares que visitou (…) Mas foi além, pois soube fazer ressaltar o interesse humano do variado tipo de pessoas e vidas com que teve contato. Tudo isso (…) constituiu apenas uma parte do livro – a viagem exterior. Houve, porém, outra viagem, paralela, que Dirce conseguiu entremear com a primeira – uma viagem interior, que surpreende e impressiona, e que mantém sempre aceso o interesse do leitor”, escreve José Mindlin.

Um exemplo disso é um curto trecho ainda no início do livro, em que a autora escreve:

“A estrada e o rio. Uma caindo no outro de repente. Nos braços do outro. De repente: o rio. Sem se anunciar. Nem barrento, como diziam. Vestido de azul, à espera. Apressado e cantador. Por entre as pedras, corredeiro. Mesmo assim à espera.”

É nessa prosa cheia de imagens poéticas de Dirce de Assis Cavalcanti que o Rio São Francisco se desenha, aos poucos, mais personagem que paisagem. Um personagem fundamental para a existência das pessoas cuja relação com o rio é tão íntima que o chamam pelo familiar apelido de Velho Chico.

A nova novela Velho Chico não é baseada no livro de Dirce de Assis Cavalcanti, mas certamente guarda muitas semelhanças com ele: a paisagem, os personagens regionais, a beleza e a complexidade da vida local são ingredientes inescapáveis, tanto na sinopse da ficção quanto no relato da realidade. Dizem que a arte imita a vida – e a nova novela da Globo deve usar muitos elementos reais em seu enredo. Mas, no livro O Velho Chico ou A Vida É Amável, o que se pode perceber é que a autora consegue captar com poesia a realidade daquela região do Brasil. Se você já leu o livro, deixe seu comentário!

Como incentivar os alunos à leitura?

Por: Paulo Cesar da Motta Ribeiro*

livro com flor

Início de ano letivo. Hora de usar a criatividade para (re)inventar maneiras de lecionar conteúdos e de pensar como superar velhos obstáculos, que se renovam a cada turma de alunos. Um deles diz respeito a como incentivar os alunos à leitura, sem fazer disso uma obrigação maçante e despertando interesse real pelo mundo de possibilidades que ela pode descortinar. E não é apenas no Ensino Fundamental e Médio que esse hábito pode (e deve) ser incentivado. O Professor Paulo Cesar da Motta Ribeiro, que leciona na FURB (Universidade Regional de Blumenau) e na UNIFEBE (Centro Universitário de Brusque), em Santa Catarina, explica como tem feito para trazer a leitura para mais perto de seus alunos. Ele é economista formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pós-graduado em Desenvolvimento Econômico pela mesma instituição. Empresário, autodefine-se como “audiófilo, bibliófilo, cinéfilo e amante do que a vida tem de melhor”. Por isso, é grande seu empenho em trazer seus alunos cada vez mais perto dos livros. A seguir, ele compartilha sua experiência com os leitores do Blog da Ateliê:

Paulo Cesar, que aproveita as provas para perguntar o que seus alunos estão lendo

Paulo Cesar, que aproveita as provas para perguntar o que seus alunos estão lendo

Minha condição de amante da literatura pode ser em parte explicada pelo fato de que na formação e na atuação como Economista a leitura é primordial, não apenas de livros-texto como de obras em geral para melhorar a base de conhecimentos. A utilização de filmes e documentários também auxilia na formação acadêmica e profissional. Em sala de aula eu sempre pergunto a cada aluno qual livro ele tem em mãos e, naquele momento, converso com o aluno e seus colegas sobre literatura. Como, nessas abordagens informais, ocorriam cada vez mais e mais conversas sobre livros, surgiu a ideia de fazer uma pesquisa sobre as leituras recentes dos alunos. É fácil, basta pedir para que anotem no cabeçalho da primeira prova qual sua leitura atual ou mais recente.

Eu coleto todos os títulos e autores citados, pesquiso para garantir que estejam corretos, informo também minhas leituras e repasso a lista completa para toda a turma.

aldous huxley

Aldous Huxley, um dos autores que o professor sempre recomenda

Os resultados são ótimos. O nível de leitura é mais alto do que a maioria pode imaginar, sendo que alguns leem em outros idiomas. Eu descobri obras magníficas a partir desta pesquisa e já li alguns títulos das listas dos alunos.

Segue um resumo das turmas de 2015:

244 alunos com 191 respostas, sendo que aproximadamente 20% informaram dois ou mais livros.

A faixa etária é a dos estudantes do ensino superior, notadamente das graduações em Engenharia (minha principal disciplina é Engenharia Econômica).

No rodapé das provas eu sempre indico alguns livros e filmes para que eles entendam que a realidade não é exatamente aquela que eles percebem. Alguns ainda se iludem, idealizam, mitificam e se deixam levar por influências que pouco têm de honestas e, atualmente, democráticas.

Há anos o “trio de ferro” de minhas indicações é:

Fahrenheit 451, Ray Bradbury

1984, George Orwell

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

Eu explico a eles o que são obras distópicas e como elas podem nos ajudar a entender o mundo e como melhorá-lo. Segue parte do texto que eu coloco no rodapé das provas:

Ray Bradbury: autor de distopias

Ray Bradbury

Fahrenheit 451′ de Ray Bradbury. O livro foi publicado em 1953 e fatos descritos na obra fazem parte de nosso dia a dia (na obra consta inclusive a explicação do motivo pelo qual acontecem). Além disso, o seu entendimento sobre o papel da cultura e da informação será irremediavelmente transformado. Também existe uma película de François Truffaut.’

Outra sugestão que eu faço é: O homem medíocre, de José Ingenieros.

Em virtude da minha base de conhecimentos não se limitar aos livros-texto, eu sempre utilizo nas aulas conteúdos que no princípio parecem que não se relacionam, ou até que são uma viagem, mas que facilitam a aprendizagem. Meus alunos estão acostumados a receberem sugestões de filmes e documentários para melhor entender os conteúdos ministrados.

Eu sempre informo na primeira aula em todas as turmas que o meu objetivo principal é o desenvolvimento pessoal e profissional deles. Que o meu papel é o de ser aquele que abre as mentes para que eles melhor se posicionem na vida com bases sólidas, portanto verdadeiras. E a literatura permite que eles melhor se preparem para assimilarem muito do que o mundo pode proporcionar.

 

E você, leitor-professor, tem alguma sugestão ou dica de como estimular a prática da leitura junto aos alunos? Mande uma mensagem para a gente, compartilhe seus conhecimentos!

Preconceito racial?

Por: Renata de Albuquerque*

 

O dia 20 de novembro foi escolhido como o Dia Nacional da Consciência Negra em 2003. A data lembra a morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, que aconteceu em 1695. Há quem diga que lembrar a data com um feriado não é necessário,  já que o Brasil é um país de mestiços e que a escravidão acabou há muito tempo. Mas será que não há mesmo racismo no país que foi o último de seu continente a abolir a escravidão, em 1888?

O preconceito no Brasil é tão forte que até mesmo Machado de Assis foi vitimado por ele. O escritor carioca, que fundou a Academia Brasileira de Letras e é considerado um dos mais importantes autores brasileiros, passou por um processo de  “embranquecimento”.

No início do século XX – Machado morreu em 1908 – ainda era vigente o pensamento segundo o qual os negros não eram capacitados para o trabalho intelectual. Machado de Assis, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira de origem portuguesa, era descendente de escravos alforriados. Mas, para torná-lo um exemplo, um modelo brasileiro, foi preciso “branqueá-lo”.

Machado de Assis por volta dos 25 anos

Machado de Assis por volta dos 25 anos

A "foto oficial" de Machado de Assis

A “foto oficial” de Machado de Assis

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Até mesmo o atestado de óbito do escritor carioca afirma que ele era branco, ainda que sua máscara mortuária ateste o contrário. A foto “oficial” de Machado ameniza os traços africanos que ele pudesse vir a ter. Uma depuração que foi possível graças a uma prática comum de então: a reaplicação de produtos químicos para reavivar os traços das imagens. O cabelo alisado e esbranquiçado, a pele clareada; o nariz mais afilado; os lábios escondidos por barba e bigode, para parecerem mais finos na foto de perfil.

Em 1939, em pleno Estado Novo, comemorou-se o centenário de Machado de Assis. A Ditadura Vargas aproveitou a oportunidade para fazer dele um mito nacional. A exposição “Machado de Assis” foi organizada pelo Instituto Nacional do Livro (INL). Estreou o  filme Um Apólogo – Machado de Assis, de Humberto Mauro, realizado pelo Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE). Fotos de Machado “branqueado”  passaram a enfeitar escolas recém-inauguradas e sua imagem passa a ilustrar moedas de 500 réis.

Houve um tempo em que nem mesmo a qualidade literária daquele que muitos consideram o maior escritor brasileiro de todos os tempos não era suficiente para deixar a questão da cor da pele em segundo plano. Recentemente, em 2011, quando muitos achavam que o racismo era uma questão superada, a propaganda de um banco retratou o escritor por meio de um ator de pele branca.

O racismo ainda é uma triste realidade que ainda é preciso combater.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de si: o querer e o poder de personagens femininas nos primeiros contos de Machado de Assis.

 

Conheça as obras de Machado de Assis publicadas pela Ateliê

Conheça as obras sobre Machado de Assis publicadas pela Ateliê

Clássicos: da Ateliê para a sala de aula – e muito além dela

Marise Hansen*

Algumas palavras parecem ser feitas umas para as outras. É o caso das duas que formam a dupla “Clássicos Ateliê”, quando se considera atentamente que um clássico é aquela obra que “por sua originalidade, pureza de expressão e forma irrepreensível, constitui modelo digno de imitação”, e que ateliê é o “local preparado para a execução de trabalhos de arte”. Fica fácil perceber aí um par perfeito, que é a união da obra literária de sentido universal, atemporal, perene, com o tratamento artesanal que ela merece.

livros de vestibular

Títulos da Coleção Clássicos Ateliê: sempre presentes nas listas dos vestibulares brasileiros

A coleção Clássicos Ateliê assume esse espírito, dispondo obras representativas das literaturas brasileira e portuguesa em edições preparadas com apuro meticuloso. A preocupação com os detalhes de cada edição pode ser vista na escolha iconográfica, na pesquisa e estabelecimento de texto, nas ilustrações que acompanham cada título. Entretanto, é sobretudo nas apresentações de cada obra que o diferencial da coleção se faz evidente. Os ensaios que precedem cada título da coleção, escritos por professores universitários e de Ensino Médio, primam pela profundidade de análise sem perder de vista a clareza e o didatismo, o que é imprescindível quando se pensa que a apresentação da obra deve atuar como uma espécie de comentário crítico, quase como uma aula escrita.

Quem vive o cotidiano da sala de aula com os estudantes que se preparam para os vestibulares, sabe a importância de, muito mais que se “mandar ler”, se ensinar a ler. Parece ter sido definitivamente sepultado o chavão “adolescente não gosta de ler”. É notório o quanto a literatura juvenil movimenta o mercado editorial. Mas sabe-se também que há muitos títulos que nossos alunos não leriam por conta própria, dada a dificuldade mesma da linguagem – original, artística, desafiadora – de um “clássico”. Quem tem a chance de estar perto desses alunos enquanto eles se veem levados a “enfrentar” um clássico, sabe, no entanto, que a paixão pela obra é garantida, quando não imediata, desde que a aproximação a ela se faça com o auxílio de um leitor experiente.

Quem entende, gosta: a fórmula é simples. E para ser leitor competente, há que se aprender a ler para além do que está explícito. Para tanto,é certo que existem as aulas e, para apreender o sentido do texto literário num nível ainda mais profundo, e de forma mais independente, existem as apresentações da coleção Clássicos Ateliê. Elas atuam como o tal “leitor experiente”, que, se na sala de aula é o professor, no momento de leitura e reflexão do aluno é o texto ensaístico que elucida o sentido das obras e suas múltiplas possibilidades de leitura; fornece informação, documentos e iconografia a respeito do contexto de produção e do discurso cultural vigente; estabelece comparações entre obras, estilos e autores da literatura universal. Para auxiliar o jovem leitor nessa apreensão de obras tão significativas, é fundamental que o autor do prefácio tenha não só amplo conhecimento sobre as mesmas, como também familiaridade com a prática em sala de aula: só assim se tem ideia da linguagem a ser usada para atingir o leitor que se inicia num clássico. Unir a profundidade acadêmica com a clareza didática é um diferencial da coleção, percebido nos textos introdutórios bem como nas notas explicativas (de vocabulário, sintaxe, referências culturais, recursos estilísticos, linguagem figurada).

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Para o vestibular 2016 de duas das principais universidades do país, USP e Unicamp, a coleção Clássicos Ateliê abrange sete títulos: Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett; Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida; Til, de José de Alencar; Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; O Cortiço, de Aluísio Azevedo; A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós – comuns às listas dos dois vestibulares; e Sonetos de Camões, da lista da Unicamp. Essas obras contam com apresentações que abrangem os aspectos mais representativos de cada obra, sem deixar de sugerir sentidos novos, originais. Para quem vai prestar esses vestibulares (ou outros, que vários se baseiam nessas listas, tidas como canônicas), é fundamental, por exemplo, estar familiarizado com o espirito galhofeiro presente no romance de Manuel Antônio de Almeida, como uma espécie de protótipo da malandragem brasileira; com o universo de cinismo e abuso das elites do Brasil imperial representado por meio do defunto-autor Brás Cubas; com a crítica ao consumismo irrefletido e causador de permanente frustração, tema atualíssimo desenvolvido por Eça de Queirós em A Cidade e as Serras.

A Ilustre Casa de Ramires

A Ilustre Casa de Ramires

Para além de listas de vestibular, a leitura de clássicos será sempre parte da formação do leitor. Nesse sentido, a coleção conta com outras obras dos autores “clássicos” (O Guarani e Iracema, de José de Alencar; O primo Basílio e A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós; Dom Casmurro, de Machado de Assis) e com outros gêneros, além da prosa de ficção, como a poesia, no já citado Sonetos, de Camões, no recém-lançado Mensagem, de Fernando Pessoa, e no poema dramático Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. Assim, quanto maior o repertório de leitura dos clássicos, mais sucesso em provas e exames vestibulares, haja vista o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado por mais de sete milhões de candidatos no mês de outubro, em que uma das questões da prova de Português era sobre O Ateneu, de Raul Pompeia, um clássico de nossa literatura contemplado pela coleção. O teste aborda a relação entre o colégio, vale dizer, a educação e sua função social, e os interesses capitalistas e individualistas de seu diretor, aspecto explorado na apresentação do romance para o volume da Ateliê.

Sabe-se no entanto, que a leitura dos clássicos, quando bem aproveitada, isto é, quando as obras são verdadeiramente compreendidas, trará benefícios que transcendem em muito as exigências de provas e exames vestibulares: será capaz de levar o jovem leitor a pensar criticamente a sociedade brasileira, as relações humanas e o próprio indivíduo, o que constitui o imensurável alcance da literatura.

Conheça a Coleção Clássicos Ateliê

*Professora de Literatura e subcoordenadora de Português no Colégio Bandeirantes, São Paulo.Mestre e doutoranda em Literatura Brasileira pela USP, com projetos de pesquisa sobre Machado de Assis e João Guimarães Rosa. Autora da apresentação e das notas de A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós, edição Clássicos Ateliê.Autora do posfácio de O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett (Penguin/Companhia das Letras) e de análises de clássicos da literatura brasileira para a Companhia das Letras (Caderno de leituras).

Leitura, cognição e cultura

A leitura é uma atividade que traz mais que novas informações; ela nos ajuda a conhecer o passado e a exercitar nossa capacidade de abstração e criatividade

Antônio Suárez Abreu*

antonio suarezBenjamin K. Bergen, professor de ciência cognitiva da Universidade de San Diego, Califórnia, escreveu recentemente um livro instigante chamado LouderthanWords, onde narra suas pesquisas sobre leitura no Laboratório de Linguagem e Cognição da sua universidade.   Segundo ele, à medida que lemos um texto, nossa mente vai construindo, inconscientemente, imagens vinculadas a ele.  Se lemos a respeito de um bife no açougue, imaginamo-lo de cor vermelha, mas, se lemos a respeito de um bife no prato, imaginamo-lo de cor marrom, tostado. Segundo ele, quando ouvimos ou lemos um texto de ação, que contém movimentos, o local de nossas mentes responsável por eles reproduz os movimentos, como se os estivéssemos de fato praticando.   A conclusão a que chegamos é que ler não nos traz apenas novas informações, mas exercita enormemente nossa capacidade de abstração criativa.

Um outro fato importante é que, em nosso dia a dia, tudo o que fazemos tem relação com nosso passado.  Se chegamos à frente de um elevador, sabemos que temos de apertar um botão para chamá-lo e, ao entrar nele, um outro, situado na parede, correspondente ao andar que queremos atingir.  Fazemos isso por analogia, porque já utilizamos, anteriormente, muitos outros elevadores.   Somente conseguimos viver e agir em nosso presente, graças ao nosso passado.   Se nossa memória passada fosse apagada subitamente, não poderíamos sequer dar um passo à frente.  Bem, é aí que surge um outro fator importante da leitura.  Por meio dela, podemos tornar também disponível para nós o passado de outras pessoas.   Antes da descoberta da escrita, cada geração partia da estaca zero, pois não dispunha dessa memória armazenada. Certa vez, quando elogiado por seus feitos científicos, Isaac Newton disse: “Se eu vi mais longe foi por estar sobre ombros de gigantes”, fazendo alusão aos conhecimentos obtidos pela leitura daqueles que o haviam antecedido.

Ler carrega nossas mentes com informações que nos permitem ser criativos, adaptando conhecimentos passados a situações presentes, utilizando elementos da ciência e tecnologia que não estavam disponíveis em épocas anteriores.  Foi o que aconteceu com Alan Turing, quando criou seu primeiro computador, durante a Segunda Guerra Mundial.  Ele foi buscar no passado as experiências de Charles Babbage e Ada Lovelace, filha de Lord Byron, criadores dos algoritmos que levariam, hipoteticamente, à construção de uma Máquina Analítica, cuja existência era impossível no século dezenove, quando havia apenas recursos mecânicos e não os eletrônicos com que contava Turing, já na metade do século vinte.

E a leitura de ficção?  Bem, estou falando de grandes autores como Shakespeare, Oscar Wilde, Machado de Assis e não de best-sellers descartáveis.  Quando lemos essas grandes obras, temos duas coisas a ganhar: a possibilidade de “viver outras vidas” e a possibilidade de conhecer épocas e culturas diferentes.   O grande escritor peruano Mario Vargas Llosa, ganhador do prêmio Nobel de Literatura, falando sobre leitura de ficção, nos diz:“Condenados a uma existência que nunca está à altura de seus sonhos, os seres humanos tiveram que inventar um subterfúgio para escapar de seu confinamento dentro dos limites do possível: a ficção.  Ela lhes permite viver mais e melhor, ser outros sem deixar de ser o que já são, deslocar-se no espaço e no tempo sem sair de seu lugar nem de sua hora e viver as mais ousadas aventuras do corpo, da mente e das paixões, sem perder o juízo ou trair o coração.”

Além de viver outras vidas em nossas mentes – e aprender e crescer com elas – quase sempre nos deparamos com informações interessantes sobre o mundo presente ou passado.  Lendo o clássico To Kill a Mockingbird, de Nelle Harper Lee, topamos com a descrição de um meio de transporte chamado “HooverCart”.  Ficamos, então, sabendo que nos Estados Unidos, durante a grande depressão dos anos 30, pessoas que tinham comprado automóveis e não tinham mais dinheiro para a gasolina arrancavam seus motores e atrelavam cavalos ou mulas à lataria, improvisando um meio insólito de transporte, batizado, por ironia, com o nome do presidente americano da época Herbert Hoover.

Ler, enfim, é muito mais que simplesmente informar-se. Leitura é diversão, uma maneira de conhecer realidades distantes no tempo e no espaço e de colecionar uma bagagem cultural ampla, que nos ajuda a entender o mundo de uma maneira mais vasta e profunda.

 

* Antônio Suárez Abreu é professor titular de Língua Portuguesa da UNESP, professor associado da USP e autor de vários livros sobre a linguagem.

Conheça a obra de Antônio Suárez Abreu