Artigo

Além da ficção: livros sobre o mesmo período retratado pela nova novela das seis, “Novo Mundo”

Por: Renata de Albuquerque*

Leopoldina e D. Pedro

A nova novela das seis, “Novo Mundo”, é uma ficção que tem como pano de fundo acontecimentos históricos. É uma novela de época, mas as próprias autoras, Thereza Falcão e Alessandro Marson, avisam que o objetivo não é ser didático quanto à História do período. Como é comum na dramaturgia, estão misturadas na história de “Novo Mundo” ficção e realidade.

Na nova trama das seis, estão presentes personagens históricos, como Dom Pedro (interpretado por Caio Castro) e Leopoldina (Letícia Colin). Mas os protagonistas são os ficcionais Anna Millman (Isabelle Drummond) e Joaquim Martinho (Chay Suede). Apesar do tom ficcional, a novela pretende mostrar como surgiram traços importantes da cultura brasileira, como o famoso “jeitinho brasileiro”.

Para aprofundar-se nesse tema, vale a leitura do clássico Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, e também de Era no Tempo do Rei – Atualidade das Memórias de um Sargento de Milícias, de Edu Teruki Otsuka, que mostra como o romance de Manuel Antônio de Almeida se organiza conforme uma lógica regida por conflitos interpessoais, que se manifestam no romance de maneiras diversas, mas que podem ser unificadas na noção de rixa.

 

 

Na novela das seis, a questão da língua promete gerara situações cômicas, já que a protagonista vivida por Isabelle Drummond é jovem inglesa professora de Português de Leopoldina. O tema também está em Travessias – D. João VI e o Mundo Lusófono, organizado por Paulo Motta Oliveira. Os ensaios reunidos no livro propõem-se a lançar novos olhares sobre a vinda da corte portuguesa ao Brasil, a partir de objetos e pontos de vista bastante diversificados. Os textos se inserem em um contexto atual em que se procuram estabelecer, de maneira mais efetiva, laços reais, e cada vez mais necessários, entre os Países de Língua Oficial Portuguesa.

 

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Como entendemos o mundo: estruturas mentais

Acompanhe a seguir a última parte do texto:

Frames, senso comum e comunidades interpretativas

Antônio Suárez Abreu*

“Frames são estruturas mentais que moldam a maneira como vemos o mundo.”[5]Frames contêm características e expectativas ligadas a uma situação.   Se pensamos em casamento, associamos imediatamente a essa situação características como vestido de noiva, igreja, alianças, padrinhos, festa, bolo de casamento etc.   Se pensamos em Natal, associamos imediatamente a essa situação características como nascimento de Cristo, árvore de natal, confraternização, presentes etc.  Todas essas particularidades estão também associadas a expectativas ou “scripts”.   Esperamos que, ao iniciar-se um casamento na igreja, o noivo esteja presente  no altar e que a noiva seja conduzida pelo pai até lá, vindos ambos da porta da igreja pela nave central.  Uma situação em que a noiva já estivesse previamente junto ao altar e o noivo fosse conduzido até lá pela mãe quebraria a expectativa desse frame, deixando os presentes à cerimônia bastante confusos e até mesmo emocionalmente abalados.

O conjunto de frames ligados às várias situações do nosso dia a dia compõe aquilo que chamamos senso comum, criando o que Robin Lakoff chama de comunidades interpretativas, em que as pessoas compartilham similaridades abstratas como gênero, simpatias políticas, preferências estéticas, profissões.  [6]

É preciso dizer que senso comum não se confunde com bom-senso e que, muitas vezes, não tem lógica alguma.  O senso comum, durante a Idade Média, era que a Terra era plana e que um navio que saísse do Mar Mediterrâneo, ultrapassando as “Colunas de Hércules” (estreito de Gibraltar), iria fatalmente cair num abismo.  O senso comum, para os partidários do regime nazista, era que os judeus eram uma raça inferiore daninha que precisava ser eliminada.

Bem, a partir desses exemplos, você já deve ter percebido que o senso comum e, portanto, as comunidades interpretativas estão sempre vinculados à uma cultura e a um  momento histórico.    A escritora Susan Sontag, em seu livro Doença como Metáfora[7], nos conta que, durante o Romantismo, a tuberculose era vista como uma variante da doença do amor.  Segundo ela, “Moças abatidas, de peito cavado, e rapazes pálidos e raquíticos competiam entre si como candidatos a essa doença incurável (na época), na maioria dos casos, incapacitante e de fato terrível.  “Quando eu era jovem”, escreveu Théophile Gautier [8], “não podia aceitar como poeta lírico alguém que pesasse mais de quarenta e cinco quilos’ ” .

Como um exemplo da força do comportamento das comunidades interpretativas vinculadas ao senso comum no campo da Medicina, é emblemático o caso da situação enfrentada pelo médico húngaro Ignaz Philipp Semmelweis (1818-1865), em uma clínica obstétrica em Viena, em 1846, na qual eram instruídos os estudantes de Medicina. Nessa clínica, a maioria das mulheres morria de febre puerperal.  Depois de cuidadosos estudos, Semmelweis desconfiou que elas eram contaminadas pelos estudantes que, ao saírem das aulas práticas de anatomia, em que manipulavam cadáveres, apenas limpavam as mãos no avental, antes de examinar as mulheres grávidas.   Semmelweis, então, obrigou os estudantes a lavar cuidadosamente as mãos depois de saírem da sala de anatomia, o que diminuiu drasticamente as mortes.    Mas, ao contrário do que se esperava, o diretor da clínica e os estudantes criticaram duramente Semmelweis que, logo depois, teve de abandonar a Áustria e voltar para sua terra natal, a Hungria.  Simplesmente, o senso comum dos médicos não aceitava que eles próprios fossem a causa da morte das mulheres.    Afinal, apenas a partir de 1870, as ideias de Pasteur começaram a ser aplicadas aos hospitais, principalmente aos hospitais militares, que passaram a ferver os instrumentos e as bandagens que seriam utilizados nos procedimentos cirúrgicos.

Louis Pasteur

Segundo Robin Lakoff, no livro há pouco citado, “o senso comum de uma ideia é determinado pela maneira como ela se acomoda  dentro de um frame aceito em um certo momento pela maioria das pessoas influentes.  E uma vez que uma ideia se torna senso comum, incluída em um frame aceito de modo geral, ela se torna muito resistente à mudança.  Outras ideias se agregam em torno dela dando-lhe credibilidade e fazendo com que sua renúncia seja até mesmo algo perturbador.   Nós precisamos de nossos frames e suposições convencionais.  Eles formam a cola que mantém juntas as culturas e permitem aos indivíduos, dentro dessas culturas, sentir-se como membros competentes de uma comunidade coesa.  Nós nos apegamos até mesmo a opiniões desacreditadas, não apenas por ignorância, mas por medo de que sejamos deixados sós, desconcertados, e não completamente humanos sem elas.” [9]

Concluindo, podemos dizer que, em termos de senso comum, o que nos afeta não são os fatos, mas a percepção que temos dos fatos  a partir dos nossos frames.   Vemos o mundo por meio de filtros.  Pomos coisas dentro de nossas cabeças e passamos a ver o mundo apenas a partir daquilo que está dentro dela.

 

 

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita (Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

Conheça outras obras de Antônio Suárez Abreu

 

Referências

BONFIM, Paulo.  Migalhas de Paulo Bonfim, Ribeirão Preto: Ed. Migalhas, 2014.

DAMÁSIO, António.  O Erro de Descartes, São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

HOFSTADTER, Douglas & SANDER, Emmanuel. Surfaces and essences: analogy as the fuel and fire of thinking, New York: Basic Books, 2013.

 

LAKOFF, George. Don’t Think of an Elephant!, Vermont: Chelsea Green Publishing, 2014 [2004].

LAKOFF, Robin.  The Language War, Los Angeles: UniversityofCalifornia Press, 2000.

SONTAG, Susan.  Doença como Metáfora.  Aids e suas metáforas.  Trad. de Rubens Figueiredo e Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

 

[5]George Lakoff, Don’t think of an elephant! p. xi.  No original: Frames are mental strutures that shape the way we see the world.

[6]Robin Lakoff, The Language War, 2000, p. 13.

[7]Susan Sontag, Doença como metáfora.  Aids e suas metáforas, 2007, p. 31.

[8]Poeta, escritor e crítico literário francês do século XIX.

[9]Robin Lakoff, The Language War, 2000, pp. 49-50.  No original: the common sense of an idea is determined by its fit within a frame currently accepted by a majority of influential people. And once an idea becomes common sense, included in a generally accepted frame, it be- comes very resistant to change. Other ideas accrete around it, lending it credibility and making its abandonment even more disturbing. We need our frames and conventional assumptions. These forms the glue that holds cultures together and allows individuals within those cultures to feel like competent members of a cohesive community. We cling to even discredit beliefs, not only out of ignorance, but equally in fear that we would be left alone, bewildered, and not fully human without them.

Como entendemos o mundo: as emoções

As emoções e os sentidos das coisas

Antônio Suárez Abreu*

As emoções desempenham um papel importante em nossas vidas.  Às vezes, elas nos fazem desprezar a própria realidade dos fatos.  Se agíssemos apenas racionalmente, ninguém jogaria na Megassena, por exemplo, e ela iria à falência.  Afinal, a probabilidade de ganhar é de uma em 50 milhões.  Só por comparação, a probabilidade de você ser atingido por um raio é uma em 1.576.  A possibilidade de você ser canonizado é de uma em 20 milhões.  Ou seja, é mais fácil você ser morto por  um raio, ou ser canonizado, do que ganhar na Megassena.

 

Durante muito tempo ficamos presos à afirmativa de Descartes de que o homem é um ser racional.  Na verdade, somos seres tanto emocionais quanto racionais.  Segundo António Damásio[4], um dos mais importantes neurocientistas da atualidade, foram as emoções primárias – aquelas que são comuns à espécie, porque inatas e pré-organizadas – que permitiram que nossos ancestrais pré-históricos, reagindo prontamente a algum perigo, sobrevivessem e pudessem passar seus genes à frente.  Todos nós temos essas emoções primárias em nosso sistema límbico e, ainda segundo Damásio, acrescentamos a elas, durante toda nossa vida, as emoções secundárias, aquelas resultantes das nossas experiências.  Alguém que quase se tenha afogado em criança, certamente se lembrará desse fato, quando adulto, cada vez que se aproximar de uma piscina, de um lago ou de uma praia.

 

É costume dizer que, em nosso país, há “leis que pegam” e “leis que não pegam”.   Há, por exemplo, leis de trânsito que limitam a velocidade em determinadas ruas.   Mas, mesmo diante de placas que indicam, por exemplo, velocidade máxima de 40km por hora,  a maioria dos motoristas acelera além dos 40.  É uma “lei que não pegou”.   Não temos vontade emocional de nos submeter a ela.  Como um remendo a essa situação, as autoridades de trânsito constroem lombadas, diante das quais os motoristas têm, forçosamente, que diminuir a velocidade. É uma excrescência que não se vê em países europeus!   Bem, mas por que certas leis não pegam?  Em parte, podemos dizer que falta vigilância e punição, mas, o mais importante é que falta disciplina e, principalmente, disposição emocional das pessoas para cumpri-las.  É nesse momento que podemos falar na importância dos frames, senso comum e comunidades interpretativas.

 

[4]AntónioDamásio, O Erro de Descartes, 1996. (pp. 160-161)

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita (Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

Conheça outras obras de Antônio Suárez Abreu

Como entendemos o mundo: uma visão cognitivista

Como entendemos o mundo? Esta pergunta, sobre a interpretação que as pessoas têm do universo que as rodeia, sempre intrigou a todos. Neste texto de três partes, o Professor Antônio Suárez Abreu aborda o tema. Na primeira parte, fala sobre como nossas experiências interferem nesse entendimento.

Antônio Suárez Abreu*

“Só entendemos aquilo que já existe em nós.”Paulo Bonfim

 

  1. O passado e o sentido das coisas

 

Com base no senso comum, as pessoas pensam que aquilo que veem no mundo preexiste ao entendimento.   Ledo engano.  Tudo aquilo que vemos e sentimos é resultado da maneira como nossas mentes são formatadas, em parte de modo inato e, em parte, por meio do nosso passado, que é construído desde que nascemos e interagimos com o mundo e as pessoas ao nosso redor.

 

As crianças vão aprendendo aos poucos a criar um estoque de passado em suas mentes.  Na primeira vez que uma delas vai ao supermercado com a mãe e deseja comer um chocolate, retira-o simplesmente  da prateleira e começa a desembrulhá-lo.  Imediatamente, a mãe diz que não é assim, tira o chocolate de sua mãos e o coloca no carrinho de compras.  Após pagá-lo no caixa, entrega-o a criança.  Na próxima vez, ela, já de posse dessa informação em seu passado, apenas põe o chocolate no carrinho, esperando que passe pelo caixa para, somente então, desembrulhá-lo e comê-lo.  Quando adultos, ao pararmos na frente de um elevador, sabemos que temos de apertar um botão para chamá-lo.  Sabemos, também, que ao entrar dentro dele, temos de procurar um display com os botões dos diversos andares do edifício e apertar o botão correspondente ao andar que pretendemos atingir.  Fazemos isso porque, em nosso passado, já entramos em vários elevadores.

Isaac Newton

Uma dos mais importantes eventos da história humana foi a descoberta da escrita, na antiga Suméria, 3.200 a. C.  Isso permitiu que, por meio da leitura, pudéssemos nos apropriar do passado de outras pessoas e aumentar exponencialmente nossa capacidade de pensar, imaginar e criar.   Isaac Newton, quando perguntado sobre como havia conseguido ter ideias tão brilhantes sobre a gravidade e o Universo, disse que tinha conseguido ver tão longe, porque estava sobre os ombros de gigantes, referindo-se, metaforicamente, aos outros brilhantes astrônomos que o tinham antecedido, como Kepler e Copérnico.  Um outro importante evento da história humana foi a descoberta da impressão por meio de tipos móveis, feita por Gutenberg, na Alemanha em 1442, o que permitiu democratizar a escrita em escala mundial.

 

Um adulto que tivesse todo o seu passado retirado da cabeça passaria a ser apenas um autômato, uma espécie de vegetal que, em vez de estar plantado no solo, poderia caminhar, mas sem rumo algum.  É exatamente isso que acontece com uma pessoa fortemente atacada por Alzheimer.   Por não ter mais passado, não se lembra do ontem, do mês anterior, de sua infância, nem mesmo daquilo que aconteceu há pouco.  Depois de apresentada a uma outra pessoa, basta que fique longe dela por instantes para que não mais a reconheça e tenha de ser novamente apresentada, o que será, é claro, uma tarefa inglória, um trabalho de Sísifo. [1] Como dizem Hofstadter &Sander: “Nenhum pensamento pode ser formado a não ser que seja informado pelo passado, ou, mais precisamente, nós pensamos somente graças a analogias que ligam nosso presente ao nosso passado.” [2]  Dizem eles também que “as emoções desempenham um importante papel […], permitindo a recuperação de memórias antigas por meio da analogia.” [3]

 

 

[1]Na Mitologia Grega, Sísifo, rei da Tessália, era mestre em malícia e em ofender os deuses.  Quando morreu, foi condenado por Zeus, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra de mármore até o cume de uma montanha; mas, quando ela estava alcançando o topo, rolava de volta até o ponto de partida, por meio de um uma força irresistível.  Isso fazia com que Sísifo tivesse de levá-la novamente ao alto da montanha de onde ela rolava de novo ao ponto de partida.

[2]Douglas Hofstadter & Emmanuel Sander.Surfaces and essences: analogy as the fuel and fire of thinking, 2013. p. 20.  No original: No thought can be formed that isn’t informed by the past, or, more precisely, we think only thanks to analogies that link our present to our past.

[3]Idem, ibidem.  No original: Emotions play important roles inside conceptual skeletons, allowing the retrieval of ancient memories by analogy. (p. 168)

 

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita (Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

Conheça outras obras de Antônio Suárez Abreu

Bibliofilia: amor pelos livros em forma e conteúdo

Por Renata de Albuquerque*

 

Está no dicionário. Bibliofilia é “amor aos livros, em especial aos belos e raros e de relevância histórica ou cultural”. É também a “ciência ou arte do bibliófilo”, pessoa que tem amor por livros ou que os coleciona.

A diferença entre leitores e bibliófilos, entretanto, muitas vezes desaparece na prática. Quem lê por prazer ama os livros, não apenas o conteúdo deles, mas sua forma e sua estética. Um prazer que pode vir de novidades ou raridades; de lançamentos ou de uma conquista em um garimpo feito em sebos: aquela satisfação ímpar de encontrar, depois de uma longa busca, o exemplar procurado, a edição exata, o livro tanto tempo desejado. Alguns deles são joias, objetos raros, dignos de serem colecionados, mostrados, exibidos para os amigos.

“A bibliofilia teve sua primeira menção na literatura em 1344, por meio do monge beneditino Richard de Bury, em uma obra que ficou mundialmente conhecida como Philobiblion (…)”, aponta Karina da Silva Nunes em seu trabalho Um Acervo Para Chamar de Meu: Bibliófilos como Preservadores da Cultura Impressa.

“Philobiblon”, obra que cita pela primeira vez a bibliofilia

Bibliofilia não tem a ver com preço; tem a ver com valor. A alegria de ter na estante seu próprio exemplar de um livro amado é o mais importante. O preço se dilui no tempo; o valor, ao contrário, aumenta quanto mais o tempo passa.

Edição artesanal de “Macunaíma”

Alguns desses livros, artesanais, feitos um a um, são arte. Outros têm seu valor por serem antigos. Mas alguns deles nem mesmo são raros: são amados pelo simples fato de nos acompanharem pela vida toda. São livros para ler, reler e ter sempre por perto, para que alguns de seus trechos iluminem nossos dias, sempre que precisamos de inspiração para seguir em frente. Poesia ou prosa, não importa, pois todo mundo sabe que há muita poesia escondida na prosa refinada dos melhores autores.

 

Mas, afinal, quem é o bibliófilo?

José Mindlin, um dos mais célebres bibliófilos brasileiros, contava que iniciou sua biblioteca, a Brasiliana – hoje na USP –  aos 13 anos. A coleção chegou a ter 38 mil títulos, entre os quais raridades como manuscritos de Sagarana (Guimarães Rosa) e Vidas Secas (Graciliano Ramos).

O bibliófilo, entretanto, não tem apenas um perfil. Ele está em todos os cantos, tem as mais variadas idades e hábitos. O que une todos é apenas o amor pelo livro.

Uma pesquisa sobre o tema, feita por Aníbal Bragança, Eliane Ganem, Maria Virgínia M. de Arana e Shirley Dias da Silva na Escola de Comunicação e Arte (ECA/USP), indica que o consumidor de livros usados é majoritariamente do sexo masculino, casado e tem entre 26 e 55 anos.

“Biblomania”: o livro como tema e como suporte

Mas nem só de livros usados vive o bibliófilo. Livros novos, de pequena tiragem, também estão no alvo desse público, que sabe que alguns títulos serão fundamentais para sua coleção.

E há ainda aqueles que escrevem livros sobre livros, como é o caso dos historiadores Marisa Midori Deaecto e Lincoln Secco, que reuniram em Bibliomania textos curtos em que o protagonista é o livro. Os autores falam dos livros como falamos de nossos amigos, de pessoas íntimas, numa escrita semelhante a um concerto de voz a serviço do tema.

E você, considera-se um bibliófilo ou bibliófila?  Conte sua história para nós!

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP.

A Força Dos Louros

por Alex Sens

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O ano é 2012, uma quinta-feira, a última do mês de novembro. Saio e esqueço o celular em casa. Quando volto, há uma mensagem na caixa postal, sotaque mineiro da Secretaria de Estado da Cultura pedindo para eu retornar. A consciência inunda o meu corpo, se inicia uma breve palpitação, mas eu retorno trêmulo. A notícia de que eu ganhei o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura na categoria “jovem escritor” é a faísca que vai causar o incêndio do meu primeiro livro. O prêmio, uma espécie de bolsa para escrever um livro durante seis meses, me coloca dentro do universo literário quase à força. “Vai, Alex! ser escritor na vida”, me sussurra o coração, empurrando meu corpo diante da escrivaninha, preparado para os próximos meses de muita dedicação e muito trabalho.

A importância dos prêmios literários é inquestionável e imensurável. Quando voltados para o fomento da cultura, para incentivar escritores, colocar óleo nas engrenagens do mercado editorial, da produção artística, e não como fertilizante de egos, os prêmios podem fazer borbulhar diamantes no meio de uma massa escura de carvões opacos. O Frágil Toque dos Mutilados, meu romance de estreia, lançado em 2015 pela Autêntica Editora, foi escrito a partir de um prêmio. Com a publicação, vieram as indicações aos prêmios São Paulo de Literatura e Oceanos, algumas das maiores vitrines da literatura brasileira contemporânea. “Vitrine” é uma palavra perigosa, traz no som o vidro do capitalismo, da exposição, do consumo, do comércio. No entanto, os prêmios não deixam de ser, além de uma forma de reconhecimento do difícil e pouco remunerado trabalho do artista, essa bela galeria do que podemos conhecer da nossa cultura, da nossa imaginação. Sem os prêmios, talvez tivéssemos menos escritores, menos leitores, editoras menores desconhecidas ou até inexistentes.

Sustentado ou não por conluios, formado muitas vezes de polêmicas, escopo da lapidação do ego ou da luta por um espaço já tão ocupado, tão apertado de opiniões, técnicas, histórias e ideias, o universo dos prêmios literários, dos triunfos trazidos pela imaginação ou pela construção de um nome, pode ser a única forma de não apenas valorizar a literatura, mas respeitá-la. Reconhecer seu espaço precioso. Resistir (porque a arte também é movimento de resistência) à força esmagadora da cultura da preguiça, da mídia fácil e mastigada. Dar voz a quem tem na linguagem, nas palavras, a sua forma de sobrevivência. Assim como tornar a vida do escritor mais possível, menos romântica — sem anular seu romantismo. A literatura precisa ser premiada, ela é a natureza das ideias, das possibilidades. Ela é o registro axiomático da dúvida, portanto, do pensamento de um tempo.

Neste ano, a Ateliê Editorial possui três finalistas no mais tradicional prêmio literário brasileiro, o Prêmio Jabuti, nas categorias Poesia e Projeto Gráfico. São eles: a Antologia da Poesia Erótica Brasileira, organizada por Eliane Robert Moraes, Viagem a um Deserto Interior, de Leila Guenther, e Capas de Santa Rosa, um trabalho de Luís Bueno, com projeto da Negrito Produção Editorial e lançado em coedição com as Edições SESC SP. São livros que, como todos os outros finalistas, foram reconhecidos por sua qualidade e têm, através de suas indicações, o papel de estimular ainda mais novos olhares, novos leitores e expandir a qualidade literária atual, seja na criação, a partir de várias ideias, seja num projeto que as organize com mestria.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

Produção Gráfica para Designers é especialmente útil para estudantes universitários

Thiago Cesar Teixeira Justo*

A Ateliê Editorial acaba de lançar Produção Gráfica para Designers, livro do qual fui revisor técnico. O livro é resultado da primeira tradução em português, feita por Alexandre Cleaver, do fundamental Production for Print, de Mark Gatter.

capa produção gráfica

Produção Gráfica para Designers é, ainda hoje, uma obra de referência para o mercado, porque, mesmo com o avanço das mídias digitais, a mídia impressa continua sendo um dos meios de comunicação mais eficazes. Daí vem a importância desta obra, que esclarece os principais pontos técnicos que precisam ser levados em consideração no momento de criar um arquivo para impressão.

Entre os erros mais comuns que a leitura da obra pode ajudar a evitar estão: falta de sangria no documento, textos preto de corpo pequeno que contém as quatro cores de impressão, escolha de perfil de cor errado no momento de tratar uma imagem para impressão, sem esquecer a falta de trapping e overprint.

O livro ajuda o designer gráfico a dominar os principais itens referentes à produção gráfica de um trabalho impresso em offset. Deste modo, o profissional pode ter maior controle sobre os trabalhos que envia para a gráfica e pode ganhar muito tempo de produção, caso não disponha do serviço de um produtor gráfico.

Por ter essa característica, o livro é destinado especialmente a designers gráficos, mas a obra pode servir para publicitários que atuam na criação de peças gráficas; marqueteiros que trabalham com criação; artistas plásticos e fotógrafos que produzem peças para impressão; e jornalistas, diagramadores e ilustradores que pretendam dominar conhecimentos básicos de produção gráfica.

Como a maioria dos designers não possui uma formação profunda em produção gráfica, o livro contribui para esclarecer os principais aspectos técnicos que devem ser verificados ao enviar um trabalho para ser reproduzido em tecnologia de impressão offset. Atualmente os processos de verificação prévia dos arquivos fazem com que a maioria dos erros seja encontrada antes de o trabalho ser produzido. De qualquer forma, mesmo nestes casos, é preciso corrigir o arquivo, o que demanda tempo, um item cada vez mais precioso nos dias atuais. Por isso, preparar o trabalho o mais próximo da necessidade real representa economia de tempo e recurso.

“Produção Gráfica para Designers” também tem uma utilidade especial para estudantes, pois nem todo universitário é fluente em inglês (língua em que o livro estava disponível até agora) e porque a obra explica todos os aspectos mais importantes do assunto, desde o básico.Ela pode ser adotada pela maioria das faculdades de comunicação (jornalismo, publicidade, editoração, design gráfico e artes visuais) e de arquitetura e urbanismo (design e comunicação visual).

É muito importante que designer gráfico conheça “as reais necessidades do processo de impressão”, como aponta Gatter no prefácio do livro. Conhecendo essas necessidades, o profissional já começa o projeto ciente das limitações técnicas das tecnologias de impressão que serão utilizadas. Dominar as necessidades do processo de impressão também contribui para menos retrabalho e insatisfação com o resultado do produto gráfico finalizado.

Esse conhecimento acelera o processo à medida que, com ele, o designer gráfico prescinde da análise de um profissional de fora da área de criação caso seja necessário corrigir o trabalho por causa de alguma especificação técnica que possa prejudicar o resultado final do trabalho impresso.

 

 

* Sou mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP, graduado em Desenho Industrial pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e técnico em pré-impressão pela escola SENAI Theobaldo De Nigris. Há mais de 5 anos sou professor no curso de graduação e pós-graduação da Faculdade SENAI de Tecnologia Gráfica, ministrando disciplinas ligadas a tecnologia de impressão digital e pré-impressão.

Shakespeare e Cervantes, pedras fundamentais da literatura

Por: Renata de Albuquerque*

 

Em dez dias, o mundo perdeu dois dos mais importantes escritores da História: Cervantes e Shakespeare. O ano era 1616 e as notícias ainda não se espalhavam tão rápido quanto hoje. Em 22 de abril, em Madri, na Espanha, Miguel de Cervantes, poeta, dramaturgo e autor daquele que é considerado o primeiro romance moderno da literatura, Dom Quixote, faleceu. Sua morte foi registrada apenas no dia seguinte.

Miguel de Cervantes Saavedra

Miguel de Cervantes Saavedra

Dom Quixote, ou, no título e grafia originais, El ingenioso hidalgo Don Quixote de La Mancha, foi publicado em 1605 e conta a história de um fidalgo que alucina devido à leitura de romances de cavalaria, como, por exemplo, Tirant Lo Blanc, o primeiro romance de cavalaria ibérico. A partir disso, ele realiza incursões aventureiras ao lado do amigo Sancho Pança, de certa forma para imitar seus heróis.

“Desde suas primeiras páginas, o primeiro livro de cavalaria da Espanha parece querer nos advertir de que todo livro de cavalaria pressupõe um livro de cavalaria precedente, necessário para que o herói se torne cavaleiro”, explica Ítalo Calvino em seu Por Que Ler os Clássicos. Só esta razão já é suficiente para que quem queira entender melhor a grandiosidade de Dom Quixote recorra a Tirant Lo Blanc – que narra as façanhas de um cavaleiro andante que se transforma em grande general.

O livro de Cervantes é o segundo livro mais traduzido no mundo, ficando apenas atrás da Bíblia e inaugura o que chamamos de romance moderno, com personagens que defendem a paz e a justiça – valores, até hoje, muito enfocados na literatura.

Shakespeare

Como na Inglaterra o calendário gregoriano só foi adotado no século XVIII, a data de 23 de abril também foi, por muito tempo, considerada a data da morte do bardo inglês. Esta é a razão pela qual 23 de abril é data que a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) escolheu para comemorar o Dia Mundial do Livro. Mas, devido a essa diferença de tempo na adoção do calendário gregoriano, hoje sabe-se que Shakespeare, na verdade, morreu em 3 de maio.

William Shakespeare

William Shakespeare

Além de poeta (escreveu mais de 150 sonetos), Shakespeare escreveu peças de teatro que definiram a dramaturgia desde então, tanto em termos de personagens quanto nos temas tratados. Sua influência é inequívoca e seus textos servem, até hoje, como base para filmes, musicais e até novelas.  Quem não se lembra de Romeo + Juliet, com Leonardo Di Caprio? Ou da novela O Cravo e a Rosa, inspirada em A Megera Domada?

A importância de Shakespeare é tamanha que sua obra inspirou também outros clássicos. Machado de Assis, por exemplo, é conhecido por aludir a Shakespeare em várias de suas obras. Foi essa ligação entre o autor inglês e o brasileiro que inspirou Helen Caldwell a escrever O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, um marco na crítica literária mundial, no qual pela primeira vez, em um estudo publicado em livro, levanta-se a hipótese de que Capitu poderia não ter traído Bento Santiago em Dom Casmurro. Lançado em 1960 e escrito por uma americana que tinha acesso ao então pulsante feminismo da época, O Otelo Brasileiro de Machado de Assis revolucionou a crítica, colocando novas questões nas possibilidades de análise de um clássico que, já então, havia sido publicado há mais de seis décadas.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Sementes de sentido em Girassol voltado para a terra podem germinar em aulas de interpretação de texto

Katherine Funke*

 

Em Girassol voltado para a terra (Ateliê Editorial, 2016), o escritor e psicanalista Renato Tardivo (SP) nos presenteia com sementes para histórias nunca ditas ou escritas por inteiro, mas certamente, por isso mesmo, íntegras: vividas ou vislumbradas de modo singular a cada leitura.

A alta concentração de sentido em um mínimo espaço escrito expande o poder da ficção à máxima potência. Quando bem feito, o microconto “explode” dentro do olho/corpo/mente do leitor. Já o primeiro texto do volume deixa essa provocação:

 

Volta

Há dias que, de tão reais, dão a volta toda. Viram ficção.

Um cronista teria uma história real para justificar a ideia central de “Volta”. Um contista convencional inventaria outra, talvez até mesmo duas, paralelas, mas não chegaria a conclusão alguma, deixando algumas pistas para esta verdade oculta. Já um romancista escreveria 300 páginas e este seria o slogan do livro…

Girassol voltado para terra 1

Ilustração de Anna Anjos

Tardivo, econômico e direto, opta por ocultar qualquer enredo superficial, qualquer enredo exemplar que dê uma forma fechada à história. Em vez disso, deixa vir à tona apenas a “verdade”, aquilo que é essencial e inegável, mas quase sempre fica oculto no cotidiano do próprio uso da linguagem. O “resto”, no caso, a história não contada, o que o levou a chegar a este aforisma conclusivo, é com o leitor.

Dessa forma, Girassol surge como esfinge que pede para ser decifrada ou poderá nos devorar. A epígrafe escolhida abre caminhos para o entendimento desta proposta do livro. É de Maurice Merleau-Ponty: “Toda tentativa de elucidação traz-nos de volta aos dilemas”.

Embora traga contos curtíssimos, aforismas e sementes de sabedoria, o livro não nasceu rápido. Foram anos de maturação de cada palavra. Enquanto o escrevia, Renato lançou outros livros, continuou trabalhando, vivendo, elucidando e voltando aos dilemas, a cada dia.

A falta de pressa fez bem ao contista. Sementes de girassol precisam mesmo de tempo para, quando forem plantadas, eclodirem com toda força: de poesia.

 

Sala de aula

Quem pretende trabalhar com este livro em sala de aula recebeu um presente e tanto. Para quem quer propor exercícios de interpretação de texto, cada página do livro é uma possibilidade. Vejamos, por exemplo, a página 35 de Girassol voltado para a terra:

 

“Ponto final

 

Ela é exclamação; ele, interrogação.”

 

O que aconteceu? Alguém terminou um relacionamento? Mas quem? Como? Em um tempo em que a síntese está cada vez mais presente na vida cotidiana, instigar a interpretação de texto pede atenção plena do aluno e uso do pensamento lógico, além da sensibilidade poética. Estimula a expressão e a desinibição. Afinal, falar/escrever pouco, comunicar-se o tempo todo em códigos, pode levar a muitos malentendidos. Principalmente, o entendimento de si mesmo, que é a base da felicidade; depois, o entendimento do outro e do mundo, compreensão que é a base da comunicação e, portanto, de bons relacionamentos.

Para quem quer propor criação de texto, Girassol também surge como ponto de partida. De cada microconto, pode nascer um conto único, original, singular para cada leitor. Este é um exercício possível a partir do livro: os textos de Tardivo (com os devidos créditos, claro) podem ser levados para dentro de novos textos, tornando-se trechos de outras histórias.

Ilustração de Anna Anjos

Ilustração de Anna Anjos

Um segundo exercício de criação literária, um pouco mais complicado, é tentar, como Tardivo, chegar à exatidão com poucas palavras. Contudo, um bom microconto não pode desperdiçar tempo nem espaço. “Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas”, escreveu o uruguaio Horácio Quiroga no conhecido “Decálogo do perfeito contista”, um conjunto de ideias mais ou menos polêmicas sobre a arte do conto.

Quando tentamos aplicar essa premissa de Quiroga ao microconto, como fica? No micronto, todas as linhas, as primeiras e as últimas, coincidem em importância. Cada palavra, vírgula, pausa, ponto, deve assumir seu lugar exato, para que o contista passe adiante o vislumbre, a epifania ou iluminação profana que o levou a escrever.

Um exercício possível é propor uma ação incompleta e pedir para o aluno finalizar. Por exemplo: “Abriu o livro e leu…”? Cada um poderá completar como quer. Depois, colocar o título. Que pode fazer nascer, por exemplo, uma contradição iluminadora. (Como: “Cartório. Abriu o livro e leu seu atestado de óbito.” Acabo de inventá-lo; para ver como é um exercício fácil e divertido.)

Aprendi essa brincadeira boa com o escritor pernambucano Marcelino Freire,  em uma oficina literária em Curitiba (PR), e gosto de aplicar com os meus alunos. Adoro ver o que se passa a cada recriação da cena. Pode-se ir do poético ao escatológico, do humano ao desumano, do sublime ao diabólico, em menos de um minuto. Em duas ou três palavras diferentes. É o conhecimento do poder a linguagem exposto sem mediação.

Outro bom modo de iniciar-se na escrita de microcontos é escolher títulos abertos e propor aos alunos que escrevem sob este guarda-chuva inicial. Os títulos completam o sentido do que vem a seguir, em uma relação simbiótica que não se vê tão íntegra em todos os gêneros literários. O livro de Renato Tardivo está cheio de bons exemplos nesse sentido.

 

Olhos, foguetes, conchas

O cuidadoso trabalho gráfico da Ateliê Editorial torna o livro um ótimo presente. É um livro-objeto, com páginas cuidadosamente diagramadas e papel bem escolhido para dar vida e destaque aos microcontos.

grassol

Na capa, o desenho de Anna Anjos mira o leitor: convida a abrir o livro e olhar para a terra para onde olha o Girassol, este solo onde linguagem é vida, onde vivemos todos, mas nem todos sabemos dizê-lo com tamanha precisão.

Nas páginas internas, os mesmos olhos abstratos e futuristas parecem ter se transformado em foguetes, onde o leitor pode entrar e partir para as dimensões ocultas nas verdades relevadas. Foguetes, sim, ou conchas, ou outra imagem à sua escolha (depende de quem olha, e quando o faz), isto é, lugares seguros onde se podem dizer certos segredos.

O chão que sustenta Girassol é formado de silêncios e de descobertas, vislumbres e epifanias. Portanto, solo fértil para o leitor atento, que se une ao movimento de Girassol. O escritor Nelson de Oliveira, no prólogo, destaca a interação proporcionada por esse tipo de escrita: o leitor é convidado a preencher a História, as camadas de história não-ditas, mas contidas na sabedoria do microconto.

Girassol Voltado para a Terra, com suas sementes de histórias, seus olhares, foguetes e conchas, nos convida a interagir e pensar. A leitura do livro de Renato Tardivo, se não elucida dilemas, ao menos nos mostra que pode valer a pena tentar. Mesmo que demore anos, que seja preciso antes outros voos, outros silêncios, este movimento de olhar para dentro (para a terra, de onde viemos, para onde vamos) é, talvez, o que nos falta em nossa rotina cada vez mais verborrágica, cheia de palavras mas tão vazia de sentido e plenitude.

 

 

* Escritora, 34 anos, está ministrando o Curso Livre de Contos na Biblioteca de Pirabeiraba (livre2016.tumblr.com ) , em Joinville (SC), em projeto selecionado pela Bolsa de Fomento à Literatura do Ministério da Cultura. Escreveu outra resenha de Girassol voltado para terra em seu blog pessoal, Histórias da Katherine (historiasdakatherine.wordpress.com) .

O Diário de Bordo do Velho Chico: um roteiro da vida real

Por: Renata de Albuquerque

Autora de O Velho Chico ou A Vida É Amável – livro homônimo à novela das 21h da Rede Globo, que estreia hoje, Dirce de Assis Cavalcanti diz que a viagem que fez na região, durante os anos 70, foi “um divisor de águas”. A sinopse e o enredo do livro O Velho Chico foram escritos a partir de uma experiência marcante, cheia de personagens, símbolos e histórias inesquecíveis. Acompanhe abaixo o que a autora diz sobre essa experiência:

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Como teve a ideia de escrever o livro O Velho Chico?

Dirce de Assis Cavalcanti: A viagem pelo Velho Chico a fiz a trabalho. Era, na época, Diretora do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura, em Brasília, e decidimos fazer uma exposição com as Carrancas do rio São Francisco.

Qual a importância das carrancas no enredo do Velho Chico?

DAC: Preciso dizer que é o único rio do Brasil em que existiram, nasceram, procriaram, a princípio surgidas das mãos e da imaginação do velho Guarani, que “retirava do mato o pau que já vinha pronto”, como ele contava, e então era só ir descascando a cara, os dentes, a cabeleira, e a carranca pronta, primeiramente utilitária, depois ornamento, se tornava um símbolo, o símbolo do Velho Chico.
Destinadas a assustar os monstros aquáticos que os caboclos tanto temiam, eram colocadas na proa das embarcações, e quanto mais ameaçadoras fossem, melhor cumpriam sua missão.

A novela Velho Chico, que estreia hoje, tem o mesmo cenário de seu livro. Por que acha que essa região é tão marcante?

DAC: Para mim, como relato no “diário de bordo”, a vida se dividiu entre o antes e o depois do São Francisco. Conhecer aquela gente extraordinária na sua pobreza, no asseio de suas casas de chão de barro liso, como que encerado, na sua generosidade, coragem e simpleza, foi um presente dos céus. Sobretudo a população mais distante do mundo, na margem esquerda, é muito surpreendente. Uma mulher alta e magra, como eu conto no livro, que ia pagar promessa em Bom Jesus da Lapa para que lhe curasse uma papeira, me deu o significado da vida, numa frase, dita depois de contar tantas misérias por que passou, a perda do marido e de onze filhos por doença e má nutrição, ela, Ambrosina, me disse: …”mas a vida é amável, não é dona menina?”

Não vou dizer mais nada, está tudo no livro…