Artigo

Massao Ohno, um dos maiores editores do país, ganha livro pela Ateliê Editorial

Jorge Ialanji Filholini *

Hilda Hilst escreveu sobre Massao Ohno: “Colou-se à compaixão, abismos e à sua própria sombra”. Massao dedicava-se – muitas vezes sozinho – às sombras do mercado editorial para as publicações de livros que hoje são clássicos e importantes na literatura brasileira contemporânea.

Conhecido como um dos maiores editores do país e deixando sua ideia e marca que influenciaram o mercado editorial independente, Massao foi responsável por publicar nomes como os de Roberto Piva, Eunice Arruda, Claudio Willer, Hilda Hilst, Renata Pallottini, Jorge Mautner, Julio Bressane, Lupe Cotrim Garaude e muitos outros. Este imenso trabalho gráfico pode ser apreciado como estudo literário e biográfico no livro Massao Ohno, Editor, escrito e organizado pelo pesquisador José Armando Pereira da Silva, e publicado pela Ateliê Editorial. A obra tem seu lançamento agendado em São Paulo no dia 15 de fevereiro, a partir das 10h, na Galeria de Arte Almeida e Dale (Rua Caconde, 152, Jardim Paulista).

O objetivo inicial da obra foi o levantamento da produção editorial de Massao Ohno – morto em 2010 -, apresentada cronologicamente, e que pode servir de referência para outras abordagens de sua carreira. Houve também o propósito de conferir a colaboração dos artistas, seus parceiros no desenho de capas e ilustrações. Acompanham a reprodução colorida das capas, apontamentos históricos, biográficos e depoimentos, relacionados aos autores e às obras.

Massao Ohno, em foto de Juan Esteves

Deste rastreamento são reproduzidas capas de 174 obras, que permitem observar como se deu e se firmou sua marca. Mesmo sem acesso a toda sua produção, são destacadas algumas preferências de Massao e a primeira fase da editora, de 1960 a 1964. Nesse período culturalmente intenso, não só os novos poetas tiveram nele um veiculador sensível e comprometido em dar identidade a seus projetos.

“A ideia de fazer um levantamento da produção de Massao Ohno me ocorreu por ocasião das homenagens que lhe foram prestadas em 2004 pelos 45 anos de carreira. Não havia inventário que desse uma dimensão concreta dos títulos por ele publicados”, aponta José Armando. “Atraía-me também a possibilidade de investigar as diversas etapas de sua carreira e conferir a colaboração de ilustradores – referências para pesquisa da literatura e do design gráfico na segundo metade do século XX”, conclui.

Massao Ohno, Editor é uma obra importante que dá luz e forma à trajetória desse importante editor do Brasil em seu tempo, assim como fornece elementos para análise de seus métodos de editoração, que foram inovadores no mercado editorial e que não podem ser esquecidos.

*Escritor, editor e produtor cultural. É fundador do site cultural Livre Opinião – Ideias em Debate. Em 2016, publicou o livro Somos mais Limpos pela Manhã (Selo Demônio Negro), finalista do Prêmio Jabuti

Paradeiro: uma carta para Pedro

O escrito e psicanalista Renato Tardivo escreve uma “carta aberta” a Pedro, protagonista de Paradeiro, romance de Luís Bueno que recebeu o Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2019

São Paulo, 26 de dezembro de 2019.

Caro Pedro,

Espero que me perdoe a intromissão. Não nos conhecemos; ou, para ser mais preciso, você não me conhece. Eu soube de eventos importantes da sua vida por meio do romance Paradeiro, escrito por Luís Bueno e do qual você, aos 23 anos, é um dos protagonistas. Presumo que você não tivera a oportunidade de ler o romance, levando em conta, inclusive, que ele seria publicado no longínquo 2018. O livro possui três camadas narrativas, por assim dizer. Uma delas traz como protagonista uma mulher madura, cujo nome não se menciona e que, ao descobrir tardiamente um câncer, decide (decide?) se suicidar. Boa parte dessa camada é narrada em primeira pessoa por essa mulher. Outra camada se ocupa da vida de Bibiana, uma senhora em estado de demência (e quanta sabedoria ela anuncia!). A maior parte dessa outra camada é narrada pela própria Bibiana em um texto sem pontuação – pretendo voltar a tratar disso nesta carta. E, por fim, perfaz o livro a seção que o traz como protagonista. Em toda essa camada, o leitor tem a oportunidade de conhecer uma série de cartas remetidas por você em 1938 a familiares e amigos, e, em algumas delas, ler suas críticas literárias encaminhadas à “Revista Acadêmica”. É assim que sua identidade se constitui no livro: dirigindo-se ao outro. Não é bonito? Por este motivo, Pedro, não me ocorreria outra forma de comentar o livro Paradeiro senão remetendo uma carta a você.     

Posso imaginar (não mais que imaginar) o baque que você sentiu ao receber o diagnóstico de tuberculose e, por causa disso, ter de se exilar em São José dos Campos para se submeter, naquele ano de 38, a um tratamento repleto de incertezas. Deixar o Rio e o convívio com Murilo Miranda, Moacyr Werneck e Carlos Lacerda, para citar apenas alguns de seus companheiros, não deve ter sido nada fácil. Sei disso, porque sua angústia se revela nas cartas. Talvez você tenha pressentido o que diria a protagonista (sem nome) do romance: “A morte é exatamente isso. Feder fortemente e ninguém sentir”. É curioso, não obstante, que o cheiro dela seja sentido, circunstância que atesta justamente a sua condição de viva. Também em suas cartas, Pedro, mais que a angústia, o que salta mesmo é sua vontade de viver e seguir discutindo os temas que tanto lhe interessavam: literatura e igualdade.

O romance Paradeiro, mais do que flertar com a morte, é um livro sobre a vida! Você acredita que (muito diferente da sua experiência, evidentemente) também eu tenho uma história em São José dos Campos? Como, nas férias da infância, eu viajava com a família para o litoral norte de São Paulo, São José ficava na metade do caminho. Passar por lá, então, era, por um lado, ruim: significava que ainda tínhamos pela frente metade do trajeto (que, de longo, eu ainda não sabia, não tinha nada). Mas era também a chance de comer no único McDonald’s que havia na região, e isso era, à época, o suficiente para me deixar animado. Como vê, eu não conhecia nada de São José dos Campos, o que dirá de sua acolhida aos tísicos? Sequer à praça Afonso Pena eu fora. Mas bons livros sobre a vida, como o é Paradeiro, estabelecem uma intimidade insuspeita com o leitor. Não é isso que também dizem as críticas que você publicava na “Acadêmica”?

E, por falar em intimidade, suponho que você jamais tenha conversado com Bibiana. Mas, e com a personagem sem nome? É possível (apenas possível) que, em algum momento da vida, ao menos um “bom dia” vocês tenham trocado. Eu creio que uma conversa entre vocês três seria tão enriquecedora! Mas isso não importa. Ao contrário, é a autonomia entre as três trajetórias e seus sutis pontos da tangência que fazem do romance um belo livro. E é assim mesmo que, sem que vocês três se encontrem propriamente, o encontro pode enfim ocorrer em sua máxima potência: no imaginário do leitor.

É difícil (e seria leviano da minha parte) afirmar quem é a personagem mais sofrida. Mas me ocorre que Bibiana, a mais velha entre os protagonistas, foi arrancada da mãe e da pátria na infância, casou-se ainda menina, casou-se de novo, viveu sob a opressão da tia e, se já não bastasse, perdeu dois filhos! Um deles você conheceu, sabia? Pois eu sei. Enfim, quanta dor e fome de vida. O entusiasmo com que você leu Vidas Secas, romance excepcional de Graciliano Ramos publicado enquanto você se tratava da tuberculose, quiçá também tome essa direção. De qualquer modo, creio que Bibiana seja a personagem mais mítica do romance. O discurso dela, sempre em letras minúsculas, não possui (como já anunciei) pontuação; não tem começo, não tem fim: é. A outra protagonista, que vaga entre São José e Jacareí por alguns dias em busca de dar cabo da própria vida, parece caminhar para esta descoberta, qual seja, a de que a vida, em ultimíssimo caso, não tem começo, não tem fim: é. Mas percebo que, agora, já exagero em minhas divagações.

Pedro, não poderia deixar, ainda, de registrar meus agradecimentos a você, por apresentar-me ao romance Amanhecer, de Lúcia Miguel Pereira, sobre o qual você escreveu na “Acadêmica”; obra que, em suas palavras, como Vidas Secas, “veio para envelhecer sempre nova”. Pois saiba que amanhã mesmo eu irei atrás do meu exemplar de Amanhecer. O que você muito provavelmente não soubesse é que esta imagem – o envelhecer sempre novo – costura a sua história, a de Bibiana e a da mulher cujo nome desconhecemos. Mas arrisco afirmar que você o intuiu, ou não teria dito em carta à sua mãe que São José dos Campos era o seu paradeiro: “O lugar onde vim parar é aquele em que eu pararia de vez. Mas não parei, e por isso parei por aqui”. Também eu paro por aqui.

Com o abraço do

Renato    

Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras: Um brinde à resistência das livrarias brasileiras

por Katherine Funke*

Será que voltaremos tanto no tempo que livreiros favoráveis à liberdade de pensamento terão de criar um fundo falso nas estantes da loja? É impossível não sair da leitura do Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras, de Ubiratan Machado, sem essa pergunta na cabeça.

O livro traz informações históricas mais do que úteis – inspiradoras – sobre modos de sobrevivência de cem livrarias brasileiras, desde o comércio jesuíta dos séculos 17 e 18 até as mais recentes, como a Livros & Livros, fundada em 1988 e que ainda resiste bravamente aberta dentro da Universidade Federal de Santa Catarina.

Quem já viveu bons momentos em uma livraria vai ser transportado a outros espaços-tempo folheando a publicação. Eu mesma, lendo sobre a Livros & Livros, não posso deixar de ser lançada ao dia em que autografei meu primeiro livro de contos na sua grande loja do centro de Florianópolis, um grande espaço com dois andares, muito bem decorado, infelizmente já extinto. Cada um com suas lembranças – e quantas são, para quem ama livros e livrarias!

Impossível não se apaixonar pela história de cada livreiro. Este manual – que nada tem de “pequeno”, nem no formato, nem na profundidade da pesquisa empreendida pelo autor – está mais para labirinto onde cem quixotes de três séculos se encontram conosco, os quixotes-leitores, do lado de fora do livro.

O método mais gostoso de ler este Pequeno Guia, aliás, é levá-lo para ler em uma pequena livraria da sua cidade, e desfrutar dos muitos causos e dados sentindo o sabor de fazer parte dessa espécie de movimento contracultural chamada loja de livros.

Escolhi uma chamada “Barba Ruiva”,  já no seu terceiro endereço no centro de Joinville, onde divide espaço com uma cafeteira e tem uma parede adornada com a placa “Rua Marielle Franco – Brasil”. Levanto os olhos por um momento e vejo o livreiro, o ruivo e barbado Fernando Koenig, pendurado numa escada para alcançar um volume desejado por uma cliente. Sorrio e volto às páginas impressas em papel pólen, absorta pela leitura.

Labirinto

O guia segue a linha do tempo, linearmente, conforme vai apresentado experiências de livreiros de diversas regiões do território nacional. O autor da obra, Ubiratan Machado, avisa logo de entrada que o guia está incompleto. Mas nem mesmo os mapas e as enciclopédias conseguem dar conta de tudo. Ele explica que se esforçou para abranger livrarias de todos os Estados – mas alguns livreiros não se dedicaram a colaborar com informações para a pesquisa.

Jorge Luis Borges, se fosse Machado, faria uma narrativa inversa, talvez: inventaria as histórias ocultadas por esses livreiros e deixaria para o prefácio um resumo da pesquisa informativa. Mas a Ubiratan Machado cabe a paixão pelo detalhe, pelo dado histórico, checado, apurado, contrastado com depoimentos & notícias de jornal, e a isso também é preciso amar e agradecer com o mais profundo respeito, em tempos de apagamento e constante reescrita da História.

Por causa da pesquisa de Machado, ficamos sabendo que interessados em comprar livros marxistas ou de filosofia durante a ditadura, em Belém (PA), tinham uma alternativa combativa na livraria Jinkings. Seu proprietário a fundou em 1965, depois de ter passado quatro meses encarcerado por ordem militar. Raimundo Jinkings, desafiando o regime, criou uma estante com fundo falso para atender às encomendas consideradas subversivas pela censura.

O autor conseguiu levantar não só detalhes sobre a rotina das lojas, como também relacioná-los com o contexto político e social das fases de abertura, desenvolvimento e, às vezes, do fechamento das livrarias selecionadas para compor o guia.

Assim, ele informa que o dono da rede Nobel de Livrarias veio para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, direto da Itália. Cláudio Milano se fixou em São Paulo, em 1943, e depois de algum tempo vivendo como encadernador, passou a distribuir livros. E também ficamos sabendo de um folclore vigente a respeito de um truque de Henfil e sua turma mineira em Belo Horizonte, nos anos 1960: entrar na livraria Itatiaia com as pastas escolares infladas de ar para sair de lá com as pastas cheinhas de volumes surrupiados…

O cuidadoso trabalho de edição da obra faz com que cada livraria seja apresentada com seu selo ou logo, e algumas imagens histórias. Impossível não passar alguns minutos detida pela fotografia da página 156, que retrata um evento dentro da livraria Brasiliense.

Sem dúvida, este livro é um presente à inteligência e um brinde à resistência de livreiros, editores, escritores e leitores do Brasil. Em tempos de fechamento de livrarias e de muitas mudanças no âmbito governamental do país em relação à educação, arte e cultura, o Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras cristaliza o amor ao saber com um cuidado inigualável.

 * Mestre e doutoranda em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Conheça outras obras de Ubiratan Machado

Março é mês de poesia!

Quem ama ler, lembra: março é mês da poesia. Mas você sabe por quê o terceiro mês do ano é considerado o mais poético deles? A razão é que em março são comemoradas duas datas tradicionalmente ligadas à poesia. Até 2015, no dia 14, era comemorado o Dia Nacional da Poesia. E, até hoje, o dia 21 de março é o Dia Mundial da Poesia.

Foi em 1999 que a XXX Conferência Geral da UNESCO determinou que 21 de março fosse considerado o Dia Mundial da Poesia, em uma ação para apoiar a diversidade de línguas existentes no mundo por meio da expressão poética.  Desde então, a data é celebrada pelo mundo afora.

Já o dia 14 de março é a data de aniversário de Castro Alves, poeta romântico brasileiro, nascido em 1847, muito conhecido por sua produção poética ligada a temas como o abolicionismo e crítica social, que marcaram a Terceira Geração do Romantismo Brasileiro. Para o crítico Afrânio Peixoto, ele foi “o maior poeta brasileiro, lírico e épico”, o que por si só já justificaria a escolha da data. Castro Alves escreveu, entre outros, Espumas Flutuantes, sua obra lírica mais significativa. Entretanto, em 2015, foi sancionada a Lei 13.131, que institui como 31 de outubro o Dia Nacional da Poesia, em homenagem à data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.

Qualquer que seja a data, entretanto, de uma coisa a gente tem certeza: poesia é fundamental para a vida. Por isso, hoje, fazemos uma seleta de poemas aqui, no Blog da Ateliê:

O “adeus” de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus

E amamos juntos E depois na sala

“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala


E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .

E da alcova saía um cavaleiro

Inda beijando uma mulher sem véus

Era eu Era a pálida Teresa!

“Adeus” lhe disse conservando-a presa


E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”



Passaram tempos sec’los de delírio

Prazeres divinais gozos do Empíreo

… Mas um dia volvi aos lares meus.

Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!. . . “

Ela, chorando mais que uma criança,



Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”


Quando voltei era o palácio em festa!

E a voz d’Ela e de um homem lá na orquesta

Preenchiam de amor o azul dos céus.

Entrei! Ela me olhou branca surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa!


E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Castro Alves, Espumas Flutuantes

Livro Viva Vaia

DIÁLOGO A DOIS

“A Angústia, Augusto, esse leão de areia…”

(Décio Pignatari)

– A Angústia, Augusto, esse leão de areia Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos E que desdenha a fronte que lhe ofertas

(Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos)

E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos, É o Morto que se fecha em tua pele?

O Expulso do teu corpo no teu corpo? A Pedra que se rompe dos teus pulsos? A Areia areia apenas mais o vento?

– A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro, Esse leão de areia digo este leão

(Ah! o longo olhar sereno em que nos empenhamos, Que é como se eu me estrangulasse com os olhos)

De sangue:

Eu mesmo, além do espelho.

Augusto de Campos, Viva Vaia

ESPELHAR

espelho espelho meu

existe alguém mais

eu

do que

eu

?

Luci Collin, Antologia Poética 1984-2018

III

era o dia em que o sol escurecia pesaroso da morte do Senhor,

quando sem dar por mim, sem nem supor,

teu belo olhar, Senhora, me prendia.

inútil precaver-me parecia

e, desatento aos golpes de amor, segui, de mim seguro: e minha dor

na dor universal assim nascia.

achou-me amor de todo desarmado, aberta a via dos olhos até o peito,

tornado pelas lágrimas num charco.

não parece ter sido grande feito

ferir-me amor com flecha nesse estado

e a ti armada nem mostrar o arco.

Petrarca, Cancioneiro

CIRCE

Porque eu os amava

me encerraram aqui

nesta ilha

neste corpo

Transformo-os

no seu melhor

mas não posso beber

do meu próprio veneno

Por anos esperei

no topo deste penhasco

Ele não voltou:

ensinem-me algo do seu mundo

que eu ainda não saiba

Leila Guenther, Viagem a Um Deserto Interior

Morada

Voltei a escrever para ti

agora que me esqueceste

no intuito de regressar

à esperança que aí me levou,

onde já não moras.

Paulo Lopes Lourenço, Cinematografia

Sem Título

Ser poeta é viver em permanente estado

de(s)atenção

Que importa a luz acesa

a porta aberta

o leite derramando

no fogão?

(mas

o gotejar da torneira:

pulsação)

Marise Hansen, Porta-retratos

Fala D João  3

mais  de pessoa sabe

quem  de peçonha sabe

mocho  a noite  cobreavas

espertando os olhos  da coruja

em pedra  avoenga

meu  gume  afiara

à alva  a cabeça

Évora verá

Hélio Cabral, Fala D. João

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“A Relíquia”, de Eça de Queirós: humor e ironia em um clássico realista

Por Renata de Albuquerque*

Um romance realista cheio de ironia, humor e com um toque de cinismo. Assim é A Relíquia, romance de Eça de Queirós, publicado em 1887 em Portugal. O livro é narrado por Teodorico Raposo (Raposão), órfão de pai e mãe que, ainda criança, vai morar com sua tia, Dona Maria do Patrocínio (Titi), uma senhora beata, avara e casta. É ela quem controla a fortuna que o sobrinho herdará, no futuro.

As características da tia do narrador não são colocadas por acaso pelo autor. Eça de Queirós foi integrante da chamada Geração de 70 de Portugal, um grupo de artistas e intelectuais que desejava a renovação da  vida política e cultural portuguesa, que consideravam decadente. A obra Causas da decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos, de Antero de Quental, componente do grupo, propõe que são três os elementos que levam ao atraso científico e industrial e à decadência moral, econômica e social: o catolicismo, a monarquia absolutista e as conquistas ultramarinas. Em A Relíquia, Eça de Queirós lança mão de uma personagem beata para criticar a igreja católica e a sociedade portuguesa de então.

Enredo

A Relíquia narra as memórias de Teodorico Raposo, órfão cuja mãe morreu no dia seguinte ao parto (um sábado de aleluia) e que, por parte de pai, era neto de padre.  Tudo é contado com um forte tom de ironia. Por isso, o que está posto no romance deve ser lido com uma certa desconfiança do leitor. Graças a este recurso, a obra é uma leitura que agrada e diverte o leitor, pelo humor ácido e pelo cinismo. Teodorico narra as desventuras de viver com a tia e também suas aventuras em uma peregrinação à Terra Santa – viagem que Raposo realiza porque a tia não concordara em enviá-lo a Paris, cidade que Dona Maria do Patrocínio considerava um berço de vício e perdição. Titi pede ao sobrinho que lhe traga uma relíquia de Jerusalém.    

Na Terra Santa, Teodorico passa por uma experiência fantástica. Ele assiste pessoalmente a todo o sofrimento de Jesus Cristo e descobre que, em vez de ressuscitar, ele morreu de fato. Por causa deste episódio, muitos críticos acreditam que o romance fuja um pouco do realismo. Mas, no decorrer da trama, o realismo está fortemente presente.

Obviamente, entretanto, Teodorico não deixa de viver aventuras, ainda que em Jerusalém. Lá ele conhece Miss Mary, com quem tem um romance. Quando se separam, ela lhe dá como lembrança sua camisola, embrulhada em um pacote.

Para honrar a promessa que fez à tia – de trazer-lhe uma relíquia da Terra Santa – Teodorico trança uma falsa coroa de espinhos, que embrulha, de presente para Dona Maria do Patrocínio.

O narrador encontra, em seu caminho, uma mendiga e dá a ela a camisola de Miss Mary. Mas, em vez disso, confunde os pacotes e entrega-lhe a falsa coroa de espinhos. Ao voltar ao Brasil, entrega a camisola à tia que, então, deserda-o. Teodorico lamenta não ter convencido a tia de que aquela seria a camisola de Maria Madalena. Então, começa a vender “relíquias” de Jerusalém, que ele mesmo fabrica, mas o negócio declina com o tempo.

No final, Teodorico Raposo casa-se, torna-se pai e recebe a comenda de Cristo, sem, mesmo assim, deixar de pensar que poderia ter feito fortuna se tivesse dito uma mentira convincente  à tia beata.

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*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Figurações do Oitocentos: literatura romântica nas obras de autores brasileiros e europeus

Por: Carina Marcondes Ferreira Pedro*

O livro Figurações do Oitocentos, organizado por Paulo Motta Oliveira, coordenador do Grupo de Estudos Oitocentistas da Universidade de São Paulo, contém ensaios que discutem a literatura romântica nas obras de autores brasileiros e europeus. O leitor poderá saber mais sobre o trabalho de autores como Émile Zola, Abel Botelho, Camilo Castelo Branco, Machado de Assis, Eça de Queirós, José de Alencar e Jane Austen. Os ensaios foram divididos no livro em duas partes: “Entre Tempos e Culturas”, a primeira, e “Religião, História e Crítica”, a segunda.

A primeira parte inicia-se com o ensaio “Émile Zola e Abel Botelho: Dois Olhares, Distintas Nações”, de autoria de Paulo Motta Oliveira. Como recorte, Oliveira seleciona os romances “A Besta Humana” de Zola e o “Barão de Lavos” de Botelho para analisar as realidades das classes sociais de seus países. Nessa comparação, o autor encontra uma forte classe dominante na França e a ausência da mesma em Portugal.  O segundo ensaio “As viagens de Adelbert von Chamisso: Da Literatura à Ciência, da Alemanha ao Brasil”, de Karin Volobuef, trata da obra de Chamisso, autor pouco conhecido no Brasil, embora tenha tido uma breve passagem pelo país. A ensaísta observa que a narrativa do autor é rica e instigante, cheia de expressões poéticas, ao mesmo tempo em que é fluente e objetiva, como a de um homem da ciência ao narrar as intempéries vivenciadas em viagens marítimas.

O terceiro ensaio “As Primeiras Impressões são as que ficam? Jane Austen Retorna ao Cinema”, de Carla Alexandra Ferreira, aborda apagamentos ou relativizações que a obra de Austen sofreu ao ser adaptada para o cinema nos anos 2000. Apesar de alguns pontos fortes do filme “Orgulho e Preconceito”, como o reforço das diferenças sociais que existiam no contexto histórico de Austen, a obra cinematográfica celebra o romance em um nível muito além do apresentado pela escritora em seu livro. Daí a necessidade de situar historicamente temas como o casamento e o amor na obra de Austen.

Coração, Cabeça e Estômago, obra de Camilo Castelo Branco

A ensaísta Flavia Maria Corradin aborda no quarto ensaio “Camilo Castelo Branco Revisitado pela Moderna Dramaturgia” a obra desse autor, considerado o mais importante do romantismo português, por conta de sua originalidade. De acordo com a ensaísta, a intertextualidade está presente nas paródias, estilização e paráfrases de Branco. O último ensaio da primeira parte do livro, de autoria de Renata Soares Junqueira, “Máscaras, Transmutações e Outras Formas do Duplo no Moderno Teatro de Branquinho da Fonseca” diz respeito a esse autor, considerado um dos grandes modernistas portugueses, não somente nas produções literárias, contos e novelas, como também nas obras teatrais. Em suas ficções, a narrativa é marcada por poesia em prosa com personagens que incorporam princípios do romantismo, como o individualismo obsessivo.

 

Na segunda parte do livro, os dois primeiros ensaios discutem a questão da religião na sociedade oitocentista. O primeiro “Cristo Revisitado”, de Aparecida de Fátima Bueno, retoma a obra de Eça de Queiroz, analisando a crítica severa do autor à Igreja Católica do século XIX, com destaque para o romance A Relíquia. Queiroz apresenta um Cristo dessacralizado, que não esconde seus atos falhos, o oposto da visão institucional transmitida aos fiéis pela Igreja.

Eça de Queirós

A obra de Eça de Queiroz continua sendo analisada no segundo ensaio pela perspectiva do orientalismo, mas dessa vez acompanhada pela obra de Machado de Assis. De autoria de Osmar Pereira Oliva, o ensaio intitulado “Eça e Machado e as Reescritas do Livro de Gênesis” destaca em Eça de Queiroz a crítica severa ao clero e a adoção da teoria darwinista, a partir da releitura do Livro de Gênesis. Já em Machado de Assis, a análise da releitura do Livro de Gênesis contribui para identificar a visão deste autor sobre o Oriente, visto que a Bíblia é um texto “paradigmático da cultura oriental” e fundamental nas sociedades ocidentais.

No terceiro ensaio “Quando o Medo Vence o Amor. O Estabelecimento do Domínio Filipino em Oliveira Martins”, de Patrícia Cardoso, é discutida a presença do sebastianismo na obra do historiador Oliveira Martins, que o considera um fenômeno cultural lusitano. Tal fenômeno é utilizado para dar sentido ao passado em seus romances, como em “Febo Moniz”, em que o discurso historiográfico é permeado pela ficção. O quarto ensaio “Gonçalves Dias e a Burocracia Imperial: Favores e Afrontas”, de Wilton José Marques, trata do reconhecimento de Gonçalves Dias como um dos grandes intelectuais do Império e, simultaneamente, rastreia sua inserção no funcionalismo público do segundo reinado do Brasil. Dias queria ser reconhecido como poeta nacional pelos seus méritos literários e não pela via da “lisonja fácil”. A temática indianista é presente em seus poemas, que possuem um tom nacionalista e elementos “de uma nova escola literária”, como foi reconhecido por José de Alencar, seu contemporâneo.

Iracema, de José de Alencar

Iracema, de José de Alencar

O quinto ensaio “Papel da Crítica na Fixação do Indianismo: o Caso José de Alencar”, de Mirhiane Mendes de Abreu, discute o papel do escritor José de Alencar como crítico literário de indianistas contemporâneos, com destaque para as “Cartas sobre a Confederação dos Tamoios”, em que analisou o livro de José Gonçalves de Magalhães. O ensaio ainda destaca outros importantes debates literários com participação de José de Alencar, cuja temática principal era o problema linguístico na literatura local, considerado um dos aspectos controversos da instituição da literatura nacional brasileira. A presença da categoria nacional na retórica oitocentista é o destaque do sexto ensaio, “Retórica do Romantismo”, de Eduardo Vieira Martins. O ensaísta discorreu sobre cinco tratados de retórica: Lectures on rhetoric and belle letres, de autoria do escocês Hugh Blair, “Lições Elementares de Eloquência Nacional” e “Lições Elementares de Poética Nacional” do português Francisco Freire de Carvalho, “Lições de Eloquência Nacional” do padre pernambucano Miguel do Sacramento Lopes Gama e os “Elementos de Retórica Nacional”, de Junqueira Freire. Para Martins, a análise da retórica oitocentista permite uma releitura do romantismo a partir dos valores que orientavam as produções literárias da época, evitando o anacronismo na crítica realizada nos dias atuais.

 

* Historiadora, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e agente cultural na Secretaria de Cultura de Santos. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

Incêndio no Museu Nacional: como preservar os acervos?

Por Renata de Albuquerque

 

O incêndio que se abateu sobre o Museu Nacional do Rio de Janeiro destruiu quase todo o acervo de 20 milhões de peças. Menos de 1,5 milhão de itens saíram intactos. O Museu, que em 2018 completou 200 anos, contava, entre muitos outros itens, com uma coleção de peças egípcias, artefatos greco-romanos e abrigava Luzia, o mais antigo fóssil humano já encontrado no Brasil. Essa tragédia cultural colocou na pauta o tema da conservação dos acervos e dos museus no Brasil, muitos dos quais correm também riscos.

Beatriz Mugayar Kühl

A arquiteta Beatriz Mugayar Kühl, especializada na área de preservação de bens culturais na Katholieke Universiteit Leuven (Bélgica) e doutora pela Universidade de São Paulo e pós-doutora pela Università degli Studi de Roma, explica que o problema não é apenas o dano no acervo. “É um acervo de 200 anos que sumiu. O prédio até pode ser restaurado, mas o próprio edifício era uma peça de acervo, pois mostrava um modo de construir que pegou fogo”, afirma.

Ela, que é uma das organizadoras da Coleção Artes&Ofícios, da Ateliê Editorial, faz parte atualmente de um grupo de trabalho que se dedica a auxiliar na restauração do Museu Paulista. Conhecido como Museu do Ipiranga, ele deve reabrir ao público em 2022, depois de quase uma década em obras. O grupo, formado por profissionais da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) e do Departamento de Pesquisa da Universidade de Ferrar (Itália), tem por função coordenar trabalhos e auxiliar na captação de verbas para preservar tanto a edificação em si quanto o acervo do museu.

Segundo a arquiteta, no Museu Paulista, o diagnóstico estrutural foi concluído em 2017, o projeto arquitetônico de restauração já foi escolhido e está em andamento. “Foi realizado um escaneamento do telhado, para entender como podemos sustentar o forro, por exemplo. Coletamos dados que agora estão sendo analisados e que ajudam os arquitetos a ‘enxergar o que as paredes escondem’, as estruturas, os elementos da construção”. Assim, é possível planejar com mais segurança o restauro e a manutenção futura do edifício, diminuindo o risco para o próprio edifício, o acervo e o público.

“Os museus, principalmente os ligados a universidades, não são apenas locais de visitação. São centros de pesquisa, com elementos que nos ajudam a refletir sobre o hoje, com o olhar contemporâneo sobre peças do passado. E assim conseguimos vislumbrar o amanhã”, avalia.

Com o incêndio do Museu Nacional, aumentou o interesse pelo tema da conservação de acervos. Para quem quer conhecer mais a respeito do assunto, a arquiteta sugere a leitura de Cartas a Miranda, de Quatremère de Quincy. “Esse livro chama a atenção para a questão da preservação. É um livro que pode ser lido por quem está interessado pelo tema”, indica.

Afinal de contas, quanto mais informação tivermos, maior a chance de evitar que tragédias como o incêndio do Museu Nacional se  repitam.

 

 

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Viaje pela história de Rússia através dos livros

A Rússia, que hoje é sede de uma Copa do Mundo, já foi cenário de uma grande transformação na passagem do sistema socialista para o sistema capitalista, conta Lenina Pomeranz em seu livro “Do socialismo soviético ao capitalismo russo“.

História da Rússia pelos Livros

Caderno de Literatura e Cultura Russa – Dostoiévski é uma revista bienal do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo. Destina-se aos pesquisadores interessados em temas relacionados à Rússia: literatura, artes, filosofia e ciências humanas em geral.

Teatro Russo – Literatura e Espetáculo traz um amplo debate sobre os mais variados aspectos, que cercam a história e a estética da arte teatral na Rússia.

Matrizes Impressas do Oral: Conto Russo no Sertão une Brasil e Rússia, dois polos geográficos, culturais e simbólicos do mundo. Jerusa Pires Ferreira demonstra neste seu livro, não só que a linguagem dos contos maravilhosos é universal, além disso nos desvela, os mecanismos literários e culturais dessa universalidade. Consegue assim aproximar a magia dos contos a uma geografia da razão, na medida em que alcança o prodígio de comunicar esses polos.

Contos da Nova Cartilha – Primeiro Livro de Leitura, contém fábulas, histórias reais, contos folclóricos, descrições de paisagens e adivinhações que o autor russo Liev Tolstói, conhecido pelos romances Guerra e Paz (1869) e Anna Karenina (1877), usava em suas aulas. Mais do que ensinar a ler, sua proposta era “educar para libertar”.

Esses e outros livros, você vai encontrar nessa seleção especial que a Ateliê separou para que viaje pela história da Rússia, sem sair do Brasil. Confira.

Literatura e medicina se entrelaçam na obra de Pedro Nava

Por: Renata de Albuquerque*

Na semana em que se comemora o Dia do Médico, o Blog da Ateliê lembra de um médico que se consagrou como escritor: Pedro Nava. Autor de uma das mais importantes obras memorialísticas da literatura brasileira, Nava nasceu em Juiz de Fora (Minas Gerais), em 1903.

Pedro Nava

Escreveu os primeiros poemas na década de 1920, participando do Grupo Estrela, que contava com nomes como Cyro dos Anjos e Carlos Drummond de Andrade. Colaborou com “A Revista”, publicação modernista mineira e, em 1928, ilustrou Macunaíma, de Mario de Andrade. A partir dos anos 30, exerce a medicina em período quase integral. Manuel Bandeira escolheu Nava para fazer parte da Antologia de Poetas Bissextos, na década de 1940. Mas foi apenas na década de 1970, quando publica Baú de Ossos, que se torna uma referência na literatura de memória escrita no Brasil. Muitos o consideram o “Proust brasileiro”.

E, como memorialista, em sua obra, literatura e medicina andam de mãos dadas. Em sua bibliografia há títulos que deixam essa ligação explícita, como O Anfiteatro – Textos Sobre Medicina (organizado pelo sobrinho Paulo Penido). Outros, como Beira-Mar (em que retrata sua passagem pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais), se não se revelam pelo título, trazem o assunto impresso em cada página.

No volume A Medicina de Os Lusíadas, o escritor usa seu conhecimento em medicina para buscar, no clássico de Camões,passagens relevantes do ponto de vista médico. Já a segunda parte de Galo-Das-Trevas é inteiramente dedicada ao início da carreira de Nava como médico.

Pedro Nava é, enfim, uma das mais claras razões pelas quais os amantes da literatura têm muito a comemorar no Dia do Médico.

Conheça a obra de Pedro Nava

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP.

João Alexandre Barbosa, 80 anos

Por Renata de Albuquerque*

“Quando comecei a fazer Direito, comecei também a lecionar porque, naquele tempo, para fazer Direito era preciso estudar literatura: brasileira, francesa”. Esta frase, de João Alexandre Barbosa, explica por si a grandeza intelectual deste advogado que criou o curso de Teoria Literária da Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), criou o Projeto Nascente (que fomenta atividades artísticas dos estudantes) e o Cinusp, foi diretor da FFLCH e escreveu mais de uma dezena de livros.

João Alexandre Barbosa

Nascido João Alexandre Costa Barbosa, na cidade do Recife, em 31/08/1937, fez o primário em casa, com uma preceptora. Ingressa na Faculdade de Direito, com o objetivo de tornar-se diplomata, e forma-se em 1960. Mas, segundo ele, sua formação não é apenas essa. “Antes de qualquer coisa, eu sou um leitor, essa é minha formação. Eu lia e anotava o que eu lia, usando essas anotações para dar aulas de literatura, para escrever sobre minhas leituras”.

Em 1961, começa a trabalhar como professor na Faculdade de Filosofia do Recife e na Universidade Católica de Pernambuco. Participa do II Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária em Assis (SP), com o trabalho “História da Literatura Brasileira e Literatura Brasileira”, uma leitura da obra “A Formação da Literatura Brasileira”, de Antonio Candido. Durante o evento, Barbosa e Candido se conhecem e passam a trocar correspondência.

Barbosa sofreu com a censura e a repressão da Ditadura Militar (1964-1985) tanto em Pernambuco quanto em Brasília, onde lecionou em 1965. Em 1966, quando Candido volta de Paris, Barbosa vem a São Paulo, com uma bolsa de Doutorado pela Fapesp. Três anos depois, é contratado pela USP. Em 1970, defende “Linguagem da Crítica e Crítica da Linguagem. Um Estudo de Caso Brasileiro: José Veríssimo”, ao que consta, a primeira tese de Teoria Literária no Brasil. Dez anos depois, já livre-docente, sucede Antonio Candido na cadeira de Teoria Literária (FFLCH/USP).

Na Universidade de São Paulo, foi pró-reitor de cultura e extensão, tendo criado a Comissão de Patrimônio Cultural da Universidade e o projeto Universidade da Terceira Idade. “Refundou” a Edusp, como editora universitária que publica livros próprios, no final da década de 1980. Realizou estudos sobre João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes e Augusto Meyer, entre outros, além de colaborar com revistas (como a Cult) e jornais (como o Jornal do Commercio do Recife). Aposenta-se em 1993. Falece em 03/08/2006, aos 68 anos.

“A leitura para mim sempre foi uma paixão, inclusive pelo livro enquanto objeto”, dizia.

 

 

Conheça as obras de João Alexandre Barbosa editadas pela Ateliê

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.