Alex Sens

Interferências na escrita – parte 2 e final

Interferências da escrita

Embora eu não goste da palavra “coincidência” e tenha de começar este texto com ela (logo na primeira linha!), assim pode ser chamado o curioso fato de que quando meu dedo indicador pressionou a primeira tecla, um trovão sacudiu as folhas metálicas da janela. Um novo jogo de boliche acontecendo nas pistas úmidas das nuvens, um novo pigarro – desta vez da cadeira onde me sento, ela reclamando de escoliose num espaldar nada lisonjeiro –, um novo pássaro que ora canta três notas iguais, ora quatro – e vou imaginando que ele dá um ligeiro salto em cada uma delas, ou que gira o corpo roliço num discreto rodopio para secar as penas borrifadas de chuva. Mas desta vez o silêncio é mais palpável, mais viscoso, e penso que se eu pudesse enxergá-lo da minha janela, veria brilhantes pingos de sombra prateada explodindo no ar como se rompidos por cada partícula de som mais próxima. É uma imagem que me agrada, e que apesar de romântica, abstrata, não poderia ser diferente quando a brisa que entra também faz barulho, empurrando a cortina e produzindo o som de um sussurro dentro de uma concha. Um sussurro com perfume de eucalipto, terra quente, lavandas e magnólias – tão doces que a boca saliva, que os cantos da língua repuxam nervosos de vontade, como se morder as cremosas pétalas amarelas fosse provar o sabor de um fim de tarde.

Escritores precisam de concentração para escrever, do contrário suas obras seriam impossíveis, inexistentes. É preciso uma fatia generosa de solidão e silêncio para ser escritor; cada som, por mais ínfimo e inocente que seja, rasgando essa frágil película que envolve o escritor e todas as suas imagens transformadas em palavras, penetrando seu mundo privado, é um pequeno ato de violência. Cada som invasor é uma fração de um todo que é caos, esta vida que pulsa de todos os lados e da qual não conseguimos nos desvencilhar enquanto pulsamos junto. Fazemos parte do caos, da invasão que perturba o processo criativo, e por isso ele também faz parte de nós – sobretudo quando sua imposição inexorável se transforma na temática indesejada. É um truque da vida, do destino, se você preferir, escrever sobre o que se tentou evitar para conseguir escrever. Então a arte literária se mostra bem-humorada, perspicaz.

Virginia Woolf, na segunda metade de sua vida, tinha o trabalho constantemente interrompido por visitas indesejadas, dúvidas das cozinheiras, e na borda da Segunda Guerra Mundial, aviões sobrevoavam sua casa e bombas a alguns metros do seu escritório chacoalhavam as janelas fazendo-a perder a pesca de alguma palavra – lá se vai ela, livre do anzol! Entre versos amargos e duros, Sylvia Plath, ao contrário de Virginia, era interrompida pelo choro estridente dos filhos pequenos, e assim também vivia, ainda que de maneira mais organizada, Enid Blyton, famosa escritora de livros infantis que batia em sua máquina cerca 10 mil palavras todos os dias. Logo o barulho incessante foi substituído pela eficiência das babás, e a criação voltou a ser silenciosa (a despeito das teclas metálicas), concentrada, imperturbável.

Agora ouço o grasnar de um tucano, uma abelha ardendo no gramado ainda úmido de orvalho, um vento macio nas copas umbrosas das araucárias. Penso que escrever é um exercício de contemplação: contemplar um mundo externo e outro interno, e transformá-los num terceiro, a obra literária. Para isso, o silêncio, a solidão e toda ausência de ecos – inclusive os próprios, aqueles que perturbam os pensamentos, preocupações vagas que de nada ajudam, como se aquela conta que vencia ontem foi paga ou se o gás na cozinha foi desligado – são necessários. Franz Kafka disse em carta a um amigo que seu lugar ideal para escrever seria nas profundezas de uma caverna, munido de uma lamparina e tudo o que é necessário para escrever. É assim que me vejo escrevendo, distante do mundo, resguardado de seus acontecimentos, indiferente à queda da Bolsa ou à desapropriação de um bairro ocupado ilegalmente.

A escrita será sempre interferida porque

(Precisei ir ao banheiro. Volto quando o mundo silenciar.)

Coluna Autor sobre Autor - Alex Sens

Interferências na Escrita – Parte 1

Interferências na Escrita - Alex Sens

Como se aguardassem um sinal sutil, um comando que aquecesse a força motriz da criatividade, as mãos flutuam indecisas sobre o teclado. Entre o mergulho dos dedos e a transformação do branco em linguagem ao menor movimento das falanges, o mundo respira, o próprio silêncio é silenciado.

Uma pomba no galho de um eucalipto deixa escapar um lamento, lembrando a nota de uma flauta doce atravessando as folhas como uma flecha de som. Outro lamento se segue, e mais outro, a sinfonia da pomba é o primeiro corte no silêncio. Um gavião faz companhia, dessa vez no telhado, inclina o pescoço rajado e com um leve frêmito começa seu estridente aviso de fome. Outro corte no silêncio. As nuvens incham como grossos novelos de água escura, uma grande sombra é formada sobre a floresta e os bugios pulam na escuridão das árvores, gargalhando e se preparando para a chuva iminente. Um trovão estoura e rola, como se Deus, durante o boliche, alargasse o tempo para sua bola de poliuretano deslizar sobre o céu.

O processador do computador recupera o fôlego. Os dedos ainda flutuam inquietos.

Da sala, um pigarro corta outra fatia de silêncio, termina como um gemido cansado, mas lembra um motor tentando funcionar através da melhor entonação de voz. Da televisão, a mulher de voz rouca (talvez ela precise de um pigarro) anuncia que o número de desaparecidos no naufrágio do navio Costa Concordia pode passar de trinta, então a matéria começa com o som de ondas quebrando nas rochas que cingem a Ilha de Giglio. Da cozinha, ainda que não se possa ouvir com nitidez, uma faca ensaboada cai na bacia de inox, o som de um acidente; outra cai no chão, “visita masculina”, diria a avó. Ao mesmo tempo, a chuva se rompe dos novelos d’água e cai no telhado como bicos de corvos quebrando peças de cerâmica. Do quarto, um aspirador de pó é ligado, outro lamento dolorido, contínuo, quase abafado pela tempestade.

O mais suave som – como duas camadas de vidro sobrepostas e um jato de luz incidindo sobre elas; quanto mais camadas, mais sombra, mais penumbra, mais se torna turva a criação. Assim como no sono, ou no início da insônia, os ruídos são novas camadas de vidro que vão escurecendo a luz do desejo – do desejo de dormir, no caso da insônia produzida pela falta de silêncio, ou do desejo de escrever, no caso do pensamento interferido pelo mundo externo.

Um pequeno grupo de escritores pode preferir escrever ouvindo música clássica, outro o som do vento ou da chuva amassando as folhas secas de uma árvore; um terceiro pode dar preferência àquela escrita cuja única interferência sonora é a das teclas estourando miúdas na velocidade dos dedos – faço parte deste grupo, talvez o maior deles, assim como do anterior. Ah, nada mais prazeroso do que ouvir a criatividade em ebulição, correndo pelo teclado de um computador ou de uma Remington! Mas desde que estes sons sejam produzidos por você, não pelo vizinho escritor, pois na sua mente de ideias incríveis obliteradas e já cansada do tec-tec-tec, ele parece mais inteligente, mais preparado para o combate com a literatura, um desejo maldoso de mostrar vantagem. O inferno são os outros, mas os prazeres secretos somos nós.

Um novo trovão rola no céu, seguido por um estouro que derruba dez palavras. Strike de Deus.

Coluna Autor sobre Autor - Alex Sens

Possessão, sopro divino ou Musa. Qual te inspira?

Autor sobre Autor - Alex Sens

“É preciso estar possuído pelo demônio para ter êxito em uma arte.” A frase é de Voltaire, mas poderia ser de qualquer outro artista que tenha sentido essa espécie de possessão durante sua criação artística. A esta possessão também damos o nome de inspiração. Em busca de uma definição para ela, corri os dedos sobre algumas dezenas de livros de minha pequena (e em expansão ad infinitum) biblioteca. Não encontrei nada. Nem em grandes ensaios literários a inspiração ganha algum esboço analítico. E. M. Forster a coloca como um “estado”, e tanto não deixa de sê-lo como nos leva de volta à ideia de possessão, outro estado no qual o corpo se entrega ao estranho e por ele é guiado. O artista seria um possuído espontâneo?

Verbo precedente do latim inspirare, inspirar é soprar para dentro – e também comunicar. Em termos biológicos, a inspiração é uma das duas fases da respiração pulmonar: os pulmões se expandem aumentando de volume, a pressão interna cai, o ar se desloca do exterior para o interior através das vias respiratórias. Por outro lado, em sentido mais figurado e romântico, a inspiração é a intuição primeira que um artista tem antes de criar uma obra de arte. Ela está ligada à percepção, a estímulos sensoriais, à imaginação e à inteligência. Num sentido teológico, a inspiração segue o mesmo fluxo desse rio quimérico, sendo uma espécie de comunicação divina. Daí retorna-se à ideia de possessão, à presença de um espírito que fala com o corpo ou que nele impera durante a criação. No campo artístico, a inspiração era e ainda é chamada de Musa, sobretudo para escritores românticos que extraíam do mundo e principalmente da natureza a fonte de suas obras; pode vir tanto de fora quanto de dentro do escritor, embora este “de dentro” seja um tanto pernicioso. Pernicioso porque o que vem de dentro é imagem concebida a partir de outra(s) que tenha(m) vindo de fora. A inspiração interior pura não existe, aquela que pinga na mente do escritor sobressaltando-o, porque, esbarrando em teorias psicanalíticas, ela faz parte do subconsciente, o porão sombrio e impalpável da criatividade. Quando deixamos a psicanálise e a psicologia de lado, só podemos cair no conceito de inspiração enquanto sopro divino. E retomando a biologia, podemos pensar que a inspiração é igualmente misteriosa, automática, mas não programável – como a de caráter artístico.

Discutir as próprias inspirações e entender todos os impulsos por trás delas é entregar-se a uma vertigem atemporal. Parte do que me inspira surge com a espontaneidade e eficiência de uma lâmpada sendo acesa: subitamente a frase ou a imagem ilumina o escuro caminho da escrita, revelado enquanto a linguagem é esticada em seus próprios limites. Não é comum, mas muitas vezes fui “possuído” ou “iluminado” por histórias quase completas, com personagens, lugares, vozes, enredo, em questão de segundos, como se estas histórias, antes pequenos brotos coloridos enterrados no negrume do inconsciente, desabrochassem em explosões florais de perfumes e pétalas carnudas. A outra parte do que me inspira é mais evidente no ato em que a inspiração se dá. São músicas, filmes, conversas, fotografias, sabores, os chamados estímulos sensoriais. Capto instintivamente essa comunicação sensorial, logo transformada em esboço que se transformará ou não em literatura. Antes de desejar a inspiração como uma característica específica da personalidade artística, é preciso saber observar. E observar sem medo. Observar até ser engolido pelo objeto observado. É a partir de uma observação arguta, de qualquer coisa, que a inspiração torna-se mais palpável, mais rica, e para tê-la, para exercitá-la, é preciso também interesse.

Alguns meses atrás eu estava sentado num dos bancos de um shopping, folheando um pequeno livro do Coetzee em frente a uma loja de roupas esportivas, quando um funcionário começou a despir um dos manequins. Instantaneamente me perguntei: e se o único corpo que esse cara despiu até hoje foi o de um manequim? Seria um fato interessante, incomum e ligeiramente irônico numa contemporaneidade tão estimulada sexualmente, onde corpos brotam aos montes e objetos são transformados em sujeitos para sua autossatisfação. Eu também, vítima dos estímulos, não só vi ironia e erotismo na cena, mas um pouco de tristeza, de drama, e comecei a inventar uma vida para aquele funcionário. Como a morte, a inspiração tem esse poder de surpreender quando menos se espera. E diferentemente dela, não há luto, a não ser que se considere a ideia como ser vivo, cujo falecimento se dá na conclusão de seu processo criativo.

Inspire-se. E observe – também os funcionários das lojas de roupas esportivas. Minha história sobre aquele funcionário morreu dias depois sem conclusão. Seu espírito vaga por aí, em busca de alguém que queira ser possuído.

Coluna Autor sobre Autor - Alex Sens

O machado é para o lenhador como a máquina de escrever para o…

Autor sobre Autor - Coluna do Alex Sens

A figura do cozinheiro geralmente é representada por um homem de roupas claras pontilhadas por botões escuros e um rosto arredondado encimado por um chapéu branco de mestre-cuca; a do lenhador, por um homem de camisa axadrezada, jeans apertados e membros superiores fortes segurando um machado; a da bailarina, por uma mulher jovem e de corpo esguio, com cabelos severamente presos, sapatilhas de cetim e uma saia de tule gaze. A figura do escritor, assim como a do pintor, é comumente representada por seus materiais de trabalho, e não por sua indumentária ou aparência física. No imaginário romântico, o escritor está sempre sentado defronte a uma mesa onde estalam as palavras de uma máquina de escrever, ou correm com som de lixa as letras líquidas de uma caneta-tinteiro sobre o papel, ou cinzentas de grafite. Com o computador, são as teclas suaves quebrando como conchinhas ao encontro da inquietação dos dedos – Rápido! Rápido! Antes que a ideia tombe do lado de cá e se perca para sempre!

Você pode tirar o cigarro da boca do escritor, pode puxar sua caneca de café fumegante e não devolvê-la, pode até mesmo puxar sua cadeira, virar sua escrivaninha, revirar sua concentração e tirá-lo de sua água-furtada: nada disso afetará sua soturna figura enquanto estiver munido de seus instrumentos de escrita. Tire sua máquina de escrever e o encanto se quebra, visualmente ele não é um escritor. Esse “utensílio” da escrita é o que permite ao escritor trabalhar e ele muda de um para outro por necessidade ou preferência, assim como um pintor prefere um pincel de cerdas longas enquanto outro precisa de um com cerdas curtas.

A maioria dos escritores antigos ou clássicos (porque um não se coaduna necessariamente ao outro) tem em comum a máquina de escrever. Numa época em que o computador era impensável, a máquina foi o objeto mais moderno da escrita. Escrever um livro inteiro manuscrito nunca foi tarefa simples, também não ajuda o fluxo, e quando combinados, agilidade mais fluxo resultam numa caligrafia ilegível, como a de Machado de Assis, que às vezes não compreendia o que havia escrito. Sylvia Plath tinha o conhecido hábito de manter diários, e por isso escrevia muito à mão, embora tenha feito o mesmo com sua Royal, uma máquina de escrever de cor preta onde espancou vários poemas e com a qual foi fotografada algumas vezes. Caso muito parecido é o de Jack Kerouac, pai da “geração beat”. Kerouac escrevia muito à mão, sobretudo quando o impulso da escrita era incontrolável, e por isso qualquer meio era válido. Também possuiu uma máquina, uma Underwood, alta e que lembra uma arquibancada de letras circuladas por anéis prateados. Virginia Woolf escrevia sobretudo com canetas de pena metálica, muitas vezes usando uma tinta arroxeada, e outros tipos de caneta, sempre em folhas avulsas e cadernos largos e altos, sem pauta – acredita-se que alguns deles encapados por ela mesma. Além de ter tido seu próprio “lodge”, um cômodo fora da casa exclusivamente para a escrita, Virginia também chegou a escrever de pé, numa espécie de leitoril, a exemplo da irmã Vanessa, que era pintora. Em Dublin, na Irlanda, está exposta a máquina de escrever do modernista James Joyce, mas também foi outro escritor que não dispensou o trabalho manuscrito, tendo muitas vezes problemas com sua criação pois usava óculos de lentes grossas e chegou a passar por onze cirurgias para tratamento de miopia, glaucoma e catarata. Jane Austen, clássica romancista nascida no século 18, escrevia com caneta de pena numa pequenina e circular mesa de madeira, onde mal cabiam suas folhas e o pote de vidro com nanquim. Para editar sua obras, recortava as palavras com uma tesoura. Um caso curioso, mas não de todo incomum, foi o da dama do crime Agatha Christie. Por ter disgrafia, uma rara doença que a deixava incapacitada de escrever de maneira legível, ditava todos os seus romances para uma secretária.

Cada escritor escreve de um modo, num determinado tempo, com uma determinada postura e determinados instrumentos. Já escrevi em cadernos escolares, em folhas de fichário durante as entediantes aulas de Química, numa Olivetti azeitona, em computadores emprestados e meus próprios computadores. Hoje faço esboços em Moleskines, sempre com a mesma caneta preta, e escrevo as várias versões do que será literatura no computador, porque as teclas me permitem uma agilidade tal que acompanha o fluxo criativo. Gosto do romantismo do papel de qualidade, tenho esse fetiche pela papelaria de luxo com suas canetas grossas de tinta escura como é escuro o enredo ainda não atingido pela luz da criação, mas nunca dispenso qualquer forma de colocar a coisa-texto para existir. Escrever é marcar essa existência e o processo pela qual ela se dá não pede razões – é absolutamente medular.

Autor sobre Autor, Coluna do Alex Sens

O suicídio, a arte e os escritores

O suicídio, a arte e os escritores

Apertado entre o fim da infância e o começo da adolescência nasceu meu fascínio pelo suicídio. Começou quando, escrevendo meu primeiro romance, aos 13 anos, senti que meu protagonista deveria romper a própria vida no átrio de um colégio. O livro foi lido em algumas salas, provocou espanto em alguns, interesse em outros, mais pela trama do que pelas tragédias narradas. Então algum deus da escrita bateu sua baqueta num xilofone e eu soube que seria escritor, que na escrita havia esse lugar remoto e profundo onde eu me encontraria por completo.

Quando se acreditava que a arte era uma espécie de desequilíbrio mental, artistas suicidas e a própria arte foram estigmatizados. Mas nenhuma patologia mental ficou restrita aos artistas, por isso só sabemos que cometeram suicídio porque deixaram, através de suas obras, um legado na sociedade e na história cultural de suas respectivas áreas. Como qualquer ser humano, o artista sofre – talvez este sofrimento seja o responsável por seu fazer artístico.

Meu fascínio pelo suicídio é romântico, tem relação com um outro fascínio pela morte em si, esse mistério escuro que nos engole a vida numa colherada. Foi intensificado e melhor compreendido quando conheci a história de Virginia Woolf. A escritora inglesa de Mrs. Dalloway tornou-se minha preferida não só por seus belíssimos romances, mas por sua vida trincada, seus surtos maníaco-depressivos, a tristeza misturada à alegria em suas cartas. Virginia, que lutou com inquietas vozes por quase 50 anos, cuja persistência não a deixava mais trabalhar, escreveu uma carta de despedida para o marido Leonard Woolf, outra para a irmã Vanessa Bell, e aos 59 anos de idade afogou-se nas ferozes águas do rio Ouse.

Outros famosos escritores decidiram pelo rompimento da própria vida, ou por desespero, ou por cansaço, ou pela simples desistência de tentar. Conhecida por seus poemas e diários, mas também uma incrível escritora de prosa, aos 30 anos, Sylvia Plath colocou a cabeça dentro de um forno ligado e morreu intoxicada por monóxido de carbono, mesma causa da morte de Anne Sexton, escritora estadunidense e ganhadora do prêmio Pulitzer de poesia, que aos 45 anos trancou-se na garagem de sua casa com o carro ligado. Ernest Hemingway, escritor norte-americano, conhecido pelos romances Por Quem os Sinos Dobram e O Velho e o Mar, com o qual ganhou o Pulitzer, acabou com seus muitos problemas de saúde disparando um tiro de espingarda em si mesmo. Um dos mais conhecidos escritores portugueses, Camilo Castelo Branco também decidiu pelo próprio fim. Ao descobrir uma progressiva cegueira causada por sífilis, não suportou a ideia de não poder trabalhar e atirou contra a própria têmpora, morrendo aos 65 anos. Ainda em Portugal, a poeta Florbela Espanca, diagnosticada com edema pulmonar, ingeriu uma alta dose de barbitúricos e morreu aos 36 anos, no dia de seu aniversário. No Brasil, Pedro Nava, autor de Baú de Ossos e mais seis romances memorialistas, seguiu o fim de Castelo Branco e Hemingway, disparando um tiro contra a cabeça aos 80 anos, no Rio de Janeiro.

E quantos cometeram suicídio antes mesmo de derramar suas dores na literatura?

Coluna Autor sobre Autor, de Alex Sens