Alex Sens

A Força Dos Louros

por Alex Sens

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O ano é 2012, uma quinta-feira, a última do mês de novembro. Saio e esqueço o celular em casa. Quando volto, há uma mensagem na caixa postal, sotaque mineiro da Secretaria de Estado da Cultura pedindo para eu retornar. A consciência inunda o meu corpo, se inicia uma breve palpitação, mas eu retorno trêmulo. A notícia de que eu ganhei o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura na categoria “jovem escritor” é a faísca que vai causar o incêndio do meu primeiro livro. O prêmio, uma espécie de bolsa para escrever um livro durante seis meses, me coloca dentro do universo literário quase à força. “Vai, Alex! ser escritor na vida”, me sussurra o coração, empurrando meu corpo diante da escrivaninha, preparado para os próximos meses de muita dedicação e muito trabalho.

A importância dos prêmios literários é inquestionável e imensurável. Quando voltados para o fomento da cultura, para incentivar escritores, colocar óleo nas engrenagens do mercado editorial, da produção artística, e não como fertilizante de egos, os prêmios podem fazer borbulhar diamantes no meio de uma massa escura de carvões opacos. O Frágil Toque dos Mutilados, meu romance de estreia, lançado em 2015 pela Autêntica Editora, foi escrito a partir de um prêmio. Com a publicação, vieram as indicações aos prêmios São Paulo de Literatura e Oceanos, algumas das maiores vitrines da literatura brasileira contemporânea. “Vitrine” é uma palavra perigosa, traz no som o vidro do capitalismo, da exposição, do consumo, do comércio. No entanto, os prêmios não deixam de ser, além de uma forma de reconhecimento do difícil e pouco remunerado trabalho do artista, essa bela galeria do que podemos conhecer da nossa cultura, da nossa imaginação. Sem os prêmios, talvez tivéssemos menos escritores, menos leitores, editoras menores desconhecidas ou até inexistentes.

Sustentado ou não por conluios, formado muitas vezes de polêmicas, escopo da lapidação do ego ou da luta por um espaço já tão ocupado, tão apertado de opiniões, técnicas, histórias e ideias, o universo dos prêmios literários, dos triunfos trazidos pela imaginação ou pela construção de um nome, pode ser a única forma de não apenas valorizar a literatura, mas respeitá-la. Reconhecer seu espaço precioso. Resistir (porque a arte também é movimento de resistência) à força esmagadora da cultura da preguiça, da mídia fácil e mastigada. Dar voz a quem tem na linguagem, nas palavras, a sua forma de sobrevivência. Assim como tornar a vida do escritor mais possível, menos romântica — sem anular seu romantismo. A literatura precisa ser premiada, ela é a natureza das ideias, das possibilidades. Ela é o registro axiomático da dúvida, portanto, do pensamento de um tempo.

Neste ano, a Ateliê Editorial possui três finalistas no mais tradicional prêmio literário brasileiro, o Prêmio Jabuti, nas categorias Poesia e Projeto Gráfico. São eles: a Antologia da Poesia Erótica Brasileira, organizada por Eliane Robert Moraes, Viagem a um Deserto Interior, de Leila Guenther, e Capas de Santa Rosa, um trabalho de Luís Bueno, com projeto da Negrito Produção Editorial e lançado em coedição com as Edições SESC SP. São livros que, como todos os outros finalistas, foram reconhecidos por sua qualidade e têm, através de suas indicações, o papel de estimular ainda mais novos olhares, novos leitores e expandir a qualidade literária atual, seja na criação, a partir de várias ideias, seja num projeto que as organize com mestria.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

Âncora Medicinal: Um registro histórico sobre nutrição

Alex Sens*

Por mais que os meios de comunicação produzam e divulguem formas variadas de nutrição, hábitos alimentares e discutam culturas gastronômicas tão visualmente estimulantes a fim de se repensar a saúde e o bem-estar humano em diversas áreas do cotidiano, é uma tarefa mais difícil e talvez impossível tocar a história da alimentação, entender sua raiz, como ela teve início, onde e como se apoiam as publicações hodiernais e o quanto estas são ou não afetadas por antigas tradições. Existe um número absurdo de publicações impressas sobre como se alimentar bem, tanto a partir de receitas quanto a partir de pesquisas médicas, no entanto, a título de curiosidade e valor históricos, é interessante saber como chegamos até aqui, o que ainda comemos, bebemos e preparamos em comparação com nossos antepassados.

Sem t’tulo-8Publicado pela primeira vez em 1721 e reeditado com glossário e linguagem atualizada por uma equipe de professores universitários quase três séculos depois, o compêndio nutricional Âncora Medicinal — Para Conservar a Vida com Saúde, de Francisco da Fonseca Henriquez, não é apenas o primeiro tratado sobre alimentação em língua portuguesa, nem apenas um registro de historicidade médica, mas também, e sobretudo, uma obra que discute e enfatiza a importância de ter uma boa qualidade de vida e os meios para se obtê-la. O autor, mais conhecido como Dr. Mirandela, foi médico do rei D. João V e cuidadosamente criou essa espécie de manual que mostra em suas 300 páginas que tanto os alimentos quanto os sentimentos, as chamadas “paixões da alma”, afetam diretamente a saúde e o funcionamento do corpo.

Logo no início, o médico apresenta as seis coisas “não naturais” que conservam a saúde: o ar ambiente, o comer e o beber, o sono e a vigília, o movimento e o descanso, os excretos e os retentos, e finalmente as paixões da alma. Conforme explica, antes de longos capítulos em que destrincha cada um desses itens,

“quem respirar bons ares, quem, com moderação e prudência, usar bons alimentos, quem dormir com sossego as horas que bastem, quem fizer exercício como deve, quem trouxer a natureza bem regulada nas suas evacuações e quem não tiver paixões que lhe alterem a harmonia dos humores não pode deixar de ter boa saúde”.

Ao longo de várias seções, Dr. Mirandela cita os pensamentos e os legados de Pitágoras, Aristóteles e Hipócrates, usando a história para enfatizar suas próprias lições. Comenta a importância de comer com moderação, pois, mesmo os melhores alimentos, “tomados com insaciável voracidade”, são sempre danosos, além de discutir a frequência da alimentação e a famosa e antiga questão sobre o quanto comer no almoço e no jantar.

Algumas curiosidades saltam aos olhos durante a leitura das seções sobre alimentos específicos, como no caso dos pães, grãos e carnes, sendo estas “de animais machos melhores que as das fêmeas porque os machos têm maior calor e agilidade”, além da informação no capítulo sobre entranhas de que testículos de animais novos “nutrem muito”. Há um longo capítulo sobre ovos e peixes, outro sobre legumes, em que a chicória aparece como uma “hortaliça verdadeiramente toda medicamento” e a acelga que “purga as umidades da cabeça” quando seu sumo é sorvido pelo nariz. Em raízes, descobrimos que o cozimento da raiz e das sementes do aspargo era indicado para dor de dente. Em seguida, o médico registra uma rápida explicação sobre os diversos tipos de água, como bebê-la e sua temperatura ideal. Antes de concluir a edição com um glossário muito interessante que nos mostra o uso de algumas palavras de caráter médico do século XVIII, o leitor ainda descobre para quê e quando eram e não eram receitadas bebidas alcoólicas como cerveja e vinho, que quando doces, são recebidos pelas entranhas “com desejo”.

Âncora Medicinal é isso: um livro que mostra com clareza e simplicidade que a saúde se sustenta por duas bases muito ensinadas, repetidas e conhecidas até hoje: exercícios físicos e alimentação moderada. Além disso, é um retrato curioso, instigante, verdadeiro e às vezes estranho sobre um tempo distante num mundo distante, no entanto também muito próximos dos nossos.

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

A dissipação da raça humana

O tema da solidão, quando tratado pela ficção científica, resulta em obras como Perdido em Marte, The Leftovers e Dissipatio H. G. — O Fim do Gênero Humano

Alex Sens*

Condição primária do artista, estando sua arte ainda num plano essencialmente virtual ou absolutamente real, a solidão não só é ferramenta para a potencialização do pensar, através da observação e da concentração, como é também o alimento da criatividade. Colocada na esfera da ficção, a solidão torna-se melancólica, mas necessária, portanto um meio que apresenta um fim, sendo este a sua ideia principal, o tema. Só a arte, com seu poder imagético, pode transferir para os nossos sentidos o que na prática é ainda impossível, improvável, impalpável. É isso que faz a ficção, sobretudo a ficção científica, seja na literatura ou no cinema, onde arte e ciência se encontram e se conectam intimamente por uma tênue linha de percepção e risco, por isso mesmo uma linha fascinante. Usando o poder da imaginação, o homem já criou inúmeros cenários apocalípticos e suas consequências, hipóteses filosóficas sobre o esvaziamento do planeta, desaparecimentos misteriosos, o fim da espécie humana e a vida extraterrestre.

Matt Damon, em "Perdido em Marte"

Matt Damon, em “Perdido em Marte”

Desde as primeiras teorias sobre o fim do mundo e sobre uma profunda mudança estrutural no nosso planeta, o cinema, a TV e a literatura vem expressando o estranho e dominante papel da solidão. Surgiram recentemente nesse cenário o filme Perdido em Marte, baseado no livro homônimo de Andy Weir, e que conta a história de um astronauta que precisa sobreviver no planeta vermelho enquanto espera por ajuda, e a série televisiva “The Leftovers”, também baseada num romance de Tom Perrota e que narra o inexplicável desaparecimento de 2% da população mundial, uma metáfora para o “arrebatamento cristão”. Seguindo a mesma linha dessa dissipação humana e o poder da solidão sobre quem fica ou, numa outra visão, quem é abandonado, o italiano Guido Morselli escreveu em 1973 o romance Dissipatio H. G. — O Fim do Gênero Humano (Ateliê Editorial, tradução de Maurício Santana Dias, 168 páginas).

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Como reflexo de seu desejo pela solidão, o autor, torturado por ruídos que atrapalhavam seu processo criativo, projetou e construiu uma pequena casa entre as pradarias de Gavirate, e nela pode dar voz a um personagem que um dia acorda sozinho no mundo. Narrado por este personagem cujo nome permanece oculto assim como a causa principal do romance, o livro não se apoia somente em seu monólogo de caráter filosófico, ontológico, histórico e misterioso, mas também na essência de um mundo solitário e suas assustadoras, mas realistas, possibilidades. Há cachorros, gatos, pássaros, vacas, ratos e toda sorte crescente de animais, mas não pessoas. Conhecemos a cidade de Crisópolis e suas cercanias em — excetuado pela narração precisa e envolvente — absoluto silêncio, com hotéis vazios, carros parados no meio da estrada, camas faltando corpos, uma paisagem inteira onde “permanece ainda aquilo que é orgânico e vivo, mas não humano”. A figura solipsista discorre primeiro sobre uma tentativa de suicídio e o restante vem de sua incansável busca por um conhecido. Em dado momento, quando já sabemos que sua personalidade misantropa de repente sente necessidade de um contato humano, o leitor pode se perder numa possibilidade de sonho, também questionada pelo personagem, este único sobrevivente do que chama de “Evento”. Também temos aqui um narrador não-confiável, cuja amizade com um psiquiatra e passagens por internações beira uma provável esquizofrenia ou uma realidade inventada por ela. Um dos pontos mais brilhantes do livro acontece quando o tempo é medido em semanas pela espessura do bolor num pedaço de queijo, revelando o quanto a inteligência perceptiva pode ser adaptada à falta de um simples calendário.

Tudo, desde a narrativa de Morselli, que cometeu suicídio antes da publicação do livro, passando pela exploração do conceito de solidão e suas respostas emocionais, pelo caos aparentemente organizado de um mundo desabitado, chegando a uma espécie de ascese filosófica que mantém, ou pelo menos tenta manter, a sanidade do personagem, faz de Dissipatio H. G. um breve, rico e apurado tratado da solidão, uma pedra preciosa e cinzenta cravada no temor ou na atração pela condição de se estar só consigo mesmo, com a fatalidade da vida ou com a inevitável condenação ao autoconhecimento.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. PublicouEsdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

 

Ler é cegar o tempo

A leitura é um hábito que pode ser cultivado até mesmo quando se leva a vida corrida das metrópoles

 Alex Sens*

 

Verão na Noruega, o sol brilha tímido nas fímbrias escuras da meia-noite e os turistas exploram sua natureza com aquele desejo fervilhante de aventura. De uma perigosa formação rochosa chamada Trolltunga, despenca uma estudante australiana que só queria fotografar a si mesma. Um casal de alemães adentra a famosa geleira Nigardsbreene é esmagado por um bloco de gelo que se desprende abruptamente, assim como suas vidas. Uma russa se arrisca na beirada íngreme da cachoeira Vøringsfossen e é engolida pela furiosa morte líquida que já desfez tantos outros corpos.

Se a leitura fosse uma distração perigosa, colocada nesses contextos seria mais cômica do que trágica. Morrer lendo talvez soe romântico e é inegável sua possibilidade. Os turistas, corajosos ou desavisados, não estavam lendo, mas poderiam. Trazendo outros acidentes para cá, eis a mulher cair nos trilhos do metrô enquanto caminha com um livro aberto e os olhos salgados de emoção; eis o jovem poeta atravessar a Avenida Paulista e ser levado por um ônibus enquanto lê T. S. Eliot e morde uma maçã verde, que rola pelo asfalto com uma vírgula de sangue onde os dentes cavaram um verso; eis o professor apressado que pisa em falso enquanto lê um ensaio da Sontag e desaparece na escuridão de um bueiro. Trocamos os livros por celulares e a realidade macabra dessas imagens torna-se ainda mais palpável.

Foto de Alex Sens

Foto de Alex Sens

Sem um livro, a concentração do sujeito durante o momento da espera é absolutamente focada na própria espera e na inflexível densidade do tempo. Em agências bancárias, presas em filas tediosas, pessoas cujos olhos se voltam urgentes para o alarme que indica a próxima senha se acham nauseadas pelo ócio.Com tantas pessoas perdidas num vazio característico das filas, sobretudo a dos bancos, a vontade é de dar a elas um pouco de leitura, uma utilização inteligente do tempo. Ler é cegar o tempo, mas comumente estamos diante de um tempo enxertado nos olhos arregalados da pressa ou cansados da modorra. Ler, onde quer que seja, é viver em melhor companhia, mas invariavelmente, dentro ou fora das filas, o que vemos é o tempo fugindo da leitura e sendo reclamado como se fosse estreito, tão estreito como um livrinho de cem páginas possível de ser lido em dez dias durante aqueles minutos que antecedem o sono — ou sua vez numa fila.

Com o mesmo caráter raro de encontrar um âmbar durante um passeio, no Brasil e em tantos outros países em que a leitura também é um problema socialmente desigual, ainda é um instante de encanto ver um leitor distante da sua condição de ponteiro-de-tempo no relógio-fila, apartado da espera, esse lugar inatingível quando a literatura ou qualquer outro tipo de arte é o próprio meio. Estamos acostumados a ver cabeças tombadas sobre aparelhos luminosos, nunca sobre um conjunto de folhas. Concentração, adquirida com mais leitura, é a força necessária para a lógica de uma interpretação coesa. O saber ler nada tem a ver com a decifração de símbolos e fonemas, mas com interpretação, e a competência para ela vem tanto da concentração dedicada quanto da necessidade de se perguntar a leitura, de se deixar encharcar pelo que está sendo lido.

Como toda atividade mental que tem a necessidade de se tornar mais uma atividade possível, portanto acessível a todos, a prática da leitura demora a ser enraizada e tornada não intervalo de tempo, mas consumação dele, comunhão com a inteligência e com a cultura. Utilizar-se da leitura sem moderação, mas com um olhar e um ouvido no mundo ao redor para que ela não se torne assassina da atenção, em trens, metrôs, filas e salas de espera, pode e deve ser a extinção das desculpas e da culpabilidade da falta de tempo. Nós controlamos nosso tempo, nós, e somente nós, o moldamos como argila e damos a ele o formato mais adequado. Por prazer ou acidente, leia sempre, leia mais, leia muito. Só não morra por isso porque há uma lista infinita de obras a serem lidas e elas esperam ser dessacralizadas pelo seu precioso e irrecuperável tempo.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

Exercício de observação

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Escrito aos 21 anos

O domingo está vivo e aguarda. O que aguarda? Não se sabe. O que se sabe é que existe uma espera, uma saudade, e uma saudade que vem de uma despedida, e quem traz à superfície do dia todos estes sentimentos é o vento. O dia está mergulhado em sua própria condição de espera. Se não ventasse, talvez seria dia de velório, o enterro do que ainda não se conhece. Mas é tão vivo, tão cheio de brisa e fresco, como um convite honesto para entrar no carrossel que é esta tarde com pouco mais de duas horas. Um cachorro anda pelo caminho onde a grama foi proibida de crescer. O caminho está tão seco que foi rachado por sua inútil insistência em continuar inteiro. Este cachorro balança ao andar, tropeça, leva a parte traseira do corpo para um lado, a dianteira para o outro, não sabe que lado pretende vencer o equilíbrio de manter-se em pé. Outro larga-se no cimento, afundado e demasiadamente satisfeito do domingo, fecha seus olhos pequenos de redondas escuridões e dobra as patas com suas cores de poeira e gelo procurando a melhor posição. Respira sem vontade, mas rapidamente; correu de um lado para o outro esperando que assim a tarde se alargasse em qualquer aventura não premeditada. Há uma vaca na encosta, perto da estrada, e sua hora é de fome, quando a cabeça balança mais do que as orelhas e tudo o que importa são os pedaços mais verdes, os brilhantes, que rutilam neste sol que não só aquece, mas assopra seu cansaço sobre a secura. Não chove. Já não chove há alguns dias e o ar pesa, cheio de um aroma esfumaçado de chá, anis-estrelado e chocolate cozido. Há também uma paineira que se agita, e não parece tão contente, uma vez que suas folhas estão voltadas todas para o chão, onde sua sombra repousa quase trêmula. Essas folhas, verdes até o talo dos galhos, até o corpo coberto de espinhos cheios de soberba, formam grupos, e seus grupos são seguidos por grupos menores que, como o domingo, aguardam. Um mosquito voa, perdido, faz círculos e imagina estar num lago, do tipo abandonado, onde viscosidade e insegurança parecem comportar a água parada. Um pássaro marrom corre pelos montes onde a grama ainda não cresceu, e de repente uma borboleta foge, estica-se no ar, tem dúvida entre as direções, e por fim desaparece no alto, assustada com a decisão (ou indecisão) do pássaro. O cachorro ainda deitado respira fundo, e seu ronco abre uma brecha de som no silêncio. A água que cai num filete na caixa de cimento é a única canção permitida, intocável, imutável, gorgolejante, cheia de bolhas na alma estreita e passageira. Outra borboleta, negra com cortinas brancas nas asas, tão grande que receia passar pela abertura da grade, deixa-se cair no ar, pensa em pousar na grama filtrada pela paineira e, mudando de ideia, também desaparece. Agora a grama pode dormir, é o que ela pensa, mas com o sol estilhaçado entre tantas silhuetas de folhas, ninguém deseja o sono; o que se deseja (e o que se tem) é esta vontade de vigiar o próximo suspiro do próximo minuto, e o que o vento poderá fazer com ele e com tudo o que ousa interferi-lo. Outra vez as folhas da paineira acenam, e acenam para todos os lados, sem vontade alguma de ir embora. O aceno não é de partida, é da chegada eterna. É aqui que se tem aquela sensação indescritível de que se está verdadeiramente bem, ainda que não completamente bem. Um dos braços da amoreira também acena, ou chama, ou apenas deseja dançar, diferente das outras que só querem o movimento contínuo como prova de existência, prova de fluência, certeza de que a tarde ainda não morreu com a hora escura da noite. O verde é tão verde que chega a ser leitoso, às vezes elétrico, cítrico em todos os seus milhares de tons impossíveis e improváveis. Na sombra, os verdes se recolhem numa prece dolorida e tão quieta que é possível ouvir o peso de sua concentração. E ao mesmo tempo que se recolhem, estes mesmos tons de verde tentam escapar de seu retiro dominical nas frestas de luz por onde o sol avança quando o vento se deixa esparramar. Um pássaro pousa num vaso comprido de gesso, um vaso inútil incrustado na terra, nas sombras (de verdes também concentrados) de meia dúzia de pinheiros. O vaso toma a forma de uma cova onde cabe uma dezena de pássaros como aquele, mas ele nunca pensaria (ele nunca desejaria) em inventar um cemitério tão obsoleto e tão medieval e tão frio para sua espécie. O vaso é mais um sinal de que alguma coisa aguarda por alguma coisa, e ele só parece tão triste, com suas ramificações de outras plantas, manchas de umidade, cantos lascados onde a cor do osso foi rompida, um manto azeitonado que se apresenta sem botões ou capuz, porque este é seu papel de vaso abandonado, que não serviu para segurar uma pequena vida como serviram outros tantos vasos. Ele fica recolhido naquela segura escuridão para dar vida ao que ninguém sonhou. Ele pari o que seu próprio silêncio contemplativo germinou. Dez segundos embaixo do sol, e todo o calor se abre como num abraço sobre o que toca. Um inseto gira tantas vezes no ar, pedindo uma música, mas que seja de vitrola, que o disco gire tanto quanto ele, e que se inspire pelo próprio giro que dá. Que fique tonto, o coitado do inseto que de nada de vitrola entende, apenas a música do próprio voo. E quando o vento vem com pressa, arrastando-se saboroso (e tão jovem), todas as árvores fazem sua dança típica, e não se sabe que tipo de dança, é apenas uma dança, porque ninguém, nem mesmo as toras que servem de bancos, nem mesmo o cachorro ou a borboleta, nem mesmo o inseto que gira, nem mesmo os tons de verde, nem mesmo a corruíra com sua voz que se torce e se dobra em muitas vezes, ninguém quer saber o motivo do domingo para estar tão bem. Tudo o que se deseja saber, já se sabe. E se espera com o cuidado de cerzir roupas para joaninhas no inverno, se espera com o cuidado de cochichar um curto segredo para o vento que passa diante do rosto.

 

As palavras todas - Alex

Alex Sens Fuziy nasceu em 1988 em Florianópolis (SC), vive em Minas Gerais e é escritor. Publicou Esdrúxulas, livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros e críticas em sites de jornalismo cultural. Seu romance de estreia O Frágil Toque dos Mutilados venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012.

EU NÃO QUERO FAZER SENTIDO

EtaplesFrance©Andruska

ALEX SENS FUZIY — 17 de junho de 2014

“Eu não quero fazer sentido, mas ser sentido.” A frase, escrita no final da minha adolescência, deve completar uma década em alguns meses, talvez no próximo ano, já não me lembro. Sei que ela teve um poder modificador, de construção de personalidade e intenção assertiva quando surgiu num susto através de um blog — a ferramenta dos cyber-poetas e escritores de botequim que viram na plataforma virtual a base de seu trabalho no início do século. Era uma verdade: eu não queria que meus textos tivessem sentido, mas que eles pudessem ser a extensão vibrátil do sentido que o leitor poderia ter, conforme sua percepção. Parecia pretensioso para aquela idade, mas a frase ecoou, foi coagulada pelo tempo e tenho por ela um carinho especial, como uma primeira tatuagem, e mais importante do que isso: ela ainda é essa superfície clara e inérvea que não pode ser perturbada.

Dias atrás, um amigo que está morando em Paris disse que se deu conta de que meu sobrenome materno, Sens, é a palavra francesa para “significado”. Eu já sabia disso; alguns anos atrás havia pensado muito sobre o assunto após descobrir que parte do meu nome era traduzível. Curioso, no mínimo. Talvez o francês tenha se dissolvido na pronúncia germânica, porque embora sua raiz esteja na França, foi com a naturalização alemã por parte da minha mãe que o nasal “Sâns” se transformou no sonoro “Zênts”. Com a pronúncia germanizada, o “significado” se perdeu. Quando os franceses falam na televisão, logo cai sobre minha atenção o viço da expectativa: e de vez em quando ouço os sibilantes esses que sobressaem nos “extremos semânticos” da palavra. O próprio significado de “significado” soa como uma brincadeira sem fim, e seus esses franceses podem ser encontrados igualmente infinitos numa lemniscata — se transformarmos a ideia em símbolo.

Chegamos ao “Fuziy”, lado paterno. Z e Y, duas letras quase misantropas da nossa língua, afastadas num canto longínquo onde o sol das palavras incomuns demora a tocar. Esse é um sobrenome japonês, ou um erro de cartório. O correto seria algo como “Fujii”, a vogal duplicada triplicando os pontos e formando com o jota as reticências de uma história oriental não contada, ou um quase-monte. Desconheço qualquer significado para “Fuziy”, mas como disse a chefe de uma amiga: sou filho da Segunda Guerra Mundial. Alemanha e Japão. Nada da Itália para completar as Nações do Eixo, embora meu gosto pelas massas, pelos vinhos toscanos e pela arquitetura renascentista seja tão inerente quanto qualquer mistério sub-reptício da alma. Querendo ou não fazer sentido, guardo no nome o amor por uma ancestralidade cheia de narrativas labirínticas. Vou tentando ser sentido, sentindo o mundo nesses sinos sombrios que repicam nos significados das coisas.

 

As palavras todas - Alex

Alex Sens Fuziy nasceu em 1988 em Florianópolis (SC), vive em Minas Gerais e é escritor. Publicou Esdrúxulas, livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros e críticas em sites de jornalismo cultural. Seu romance de estreia O Frágil Toque dos Mutilados venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012.

A arte do granito

Alex Sens Fuziy

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Há mais de dez anos, as quatro paredes dos dois banheiros da casa foram cobertas de granito. São fragmentos de cores leitosas e escuras, espelhadas, placas pontudas, formas geométricas, cacos que alisam a luz do ambiente e refletem qualquer coisa de arte, de sonho gráfico, de selvageria icástica, de linguagem de um tempo duro, preso em si mesmo. Fascinam-me as pedras, seus reflexos, pigmentos, contornos, seus veios e ilhotas de cores cuja essência também se derrama em ímpeto no talento de um fauvista mais observador.

Composto essencialmente de mica, quartzo e feldspato, o granito é uma obra de arte da natureza. Em cada centímetro da rocha encontramos uma pintura. Portanto, a fascinação exercida pelas cores e pelas formas é a mesma que se rompe diante de um Monet, um Klimt, um Turner, um Ianelli. Se Elvis Presley tinha livros em seus banheiros (e ainda questiono a umidade, a evaporação da água quente dos banhos; os livros ficavam em armários fechados, atrás de portas de vidro?), em casa temos o granito para admirar enquanto o tempo passa e a luz que entra pela janelinha se acende em sol ou se eclipsa em nuvem.

Com um pouco de imaginação, faço de conta que cada granito nas paredes é um teste individual e artístico de Rorschach. Ali em cima vejo um sapato de salto baixo e quadrado; abaixo, uma arraia pálida com olhos de cereja escura; ao lado, um rosto de um olho só, azul e redondo, voyeur dos banhos; em seguida uma caveira cinza, escurecida nas órbitas pelo humor misterioso dos anfibólios; e então um quadro que lembra qualquer coisa sinistra e dolorida de Munch, como um rasgo no âmago, de onde sangra uma ampulheta negra, e depois uma reprodução quase fiel de “O beijo”, de Gustav Klimt, mas sem os amantes. Indo para a porta, há um mapa sem nomes, um lago coberto de confetes, lâminas de prata, caranguejos, uma cachalote em pleno nado de alegria, um leão castanho, um chapéu de névoa sobre um cume, um tubarão-martelo, uma encruzilhada antes de um bosque, uma menina segurando um balão, uma boneca de olhos escuros com uma fenda no nariz.

Como arte é percepção, acolhimento a partir daquilo que também nos acolhe, então o granito pode ser percebido de diferentes formas, lido como runas deixadas por um solo engenhoso, sentido como a poesia cuja estrutura e desenho são alinhados pela granulometria do tempo, da rítmica de abalos, de emoções cristalizadas. No granito encontramos universos paralelos, estáticos, e uma beleza primeva que quando não se pode reproduzir em palavras, deixamos que sedimente no coração.

 

As palavras todas - Alex

Alex Sens Fuziy nasceu em 1988 em Florianópolis (SC), vive em Minas Gerais e é escritor. Publicou Esdrúxulas, livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros e críticas em sites de jornalismo cultural. Seu romance de estreia O Frágil Toque dos Mutilados venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012.

Condução

Branka - baixa

Alex Sens Fuziy

Abro os olhos. Relaxo as falanges e a língua, músculo pulsante onde ainda tremula um mantra colorido, cheio de Ganesha. Um dedo pressiona o par de colcheias no visor do aparelho. Procuro no escuro a letra B: Branka Parlić. Por um momento maior, esse momento que nos traga e nos guia a uma dimensão inesperada, de beleza que é mais surpresa que encanto, caio nas águas do nome dessa pianista sérvia: Branka. Minha percepção de sonho ou de mergulho afunda no vigor da letra K, tão sólida, tão brilhante, tão marmórea e tão branca quanto o nome que a carrega. Logo em seguida, ainda gelado pelo que toquei com o coração da palavra, me deparo com Parlić. O que poderia ser uma faca cravada na letra C, não passa de uma forma latina para o cirílico Ћ, consoante que guarnece o fim de muitos sobrenomes servo-croatas. O grafema tem o som da língua se afastando subitamente dos dentes cerrados: tch. Como se fosse “Párlitch”. Algo estalando no fogo do sobrenome. Fogo e gelo, choque térmico sobre o mármore de Branka, ou Бранка, forma feminina de Branko, que por sua vez é diminutivo de Branislav, que por sua vez é um cognato de Bronisław, que, por fim, deriva dos elementos eslavos “bron”, proteção, e “slav”, glória. Não há nada de branco no nome que me atinge com seu duro K: mas há brancura no talento da pianista: a brancura que nasce do caos do giro das cores iluminadas.

Você sabia que a mistura da reflexão de todas as cores resulta em branco? Se ela não carrega o nome que nos aproxima do adjetivo, pelo menos leva proteção e glória nos dedos que nadam velozes pelas teclas do piano como peixes ansiosos. E enquanto eu vejo aquele nome e busco pela música que já não sei mais qual é, me afogo nessas ideias, vou deixando na superfície das coisas ondulantes tudo o que eu tinha para escrever aqui e acabei não escrevendo. Porque além dos nomes, as palavras todas me possuem e eu também viro palavra, e eu também vou me permitindo ser qualquer coisa: fusão do mantra, do silêncio, das cores que piscam no quarto; transfusão de luz, pensamento e linguagem. De repente eu tenho vontade de me chamar Branka, porque gêneros ultrapassam corpos e caio na desgraça sedutora de não ser mais eu mesmo, mas o próprio nome que me fagulha antes da ansiedade musical. Ou musicada.

O que mesmo eu ia escrever aqui?

A composição, feita pelo gênio Philip Glass, chama-se “Mad Rush”. É ali que meu dedo toca, sobre o título, e o piano se derrama em planícies verdes de som líquido. Volto a fechar os olhos e a música inunda a escuridão. O que vem a seguir é uma sequência de imagens que fogem do meu controle, como se cada nota, cada tom de azul e negro e escarlate e principalmente cinza, cada tom que escorre dessa música contínua fosse o feto axial da minha imaginação — ou desse origem a ele.

Câmera lenta: o som de um coração pulsando dentro de um berilo: uma chuva de maçãs vermelhas: só vejo as maçãs, não sei se estouram no que sei ser gramado mais embaixo ou se simplesmente afundam no verde como se feito de espuma; diástoles e sístoles continuam, muito mais sutis do que a música. Atrás das maçãs há casas pintadas de cinza, telhados vermelhos e nuvens cinzentas, todas responsáveis por aquela chuva. Não vejo quando as frutas deixam as nuvens, só a queda. Uma luz gira: o contraste explode: as casas se enegrecem como fatias de carvão contra um céu brilhante. Não chego a cegar porque a cena vira a folha de um livro.

Branka continua tocando: quando a música ascende a uma pressa urgente, tento abrir os olhos e tudo o que vejo são olhos se abrindo num tremor infinito em asas de mariposas, borboletas e corujas. São olhos feitos de penugem branca, retinas azuis, profundezas que guardam o suco da noite. Elas voam, abrindo a imagem para uma sequência inversa à das maçãs: camas de ferro lascado flutuando em direção ao céu. Centenas delas, brancas e frágeis como esqueletos do sono, mortalhas de sonhos, subindo lentamente, sem a gravidade dos pesadelos, sem a gravidade que continua prendendo o coração ao berilo.

Quando a música cessa, a realidade rompe a janela na forma de uma cigarra: elétrico, corrosivo, acobreado, seu canto perfura o silêncio e alguma coisa sem nome suspira diante da vida. Essa coisa me escapa, mas sei que pode voltar. Basta fechar os olhos, permitir-se, deixar-se conduzir ao lago de éter que…

O que mesmo eu ia escrever aqui? Não importa.

 

As palavras todas - Alex

Alex Sens Fuziy nasceu em 1988 em Florianópolis (SC), vive em Minas Gerais e é escritor. Publicou Esdrúxulas, livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros e críticas em sites de jornalismo cultural. Seu romance de estreia O Frágil Toque dos Mutilados venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012.

O maior privilégio de todos

ErichAlex Sens

Meu avô materno Erich tinha os olhos mais claros e azuis de Wissembourg. A pele do rosto, lisa como um veludo frio e esticado sobre ossos proeminentes e fortes, descia pelas bochechas esteticamente côncavas, uma planície onde minhas pequenas mãos de cinco anos de idade pousavam. Quando jovem, o queixo quadrado, as maçãs do rosto e o maxilar simetricamente desenhado para a fotografia de uma época em que eu ainda não tinha nascido, eram a moldura de um sorriso que vinha muitas vezes tímido — não no sentido de vergonha, mas de segredo, de palavra misteriosa querendo escorregar dos lábios para tombar no silêncio da minha infância.

Embora o tempo jogue sobre a memória uma chuva que embaça a nitidez das coisas nostálgicas, como uma pintura d’água sobre um vidro azul e amarelo, o verde resultante dessa mistura é o que lembro: seu sorriso, sua boina, suas calças largas, o bigode brilhante como lascas de gelo prateado, o olhar atento aos meus movimentos muito próximos à paleta cheia de cores.

Vô Erich pintava. Mas enquanto descansava para admirar o azul-cobalto na sombra de uma falésia inacabada, a paleta se equilibrava em um banquinho de madeira, muito baixo e muito estreito, sobre o qual mal cabia o seu cansaço ou a sua idade. É claro que a imagem permanece turva, chuvosa e limitada, mas ainda recordo das minhas mãos esticadas à frente do corpo, o ar com a textura de algodão molhado, de um gramado escuro como espinafre (seria noite ou seriam os amoreiras e os limoeiros sombreando o nosso quintal?), do andar escorregadio, da lentidão dos meus passos, dos meus dedos roliços e ansiosos muito próximos à massa pastosa da tinta branca, que, apertada num formato engraçado (eu sempre ria daquelas espirais coloridas, sobretudo das marrons, cor de couro, que remetiam imediatamente aos cocôs de cachorro dos desenhos animados), eu queria pegar, lambuzar a madeira, criar ali em sua paleta a minha tela definitiva — nem que para isso eu fizesse da abertura do dedão a minha lua sem cor, o buraco no céu pelo qual escapariam os desejos que eu sempre fazia antes de dormir, de olhos apertados e coração vibrante.

Assim, é preciso acrescentar que, além dessas características visuais, do sonho imagético em que ficou presa a figura plácida do vô Erich, alguns fatos são distintivamente indeléveis: adorava pimenta-do-reino; detestava soja em qualquer formato porque a Segunda Guerra havia maculado seu paladar (bem como lhe arrancara parte da falangeta do dedo médio da mão direita); fizera um anel com uma colher de prata, estendendo a herança do pai que havia feito o mesmo com a argola de uma granada durante a Primeira Guerra; gostava de tocar bateria e tudo que envolvesse instrumentos de percussão; tinha o dom mais fácil de um ser humano: o sorriso; mesmo quieto, mesmo silencioso, estava lá, sonhando com algo maior e mais concreto, embora isso permanecesse unicamente desenhado na mente, como um esboço de algo impossível e inalcançável; ansiava por morar na África do Sul, e penso como seriam suas telas caso tivesse vivido por lá até ver esmaecer a última estrela cadente dos seus olhos; tinha uma ideia romântica do Brasil, de suas palmeiras e praias, o que em parte ainda se mantinha extraordinariamente verdadeiro na década de 50, quando desembarcou com minha avó e minha mãe no inverno carioca, depois de semanas viajando num navio sobre as águas auspiciosas do Atlântico.

Antes de morrer, ele me deu um carrinho de madeira com esferas maciças se fazendo de rodas, um brinquedo bastante artesanal, porém bem-feito, que as crianças da escola Waldorf adoravam. Ainda lembro da minha hesitação divertida ao deslizar o carrinho sobre seu corpo enquanto ele lia na rede branca da varanda ou fingia dormir no sofá da sala.

Eu nunca conheci meu avô, levado pela cirrose hepática onze anos antes do meu nascimento. No entanto, a imaginação é poderosa e, de acordo com o escritor norueguês Tomas Espedal, ainda inédito no Brasil, “trabalhar com a linguagem é o maior privilégio de todos”. Escrever é poder moldar e colorir o tempo, mergulhar em suas fissuras mesmo que sejam todas líquidas, voláteis, inconstantes e surreais. “Você tem de saber escrever sobre qualquer coisa, senão não é um escritor”, palavras de Espedal. Esse “qualquer coisa” inclui a realidade transformada em ficção, a realidade que o escritor quer, mesmo que inventada, mesmo que temporária; uma realidade vibracional e criacional, sutil e sensível.

Excetuando os trechos em que descrevi contato com meu avô, o resto é verdade, colhido aqui e ali em conversas com minha mãe, cheias de uma saudade palpável e eterna. Entretanto, você pode olhar pelo prisma ficcional caso isso torne a leitura mais interessante. Como não concordar com Espedal que este é o maior privilégio de todos, quando você pode viver, através da palavra, fazendo uso do instrumento-linguagem, com alguém que nunca conheceu? Quando a morte pegar pela mão aqueles que amamos, nos resta o amor pela invenção, a cristalização da saudade e a linguagem como criadora de um universo possível e particular.

As palavras todas - Alex

Alex Sens Fuziy nasceu em 1988 em Florianópolis (SC), vive em Minas Gerais e é escritor. Publicou Esdrúxulas, livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros e críticas em sites de jornalismo cultural. Seu romance de estreia O Frágil Toque dos Mutilados venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012.

Uma coluna bustrofedônica

Palavras

Alex Sens

Peço que se aproxime: não da tela; quero seus olhos brilhantes e curiosos, não manchados pela luz enfraquecida do cansaço. Peço que se aproxime da vontade de ler; que se aproxime da textura pegajosa que tem todo texto ao qual você se entrega e entrega o seu precioso e bruto tempo, sobretudo o tempo visual. Pedra preciosa é o seu tempo — cuidado com as pontas que lembram dentes de gelo colorido.

Eu poderia começar esse texto me apresentando: meu nome é Alex Sens Fuziy, nasci em 1988, um par de infinitos indicando o ano porque um único infinito não me basta. Eu sempre quero mais, embora a indecisão faça parte desse mais, prolongando-o como se prolonga uma bala ainda quente, cintilante e perfumada. Eis que meu nome é aquele, sou escritor e ganhei um importante prêmio literário em 2012. A síntese é fria, eu sei, mas o que menos quero é o eco da arrogância. Cito o prêmio não porque ele me enviou anjos que me elevaram a níveis artísticos antes inalcançáveis, mas porque ele me tirou do ócio criativo no ano passado, ou se preferir, ele me arrancou [sem qualquer cerimônia] de uma procrastinação aparentemente inerente que só quem escreve e necessita da palavra como alimento, música e vento pode entender.

Bem, eu não queria começar o texto daquela forma, mas comecei. A apresentação se deu sem muita necessidade, mas se você não me leu aqui anteriormente, há alguns anos, quando a escrita ainda se equilibrava na filigrana do tempo com medo de afundar num vão qualquer, agora você me conhece. Pelo menos um pouquinho, ou o que chamam de “básico”. Essa introdução não deve me apresentar, mas deve apresentar essa coluna despretensiosa que hoje se inaugura e deseja, bem como seu criador, fugir de qualquer categoria, de qualquer etiqueta, que quer apenas ser isso que é.

Assim, posso começar registrando um fato: logo no início do ano destruí um dicionário. Destruí um dicionário porque ele era muito silencioso? Impossível. Eu amo o silêncio dos calhamaços cheios de palavras. Era dicionário com milhares de verbetes, papel fininho da espessura de uma saudade já gasta, mas não foi nada pessoal. Porque a ortografia foi alterada, o bloco com mais de três mil páginas deixou a coluna se vergar num canto. Algum cupim feroz ou com fome linguística abriu um poço na capa dura e nele mergulhou em milhões de letrinhas impressas com cuidado e extensão laboriosa de vó. Inveja do cupim, que pode viver numa casa onde cabe um mundo.

Talvez destruir seja palavra com potência equivocada, que lembre combate, humores beligerantes, mãos fortes e olhares de ódio. Nada disso. Meu tipo de destruição constituiu apenas na retirada de algumas folhas, me valendo de um estilete amarelo. A cirurgia foi delicada e precisa; o medo de ferir aquele corpo retangular maior do que a velocidade com que as letrinhas caíam das folhas como uma chuva negra no silêncio do chão. Há tempos que eu queria cobrir as paredes de palavras, um papel que me abraçasse, que me chamasse a atenção para as suas vastas possibilidades. Então livre de culpa, puxei o dicionário, tirei as folhas em cujas linhas estavam aquelas palavras que fazem arder o coração, pincelei cola branca e cobri as paredes do quarto. Duas paredes. Em seguida vieram prateleiras e colmeias de madeira, os livros e a companhia de outros tantos milhões de palavras. Não só a companhia das palavras me inspira e me traz uma deliciosa, macia e íntima sensação de conforto, como puxar com as narinas o espírito de uma gorda taça de moscatel espanhol num dia frio, mas também a companhia dos livros. Eu preciso dos livros para escrever melhor, ler melhor e ser melhor — isso resume bastante o que significa para mim “se sentir em casa”.

Em Oslo existe um restaurante de comida mediterrânea, com bar e café, em cujas janelas, prateleiras e mesas baixas de madeira histórica se espalham livros de ficção em inglês e norueguês. Nenhum cliente, entre uma mordida num falafel apimentado, um gole de cerveja irlandesa e um mergulho de um pedaço de pão pita no hummus polvilhado de canela e cominho, escapa da visão dessas obras, que dividem o espaço com cartões postais coloridos, cartazes de mensagens positivas de Gandhi, avisos de shows, luminárias de tecido vermelho, caixas de papelão de jogos antigos, sofás verde abacate e uma lousa com os preços e a criativa senha do wi-fi (couscous). Embora o estímulo visual seja autêntico e intenso, os livros estão lá, como peça decorativa, como um amigo que te espera, como parte da atmosfera acolhedora do ambiente. Quase uma pequena biblioteca onde você também pode mastigar enquanto lê em silêncio ou joga uma partida de Quiz tentado a abrir um daqueles exemplares de Margaret Atwood ou Paul Auster, porque simplesmente as palavras apetecem mais.

Eu gostaria de viver num mundo em que os livros brotam de todos os lugares e são lidos e reconhecidos simplesmente como livros, não como objetos assustadores de um grupo elitizado ou peças de arte intocáveis e misteriosas. Livros por todo o mundo e para todo mundo.

Voltando à coluna, eu não quero verdadeiramente explicá-la. Eu espero que ela nunca precise de uma explicação definitiva. Será uma coluna livre onde você encontrará pequenos contos, ensaios, resenhas, pedaços de ficção misturados à realidade das crônicas, tudo muito despretensioso, porque escrever precisa ser exercício de libertação e de caminho aberto com a escavadeira da palavra corajosa. No excelente Letras e Memória — Uma Breve História da Escrita, Adovaldo Fernandes Sampaio fala, entre muitos sistemas de escrita, da escrita bustrofedônica, um sistema primitivo “em que as linhas se alternam em direções opostas, ou seja: uma linha vai da esquerda para a direita, e a seguinte da direita para a esquerda, como os sulcos do arado no campo, com ou sem inversão das palavras” — bustrofédon vem do grego βουστροφηδόν, algo como “boi voltando”, exatamente o que um boi atrelado a um arado faz ao chegar ao fim de um campo, dando meia-volta e refazendo o percurso no sentido contrário.

Esse é o coração da minha coluna: as sentenças e significados indo para todos os lados, fazendo seu próprio caminho, formando espelhos dos meus registros literários, refletindo o pensamento, a linguagem e até mesmo o silêncio das palavras todas.

As palavras todas - Alex

Alex Sens Fuziy nasceu em 1988 em Florianópolis (SC), vive em Minas Gerais e é escritor. Publicou Esdrúxulas, livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros e críticas em sites de jornalismo cultural. Seu romance de estreia O Frágil Toque dos Mutilados venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012.