Renata Albuquerque

Para António Apolinário Lourenço, “Mensagem é um livro com capacidade para captar e agradar a qualquer tipo de leitor”

Pesquisador, responsável pela nova edição lançada pela Ateliê Editorial, acredita que o leitor menos experimentado só precisa de uma leitura orientada para “descobrir” o clássico português

 

Por Renata de Albuquerque

Mensagem é a única obra literária em português lançada por Fernando Pessoa em vida. São 44 poemas sobre os grandes personagens históricos portugueses, as grandes navegações e as glórias passadas e vindouras do país. Apesar de ser muito conhecido e um dos livros mais lidos – e por isso fazer parte da Coleção Clássicos Ateliê – Mensagem é uma obra cheia de complexidades. Por isso, para elaborar esta edição, a Ateliê Editorial convidou o pesquisador português António Apolinário Lourenço para realizar o trabalho de edição da obra.  Ele, que é professor da Universidade de Coimbra e prestigiado estudioso da obra de Fernando Pessoa, escreve um ensaio de apresentação da obra e notas que auxiliam professores e alunos a compreender os sentidos mais profundos do livro. A seguir, ele fala sobre a obra para o Blog da Ateliê:

 

 

 

apolinárioMensagem é uma obra complexa. Em sua opinião, como jovens leitores podem fruir dela, superando eventuais dificuldades? O livro de alguma maneira auxilia o professor a ser o mediador/facilitador dessa leitura?

António Apolinário Lourenço: Mensagem é um livro com capacidade para captar e agradar a qualquer tipo de leitor, mas exige uma leitura orientada e esclarecida para aceder aos níveis de entendimento mais profundos ou mais obscuros. É necessário compreender, desde logo, o caráter simbólico do sebastianismo pessoano, designadamente a forma como o poeta, chegando a colocar-se a si próprio no lugar do rei Desejado, patrocina a regeneração da cultura e da literatura que se exprimem em português. Estamos certos que esta edição coloca ao alcance dos professores a informação necessária para que estes se constituam como mediadores e facilitadores da leitura de Mensagem junto do público juvenil.

Por que a leitura de Mensagem é importante no contexto escolar do Brasil, neste início de século XXI? Como a presente edição procura auxiliar e aproximar o estudante deste texto que data da primeira metade do século XX? De que instrumentos esta edição lança mão para realizar esta aproximação?

AAL: Mensagem é um poema profético no qual se desenha e se sustenta uma utopia nacionalista: o Quinto Império, um império cultural português, já divinamente prenunciado na fundação do país e nas grandes Descobertas marítimas e prestes a concretizar-se no presente. Um império cultural português, um império de poetas e gramáticos, como também escreveu o autor, é evidentemente um império da língua portuguesa, que Pessoa dizia ser a língua com maior capacidade imperial. O mito sebastianista que alimenta ideologicamente Mensagem, e que nela se cruza com a simbólica templária e rosacruciana, está também enraizado na cultura brasileira. Através da introdução e das notas, proporciona-se ao leitor, e particularmente ao público escolar, a chave interpretativa de cada um dos poemas.

Por que a intertextualidade entre Camões e Pessoa (Os Lusíadas e Mensagem) é considerada polêmica, como afirma a introdução desta edição?

AAL:O problema não reside na afirmação da existência de uma relação intertextual, que é óbvia, entre Os Lusíadas e a Mensagem, mas em apresentar a epopeia camoniana como única fonte de inspiração do livro de Pessoa ou, pior ainda, em considerar Mensagem como uma versão atualizada de Os Lusíadas. O que pretendo provar é que, apesar de Camões ser considerado por Fernando Pessoa como um marco a superar, não era visto pelo autor de Mensagem como um modelo a seguir, e o seu diálogo com Os Lusíadas é suplantado por outros diálogos poéticos com obras mais próximas cronologicamente da sua, como é o caso de Pátria, de Guerra Junqueiro (obra que Pessoa afirmou ter ultrapassado a epopeia de Camões) e principalmente de D. Sebastião, de Luís de Magalhães, um contemporâneo de Eça de Queirós cuja obra mais conhecida é O Brasileiro Soares.

 

capa mensagem

De que maneira as ilustrações ajudam o leitor, no caso desta edição?

AAL: Esta edição de Mensagem tem dois tipos de ilustrações. Por um lado, há reproduções de gravuras, de capas de livros ou de retratos de personagens históricas, com um caráter essencialmente informativo; por outro lado, há um conjunto de ilustrações inéditas, propositadamente produzidas para esta edição por Kaio Romero, que constituem em si mesmas uma leitura e uma interpretação do livro de Fernando Pessoa. Num registo estético muito próximo da linguagem dos quadrinhos, estas ilustrações não desrespeitam a semântica de Mensagem, mas acrescentam-lhe uma nota humorística que enriquece a sua recepção.

 

Em sua opinião, o que pode chamar a atenção e gerar interesse do jovem brasileiro, em uma obra que é um “épico” tão distante da realidade atual, tanto do ponto de vista cronológico quanto geográfico – e, porque não dizer – linguístico?

AAL: Mensagem sempre foi um livro apreciado no Brasil e, surpreendentemente, tem sido inclusivamente menos questionado politicamente aqui do que em Portugal, onde por vezes é ideologicamente associado à ditadura de Salazar, que começava a desenhar-se na época em que se publicou o livro de Pessoa. Mas o que se expõe em Mensagem é uma utopia (a construção de um Império cultural de matriz portuguesa, a que facilmente o Brasil se associa) e não a glorificação do regime ou do país real habitado pelo poeta. E as utopias não envelhecem facilmente. Também o simbolismo religioso esotérico de que Mensagem está impregnada mantém plena atualidade e está dentro da linha de muitas obras literárias que ocupam hoje os tops mundiais de vendas. Por outro lado, Mensagem tem igualmente uma dimensão lúdica, poucas vezes mencionada, que também procurei revelar nas notas que acompanham os poemas. Finalmente, não creio que se possa falar de um problema linguístico. O Brasil tem uma forte tradição da edição comentada dos clássicos do idioma (infelizmente Portugal é, nesse aspecto, bem mais paroquial). Não entendo as obras dos grandes escritores como modelos do uso da língua, mas como paradigmas do seu bom uso artístico. É por isso que Machado de Assis, Eça de Queirós, Luandino Vieira ou Guimarães Rosa, do mesmo modo que Fernando Pessoa, são reconhecidamente património comum da língua portuguesa.

 

Qual a mensagem de Mensagem para os dias de hoje?

AAL: O desafio enfrentado por Fernando Pessoa é um desafio que tem plena atualidade. A regeneração nacional que, sob a máscara do Sebastiano, se perfila em Mensagem, é uma regeneração cultural que continua sendo necessária. Recusa-se neste livro tanto a acomodação como a mediocridade (“Triste de quem é feliz”, escreveu o poeta). Noutros textos, que deixou inéditos, Pessoa registou que a tripla vinda do Encoberto (outro dos símbolos com que designa a regeneração cultural pretendida) ocorreria em 1640 (ano em Portugal recuperou a sua independência face a Espanha), 1888 (o ano em que nasceu o próprio Fernando Pessoa) e 2198. Talvez devamos, brasileiros, portuguesas, africanos, asiáticos e timorenses que nos expressamos em português, trabalhar para a glória do idioma tendo em vista esse horizonte temporal. Não é seguro que D. Sebastião regresse nessa ou em qualquer outra data da ilha encantada em que a sua alma se refugiou depois da desastrosa derrota de Alcácer-Quibir. Mas, como também escreveu Pessoa, no combate pelo Quinto Império não vai ser derramada qualquer “gota de sangue” e, “se falharmos, sempre conseguimos alguma coisa — aperfeiçoar a língua. Na pior hipótese, sempre ficamos escrevendo melhor”.

 

 

“Antologia da Poesia Erótica Brasileira” – Poemas Selecionados

capa antologia da poesia erotica brasileira

 

Eliane Robert Moraes, organizadora da Antologia da Poesia Erótica Brasileira – lançada na FLIP 2015 – conta, em entrevista, que a obra, ilustrada com desenhos de Arthur Luiz Piza, reúne desde textos anônimos até poemas de escritores consagrados, como Mário de Andrade, Olavo Bilac e Adélia Prado. A seguir, ela fez duas seleções, especialmente para os leitores do Blog da Ateliê terem uma pequena amostra do que o livro reserva a eles (e nós selecionamos alguns desenhos também).

 

 

Seleção 1: “Um pouco mais comportada, mas sem perder o tom ‘picante'”, diz a organizadora

ilustra piza 106

“Por decoro”

Artur Azevedo (1855–1908)

Quando me esperas, palpitando amores,

e os lábios grossos e úmidos me estendes,

e do teu corpo cálido desprendes

desconhecido olor de estranhas flores;

 

quando, toda suspiros e fervores,

nesta prisão de músculos te prendes,

e aos meus beijos de sátiro te rendes,

furtando as rosas as purpúreas cores;

 

os olhos teus, inexpressivamente,

entrefechados, languidos, tranquilos,

olham meu doce amor, de tal maneira,

 

que, se olhassem assim, publicamente,

deveria, perdoa-me, cobri-los

uma discreta folha de parreira.

 

 

“Seios”

Cruz e Souza (1861-1898)

 

Magnólias tropicais, frutos cheirosos

das arvores do Mal fascinadoras,

das negras mancenilhas tentadoras,

dos vagos narcotismos venenosos.

Oasis brancos e miraculosos

das frementes volúpias pecadoras

nas paragens fatais, aterradoras

do Tédio, nos desertos tenebrosos…

Seios de aroma embriagador e langue,

da aurora de ouro do esplendor do sangue,

a alma de sensações tantalizando.

O seios virginais, talamos vivos,

onde do amor nos êxtases lascivos

velhos faunos febris dormem sonhando…

 

 

“Soneto”

Mário de Andrade (1893-1945)

Aceitaras o amor como eu o encaro?…

…Azul bem leve, um nimbo, suavemente

Guarda-te a imagem, como um anteparo

Contra estes moveis de banal presente.

Tudo o que ha de melhor e de mais raro

Vive em teu corpo nu de adolescente,

A perna assim jogada e o braço, o claro

Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo

Também mais nada, só te olhar, enquanto

A realidade e simples, e isto apenas.

Que grandeza… A evasão total do pelo

Que nasce das imperfeições. O encanto

Que nasce das adorações serenas.

ilustra piza 52

“Noturnos VIII”

Gilka Machado (1893-1980)

E noite. Paira no ar uma etérea magia;

nem uma asa transpõe o espaço ermo e calado;

e, no tear da amplidão, a Lua, do alto, fia

véus luminosos para o universal noivado.

 

Suponho ser a treva uma alcova sombria,

onde tudo repousa unido, acasalado.

A Lua tece, borda e para a terra envia,

finos, fluidos filos, que a envolvem lado a lado.

 

Uma brisa sutil, úmida, fria, lassa,

erra de vez em quando. E uma noite de bodas

esta noite… há por tudo um sensual arrepio.

 

Sinto pelos no vento… e a Volúpia que passa,

Flexuosa, a se rocar por sobre as casas todas,

como uma gata errando em seu eterno cio.

“Epitalâmio”

José Paulo Paes (1926-1998)

uva

pensa da

concha oclusa

entre coxas abruptas

teu

vinho sabe

a tinta espessa

de polvos noturnos

(falo

da noite

primeva nas águas

do amor da morte)

“Divisamos assim o adolescente”

Mário Faustino  (1930-1962)

Divisamos assim o adolescente,

A rir, desnudo, em praias impolutas.

Amado por um fauno sem presente

E sem passado, eternas prostitutas

Velavam por seu sono. Assim, pendente

O rosto sobre o ombro, pelas grutas

Do tempo o contemplamos, refulgente

Segredo de uma concha sem volutas.

Infância e madureza o cortejavam,

Velhice vigilante o protegia.

E loucos e ladrões acalentavam

Seu sono suave, até que um deus fendia

O céu, buscando arrebatá-lo, enquanto

Durasse ainda aquele breve encanto.

 

 

“Lembranças de Maio”

Adélia Prado (1935-)

 

Meu coração bate desamparado

onde minhas pernas se juntam.

É tão bom existir!

Seivas, vergonteas, virgens,

tépidos músculos

que sob as roupas rebelam-se.

No topo do altar ornado

com flores de papel e cetim

aspiro, vertigem de altura e gozo,

a poeira nas rosas, o afrodisíaco

incensado ar de velas.

A santa sobre os abismos –

a voz do padre abrasada

eu nada objeto,

lírica e poderosa.

 

Seleção 2: Que a organizadora intitula “Safadezas sortidas”

ilustra piza 73

 “A pica ressuscita mulher morta”

Francisco Moniz Barreto (1804-1868)

A pica o instrumento é que no mundo

Mais milagres tem feito e mais proezas2;

A pica o melhor traste e das belezas,

Mal que começa a lhes coçar o sundo.

 

A pica é o cão, que avança furibundo

A plebeias, fidalgas, e princesas;

A pica em chamas Troia pôs acesas,

E a Dido fez descer do Urco ao fundo.

 

É a pica – carnal, possante espada,

Que o mundo, perfurante, emenda, entorta,

E tudo vence, como bem lhe agrada.

 

A pica, ora e calmante, ora conforta;

Sendo em dose alopática aplicada,

A pica ressuscita a mulher morta.

 

[Não passou por essa rua]

Laurindo Rabelo (1826-1864)

Não passo por esta rua,

Que não veja esta perua,

Na porta com dois e três;

Que fodas não dá no mês

Aquele cono tão quente!

E chega a ser tão potente

A maldita da cachorra,

Que no cu sempre tem porra,

Na porta sempre tem gente!

 

“Ela”

Olavo Bilac (1865-1918)

Maria tem vinte amantes!

Uns tortos, outros direitos;

Todos eles são galantes,

Todos vivem satisfeitos…”

Mulher de recursos fartos!

Como é que esta impenitente,

Tendo no corpo dois quartos,

Dá pousada a tanta gente?

ilustra piza 97

“Os quatro Elementos – A terra”

Vinicius de Moraes (1913- 1980)

Um dia, estando nós em verdes prados

Eu e a Amada, a vagar, gozando a brisa

Ei-la que me detém nos meus agrados

E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa

 

Com face cauta e olhos dissimulados

E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza

Como se os beijos meus fossem mal dados

E a minha mão não fosse mais precisa.

 

Irritado, me afasto; mas a Amada

A minha zanga, meiga, me entretém

Com essa astúcia que o sexo lhe deu.

 

Mas eu que não sou bobo, digo nada…

Ah, e assim… (só penso) Muito bem:

Antes que a terra a coma, como eu.

 

“Brincadeira”

Francisco Alvim (1938-)

Debaixo da mesa –

de porquinho –

um fuçando o outro

“Poesia Pura”

Rubens Rodrigues Torres Filho (1942-)

No álbum dos nossos momentos felizes

nunca me esquecerei daquela vez

que você gozou tão gostoso, junto comigo,

lá no sofá do apartamento da Mourato

que peidou. Soltou um peido alto,

de prazer? De gratidão? E foi lindo

que aí você me olhou e sorriu encabulada.

Então peido não é amor?

Se vem do cu é menos expressão?

Mais sonoro e sincero poema

de amor, juro: estou para ouvir.

“O valor de um texto nunca se mede por sua moralidade, mas por sua qualidade estética”, afirma organizadora da Antologia da Poesia Erótica Brasileira, lançada na FLIP

Em entrevista exclusiva, Eliane Robert Moraes conta que a ideia da obra surgiu com a leitura de um texto de Mário de Andrade, homenageado da Festa deste ano

Por Renata de Albuquerque

Eliane R Moraes 1

Eliane, que organizou, na antologia, séculos de poesia erótica

Quando teve a ideia de fazer uma Antologia da Poesia Erótica Brasileira? Como foi esse processo?

Eliane Robert Moraes: A ideia primeira me surgiu ao ler um esboço de prefácio a Macunaíma, escrito em 1926, no qual Mário de Andrade observava que, no Brasil, as literaturas populares eram frequentemente pornográficas, apesar da ausência de um erotismo literário sistematizado no país. Para justificar seu argumento, o autor evocava as produções eróticas de outros povos, como os gregoscapa antologia da poesia erotica brasileira, os franceses ou os indianos, que souberam organizar suas expressões escritas em torno do sexo. Mas essa tradição realmente não existia entre nós e o que me surpreendeu mais ainda é que, passados mais de oitenta anos dessa afirmação do escritor, a erótica literária brasileira continuava desconhecida, aguardando uma compilação.

Como se pode imaginar, as ponderações de Mário de Andrade estão na origem desta Antologia da Poesia Erótica Brasileira, que vem a lume quase um século depois de suas palavras para dar testemunho não só da existência de uma lírica erótica do país, mas também de sua extraordinária riqueza. A quantidade e a qualidade da produção poética nela apresentada – sendo apenas parte de uma extensa pesquisa que levantou por volta de trezentos poetas e mais de mil poemas – não deixa dúvidas sobre a convicção de que, para se formar tal corpus, talvez só estivesse faltando um empenho de organização.

Já havia outra obra similar no mercado editorial?

ERM: Não. Houve no passado uma ou outra tentativa de reunir textos eróticos, mas sem o respaldo de uma pesquisa rigorosa que cobrisse a história da literatura brasileira como um todo. O trabalho ora publicado se diferencia, portanto, das meras seleções feitas ao gosto de um organizador, por oferecer um conjunto da nossa lírica erótica, reunindo uma centena de nomes que vão de Gregório de Matos (século XVII) até poetas contemporâneos, alguns dos quais ainda vivos. Inclui autores canônicos, como Castro Alves, Olavo Bilac, Cruz e Souza, Drummond ou Hilda Hilst – por vezes publicados originalmente sob pseudônimos –, e outros menos conhecidos, como Francisco Moniz Barreto, Múcio Teixeira ou Moysés Seyson, incorporando ainda alguns anônimos que praticaram o gênero nesses quatro séculos da nossa poesia

Você conseguiu reunir poesias de diversas épocas e autores (até mesmo apócrifas). Qual foi o fio condutor que a levou a organizar a antologia como ela é?

ERM: Para constituir uma “pornografia organizada” do país, buscando levar em conta tanto as formas literárias populares quanto as eruditas, optei por um critério de seleção que privilegiasse os “poemas sexuais explícitos”, tal como proposto pelo poeta José Paulo Paes, que também participa desta Antologia. Ao escrever sobre o assunto, que o interessava muito, ele esclarece que “o grau dessa explicitação pode variar do fescenino ao alusivo, mas nunca a ponto de este fazer perder de vista o que o outro nomeia sem mais aquela”. Assim, os poemas selecionados se alternam entre a sensualidade meramente alusiva e a obscenidade mais provocante que, reunidos, dão testemunho um excesso que é, antes de tudo, o da imaginação.

ilustra piza 5 Ao lado e abaixo, desenhos de Arthur Luiz Piza que ilustram o volume

 

Como foi o processo de pesquisa: quais as fontes pesquisadas, como você levantou esse material?

ERM: Iniciei a pesquisa por volta de 2005, e desde então andei vasculhando inúmeras bibliotecas públicas e importantes coleções privadas, dentro e fora do Brasil. Foi uma verdadeira aventura, já que muitas vezes eu buscava poemas produzidos na clandestinidade e até mesmo proibidos em sua época.

De forma geral, o livro segue o modelo de uma série de antologias do gênero  publicadas na Europa, sobretudo a partir de meados do século XX. Tomem-se como exemplos, para ficarmos nos domínios mais próximos de nós, a notável Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada pela poeta portuguesa Natália Correia em 1966, com diversas reedições desde então, ou a Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (séculos XVIII e XIX) compilada por Fernando Ribeiro de Mello em 1975, ou ainda a Antología de la poesia erótica española e hispanoamericana editada por Pedro Povencio em 2003.

 

O tema do erotismo ainda é pouco tratado dentro do universo dos estudos literários (vide a “novidade” com que se configura o erotismo na obra de Mário de Andrade, por exemplo). Em sua opinião, por que isso acontece?

ERM: Gosto de lembrar a escritora e ensaísta americana Susan Sontag, que caracteriza a “imaginação pornográfica” como uma forma extrema de consciência que transcende as esferas sociais e psicológicas a que estamos acostumados. A ficção erótica, diz ela, tende a desorientar o leitor, deslocá-lo mental e fisicamente. Por essa razão, os textos obscenos seriam portadores de certo princípio de conversão do leitor, semelhante ao que encontramos nas literaturas de cunho eminentemente religioso. Segundo a autora, a leitura desses livros pode proporcionar “uma aventura por regiões longínquas da consciência”. Não é pouco, convenhamos…

Eu diria ainda mais: trata-se de uma forma de conhecimento que abre ao pensamento a possibilidade contínua de alargar a escala humana para além da vida em sociedade. O repertório de temas que o erotismo aciona – bestialização, violência, perda de si no outro, etc. –, seja de forma trágica ou cômica, aponta para essa constante problematização da noção de ser humano e de humanidade. Dai certa sensação de perigo que a associação entre sexo e pensamento pode por vezes provocar…

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O “valor literário” da poesia erótica é “menor”?

ERM: O sexo vem sendo tema literário desde sempre. Está no Satyricon de Petrônio, no Cântico dos Cânticos da Bíblia, na Priapeia grega e em tantos outros escritos da Antiguidade e de outros períodos históricos. Trata-se de um dos temas essenciais da humanidade, assim como acontece com o amor, a guerra, a religião…

O que determina a qualidade do erotismo literário é o critério estético, sempre. Os textos eróticos, quando são de boa qualidade, têm uma capacidade ímpar de mexer com a vida da gente, de nos fazer refletir, de nos transtornar, de expressar coisas que vivenciamos e que fantasiamos, mas normalmente não conseguimos colocar em palavras. Ou seja, são textos que vasculham nossos subterrâneos. Nada a ver com o erotismo comercial… Em certo sentido, se quisermos, a literatura é como a gastronomia – alguns livros são meros exemplos de fast-food; outros oferecem um banquete para a sensibilidade e o pensamento. Hoje, mais do que nunca, é preciso avaliar a qualidade, pois há muitos textos que só fazem banalizar o erotismo e não acrescentam nada à nossa experiência humana.

 

Como podemos definir o gênero literário erótico? Quais as diferenças entre pornografia e erotismo?

ERM: Essa distinção é muito complexa e, geralmente, baseia-se num critério moral. Para o senso comum, o pornográfico é o que “mostra tudo”, enquanto o erótico é “o velado”. Contudo, para o estudioso do erotismo literário, essa distinção é falsa, senão moralista… A rigor, livros como os do marquês de Sade, de Georges Bataille, de Glauco Mattoso, de Hilda Hilst ou de Reinaldo Moraes, são muito mais obscenos do que a pornografia comercial de uma Bruna Surfistinha ou de uma E. L. James. A diferença entre eles não está no grau de obscenidade, mas na composição formal: o valor de um texto nunca se mede por sua moralidade, mas por sua qualidade estética.

Os escritos do italiano Pietro Aretino, reconhecidamente o mais importante escritor erótico do Renascimento, são um bom exemplo de clássicos licenciosos que buscavam, segundo palavras do próprio autor, “mostrar a coisa em si”. Assim também, alguns poemas desta Antologia da Poesia Erótica Brasileira são extremamente obscenos mas, ao mesmo tempo, literatura de primeira linha.

 

A literatura está quase sempre permeada pelo erótico, mesmo nas obras que não têm esse tema como foco. Mas o que, precisamente, define um livro como erótico?

ERM: Quando se fala em texto erótico, está se falando de uma literatura que mobiliza um tema específico – o sexo, a sensualidade, o desejo carnal – e constrói seu pensamento a partir disso. Não se trata de um gênero literário, mas sim de um campo da literatura que se manifesta em diversos gêneros. Existem romances eróticos, sonetos eróticos, epopeias eróticas e assim por diante.

Por isso mesmo, gosto de dizer que o erotismo literário é, antes de tudo, um modo de pensar. Um modo de pensar por escrito, é claro, implicando uma operação específica de linguagem que, como vimos, trabalha no sentido de deslocar seus objetos para um lugar simbólico que se identifica, invariavelmente, com o baixo-corporal. Trata-se de uma escrita que se singulariza por fazer de Eros seu operador fundamental, elegendo-o como mediador exclusivo de seus jogos entre forma e fundo. Por isso mesmo, antes de ser um modo de pensar o sexo, o erotismo literário é um modo de pensar a partir do sexo.

A criação desse lugar imaginário, organizado segundo os imperativos da libido, implica algo mais do que a mera representação da sexualidade. Ao submeter a referência sexual a uma estilização, o escritor fica livre para transformar o sexo num observatório a partir do qual se pode contemplar qualquer prisma do universo, incluindo o que está aquém ou além do próprio sexo. Daí que o autor explicitamente obsceno possa ser considerado, como propõe Italo Calvino, “aquele que mediante os símbolos do sexo procura fazer falar alguma outra coisa”, sendo que “essa coisa pode ser redefinida, em última instância, como outro eros, um eros último, fundamental, mítico, inalcançável”.

 

Leia aqui alguns poemas selecionados pela autora

 

*Eliane Robert Moraes é professora de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP), e pesquisadora do CNPq. Foi professora visitante nas universidades da Califórnia de Los Angeles (UCLA, USA), de Nanterre (Paris 10 – FR), de Perpignan Via Domitia (FR) e da Nova de Lisboa (PT).

Entre suas publicações destacam-se diversos ensaios sobre o imaginário erótico nas artes e na literatura, e a tradução da História do Olho de Georges Bataille (Cosac & Naify, 2003). É autora, dentre outros, dos livros: Sade – A Felicidade Libertina (Imago, 1994), O Corpo Impossível (Iluminuras/Fapesp, 2002), Lições de Sade – Ensaios sobre a Imaginação Libertina (Iluminuras, 2006) e Perversos, Amantes e Outros Trágicos (Iluminuras, 2013). Organizou a primeira Antologia da Poesia Erótica Brasileira (Ateliê, 2015) e atualmente, desenvolve pesquisa sobre as linhas de força do erotismo literário no Brasil.

Contos que Sangram

Renato Tardivo*

angu de sangue bxAngu de Sangue, coletânea de contos de Marcelino Freire, foi publicado pela primeira vez em 2000. No entanto, as dezessete narrativas do livro, que acaba de ser reimpresso, são extremamente atuais.

Não é exagero afirmar, por exemplo, que sua ambiência ficcional antecipa boa parte do (bem-sucedido) cinema pernambucano dos últimos anos, ao abordar, por meio de uma prosa ágil, a violência urbana e seus ruídos, a sexualidade explícita (mas não gratuita), o resgate dos afetos.

Mas é a convergência entre conto, teatro e poesia a maior virtude do livro. Não são poucas as frases que soam como versos exaustivamente lapidados, não obstante não percam o frescor e a oralidade de quem diz o que sente, e, ainda, componham narrativas que capturam o leitor e o derrotam, como queria Cortázar, por nocaute.

Os contos breves de Angu de Sangue são retratos da miséria humana. Sem concessões, Marcelino Freire extrai da abjeção, beleza; do “lixão”, “paraíso”; de “Socorrinho”, a menina abusada sexualmente, o “desmaio de anjo”. No conto “A Cidade Ácida”, por sua vez, morte e poesia aproximam-se vertiginosamente; também com poesia, em “J. C. J.”, adolescente infrator e vítima, no fim das contas, revelam-se dois lados de uma mesma moeda.

Ainda que as narrativas equilibrem-se quanto à (alta) qualidade, a mais brilhante delas é justamente a que dá título ao livro: “Angu de Sangue” é um conto inventivo que trabalha muito bem a dimensão espaço-temporal e os paralelismos entre amor e violência, ruptura e ligação, “como se fosse novidade o fim de um relacionamento, o começo de um outro ainda mais violento”. A (aparente) circularidade do conto aponta, na verdade, para a passagem do tempo em espiral, em que sempre se pode sangrar mais um pouco. Afinal, “a gente não se toca quando o coração está parando”.

A vida tem mesmo dessas incoerências: de súbito, vai morrendo aos poucos, e, quando vamos ver, “mataram o salva-vidas”. Com efeito, os planos fechados das narrativas de Angu de Sangue são emblema de um Brasil diverso e arcaico que historicamente (ainda) se alimenta do próprio sangue. Até quando?

Conheça outros títulos de Marcelino Freire

 

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir Que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Muito além da filosofia

Organizador de Rousseau e as Artes fala sobre a obra, em que pesquisadores mostram a importância do pensador suíço em diversas áreas do conhecimento

Por Renata de Albuquerque

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) atuou em diversos campos do conhecimento. O escritor lançou suas ideias no campo da teoria política, foi compositor musical autodidata, mas sua faceta mais conhecida é a de filósofo.

Em 2012, ano em que se completariam trezentos anos de seu nascimento, foi organizado o colóquio Rousseau e as Artes; uma iniciativa do Consulado Geral da Suíça em São Paulo e da Universidade de Campinas.

Com o objetivo de encontrar os interlocutores contemporâneos de Rousseau, o Colóquio extrapolou os muros do meio acadêmico e foi levado também à Pinacoteca do Estado de São Paulo, um ambiente que apenas reforçou o conceito que o projeto já explicitava no nome: trazer ao público informações sobre como a obra do pensador suíço tem influência também sobre as artes.

capa rousseau baixaA importância e a repercussão da iniciativa foi tamanha que agora a Ateliê coloca nas prateleiras o livro Rousseau e as Artes, organizado por Célia Gambini e Paulo Mugayar Kühl. O livro registra as reflexões dos pesquisadores presentes no evento, que procurou complementar os estudos sobre Jean-Jacques Rousseau, realizados no campo estritamente filosófico, e estendê-los ao campo das artes. “É possível emprestarmos algumas categorias do pensamento de Rousseau e verificar o quanto elas nos ajudam a pensar alguns aspectos da produção artística contemporânea”, considera Kühl. A seguir, ele fala sobre o assunto:

“As artes, desde a antiguidade, sempre atraíram a atenção de filósofos e vários eram os temas da discussão: a função delas na sociedade, questões mais específicas do que hoje chamaríamos de criação artística, as diversas preceptivas que tentavam de um modo ou outro regular a criação e também a recepção das obras etc. No século XVIII, vários são os pontos de mudança: um progressivo abandono da noção de mímese como o elemento central das artes, uma ênfase maior em questões como o gosto, o gênio, o nascimento da Estética como disciplina etc. Rousseau, assim como nos outros assuntos a que se dedicou, traz uma série de questionamentos palpitantes para o debate sobre as artes. De um lado, seu enorme interesse na música e o confronto com algumas ‘facções’ já estabelecidas – daí sua preferência pela música italiana, seu desprezo pela música francesa e a condenação que daí deriva. Mas também uma visão crítica sobre o teatro, sobre as artes do desenho, sempre com o intuito de rever posições estabelecidas, exercer a crítica e, quando possível, propor novos caminhos. O que pretendemos mostrar neste colóquio é que suas posições com relação às artes são equiparáveis ao Rousseau ‘pensador político’ ou ao Rousseau ‘educador’. Na verdade, segundo Marie-Pauline Martin, o pensamento do autor suíço sobre música é estruturador de toda sua posterior reflexão sobre questões da política.

Desde o século XVIII, muitas foram as transformações nas artes e no pensamento sobre elas. Não se trata de estabelecer um paralelo imediato entre as ideias de Rousseau e a produção artística na atualidade, mas sim, de encontrar ecos tardios, ressonâncias constantes, permanências escondidas. Os textos que compõem o livro mostram como tanto os detratores quanto os apreciadores de Rousseau o colocaram num lugar central, o que, de modo, nos chega até hoje. Assim, é possível emprestarmos algumas categorias do pensamento de Rousseau e verificar o quanto elas nos ajudam a pensar alguns aspectos da produção artística contemporânea. Nesse sentido, o texto de Peter Schneemann, que faz parte do livro, é muito esclarecedor ao tratar do tema da ‘inocência’. Mas também podemos tomar vários outros conceitos, sobretudo o de ‘natural’ e ‘natureza’ para olharmos uma produção artística que está tanto nos museus e galerias, mas também nos teatros, salas de concerto e na produção de música. No mesmo ano de comemorações do tricentenário do nascimento de Rousseau, foram realizados vários curta-metragens, com diversos diretores que realizaram seus filmes inspirados por ideias de Rousseau (http://lafautearousseau.com/). Ali vemos o quanto as questões levantadas pelos filósofos ainda são palpitantes e podem frutificar das mais variadas maneiras”.

Permanente Mutação

Por: Renato Tardivo*

        Muito já se falou sobre a relação entre literatura e memória. Ora, a literatura é um dos registros por meio do qual deixamos o nosso legado às futuras gerações, e, reciprocamente, todo escritor se vale da memória para a criação de sua ambiência ficcional.



borda2  Literatura e Memória Política – Angola. Brasil. Moçambique. Portugal, coletânea organizada por Benjamin Abdala Junior e Rejane Vecchia Rocha e Silva, reúne ensaios sobre livros de autores da língua portuguesa, atentando justamente para a presença de aspectos históricos e políticos articulados à dimensão propriamente estética das obras.

Em “Da Certeza das Vidas Novas à História Real de um Amor Impossível”, Laura Cavalcanti Padilha apresenta um cuidadoso estudo sobre as obras dos angolanos Luandino Vieira e Pepetela, sustentando a tese de que ambos executam uma escrita para a liberdade, seja no período anterior à independência de Angola, seja nos dias de hoje, quando se ressignifica todo o derramamento de sangue e se ponderam as conquistas e limites trazidos pela revolução.

Na parte dedicada a escritores brasileiros, vale destacar o minucioso ensaio de Benjamin Abdala Junior – “Linguagem e Vida Social nos Romances de Graciliano Ramos”. Escreve o autor: “Formam-se, então, nos campos de atividades humanas dos romances de Graciliano Ramos, articulações hegemônicas que envolvem os objetos, uma rede opressiva que reproduz as articulações dominantes, que procura subordinar a si as demais, que vêm da experiência sociocultural” (p. 93). E conclui que as personagens nos romances de Graciliano são sujeitos históricos, e a forma com que o autor trabalha a linguagem convida o leitor a entrar na história e refleti-la de dentro.

Em “Escrita, História e Política em José Saramago”, Pedro Brum Santos discute a interface entre o literário e o social na obra do escritor português a partir do romance História do Cerco de Lisboa, livro em que ficção e história se encontram perfeitamente: “A ficção, de tal modo, busca responder ao desafio de compreender o passado não como um tempo acabado, mas como algo vivo em permanente mutação” (p. 283).

        A afirmação acima sobre o livro de Saramago pode se estender às demais obras analisadas na coletânea (são 15 ensaios no total). Do ponto de vista da psicanálise, memória envolve sempre, em maior ou menor grau, algo de traumático, uma vez que está associada a vivências que nos marcaram. Dessa perspectiva, passamos a vida ressignificando as experiências traumáticas, de modo a criar diferentes possibilidades de encaminhá-las. Esta é, em linhas muito gerais, a noção de temporalidade freudiana do après-coup, segundo a qual o vivido é ressignificado “depois do trauma”. Assim, a literatura não teria apenas a função de registrar a memória política de um período, senão de reeditá-la, mantê-la viva, “em permanente mutação”.

Conheça outras obras de Benjamin Abdala Jr. 

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir Que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê Editorial).

Da academia à ficção

Trajetória de O mistério do Leão Rampante assemelha-se à da Ateliê Editorial, editora que se lançou no mercado com a publicação deste título: se no caso do livro um projeto acadêmico originou uma ficção, a editora publica, hoje, tanto estudos quanto literatura

Por Rodrigo Lacerda*

Leão-Rampante---20-Anos

 Eu escrevi O mistério do leão rampante por acaso. Era 1994, eu tinha 24-25 anos e estava me formando na faculdade de História na USP. Milagrosamente, havia surgido uma professora disposta a me orientar no mestrado, Janice Theodoro, uma das intelectuais mais inquietas do departamento. Ela iniciava então um curso de pós sobre as fronteiras entre literatura e história, ou sobre “meta-história”, como era moda falar, e me convidou a acompanhá-lo como ouvinte. O trabalho final do curso pedia que transformássemos nosso projeto de tese num livro de ficção.

Sentei na frente do computador com duas coisas em mente: o texto deveria soar abarrocado, irônico e sonoro como o dos meus escritores preferidos – João Ubaldo Ribeiro e Eça de Queirós –, e ter a estrutura simples e o humor leve do libreto da ópera Don Giovanni, de Mozart/Lorenzo da Ponte. Escrevi tudo em quinze dias, consultando documentos de feitiçaria do século XVIII, manuais de heráldica e textos sobre Shakespeare.

O que saiu foi uma novela histórica meio bufa, passada na Inglaterra Elisabetana, na qual a concepção de indivíduo em Shakespeare (o pretensioso tema da minha tese) é o assunto de fundo. Orgulhoso do resultado, e surpreso, mostrei para a orientadora, que adorou. Em seguida mostrei aos amigos, também com boa resposta.

Nessa mesma época, eu havia conseguido um emprego na editora da USP. O diretor editorial Plínio Martins Filho – um dos responsáveis por fazer da Edusp uma editora de verdade, com equipe e catálogo próprios, e não um mero BNDES editorial para os empresários do ramo – já estava por lá. Eu o conhecera rapidamente dois ou três anos antes, logo que chegara a São Paulo, quando intermediei uma co-edição Nova Fronteira-Edusp.

Um belo dia, passei a ele uma cópia de O mistério do Leão Rampante. Sinceramente não lembro se, além da sua opinião, havia implícito ou explícito no meu gesto um pedido de ajuda para a publicação. É muito provável que houvesse, seria até natural. Mas eu jamais poderia prever a sorte que eu tive.

O Plínio me disse que sempre havia tido vontade de abrir a própria editora, mas nunca aparecera um livro que o animasse a botar mãos à obra. Agora, ao ler o Leão Rampante, sentira o clic:

“Você aceita ser o primeiro livro da minha editora?”

Assim nasceu a Ateliê Editorial.

Ele colocou uma única condição: o livro precisaria do prefácio de algum escritor da minha preferência ou de um professor da universidade. Fã incondicional do João Ubaldo Ribeiro, sugeri ao Plínio que tentasse com ele. O Plínio, acatando a sugestão, mandou um Sedex para a Academia Brasileira de Letras, com uma carta e uma cópia do livro. Não houve resposta. Então apelei ao meu pai, amigo e àquela altura ainda editor do João Ubaldo, perguntando se teria a cara de pau de pedir um textinho de apresentação diretamente. Ele teve.

Semanas depois, eu estava na Edusp, trabalhando pela manhã, quando minha irmã telefonou. Com a voz excitada e emocionada, e meu pai ao seu lado, ela disse que passaria por fax (ainda não se usava internet para esse tipo de coisa) o texto que haviam acabado de receber do nosso ídolo familiar. E me lembro de ver o timbre da ABL saindo da máquina, seguido pelo texto curto, mas com adjetivos poderosos, que fez meu ego inflar mais instantaneamente que um air bag.

Não tenho muitas lembranças da produção do livro. O projeto gráfico é do Plínio com seu sócio na época, um colega nosso de Edusp. Lembro vagamente de rever as provas, e nitidamente de escrever as orelhas. O lançamento aqui em São Paulo foi marcado para o dia 31 de maio de 1995. Talvez essa falta de memória para detalhes da produção deva-se ao fato de que minha filha, Clara, nasceria logo depois, em julho, e eu vivia essa expectativa muito intensamente. Ter um filho, escrever um livro…

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Frente e verso do convite do lançamento em São Paulo

 

 

 

 

O lançamento paulista foi na livraria do Pedro Correia do Lago, na rua João Cachoeira, 267, Itaim. No Rio, o lançamento foi no Shopping da Gávea, na livraria Timbre, do histórico Aluísio Leite e sua ótima sócia Kiki. O livro ganhou boas resenhas em quase todos os jornais. O escritor João Antônio, que viraria tema do meu doutorado, e minha mestra shakespeariana Bárbara Heliodora, o editor-escritor-jornalista-professor Paulo Roberto Pires, o jornalista-romancista Sergio Rodrigues, e a jornalista-professora-produtora cultural Cristiane Costa foram alguns dos que escreveram falando bem dele.

Um elogio maravilhoso foi o do jornalista Jorge Vasconcellos. Ele, nessa época, juntamente com o amigo Claudiney Ferreira, tinha um programa sobre literatura no rádio chamado Certas Palavras. Chegando para mim, o Jorge perguntou: “Foi você mesmo que escreveu esse livro?”

Achando curiosa a pergunta, respondi:

“Foi, por quê?”

“Poxa, é que eu não dava nada por você…”

Não é toda hora que a gente reverte uma opinião dessas!

 

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O Certas Palavras daria ao livro o primeiro prêmio de Melhor Romance. Em final de 1995, comecinho de 96, precisei voltar a morar no Rio de Janeiro. Por isso, enquanto as votações do prêmio Jabuti corriam, eu e o Plínio estávamos torcendo longe um do outro. Lembro que, em alguma conversa com ele, eu argumentei que achava impossível ganhar, pois concorria com vários nomes já consagrados:

“Seria como o Madureira chegar na final da Copa do Mundo.”

 

Um dia, no meu trabalho, chegou a lista dos premiados e a letra do Plínio bem grande na página:

“O Madureira chegou!”

*Autor de O Mistério do Leão Rampante

Esplendor do Barroco Luso-brasileiro

Benedito Lima de Toledo*

barroco

Em rítmico compasso, as incursões do autor por vasto patrimônio de colégios jesuíticos, conventos franciscanos e mosteiros beneditinos, em todo o Brasil, propiciam contributos novos para o melhor abalizamento dos primórdios da arquitetura luso-brasileira.

Objetiva o presente livro, produto de circunstanciado trabalho de pesquisa, oferecer ao leitor a oportunidade de ingressar e usufruir da riqueza desse universo, suas emoções e sua capacidade de surpreender e despertar inquietações.

São 429 imagens.  Há plantas e reproduções de esquemas e documentos, sendo que a maior parte do material distribuído ao longo de 365 páginas de Esplendor do Barroco Luso-brasileiro é constituída por documentação fotográfica devida a seu autor, o arquiteto Benedito Lima de Toledo.

Nascido com o Maneirismo, no fim do Renascimento, o Barroco conheceu manifestações em vários países da Europa, ganhando destaque em Portugal, notadamente em sua expressão rococó.

Uma obra que trata do Barroco obviamente não poderia deixar de dar o devido destaque a Antônio Francisco Lisboa – o Aleijadinho -, e sua diversificada produção na elaboração de riscos, na escultura em pedra sabão e na talha dos altares.  Deveria ter, pelo convívio com seu pai, sólidas noções da arte de construir.

Engenheiros militares engajados nas missões demarcatórias foram responsáveis por um apreciável acervo de obras.

Por mais de três séculos o Barroco traduziu as aspirações e as contradições da sociedade brasileira, ávida de encontrar seus próprios caminhos.  É a arte que dá expressão aos anseios da nação em sua longa busca de autoafirmação.

*Arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e Professor Titular da História da Arquitetura na mesma instituição.Bolseiro da Fundação CalousteGulbenkian para estudo da arquitetura popular em Portugal. Membro da Academia Paulista de Letras (Cadeira 39).

Conheça outras obras do autor

Mais segurança para comprar livros da Ateliê Editorial

Você que acompanha a Ateliê aqui no Blog, no site, no Facebook ou no Twitter já deve ter notado que algumas mudanças estão acontecendo.

Uma delas diz respeito à forma de fazer suas comprar no nosso site. Para tornar o processo de compra o mais seguro possível, quando você compra em nosso site, o sistema acessa diretamente o site da operadora do cartão, para que os seus dados não sejam expostos.

Acontece que alguns dos sites das operadoras pedem um “código de segurança extra” para realizar a operação. Isso é completamente normal. Trata-se de um sistema de segurança anti-fraude chamado Autenticação Adicional – 3D Secure. Ele é utilizado pelas operadoras de cartões junto a alguns bancos:  Verified by Visa e MasterCard SecureCode. Se esse código de segurança extra for solicitado pelo site, basta fazer a confirmação e finalizar sua compra normalmente.

 

Para entender melhor como o sistema funciona, assista a esse vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=nq5pOL9j1A4

 

Agora, pode ir às compras no nosso site, que está ainda mais seguro para garantir que você continue lendo bons livros com comodidade e tranquilidade!