Renata Albuquerque

“A Batalha dos Livros não acabou”, diz Lincoln Secco

Em A Batalha dos Livros, Lincoln Secco, professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo, analisa a formação da esquerda no Brasil. Segundo Marisa Midori Deaecto, a obra “constitui um capítulo dessa guerra universal contra o analfabetismo e o obscurantismo que engessam as civilizações, mantêm as desigualdades e protegem as injustiças”. A seguir, ele fala sobre o volume recém-lançado:

 

 

O título do livro remete a um embate ideológico já na formação da esquerda no país. Isso ocorre de fato? Como se dá esse embate?

Lincoln Secco: Eu tento mostrar em primeiro lugar que o Brasil não esteve defasado em relação às correntes europeias de pensamento, apesar do analfabetismo e da precária infraestrutura  intelectual (ausência de editoras, universidades, escolas, partidos). Aqui, a díade direita versus esquerda se estabeleceu cedo e podemos acompanhar isso pela batalha de ideias que se deu através dos impressos (jornais, livros, cartazes, revistas etc).

 

A Batalha dos Livros. A Formação da Esquerda no Brasil é um título que dá a dimensão da importância do conhecimento formal para a chamada “esquerda”. Como se deu essa formação política e ideológica no país, se tomarmos o livro como ponto de partida?

LS: A esquerda cometeu muitos erros políticos e de formação doutrinária. Mas ainda assim, sempre esteve comprometida com a formação de seus membros e do seu público. Podemos criticar este ou aquele conteúdo, mas não o esforço hercúleo de escrever, traduzir, ler em voz alta, formar grupos de estudos, dar aulas, alfabetizar e editar sob a mais dura repressão governamental.

Quais são os principais marcos dessa história de formação?

LS: É inegável que o Partido Comunista foi a principal organização de difusão de ideias da esquerda até 1964. Os anos 1950, especialmente, serviram para que o PCB montasse uma rede invejável de editoras, gráficas semi clandestinas e jornais de circulação diária em várias capitais brasileiras.

 

Entre o fim dos anos 60 e início da década de 1980, parece ter sido um momento agregador para a esquerda, que já estava unida, de certa forma, contra a ditadura. Os livros também tiveram papel aglutinador? Todos liam os mesmos livros “clássicos” ou cada grupo tinha “seus livros de cabeceira”, do ponto de vista intelectual?

LS: Os grupos tinham e têm suas preferências. Dificilmente um comunista estaria interessado na biografia de Trotsky escrita por Isaac Deutscher, já que se tratava de um autor adversário de Stalin. Da mesma forma os livros sobre a guerra civil espanhola em sua maioria interessaram aos trotskistas e anarquistas. Nos anos 1980 há, no entanto, uma pluralidade maior de publicações e linhas editoriais. Isso teve muito a ver com a emergência do PT. Como eu mostrei em outra obra (A História do PT), este partido apresentava quase uma forma federativa, pois surgiu de baixo para cima, a partir dos núcleos de base. E isso lhe deu uma diversidade regional e política muito maior do que qualquer outra agremiação política da história do Brasil.

 

Em sua opinião, esse momento aglutinador ainda existe? De que maneira há uma “batalha de livros” que impacta nesse contexto?

LS: O momento é outro. De derrota e dispersão. Houve o golpe parlamentar que derrubou o PT, mas levou a um governo que atacou todas as conquistas trabalhistas e contribui para fragilizar a base social não só petista, mas da esquerda em geral. Mas, ao mesmo tempo, os anos do PT no governo suscitaram novas sínteses críticas no pensamento brasileiro. A isso eu atribuo o debate sobre o lulismo, o interesse por uma releitura crítica da história do PT, os estudos da dinâmica de uma classe trabalhadora fragmentada, o papel político das classes médias etc. Há também artigos seminais escritos por jovens sobre junho de 2013 e ainda temos o reaparecimento de um cinema nacional em diálogo com a nova realidade do país. E os livros permanecem em meio à internet e às novas bases de informação. E continuam sendo perseguidos também. A Batalha dos Livros não acabou.

“Existe um estilo brasileiro de desenhar capas, inconfundível aos olhos do observador atento”

A Capa do Livro Brasileiro  percorre 130 anos de História

Por Renata de Albuquerque

O bibliófilo Ubiratan Machado demorou quatro anos para compilar 1700 capas coloridas na obra A Capa do Livro Brasileiro, um amplo e profundo estudo sobre o assunto. O volume, coeditado por Ateliê Editorial e SESI-SP editora, percorre 130 anos de História, analisando também aspectos técnicos dessa produção. Para o autor, que usou como fonte de pesquisa a própria biblioteca e bibliotecas de amigos, as capas brasileiras têm um estilo próprio. A seguir, Machado fala sobre a obra:

Como se deu a escolha do período (1820 -1950)? Qual a razão desse recorte? Porque não iniciar antes ou encerrar em tempos mais recentes?

Ubiratan Machado: Quando iniciei as pesquisas, a idéia era contar a história da capa do livro brasileiro até os nossos dias. Mas, o material acumulado se tornou tão grande, que resolvi me deter no início da década de 1950. E por que 1820? Simples. Até então, os livros saiam das tipografias tendo como primeiro elemento visual a folha de rosto. Os  livreiros ou os clientes tratavam de encaderná-los. Naquela década, alguém teve a idéia de lançar a capa de brochura, com papel mais encorpado e resistente do que o miolo, reproduzindo a folha de rosto. A intenção era de proteger o miolo do livro. Com o tempo, a capa foi se enriquecendo e se distinguindo da folha de rosto, ganhando requintes gráficos e tornando-se um elemento de atração do leitor. A história começa aí.

As primeiras capas reproduziam as folhas de rosto dos livros

Quanto tempo demorou desde a pesquisa até o lançamento do livro?

UM: A idéia do livro era antiga, mas eu não me animava a começá-lo. Em certa ocasião, conversando com o Plinio Martins Filho, então editor da Edusp, ele me disse que, se eu fizesse o livro, ele o editaria. Entre essa conversa e a conclusão da obra se passaram cerca de quatro anos, com muitas surpresas, muito motivo de alegria e, por vezes, de saturação.

Que aspectos (gráficos, de diagramação, cores etc) você privilegiou ao abordar o assunto?

UM: As capas foram selecionadas segundo critérios estéticos, sobretudo nos capítulos dedicados a cada artista, mas também por sua importância na evolução histórica, em seu impacto no momento de publicação, representatividade de um momento das correntes estéticas (expressionismo, modernismo, art déco, art nouveau etc.),  pensamento brasileiro  expresso pelo artista etc. Assim, se encontram lado a lado, em convivência harmoniosa capas artísticas e kitch, para frisarmos os extremos. Mas, sendo bom lembrar que algumas dessas capas kitsch são deliciosas, em sua ingenuidade ou até mesmo em sua incompetência. Elas também representam um aspecto importante da história.

O capítulo 12 assinala a revolução das cores nas capas de livros brasileiros. Qual o impacto dessa “revolução”?

UM: A introdução da cor na capa do livro brasileiro foi gradual, iniciando-se ainda no século XIX. O importante foi a revolução ocorrida ao redor de 1917, com a intensificação das cores – cores fortes, chamativas, bem ao gosto do brasileiro,  – aliada à representação pictórica. É o momento de Monteiro Lobato,  um dos principais renovadores da capa do livro brasileiro, mas não o primeiro, como se crê. Ele  se aproveitou, com muito discernimento e competência, do momento. O bonde já vinha embalado, ele o tomou em movimento.

Capa de Guilherme de Almeida para Paulicéia Desvairada: “manual de tintureiro”

Além da “revolução da cor”, o que mais pode ser considerado “marco” na história das capas de livros brasileiras?

UM: Como toda história essa é uma sequência de realizações, em consonância com o momento social e artístico, e a luta permanente entre conservadorismo e renovação. Cada fase tem os seus marcos, seja por representar um momento de tensão ou de revelação, mas sobretudo pela qualidade artística. Selecionar as melhores capas de cada fase não é tarefa fácil, mas algumas, pelas circunstâncias, se tornaram paradigmáticas. Como a capa de Guilherme de Almeida para Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade, que um crítico azedo da época comparou com um  manual de tintureiro.

 

 

Alguns artistas consagrados, como Santa Rosa e Di Cavalcanti, também foram capistas. O que os motivou a trabalhar nessa atividade? Criar capas foi um desafio para eles? Essas capas podem ser consideradas obras de arte?

UM: Alguns dos maiores artistas plásticos brasileiros se dedicaram a elaborar capas de livros, por interesse pela atividade, por compensação financeira ou por pressão de amigos escritores, desejosos de valorizar seus livros com o trabalho desses artistas. Alguns, se tornaram capistas no sentido pleno do termo, como Di Cavalcanti, Enrico Bianco e Clovis Graciano, para lembrar apenas alguns nomes. Outros, foram capistas bissextos, como Portinari. Cada caso é um caso. Há também o inverso: aqueles que foram basicamente artistas gráficos e pintaram como atividade secundária. Caso de Santa Rosa, renovador do livro brasileiro, o capista mais importante dos anos 1930 até sua morte, em 1956.

Pode-se dizer que há uma “escola brasileira” de capas, com características singulares do nosso país? Quais as influências ou inspirações dos capistas brasileiros, de maneira geral?  

UM: Existe um estilo brasileiro de desenhar capas, inconfundível aos olhos do observador atento, como existe uma maneira brasileira de viver, de se relacionar etc. Aldemir Martins dizia que numa exposição de pintura de nu feminino, quando o artista era realmente brasileiro, ninguém ia confundir sua pintura com a de um equatoriano, um francês ou um norte-americano. O importante é que a capa do livro brasileiro é tão boa quanto a de qualquer país.

Conheça a obra de Ubiratan Machado

Lincoln Secco lança “A Batalha dos Livros. Formação da Esquerda no Brasil”

Marc Bloch afirmou que, no desenvolvimento de uma disciplina, há momentos em que uma síntese, mesmo que pareça prematura, é mais importante do que várias monografias de análise. Isso porque, por vezes, é mais importante enunciar as questões principais, do que resolvê-las todas. A habilidade enunciada pelo historiador dos Annales é uma das muitas qualidades da nova obra do professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo, Lincoln Secco, cujo estilo ensaístico e sintético já foi visto no grande sucesso da produção historiográfica, História do PT, que atingiu a quinta edição em poucos anos.

A Batalha dos Livros. Formação da Esquerda no Brasil nos fala sobre mais de um século e meio de história das relações entre as esquerdas e os livros – grande parte deles perseguidos por terem sido considerados perigosos. O subtítulo pode ser lido de duas maneiras. O termo “formação”, que estampou algumas das obras mais importantes do pensamento social brasileiro, confere sentido ao objeto estudado. Partindo do ponto de vista histórico, ajuda-nos a compreender a formação da esquerda brasileira em sua atual configuração. Não apenas da esquerda, mas todo o campo da política no Brasil.

O outro sentido que assume o subtítulo desvela o conteúdo original do texto em relação à historiografia das ideias socialistas e do movimento operário. Conectado ao título, A Batalha dos Livros, aponta-se a formação da “infraestrutura intelectual” dos partidos e movimentos de esquerda e a formação dos militantes. Lincoln Secco busca em sua obra jogar nova luz sobre os aparatos de formação política e ideológica: editoras, livrarias, bibliotecas, escolas de quadros, jornais, revistas, livros etc., temas os quais o historiador e bibliófilo de esquerda, Edgard Carone, estudou pioneiramente nos anos 1980, mas cujos desdobramentos vêm criando especiais frutos apenas nesta década.

O autor assinala que um dos sentidos menos estudados da prática de esquerda no Brasil foi seu aparato de formação política e ideológica, demonstrando o fio que conduzirá a trajetória da esquerda narrada no livro. Com os subtítulos que dividem o prefácio, “ciclos políticos do livro” e “depois de 1964”, o autor antecipa os contornos gerais da periodização seguida nos capítulos do livro: iniciando com as primeiras leituras socialistas e anarquistas, passando pelo período de afirmação e posteriormente de hegemonia da produção ideológica comunista; chegando então à ruptura ocasionada pela repressão ditatorial, que iniciará um novo ciclo político da história do livro de esquerda. Tal história passará pelos anos 1980, quando a maior parte da esquerda unir-se-á sob uma formação partidária, o Partido dos Trabalhadores, desembocando no período atual, marcado pelo surgimento de novas formas de circulação das ideias.

As 240 páginas do livro estão divididas em cinco capítulos, além de um prefácio, uma conclusão e um apêndice que apresenta uma série de dados sobre a atividade editorial das esquerdas e levantamentos sobre estimativas de membros e simpatizantes de partidos e outras organizações de esquerda no Brasil, os quais apontam os leitores potenciais da literatura socialista. A Batalha dos Livros. Formação da Esquerda no Brasil vem a lume como referência incontornável para a história intelectual e para a história dos livros e da edição, além de se inscrever no vasto nicho da história política, abrindo todo um campo de investigação na historiografia brasileira. É obra necessária e sem igual para a compreensão de nosso país.

Conheça as obras de Lincoln Secco

“Epigramas”: seleta de poemas satíricos e pornográficos da Roma Antiga

Escrever em poucos caracteres para passar uma mensagem assertiva é algo popular desde a criação do Twitter, há pouco mais de dez anos. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos, por poetas como Marco Valério Marcial, para fazer poemas cômicos, pornográficos e de crítica social. Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso), é autor dos “Epigramas”, edição bilíngue traduzida por Rodrigo Garcia Lopes e recém-lançado pela Ateliê. Confira a seguir alguns desses pequenos mas cortantes poemas:

 

I

Você já leu, pediu, aqui está ele:

Marcial, famoso em todo o mundo

por seus argutos livrinhos de epigramas:

Leitor fã, você lhe deu em vida

a glória que a uns poetas é concedida

apenas quando viram cinzas.

Hic est quem legis ille, quem requiris,

toto notus in orbe Martialis

argutis epigrammaton libellis:

cui, lector studiose, quod dedisti

viventi decus atque sentienti,

rari post cineres habent poetae.

 

L

Você é um velho, é o que Taís repete. Ninguém é velho pra receber boquete.

 

Quid me, Thai, senem subinde dicis?

nemo est, Thai, senex ad irrumandum.

 

 

XXIII

Para jantar, Cota, você só chama

seus companheiros de banho.

Surpreso em nunca ser convidado?

Não, você já me viu pelado.

Invitas nullum nisi cum quo, Cotta, lavaris

et dant convivam balnea sola tibi.

mirabar quare nunquam me, Cotta, vocasses:

iam scio me nudum displicuisse tibi.

 

XXIX

O povo anda dizendo que você, Fidentino,

recita meus livrinhos como se fossem seus.

Se for falar que são meus, te envio grátis.

Se seus, compre, pra que meus não sejam mais.

Fama refert nostros te, Fidentine, libellos

non aliter populo quam recitare tuos.

si mea vis dici, gratis tibi carmina mittam:

si dici tua vis, hoc eme, ne mea sint.

 

CX

Você diz, Veloz, que meus poemas são longos.

Você não escreve nada: isto é concisão.

 

Scribere me quereris, Velox, epigrammata longa.

ipse nihil scribis: tu breviora facis.

 

 

LXIX

Vacerra, você só sabe elogiar

poetas mortos ou antigos.

Fico devendo essa, Vacerra:

não vou morrer pra te agradar.

Miraris veteres, Vacerra, solos,

nec laudas nisi mortuos poetas.

ignoscas petimus, Vacerra: tanti

non est, ut placeam tibi, perire.

 

LXXX

Pobre, faminto, Gélio casou com uma velha rica.

Se ele tem comida, agora ela também: sua pica.

Duxerat esuriens locupletem pauper anumque:

uxorem pascit Gellius et futuit.

 

VII

Se a Ligeia tiver tantos anos

quanto tem cabelos, ela tem três.

Toto vertice quot gerit capillos

annos si tot habet Ligeia, trima est.

Epigramas: “tweets”da Roma Antiga em edição bilíngue

Ateliê lança edição especial dos Epigramas de Marco Valério Marcial traduzidos por Rodrigo Garcia Lopes

Escrever em poucos caracteres para passar uma mensagem assertiva tornou-se popular com a criação do Twitter, há pouco mais de dez anos. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos, por poetas como Marco Valério Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso).

Apesar de sua importância estética, são raras as edições de Marcial no Brasil. Para preencher essa lacuna e trazer ao conhecimento do público esta arte poética, a Ateliê  Editorial lança, em uma edição bilíngue, Epigramas, escritos por Marco Valério Marcial, e traduzidos diretamente do latim por Rodrigo Garcia Lopes.

A edição é composta por doze pequenos “livrinhos”, reunidos em um belo projeto gráfico de Gustavo Piqueira, com 219 poemas escritos entre 86 e 103 d.C.  O livro traz notas explicativas e um posfácio que inclui dados biográficos do autor e contextualiza a poesia de Marcial na Roma Antiga, além de conter informações sobre as questões estéticas de sua poesia.

O tema principal dos Epigramas é a cidade em que vivia o poeta. “Se há alguma musa na poesia de Marcial, ela se chama Roma: é da cidade que ele tira sua matéria-prima. Como um dublê de poeta-humorista-colunista-cronista social — munido de uma câmera portátil e verbal, o epigrama — ele nos convida a espiar os espaços públicos e privados de Roma no século I em todas as suas contradições”, afirma Garcia Lopes.

A seleção traz epigramas cômicos, pornográficos e injuriosos, que fizeram a fama do autor. Mas o tradutor também incluiu poemas de amor e amizade, sobre a boemia, reflexões sobre escravidão, sobre viver o presente, além de epitáfios tocantes e epigramas metapoéticos, em que o poeta reflete sobre sua própria condição de autor.

“Além de ser um grande poeta, Marcial é extremamente moderno ao prenunciar aspectos de nossa sociedade do espetáculo, de comunicação instantâneas (como os 140 caracteres do Twitter), da indústria da fofoca, do consumo (onde tudo está à venda), da superficialidade, exibicionismo, da cultura da imagem, redes sociais, culto às celebridades, fama instantânea e reality shows”, conclui o tradutor.

Serviço

ISBN 978-85-7480-752-2

Tamanho: 14 x 21 cm

Número de páginas: 224 páginas

Preço: R$ 82,00

 

Sobre a Ateliê Editorial

 

Site:www.atelie.com.br

Blog:blog.atelie.com.br

Twitter:@atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

 

Fundada em 1995, a Ateliê Editorial atua principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; e estudos sobre o livro e seu universo.  O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual.

Manual do Estilo Desconfiado

Fernando Paixão – conhecido por sua poesia e ensaística – está lançando o Manual do Estilo Desconfiado e adverte logo de partida: “Não é um manual de redação, nem pretende ensinar a escrever bem, mas dá umas boas dicas para ser desconfiado com os próprios textos”.  Seu interesse pelos assuntos da escrita vem desde a juventude, quando iniciou uma longa carreira de editor profissional, e permanece até agora, inclusive nos trabalhos que desenvolve na universidade.

A ideia inicial  surgiu durante um curso sobre escrita de resenhas que o autor ministrou para alunos de graduação; a partir dos exercícios propostos e das discussões em classe, o conteúdo foi ganhando corpo até chegar ao formato final, que tem a qualidade de propor insights sobre a arte de escrever. Dizendo de outro modo: trata-se de um livro que leva o leitor a pensar sobre a (própria) escrita.

Ao longo de 25 lições, cada uma dedicada a um verbete temático, o autor apresenta um conjunto de máximas que nos leva a refletir sobre a “palavra gorda”, a “frase longa”, o “clichê”, a “citação”. Ou ainda sobre temas como “estilo”, a “abstração”, o “parágrafo longo”. E termina com alguns dizeres sobre a sua proposta: “a desconfiança é bem-vinda para que o estilo seja de bom quilate”.

O resultado é uma obra original e inusitada, que foge às classificações tradicionais. Luis Fernando Veríssimo afirma, na contracapa, que este livro “vai dar o que falar, e o que escrever”. Em seguida, acrescenta: “Pelo seu ineditismo – não existe nada parecido, que eu saiba, por aí – e pelo seu estilo ao tratar da criação literária, das armadilhas e dos maus hábitos (e bons exemplos) do texto”. E conclui:  “Paixão fez um precioso manual tanto para aspirantes quanto para praticantes da arte da escrita”.

Conheça outras obras de Fernando Paixão

Fernando Paixão teve uma longa carreira como editor profissional, na Editora Ática; nessa área, organizou Momentos do livro no Brasil (1995, Prêmio Jabuti). Em 2009, ingressou na docência acadêmica e, desde então, leciona literatura no Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo. No ensaismo, publicou Narciso em Sacrifício (Ateliê, 2003); A Parte da Tarde (Ateliê, 2005) sobre a obra poética de Mário de Sá-Carneiro; Palavra e Rosto (Ateliê, 2010); e Arte da Pequena Reflexão (Iluminuras, 2014), sobre o gênero do poema em prosa. Dedica-se também à poesia, com 6 livros publicados; ganhador do Prêmio APCA, em 2002.

 

Epigramas, de Marcial: tuítes cômicos e pornográficos da Roma do século I

Marco Valério Marcial é considerado o “pai do epigrama” – poema curto de viés satírico, pornográfico ou injurioso que marcou época na Roma Antiga. Apesar de sua importância e de sua conexão com a atualidade – quando os tuítes reinventaram a escrita econômica – as edições de Marcial são raras no Brasil.

Para preencher essa lacuna e trazer ao conhecimento do público esta arte poética, a Ateliê  Editorial lança, em uma edição bilíngue especial, Epigramas, escritos por Marco Valério Marcial, e traduzidos diretamente do latim por Rodrigo Garcia Lopes. A edição é composta por 12 livrinhos, a partir do projeto gráfico de Gustavo Piqueira, que reúnem 219 poemas escritos entre 86 e 103 d.C. Leia, a seguir, a entrevista com Rodrigo Garcia Lopes sobre a obra, que demorou mais de 25 anos para ficar pronta:

 

Rodrigo Garcia Lopes fotografado por Jacqueline Sasano

Como surgiu a ideia e o convite para realizar esta edição?

Rodrigo Garcia Lopes: Marcial é um poeta social, satírico, complexo. Comecei a traduzi-lo em 1990, retomando o projeto em 2015. Na época perguntei ao escritor Rodrigo Lacerda se ele achava que alguma editora poderia se interessar pelo projeto. Ele sugeriu que eu procurasse a Ateliê. Passei alguns meses traduzindo-o intensivamente, até chegar aos 219 poemas da presente edição. Sempre fico tentado a incluir epigramas que haviam passado despercebidos.

 

 

Como foi a escolha dos epigramas que compõem este volume?

RGL: Marcial escreveu 15 livros de poesia, cerca de 1.561 epigramas. Procurei fazer uma seleção representativa, variando os temas, mais ou menos como ele fazia em seus livros, bem como a extensão dos epigramas. Também levei em conta os que me permitiam repoetizá-lo em português, mantendo o frescor, o caráter imediato, a concisão e, claro, seu humor. Marcial é engraçadíssimo, apesar de ser impiedoso e, muitas vezes, cruel em sua poesia. Espero que o leitor se divirta tanto quanto eu ao traduzi-lo.

 

Quais os temas dos epigramas que compõem este volume?

RGL: Se há alguma musa em sua poesia, ela se chama Roma: é da cidade que ele tira sua matéria-prima. Como um dublê de poeta-humorista-colunista-cronista social — munido de uma câmera portátil e verbal, o epigrama — ele nos convida a espiar os espaços públicos e privados de Roma no século I em todas as suas contradições. Apesar de marcado como poeta da invectiva, dos insultos cômicos, pornográficos, eu incluí também vertentes menos conhecidas de Marcial, como os poemas de amor e amizade, sobre a boemia, reflexões sobre  escravidão, sobre viver o presente, além de epitáfios tocantes. Incluí também uma série de epigramas em que ele aborda sua condição de poeta, de autor. Epigramas metapoéticos avant la lettre.

 

O livro tem um formato bastante peculiar: parecem pequenos livros que compõem um livro completo. Sabe dizer por que houve essa escolha?

RGL: Creio que o projeto gráfico foi inspirado no fato de que Marcial se referia a seus livros como libellus (livrinhos, mas também petição, panfleto e publicação difamatória). Então, cada um dos 12 cadernos desta edição refere-se a um dos volumes que ele lançou regularmente de 86 a 103 d.C. Acho que o projeto gráfico remete também ao caráter artesanal do livro na época de Marcial que, basicamente, era um rolo de papiro preso em dois cilindros de madeira, desenrolado à medida que ia sendo lido.

 

No posfácio, você escreve que o trabalho de tradução foi interrompido e que, no total, durou mais de 25 anos. Por quê?

RGL: Comecei a traduzir Marcial em 1990, no Arizona, nos intervalos do mestrado que fazia sobre William Burroughs. No começo foi mais para me divertir do estresse acadêmico, sem maiores pretensões. Acabei reunindo um bom material na volta ao Brasil. Fui traduzindo e publicando mais epigramas ao longo dos anos, mas nunca achava que tinha um número suficiente para um livro representativo. Em 2015, depois que lancei o romance policial O Trovador, queria fazer algo diferente. Aí o Marcial acenou pra mim.

 

Os epigramas foram traduzidos diretamente do latim?

RGL: Sim. Consultei também vários estudos, dicionários, edições críticas de Marcial para outras línguas, como o inglês e espanhol e outras línguas, de vários séculos. Isso me deu uma ideia de como Marcial foi tratado. As principais fontes foram as edições feitas por D. R. Shackleton Bailey (Martial: Epigrams, Loeb Classical Library, Cambridge: Harvard University Press, três volumes, 1993) e por Walter C. A. Ker,  para a mesma coleção e editora,  em dois volumes (1968).

Quais foram os maiores desafios desse trabalho de tradução?

RGL: Repoetizá-los em português, mantendo a concisão lapidar e a clareza do latim, o caráter direto e imediato da poesia de Marcial.

 

Apesar do gênero epigrama ser considerado “menor”, sua composição é bastante complexa. Em que medida traduzir epigramas reflete essa complexidade? Com que aspectos formais você mais se preocupou ao realizar a tradução?

RGL: Marcial usa uma série de recursos e técnicas em seus epigramas: a conclusão surpreendente (a ferroada), recursos retóricos como antítese, paradoxo, alusão, ironia, hipérbole, anáfora, elipse, acumulação, aliteração, assonância, metáfora, metonímia, rimas, paronomásia (trocadilhos), entre outros. Vários recursos que são usados até hoje pelos comediantes de stand-up (especialmente no caso dos comediantes de uma frase, como Stewart Francis, por exemplo, que eu adoro). Na medida do possível, preocupei-me com os vários planos linguísticos do poema, privilegiando os aspectos que me pareceram os mais importantes. Ele se vale de uma grande liberdade de linguagem, do luxo ao lixo, expandindo o léxico.

 

Marcial é bastante conhecido no Brasil?

RGL: Apesar de tratar-se de um clássico, são raras as edições da poesia de Marcial no Brasil. O mais comum é a publicação de poemas esparsos em antologias, como nas de Décio Pignatari, José Paulo Paes e outros. Há O Catálogo de Mulheres, publicado pela Humanitas, em 2010, que se concentra nos poemas misóginos de Marcial. As demais edições são portuguesas. Minha intenção foi resgatar e recolocar a poesia de Marcial entre nós. O livro traz notas explicativas, além de um posfácio, em que procuro aproximar o leitor brasileiro do estilo e do contexto histórico e social da Roma de Marcial, das várias vertentes, técnicas e peculiaridades de sua poesia.

 

Qual a importância de ter uma obra como a de Marcial traduzida para o português, em pleno século XXI?  

RGL: Como diria Tristan Tzara, o que nos atrai na obra antiga é sua novidade. Além de ser um grande poeta, Marcial é extremamente moderno ao prenunciar aspectos de nossa sociedade do espetáculo, de comunicação instantânea (como os 140 caracteres do Twitter), da indústria da fofoca, do consumo (onde tudo está à venda), da superficialidade, exibicionismo, da cultura da imagem, redes sociais, culto às

celebridades, fama instantânea e reality shows. Se ele acabou sendo obscurecido por outros autores clássicos, dada sua obscenidade, mais um motivo para que Marcial seja resgatado para os leitores de hoje, sobretudo no atual momento, no Brasil.

 

Epigramas, em geral, são poemas curtos, compostos por poucos versos. Mas alguns dos epigramas de Marcial são longos. Você explica a razão disso no posfácio do livro, mas poderia, por gentileza, falar sobre isso para nossos leitores?

RGL: Um epigrama longo pode parecer paradoxal num gênero que prima pela brevidade. O próprio Marcial brinca em vários epigramas com isso: um longo livro de poemas curtos. Marcial tem epigramas que vão de 1 até 51 versos. A questão da brevidade parece ser resolvida por ele em 2.77, onde adverte um certo crítico e poetastro Coscônio, que acusa seus epigramas de serem “muito longos”. Depois de dizer que, mesmo poetas que ele admira, como Pedão e Marso, escreveram poemas que ocupam mais de uma coluna no papiro (página), Marcial defende que epigramas não são longos “se não há nada neles que se possa cortar”.

 

Em sua opinião, qual é a riqueza dos epigramas de Marcial?

RGL: Marcial mostrou como o epigrama é um gênero versátil e atualíssimo. Foi ele quem reinventou e estabeleceu o epigrama moderno, tal qual conhecemos hoje, tornando-se um modelo para outros autores através dos tempos: um poema curto, satírico e de final picante, geralmente com uma corrosiva crítica social e de costumes. Lendo-o constatamos que a natureza humana não mudou tanto, que Marcial é um poeta do seu tempo, da Roma antiga, mas do nosso também. É importante dizer que Marcial, ao concentrar seus esforços no epigrama, estava situando-o, estrategicamente, dentro de uma tradição satírica e assumidamente marginal, na contramão da dita poesia elevada, de dicção austera, grandiloquente e carregada de mitos, como a epopeia e a tragédia. Como adverte no epigrama 10.4, numa de suas frequentes alusões ao leitor: “Não vai achar aqui Centauros, Górgonas e Harpias: / minha página tem o sabor dos homens”.

Ateliê e Kotter: você conhece esta parceria?

São Paulo e Curitiba. A primeira é considerada a maior cidade do Brasil; a segunda abriga alguns dos consumidores mais exigentes do país. Ambas estão ligadas por uma parceria literária que já rendeu bons frutos. São Paulo é a sede da Ateliê Editorial, que reflete no nome o cuidado e o capricho com que realiza suas edições: livros sobre livros, clássicos em edições anotadas e explicativas e livros acadêmicos. Em Curitiba fica a Kotter Editorial, cuja filosofia é publicar trabalhos de qualidade, de autores inéditos ou não, com foco em humanidades, artes, literatura e filosofia.

Capa do livro de Marcelo Sandmann

Ateliê e Kotter são coeditoras em diversos títulos, como os da Coleção Gralhas Raras e da Coleção Antológicos, da qual faz parte o recente lançamento Antologia Poética – 1987-2017, de Marcelo Sandmann. Ele é Professor no curso de Letras da UFPR, compositor e poeta. Na obra, é possível perceber o diálogo permanente com os autores que admira (Camões, Drummond, Cabral, José Paulo Paes e Leminski estão entre suas afinidades eletivas). Sandmann trabalha com o máximo de recursos e o mínimo de material necessário. Os efeitos poéticos devem ser obtidos sem desperdício verbal ou emocional, num sistema estético de economia, que beira a entropia. A poesia nasce e se mantém nas linhas de tensão que existem entre o texto e o leitor, a palavra e seu avesso, o prosaico e o inominável, o cânone literário e a vida mais chã.

 

L’azur Blasé ou Ensaio do Fracasso sobre o Humor, de Guilherme Gontijo Flores, foi finalista do Prêmio APCA 2016, na categoria poesia. Nesta coletânea de poemas, tudo está exposto ao seu fracasso autoirônico, até mesmo o poeta e a obra, a começar pela piada batida que cria o enquadramento do autor morto que tem seu livro lançado por editores amigos. Nesse caso, a pergunta central do livro poderia ser: O que fazer quando o humor fracassa? Resta um riso pelo malogro da piada?

Outro exemplo da parceria de sucesso entre Kotter e Ateliê Editorial é o volume A Comédia e Seus Duplos: O Anfitrião de Plauto, organizado por Rodrigo Tadeu Gonçalves.  A obra apresenta um conjunto de ensaios sobre a recepção e as adaptações da comédia “O Anfitrião” pelos séculos, nos distintos países e culturas. A peça de Plauto (comédia ou tragédia?) discute questões fundamentais como os duplos, o engano, o abuso da autoridade da parte dos deuses, a comédia profundamente humana do marido traído.

Poesia, teatro ou filosofia? A parceria entre Ateliê e Kotter não deixa dúvidas de que a edição de livros de qualidade tem espaço no mercado.

Notícia de Publicação: Manual de Editoração E Estilo

Lênia Márcia Mongelli*

Há livros cuja divulgação é obrigatória, é quase um serviço de “utilidade pública” para o meio acadêmico em geral, de medievalistas – daí o excelente veículo do Jornal da ABREM – ou não.

Estou falando do Manual de Editoração e Estilo, de Plinio Martins Filho, considerado por seus pares o “maior editor brasileiro em atividade” (diz Marisa Midori Deaecto no Prefácio) e merecidamente recém-premiado com o “Jabuti” em sua área de especialização. Afinal, são quase 50 anos de prática, quer como professor de editoração da ECA/USP, quer à frente da Edusp ou da Ateliê, esta de sua propriedade.

Se o Manual é uma defesa apaixonada da beleza do livro enquanto objeto, bem como a apresentação de caminhos/instrumentos para sua melhor e mais refinada realização, ele é, antes de tudo, um modelo possível para padronização de originais – inclusive dissertações e teses universitárias, evitando tantos descompassos entre autores, orientadores, departamentos e casas editoras. Normas relacionadas a ortografia, pontuação, citação de textos em língua estrangeira, notas de rodapé, bibliografia etc. – estão todas ali, ordenadamente tratadas.

 

É obra que, indiscutivelmente, facilita – e muito! – a vida do pesquisador!

 

 Professora Titular de Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo, filiada ao Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Formada em Letras Anglo-Germânicas pela Universidade Mackenzie (1969), fez todas as demais etapas de sua carreira acadêmica na USP: Mestrado (1978), Doutorado (1982), Livre-Docência (1988) e Titularidade (1996). Na mesma USP, atua hoje como professora-sênior. Especializada em Literatura Medieval, foi sócia-fundadora da Abrem – Associação Brasileira de Estudos Medievais (1995) e secretária de sua revista impressa Signum, sendo responsável pela edição e distribuição dos dez números dela, até 2008. Orientou cerca de 30 trabalhos, entre mestrados e doutorados; participou de aproximadamente 55 bancas examinadoras de trabalhos acadêmicos; organizou em torno de 80 eventos, atuando inclusive como palestrante; publicou cerca de 85 artigos e 40 capítulos de livros, além de vários “roteiros de leitura”. Livros publicados nos últimos anos, pela Ateliê Editorial: E Fizerom taes Maravilhas… Histórias de Cavaleiros e Cavalarias (org.) [2012], A Idade Média no Cinema (org. com José Rivair Macedo) [2009], Palmeirim de Inglaterra (org.) [2016] e As Pastorinhas de Pirenópolis – GO.

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