Renata Albuquerque

Tomás Santa Rosa, leitor

Por Renata de Albuquerque

Sobrecapa do livro "Capas de Santa Rosa"

Sobrecapa do livro “Capas de Santa Rosa”

Capa do livro de Luís Bueno

Capa do livro de Luís Bueno

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tomás Santa Rosa (1909-1956) foi um artista visual inquieto.  Um dos mais importantes cenógrafos de sua época (criou a arquitetura cênica da histórica montagem de Vestido de Noiva, dirigida por Ziembinski), dedicou-se a várias tarefas no campo das artes plásticas: executou pinturas e gravuras, criou capas, ilustrações e projetos gráficos para livros, revistas e jornais, elaborou cenários e figurinos para o teatro, projetou decoração para festejos de carnaval.

Seis décadas depois de sua morte, o professor de Literatura Brasileira Luís Bueno lança, pela Ateliê Editorial, Capas de Santa Rosa, uma reunião de cerca de 300 capas criadas pelo artista – um trabalho de dez anos de pesquisa. A obra é uma coedição das Edições Sesc SP.

Na entrevista a seguir, Bueno dá uma pista da razão pela qual o trabalho de Santa Rosa como capista é tão singular. Para o autor, as “qualidades de leitor” de Santa Rosa foram fundamentais para que seu trabalho se tornasse tão impactante. Acompanhe:

 

Na apresentação do livro, você menciona que a ideia do livro surgiu durante o processo de sua tese de Doutorado. Gostaria que falasse mais um pouco a respeito da tese e de como sua tese o levou a Santa Rosa.

Luís Bueno: Minha tese de doutorado, que foi publicada pela Edusp e pela Editora da Unicamp em 2006, com nova edição no final de 2015, foi a escrita de uma história do romance de 30, exatamente o período em que Santa Rosa começou a atuar como capista. Para escrevê-la eu precisei ler o maior número possível de romances daquele período, e vários deles tinham capas de Santa Rosa. A beleza das capas era evidente por si mesma, mas observando as qualidades de leitor do Santa Rosa depois de ter eu mesmo lido os romances, é que pensei na singularidade do trabalho dele, na sua qualidade peculiar. Como não tenho formação nem em design nem em arte, e sim em literatura, sempre pensei no trabalho dele a partir do texto. Mais tarde, tive a oportunidade de dirigir a Editora da Universidade Federal do Paraná. Ora, essa experiência foi um curso prático de produção de livros que me deu a chance de acompanhar profissionais do design elaborando projetos gráficos e capas. Juntando as duas coisas, acabei me sentindo, por um lado, na obrigação de recolher o trabalho do Santa Rosa nesse campo, e, por outro, capaz de dizer alguma coisa sobre ele.

Luís Bueno

Luís Bueno

Qual a importância de santa Rosa no cenário da arte brasileira?

L.B.: O Brasil é um país complicado, como todos sabem, sobretudo injusto. Mas não é o fim do mundo – é parte do mundo, é um jeito de ser do mundo, e não precisa ser injusto para sempre. É mesmo absolutamente fundamental que não seja. Em boa parte do século XX a cultura brasileira se desenvolveu amplamente, contribuindo de forma decisiva para pensar, dar forma e propor mudanças a esse jeito de ser no mundo. Artistas como Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Portinari, Guimarães Rosa, Oscar Niemeyer, Tom Jobim, para ficar apenas em meia dúzia de nomes mais famosos, trabalharam imensamente e precisam continuar a serem ouvidos não apenas pelos resultados estéticos a que chegaram em seu campo de atuação – o que em si já seria muito – mas também porque souberam enfrentar essa complicação brasileira e agir sobre ela, propor formas de pensar sobre ela. Santa Rosa faz parte desse grupo numeroso e significativo. A arte talvez não salve o mundo, mas o mundo não se salva sem ela. É essencial. Santa Rosa é alguém para quem a arte foi essencial. Já passou da hora de atentarmos para esse esforço e retomá-lo.

 

Como você apresentaria Santa Rosa e sua obra para um leitor de hoje em dia, que não o conhece? Por que é importante apresentá-lo às novas gerações?

L.B.: A melhor forma de apresentar a obra de Santa Rosa aos leitores de hoje é mostrá-la, colocá-la à vista em seu conjunto. É isto que o livro se propõe a fazer, além de chamar a atenção para alguns de seus aspectos essenciais para, quem sabe, interessar esses leitores. As enormes transformações práticas pelas quais passou o trabalho de um artista gráfico nos últimos 70 anos – da prancheta aos editores de imagens – não eliminam os problemas de base envolvidos no métier: a relação da materialidade do livro com seu conteúdo, a concepção artística de seus elementos. E nisso a apreciação do trabalho de Santa Rosa tem muito a dizer e é por isso que é importante apresentá-lo à novas gerações.

O que mais o encanta e chama sua atenção em Santa Rosa?

L.B.: Há muita coisa que me encanta e me chama a atenção na trajetória artística de Santa Rosa. Seu interesse amplo pela arte e pela vida, traduzida numa obra que não ficou concentrada numa única atividade, tem a capacidade de se colocar em diálogo direto com a gente. Ele foi um militante da arte, em especial da arte moderna, em sentido muito amplo. Militou como pintor, como professor e como escritor, publicando vários artigos nos jornais, planejando cursos de percepção artística para o grande público. Mas, principalmente, como o artista que misturava tudo isso e colocava na rua – nas livrarias, nos teatros, na decoração de carnaval – uma nova sensibilidade artística. Em suma, o que mais me encanta no trabalho de Santa Rosa é que se trata de uma experiência viva, ainda hoje, 60 anos depois de sua morte. Aliás, quando ele morreu, na Índia, em 1956, Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema que define isso de maneira sintética e que diz: “Essa alegria de criar/ que é tua explanação maior e mais tocante”. Não é à toa que um trecho deste poema é a epígrafe do livro.

 

Em sua opinião, como ele influencia nosso design até hoje?

L.B.: Santa Rosa tem importância capital para o design brasileiro. Atuou num momento em que a indústria moderna do livro no Brasil se estabelecia. Pensou o livro como artista, mas também como designer – palavra que não se usava em seu tempo – com um olho na ilustração e outro no layout. Seu desejo de transformar a arte moderna em experiência concreta acabou se materializando em capas de livro ao mesmo tempo atrativas – pela ilustração – e sérias – pela sobriedade e pela leitura que propunha. Ainda que indireta, sua influência dura até hoje, e pode ser mais ampla se seu trabalho for conhecido. É essa a principal ambição deste livro: a de contribuir para que seu trabalho fique mais visível e possa, quem sabe, influenciar mais diretamente os novos designers e os novos leitores.

Capa de santa Rosa para "Cangaceiros", de José Lins do Rego (1953)

Capa de Santa Rosa para “Cangaceiros”, de José Lins do Rego (1953)

Quais são suas três capas preferidas e por quê?

L.B.: É obviamente difícil, se não impossível, apontar as três capas que seriam minhas preferidas. Por motivos diversos, considero várias capas maravilhosas. Mas vou apontar uma de cada década em que ele atuou, que podem dar ideia da excelência do trabalho dele. Sua primeira incumbência como capista, com Urucungo, de Raul Bopp seria uma delas. É uma capa que dialoga com todo o livro e, de sua maneira, analisa-o, com um desenho original que faz até aquilo que deveria ser mera informação, o título e o nome do autor, integrar a ilustração. A segunda, da década de 40, é a de Fonte Invisível, livro de poemas de Augusto Frederico Schmidt, onde ele conseguiu transformar uma simples linha ondulada em ilustração e em comentário ao conteúdo do livro: parece impossível tirar tanto significado de tão pouco. Por fim, dos anos 50, um momento em que ele retoma o uso da cor e experimenta novas técnicas, como a gravura, é representativa a capa de Cangaceiros, de José Lins do Rego.

 

Você considera que sua pesquisa se esgotou ou prevê desdobramentos dela? Como seria essa continuação?

L.B.: Há muita coisa a se pesquisar e se avaliar quando se trata de Santa Rosa. Só no campo das artes gráficas, além das capas, seria preciso estudar sua atividade como designer do miolo do livro, da produção gráfica em geral. Além disso, ainda não se recolheu nem se estudou o resultado de sua atividade como ilustrador, tanto para livros – arte que eu já levantei razoavelmente bem e quem sabe no futuro apareça num outro livro – quanto para jornais, Mas isso está longe de ser tudo. Ainda falta dar a dimensão exata da importância de Santa Rosa para o teatro brasileiro. Assim como no que diz respeito ao livro, ele foi elemento-chave na criação do moderno teatro brasileiro, com uma atuação espantosa como figurinista e cenógrafo. Por fim, mas não menos importante, está sua obra de pintor, que ficou à sombra da de outros artistas brasileiros de seu tempo, como seu grande amigo Portinari, mas que tem lugar garantido no cânone da moderna arte brasileira. Isso tudo sem mencionar sua atividade como agitador cultural, professor e boêmio. A julgar pelas histórias que contam dele escritores como Rubem Braga e Rachel de Queiroz, há um mundo de coisas a se descobrir aí. É claro que este não é um trabalho para uma pessoa. Desdobramentos há vários e para vários pesquisadores.

Ateliê Editorial marca presença na Expo Revestir 2016

Os livros da editora compõem a ambientação do estande da Cerâmica Portinari

Estande da Cerâmicas Portinari, com ambientação de Elizabeth Álvares

Estande da Cerâmicas Portinari, com ambientação de Elizabeth Álvares

Conhecida pelo cuidado e elegância com que realiza a edição de todos os livros que mantém em catálogo, a Ateliê Editorial foi convidada pela Cerâmica Portinari – uma das maiores empresas de revestimento cerâmico do Brasil – a colocar alguns de seus títulos na estante que compõe o ambiente do estande da marca na Expo Revestir 2016.

A feira, que acontece entre 1 e 4 de março em São Paulo, é o evento mais importante da cadeia produtiva da construção brasileira e atrai arquitetos, designers de interiores, paisagistas e lojistas. “Pedimos o apoio da Ateliê Editorial porque sabemos que seus livros atendem o mesmo público que visita a feira”, afirma a designer de interiores Elizabeth Álvares, responsável pela ambientação do estande. A Ateliê valoriza o livro enquanto objeto e por isso traz aos leitores projetos gráficos e editoriais de alta qualidade, desde o tipo de papel até as capas – muitas delas, premiadas internacionalmente.

O estande da Cerâmica Portinari abriga cerca de 500 livros da editora, entre os quais títulos como Esplendor do Barroco Luso-Brasileiro, de Benedito Lima de Toledo, que foi vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Arquitetura e Urbanismo; O Design do Livro, de Richard Hendel; Arte, Dor: Inquietudes entre Estética/Psicanálise, de João A. Frayze-Pereira; Clichês Brasileiros, de Gustavo Piqueira e o recente lançamento A Voz que Canta na Voz que Fala – Poética e Política na Trajetória de Gilberto Gil, de Pedro Henrique Varoni de Carvalho. Os livros não estarão à venda no estande, mas quem se interessar pode adquiri-los pelo site www.atelie.com.br. O estande da Cerâmica Portinari para a Expo Revestir 2016 é um projeto de arquitetura de interiores da Estúdio Piloti e tem ambientação de Elizabeth Álvares.

Serviço

Expo Revestir 2016

Transamérica Expo Center – Av. Dr. Mario Vilas Bôas Rodrigues, 387 – Santo Amaro, São Paulo – SP

De 1 a 4 de março de 2016, das 10h às 19h.

Cerâmica Portinari: Estande 245, pavilhão B, entre as ruas N e O.

 

Sobre a Ateliê Editorial

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

Site: www.atelie.com.br

Blog: blog.atelie.com.br 

Twitter: @atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

 

Contatos para Imprensa:

Milena O. Cruz

imprensa@rda.jor.br

Tel: (11) 4402-3183

Cel: (11) 98384-3500

www.rda.jor.br

Tirando poesia de pedra

Em Matéria Lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz, Mario Higa faz uma leitura crítica de quatro dos mais importantes poetas latino-americanos que usaram a imagem da pedra como mote de suas obras literárias

Por: Renata de Albuquerque

capa materia litica

Fruto da tese de Doutorado que Mario Higa defendeu na Universidade do Texas, em Austin (EUA), o livro Matéria Lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz – o 50º título da Coleção Estudos Literários, da Ateliê Editorial – acaba de ser lançado. Na obra, o autor propõe a leitura de quatro poetas conhecidos por usarem o mineral suas obras literárias com o objetivo de ajudar o leitor a entender e interpretar esses textos.

“Para Cabral, Neruda e Paz, a pedra e o mundo mineral constituem uma imagem identitária, ou uma figura da imagística, de suas obras”, explica Higa na introdução do livro. Já Drummond aparece com a análise do poema “No Meio do Caminho”, que possui na pedra sua imagem central.

 

Como foi fazer um Doutorado nos EUA estudando poetas cujas raízes latino-americanas são tão fortes (ainda que todos possam ter uma leitura “universal”)? Eles são autores conhecidos nos EUA?

Ainda que o termo “imperialismo” esteja hoje em desuso, creio que se poderia, num sentido positivo, mas não despolitizado, aplicá-lo à política das universidades americanas de atrair e manter no país estudantes e pesquisadores estrangeiros. Por conta dessa política, muitos estudiosos chegam aqui, às vezes para uma temporada, e quando podem, decidem ficar. Quem ganha com isso é a comunidade acadêmica, que se torna assim mais exposta à diversidade cultural e, como consequência, à constante reavaliação de suas ideias. Lembro-me de que Gilberto Freyre, já em 1920, louvava, no seu o diário, o cosmopolitismo de Columbia. “Ai de universidade que não for cosmopolita”, dizia-lhe um colega inglês, também impressionado. Pois bem, nesses centros universitários e universalistas, a presença da América Latina é, de fato, bastante forte. No entanto, por razões históricas, e também geográficas, ou geopolíticas, é mais forte do lado espanhol do que do português. Logo, se você me pergunta se Drummond, Cabral, Neruda e Paz são conhecidos aqui, eu diria que, nos círculos universitários dos estudos latino-americanos, sim. Naturalmente, mais Neruda e Paz, cuja repercussão internacional, e mesmo não acadêmica, de suas obras é imensa, do que Drummond e Cabral, que ainda precisam de maior exposição fora do Brasil. Nesse sentido, a boa notícia para nossos poetas é que o interesse pelo Brasil, por parte de estudantes americanos, hispano-americanos, e de outras nacionalidades, cresceu de modo expressivo nas duas últimas décadas. Quando isso ocorre, mais estudantes se matriculam nos cursos de português, e com isso, expande-se o conhecimento da cultura brasileira (e lusófona) em terras estrangeiras, ou mais especificamente, americanas. A má notícia é que, por conta dos mais recentes acontecimentos no Brasil, essa tendência tem mudado de rumo, com impacto negativo na demanda por cursos de português. Laurentino Gomes, que deu um curso na universidade onde eu trabalho, resumiu essa questão de modo exemplar num post de seu blog. Para quem tiver interesse no tema, aqui vai o link: http://laurentinogomes.com.br/blog/?s=middlebury&lang=pt-br

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em resumo, o conhecimento de Drummond e Cabral, ou de qualquer outro autor brasileiro ou de língua portuguesa, nos Estados Unidos, depende menos da qualidade de suas obras do que de fatores externos, isto é, políticos e econômicos. A volatilidade desses fatores, sobretudo no Brasil, mas também no restante do mundo lusófono, produz efeitos quase que imediatos nas universidades americanas que oferecem cursos de português. Isso ocorre também com o espanhol. No entanto, como a América espanhola é fragmentada, o impacto dos acontecimentos lá chega aqui fragmentado também. Além disso, há outros fatores – históricos, geográficos, políticos, como já mencionado – que interferem na questão do estudo do espanhol e das culturas hispano-americanas nos Estados Unidos. Por fim, fazer o doutorado nesse ambiente multicultural foi, para mim, uma experiência bastante enriquecedora.

Por que da escolha de Drummond, Cabral, Paz e Neruda? O que eles têm em comum que permitiu-lhe uni-los em seu estudo?

Meu estudo nasceu do gosto que tenho pela análise, pelo comentário e pela interpretação de textos literários, ou mais especificamente, poéticos. A questão do sentido, em amplo espectro, sempre me fascinou, e ainda me fascina. Assim, eu diria que meu livro é menos sobre os poetas que você menciona e mais sobre a questão o sentido, ou melhor, como o sentido, segmentado em suas várias dimensões – linguístico, estético, político, crítico, teórico, dialético… –, se forma na confluência do texto poético, da mente do leitor e do contexto histórico-cultural em que ambos se inserem, e do qual ambos são, a um só tempo, agentes e produtos. Para investigar a questão do sentido, fixei-me inicialmente no célebre caso da polêmica provocada pelo poema de Drummond “No meio do caminho”. O chamado “poema da pedra” incitou o debate mais acalorado da história do Modernismo brasileiro. E no centro desse debate, encontrava-se a discussão em torno de seu sentido e valor. As leituras que o poema, então, recebeu foram as mais disparatadas. Mas afinal, que fatores textuais, teórico-culturais e históricos possibilitaram tanta divergência de atribuição de sentido? E por que essa divergência perde força na década de 1960? Essas são algumas questões sobre as quais me debruço e às quais tento responder.

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Da pedra de Drummond, passei à pedra de Cabral, por razões distintas. No caso de Cabral, interessava-me não o processo de atribuição de sentido, e sim a problematização de um sentido atribuído: o da relação pedra/despersonalização lírica na poesia cabralina. Isso me levou, entre outros exercícios, ao da análise do poema “A educação pela pedra”. A relação entre pedra e educação também surge num poema da última fase de Neruda: o de número XVII, de Las piedras del cielo, coletânea publicada em 1970. Nessa última fase, pouco estudada pela crítica, mesmo nos países de língua espanhola, predomina um tom desencantado em relação ao homem e à história, que a poesia nerudiana havia decantado na fase épico-política de Canto general. O curioso é que a imagem da pedra mostra-se recorrente nessa trajetória que vai do entusiasmo ao desencanto. O ápice da afirmação do homem e da história através da pedra encontra-se, pela minha hipótese de leitura, em “Alturas de Macchu Picchu”. E um dos pontos mais baixos do desencanto em relação a esses mesmos elementos pode ser lido no poema XVII. No entanto, a imagem da pedra, que serviu de figura de afirmação do homem e da história, é duas décadas depois retomada para corrigir e negar tal afirmação. E o que eu faço é tentar compreender como Neruda manipula os sentidos ou as metáforas do mundo mineral para expressar percepções díspares do homem e da história. Já na poesia de Paz, examino a pedra como metáfora de origem, mito e sagrado, a partir da análise de um poema sem título, referido pelo primeiro verso: “Como las piedras del Principio”. Como se vê, há muito pouco, ou mesmo quase nada, ligando esses poetas, que eu reúno por meio de uma imagem forte, no caso de Drummond, e além de forte, recorrente ou identitária no caso da poesia de Cabral, Neruda e Paz: a imagem da pedra.

 

Por que Drummond é a “pedra porosa”; João Cabral é a “pedra narcísica”; Neruda, a “desencantada”; e Paz, a “logocêntrica”?

Os títulos dos capítulos de meu livro sintetizam um aspecto semântico de cada “pedra” examinada. Creio que a resposta anterior esclarece um pouco essa questão. A porosidade da pedra de Drummond aponta para a permeabilidade ou vulnerabilidade de sentido que essa imagem alcança no contexto do poema “No meio do caminho”, articulado ao contexto cultural de rivalidade entre modernistas e antimodernistas. No caso de Cabral, os conceitos de narcisismo e antinarcisismo, eu os tomo emprestados a Antonio Candido e Eduardo Escorel, que os usam, respectivamente, para caracterizar a poesia cabralina desde uma perspectiva predominantemente psicológica. No meu ensaio, emprego a noção de narcisismo dentro de um enquadramento estritamente retórico, ou seja, tal conceito serve para nomear “(i) manobras textuais de autorreferencialidade [metapoesia] em poemas que, em princípio, objetivam o outro, e (ii) manobras extratextuais, isto é, externas e paralelas aos poemas, que visam à construção de um ethos autoral legitimador a priori da obra de Cabral”. Pode parecer um tanto técnica essa definição, que foi extraída da introdução do meu estudo. No entanto, em meu ensaio sobre Cabral, examino vários exemplos que ilustram esses argumentos. Sobre a imagem da pedra, ela é uma metáfora dessa autorreferencialidade na poesia cabralina. Sobre Neruda, queria entender o pessimismo histórico de sua última fase. Ou seja, como sua poesia, por um lado, incorpora os fatos históricos pós-1956, quando os horrores do stalinismo são revelados, e por outro, como essa incorporação coincide com um retorno parcial do poeta à sua fase residenciária (de Residencia en la tierra). Em relação à pedra nerudiana, sua simbologia oscila entre o entusiasmo e o desencanto com a história. Mas meu ensaio, embora examine essa oscilação, centra-se nas ideias de desencanto, desilusão, ceticismo, com que o poeta observa o fluxo da história. Por fim, no capítulo sobre Paz, localizo em sua poesia uma tensão discursiva, na forma de impasse, entre a noção de sagrado mítico (logos) e o conceito de vitalidade tal como proposto por Nietzsche. Para tanto, defino o sagrado mítico em Paz e a vitalidade nietzschiana, e mostro como essa tensão se afigura inconciliável desde o ponto de vista da crítica logocêntrica de Jacques Derrida. Todas essas questões, no entanto, nascem da leitura crítica dos textos poéticos, e são reflexões desenvolvidas com o intuito de ampliar a compreensão desses textos.

 

Octavio Paz

Octavio Paz

Quais os desafios de analisar a obra de poetas que escrevem em línguas diferentes (português e espanhol), tentando, ao mesmo tempo, uni-los em um mesmo estudo?

Volto um pouco ao ponto das universidades americanas e às ideias de diversidade e intercâmbio culturais que nelas ocorrem. Historicamente, o Brasil tem adotado uma postura mais de isolamento do que de integração em relação à América hispânica. Houve – e eu cito isso no capítulo sobre Neruda – uma política pan-americanista promovida pelo Estado Novo na década de 1940, que deu seus frutos na cultura brasileira. Mas nenhuma política integracionista pode funcionar sob o jugo de um regime autoritário. E o fato é que durante o século XX, de modo geral, o Brasil teve seus olhos voltados para a Europa e os Estados Unidos, quando poderia tê-los voltados também, com mais frequência, e até com mais afeto, aos nossos vizinhos de língua espanhola. Tudo isso, repito, tem mudado nas últimas décadas, embora não se saiba se essas mudanças continuarão seu curso. Aqui, nos Estados Unidos, cresce o interesse pelos estudos interamericanos, que em parte se assemelham ao pan-americanismo do Estado Novo, e que englobam aspectos comparativos das Américas, desde o Canadá até a Argentina, passando pelo Caribe francês, inglês e espanhol. Trata-se de uma iniciativa cujo foco principal recai numa ideia de integração dos países das Américas.

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Com meu livro, tento contribuir – e esse é o meu desafio – para uma maior integração dos estudos literários de língua portuguesa e de língua espanhola, desde uma perspectiva latino-americana, e tendo o Brasil como centro de convergência. Assim, ao abordar a poesia nerudiana, examino a princípio a história de sua recepção no Brasil. Não é exagero dizer que, em relação a Neruda, o mundo de língua espanhola se dividiu, e ainda se divide, entre nerudistas entusiasmados e antinerudistas furiosos. No Brasil, ainda que em proporção menor, não foi e não é diferente. E isso tem suas raízes e razões históricas, que procuro esclarecer. Haroldo de Campos, por exemplo, foi um antinerudista e um pró-octaviano (ou pró-Octavio Paz). Mas, curiosamente, Paz não foi um antinerudista, embora ele e Neruda tivessem divergido radicalmente no plano das ideias políticas. Tudo isso, eu trato como notas de enquadramento histórico nos capítulos sobre Neruda e Paz. Também trato um pouco das relações poético-literárias entre Drummond e Neruda, e Cabral e Neruda. Desse modo, espero contribuir para um melhor entendimento dos vínculos que nos ligam culturalmente, seja por afinidade, seja por dissidência, à América hispânica, representada em meu estudo pelo Chile de Neruda e o México de Octavio Paz.

 

O livro não traz uma “conclusão” para o estudo. A que isso se deve? Há uma “conclusão” possível?

A natureza do sentido é dinâmica e, portanto, o sentido é sempre provisório. Seu caráter provisional, no entanto, não impede que o busquemos; ao contrário, incita-nos a buscá-lo pelo prazer lúdico da busca desonerada do pressuposto da existência de uma verdade final e fixa. Essa é uma conclusão possível, e também provisória, do meu estudo. Se não dediquei um espaço específico para ela, isso se deve ao fato de o último capítulo, sobre Octavio Paz, discutir esse argumento na abordagem da crítica ao logocentrismo de Jacques Derrida. Assim, de certa maneira, o último capítulo do livro funciona como uma forma, ainda que indireta, de conclusão.

 

Prazo para inscrições para concurso literário AFEIGRAF acaba em 31/3

concurso afeigraf

O Concurso Literário da AFEIGRAF – Associação dos Agentes de Fornecedores de Equipamentos e Insumos para a Indústria Gráfica – está com inscrições abertas até o dia 31 de março.

São quatro categorias: Livro infantil ilustrado, Livro de ficção (ilustrado ou não), Livro de não-ficção  (ilustrado ou não) e Livro de Poesias. O concurso aceita apenas obras inéditas, de autores brasileiros ou estrangeiros. As inscrições são gratuitas e os vencedores serão conhecidos no segundo semestre.

Mais informações aqui.

Forte, feito palavra

Renato Tardivo*

tripe

Tripé é um dos primeiros livros daquele que viria a ser um dos escritores brasileiros mais reconhecidos e premiados de sua geração. Rodrigo Lacerda estreou em 1995 com O Mistério do Leão Rampante, obra que lhe rendeu um Jabuti na categoria Romance (aos 27 anos apenas).

Tripé foi publicado em 1999 e, conforme indicação do título, divide-se em três partes. A primeira traz três textos cujo formato se aproxima da crônica – retratos do cotidiano, falas de crianças, o mundo interno do cronista. Na segunda parte, há duas narrativas inventivamente escritas em formato de roteiro (Teatro? Cinema? Novela? Projeto de romance?), mas que em sua dinâmica avizinham-se do conto e da novela – ambas com fortes traços rodriguianos. A terceira parte traz três textos – desta vez, contos, no sentido forte do termo.

Sabemos que três pontos formam um – e apenas um – plano e que por isso são emblemas de estabilidade, equilíbrio. Nesse sentido, o “tripé” do título não se refere à reunião aleatória de três seções que, bem escritas, poderiam resultar em um projeto equilibrado.

Mais que isso, muito sutilmente e com a habilidade que conheceríamos em seus demais livros, o jovem Rodrigo Lacerda brinca com aspectos estruturais da linguagem, habitando-a por dentro. O tripé perpassa os três pontos.

O último conto sintetiza a tese do livro:

“A consciência dos homens é sustentada por um tripé. O primeiro pé traz a observação da realidade cotidiana, pura e às vezes até prosaica. O segundo é onde a subjetividade de cada um se encontra com o mundo real, distorcendo-o fatalmente. O terceiro é exclusivo dos sonhos e das fantasias, ou dos pesadelos. É este que me prende aqui. Nunca vou poder sair. Tenho um pesadelo que não vai embora.”

Neste conto derradeiro – “Hospital” –, histórias narradas anteriormente retornam, não vão embora. Onde o prosaico e o infantil tornam-se fatalidade, e a fatalidade retorna em fantasias ou pesadelos, resta a certeza: enquanto houver vida, o esqueleto irá se sustentar – sólido, equilibrado, forte – feito palavra.

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou, entre outros, os livros Girassol Voltado para a Terra (Ateliê), Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Poesia e Erotismo – Breve Nota sobre a “Antologia da Poesia Erótica Brasileira”

Paulo César Cedran*

“São misteriosos o laços que unem a poesia ao erotismo”.
Eliana Robert Moraes

Antologia da Poesia Erótica Brasileira

Das temáticas que já abordei em meus artigos, acredito ser esta uma das mais difíceis de lidar, em especial pelo preconceito e pelos estereótipos que envolvem a temática erótica. O brilhante ensaio que apresenta a Antologia da Poesia Erótica Brasileira escrito pela Prof. Dra. Eliane Robert Moraes e intitulado “Da Lira Abdominal”, apresenta com propriedade esta temática contada em verso nos poemas selecionados.

Mesmo assim, tomei a liberdade de tentar apresentar suas principais considerações quanto à singularidade da poesia erótica brasileira. Eliane busca essa singularidade na idade do ouro do lirismo grego e, em especial na poesia de Safo – poetisa de Lesbos que inaugura a poesia erótica ocidental, sob a temática da homossexualidade feminina. Da insinuação que a imaginação tem em prolongar o encontro amoroso, o passo a seguir será o de considerar que esse prolongamento se manifesta de forma múltipla, seja na pintura, na música e no gênero literário. Neste, o destaque é dado ao poema.

O erotismo, considerado por muitos críticos como um tema de segunda categoria ou mera pornografia, encontrou no poema um terreno em que se torna uma temática recorrente às diversas escolas literárias, que no Brasil nasce com Gregório de Matos e chega a Arnaldo Antunes. Assim, no corpus da obra procurou-se levar em conta tanto as formas literárias populares quanto as eruditas que trataram da temática erótica.

Dessa forma, o chamado rebaixamento da temática pode ser compreendido em duplo sentido, ou seja, o sentido literal por tratar os poemas das partes baixas do corpo humano; como também no sentido metafórico, por tratar de uma forma de amor degradada e/ou centrada no aspecto sensual  e nada sublime do modus vivendi do amor ocidental. Como lidar com esse impasse? Como fugir do lugar comum do explícito que caracteriza o pornográfico, sem deixar que o erotismo vulgarize a temática afetiva? A solução proposta por Eliane Robert Moraes isenta e ironicamente redime os supostos perversos interessados na antologia.

Ítalo Calvino (1923 - 1985)

Ítalo Calvino (1923 – 1985)

Ao buscar em Ítalo Calvino uma chave para a interpretação e solução deste impasse, assim afirma: “Ao submeter a referência sexual a uma estilização, o escritor fica livre para transformar o sexo num observatório a partir do qual se pode contemplar qualquer prisma do universo, incluindo o que está aquém ou além do próprio sexo. Daí que o autor explicitamente obsceno possa ser considerado como formula Ítalo Calvino, ‘aquele que mediante os símbolos do sexo procura fazer falar alguma outra coisa’, sendo que ‘essa coisa pode ser redefinida, em última instância, como outro eros, um eros último, fundamental, mítico, inalcançável.’” (MORAES, 2015, p.27).

Sob esta perspectiva outros olhares desafiantes e libertos da pecha do pecado podem olhar o erótico sob o cunho religioso ou até mesmo filosófico nos moldes propostos por exemplo pelo Kama Sutra indiano. Nos dias de hoje a vulgarização e a banalização do sexo se encontra no auge da fomentação e criação de distorcidos seres desejantes e menos alcançados, que é a união por meio de Eros. Como afirma Claude Calame na obra Eros na Grécia Antiga: “não corresponder ao amor que se oferece, é, portanto, recusar ou romper o contrato de fidelidade que a philotês estabelece, particularmente, pela ligação erótica; e, assim, cometer um ato injusto. (CALAME, 2013, p.18).

Busquemos essa união na fidelidade que se realiza não na mercantilização do corpo tomado como objeto, mas na necessária erotização que divinamente nos humaniza.

*Mestre em Sociologia, Doutor em Educação Escolar pela Unesp de Araraquara, Supervisor de Ensino da Diretoria de Ensino – Região de Taquaritinga, Docente do Centro Universitário Moura Lacerda de Jaboticabal e da Iesp de Taquaritinga.

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Concurso Fundação Eça de Queiroz tem inscrições prorrogadas

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Foi prorrogado o prazo para quem quiser inscrever-se no Prêmio FEQ Edição 2015/2016. Agora o prazo vai até 1º de maio deste ano.

São aceitas obras literárias (romance ou conto) inéditas e trabalhos acadêmicos (ensaios) já entregues para avaliação antes de serem submetidos à comissão julgadora do concurso.

Os trabalhos devem ter ligação com o universo literário de Eça de Queiroz e/ou da “Geração de 70”, nomeadamente nas áreas dos estudos literários, estudos históricos, estudos culturais, estudos ecoliterários e outros.

 

Mais informações: http://www.feq.pt/premio-feq-edicao-2015-2016.html

 

 

A arte do encontro

Leia a seguir o depoimento de Pedro Henrique Varoni de Carvalho, autor de A Voz que Canta na Voz que Fala: A trajetória Poética e Política de Gilberto Gil, que encontrou com o artista baiano em pleno carnaval:

varoni com gil 3

Chego de véspera para o compromisso, vindo de carro de Aracaju com minha mulher, Adriana, e meu filho, Gabriel. Salvador respira carnaval, dois dias antes da abertura oficial. Hospedo-me num hotel no corredor da vitória, numa alameda arborizada margeando a Baía de Todos os Santos. No fim de tarde, refaço os poucos metros que levam até a porta do apartamento de Gilberto Gil.  Deixo-me invadir por uma espécie de beatitude – a cidade anda nos meus passos: gente, cores, arquitetura,cheiros. É uma preparação para usufruir da melhor forma o encontro, marcado para o dia seguinte. Estou aqui para entregar uma cópia do livro A voz que Canta na Voz que Fala: A trajetória Poética e Política de Gilberto Gil, publicado pela Ateliê e Edunit e baseado em  meu trabalho de doutorado na Universidade Federal de São Carlos. Estive com ele antes, rapidamente, para entregar a tese no ensaio de um show em Ribeirão Preto, há pouco mais de dois anos. Muita coisa mudou na minha vida desde então, mudei de emprego, de cidade. Estou próximo de realizar algo impensável para o adolescente, fã da música de Gilberto Gil: ser recebido por ele em casa para uma conversa. Não ia como jornalista e nem pesquisador. É o momento de agradecer, compartilhar a boa acolhida que o livro tem tido em alguns lançamentos.

voz que canta

No dia seguinte faço o caminho ensaiado no dia anterior – dessa vez, acompanhado por Adriana. Agora é pra valer. Transpomos a portaria, caminhamos os metros que separam a área comum do prédio até o elevador e tocamos a campainha. A moça que nos atende pede para esperar um pouco porque Gil está chegando de um compromisso. Na sala ampla, conversamos sobre aquele momento, folheio um livro do fotógrafo Mário Cravo Neto com imagens representativas da diversidade cultural de Salvador: A Roma negra cantada por Gil. Um pouco mais e escuto pelos fundos da casa a algazarra das crianças chegando de um passeio com o avô. Gilberto Gil chega à sala de bermuda branca, sandálias de borracha e camisa de estampas tropicais. Caminha em nossa direção e após os cumprimentos se senta num banco em frente ao sofá onde estamos. Agradeço a acolhida e encontro um interlocutor afetuoso, interessado em saber as histórias de minha vida: como foi o processo de escrita do livro, como equilibrava a função de jornalista de televisão com a pesquisa. Por um momento parece que ele é o jornalista e eu o entrevistado.

 

gil2Depois de alguns anos vasculhando a obra do artista procuro agora ler o homem. Os olhos muito vivos, uma disposição para a escuta, aqui e agora em atenção plena. Agradeço por ser recebido em pleno carnaval, em meio aos compromissos com o camarote Expresso 2222, já tradicional na Bahia. Há, entre as falas e pausas, pequenos silêncios cheios de sentido. A conversa é sobre pais e filhos, tradições familiares.  Gil fala da experiência de tocar no bloco de Preta Gil, dias antes no Rio. “Nunca deixamos de criar os filhos, quis ir lá ver como é.” Lembra que já é bisavô – o que me leva a pensar na verve roqueira presente na interpretação de “Punk da Periferia”, no show pelo aniversário de São Paulo exibido dias antes na TV.

Pergunto se o espírito do carnaval ainda aquece seu coração. Gil acha que a cidade fica melhor nessa época e lembra como os antigos carnavais de Veneza duravam meses. “Talvez seja a hora de retomarmos esse hábito”, diz ecoando a risada aberta e franca. Falamos da crise brasileira, da importância do carnaval como afirmação de uma identidade balançada pelas derrotas no futebol, na política. O carnaval como rito de fortalecimento coletivo e individual. Confirmo uma impressão que já tinha a respeito de Gil: o ar sereno e calmo de quem, como o Dorival Caymmi cantado por ele é Buda Nagô, contrasta com a figura eletrizante nos palcos, quando ele se entrega à Deusa Música.

varoni com gil1A conversa desliza para indagações filosóficas sobre o mundo dos silêncios interiores que perdemos nesse processo intenso de refinamento dos mecanismos de controle com ares de inovações tecnológicas. Quais os rumos da história nessa segunda década do século XXI? A conquista ao direito a seis meses de carnaval ou a volta triunfal do ET de Varginha? A pergunta provoca novas risadas e recordações de uma dascanções mais filosóficas de Gil: “Queremos saber”. Ele cantarola a letra: “queremos saber/quando vamos ter/raio laser mais barato/queremos de fato um relato / retrato mais sério/ do mistério da luz/ luz do disco-voador/ pra iluminação do homem/ tão carente e sofredor/ tão perdido na distância/ da morada do Senhor.”.

É hora da despedida. No abraço final desejo, espontaneamente, vida longa ao poeta. Ele nos acompanha até a porta. É inicio da noite no Corredor da Vitória, foliões caminham em direção a Praça Castro Alves. Sigo em paz e procuro, no fundo do hotel, um canto inacreditavelmente silencioso.  Peço uma cerveja e contemploas águas calmas da Bahia de todos os santos, indiferentes ao carnaval. Penso nas pontes: entre Caymmi e Gil, entre a Bahia e Minas, entre sujeitos e objetos. Tenho vontade de ouvir a voz dos meus pais e ligo para minha terra.

Como incentivar os alunos à leitura?

Por: Paulo Cesar da Motta Ribeiro*

livro com flor

Início de ano letivo. Hora de usar a criatividade para (re)inventar maneiras de lecionar conteúdos e de pensar como superar velhos obstáculos, que se renovam a cada turma de alunos. Um deles diz respeito a como incentivar os alunos à leitura, sem fazer disso uma obrigação maçante e despertando interesse real pelo mundo de possibilidades que ela pode descortinar. E não é apenas no Ensino Fundamental e Médio que esse hábito pode (e deve) ser incentivado. O Professor Paulo Cesar da Motta Ribeiro, que leciona na FURB (Universidade Regional de Blumenau) e na UNIFEBE (Centro Universitário de Brusque), em Santa Catarina, explica como tem feito para trazer a leitura para mais perto de seus alunos. Ele é economista formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pós-graduado em Desenvolvimento Econômico pela mesma instituição. Empresário, autodefine-se como “audiófilo, bibliófilo, cinéfilo e amante do que a vida tem de melhor”. Por isso, é grande seu empenho em trazer seus alunos cada vez mais perto dos livros. A seguir, ele compartilha sua experiência com os leitores do Blog da Ateliê:

Paulo Cesar, que aproveita as provas para perguntar o que seus alunos estão lendo

Paulo Cesar, que aproveita as provas para perguntar o que seus alunos estão lendo

Minha condição de amante da literatura pode ser em parte explicada pelo fato de que na formação e na atuação como Economista a leitura é primordial, não apenas de livros-texto como de obras em geral para melhorar a base de conhecimentos. A utilização de filmes e documentários também auxilia na formação acadêmica e profissional. Em sala de aula eu sempre pergunto a cada aluno qual livro ele tem em mãos e, naquele momento, converso com o aluno e seus colegas sobre literatura. Como, nessas abordagens informais, ocorriam cada vez mais e mais conversas sobre livros, surgiu a ideia de fazer uma pesquisa sobre as leituras recentes dos alunos. É fácil, basta pedir para que anotem no cabeçalho da primeira prova qual sua leitura atual ou mais recente.

Eu coleto todos os títulos e autores citados, pesquiso para garantir que estejam corretos, informo também minhas leituras e repasso a lista completa para toda a turma.

aldous huxley

Aldous Huxley, um dos autores que o professor sempre recomenda

Os resultados são ótimos. O nível de leitura é mais alto do que a maioria pode imaginar, sendo que alguns leem em outros idiomas. Eu descobri obras magníficas a partir desta pesquisa e já li alguns títulos das listas dos alunos.

Segue um resumo das turmas de 2015:

244 alunos com 191 respostas, sendo que aproximadamente 20% informaram dois ou mais livros.

A faixa etária é a dos estudantes do ensino superior, notadamente das graduações em Engenharia (minha principal disciplina é Engenharia Econômica).

No rodapé das provas eu sempre indico alguns livros e filmes para que eles entendam que a realidade não é exatamente aquela que eles percebem. Alguns ainda se iludem, idealizam, mitificam e se deixam levar por influências que pouco têm de honestas e, atualmente, democráticas.

Há anos o “trio de ferro” de minhas indicações é:

Fahrenheit 451, Ray Bradbury

1984, George Orwell

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

Eu explico a eles o que são obras distópicas e como elas podem nos ajudar a entender o mundo e como melhorá-lo. Segue parte do texto que eu coloco no rodapé das provas:

Ray Bradbury: autor de distopias

Ray Bradbury

Fahrenheit 451′ de Ray Bradbury. O livro foi publicado em 1953 e fatos descritos na obra fazem parte de nosso dia a dia (na obra consta inclusive a explicação do motivo pelo qual acontecem). Além disso, o seu entendimento sobre o papel da cultura e da informação será irremediavelmente transformado. Também existe uma película de François Truffaut.’

Outra sugestão que eu faço é: O homem medíocre, de José Ingenieros.

Em virtude da minha base de conhecimentos não se limitar aos livros-texto, eu sempre utilizo nas aulas conteúdos que no princípio parecem que não se relacionam, ou até que são uma viagem, mas que facilitam a aprendizagem. Meus alunos estão acostumados a receberem sugestões de filmes e documentários para melhor entender os conteúdos ministrados.

Eu sempre informo na primeira aula em todas as turmas que o meu objetivo principal é o desenvolvimento pessoal e profissional deles. Que o meu papel é o de ser aquele que abre as mentes para que eles melhor se posicionem na vida com bases sólidas, portanto verdadeiras. E a literatura permite que eles melhor se preparem para assimilarem muito do que o mundo pode proporcionar.

 

E você, leitor-professor, tem alguma sugestão ou dica de como estimular a prática da leitura junto aos alunos? Mande uma mensagem para a gente, compartilhe seus conhecimentos!