Renata Albuquerque

A anatomia de Leonardo da Vinci

Cecilia Felippe Nery*

 

cadernos capa

Desde os primórdios da criação, o homem descobriu no desenho uma forma de representar – e registrar – fatos da vida e do cotidiano, visando ainda entender sua existência no mundo de maneira a aprimorá-la. Hoje pode ser banal, mas há pouco mais de 500 anos um dos grandes desafios era desbravar o corpo humano para conhecer sua intricada anatomia de músculos, esqueleto e órgãos fundamentais para a vida.

É neste cenário que surgem os artistas-anatomistas e, dentre eles, o gênio italiano Leonardo di Ser Piero Da Vinci, ou simplesmente Leonardo Da Vinci, um expoente do Renascimento que foi ainda cientista, matemático, engenheiro, inventor, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. Seu interesse pela anatomia levou-o a desenhar órgãos e elementos dos sistemas anatomofuncionais do corpo humano que, anos depois, foram reunidos, junto a anotações, no livro Leonardo on the Human Body, com tradução do italiano para o inglês de Charles Donald O`Malley e John Bertrand de Cusance Morant Saunders.

Desenhos-Anatomicos3Em 2012 a obra ganhou uma versão em português – Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci -, publicada pela Ateliê Editorial/Unicamp, com tradução de Maria Cristina Vilhena Carnevale e Pedro Carlos Piantino Lemos. O livro tem 520 páginas com informações e mais de 1.200 desenhos de Leonardo feitos ao longo de 15 anos (1498-1513), tendo por base os tratados médicos de Galeno de Pérgamo (129-200), de Mondino del Luzzi (1270-1326) e de Avicena (980-1037), além da dissecação de peças anatômicas de animais e de corpos humanos. Com esse material, Da Vinci pretendia fazer um Tratado de Anatomia, que não chegou a concluir.

Os tradutores brasileiros trabalharam em Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci durante dez anos. A obra reúne os esboços de caráter artístico e técnico, acrescida do conteúdo teórico e prático das anotações do artista, segundo os sistemas anatomofuncionais do corpo humano na sequência cronológica em que foram feitos. O livro conta com uma parte introdutória em que traz interessantes fatos históricos dos estudos anatômicos durante o Renascimento, e das ilustrações anteriores aos desenhos de Leonardo Da Vinci, durante e depois dele.

 

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Influência da matemática

Na época do Renascimento, os artistas se aproximavam dos médicos-anatomistas para melhor retratar o corpo humano em suas obras. Da Vinci, no entanto, considerava a anatomia “como algo mais que simples coadjuvante da arte” e, com isso, “adquiriu conhecimentos anatômicos que ultrapassaram aqueles que seriam suficientes para desempenhar sua arte”, descrevem os tradutores. O artista, porém, não chegou a ser um anatomista, pois estudou a anatomia de forma pouco sistemática, atendo-se mais aos aspectos que lhe interessavam artisticamente. “Mas foi o que mais conseguiu estabelecer vínculo mais estreito entre arte e anatomia, alcançando com seus desenhos anatômicos maior grau de perfeição até então alcançado por um artista-anatomista”, afirmam.

Embora alguns dos esboços de Da Vinci não tenham a perfeição de um desenhista-anatomista, as ilustrações são esplêndidas, com forte influência dos conhecimentos matemáticos do artista. Elas mostram uma evolução no trabalho de reprodução, aprendida por meio do conhecimento das leituras, a execução de algumas dissecações de animais e a inspeção da superfície do corpo humano vivo. Não é comprovado que Leonardo tenha realizado diversas dissecações humanas. A única que executou, de fato, no intuito de desvendar a disposição dos vasos do corpo humano foi a do “homem centenário”, realizada na cidade de Florença, entre 1504 e 1506.

A maior exatidão nos seus desenhos é feita a partir de 1489. Leonardo criou um método que consistia em representar cada tema sob quatro aspectos, propiciando ao observador uma visão do elemento anatômico tal qual o veria ao caminhar ao seu redor, analisando-o sob todos os ângulos. Um método que utilizaria durante toda a sua carreira anatômica.

Os esboços e as anotações de Leonardo ficaram muito tempo perdidos. Logo após sua morte, eles foram herdados por Francesco Melzi, seu discípulo, que os guardou até 1570. Mas depois foram dispersados e passaram por caminhos desconhecidos. Só no século passado que o trabalho de Da Vinci pode ser ordenado no livro de O’Malley e Saunders, trazendo assim à luz da humanidade o brilhantismo do artista, e que os brasileiros também podem conhecer na obra em português da Ateliê Editorial e Unicamp.

 

*Jornalista formada pela Puccamp, pós-graduada em Jornalismo Internacional (PUC-SP) e Jornalismo Literário (ABJL). Mantém o blog de literatura “Sobre Leituras e Observações” – www.leituraseobservacoes.blogspot.com

Leitura, cognição e cultura

A leitura é uma atividade que traz mais que novas informações; ela nos ajuda a conhecer o passado e a exercitar nossa capacidade de abstração e criatividade

Antônio Suárez Abreu*

antonio suarezBenjamin K. Bergen, professor de ciência cognitiva da Universidade de San Diego, Califórnia, escreveu recentemente um livro instigante chamado LouderthanWords, onde narra suas pesquisas sobre leitura no Laboratório de Linguagem e Cognição da sua universidade.   Segundo ele, à medida que lemos um texto, nossa mente vai construindo, inconscientemente, imagens vinculadas a ele.  Se lemos a respeito de um bife no açougue, imaginamo-lo de cor vermelha, mas, se lemos a respeito de um bife no prato, imaginamo-lo de cor marrom, tostado. Segundo ele, quando ouvimos ou lemos um texto de ação, que contém movimentos, o local de nossas mentes responsável por eles reproduz os movimentos, como se os estivéssemos de fato praticando.   A conclusão a que chegamos é que ler não nos traz apenas novas informações, mas exercita enormemente nossa capacidade de abstração criativa.

Um outro fato importante é que, em nosso dia a dia, tudo o que fazemos tem relação com nosso passado.  Se chegamos à frente de um elevador, sabemos que temos de apertar um botão para chamá-lo e, ao entrar nele, um outro, situado na parede, correspondente ao andar que queremos atingir.  Fazemos isso por analogia, porque já utilizamos, anteriormente, muitos outros elevadores.   Somente conseguimos viver e agir em nosso presente, graças ao nosso passado.   Se nossa memória passada fosse apagada subitamente, não poderíamos sequer dar um passo à frente.  Bem, é aí que surge um outro fator importante da leitura.  Por meio dela, podemos tornar também disponível para nós o passado de outras pessoas.   Antes da descoberta da escrita, cada geração partia da estaca zero, pois não dispunha dessa memória armazenada. Certa vez, quando elogiado por seus feitos científicos, Isaac Newton disse: “Se eu vi mais longe foi por estar sobre ombros de gigantes”, fazendo alusão aos conhecimentos obtidos pela leitura daqueles que o haviam antecedido.

Ler carrega nossas mentes com informações que nos permitem ser criativos, adaptando conhecimentos passados a situações presentes, utilizando elementos da ciência e tecnologia que não estavam disponíveis em épocas anteriores.  Foi o que aconteceu com Alan Turing, quando criou seu primeiro computador, durante a Segunda Guerra Mundial.  Ele foi buscar no passado as experiências de Charles Babbage e Ada Lovelace, filha de Lord Byron, criadores dos algoritmos que levariam, hipoteticamente, à construção de uma Máquina Analítica, cuja existência era impossível no século dezenove, quando havia apenas recursos mecânicos e não os eletrônicos com que contava Turing, já na metade do século vinte.

E a leitura de ficção?  Bem, estou falando de grandes autores como Shakespeare, Oscar Wilde, Machado de Assis e não de best-sellers descartáveis.  Quando lemos essas grandes obras, temos duas coisas a ganhar: a possibilidade de “viver outras vidas” e a possibilidade de conhecer épocas e culturas diferentes.   O grande escritor peruano Mario Vargas Llosa, ganhador do prêmio Nobel de Literatura, falando sobre leitura de ficção, nos diz:“Condenados a uma existência que nunca está à altura de seus sonhos, os seres humanos tiveram que inventar um subterfúgio para escapar de seu confinamento dentro dos limites do possível: a ficção.  Ela lhes permite viver mais e melhor, ser outros sem deixar de ser o que já são, deslocar-se no espaço e no tempo sem sair de seu lugar nem de sua hora e viver as mais ousadas aventuras do corpo, da mente e das paixões, sem perder o juízo ou trair o coração.”

Além de viver outras vidas em nossas mentes – e aprender e crescer com elas – quase sempre nos deparamos com informações interessantes sobre o mundo presente ou passado.  Lendo o clássico To Kill a Mockingbird, de Nelle Harper Lee, topamos com a descrição de um meio de transporte chamado “HooverCart”.  Ficamos, então, sabendo que nos Estados Unidos, durante a grande depressão dos anos 30, pessoas que tinham comprado automóveis e não tinham mais dinheiro para a gasolina arrancavam seus motores e atrelavam cavalos ou mulas à lataria, improvisando um meio insólito de transporte, batizado, por ironia, com o nome do presidente americano da época Herbert Hoover.

Ler, enfim, é muito mais que simplesmente informar-se. Leitura é diversão, uma maneira de conhecer realidades distantes no tempo e no espaço e de colecionar uma bagagem cultural ampla, que nos ajuda a entender o mundo de uma maneira mais vasta e profunda.

 

* Antônio Suárez Abreu é professor titular de Língua Portuguesa da UNESP, professor associado da USP e autor de vários livros sobre a linguagem.

Conheça a obra de Antônio Suárez Abreu

Quando não há mais sujeito e objeto

Renato Tardivo*

 

Viagem a um Deserto Interior é o mais recente livro de Leila Guenther. Seus poemas e microcontos agrupam-se em cinco seções: “Paisagens de Dentro”, “O Deserto Alheio”, “Castelo de Areia”, “Um Jardim de Pedra” e “A Possibilidade de Oásis”. Nota-se, portanto, uma (bem-sucedida) intenção narrativa oferecendo de antemão continente às narrativas do livro. Não é aleatório que o “espaço” seja o tema mais relevante da obra; aliás, ele está indicado em diversas palavras-chave: “viagem”, “deserto”, “interior”, “paisagens”, “castelo”, “jardim”, “oásis”.

Mas, se há deslocamento do interior de si para o interior do outro, da fragilidade da areia para a dureza da pedra, da aridez do deserto ao oásis (ou à possibilidade dele), há deslocamento também entre os versos dos poemas e os microcontos, o que confere ainda mais movimento à viagem. Aqui, poesias são narrativas e narrativas, poesias.

Imagem2Há algo de Drummond – cuja referência chega a ser explicitada – no modo de abordar o desconcerto de mundo, nos desfechos surpreendentes, no olhar ao mesmo tempo simples e profundo. Leila, ainda, repete alguns temas (suas pedras no meio do caminho?),de modo a marcar a passagem do tempo, a efemeridade do instante: a mulher sem filhos, as noites das estações do ano, as referências orientais…

E, no fim, há oásis? Cabe ao leitor empreender a sua própria descoberta. Leila nos ajuda, e muito, sugerindo trajetórias, habitando os continentes possíveis e impossíveis, da caixa de sapatos (em que consegue caber) ao desejo de ser trapezista (o que ainda não é).

Mas, talvez,a dica mais preciosa esteja em “Mushin” (em uma tradução livre, “suspensão do pensamento”):

 

Quando não há mais sujeito e objeto

como saber se aquele que mata

não é o mesmo que é morto?

 

 

Conheça outras obras de Leila Guenther

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Os Mistérios dos Livros de Pantagruel

Nova tradução do Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, exclusiva da Ateliê Editorial, esclarece pontos obscuros de versões anteriores
 

Nesta entrevista, Élide Valarini Oliver fala sobre o trabalho de tradução do Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, editado pela Ateliê Editorial, com coedição da Editora Unicamp. Professora titular de literatura brasileira e comparada na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, ela destaca dois mistérios que descobriu durante esse trabalho e deixa explícito o critério que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Melhor Tradução pelo Terceiro Livro da série: “Em geral, as traduções para as outras línguas não respeitam o estilo do autor”, diz.

 

Bom Pantagruel_Capa jpgSua tradução é feita diretamente do francês. É a primeira vez que isso acontece?

Élide Valarini Oliver Hoje em dia, apenas especialistas conseguem entendê-lo. Por isso, existem “traduções em francês modernizado” para o público não especializado francês. Além disso, o próprio estilo do escritor é extremamente exigente, erudito, cheio de referências recônditas, jogos de palavras impossíveis em outras línguas, etc. Em geral, o que se traduz são apenas os dois primeiros livros do autor.

Muito tempo atrás folheei uma edição portuguesa, que me pareceu bastante distorcida e pobre. Em geral, as traduções para as outras línguas não respeitam o estilo do autor, suas peculiaridades, suas inversões “barrocas” digamos assim, as assonâncias de poeta que se encontram no texto. Elas também não rimam o que está rimado no texto, não propõem soluções criativas para os problemas que a cada frase se encontram em Rabelais, cortam trechos do texto… Não estou exagerando.

O que mais incomoda, porém, é o desrespeito ao estilo, a tentativa de fazer o autor encaixar-se numa língua preestabelecida, em vez de fazer a língua encaixar-se no estilo do autor, que é o que o próprio autor fez, quando escreveu em sua própria língua.Assim, se o autor inventa uma terminação esdrúxula num adjetivo, temos que manter isso, não importa o quanto “esdrúxulo” isso possa parecer.

Outra coisa grave é achar que só porque uma palavra parece a mesma, ela significa exatamente a mesma coisa atualmente. Não é bem assim. É preciso conhecer filologia, gramática histórica, etc. Tudo isso eu comento, em notas de rodapé, em minha tradução. O que fiz, porque fiz, discuto origem das palavras, o que for necessário.
Outra coisa grave é tentar “limpar” o texto das palavras obscenas que o autor usa. Isso chega a ser antiético, pois o tradutor não pode ser censor. Mas ocorreu, e ainda ocorre. Nos séculos subsequentes, era comum, na França, aparecerem edições expurgadas assim.

Qual o diferencial desta tradução frente às já existentes, já que falamos de uma obra clássica?

EVO: Acho que o que a diferencia é que sou uma estudiosa do autor. Minha tese de doutoramento foi sobre ele e Joyce. Mais tarde, baseada nesta tese, mas já com muito mais material, escrevi um livro sobre ele, publicado também pela Ateliê: Joyce e Rabelais: Três Leituras Menipeias.
Além desse interesse acadêmico, digamos, também escrevo poesia, contos, crônicas. Tenho paixão pela literatura. Gosto de traduzir.

Sempre vivi no meio de várias línguas: francês, italiano, inglês, português, latim. Adoro provençal, occitan, etc. Gosto também de etimologia. Em suma, tudo isso entra e acaba fazendo a diferença. Por exemplo, ao traduzir o Quarto Livro, por causa dessa babel linguística em que vivo, acabei, por assim dizer, esclarecendo dois mistérios, duas expressões que Rabelais usa e que as edições francesas acadêmicas ou não comentam, ou propõem soluções que não podem ser aceitas. Explico isso nas notas correspondentes, pois no total acabei fazendo 1.411 notas para esta edição. Com isso, escrevi também um artigo, em francês, para comentar e propor minhas resoluções, que vai sair nos Nouvelles Etudes Rabelaisiennes.

 

ElideValariniQuais são os dois mistérios que você esclareceu durante a tradução?

EVL:Acho que viver numa confluência de línguas, nessa babel em que vivo, não é fácil. Muitas vezes esqueço uma palavra na língua em que mais necessito e lembro em pelo menos duas outras que não vão me servir em nada no momento (risos), mas em alguns casos ajuda muito, sobretudo no universo rabelaisiano, por exemplo. Foi o que aconteceu com uma palavra “misteriosa” que Rabelais usa e que grafa “cela”. Ora, todo o mundo sabe que “cela” quer dizer “aquilo ali”, ou “isso” ou ainda “isso aí”, dependendo do contexto. Evidentemente, Rabelais usa este e outros demonstrativos, mas em uma frase no fim do capítulo XLVII, a palavra “cela” não tem nada a ver com isso e se tornou um mistério.

Alguns editores franceses acham que se trata de Sela, em hebraico, mas isso não faz sentido tampouco, inclusive porque quando Rabelais usa Sela, ele o faz com “S” e sabe muito bem a diferença. Outros ainda acham que foi um cochilo, etc. Mas, consultando o dicionário Cotgrave, francês-inglês, elaborado no século dezessete pelo autor homônimo, e que inclui verbetes de muitas palavras e expressões usadas por Rabelais, encontrei ali um segundo significado de cela, ligado a “wot” – palavra agora arcaica em inglês, de “wit”, mas usada por Shakespeare, por exemplo, e que significa “ter sacado alguma coisa”.
Isso, sim, fazia sentido com o contexto do Rabelais.

O outro mistério diz respeito a uma expressão encontrada no capítulo LXVI: “contre faire le loup em paille” que hoje ninguém sabe mais o que quer dizer. Também encontrei no Cotgrave alguma glosa, mas isso é mais complicado porque diz duas coisas diferentes: seria fingir que se dorme, ou também estar entre o acordar e o dormir. Cada edição do Rabelais em francês oferece uma sugestão, mas não fazem sentido. A edição da Pléiade, muito bem-feita e bastante séria, não oferece sugestão nenhuma, o que acho melhor. Comentei tudo isso nas notas que fiz à minha tradução, mas depois resolvi escrever um pequeno artigo em francês a respeito disso e o enviei à Mireille Huchon, que editou minuciosamente a obra completa do Rabelais para a coleção Pléiade, e que é uma autoridade no assunto Rabelais. Foi assim que surgiu a oportunidade de publicar o meu artigo para a Nouvelles Études Rabelaisiennes.

Quando sai o artigo na Nouvelles Etudes Rabelaisiennes?

EVO: Ainda não sei quando vai sair o artigo porque, de pequenininho que era, realmente muito modesto, inclusive em termos de contribuição aos estudos rabelaisianos, está virando, graças às sugestões de Mireille Huchon, um pouco maiorzinho. Estou em fase de revisão final.

Você tem a intenção de traduzir outros livros do Bom Pantagruel?

EVO: Sim, tenho a intenção de fazer (quase) toda a obra. Ou seja, agora, os dois primeiros livros ao menos. Estou começando o Gargantua. Resolvi começar pelo Terceiro e depois fui para o Quarto – que são os mais complexos em todos os sentidos. E também porque são os menos conhecidos. Quando se trata de Rabelais, muitas vezes o público não sabe que ele escreveu o terceiro e o quarto. Haveria também o que se convencionou chamar de Quinto Livro, mas isso é um problema, pois o que se acreditou ter sido um livro inacabado do autor, na realidade, hoje mais parece um rascunho para o Quarto Livro. Ainda não resolvi se vou entrar nisso, mas os “prognósticos pantagruelinos” são divertidos também. Vamos ver.

Que linha você segue na hora de fazer um trabalho como esse? O que considera essencial e do que procura fugir?

EVO: Em minha introdução ao livro, dou muitos detalhes sobre os critérios que uso para traduzir. O que posso dizer é que não sigo linha alguma. Sigo a linha do Rabelais. Ele é meu companheiro de jornada há muitos anos, isso acaba gerando uma certa afinidade, que me dá, mais ou menos, uma liberdade para imaginar que se ele estivesse escrevendo em português, usaria esta ou aquela palavra, por exemplo. E depois, ao reler, sempre imagino que ele está ali do lado. E se ao reler, rio muito, então melhor ainda!

Mas, além da tradução, o que fiz foi proporcionar ao leitor um contexto amplo não apenas das ocorrências e situações aos quais o livro se refere, mas, por exemplo, na introdução, contextualizar o livro em sua época, os perigos que o autor incorreu ao publicá-lo, as ideias de Rabelais, etc. Acho que isso ajuda o leitor, visto que se trata de um autor que, se já era complexo em seu tempo, agora, passados quinhentos anos, o é ainda mais.
Outra coisa importante: devido à minha profissão, tenho tempo para fazer isso. Traduzir Rabelais acaba fazendo parte da minha vida, quase como uma atividade à parte. Não trabalho apenas com Rabelais. Escrevo, pesquiso e dou aulas sobre literatura brasileira e comparada. Acabei de publicar um livro sobre Machado de Assis, por exemplo. De certa forma, traduzir Rabelais para mim, é como partir em viagem.

Ler é cegar o tempo

A leitura é um hábito que pode ser cultivado até mesmo quando se leva a vida corrida das metrópoles

 Alex Sens*

 

Verão na Noruega, o sol brilha tímido nas fímbrias escuras da meia-noite e os turistas exploram sua natureza com aquele desejo fervilhante de aventura. De uma perigosa formação rochosa chamada Trolltunga, despenca uma estudante australiana que só queria fotografar a si mesma. Um casal de alemães adentra a famosa geleira Nigardsbreene é esmagado por um bloco de gelo que se desprende abruptamente, assim como suas vidas. Uma russa se arrisca na beirada íngreme da cachoeira Vøringsfossen e é engolida pela furiosa morte líquida que já desfez tantos outros corpos.

Se a leitura fosse uma distração perigosa, colocada nesses contextos seria mais cômica do que trágica. Morrer lendo talvez soe romântico e é inegável sua possibilidade. Os turistas, corajosos ou desavisados, não estavam lendo, mas poderiam. Trazendo outros acidentes para cá, eis a mulher cair nos trilhos do metrô enquanto caminha com um livro aberto e os olhos salgados de emoção; eis o jovem poeta atravessar a Avenida Paulista e ser levado por um ônibus enquanto lê T. S. Eliot e morde uma maçã verde, que rola pelo asfalto com uma vírgula de sangue onde os dentes cavaram um verso; eis o professor apressado que pisa em falso enquanto lê um ensaio da Sontag e desaparece na escuridão de um bueiro. Trocamos os livros por celulares e a realidade macabra dessas imagens torna-se ainda mais palpável.

Foto de Alex Sens

Foto de Alex Sens

Sem um livro, a concentração do sujeito durante o momento da espera é absolutamente focada na própria espera e na inflexível densidade do tempo. Em agências bancárias, presas em filas tediosas, pessoas cujos olhos se voltam urgentes para o alarme que indica a próxima senha se acham nauseadas pelo ócio.Com tantas pessoas perdidas num vazio característico das filas, sobretudo a dos bancos, a vontade é de dar a elas um pouco de leitura, uma utilização inteligente do tempo. Ler é cegar o tempo, mas comumente estamos diante de um tempo enxertado nos olhos arregalados da pressa ou cansados da modorra. Ler, onde quer que seja, é viver em melhor companhia, mas invariavelmente, dentro ou fora das filas, o que vemos é o tempo fugindo da leitura e sendo reclamado como se fosse estreito, tão estreito como um livrinho de cem páginas possível de ser lido em dez dias durante aqueles minutos que antecedem o sono — ou sua vez numa fila.

Com o mesmo caráter raro de encontrar um âmbar durante um passeio, no Brasil e em tantos outros países em que a leitura também é um problema socialmente desigual, ainda é um instante de encanto ver um leitor distante da sua condição de ponteiro-de-tempo no relógio-fila, apartado da espera, esse lugar inatingível quando a literatura ou qualquer outro tipo de arte é o próprio meio. Estamos acostumados a ver cabeças tombadas sobre aparelhos luminosos, nunca sobre um conjunto de folhas. Concentração, adquirida com mais leitura, é a força necessária para a lógica de uma interpretação coesa. O saber ler nada tem a ver com a decifração de símbolos e fonemas, mas com interpretação, e a competência para ela vem tanto da concentração dedicada quanto da necessidade de se perguntar a leitura, de se deixar encharcar pelo que está sendo lido.

Como toda atividade mental que tem a necessidade de se tornar mais uma atividade possível, portanto acessível a todos, a prática da leitura demora a ser enraizada e tornada não intervalo de tempo, mas consumação dele, comunhão com a inteligência e com a cultura. Utilizar-se da leitura sem moderação, mas com um olhar e um ouvido no mundo ao redor para que ela não se torne assassina da atenção, em trens, metrôs, filas e salas de espera, pode e deve ser a extinção das desculpas e da culpabilidade da falta de tempo. Nós controlamos nosso tempo, nós, e somente nós, o moldamos como argila e damos a ele o formato mais adequado. Por prazer ou acidente, leia sempre, leia mais, leia muito. Só não morra por isso porque há uma lista infinita de obras a serem lidas e elas esperam ser dessacralizadas pelo seu precioso e irrecuperável tempo.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

Boris Kossoy faz 50 anos de carreira dedicada à fotografia

Fotógrafo brasileiro é uma das mais fortes referências para estudiosos e amantes da fotografia

Por Milena Oliveira Cruz

Boris Kossoy não é apenas um dos mais importantes fotógrafos nacionais; é, também, um grande estudioso da história da fotografia e de seu caráter documental. Foi graças às suas pesquisas incansáveis que em 1976 o mundo soube: a fotografia foi descoberta no Brasil, pelo francês Hercule Florence, e não por Louis Daguerre, na França de 1839, como até então se acreditava.

A todo momento, a carreira de Boris Kossoy uniu criação e reflexão, como em Realidades e Ficções na Trama FotográficaEste livro aborda os mecanismos mentais que regem a representação (produção) e a interpretação (recepção) da fotografia. De maneira didática, o autor explica o processo de construção de realidades – e, portanto, ficções – que a imagem possibilita.

Hildegard Rosenthal. Largo do Arouche em Janeiro de 1942. Acervo Instituto Moreira Salles.

Hildegard Rosenthal. Largo do Arouche em Janeiro de 1942. Acervo Instituto Moreira Salles.

Fotografia & História, lançado em 2001, é uma publicação pioneira no país, que traz princípios de investigação e uma metodologia de análise crítica das fontes fotográficas, a partir de uma abordagem sociocultural. Em 2012 a obra ganhou uma edição ampliada da Ateliê Editorial e ainda hoje é considerada referência para historiadores, cientistas sociais e estudiosos da comunicação.

Os Tempos da Fotografia – O Efêmero e o Perpétuo reúne textos sobre história, imprensa e memória, em que a fotografia é tanto fonte de pesquisa quanto objeto de estudo. O efêmero e o perpétuo fundamentam suas reflexões sobre a imagem e, nessa perspectiva, a fotografia ocupa o centro do debate sobre as ambíguas relações entre representação e fato, entre o aparente e o oculto. Boris Kossoy também publicou, pela Ateliê Editorial, Imprensa Confiscada pelo DEOPS – 1924-1954, em parceria com Maria Luiza Tucci Carneiro.

A importância do trabalho de Boris Kossoy é reconhecida também no exterior: obras do fotógrafo fazem parte do acervo permanente do Museum of Modern Art – MoMA (Nova York), George Eastman House (Rochester, Nova York), Smithsonian Institution (Washington, D.C.), Bibliothèque Nationale de Paris e Museu de Arte de São Paulo, entre outras instituições.

Boris Kossoy. Brasília, 1972. Acervo do Autor.

Boris Kossoy. Brasília, 1972. Acervo do Autor.

Por tudo isso, ele recebe, a partir de 10 de setembro, uma exposição internacional que celebra os seus 50 anos de carreira: Imago: sobre o Aparente e o Oculto. “Procuro e encontro grande parte dos meus temas no contexto da chamada realidade concreta, imediata. Nela me intrigam certos cenários e fatos corriqueiros que passam normalmente despercebidos para outras pessoas: não posso deixar de registrar determinadas ocorrências que noto nas casas, nas ruas, nos caminhos, nas janelas para onde dirijo minha câmera, lembrando Hitchcock, tentando desvendar o drama que pode estar acontecendo naquele lar, nas vitrines do comércio, na sedução de um gesto, na inquietação de um olhar”, diz Kossoy na página da Fundação Brasilea, onde será realizada a exposição.“(…) Me refiro, pois, ao que a câmera não registra, o oculto da representação, sua realidade interior. Passados 50 anos de meus inícios na fotografia, ainda é esta dicotomia do aparente/oculto o desafio permanente que me motiva e emociona.”

Conheça mais sobre a obra de Boris Kossoy

Leila Guenther fala do processo criativo de Viagem a um Deserto Interior

Livro de poemas e haicais, que acaba de ser lançado pela Ateliê Editorial, trata de temas como solidão, fuga e libertação. Confira abaixo entrevista com a autora

Leila2Quais as suas motivações para escrever poesia e não prosa, por exemplo? E quais as motivações para escrever Viagem a um Deserto Interior?

Leila Guenther: Comecei escrevendo prosa. Contos, mais especificamente. Publiquei O Voo Noturno das Galinhas pela Ateliê Editorial, que acaba de ser lançado em uma edição portuguesa. E participei de antologias de contos. Depois houve a necessidade de experimentar outras formas, mas também a percepção de que os contos que escrevia, os mais breves, pelo menos, estavam próximos da poesia. Na verdade, mais próximos da poesia que da prosa. Isso me permitiu me aventurar pelo gênero. E, quando surgiram os esboços de Viagem a um Deserto Interior, me dei conta de que não havia outra forma para aqueles textos que não fosse a poética. As motivações para escrever – qualquer coisa – são sempre de ordem íntima. Escrevo porque é um jeito de estar por inteiro no momento presente.

O que você leu que serviu de inspiração para se tornar uma poeta?

L.G: Não me vejo como “poeta”. Não me vejo sequer como escritora. Nem todo mundo que cuida de doente é enfermeiro. Sou, antes, uma leitora. Uma amadora, no bom e no mau sentido. E, como gosto de observar e de aprender, tudo me serve de inspiração.

Como sua atividade acadêmica influencia a sua produção literária?

L.G: Não tenho atividade acadêmica, propriamente dita, mas como trabalho no mercado editorial, principalmente com material didático, acabo tendo a oportunidade de ler muita coisa que não leria, não fosse por isso. E, claro, essas leituras me influenciam, me fazem pensar, aguçam minha curiosidade.

Você prefere não usar formas fixas, como soneto?

L.G: Não se trata de preferência. Nunca pensei a respeito. Mas no livro há muitos haicais e, embora eu não tenha preocupação com o número fixo de sílabas – cinco/sete/cinco, eles não fogem muito disso.

Imagem2Viagem a um Deserto Interior foi desenvolvido a partir de um material que você já tinha ou você decidiu escrever o livro e então passou a produzir os poemas? Quanto tempo você demorou para reuni-los/escrevê-los?

L.G: Eu tinha escrito alguns textos e, como no caso de O Voo Noturno das Galinhas e do livro de contos que acabo de terminar, percebi que eles se articulavam, que as temáticas se relacionavam para compor um todo. Concluí o livro muito mais rapidamente do que esperava. Dois anos, mais ou menos, o que, para mim, é um recorde. A execução de Viagem a um Deserto Interior coincidiu com uma fase de transformação profunda por que estava passando, que me fez sentir muito mais livre para escrever. Foi uma mudança tão grande que já tenho praticamente pronto mais um livro de poemas.

O que você pode nos dizer sobre a escolha dos temas da obra?

L.G: Viagem a um Deserto Interior é um livro de poemas e haicais dividido em cinco partes: Paisagens de Dentro, O Deserto Alheio, Castelo de Areia, Um Jardim de Pedra e A Possibilidade do Oásis. Tais partes relacionam, respectivamente, drama interior e solidão; o Outro, lugares estranhos/estrangeiros e o desejo de fuga para regiões distantes; observação minuciosa do ambiente doméstico; o ambiente urbano, a natureza e o caminho do zen-budismo; e, com alguma ironia, a lembrança do amor e o desejo de libertação.

Qual é, para você, a importância das ilustrações de Paulo Sayeg na obra?

L.G: Faz mais de quinze anos que me identifico com o trabalho dele. Seus traços são magníficos e se combinaram aos textos, enriquecendo-os. Foi a realização de um sonho.

Viagem a um Deserto Interior foi selecionado no Programa Petrobras Cultural 2012, correto?

L.G: Sim. Foram 1452 inscritos em Produção Literária e Viagem a um Deserto Interior ficou entre os 17 contemplados.

Décio, plural

Na data em que faria 88 anos, Décio Pignatari ganha exposição em sua homenagem

Por Renata de Albuquerque

Decio Pignatari crédito Vilma SlompSe estivesse vivo, Décio Pignatari faria hoje 88 anos. Nascido em Jundiaí, interior paulista, Pignatari tornou-se um dos mais importantes intelectuais de sua época. Ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, lançou as bases da Poesia Concreta, que mudou profundamente a literatura brasileira e ecoou por todo o mundo.

Pignatari, a um só tempo, criou a Teoria da Poesia Concreta e a colocou em prática, com seus poemas, romances, contos, crônicas e até peças de teatro. Foi ensaísta, tradutor, escritor, bacharel em direito, publicitário, ator (atuou em Sábado, de Ugo Giorgetti) e professor. Um multiartista, intelectual que atuava nos mais diversos meios.

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Poema “Beba Coca-Cola”: crítica à perda da identidade cultural

Morto em 2012, Pignatari torna-se, agora, tema da exposição “Arquivo Décio Pignatari: Um Lance de Dados”, que acontece no Centro Cultural São Paulo, de hoje até 25 de outubro. A exposição busca contextualizar a obra poética e teórica de Décio Pignatari, por meio de debates, palestras e da exibição de livros, datiloscritos, áudios, partituras e correspondências, entre outros. A mostra tem um arranjo constelar e é composta de núcleos por onde orbitam dados das diferentes frentes de Décio Pignatari. A poesia concreta, como não poderia deixar de ser, tem lugar de destaque. Os itens ficam dispostos em estantes, que não apenas mimetizam uma biblioteca, mas também convidam o visitante à interação.

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“Organismo”: o ato sexual em poema

O nome da exposição alude a Un Coup de Dês, poema de Stéphane Mallarmé, que se tornou base fundamental da formulação poética da Teoria Concreta. O poeta francês é o assunto de um dos núcleos da exposição. Outro é dedicado a Ezra Pound, cuja obra Pignatari traduziu e cujo experimentalismo foi-lhe inspirador. O terceiro núcleo, por sua vez, tematiza Oswald de Andrade, pilar “marginalizado” do Modernismo Brasileiro, cuja importância Pignatari ajudou a revitalizar.

O quarto núcleo da exposição é dedicado ao próprio Pignatari, com a exposição de peças de seu espólio, que está sendo catalogado e digitalizado. São raridades, como exemplares das revistas Noigandres, Invenção e Código. Ao todo, catorze estantes reúnem poemas, fotos, publicações e edições especiais, além de uma mesa com livros para leitura e manuseio. Tudo para entrar no universo de Pignatari e perceber que ele é imenso e plural.

Serviço
Arquivo Décio Pignatari: Um Lance de Dados
De 20 de agosto a 25 de outubro de 2015
Centro Cultural São Paulo: Rua Vergueiro, 1000 (Sala Tarsila do Amaral)
De terça a sexta: das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados: das 10h às 18h
Informações: (11) 3397-4002

Abertura da exposição – 20 de agosto, 19h

Debate – 27 de agosto, às 19h
Signatari: do verbal ao não verbal
Augusto de Campos, Tadeu Jungle, Walter Silveira e Dante Pignatari como mediador
Local: Sala Lima Barreto

Palestra – 28 de agosto, às 19h
Décio Pignatari e o Memorial da Cultura – IDART
Claudio Ferlauto
Local: Sala de Debates – Piso Caio Graco

Conheça outras obras de Décio Pignatari

Raduan Nassar e os 40 anos de Lavoura Arcaica

*Por Renato Tardivo

TardivoA mesa com o cineasta e diretor de tevê Luiz Fernando Carvalho e o escritor Lourenço Mutarelli estava atrasada. O anfiteatro da Livraria da Vila, na Vila Madalena, em São Paulo, estava lotado. Marcelino Freire, organizador da Balada Literária, evento que naquele ano de 2012 homenageava o escritor Raduan Nassar, estava apreensivo. “O Luiz está atrasado, porque foi almoçar com um amigo aqui de São Paulo – vocês imaginam quem é o amigo…”, sugeriu Marcelino, dando a entender que seria o próprio Raduan. Como se sabe, o autor de Lavoura Arcaica, Um Copo de Cólera e Menina a Caminho e outros contos se mantém reservado desde que abandonou a literatura para dedicar-se exclusivamente à produção rural. Era esperado, portanto, que não estivesse nos seus planos dar as caras na Balada Literária, ainda que – ou sobretudo – na condição de autor homenageado. Mas qual não foi a surpresa de todos quando Luiz Fernando Carvalho chegou na livraria na companhia de Raduan Nassar? Atônito, o público ficou em pé. Eu jamais me esquecerei do que se seguiu. Raduan trocou o semblante estrangeiro de quem não pertencia àquela parafernália toda ao me ver na primeira fila e, com certa familiaridade, sussurrar: “Oi, Tardivo”.

Porvir que vem antes de tudoTenho muita admiração por Raduan Nassar. Seu romance Lavoura Arcaica, um dos livros mais importantes da literatura brasileira, me acompanhou (sempre me acompanhará) durante o meu mestrado, quando analisei a correspondência do livro com o filme homônimo (dirigido por Luiz Fernando Carvalho). O trabalho foi publicado pela Ateliê – Porvir que Vem Antes de Tudo Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica. O romance, lançado em 1975, completa 40 anos agora em 2015. A Revista Cult lembrou-se da data e me convidou a escrever sobre o romance na edição de fevereiro. Por sinal, sempre que tive oportunidade ao longo deste ano, como agora, faço questão de festejar os 40 anos de Lavoura Arcaica.

Na condição de pesquisador, jamais esbocei qualquer tentativa de me encontrar com Raduan. Sempre soube de sua postura reservada e optei por respeitá-la de antemão, procurando me abrir exclusivamente para o que a obra me comunicasse. Posso dizer que funcionou. No momento certo, com o trabalho já publicado, tive a felicidade de conhecê-lo. O encontro a que me refiro no parágrafo inicial deste texto foi o segundo, ocasião em que pudemos papear mais um pouco. Raduan Nassar escreveu (apenas?) 3 livros, sua “safrinha” como ele já disse, e vêm dessa safrinha as linhas mais preciosas que a literatura brasileira produziu. Pelo o que expus até aqui, reconheço que sou suspeito, mas basta consultar nossos antologistas ou críticos para confirmar que Raduan Nassar é um dos nossos autores mais relevantes – no patamar em que se encontram Machado, Rosa, Álvares, Drummond, Bandeira, Graciliano, Clarice…

Meu espaço para este texto está perto de acabar e noto que pouco ou nada falei sobre Lavoura Arcaica. Talvez porque, com o passar do tempo, eu tenha me permitido revisitar os afetos envolvidos em meus encontros, desencontros e reencontros com a história (tarefa, diga-se, encampada por André, narrador-protagonista do romance). É nessa condição que me recordo de uma das poucas perguntas na Balada Literária que fez Raduan levantar a cabeça (quase sempre baixa) e dizer alguma coisa. Perguntaram a ele se sua entrega à literatura teria valido a pena. Após alguns segundos com o olhar fora de foco, Raduan virou-se para o interlocutor e, com alguma resignação, sussurrou: “Não sei”.

Conheça mais sobre Lavoura Arcaica

Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Livro Os Arquétipos Literários ganha reedição

Edição com tradução inédita, que estava esgotada, mostra como Eleazar Meletínski modifica e amplia a teoria junguiana sobre os arquétipos, para aplicá-la aos estudos literários

Por: Renata de Albuquerque

Os livros escritos por Eleazar Meletínski situam-no como um dos nomes mais importantes das Ciências Humanas na Rússia. Em Os Arquétipos Literários, ele dá continuidade à pesquisa sobre mito e literatura, analisando como mitos e arquétipos são abordados nessa arte. Em sua pesquisa, Meletínski amplia as fronteiras da teoria junguiana sobre os arquétipos. De acordo com o autor russo, as relações individuais/coletivas começam a manifestar-se apenas no “estádio” do romance cortês e medieval (e não desde o “estádio” do mito). Segundo ele, a função do mito seria harmonizar as relações do homem com a sociedade e o mundo, para além de harmonizar a consciência individual com a subconsciência coletiva.

O livro, que hArquetiposavia sido publicado em 1998 pela Ateliê Editorial, em tradução inédita feita por Arlete Cavaliere, Aurora F. Bernardini e Homero Freitas de Andrade, estava esgotado nas prateleiras. Agora que a obra ganha reedição, o Blog da Ateliê conversou com Arlete Cavaliere a respeito. Ela é ensaísta, tradutora e professora de teatro, arte e cultura russa e professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde se graduou em língua e literatura russa e defendeu seu mestrado, doutorado e livre-docência. Realizou estágio de pós-doutorado durante o ano de 1992 na Universidade Nova de Lisboa, onde também lecionou. Foi professora leitora na Universidade Estatal Lomonóssov de Moscou entre 2002 e 2003. Coordena o Curso de Língua e Literatura Russa do Departamento de Letras Orientais e o LERUSS-Laboratório de Estudos Russos-FFLCH/USP. É autora e organizadora de vários livros, como O inspetor geral de Gógol-Meyerhold: um espetáculo síntese (Perspectiva, 1996); Tipologia do simbolismo nas culturas russa e ocidental (org., Humanitas, 2005); e Teatro russo: literatura e espetáculo (org., Ateliê Editorial, 2011). De sua atividade como tradutora, destaca-se a cotradução de Ivánov, de A. P. Tchékhov (Edusp, 1998) que foi indicada ao Jabuti.

Em sua opinião, qual a importância em discutir os mitos a partir de uma visão semiótica na literatura, como é a abordagem de Meletínski? A psicanálise é uma chave eficiente para a análise de obras literárias em quaisquer circunstâncias?

Arlete Cavaliere: O etnólogo russo Eleazar Meletínski propõe um caminho teórico de extremo interesse para se pensar e analisar a obra literária dentro de uma perspectiva ligada à poética histórica, à mitologia comparada e à tradição do folclore narrativo e épico-heróico. Em um primeiro momento a estratégia analítica de Meletínski é inventariar os mais importantes grupos arquetípicos que constituem a estruturação básica e os motivos que permeiam a narrativa, seguindo um percurso a partir do estudo do mito, passando para o conto maravilhoso, depois para o epos, para o romance de cavalaria e, finalmente, para o romance de costumes. Conforme Meletínski explicita em seu livro Os Arquétipos Literários, o seu objetivo não é a descrição mitológica enquanto tal, mas a resenha daqueles “tijolos” de enredo que constituíram o arsenal básico da narrativa tradicional.

De que maneira a questão dos arquétipos literários está presente na literatura brasileira? Muitas pessoas conseguem perceber esta questão em obras como Grande Sertão: Veredas, Macunaíma e outras. Mas é possível aplicar esse tipo de leitura a obras de autores mais contemporâneos? Como?

A.C.: Se a proposta essencial de Meletínski é apresentar um desenvolvimento orgânico e dinâmico de diversos motivos arquetípicos de modo a alcançar também, por meio desse viés analítico, as transformações dos arquétipos na literatura moderna, me parece perfeitamente possível analisar esse processo da passagem do mito à literatura, tomando como objeto de estudo diferentes textos literários, modernos ou contemporâneos. Refletir e captar o movimento dessa espécie de “desmitologização” e de afastamento gradual dos temas mitológicos tradicionais em literaturas de outros países e de diferentes épocas pode ser um procedimento de análise muito profícuo.

Em sua opinião, há alguma forma renovada, diferente ou inovadora do uso de arquétipos literários que possa ser dada como exemplo, nacional ou mundialmente?

A.C.:Certamente o diálogo que as teorias de Meletínski estabelecem com as investigações do estruturalismo francês, da semiótica e da psicologia junguiana abre perspectivas infinitas, sempre novas e inusitadas, para a análise do pensamento mítico, sua estruturação e trajetória no âmbito da história literária. Um bom exemplo é o livro A Estrutura do Conto de Magia – Ensaios sobre mito e conto de magia, recentemente lançado pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e organizado por Aurora Fornoni Bernardini e S. Nekliúdov, que apresenta vários ensaios instigantes de autoria de diferentes pesquisadores russos do grupo de Meletínski, traduzidos para essa coletânea diretamente do russo, e que vem demonstrar o quanto esse campo de estudos está longe de se esgotar.