Renata Albuquerque

“Antologia da Poesia Erótica Brasileira” – Poemas Selecionados

capa antologia da poesia erotica brasileira

 

Eliane Robert Moraes, organizadora da Antologia da Poesia Erótica Brasileira – lançada na FLIP 2015 – conta, em entrevista, que a obra, ilustrada com desenhos de Arthur Luiz Piza, reúne desde textos anônimos até poemas de escritores consagrados, como Mário de Andrade, Olavo Bilac e Adélia Prado. A seguir, ela fez duas seleções, especialmente para os leitores do Blog da Ateliê terem uma pequena amostra do que o livro reserva a eles (e nós selecionamos alguns desenhos também).

 

 

Seleção 1: “Um pouco mais comportada, mas sem perder o tom ‘picante'”, diz a organizadora

ilustra piza 106

“Por decoro”

Artur Azevedo (1855–1908)

Quando me esperas, palpitando amores,

e os lábios grossos e úmidos me estendes,

e do teu corpo cálido desprendes

desconhecido olor de estranhas flores;

 

quando, toda suspiros e fervores,

nesta prisão de músculos te prendes,

e aos meus beijos de sátiro te rendes,

furtando as rosas as purpúreas cores;

 

os olhos teus, inexpressivamente,

entrefechados, languidos, tranquilos,

olham meu doce amor, de tal maneira,

 

que, se olhassem assim, publicamente,

deveria, perdoa-me, cobri-los

uma discreta folha de parreira.

 

 

“Seios”

Cruz e Souza (1861-1898)

 

Magnólias tropicais, frutos cheirosos

das arvores do Mal fascinadoras,

das negras mancenilhas tentadoras,

dos vagos narcotismos venenosos.

Oasis brancos e miraculosos

das frementes volúpias pecadoras

nas paragens fatais, aterradoras

do Tédio, nos desertos tenebrosos…

Seios de aroma embriagador e langue,

da aurora de ouro do esplendor do sangue,

a alma de sensações tantalizando.

O seios virginais, talamos vivos,

onde do amor nos êxtases lascivos

velhos faunos febris dormem sonhando…

 

 

“Soneto”

Mário de Andrade (1893-1945)

Aceitaras o amor como eu o encaro?…

…Azul bem leve, um nimbo, suavemente

Guarda-te a imagem, como um anteparo

Contra estes moveis de banal presente.

Tudo o que ha de melhor e de mais raro

Vive em teu corpo nu de adolescente,

A perna assim jogada e o braço, o claro

Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo

Também mais nada, só te olhar, enquanto

A realidade e simples, e isto apenas.

Que grandeza… A evasão total do pelo

Que nasce das imperfeições. O encanto

Que nasce das adorações serenas.

ilustra piza 52

“Noturnos VIII”

Gilka Machado (1893-1980)

E noite. Paira no ar uma etérea magia;

nem uma asa transpõe o espaço ermo e calado;

e, no tear da amplidão, a Lua, do alto, fia

véus luminosos para o universal noivado.

 

Suponho ser a treva uma alcova sombria,

onde tudo repousa unido, acasalado.

A Lua tece, borda e para a terra envia,

finos, fluidos filos, que a envolvem lado a lado.

 

Uma brisa sutil, úmida, fria, lassa,

erra de vez em quando. E uma noite de bodas

esta noite… há por tudo um sensual arrepio.

 

Sinto pelos no vento… e a Volúpia que passa,

Flexuosa, a se rocar por sobre as casas todas,

como uma gata errando em seu eterno cio.

“Epitalâmio”

José Paulo Paes (1926-1998)

uva

pensa da

concha oclusa

entre coxas abruptas

teu

vinho sabe

a tinta espessa

de polvos noturnos

(falo

da noite

primeva nas águas

do amor da morte)

“Divisamos assim o adolescente”

Mário Faustino  (1930-1962)

Divisamos assim o adolescente,

A rir, desnudo, em praias impolutas.

Amado por um fauno sem presente

E sem passado, eternas prostitutas

Velavam por seu sono. Assim, pendente

O rosto sobre o ombro, pelas grutas

Do tempo o contemplamos, refulgente

Segredo de uma concha sem volutas.

Infância e madureza o cortejavam,

Velhice vigilante o protegia.

E loucos e ladrões acalentavam

Seu sono suave, até que um deus fendia

O céu, buscando arrebatá-lo, enquanto

Durasse ainda aquele breve encanto.

 

 

“Lembranças de Maio”

Adélia Prado (1935-)

 

Meu coração bate desamparado

onde minhas pernas se juntam.

É tão bom existir!

Seivas, vergonteas, virgens,

tépidos músculos

que sob as roupas rebelam-se.

No topo do altar ornado

com flores de papel e cetim

aspiro, vertigem de altura e gozo,

a poeira nas rosas, o afrodisíaco

incensado ar de velas.

A santa sobre os abismos –

a voz do padre abrasada

eu nada objeto,

lírica e poderosa.

 

Seleção 2: Que a organizadora intitula “Safadezas sortidas”

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 “A pica ressuscita mulher morta”

Francisco Moniz Barreto (1804-1868)

A pica o instrumento é que no mundo

Mais milagres tem feito e mais proezas2;

A pica o melhor traste e das belezas,

Mal que começa a lhes coçar o sundo.

 

A pica é o cão, que avança furibundo

A plebeias, fidalgas, e princesas;

A pica em chamas Troia pôs acesas,

E a Dido fez descer do Urco ao fundo.

 

É a pica – carnal, possante espada,

Que o mundo, perfurante, emenda, entorta,

E tudo vence, como bem lhe agrada.

 

A pica, ora e calmante, ora conforta;

Sendo em dose alopática aplicada,

A pica ressuscita a mulher morta.

 

[Não passou por essa rua]

Laurindo Rabelo (1826-1864)

Não passo por esta rua,

Que não veja esta perua,

Na porta com dois e três;

Que fodas não dá no mês

Aquele cono tão quente!

E chega a ser tão potente

A maldita da cachorra,

Que no cu sempre tem porra,

Na porta sempre tem gente!

 

“Ela”

Olavo Bilac (1865-1918)

Maria tem vinte amantes!

Uns tortos, outros direitos;

Todos eles são galantes,

Todos vivem satisfeitos…”

Mulher de recursos fartos!

Como é que esta impenitente,

Tendo no corpo dois quartos,

Dá pousada a tanta gente?

ilustra piza 97

“Os quatro Elementos – A terra”

Vinicius de Moraes (1913- 1980)

Um dia, estando nós em verdes prados

Eu e a Amada, a vagar, gozando a brisa

Ei-la que me detém nos meus agrados

E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa

 

Com face cauta e olhos dissimulados

E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza

Como se os beijos meus fossem mal dados

E a minha mão não fosse mais precisa.

 

Irritado, me afasto; mas a Amada

A minha zanga, meiga, me entretém

Com essa astúcia que o sexo lhe deu.

 

Mas eu que não sou bobo, digo nada…

Ah, e assim… (só penso) Muito bem:

Antes que a terra a coma, como eu.

 

“Brincadeira”

Francisco Alvim (1938-)

Debaixo da mesa –

de porquinho –

um fuçando o outro

“Poesia Pura”

Rubens Rodrigues Torres Filho (1942-)

No álbum dos nossos momentos felizes

nunca me esquecerei daquela vez

que você gozou tão gostoso, junto comigo,

lá no sofá do apartamento da Mourato

que peidou. Soltou um peido alto,

de prazer? De gratidão? E foi lindo

que aí você me olhou e sorriu encabulada.

Então peido não é amor?

Se vem do cu é menos expressão?

Mais sonoro e sincero poema

de amor, juro: estou para ouvir.

“O valor de um texto nunca se mede por sua moralidade, mas por sua qualidade estética”, afirma organizadora da Antologia da Poesia Erótica Brasileira, lançada na FLIP

Em entrevista exclusiva, Eliane Robert Moraes conta que a ideia da obra surgiu com a leitura de um texto de Mário de Andrade, homenageado da Festa deste ano

Por Renata de Albuquerque

Eliane R Moraes 1

Eliane, que organizou, na antologia, séculos de poesia erótica

Quando teve a ideia de fazer uma Antologia da Poesia Erótica Brasileira? Como foi esse processo?

Eliane Robert Moraes: A ideia primeira me surgiu ao ler um esboço de prefácio a Macunaíma, escrito em 1926, no qual Mário de Andrade observava que, no Brasil, as literaturas populares eram frequentemente pornográficas, apesar da ausência de um erotismo literário sistematizado no país. Para justificar seu argumento, o autor evocava as produções eróticas de outros povos, como os gregoscapa antologia da poesia erotica brasileira, os franceses ou os indianos, que souberam organizar suas expressões escritas em torno do sexo. Mas essa tradição realmente não existia entre nós e o que me surpreendeu mais ainda é que, passados mais de oitenta anos dessa afirmação do escritor, a erótica literária brasileira continuava desconhecida, aguardando uma compilação.

Como se pode imaginar, as ponderações de Mário de Andrade estão na origem desta Antologia da Poesia Erótica Brasileira, que vem a lume quase um século depois de suas palavras para dar testemunho não só da existência de uma lírica erótica do país, mas também de sua extraordinária riqueza. A quantidade e a qualidade da produção poética nela apresentada – sendo apenas parte de uma extensa pesquisa que levantou por volta de trezentos poetas e mais de mil poemas – não deixa dúvidas sobre a convicção de que, para se formar tal corpus, talvez só estivesse faltando um empenho de organização.

Já havia outra obra similar no mercado editorial?

ERM: Não. Houve no passado uma ou outra tentativa de reunir textos eróticos, mas sem o respaldo de uma pesquisa rigorosa que cobrisse a história da literatura brasileira como um todo. O trabalho ora publicado se diferencia, portanto, das meras seleções feitas ao gosto de um organizador, por oferecer um conjunto da nossa lírica erótica, reunindo uma centena de nomes que vão de Gregório de Matos (século XVII) até poetas contemporâneos, alguns dos quais ainda vivos. Inclui autores canônicos, como Castro Alves, Olavo Bilac, Cruz e Souza, Drummond ou Hilda Hilst – por vezes publicados originalmente sob pseudônimos –, e outros menos conhecidos, como Francisco Moniz Barreto, Múcio Teixeira ou Moysés Seyson, incorporando ainda alguns anônimos que praticaram o gênero nesses quatro séculos da nossa poesia

Você conseguiu reunir poesias de diversas épocas e autores (até mesmo apócrifas). Qual foi o fio condutor que a levou a organizar a antologia como ela é?

ERM: Para constituir uma “pornografia organizada” do país, buscando levar em conta tanto as formas literárias populares quanto as eruditas, optei por um critério de seleção que privilegiasse os “poemas sexuais explícitos”, tal como proposto pelo poeta José Paulo Paes, que também participa desta Antologia. Ao escrever sobre o assunto, que o interessava muito, ele esclarece que “o grau dessa explicitação pode variar do fescenino ao alusivo, mas nunca a ponto de este fazer perder de vista o que o outro nomeia sem mais aquela”. Assim, os poemas selecionados se alternam entre a sensualidade meramente alusiva e a obscenidade mais provocante que, reunidos, dão testemunho um excesso que é, antes de tudo, o da imaginação.

ilustra piza 5 Ao lado e abaixo, desenhos de Arthur Luiz Piza que ilustram o volume

 

Como foi o processo de pesquisa: quais as fontes pesquisadas, como você levantou esse material?

ERM: Iniciei a pesquisa por volta de 2005, e desde então andei vasculhando inúmeras bibliotecas públicas e importantes coleções privadas, dentro e fora do Brasil. Foi uma verdadeira aventura, já que muitas vezes eu buscava poemas produzidos na clandestinidade e até mesmo proibidos em sua época.

De forma geral, o livro segue o modelo de uma série de antologias do gênero  publicadas na Europa, sobretudo a partir de meados do século XX. Tomem-se como exemplos, para ficarmos nos domínios mais próximos de nós, a notável Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada pela poeta portuguesa Natália Correia em 1966, com diversas reedições desde então, ou a Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (séculos XVIII e XIX) compilada por Fernando Ribeiro de Mello em 1975, ou ainda a Antología de la poesia erótica española e hispanoamericana editada por Pedro Povencio em 2003.

 

O tema do erotismo ainda é pouco tratado dentro do universo dos estudos literários (vide a “novidade” com que se configura o erotismo na obra de Mário de Andrade, por exemplo). Em sua opinião, por que isso acontece?

ERM: Gosto de lembrar a escritora e ensaísta americana Susan Sontag, que caracteriza a “imaginação pornográfica” como uma forma extrema de consciência que transcende as esferas sociais e psicológicas a que estamos acostumados. A ficção erótica, diz ela, tende a desorientar o leitor, deslocá-lo mental e fisicamente. Por essa razão, os textos obscenos seriam portadores de certo princípio de conversão do leitor, semelhante ao que encontramos nas literaturas de cunho eminentemente religioso. Segundo a autora, a leitura desses livros pode proporcionar “uma aventura por regiões longínquas da consciência”. Não é pouco, convenhamos…

Eu diria ainda mais: trata-se de uma forma de conhecimento que abre ao pensamento a possibilidade contínua de alargar a escala humana para além da vida em sociedade. O repertório de temas que o erotismo aciona – bestialização, violência, perda de si no outro, etc. –, seja de forma trágica ou cômica, aponta para essa constante problematização da noção de ser humano e de humanidade. Dai certa sensação de perigo que a associação entre sexo e pensamento pode por vezes provocar…

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O “valor literário” da poesia erótica é “menor”?

ERM: O sexo vem sendo tema literário desde sempre. Está no Satyricon de Petrônio, no Cântico dos Cânticos da Bíblia, na Priapeia grega e em tantos outros escritos da Antiguidade e de outros períodos históricos. Trata-se de um dos temas essenciais da humanidade, assim como acontece com o amor, a guerra, a religião…

O que determina a qualidade do erotismo literário é o critério estético, sempre. Os textos eróticos, quando são de boa qualidade, têm uma capacidade ímpar de mexer com a vida da gente, de nos fazer refletir, de nos transtornar, de expressar coisas que vivenciamos e que fantasiamos, mas normalmente não conseguimos colocar em palavras. Ou seja, são textos que vasculham nossos subterrâneos. Nada a ver com o erotismo comercial… Em certo sentido, se quisermos, a literatura é como a gastronomia – alguns livros são meros exemplos de fast-food; outros oferecem um banquete para a sensibilidade e o pensamento. Hoje, mais do que nunca, é preciso avaliar a qualidade, pois há muitos textos que só fazem banalizar o erotismo e não acrescentam nada à nossa experiência humana.

 

Como podemos definir o gênero literário erótico? Quais as diferenças entre pornografia e erotismo?

ERM: Essa distinção é muito complexa e, geralmente, baseia-se num critério moral. Para o senso comum, o pornográfico é o que “mostra tudo”, enquanto o erótico é “o velado”. Contudo, para o estudioso do erotismo literário, essa distinção é falsa, senão moralista… A rigor, livros como os do marquês de Sade, de Georges Bataille, de Glauco Mattoso, de Hilda Hilst ou de Reinaldo Moraes, são muito mais obscenos do que a pornografia comercial de uma Bruna Surfistinha ou de uma E. L. James. A diferença entre eles não está no grau de obscenidade, mas na composição formal: o valor de um texto nunca se mede por sua moralidade, mas por sua qualidade estética.

Os escritos do italiano Pietro Aretino, reconhecidamente o mais importante escritor erótico do Renascimento, são um bom exemplo de clássicos licenciosos que buscavam, segundo palavras do próprio autor, “mostrar a coisa em si”. Assim também, alguns poemas desta Antologia da Poesia Erótica Brasileira são extremamente obscenos mas, ao mesmo tempo, literatura de primeira linha.

 

A literatura está quase sempre permeada pelo erótico, mesmo nas obras que não têm esse tema como foco. Mas o que, precisamente, define um livro como erótico?

ERM: Quando se fala em texto erótico, está se falando de uma literatura que mobiliza um tema específico – o sexo, a sensualidade, o desejo carnal – e constrói seu pensamento a partir disso. Não se trata de um gênero literário, mas sim de um campo da literatura que se manifesta em diversos gêneros. Existem romances eróticos, sonetos eróticos, epopeias eróticas e assim por diante.

Por isso mesmo, gosto de dizer que o erotismo literário é, antes de tudo, um modo de pensar. Um modo de pensar por escrito, é claro, implicando uma operação específica de linguagem que, como vimos, trabalha no sentido de deslocar seus objetos para um lugar simbólico que se identifica, invariavelmente, com o baixo-corporal. Trata-se de uma escrita que se singulariza por fazer de Eros seu operador fundamental, elegendo-o como mediador exclusivo de seus jogos entre forma e fundo. Por isso mesmo, antes de ser um modo de pensar o sexo, o erotismo literário é um modo de pensar a partir do sexo.

A criação desse lugar imaginário, organizado segundo os imperativos da libido, implica algo mais do que a mera representação da sexualidade. Ao submeter a referência sexual a uma estilização, o escritor fica livre para transformar o sexo num observatório a partir do qual se pode contemplar qualquer prisma do universo, incluindo o que está aquém ou além do próprio sexo. Daí que o autor explicitamente obsceno possa ser considerado, como propõe Italo Calvino, “aquele que mediante os símbolos do sexo procura fazer falar alguma outra coisa”, sendo que “essa coisa pode ser redefinida, em última instância, como outro eros, um eros último, fundamental, mítico, inalcançável”.

 

Leia aqui alguns poemas selecionados pela autora

 

*Eliane Robert Moraes é professora de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP), e pesquisadora do CNPq. Foi professora visitante nas universidades da Califórnia de Los Angeles (UCLA, USA), de Nanterre (Paris 10 – FR), de Perpignan Via Domitia (FR) e da Nova de Lisboa (PT).

Entre suas publicações destacam-se diversos ensaios sobre o imaginário erótico nas artes e na literatura, e a tradução da História do Olho de Georges Bataille (Cosac & Naify, 2003). É autora, dentre outros, dos livros: Sade – A Felicidade Libertina (Imago, 1994), O Corpo Impossível (Iluminuras/Fapesp, 2002), Lições de Sade – Ensaios sobre a Imaginação Libertina (Iluminuras, 2006) e Perversos, Amantes e Outros Trágicos (Iluminuras, 2013). Organizou a primeira Antologia da Poesia Erótica Brasileira (Ateliê, 2015) e atualmente, desenvolve pesquisa sobre as linhas de força do erotismo literário no Brasil.

Contos que Sangram

Renato Tardivo*

angu de sangue bxAngu de Sangue, coletânea de contos de Marcelino Freire, foi publicado pela primeira vez em 2000. No entanto, as dezessete narrativas do livro, que acaba de ser reimpresso, são extremamente atuais.

Não é exagero afirmar, por exemplo, que sua ambiência ficcional antecipa boa parte do (bem-sucedido) cinema pernambucano dos últimos anos, ao abordar, por meio de uma prosa ágil, a violência urbana e seus ruídos, a sexualidade explícita (mas não gratuita), o resgate dos afetos.

Mas é a convergência entre conto, teatro e poesia a maior virtude do livro. Não são poucas as frases que soam como versos exaustivamente lapidados, não obstante não percam o frescor e a oralidade de quem diz o que sente, e, ainda, componham narrativas que capturam o leitor e o derrotam, como queria Cortázar, por nocaute.

Os contos breves de Angu de Sangue são retratos da miséria humana. Sem concessões, Marcelino Freire extrai da abjeção, beleza; do “lixão”, “paraíso”; de “Socorrinho”, a menina abusada sexualmente, o “desmaio de anjo”. No conto “A Cidade Ácida”, por sua vez, morte e poesia aproximam-se vertiginosamente; também com poesia, em “J. C. J.”, adolescente infrator e vítima, no fim das contas, revelam-se dois lados de uma mesma moeda.

Ainda que as narrativas equilibrem-se quanto à (alta) qualidade, a mais brilhante delas é justamente a que dá título ao livro: “Angu de Sangue” é um conto inventivo que trabalha muito bem a dimensão espaço-temporal e os paralelismos entre amor e violência, ruptura e ligação, “como se fosse novidade o fim de um relacionamento, o começo de um outro ainda mais violento”. A (aparente) circularidade do conto aponta, na verdade, para a passagem do tempo em espiral, em que sempre se pode sangrar mais um pouco. Afinal, “a gente não se toca quando o coração está parando”.

A vida tem mesmo dessas incoerências: de súbito, vai morrendo aos poucos, e, quando vamos ver, “mataram o salva-vidas”. Com efeito, os planos fechados das narrativas de Angu de Sangue são emblema de um Brasil diverso e arcaico que historicamente (ainda) se alimenta do próprio sangue. Até quando?

Conheça outros títulos de Marcelino Freire

 

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir Que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Muito além da filosofia

Organizador de Rousseau e as Artes fala sobre a obra, em que pesquisadores mostram a importância do pensador suíço em diversas áreas do conhecimento

Por Renata de Albuquerque

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) atuou em diversos campos do conhecimento. O escritor lançou suas ideias no campo da teoria política, foi compositor musical autodidata, mas sua faceta mais conhecida é a de filósofo.

Em 2012, ano em que se completariam trezentos anos de seu nascimento, foi organizado o colóquio Rousseau e as Artes; uma iniciativa do Consulado Geral da Suíça em São Paulo e da Universidade de Campinas.

Com o objetivo de encontrar os interlocutores contemporâneos de Rousseau, o Colóquio extrapolou os muros do meio acadêmico e foi levado também à Pinacoteca do Estado de São Paulo, um ambiente que apenas reforçou o conceito que o projeto já explicitava no nome: trazer ao público informações sobre como a obra do pensador suíço tem influência também sobre as artes.

capa rousseau baixaA importância e a repercussão da iniciativa foi tamanha que agora a Ateliê coloca nas prateleiras o livro Rousseau e as Artes, organizado por Célia Gambini e Paulo Mugayar Kühl. O livro registra as reflexões dos pesquisadores presentes no evento, que procurou complementar os estudos sobre Jean-Jacques Rousseau, realizados no campo estritamente filosófico, e estendê-los ao campo das artes. “É possível emprestarmos algumas categorias do pensamento de Rousseau e verificar o quanto elas nos ajudam a pensar alguns aspectos da produção artística contemporânea”, considera Kühl. A seguir, ele fala sobre o assunto:

“As artes, desde a antiguidade, sempre atraíram a atenção de filósofos e vários eram os temas da discussão: a função delas na sociedade, questões mais específicas do que hoje chamaríamos de criação artística, as diversas preceptivas que tentavam de um modo ou outro regular a criação e também a recepção das obras etc. No século XVIII, vários são os pontos de mudança: um progressivo abandono da noção de mímese como o elemento central das artes, uma ênfase maior em questões como o gosto, o gênio, o nascimento da Estética como disciplina etc. Rousseau, assim como nos outros assuntos a que se dedicou, traz uma série de questionamentos palpitantes para o debate sobre as artes. De um lado, seu enorme interesse na música e o confronto com algumas ‘facções’ já estabelecidas – daí sua preferência pela música italiana, seu desprezo pela música francesa e a condenação que daí deriva. Mas também uma visão crítica sobre o teatro, sobre as artes do desenho, sempre com o intuito de rever posições estabelecidas, exercer a crítica e, quando possível, propor novos caminhos. O que pretendemos mostrar neste colóquio é que suas posições com relação às artes são equiparáveis ao Rousseau ‘pensador político’ ou ao Rousseau ‘educador’. Na verdade, segundo Marie-Pauline Martin, o pensamento do autor suíço sobre música é estruturador de toda sua posterior reflexão sobre questões da política.

Desde o século XVIII, muitas foram as transformações nas artes e no pensamento sobre elas. Não se trata de estabelecer um paralelo imediato entre as ideias de Rousseau e a produção artística na atualidade, mas sim, de encontrar ecos tardios, ressonâncias constantes, permanências escondidas. Os textos que compõem o livro mostram como tanto os detratores quanto os apreciadores de Rousseau o colocaram num lugar central, o que, de modo, nos chega até hoje. Assim, é possível emprestarmos algumas categorias do pensamento de Rousseau e verificar o quanto elas nos ajudam a pensar alguns aspectos da produção artística contemporânea. Nesse sentido, o texto de Peter Schneemann, que faz parte do livro, é muito esclarecedor ao tratar do tema da ‘inocência’. Mas também podemos tomar vários outros conceitos, sobretudo o de ‘natural’ e ‘natureza’ para olharmos uma produção artística que está tanto nos museus e galerias, mas também nos teatros, salas de concerto e na produção de música. No mesmo ano de comemorações do tricentenário do nascimento de Rousseau, foram realizados vários curta-metragens, com diversos diretores que realizaram seus filmes inspirados por ideias de Rousseau (http://lafautearousseau.com/). Ali vemos o quanto as questões levantadas pelos filósofos ainda são palpitantes e podem frutificar das mais variadas maneiras”.

Permanente Mutação

Por: Renato Tardivo*

        Muito já se falou sobre a relação entre literatura e memória. Ora, a literatura é um dos registros por meio do qual deixamos o nosso legado às futuras gerações, e, reciprocamente, todo escritor se vale da memória para a criação de sua ambiência ficcional.



borda2  Literatura e Memória Política – Angola. Brasil. Moçambique. Portugal, coletânea organizada por Benjamin Abdala Junior e Rejane Vecchia Rocha e Silva, reúne ensaios sobre livros de autores da língua portuguesa, atentando justamente para a presença de aspectos históricos e políticos articulados à dimensão propriamente estética das obras.

Em “Da Certeza das Vidas Novas à História Real de um Amor Impossível”, Laura Cavalcanti Padilha apresenta um cuidadoso estudo sobre as obras dos angolanos Luandino Vieira e Pepetela, sustentando a tese de que ambos executam uma escrita para a liberdade, seja no período anterior à independência de Angola, seja nos dias de hoje, quando se ressignifica todo o derramamento de sangue e se ponderam as conquistas e limites trazidos pela revolução.

Na parte dedicada a escritores brasileiros, vale destacar o minucioso ensaio de Benjamin Abdala Junior – “Linguagem e Vida Social nos Romances de Graciliano Ramos”. Escreve o autor: “Formam-se, então, nos campos de atividades humanas dos romances de Graciliano Ramos, articulações hegemônicas que envolvem os objetos, uma rede opressiva que reproduz as articulações dominantes, que procura subordinar a si as demais, que vêm da experiência sociocultural” (p. 93). E conclui que as personagens nos romances de Graciliano são sujeitos históricos, e a forma com que o autor trabalha a linguagem convida o leitor a entrar na história e refleti-la de dentro.

Em “Escrita, História e Política em José Saramago”, Pedro Brum Santos discute a interface entre o literário e o social na obra do escritor português a partir do romance História do Cerco de Lisboa, livro em que ficção e história se encontram perfeitamente: “A ficção, de tal modo, busca responder ao desafio de compreender o passado não como um tempo acabado, mas como algo vivo em permanente mutação” (p. 283).

        A afirmação acima sobre o livro de Saramago pode se estender às demais obras analisadas na coletânea (são 15 ensaios no total). Do ponto de vista da psicanálise, memória envolve sempre, em maior ou menor grau, algo de traumático, uma vez que está associada a vivências que nos marcaram. Dessa perspectiva, passamos a vida ressignificando as experiências traumáticas, de modo a criar diferentes possibilidades de encaminhá-las. Esta é, em linhas muito gerais, a noção de temporalidade freudiana do après-coup, segundo a qual o vivido é ressignificado “depois do trauma”. Assim, a literatura não teria apenas a função de registrar a memória política de um período, senão de reeditá-la, mantê-la viva, “em permanente mutação”.

Conheça outras obras de Benjamin Abdala Jr. 

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir Que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê Editorial).

Da academia à ficção

Trajetória de O mistério do Leão Rampante assemelha-se à da Ateliê Editorial, editora que se lançou no mercado com a publicação deste título: se no caso do livro um projeto acadêmico originou uma ficção, a editora publica, hoje, tanto estudos quanto literatura

Por Rodrigo Lacerda*

Leão-Rampante---20-Anos

 Eu escrevi O mistério do leão rampante por acaso. Era 1994, eu tinha 24-25 anos e estava me formando na faculdade de História na USP. Milagrosamente, havia surgido uma professora disposta a me orientar no mestrado, Janice Theodoro, uma das intelectuais mais inquietas do departamento. Ela iniciava então um curso de pós sobre as fronteiras entre literatura e história, ou sobre “meta-história”, como era moda falar, e me convidou a acompanhá-lo como ouvinte. O trabalho final do curso pedia que transformássemos nosso projeto de tese num livro de ficção.

Sentei na frente do computador com duas coisas em mente: o texto deveria soar abarrocado, irônico e sonoro como o dos meus escritores preferidos – João Ubaldo Ribeiro e Eça de Queirós –, e ter a estrutura simples e o humor leve do libreto da ópera Don Giovanni, de Mozart/Lorenzo da Ponte. Escrevi tudo em quinze dias, consultando documentos de feitiçaria do século XVIII, manuais de heráldica e textos sobre Shakespeare.

O que saiu foi uma novela histórica meio bufa, passada na Inglaterra Elisabetana, na qual a concepção de indivíduo em Shakespeare (o pretensioso tema da minha tese) é o assunto de fundo. Orgulhoso do resultado, e surpreso, mostrei para a orientadora, que adorou. Em seguida mostrei aos amigos, também com boa resposta.

Nessa mesma época, eu havia conseguido um emprego na editora da USP. O diretor editorial Plínio Martins Filho – um dos responsáveis por fazer da Edusp uma editora de verdade, com equipe e catálogo próprios, e não um mero BNDES editorial para os empresários do ramo – já estava por lá. Eu o conhecera rapidamente dois ou três anos antes, logo que chegara a São Paulo, quando intermediei uma co-edição Nova Fronteira-Edusp.

Um belo dia, passei a ele uma cópia de O mistério do Leão Rampante. Sinceramente não lembro se, além da sua opinião, havia implícito ou explícito no meu gesto um pedido de ajuda para a publicação. É muito provável que houvesse, seria até natural. Mas eu jamais poderia prever a sorte que eu tive.

O Plínio me disse que sempre havia tido vontade de abrir a própria editora, mas nunca aparecera um livro que o animasse a botar mãos à obra. Agora, ao ler o Leão Rampante, sentira o clic:

“Você aceita ser o primeiro livro da minha editora?”

Assim nasceu a Ateliê Editorial.

Ele colocou uma única condição: o livro precisaria do prefácio de algum escritor da minha preferência ou de um professor da universidade. Fã incondicional do João Ubaldo Ribeiro, sugeri ao Plínio que tentasse com ele. O Plínio, acatando a sugestão, mandou um Sedex para a Academia Brasileira de Letras, com uma carta e uma cópia do livro. Não houve resposta. Então apelei ao meu pai, amigo e àquela altura ainda editor do João Ubaldo, perguntando se teria a cara de pau de pedir um textinho de apresentação diretamente. Ele teve.

Semanas depois, eu estava na Edusp, trabalhando pela manhã, quando minha irmã telefonou. Com a voz excitada e emocionada, e meu pai ao seu lado, ela disse que passaria por fax (ainda não se usava internet para esse tipo de coisa) o texto que haviam acabado de receber do nosso ídolo familiar. E me lembro de ver o timbre da ABL saindo da máquina, seguido pelo texto curto, mas com adjetivos poderosos, que fez meu ego inflar mais instantaneamente que um air bag.

Não tenho muitas lembranças da produção do livro. O projeto gráfico é do Plínio com seu sócio na época, um colega nosso de Edusp. Lembro vagamente de rever as provas, e nitidamente de escrever as orelhas. O lançamento aqui em São Paulo foi marcado para o dia 31 de maio de 1995. Talvez essa falta de memória para detalhes da produção deva-se ao fato de que minha filha, Clara, nasceria logo depois, em julho, e eu vivia essa expectativa muito intensamente. Ter um filho, escrever um livro…

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Frente e verso do convite do lançamento em São Paulo

 

 

 

 

O lançamento paulista foi na livraria do Pedro Correia do Lago, na rua João Cachoeira, 267, Itaim. No Rio, o lançamento foi no Shopping da Gávea, na livraria Timbre, do histórico Aluísio Leite e sua ótima sócia Kiki. O livro ganhou boas resenhas em quase todos os jornais. O escritor João Antônio, que viraria tema do meu doutorado, e minha mestra shakespeariana Bárbara Heliodora, o editor-escritor-jornalista-professor Paulo Roberto Pires, o jornalista-romancista Sergio Rodrigues, e a jornalista-professora-produtora cultural Cristiane Costa foram alguns dos que escreveram falando bem dele.

Um elogio maravilhoso foi o do jornalista Jorge Vasconcellos. Ele, nessa época, juntamente com o amigo Claudiney Ferreira, tinha um programa sobre literatura no rádio chamado Certas Palavras. Chegando para mim, o Jorge perguntou: “Foi você mesmo que escreveu esse livro?”

Achando curiosa a pergunta, respondi:

“Foi, por quê?”

“Poxa, é que eu não dava nada por você…”

Não é toda hora que a gente reverte uma opinião dessas!

 

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O Certas Palavras daria ao livro o primeiro prêmio de Melhor Romance. Em final de 1995, comecinho de 96, precisei voltar a morar no Rio de Janeiro. Por isso, enquanto as votações do prêmio Jabuti corriam, eu e o Plínio estávamos torcendo longe um do outro. Lembro que, em alguma conversa com ele, eu argumentei que achava impossível ganhar, pois concorria com vários nomes já consagrados:

“Seria como o Madureira chegar na final da Copa do Mundo.”

 

Um dia, no meu trabalho, chegou a lista dos premiados e a letra do Plínio bem grande na página:

“O Madureira chegou!”

*Autor de O Mistério do Leão Rampante

Esplendor do Barroco Luso-brasileiro

Benedito Lima de Toledo*

barroco

Em rítmico compasso, as incursões do autor por vasto patrimônio de colégios jesuíticos, conventos franciscanos e mosteiros beneditinos, em todo o Brasil, propiciam contributos novos para o melhor abalizamento dos primórdios da arquitetura luso-brasileira.

Objetiva o presente livro, produto de circunstanciado trabalho de pesquisa, oferecer ao leitor a oportunidade de ingressar e usufruir da riqueza desse universo, suas emoções e sua capacidade de surpreender e despertar inquietações.

São 429 imagens.  Há plantas e reproduções de esquemas e documentos, sendo que a maior parte do material distribuído ao longo de 365 páginas de Esplendor do Barroco Luso-brasileiro é constituída por documentação fotográfica devida a seu autor, o arquiteto Benedito Lima de Toledo.

Nascido com o Maneirismo, no fim do Renascimento, o Barroco conheceu manifestações em vários países da Europa, ganhando destaque em Portugal, notadamente em sua expressão rococó.

Uma obra que trata do Barroco obviamente não poderia deixar de dar o devido destaque a Antônio Francisco Lisboa – o Aleijadinho -, e sua diversificada produção na elaboração de riscos, na escultura em pedra sabão e na talha dos altares.  Deveria ter, pelo convívio com seu pai, sólidas noções da arte de construir.

Engenheiros militares engajados nas missões demarcatórias foram responsáveis por um apreciável acervo de obras.

Por mais de três séculos o Barroco traduziu as aspirações e as contradições da sociedade brasileira, ávida de encontrar seus próprios caminhos.  É a arte que dá expressão aos anseios da nação em sua longa busca de autoafirmação.

*Arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e Professor Titular da História da Arquitetura na mesma instituição.Bolseiro da Fundação CalousteGulbenkian para estudo da arquitetura popular em Portugal. Membro da Academia Paulista de Letras (Cadeira 39).

Conheça outras obras do autor

Mais segurança para comprar livros da Ateliê Editorial

Você que acompanha a Ateliê aqui no Blog, no site, no Facebook ou no Twitter já deve ter notado que algumas mudanças estão acontecendo.

Uma delas diz respeito à forma de fazer suas comprar no nosso site. Para tornar o processo de compra o mais seguro possível, quando você compra em nosso site, o sistema acessa diretamente o site da operadora do cartão, para que os seus dados não sejam expostos.

Acontece que alguns dos sites das operadoras pedem um “código de segurança extra” para realizar a operação. Isso é completamente normal. Trata-se de um sistema de segurança anti-fraude chamado Autenticação Adicional – 3D Secure. Ele é utilizado pelas operadoras de cartões junto a alguns bancos:  Verified by Visa e MasterCard SecureCode. Se esse código de segurança extra for solicitado pelo site, basta fazer a confirmação e finalizar sua compra normalmente.

 

Para entender melhor como o sistema funciona, assista a esse vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=nq5pOL9j1A4

 

Agora, pode ir às compras no nosso site, que está ainda mais seguro para garantir que você continue lendo bons livros com comodidade e tranquilidade!

 

Condensação e expansão em Viva Vaia

Por: Thiago Moreira Correa*

Viva Vaia Viva Vaia traz ao leitor uma ampla visão da obra de Augusto de Campos, pois podemos observar a evolução de formas ocorrida ao longo de 30 anos em sua poesia. Dos versos decassílabos de Rei menos o reino (1949-1951), passando pelo experimentalismo de Poetamenos (1953), pela instauração da Poesia Concreta (Exposição Nacional de Arte Concreta no MAM/SP, em 1956), chegando às Intraduções (1974-1977) e aos galácticos Stelegramas (1975-1978); a transformação poética parece ser um fio condutor – dentre muitos – que nos liga à totalidade do livro.

Ora, essa mudança pode ser pensada sob vários pontos de vista. No entanto, ao passar da produção poética para a crítica desenvolvida não somente por Augusto de Campos, mas também pelos seus “irmãos concretistas”, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, verificamos termos recorrentes que podem balizar essa leitura global que Viva Vaia nos proporciona. São eles: inovação e condensação.

Dessa crítica, notamos que a condensação tem um papel preponderante para a criação de uma poesia inovadora, cujos pilares Mallarmé, Pound, Joyce e Cummings levariam à tão cara forma sintético-ideogramática de uma poesia verbivocovisual. Por isso, buscamos compreender brevemente como essa técnica efetiva-se nas poesias feitas no período de 1949 a 1979.

A abordagem escolhida para tratar desse processo de condensação está situada na teoria da linguagem, já que a exploração da plasticidade e sonoridade verbal fundamenta a produção dessa poesia. Assim, consideramos a Expressão e o Conteúdo da linguagem para fazer nossa análise (os termos “plano de expressão” e “plano de conteúdo”, estabelecidos por Louis Hjelmslev, foram simplificados para Expressão e Conteúdo, para evitar a terminologia que divide cada plano em forma e substância).

Expressão e Conteúdo

 

Expressão e Conteúdo formam, por meio de sua junção, o sentido linguístico. Por isso são indissociáveis: a Expressão é a veiculadora dos conteúdos, que se não forem expressos, não tornarão possível a apreensão da mensagem.  Do mesmo modo, se a Expressão não está vinculada a nenhum conteúdo, o resultado é uma mensagem ininteligível. Por exemplo, se ouvíssemos duas pessoas falando dinamarquês, sem que soubéssemos a língua, somente teríamos acesso à Expressão fonética daquela língua, dissociada de qualquer Conteúdo.

Além disso, um mesmo conteúdo pode ser expresso de diversas formas: um romance e um filme podem ter conteúdos equivalentes, porém cada linguagem o expressa com suas formas particulares, que são manifestadas por um ou mais de um canal de percepção (audição, olfato, paladar, tato e visão). Entretanto, dividimos Expressão e Conteúdo para fins de análise, contribuindo para a compreensão do sistema linguístico.

Logo, o caráter verbivocovisual da poesia de Augusto de Campos analisado pela teoria da linguagem gera outra perspectiva sobre o objeto poético: diversas Expressões manifestariam um mesmo Conteúdo verbal. A plasticidade e a sonoridade das palavras e a tatilidade da página são empregadas para intensificar conteúdos verbais – o que ganha maior relevância nessa nova edição com papel Offset. A partir dessa divisão, priorizamos a relação entre conteúdo e visualidade.

Se o processo de condensação guia nossa análise, é necessário relacioná-lo ao seu contrário semântico – a expansão – para identificar as direções tomadas pela Expressão e Conteúdo poéticos. Respeitando a sucessão cronológica, observamos que a fase chamada de “pré-concreta” possui uma tendência à expansão verbal e a uma neutralidade visual, se comparada ao restante da obra – nem expansiva e nem condensada, ou seja, regular. O uso intenso da sintaxe analítico-discursiva e das figuras de linguagem, principalmente a metáfora, criaria um efeito expansivo no conteúdo verbal; já o emprego das regras poéticas tradicionais (rima e metrificação) e da tipografia homogênea formaria poemas neutros ou regulares, mantendo o método da tradição poética.  Apesar de que uma análise comparativa, aos poemas produzidos por outros autores no mesmo período, encontraria traços de uma poesia mais condensada, precursora da síntese concretista.

Em Poetamenos (1953) e Bestiário (1955) há uma expansão plástica e uma condensação verbal. Por exemplo, no poema “Paraíso pudendo” (1953), há uma síntese de várias temáticas: sexual, religiosa e metalinguística, sob uma multiplicidade cromática, topológica e eidética, como ressalta Antônio Vicente S. Pietroforte. Desse modo, o conteúdo verbal seguiria nessa mesma direção – redução metafórica e síntese sintática – até o seu ápice na Poesia Concreta; enquanto que a Expressão perderia intensidade nesse movimento expansivo e acompanharia a condensação verbal, devido à monocromia e ao geometrismo.

Dessa intensa condensação verbal e plástica alcançada pelo Concretismo, como em “Tensão” (1956) e “Pluvial” (1959), os poemas posteriores a ele são direcionados a uma flutuação de maior ou menor condensação do Conteúdo, e a Expressão regressaria a seu anterior processo de expansão. Esse ponto de vista pode ser identificado no aumento da heterogeneidade visual de poemas como “Psiu!”(1966) e “Memos” (1976), bem como nos aumentos e diminuições da presença verbal em poemas como “Greve” (1961) e “Eco de Ausonius” (1977) ou em “Luxo” (1965) e “Rever” (1970). O extremo dessa expansão plástica e dessa condensação verbal produz poemas como “Olho por Olho” (1964) e “Pentahexagrama para John Cage” (1977) ou o livro Profilogramas (1966-1974), em que o conteúdo verbal se resume aos títulos dos poemas. Entretanto, tais extremos integram uma pequena parte dessa fase posterior.

Seria nesse campo intermediário, entre os poemas concretos e poemas visuais ou plásticos, que a maior parte da obra “pós-concretas” estaria situada. Como mostra o esquema abaixo:

Plano do Conteúdo Verbal

Esquema 1 Plano de conteúdo verbal VIVA VAIA

 

Plano de Expressão Plástico

 

Esquema 2 Plano de expressão verbal VIVA VAIA

Portanto, podemos pensar em uma poesia que condensa seus conteúdos verbais e expande sua expressão plástica. No entanto, é necessário observar que essa expansão plástica contribui para a intensificação do conteúdo verbal, criando a força comunicativa da poesia de Augusto de Campos e que parte desse efeito de objetividade e síntese se deve ao desenvolvimento da metalinguagem nesse tipo de poesia.

Viva Vaia reúne a heterogeneidade desse work in progress que é a obra de Augusto de Campos, mostra o desenvolvimento de sua poética e nos seduz com o seu experimentalismo artístico. Depois de mais de 60 anos fazendo poesia, a vaia é condensada ao nada e viva (!) essa poesia sempre inovadora.

 

Conheça outros livros de Augusto de Campos publicados pela Ateliê Editorial

 

*Thiago Moreira Correa trabalha nas áreas de tradução e pesquisa em Semiótica e Linguística Geral. É mestre pela Universidade de São Paulo com a dissertação “A metalinguagem na poesia de Augusto de Campos”, atualmente, realiza pesquisa em nível de doutorado sobre Inscrições Urbanas.