Renata Albuquerque

Concurso Fundação Eça de Queiroz tem inscrições prorrogadas

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Foi prorrogado o prazo para quem quiser inscrever-se no Prêmio FEQ Edição 2015/2016. Agora o prazo vai até 1º de maio deste ano.

São aceitas obras literárias (romance ou conto) inéditas e trabalhos acadêmicos (ensaios) já entregues para avaliação antes de serem submetidos à comissão julgadora do concurso.

Os trabalhos devem ter ligação com o universo literário de Eça de Queiroz e/ou da “Geração de 70”, nomeadamente nas áreas dos estudos literários, estudos históricos, estudos culturais, estudos ecoliterários e outros.

 

Mais informações: http://www.feq.pt/premio-feq-edicao-2015-2016.html

 

 

A arte do encontro

Leia a seguir o depoimento de Pedro Henrique Varoni de Carvalho, autor de A Voz que Canta na Voz que Fala: A trajetória Poética e Política de Gilberto Gil, que encontrou com o artista baiano em pleno carnaval:

varoni com gil 3

Chego de véspera para o compromisso, vindo de carro de Aracaju com minha mulher, Adriana, e meu filho, Gabriel. Salvador respira carnaval, dois dias antes da abertura oficial. Hospedo-me num hotel no corredor da vitória, numa alameda arborizada margeando a Baía de Todos os Santos. No fim de tarde, refaço os poucos metros que levam até a porta do apartamento de Gilberto Gil.  Deixo-me invadir por uma espécie de beatitude – a cidade anda nos meus passos: gente, cores, arquitetura,cheiros. É uma preparação para usufruir da melhor forma o encontro, marcado para o dia seguinte. Estou aqui para entregar uma cópia do livro A voz que Canta na Voz que Fala: A trajetória Poética e Política de Gilberto Gil, publicado pela Ateliê e Edunit e baseado em  meu trabalho de doutorado na Universidade Federal de São Carlos. Estive com ele antes, rapidamente, para entregar a tese no ensaio de um show em Ribeirão Preto, há pouco mais de dois anos. Muita coisa mudou na minha vida desde então, mudei de emprego, de cidade. Estou próximo de realizar algo impensável para o adolescente, fã da música de Gilberto Gil: ser recebido por ele em casa para uma conversa. Não ia como jornalista e nem pesquisador. É o momento de agradecer, compartilhar a boa acolhida que o livro tem tido em alguns lançamentos.

voz que canta

No dia seguinte faço o caminho ensaiado no dia anterior – dessa vez, acompanhado por Adriana. Agora é pra valer. Transpomos a portaria, caminhamos os metros que separam a área comum do prédio até o elevador e tocamos a campainha. A moça que nos atende pede para esperar um pouco porque Gil está chegando de um compromisso. Na sala ampla, conversamos sobre aquele momento, folheio um livro do fotógrafo Mário Cravo Neto com imagens representativas da diversidade cultural de Salvador: A Roma negra cantada por Gil. Um pouco mais e escuto pelos fundos da casa a algazarra das crianças chegando de um passeio com o avô. Gilberto Gil chega à sala de bermuda branca, sandálias de borracha e camisa de estampas tropicais. Caminha em nossa direção e após os cumprimentos se senta num banco em frente ao sofá onde estamos. Agradeço a acolhida e encontro um interlocutor afetuoso, interessado em saber as histórias de minha vida: como foi o processo de escrita do livro, como equilibrava a função de jornalista de televisão com a pesquisa. Por um momento parece que ele é o jornalista e eu o entrevistado.

 

gil2Depois de alguns anos vasculhando a obra do artista procuro agora ler o homem. Os olhos muito vivos, uma disposição para a escuta, aqui e agora em atenção plena. Agradeço por ser recebido em pleno carnaval, em meio aos compromissos com o camarote Expresso 2222, já tradicional na Bahia. Há, entre as falas e pausas, pequenos silêncios cheios de sentido. A conversa é sobre pais e filhos, tradições familiares.  Gil fala da experiência de tocar no bloco de Preta Gil, dias antes no Rio. “Nunca deixamos de criar os filhos, quis ir lá ver como é.” Lembra que já é bisavô – o que me leva a pensar na verve roqueira presente na interpretação de “Punk da Periferia”, no show pelo aniversário de São Paulo exibido dias antes na TV.

Pergunto se o espírito do carnaval ainda aquece seu coração. Gil acha que a cidade fica melhor nessa época e lembra como os antigos carnavais de Veneza duravam meses. “Talvez seja a hora de retomarmos esse hábito”, diz ecoando a risada aberta e franca. Falamos da crise brasileira, da importância do carnaval como afirmação de uma identidade balançada pelas derrotas no futebol, na política. O carnaval como rito de fortalecimento coletivo e individual. Confirmo uma impressão que já tinha a respeito de Gil: o ar sereno e calmo de quem, como o Dorival Caymmi cantado por ele é Buda Nagô, contrasta com a figura eletrizante nos palcos, quando ele se entrega à Deusa Música.

varoni com gil1A conversa desliza para indagações filosóficas sobre o mundo dos silêncios interiores que perdemos nesse processo intenso de refinamento dos mecanismos de controle com ares de inovações tecnológicas. Quais os rumos da história nessa segunda década do século XXI? A conquista ao direito a seis meses de carnaval ou a volta triunfal do ET de Varginha? A pergunta provoca novas risadas e recordações de uma dascanções mais filosóficas de Gil: “Queremos saber”. Ele cantarola a letra: “queremos saber/quando vamos ter/raio laser mais barato/queremos de fato um relato / retrato mais sério/ do mistério da luz/ luz do disco-voador/ pra iluminação do homem/ tão carente e sofredor/ tão perdido na distância/ da morada do Senhor.”.

É hora da despedida. No abraço final desejo, espontaneamente, vida longa ao poeta. Ele nos acompanha até a porta. É inicio da noite no Corredor da Vitória, foliões caminham em direção a Praça Castro Alves. Sigo em paz e procuro, no fundo do hotel, um canto inacreditavelmente silencioso.  Peço uma cerveja e contemploas águas calmas da Bahia de todos os santos, indiferentes ao carnaval. Penso nas pontes: entre Caymmi e Gil, entre a Bahia e Minas, entre sujeitos e objetos. Tenho vontade de ouvir a voz dos meus pais e ligo para minha terra.

Como incentivar os alunos à leitura?

Por: Paulo Cesar da Motta Ribeiro*

livro com flor

Início de ano letivo. Hora de usar a criatividade para (re)inventar maneiras de lecionar conteúdos e de pensar como superar velhos obstáculos, que se renovam a cada turma de alunos. Um deles diz respeito a como incentivar os alunos à leitura, sem fazer disso uma obrigação maçante e despertando interesse real pelo mundo de possibilidades que ela pode descortinar. E não é apenas no Ensino Fundamental e Médio que esse hábito pode (e deve) ser incentivado. O Professor Paulo Cesar da Motta Ribeiro, que leciona na FURB (Universidade Regional de Blumenau) e na UNIFEBE (Centro Universitário de Brusque), em Santa Catarina, explica como tem feito para trazer a leitura para mais perto de seus alunos. Ele é economista formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pós-graduado em Desenvolvimento Econômico pela mesma instituição. Empresário, autodefine-se como “audiófilo, bibliófilo, cinéfilo e amante do que a vida tem de melhor”. Por isso, é grande seu empenho em trazer seus alunos cada vez mais perto dos livros. A seguir, ele compartilha sua experiência com os leitores do Blog da Ateliê:

Paulo Cesar, que aproveita as provas para perguntar o que seus alunos estão lendo

Paulo Cesar, que aproveita as provas para perguntar o que seus alunos estão lendo

Minha condição de amante da literatura pode ser em parte explicada pelo fato de que na formação e na atuação como Economista a leitura é primordial, não apenas de livros-texto como de obras em geral para melhorar a base de conhecimentos. A utilização de filmes e documentários também auxilia na formação acadêmica e profissional. Em sala de aula eu sempre pergunto a cada aluno qual livro ele tem em mãos e, naquele momento, converso com o aluno e seus colegas sobre literatura. Como, nessas abordagens informais, ocorriam cada vez mais e mais conversas sobre livros, surgiu a ideia de fazer uma pesquisa sobre as leituras recentes dos alunos. É fácil, basta pedir para que anotem no cabeçalho da primeira prova qual sua leitura atual ou mais recente.

Eu coleto todos os títulos e autores citados, pesquiso para garantir que estejam corretos, informo também minhas leituras e repasso a lista completa para toda a turma.

aldous huxley

Aldous Huxley, um dos autores que o professor sempre recomenda

Os resultados são ótimos. O nível de leitura é mais alto do que a maioria pode imaginar, sendo que alguns leem em outros idiomas. Eu descobri obras magníficas a partir desta pesquisa e já li alguns títulos das listas dos alunos.

Segue um resumo das turmas de 2015:

244 alunos com 191 respostas, sendo que aproximadamente 20% informaram dois ou mais livros.

A faixa etária é a dos estudantes do ensino superior, notadamente das graduações em Engenharia (minha principal disciplina é Engenharia Econômica).

No rodapé das provas eu sempre indico alguns livros e filmes para que eles entendam que a realidade não é exatamente aquela que eles percebem. Alguns ainda se iludem, idealizam, mitificam e se deixam levar por influências que pouco têm de honestas e, atualmente, democráticas.

Há anos o “trio de ferro” de minhas indicações é:

Fahrenheit 451, Ray Bradbury

1984, George Orwell

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

Eu explico a eles o que são obras distópicas e como elas podem nos ajudar a entender o mundo e como melhorá-lo. Segue parte do texto que eu coloco no rodapé das provas:

Ray Bradbury: autor de distopias

Ray Bradbury

Fahrenheit 451′ de Ray Bradbury. O livro foi publicado em 1953 e fatos descritos na obra fazem parte de nosso dia a dia (na obra consta inclusive a explicação do motivo pelo qual acontecem). Além disso, o seu entendimento sobre o papel da cultura e da informação será irremediavelmente transformado. Também existe uma película de François Truffaut.’

Outra sugestão que eu faço é: O homem medíocre, de José Ingenieros.

Em virtude da minha base de conhecimentos não se limitar aos livros-texto, eu sempre utilizo nas aulas conteúdos que no princípio parecem que não se relacionam, ou até que são uma viagem, mas que facilitam a aprendizagem. Meus alunos estão acostumados a receberem sugestões de filmes e documentários para melhor entender os conteúdos ministrados.

Eu sempre informo na primeira aula em todas as turmas que o meu objetivo principal é o desenvolvimento pessoal e profissional deles. Que o meu papel é o de ser aquele que abre as mentes para que eles melhor se posicionem na vida com bases sólidas, portanto verdadeiras. E a literatura permite que eles melhor se preparem para assimilarem muito do que o mundo pode proporcionar.

 

E você, leitor-professor, tem alguma sugestão ou dica de como estimular a prática da leitura junto aos alunos? Mande uma mensagem para a gente, compartilhe seus conhecimentos!

Ateliê apresenta o primeiro lançamento de 2016: Rumo à Vertigem ou a Arte de Naufragar-se

CapaLivro de poesias de Wassily Chuck faz uma viagem através da linguagem e mostra o embate entre o homem e a ausência de destino

Diplomata, Wassily Chuck naturalmente “navega pelas mais diferentes águas”. Sua relação com o mar, no entanto, ultrapassa o sentido simbólico e começou muito antes de sua chegada ao Itamaraty: “Nasci numa cidade junto ao mar. O sal e o rumor das ondas são minha marca de nascença”, diz. “O mar permeia todos os meus escritos e é sempre protagonista, mesmo quando não nomeado.”

Além do mar, outra constante nos escritos de Wassily Chuck é a referência ao silêncio. “Não nas palavras, nos silêncios do texto jaz o poema. As palavras somente tecem o espaço para que o silêncio se expresse”, afirma o autor. Nesse sentido, ele explica, a poesia seria a forma possível para dizer o indizível, a tentativa, sempre imperfeita (daí a tristeza em todo poema), de dar voz à secreta sintaxe do silêncio. Assim, com Rumo à Vertigem ou a Arte de Naufragar-se não poderia ser diferente.

O livro de poesias, que tem ilustrações de Luise Weiss, apresenta onze cantos, que somados ao prólogo e ao epílogo perfazem um total de treze capítulos, “indicando o número aziago que rege a viagem”, destaca o autor. Para Chuck, a imagem da vertigem liga-se diretamente à ideia do naufrágio. “Rumar à vertigem é rumar à linguagem, pois, para mim, escrever é mais que um verbo, é uma vertigem. E rumar à linguagem é buscar o abismo de silêncio de onde toda palavra emerge, é buscar o naufrágio”, afirma.

O volume é dedicado ao amigo do poeta, o crítico literário, professor e também escritor Ivan Teixeira – que morreu em 2013, mas que tomou conhecimento dos poemas de Rumo à Vertigem e discutiu parte deles com Chuck.

Segundo o autor, o livro narra a busca de uma “palavra cheia de silêncios”, que possa recriar e refundar um sentido para a vida em nosso mundo atual. “Trata-se, assim, de uma viagem através do niilismo de nosso tempo, do utilitarismo de nossas palavras, buscando um porto, um passo além do nada, uma voz mais nova e mais viva”, ressalta.

Sobre o processo de criação do livro, Wassily Chuck cita o poeta Rainer Maria Rilke, lembrando que a natureza de um poema está entre as coisas mais indizíveis e inexplicáveis. “Para mim, o poema é bicho de sombra, e o excesso de claridade o fere”, diz. “Quando escrevo, não traço um projeto exato do que escrever, para que um poema não vire um esquema. O livro navega e eu vou com ele, rumo à vertigem.”

Serviço

Rumo à Vertigem ou a Arte de Naufragar-se

Formato: 15 x 23 cm

Número de páginas: 184

ISBN: 978-85-7480-717-1

Preço: R$ 49,00

Sobre a Ateliê Editorial

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

Site: www.atelie.com.br

Blog: blog.atelie.com.br

Twitter: @atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

Contatos para Imprensa:

Milena O. Cruz

imprensa@rda.jor.br

Tel: (11) 4402-3183/(11) 98384-3500

Agora é científico: quem lê é mais feliz que quem não lê

Por Renata de Albuquerque

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“O leitor tem a chance de viver a vida de muitos personagens”; “Quem lê, viaja sem sair do lugar”. Você já ouviu ou leu essas frases, com certeza. A sensação de felicidade que um leitor experimenta – e que era difícil de comprovar, porque só quem lê é que sente – deixou de ser empírica e agora pode ser comprovada cientificamente.

Pesquisadores da Universidade de Roma 3 (Itália), fizeram uma pesquisa com 1100 pessoas e concluíram que quem lê é mais feliz. No estudo, intitulado The happiness of reading, eles escrevem: “Leitores, na Itália, encaram a vida em uma perspectiva mais positiva, em comparação com não-leitores e sabem como aproveitar seu tempo livre de uma maneira mais enriquecedora e mais cheia de propósitos”.

O estudo se restringiu à população italiana. Mas alguém discorda que isso vale para todas as partes do mundo?

 

 

Ateliê lança Desconhecer, de Ricardo Lima

Editora decide terminar o ano de maneira poética, com três títulos diferentes.Desconhecer é coletânea com 40 poemas

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No dicionário, uma das definições de poesia é: caráter do que desperta o sentimento do belo. É assim que a Ateliê Editorial quer terminar o ano. Por isso, lança Desconhecer, obra de Ricardo Lima com 40 poemas, escritos ao longo de 3 anos – todos sem título, sem tema definido e em letras minúsculas. Isso porque, para o autor, o mais importante é a unidade formada por todos eles. “No caso dos meus poemas penso que títulos seriam limitadores, pois iriam sugerir uma leitura, direcionar a interpretação. Além disso, como os poemas são sempre curtos, a inexistência de títulos possibilita uma leitura mais ininterrupta do livro, como se fosse um grande poema”.

Ricardo Lima, que é também Coordenador Editorial da Unicamp, é autor de outras 5 obras. Entre elas, Pétala de Lamparina, livro de poemas também editado pela Ateliê Editorial, e que recebeu elogios de nomes como Paulo Franchetti e Marcos Pasche. Além disso, seus livros já foram resenhados por Caio Fernando Abreu, Augusto Massi, Manuel da Costa Pinto, entre outros.

Confira a seguir um dos poemas de Desconhecer:

 

para onde parte o próximo rio ?

 

o que em mim não é carne

em que cor dormirá ?

 

perguntas borbulham aos quarenta

 

mais tarde trincam como pele seca

 

depois mancham feito osso úmido.

 

Serviço

Desconhecer

Formato: 14x 21 cm

Número de páginas: 104

ISBN: 978-85-7480-724-9

Preço: R$ 40,00

 

Sobre a Ateliê Editorial

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

Site: www.atelie.com.br

Blog:blog.atelie.com.br

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Primeiro lançamento de 2016 é o novo livro de poesia de Wassily Chuck

Por: Renata de Albuquerque

 

“É preciso compreender a poesia de Wassily Chuck não como fuga da realidade, mas como fuga para a realidade”, escreve José de Paula Ramos sobre o lançamento Rumo à Vertigem ou a Arte de Naufragar-se, livro dedicado ao amigo e escritor Ivan Teixeira, falecido em 2013. Concordando com tal ideia, o autor, que é engenheiro, filósofo e diplomata, fala, a seguir, de alguns aspectos da obra e de sua concepção de poesia, embora ressalte que, para ele, “o poema é bicho de sombra, e o excesso de claridade o fere”.

Capa Rumo a Vertigem

Poesia – Em meio a um tempo que transforma a linguagem em mera ferramenta, relacionada a questões de produção e eficiência, em meio à disseminação crescente das linguagens técnica e eletrônica, que tendem a esvaziar a força criadora das palavras, a poesia busca recobrar um sentido mais profundo do texto, que nos remete à possibilidade de criar a nós próprios, de criar nosso mundo, recobrando, assim, a infinita liberdade da palavra.

 

Silêncio: Para criar faz-se necessário gerar um espaço de disponibilidade, um espaço vazio, um espaço de silêncio. Por isso, pode-se dizer que não nas palavras, nos silêncios do texto jaz o poema. As palavras somente tecem o espaço para que o silêncio se expresse. Nesse sentido, a poesia seria a forma possível para dizer o indizível, a tentativa, sempre imperfeita (daí a tristeza em todo poema), de dar voz à secreta sintaxe do silêncio.

 

Nosso tempo – O sentimento trágico na Grécia antiga surgia do embate entre o homem e o destino, enquanto o sentimento trágico de nossos dias surge do embate entre o homem e a ausência de destino. Pois, com a partida dos deuses, não há mais uma lei maior regendo nossas vidas. E, nesse mundo destituído de sentido, o homem mais não é que “sonho de uma sombra”. Sair do sonho e chegar à vida, eis a busca da poesia.

 

O poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770 - 1843)

O poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770 – 1843)

Unicidade – O chileno Jorge Teillier dizia que poucos poetas têm na vida mais de um poema para escrever. O filósofo Heidegger dizia algo semelhante. No meu caso, sempre fui consciente de ter apenas um poema. E todos os livros são variações desse verso, que viro, reviro, desviro dentro de minha voz (creio que os primeiros mestres, ainda todos estrangeiros, pois eram os livros da biblioteca paterna, como Hölderlin, Trakl, Celan, Jabès e, mesmo, Rilke, poderiam ser vistos sob essa ótica).

 

Multiplicidade – Se todo escritor é muitas pessoas, eu seria essencialmente duas. Uma que crê na “fundação do Ser pela palavra poética” (conforme leitura que Heidegger faz de Hölderlin). Outra que é filha do ceticismo contemporâneo. Da busca de conciliar essas duas vozes, de buscar fazer com que uma aceite a outra, após tê-las feito medirem-se uma pela outra, disso falam os meus livros. E creio que a tensão distendida entre essas duas vozes favorece a criação poética.

 

O mar – Nasci numa cidade junto ao mar. O sal e o rumor das ondas são minha marca de nascença. A imensidão do mar seria, para mim, o infinito possível dos homens. O mar permeia todos os meus escritos, o mar é sempre protagonista, mesmo quando não nomeado.

 

O livro – O texto narra a busca de uma “palavra cheia de silêncios”, que possa recriar e refundar um sentido para a vida em nosso mundo atual. Trata-se, assim, de uma viagem através do niilismo de nosso tempo, do utilitarismo de nossas palavras, buscando um porto, um passo além do nada, uma voz mais nova e mais viva.

Ilustração de Luise Weiss para "Rumo à Vertigem": a inevitável presença do mar

Ilustração de Luise Weiss para “Rumo à Vertigem”

O título – A imagem da vertigem se liga diretamente à ideia do naufrágio. Rumar à vertigem é rumar à linguagem, pois, para mim, escrever é mais que um verbo, é uma vertigem. E rumar à linguagem é buscar o abismo de silêncio de onde toda palavra emerge, é buscar o naufrágio.

 

Viagem – Trata-se de uma viagem através da linguagem, em busca da linguagem. Viagem que se liga intrinsecamente à figura do naufrágio. Pois, o naufrágio é neste caso não só inevitável, mas também desejado. Como diz Clarice Lispector: “A linguagem é meu esforço humano. Por destino tenho de ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só poderá me ser dado através do fracasso da minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu”.

 

Finitude – Não se descobre um sentido para a vida sem aceitar que a morte faz parte da vida, sem aceitar que morte é, em verdade, “a metade mais larga da vida”, com dizia Rilke. Toda poesia se relaciona com a finitude, com o fato de sermos seres não só efêmeros, mas seres que têm consciência de serem efêmeros. Na viagem do livro, também se busca aprender a habitar a vida, com sua violenta e triste beleza, aprender a sorver a limpidez do efêmero, aprender a difícil dicção da palavra “morte”.

 

A forma – São onze cantos, que somados ao prólogo e ao epílogo perfazem um total de treze capítulos, indicando o número aziago que rege a viagem. Tal estrutura, contudo, não foi pensada antes de escrever o livro, mas, sim, emergiu durante o processo de escrita. Ou seja, foi imposta pela própria viagem do livro. Escrever é, muitas vezes, menos um fazer, que um deixar ser de um texto, assim como a poesia é, por vezes, menos um dizer que uma escuta do silêncio.

Conheça outras obras de Wassily Chuck

Sugestões de leitura para o Cancioneiro, de Petrarca (quinta parte)

O Cancioneiro, de Petrarca, é um livro do século XIV. Apesar de ser considerado o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente, a distância que nos separa deste clássico – que a Ateliê lançou com a tradução de José Clemente Pozenato e ilustrações de Enio Squeff em 2015 – muita vezes dificulta sua leitura.

Foi pensando nisso que nesta semana publicamos a última parte do texto Sugestões para um leitor de hoje que queira ler o “Cancioneiro” de Petrarca, escrito pelo poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro Armindo Trevisan.

cancioneiro

Sexta Sugestão         

Talvez o leitor estranhe que Petrarca tanto enalteça seu ídolo, uma Laura

que possivelmente não poderia ser estrela de um filme. Qualquer tentativa de desmitizá-la a banalizaria. Laura jamais poderá descer das alturas rarefeitas da imaginação. Será sempre uma mulher vislumbrada. Mas o que o poeta escreveu sobre ela, a propósito dela, e sobretudo, o que conseguiu extrair do poço sem fundo de suas próprias experiências e fantasias, não foram, nem possivelmente nunca o serão, exploradas como ele as explorou. Inclusive porque a linguagem de Petrarca é   – ela própria, em si – uma fabulosa criação pessoal:

Se amor não é, qual é meu sentimento?petrarca 5

Mas se ele é amor, por Deus, que coisa é e qual?

Se boa, de onde lhe vem a ação mortal?

Se má, por que é tão doce seu tormento? (p. 239).

 

 

 

 

A atualidade de Petrarca consiste, afinal, no seguinte paradoxo: ele anacroniza os poetas contemporâneos! Ao lermos seu Cancioneiro, percebemos o quanto os poetas modernos e contemporâneos beberam em suas fontes, o quanto lhe devem em pedágio.

Em vista disso, leitor, não se preocupe com o tom aparentemente monocórdico de seus versos. A monocordia não é dele, é dos poetas que vieram após ele. É dos poetas que o assimilaram.

A leitura do Cancioneiro possui o mérito de revelar o quanto na literatura moderna e contemporânea já estava in nuce em Petrarca. Porque o que Petrarca descobriu não foi um tipo de poesia, mas a própria poesia moderna, como ela se expandiu, como – a partir de Dante – tomou nova direção: a de Petrarca.

Petrarca descobriu a inquietude contemporânea, o desassossego, e com ele os inumeráveis caminhos que daí partem, e vão desaguar, inclusive… em Fernando Pessoa!

Tudo o que se relaciona com o eu do poeta, com o homem que subjaz ao criador, está em Petrarca.

O autor do Cancioneiro só não descobriu um elemento essencial que define nosso mundo: o eu ampliado de Baudelaire ou de Nietzsche, bem como o “eu” inflado e não totalmente perscrutado das massas, das multidões. Porque a realidade é que Petrarca foi um Robinson Crusoé de si. Faltou-lhe imaginar o nós, verdadeiro e ilusório que resultou da explosão atômica do eu, e nos levou à noosfera alucinada e alucinante de nossa realidade contemporânea.

Eis porque a poesia moderna é necessária, possui seu universo peculiar, e sob certos aspectos se afastou de Petrarca, e nada deve a ele.

Ela veio completar Petrarca, mas não aprisioná-lo em fórmulas.

A poesia, portanto, permanece viva e criativa, e inclusive continua a inspirar-se no mundo do grande inspirador do autor do Cancioneiro, Agostinho de Hipona que escreveu:

Grande abismo é o homem, Senhor! Contais os fios de seus cabelos (…) porém seus cabelos são muito mais fáceis de contar que os afetos e movimentos de seu coração.[1]

LEIA A PARTE 1 DO TEXTO AQUI

LEIA A PARTE 2 DO TEXTO AQUI

LEIA A PARTE 3 DO TEXTO AQUI

LEIA A PARTE 4 DO TEXTO AQUI

[1] Cit. in: Peter Brown. Santo Agostinho, uma Biografia. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Editora Record, 2005. p . 209.

Sugestões de leitura para o Cancioneiro, de Petrarca (quarta parte)

O Cancioneiro, de Petrarca, é um livro do século XIV. Apesar de ser considerado o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente, a distância que nos separa deste clássico – que a Ateliê lançou com a tradução de José Clemente Pozenato e ilustrações de Enio Squeff em 2015 – muita vezes dificulta sua leitura.

Foi pensando nisso que nesta semana damos continuidade à publicação do texto Sugestões para um leitor de hoje que queira ler o “Cancioneiro” de Petrarca, escrito pelo poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro Armindo Trevisan.

 

cancioneiro

Quinta Sugestão

 

Esqueça o aspecto “amante” de Petrarca.  Ele é, além do mais, um ciumento incomparável. Reserva Laura, a física, para si, comprazendo-se em exibir a outra Laura, a meta-física, a que está além do corpo, a imaginária, para o leitor. Que este a imagine quanto quiser – e puder! O poeta não se importa de desenhá-la ou pintá-la verbalmente:

 

Verdes panos, ou de rubro tingidos

                        não vestiram té agora,

                        nem trança de ouro mulher envolveu

tão bela como essa que me espolia

                        do juízo, e do rumo da liberdade

consigo me arrasta, pois não sustenho

nem jugo menos grave. (p. 81).

 

Apegue-se, portanto, ao Poeta! Ele é mais interessante que a própria mulher que celebra, tanto assim que poucos retratos “imaginários” dela ficaram, e no entanto, são inúmeras, e sempre atuais, as edições do Cancioneiro. Repare como Petrarca possui finura:

petrarca 2

pela esperança que é de amor a filha,

e em tua acerba vida te conserva,

da intempérie livra esta alfombra;

 

veremos depois juntos, maravilha,

sentar-se a mulher nossa sobre a erva

e fazer dos braços sua própria sombra.(p. 89).

 

De tão suspiroso que o poeta é, corre o risco de saturar-nos! Mas como supor saturação quando o ouvimos confessar com humildade:

 

Eu sou daqueles que o choro renova;

            e é bom que sem engano

as lágrimas que emano

mostrem nos olhos a minha alma inteira:

como é minha bandeira

falar dos olhos dela

(não há coisa mais bela

ou algo que me toque tão lá dentro),

corro muito e reentro

lá onde a dor mais fundo me enregela,

e com o coração punem-se as luzes

que na estrada de Amor me foram cruzes. (p., 95).

 

Não esqueça, leitor, que Petrarca está sempre consciente de que seu corpo é uma sarça ardente!  Às vezes – e isso é uma heresia que me permito – chego a pensar que ele transferia para Laura seus impulsos sexuais, tendo em seus braços outra mulher. Esta, porém, super-tangível. A outra seria a que ele verdadeiramente abraçava? Não sejamos insolentes. A tanto não me arrisco. Leiamos apenas o que ele escreve:

 

Amor, tu que consegues por encantopetrarca3

            Uma só alma em dois corpos habitar,

o que faz nela ser tão peculiar

o querer menos, quando a quero tanto? (p. 109).

 

 

Acrescentemos, um tanto abusivamente, que talvez Petrarca estivesse a evocar a frase do Mestre: “Serão dois numa só carne”!

Reitero-lhe, leitor: o poeta, na sua condição de amante, poderá “decepcionar” o público de hoje, que poderia exigir-lhe mais atenção ao tato. Na sua condição, porém, de poeta Petrarca nunca decepciona. O que vemos sobrenadar às suas imagens e metáforas são tábuas de naufrágio, mediante as quais o poeta sempre se salva. É isso que o imortalizou, mesmo quando se queixa de que sua amada Laura não dava a mínima atenção à sua poesia. Mulheres amadas sempre existiram, e existirão, mas poetas capazes de tornar uma única mulher inesquecível são raros. Eis por que o próprio Petrarca comenta:

 

Oh dor, por que devo ir

fora do rumo a magoar a quem amo?

Deixa que eu vá aonde o prazer me acalanta.

Já de vós não reclamo,

olhos serenos sobre o mortal fluir

nem dela que de tal modo me encanta.

            (…)

mas cada vez que para mim olhais

de vós mesmos ficais sabendo mais. (p. 143).

 

Leitor, procure descobrir a poesia desse gênio que amou a natureza tanto quanto a mulher, e por vezes, a despiu imaginativamente com tanta volúpia que muitos, ainda hoje, a despeito de nossa decantada permissividade, não seriam capazes de fazê-lo:

 

E digo que há um instante,

                        qual eu não a tinha visto até agora,

se me despiu; e isso deixou gelado

o coração na hora.

E o será sempre, indo nós de braço dado.

 

Mesmo com todo o medo e tremor meu,

já que ela me dera tanta firmeza,

a abracei com fineza,

para mais aprender dos olhos seus:

e ela que removera já o seu véu,      

me disse: Amigo, agora tens certeza

de toda a minha beleza;

pede quanto convier aos anos teus.

            Senhora, eu disse, há muito tempo meus

Afetos pus em vós, todo inflamado.

Por isso, neste estado

Querer ou não querer está suposto.-

Com voz então de timbre mavioso

respondeu, e com um rosto

que o meu temor tornou esperançoso: petrarca 4

raro do mundo foi na grande turba

quem ouvindo falar do meu valor

não sentisse fervor

mesmo que de somente uma centelha:

e a adversária minha que o bem perturba

tudo apaga: lá vive-se ao sabor

e reina outro senhor

que uma vida tranqüila aconselha. (p.207).

 

Através de seu Cancioneiro, Petrarca permanece atual, necessário a um mundo que pensa vivenciar o amor à revelia da imaginação. O poeta dá-nos lições concretas de imaginação corporal. Um mundo – como o nosso – que aprendeu a desnudar as mulheres, ganharia muito aprendendo com Petrarca a desnudá-las na presença de suas almas.

Dizem os estudiosos que os elementos naturais, os lamentos dos pássaros, a brisa do verão, o murmúrio das águas são – “homólogos dos suspiros do poeta, do seu rio de lágrimas, e das palavras de Laura. Essa interação do sentimento e da natureza não se limita ao registro da tristeza. O soneto 192 repousa, ao contrário, na relação natureza/alegria, do mesmo modo que na quarta estrofe da canção: Chiare fresche e dolci acque” se descreve uma chuva de flores amorosas”[1]:

 

Dos belos ramos caía

tão doce na memória,

uma chuva de flor em seu regaço;

e sentada eu a via,

humilde em tanta glória,

coberta já da auréola qual um laço.

uma flor no seu braço

outra na loura trança,

eram ouro e opala

que estavam a adorná-la;

uma pousava em terra, uma outra em dança

no ar, vagamente flor,

parecia dizer:Aqui reina Amor.

 

Em tais momentos, o Poeta do Cancioneiro deixa de ser renascentista, fundador do lirismo ocidental, e se torna simplesmente um Poeta Vivo, tão vivo como a primeira criança que haja, por acaso, nascido na primeira hora deste dia!

 

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[1] Christian Bec: Fundamentos de Literatura Italiana.Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1984. p..86).