Renata Albuquerque

Março, mês da poesia (seleta)

Março é o mês da poesia. No dia 14 é comemorado o Dia Nacional da Poesia, em homenagem ao nascimento de Castro Alves. No dia 21, celebra-se o Dia Mundial da Poesia, instituído pela UNESCO, em 1999, para promover a leitura, escrita, publicação e ensino da poesia através do mundo. A data lembra da importância da diversidade do diálogo, da livre criação de ideias através das palavras, da criatividade e da inovação e tem como propósito estabelecer uma reflexão sobre o poder da linguagem e do desenvolvimento das habilidades criativas de cada pessoa. Por isso, hoje, no Blog, alguns autores da Ateliê indicam a leitura de poemas de seus mais recentes livros:

Renato Tardivo (Girassol Voltado para a Terra)

grassol

Canção

                                        caminhava pernas fracas pisando

teclas riscando notas na terra a embalar a vida que a espe-

rava uma oitava acima, qualquer

 

Ponteiro

Às vezes o passado. Às vezes, o passado. Às vezes o, passado.

 

Ida

O medo de que o outro se apaixone como lembrança
encobridora de] se apaixonar como lembrança encobridora
de amar a si mesmo sobre todas as coisas como lembrança encobridora do desejo de
morrer.

Ricardo Lima (Desconhecer)

desconhecer

p.17

admito não saber
onde anda o futuro

dedico dias inteiros
às asas cruas do filho que aprende a nadar
planto
rego
retiro ervas daninhas

a manhã traz pássaro
que se esborracha no vidro
a acácia
refletida em estilhaços
retumbante amarelo.

 

p.21

quando um amigo se vai
o silêncio que amplia a sala
a sirene que traga os doentes
a dor que interrompe a crença
tudo seca num vaso

olhos desertam
em contos incompletos
sobre o passo que vacila
uma árvore frondosa
na plenitude da primavera
amanhece
flor
mas o amigo se foi.

 

p.47

não tenho mais olhos para dicionário

as letras ficaram pequenas

o sentido frágil
agora outros compromissos

com amigos ausentes

em jantares e missa

 

vivo

entre livros

e árvores

em nenhum

respostas ou raposas
quase sempre um cão em silêncio
e a alma colhe

lugares

que nunca

olhei.

 

Marise Hansen (Porta-retratos)

portaretrato

Passo à palavra
Passo
À palavra
Peço

        Me refugio
Na palavra
Me alivio

Me liberto
Na palavra
Me desperto

            Falo
Pela palavra
Espero
Apelo
Para a palavra
Paro

Koan
Entre a poesia do dia a dia e a da filosofia

Fico com o sonho

Da padaria.

Inverso
Escrever em verso
é criar ritmo até então
inexistente neste (pelo menos)
universo.

Criar consórcio
entre palavras entre
outras, divórcio.

Usar a roupa do avesso
e descobrir
ser inverso o lado certo.

Ter compromisso com o partido
do conciso e com a total falta
de juízo.

Wassily Chuck (Rumo à Vertigem ou A Arte de Naufragar-se)

 Capa

A Celan

Nessa viagem, nenhuma bagagem, além

do vazio na concha das mãos.

 

Deixa tua fala

para trás, tua última

máscara,

e sente

a carência de ser,

o vazio

que germina

e há de ser tua voz. Sete

sonos mais dentro, vem

um verso junto

ao mar.

 

 

Quase Elegia

Toda voz que morre escorre para o mar.

 

 

Tudo se foi, até o que virá, levado

pelo sopro que vem do mar. Mas,

só é belo o dia porque finda.

Também o vento. Também

a vida. Vê:

não há poemas no eterno. Só

nasce a beleza no instante,

que, leve, se equilibra

entre o erguer e o quebrar

da onda. Nasce

com as cores do adeus. Nasce

para morrer. Como o dia

e o homem. Como a vida. Vê:

toda beleza é triste. E um resto

de verso, ao lado da voz,

insiste em ficar, feito

um consolo, talvez,

da vida pouca que há na vida,

da morte muita que há também,

um resto de verso

consolando

da tristeza de todo verso, da vida

que nunca basta, sempre o sonho

a completá-la, o sonho

que é sempre a vida.

 

Tübingen 

Do convés da alma, avistas vazios

que não podes nomear.

 

Repouso algum, sob um céu

que não mais dá frutos –

o ponto em torno ao qual

gravita o verso

agora está

no vento. Sobre

o Neckar,

a voz ainda vagueia

atrás do vento, distraindo,

sem ver, a solidão

dos campos.

O Diário de Bordo do Velho Chico: um roteiro da vida real

Por: Renata de Albuquerque

Autora de O Velho Chico ou A Vida É Amável – livro homônimo à novela das 21h da Rede Globo, que estreia hoje, Dirce de Assis Cavalcanti diz que a viagem que fez na região, durante os anos 70, foi “um divisor de águas”. A sinopse e o enredo do livro O Velho Chico foram escritos a partir de uma experiência marcante, cheia de personagens, símbolos e histórias inesquecíveis. Acompanhe abaixo o que a autora diz sobre essa experiência:

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Como teve a ideia de escrever o livro O Velho Chico?

Dirce de Assis Cavalcanti: A viagem pelo Velho Chico a fiz a trabalho. Era, na época, Diretora do Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura, em Brasília, e decidimos fazer uma exposição com as Carrancas do rio São Francisco.

Qual a importância das carrancas no enredo do Velho Chico?

DAC: Preciso dizer que é o único rio do Brasil em que existiram, nasceram, procriaram, a princípio surgidas das mãos e da imaginação do velho Guarani, que “retirava do mato o pau que já vinha pronto”, como ele contava, e então era só ir descascando a cara, os dentes, a cabeleira, e a carranca pronta, primeiramente utilitária, depois ornamento, se tornava um símbolo, o símbolo do Velho Chico.
Destinadas a assustar os monstros aquáticos que os caboclos tanto temiam, eram colocadas na proa das embarcações, e quanto mais ameaçadoras fossem, melhor cumpriam sua missão.

A novela Velho Chico, que estreia hoje, tem o mesmo cenário de seu livro. Por que acha que essa região é tão marcante?

DAC: Para mim, como relato no “diário de bordo”, a vida se dividiu entre o antes e o depois do São Francisco. Conhecer aquela gente extraordinária na sua pobreza, no asseio de suas casas de chão de barro liso, como que encerado, na sua generosidade, coragem e simpleza, foi um presente dos céus. Sobretudo a população mais distante do mundo, na margem esquerda, é muito surpreendente. Uma mulher alta e magra, como eu conto no livro, que ia pagar promessa em Bom Jesus da Lapa para que lhe curasse uma papeira, me deu o significado da vida, numa frase, dita depois de contar tantas misérias por que passou, a perda do marido e de onze filhos por doença e má nutrição, ela, Ambrosina, me disse: …”mas a vida é amável, não é dona menina?”

Não vou dizer mais nada, está tudo no livro…

Ateliê lança Matéria Lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz

Obra da coleção Estudos Literários chega ao número 50 e apresenta quatro ensaios de leitura crítica de poesia

Lítica“Lítico” é o adjetivo relativo à pedra e Mario Higa, em Matéria Lítica, reuniu poetas conhecidos por usarem o mineral em suas obras literárias. A presença da “pedra”, portanto, é o ponto de partida para ajudar o leitor a entender e interpretar textos de quatro poetas latino-americanos do século XX.

“Para Cabral, Neruda e Paz, a pedra e o mundo mineral constituem uma imagem identitária, ou uma figura da imagística, de suas obras”, explica Higa na introdução do livro. Já Drummond aparece com a análise do poema “No Meio do Caminho”, que possui na pedra sua imagem central. Higa conta que esse poema fez com que Drummond muitas vezes fosse chamado, na maioria com sentido pejorativo, de poeta da pedra, por conta de sua ‘pedra no meio do caminho’.

Em Matéria Lítica o autor, que é professor assistente do departamento de Espanhol e Português do Middlebury College (Vermont, EUA), adotou um método crítico que entende o texto poético como um objeto dinâmico, que formula problemas ou impasses interpretativos. Nesse sentido, ele diz: “Nos capítulos deste livro, o poema constituirá o espaço onde o ‘combate entre clareira e ocultação’ se trava diante do leitor, combate que busca não apenas fazer emergir pela abertura, ou clareira do poema, o sentido que se oculta nos interstícios de sua malha textual, mas também, e sobretudo, o efeito de espanto do pensamento que a desocultação desse sentido produz.”

 

Coleção Estudos Literários

O lançamento de Matéria Lítica é marcado por ser o 50º título da coleção Estudos Literários, que nasceu em 1999. O objetivo é levar ao grande público, interessado pelo universo da literatura, estudos e pesquisas acadêmicas que, sem a existência da coleção, só chegariam ao conhecimento de um número restrito de pessoas. Para fazer parte da coleção, os trabalhos acadêmicos ganham uma edição cuidadosa e um belo projeto gráfico para que levem um conteúdo rico, de maneira agradável, aos leitores. Assim, a coleção dá espaço à nova geração de pesquisadores brasileiros e permite o conhecimento de ideias originais e contemporâneas.

 

Serviço

Matéria Lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz

Formato:  12,5 x 20,5 cm

Número de páginas: 304

ISBN:978-85-7480-726-3

Preço: R$ 44,00

 

Sobre a Ateliê Editorial

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

Site: www.atelie.com.br

Blog: blog.atelie.com.br

Twitter: @atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

 

Contatos para Imprensa:

Milena O. Cruz

imprensa@rda.jor.br

Tel: (11) 4402-3183/(11) 98384-3500

www.rda.jor.br

 

 

Raduan Nassar concorre ao Man Booker Prize

Por Renata de Albuquerque

Raduan Nassar foi indicado ao Man Booker International Prize, um dos mais importantes prêmios literários do mundo. Sua obra A Cup of Rage (tradução de Stefan Tobler para Um Copo de Cólera), publicado pela Penguin Modern Classics, foi uma das treze escolhidas pela comissão julgadora em um universo de 155 títulos participantes.

Esta é a primeira vez que obras traduzidas concorrem á premiação e, apesar de Um Copo de |Cólera ter sido lançado em 1978, só recentemente foi traduzido para o inglês, o que permitiu que participasse da seleção do Booker Prize. A lista final de concorrentes, com apenas seis títulos, será divulgada em 14 de abril e o vencedor será conhecido em 16 de maio. O prêmio vai pagar 50 mil libras, valor a ser dividido entre autor e tradutor.

Raduan Nassar tem apenas três obras editadas em livro. Além da novela Um Copo de Cólera, publicou o romance Lavoura Arcaica e o conto Menina a Caminho. Apesar de pequena, sua obra é uma das mais interessantes e singulares da literatura nacional do século XX. Tanto assim que é objeto de diversos estudos  críticos, entre eles Porvir que Vem Antes de Tudo: Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica, de Renato Tardivo.

 

Ateliê de site novo!

 

tela do site no celular

Em 1995, quando a Ateliê Editorial começou, a internet comercial ainda engatinhava. Em 2000, o site www.atelie.com.br já estava no ar.  De lá para cá foram várias versões. Agora, uma nova atualização acontece. E desta vez, as mudanças são grandes. Quase tudo mudou – e para melhor!

O design foi totalmente remodelado. O layout é muito mais moderno, bonito e simples de navegar. É autoexplicativo e intuitivo.

Outra importante novidade do site é que agora ele é responsivo. Isso significa que ele se adapta às mais diferentes telas. Então, você pode consultar o site, navegar e fazer suas compras tanto pelo tablet quanto pelo celular ou pelo computador tradicional. De qualquer jeito, vai ser fácil encontrar o que você quer e precisa, sem ter que driblar letrinhas pequenas ou ver a tela desconfigurada.

E como a Ateliê é uma editora de livros sobre livros, que sabe a importância que o leitor dá a livros bonitos e bem-acabados, este novo site tem um espaço ainda maior para as capas, para que você possa conhecer cada detalhe e observar melhor as cores e as ilustrações.

Mas, como não se compra um livro apenas pela capa nem pelo título, o site também tem informações mais profundas e detalhadas sobre cada obra. Dá até para baixar um pdf de partes de alguns livros, para saber melhor do que cada um trata e como cada autor enfoca o tema.

Para a Ateliê, a opinião dos leitores é muito importante. A editora leva isso a sério, tanto que criou uma área reservada especialmente para que os leitores avaliem os livros. Para deixar sua opinião, basta estar logado como cliente.

Na área do cliente você também pode criar sua própria lista de desejos, com os títulos dos livros que quer. Essa é uma ferramenta super útil não só para quem quer presentear e agradar em cheio, mas também para concentrar em um só lugar toda aquela lista que – quem é leitor sabe – vive crescendo. Assim, fica mais prático localizar e atualizar os títulos que você já tem ou aqueles que quer muito ter. Como o site disponibiliza seu  histórico de compras, é ainda mais simples saber o que você já tem ou não.

Por meio do rastreamento de entrega, você fica sabendo o status do seu pedido: se o pagamento já foi aprovado, se o livro já foi postado no correio e qual previsão para que ele chegue até você.

E, para quem adora descontos (e quem não gosta?) a Ateliê Editorial criou a seção Outlet, onde o leitor encontra livros em promoção a preços realmente baixos. Outra novidade são os cupons de desconto, que você pode conseguir de muitas formas diferentes. Como? Só acompanhando a Ateliê Editorial nas redes sociais e no site novo! Acesse: www.atelie.com.br

Velho Chico: um rio, uma novela, um livro

Por Renata de Albuquerque

RioSaoFrancisco

Título da nova novela das 21h da Globo, Velho Chico é muito mais que isso. É também a maneira como as pessoas da região chamam o rio, com uma intimidade incomum. Mas isso talvez tenha explicação: parece que a história daquelas pessoas não poderia ser escrita sem que o Rio São Francisco existisse. E é isso que Dirce de Assis Cavalcanti retrata nas páginas de seu livro O Velho Chico ou A Vida É Amável.

O livro, homônimo da nova novela, é o relato de uma viagem da autora pelo Rio São Francisco feita na década de 70 – a mesma época em que a história da novela se inicia. Mas a novela é explicitamente uma obra de ficção, com um enredo que mistura rixas familiares, amores proibidos e um grande elenco, que conta com Tarcísio Meira, Rodrigo Santoro e Antonio Fagundes, entre outros. Na sinopse de Velho Chico, também há espaço para um fundo histórico (a construção de uma hidrelétrica faz parte da trama).

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Capa do livro de Dirce de Assis Cavalcanti

Já o livro de Dirce de Assis Cavalcanti é “um relato factual, mas cheio de poesia”, como definiu José Mindlin, no prefácio da obra. O livro mistura relatos do que a autora testemunhou durante sua viagem com impressões, pensamentos e emoções do que sentiu ao visitar o lugar e conhecer os habitantes do local.

O Velho Chico já seria uma leitura atraente, mesmo que se limitasse à descrição dos lugares que visitou (…) Mas foi além, pois soube fazer ressaltar o interesse humano do variado tipo de pessoas e vidas com que teve contato. Tudo isso (…) constituiu apenas uma parte do livro – a viagem exterior. Houve, porém, outra viagem, paralela, que Dirce conseguiu entremear com a primeira – uma viagem interior, que surpreende e impressiona, e que mantém sempre aceso o interesse do leitor”, escreve José Mindlin.

Um exemplo disso é um curto trecho ainda no início do livro, em que a autora escreve:

“A estrada e o rio. Uma caindo no outro de repente. Nos braços do outro. De repente: o rio. Sem se anunciar. Nem barrento, como diziam. Vestido de azul, à espera. Apressado e cantador. Por entre as pedras, corredeiro. Mesmo assim à espera.”

É nessa prosa cheia de imagens poéticas de Dirce de Assis Cavalcanti que o Rio São Francisco se desenha, aos poucos, mais personagem que paisagem. Um personagem fundamental para a existência das pessoas cuja relação com o rio é tão íntima que o chamam pelo familiar apelido de Velho Chico.

A nova novela Velho Chico não é baseada no livro de Dirce de Assis Cavalcanti, mas certamente guarda muitas semelhanças com ele: a paisagem, os personagens regionais, a beleza e a complexidade da vida local são ingredientes inescapáveis, tanto na sinopse da ficção quanto no relato da realidade. Dizem que a arte imita a vida – e a nova novela da Globo deve usar muitos elementos reais em seu enredo. Mas, no livro O Velho Chico ou A Vida É Amável, o que se pode perceber é que a autora consegue captar com poesia a realidade daquela região do Brasil. Se você já leu o livro, deixe seu comentário!

Ateliê Editorial e Edições Sesc São Paulo lançam obra que retrata a trajetória de Tomás Santa Rosa como capista

Publicação reúne cerca de 300 capas do artista, em um trabalho que Luís Bueno levou dez anos para realizar

Tomás Santa Rosa dedicou-se a vários ofícios no campo das artes plásticas: executou pinturas e gravuras, criou capas, ilustrações e projetos gráficos para livros, revistas e jornais, elaborou cenários e figurinos para o teatro. Foi responsável pela cenografia da peça “Vestido de noiva”, dirigida por Ziembinski em 1943, considerada um divisor de águas no processo de modernização do teatro brasileiro. A convivência com Portinari, com quem trabalhou e de quem se tornou amigo, permitiu que aperfeiçoasse o seu apurado senso estético. Com esse conhecimento, Santa Rosa passou a assinar a coluna de crítica de arte no “Diário de Notícias” em 1945, herdando o posto do aclamado Di Cavalcanti.

Luís Bueno destaca neste livro o que considera fundamental para o conhecimento da história da editoração e do design gráfico no Brasil: as capas criadas por Santa Rosa. Com isso, permite ao leitor acompanhar a transição das capas predominantemente tipográficas para as ilustradas, bem como compreender o aprimoramento crescente do campo editorial.

CapasA obra contém textos do autor e reúne cerca de 300 capas, até então dispersas em sebos, coleções particulares e bibliotecas, e que servem como fonte de pesquisa para futuros trabalhos sobre a história do livro e das artes visuais. Segundo Ricardo Assis, designer responsável pela capa do livro, a estratégia foi a de utilizar as mesmas fontes escolhidas por Santa Rosa, que se tornaram a marca de seu trabalho: “Partindo delas fizemos uma composição inspirada no estilo dele, com cores e fundos que lembrassem ao leitor as características principais de seu trabalho.”

A ideia da obra surgiu em 1999, quando Luís Bueno redigia sua tese de doutorado e leu vários romances brasileiros da década de 1930. Sua entrada no universo de Santa Rosa começou pelos textos dos livros para os quais ele criou capas. Para o autor, “é natural que neste livro o artista seja apresentado, sobretudo, como um leitor”. Bueno afirma ainda que: “Foi a partir dos textos que as capas começaram a chamar minha atenção para alguma coisa que está para além da beleza das ilustrações ou do equilíbrio da distribuição dos elementos que as compõem. É que nelas se percebe que o Santa Rosa é um artista de formação muito ampla”. Como esse material estava disperso, com o tempo se tornava cada vez mais inacessível. Nesse sentido, Bueno tentou reunir o maior número possível de capas desenhadas pelo artista: “Reuni-lo num volume é uma forma de preservá-lo – ainda que o contato direto com os livros seja importante – para que outras pessoas se animem a enfrentar a tarefa de avaliar a posição de Santa Rosa na cultura brasileira do século XX”.

FICHA TÉCNICA

Formato: 23 x 27 cm

Páginas: 288 páginas

ISBN Ateliê Editorial: 978-85-7480-727-0

ISBN Edições Sesc SP: 978-85-69298-59-5

Preço: R$ 118,00

SOBRE O AUTOR

Doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, Luís Gonçalves Bueno de Camargo é professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e bolsista produtividade do CNPq. Publicou em 2006 o livro Uma história do romance de 30 (Edusp/ Editora da Unicamp, 712 p.). É coorganizador de A confederação dos Tamoios: edição fac-similar seguida da polêmica sobre o poema (Editora UFPR, 2007, 540 p.) e de A tradição literária brasileira entre a periferia e o centro (Argos, 2013, 271 p.). Publicou dezenas de artigos e capítulos de livros no Brasil e no exterior. Foi diretor da Editora UFPR entre 2002 e 2007.

SOBRE A ATELIÊ EDITORIAL

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

Site: www.atelie.com.br

Blog: blog.atelie.com.br 

Twitter: @atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

 

SOBRE AS EDIÇÕES SESC SÃO PAULO

Segmento editorial do Sesc, as Edições Sesc São Paulo têm o intuito de expandir o campo de ação da instituição, atendendo a um público cada vez maior. Seu catálogo abrange diversas áreas do conhecimento, com ênfase em artes e ciências humanas, tendo a programação artístico-cultural e educativa do Sesc como uma das principais fontes de conteúdos da editora.

 

Assessoria de Imprensa | Ateliê Editorial

RDA Comunicação Corporativa 11 4402-3183 | 11 98384-3500

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Tomás Santa Rosa, leitor

Por Renata de Albuquerque

Sobrecapa do livro "Capas de Santa Rosa"

Sobrecapa do livro “Capas de Santa Rosa”

Capa do livro de Luís Bueno

Capa do livro de Luís Bueno

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tomás Santa Rosa (1909-1956) foi um artista visual inquieto.  Um dos mais importantes cenógrafos de sua época (criou a arquitetura cênica da histórica montagem de Vestido de Noiva, dirigida por Ziembinski), dedicou-se a várias tarefas no campo das artes plásticas: executou pinturas e gravuras, criou capas, ilustrações e projetos gráficos para livros, revistas e jornais, elaborou cenários e figurinos para o teatro, projetou decoração para festejos de carnaval.

Seis décadas depois de sua morte, o professor de Literatura Brasileira Luís Bueno lança, pela Ateliê Editorial, Capas de Santa Rosa, uma reunião de cerca de 300 capas criadas pelo artista – um trabalho de dez anos de pesquisa. A obra é uma coedição das Edições Sesc SP.

Na entrevista a seguir, Bueno dá uma pista da razão pela qual o trabalho de Santa Rosa como capista é tão singular. Para o autor, as “qualidades de leitor” de Santa Rosa foram fundamentais para que seu trabalho se tornasse tão impactante. Acompanhe:

 

Na apresentação do livro, você menciona que a ideia do livro surgiu durante o processo de sua tese de Doutorado. Gostaria que falasse mais um pouco a respeito da tese e de como sua tese o levou a Santa Rosa.

Luís Bueno: Minha tese de doutorado, que foi publicada pela Edusp e pela Editora da Unicamp em 2006, com nova edição no final de 2015, foi a escrita de uma história do romance de 30, exatamente o período em que Santa Rosa começou a atuar como capista. Para escrevê-la eu precisei ler o maior número possível de romances daquele período, e vários deles tinham capas de Santa Rosa. A beleza das capas era evidente por si mesma, mas observando as qualidades de leitor do Santa Rosa depois de ter eu mesmo lido os romances, é que pensei na singularidade do trabalho dele, na sua qualidade peculiar. Como não tenho formação nem em design nem em arte, e sim em literatura, sempre pensei no trabalho dele a partir do texto. Mais tarde, tive a oportunidade de dirigir a Editora da Universidade Federal do Paraná. Ora, essa experiência foi um curso prático de produção de livros que me deu a chance de acompanhar profissionais do design elaborando projetos gráficos e capas. Juntando as duas coisas, acabei me sentindo, por um lado, na obrigação de recolher o trabalho do Santa Rosa nesse campo, e, por outro, capaz de dizer alguma coisa sobre ele.

Luís Bueno

Luís Bueno

Qual a importância de santa Rosa no cenário da arte brasileira?

L.B.: O Brasil é um país complicado, como todos sabem, sobretudo injusto. Mas não é o fim do mundo – é parte do mundo, é um jeito de ser do mundo, e não precisa ser injusto para sempre. É mesmo absolutamente fundamental que não seja. Em boa parte do século XX a cultura brasileira se desenvolveu amplamente, contribuindo de forma decisiva para pensar, dar forma e propor mudanças a esse jeito de ser no mundo. Artistas como Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Portinari, Guimarães Rosa, Oscar Niemeyer, Tom Jobim, para ficar apenas em meia dúzia de nomes mais famosos, trabalharam imensamente e precisam continuar a serem ouvidos não apenas pelos resultados estéticos a que chegaram em seu campo de atuação – o que em si já seria muito – mas também porque souberam enfrentar essa complicação brasileira e agir sobre ela, propor formas de pensar sobre ela. Santa Rosa faz parte desse grupo numeroso e significativo. A arte talvez não salve o mundo, mas o mundo não se salva sem ela. É essencial. Santa Rosa é alguém para quem a arte foi essencial. Já passou da hora de atentarmos para esse esforço e retomá-lo.

 

Como você apresentaria Santa Rosa e sua obra para um leitor de hoje em dia, que não o conhece? Por que é importante apresentá-lo às novas gerações?

L.B.: A melhor forma de apresentar a obra de Santa Rosa aos leitores de hoje é mostrá-la, colocá-la à vista em seu conjunto. É isto que o livro se propõe a fazer, além de chamar a atenção para alguns de seus aspectos essenciais para, quem sabe, interessar esses leitores. As enormes transformações práticas pelas quais passou o trabalho de um artista gráfico nos últimos 70 anos – da prancheta aos editores de imagens – não eliminam os problemas de base envolvidos no métier: a relação da materialidade do livro com seu conteúdo, a concepção artística de seus elementos. E nisso a apreciação do trabalho de Santa Rosa tem muito a dizer e é por isso que é importante apresentá-lo à novas gerações.

O que mais o encanta e chama sua atenção em Santa Rosa?

L.B.: Há muita coisa que me encanta e me chama a atenção na trajetória artística de Santa Rosa. Seu interesse amplo pela arte e pela vida, traduzida numa obra que não ficou concentrada numa única atividade, tem a capacidade de se colocar em diálogo direto com a gente. Ele foi um militante da arte, em especial da arte moderna, em sentido muito amplo. Militou como pintor, como professor e como escritor, publicando vários artigos nos jornais, planejando cursos de percepção artística para o grande público. Mas, principalmente, como o artista que misturava tudo isso e colocava na rua – nas livrarias, nos teatros, na decoração de carnaval – uma nova sensibilidade artística. Em suma, o que mais me encanta no trabalho de Santa Rosa é que se trata de uma experiência viva, ainda hoje, 60 anos depois de sua morte. Aliás, quando ele morreu, na Índia, em 1956, Carlos Drummond de Andrade escreveu um poema que define isso de maneira sintética e que diz: “Essa alegria de criar/ que é tua explanação maior e mais tocante”. Não é à toa que um trecho deste poema é a epígrafe do livro.

 

Em sua opinião, como ele influencia nosso design até hoje?

L.B.: Santa Rosa tem importância capital para o design brasileiro. Atuou num momento em que a indústria moderna do livro no Brasil se estabelecia. Pensou o livro como artista, mas também como designer – palavra que não se usava em seu tempo – com um olho na ilustração e outro no layout. Seu desejo de transformar a arte moderna em experiência concreta acabou se materializando em capas de livro ao mesmo tempo atrativas – pela ilustração – e sérias – pela sobriedade e pela leitura que propunha. Ainda que indireta, sua influência dura até hoje, e pode ser mais ampla se seu trabalho for conhecido. É essa a principal ambição deste livro: a de contribuir para que seu trabalho fique mais visível e possa, quem sabe, influenciar mais diretamente os novos designers e os novos leitores.

Capa de santa Rosa para "Cangaceiros", de José Lins do Rego (1953)

Capa de Santa Rosa para “Cangaceiros”, de José Lins do Rego (1953)

Quais são suas três capas preferidas e por quê?

L.B.: É obviamente difícil, se não impossível, apontar as três capas que seriam minhas preferidas. Por motivos diversos, considero várias capas maravilhosas. Mas vou apontar uma de cada década em que ele atuou, que podem dar ideia da excelência do trabalho dele. Sua primeira incumbência como capista, com Urucungo, de Raul Bopp seria uma delas. É uma capa que dialoga com todo o livro e, de sua maneira, analisa-o, com um desenho original que faz até aquilo que deveria ser mera informação, o título e o nome do autor, integrar a ilustração. A segunda, da década de 40, é a de Fonte Invisível, livro de poemas de Augusto Frederico Schmidt, onde ele conseguiu transformar uma simples linha ondulada em ilustração e em comentário ao conteúdo do livro: parece impossível tirar tanto significado de tão pouco. Por fim, dos anos 50, um momento em que ele retoma o uso da cor e experimenta novas técnicas, como a gravura, é representativa a capa de Cangaceiros, de José Lins do Rego.

 

Você considera que sua pesquisa se esgotou ou prevê desdobramentos dela? Como seria essa continuação?

L.B.: Há muita coisa a se pesquisar e se avaliar quando se trata de Santa Rosa. Só no campo das artes gráficas, além das capas, seria preciso estudar sua atividade como designer do miolo do livro, da produção gráfica em geral. Além disso, ainda não se recolheu nem se estudou o resultado de sua atividade como ilustrador, tanto para livros – arte que eu já levantei razoavelmente bem e quem sabe no futuro apareça num outro livro – quanto para jornais, Mas isso está longe de ser tudo. Ainda falta dar a dimensão exata da importância de Santa Rosa para o teatro brasileiro. Assim como no que diz respeito ao livro, ele foi elemento-chave na criação do moderno teatro brasileiro, com uma atuação espantosa como figurinista e cenógrafo. Por fim, mas não menos importante, está sua obra de pintor, que ficou à sombra da de outros artistas brasileiros de seu tempo, como seu grande amigo Portinari, mas que tem lugar garantido no cânone da moderna arte brasileira. Isso tudo sem mencionar sua atividade como agitador cultural, professor e boêmio. A julgar pelas histórias que contam dele escritores como Rubem Braga e Rachel de Queiroz, há um mundo de coisas a se descobrir aí. É claro que este não é um trabalho para uma pessoa. Desdobramentos há vários e para vários pesquisadores.

Ateliê Editorial marca presença na Expo Revestir 2016

Os livros da editora compõem a ambientação do estande da Cerâmica Portinari

Estande da Cerâmicas Portinari, com ambientação de Elizabeth Álvares

Estande da Cerâmicas Portinari, com ambientação de Elizabeth Álvares

Conhecida pelo cuidado e elegância com que realiza a edição de todos os livros que mantém em catálogo, a Ateliê Editorial foi convidada pela Cerâmica Portinari – uma das maiores empresas de revestimento cerâmico do Brasil – a colocar alguns de seus títulos na estante que compõe o ambiente do estande da marca na Expo Revestir 2016.

A feira, que acontece entre 1 e 4 de março em São Paulo, é o evento mais importante da cadeia produtiva da construção brasileira e atrai arquitetos, designers de interiores, paisagistas e lojistas. “Pedimos o apoio da Ateliê Editorial porque sabemos que seus livros atendem o mesmo público que visita a feira”, afirma a designer de interiores Elizabeth Álvares, responsável pela ambientação do estande. A Ateliê valoriza o livro enquanto objeto e por isso traz aos leitores projetos gráficos e editoriais de alta qualidade, desde o tipo de papel até as capas – muitas delas, premiadas internacionalmente.

O estande da Cerâmica Portinari abriga cerca de 500 livros da editora, entre os quais títulos como Esplendor do Barroco Luso-Brasileiro, de Benedito Lima de Toledo, que foi vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Arquitetura e Urbanismo; O Design do Livro, de Richard Hendel; Arte, Dor: Inquietudes entre Estética/Psicanálise, de João A. Frayze-Pereira; Clichês Brasileiros, de Gustavo Piqueira e o recente lançamento A Voz que Canta na Voz que Fala – Poética e Política na Trajetória de Gilberto Gil, de Pedro Henrique Varoni de Carvalho. Os livros não estarão à venda no estande, mas quem se interessar pode adquiri-los pelo site www.atelie.com.br. O estande da Cerâmica Portinari para a Expo Revestir 2016 é um projeto de arquitetura de interiores da Estúdio Piloti e tem ambientação de Elizabeth Álvares.

Serviço

Expo Revestir 2016

Transamérica Expo Center – Av. Dr. Mario Vilas Bôas Rodrigues, 387 – Santo Amaro, São Paulo – SP

De 1 a 4 de março de 2016, das 10h às 19h.

Cerâmica Portinari: Estande 245, pavilhão B, entre as ruas N e O.

 

Sobre a Ateliê Editorial

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

Site: www.atelie.com.br

Blog: blog.atelie.com.br 

Twitter: @atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

 

Contatos para Imprensa:

Milena O. Cruz

imprensa@rda.jor.br

Tel: (11) 4402-3183

Cel: (11) 98384-3500

www.rda.jor.br

Tirando poesia de pedra

Em Matéria Lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz, Mario Higa faz uma leitura crítica de quatro dos mais importantes poetas latino-americanos que usaram a imagem da pedra como mote de suas obras literárias

Por: Renata de Albuquerque

capa materia litica

Fruto da tese de Doutorado que Mario Higa defendeu na Universidade do Texas, em Austin (EUA), o livro Matéria Lítica: Drummond, Cabral, Neruda e Paz – o 50º título da Coleção Estudos Literários, da Ateliê Editorial – acaba de ser lançado. Na obra, o autor propõe a leitura de quatro poetas conhecidos por usarem o mineral suas obras literárias com o objetivo de ajudar o leitor a entender e interpretar esses textos.

“Para Cabral, Neruda e Paz, a pedra e o mundo mineral constituem uma imagem identitária, ou uma figura da imagística, de suas obras”, explica Higa na introdução do livro. Já Drummond aparece com a análise do poema “No Meio do Caminho”, que possui na pedra sua imagem central.

 

Como foi fazer um Doutorado nos EUA estudando poetas cujas raízes latino-americanas são tão fortes (ainda que todos possam ter uma leitura “universal”)? Eles são autores conhecidos nos EUA?

Ainda que o termo “imperialismo” esteja hoje em desuso, creio que se poderia, num sentido positivo, mas não despolitizado, aplicá-lo à política das universidades americanas de atrair e manter no país estudantes e pesquisadores estrangeiros. Por conta dessa política, muitos estudiosos chegam aqui, às vezes para uma temporada, e quando podem, decidem ficar. Quem ganha com isso é a comunidade acadêmica, que se torna assim mais exposta à diversidade cultural e, como consequência, à constante reavaliação de suas ideias. Lembro-me de que Gilberto Freyre, já em 1920, louvava, no seu o diário, o cosmopolitismo de Columbia. “Ai de universidade que não for cosmopolita”, dizia-lhe um colega inglês, também impressionado. Pois bem, nesses centros universitários e universalistas, a presença da América Latina é, de fato, bastante forte. No entanto, por razões históricas, e também geográficas, ou geopolíticas, é mais forte do lado espanhol do que do português. Logo, se você me pergunta se Drummond, Cabral, Neruda e Paz são conhecidos aqui, eu diria que, nos círculos universitários dos estudos latino-americanos, sim. Naturalmente, mais Neruda e Paz, cuja repercussão internacional, e mesmo não acadêmica, de suas obras é imensa, do que Drummond e Cabral, que ainda precisam de maior exposição fora do Brasil. Nesse sentido, a boa notícia para nossos poetas é que o interesse pelo Brasil, por parte de estudantes americanos, hispano-americanos, e de outras nacionalidades, cresceu de modo expressivo nas duas últimas décadas. Quando isso ocorre, mais estudantes se matriculam nos cursos de português, e com isso, expande-se o conhecimento da cultura brasileira (e lusófona) em terras estrangeiras, ou mais especificamente, americanas. A má notícia é que, por conta dos mais recentes acontecimentos no Brasil, essa tendência tem mudado de rumo, com impacto negativo na demanda por cursos de português. Laurentino Gomes, que deu um curso na universidade onde eu trabalho, resumiu essa questão de modo exemplar num post de seu blog. Para quem tiver interesse no tema, aqui vai o link: http://laurentinogomes.com.br/blog/?s=middlebury&lang=pt-br

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Em resumo, o conhecimento de Drummond e Cabral, ou de qualquer outro autor brasileiro ou de língua portuguesa, nos Estados Unidos, depende menos da qualidade de suas obras do que de fatores externos, isto é, políticos e econômicos. A volatilidade desses fatores, sobretudo no Brasil, mas também no restante do mundo lusófono, produz efeitos quase que imediatos nas universidades americanas que oferecem cursos de português. Isso ocorre também com o espanhol. No entanto, como a América espanhola é fragmentada, o impacto dos acontecimentos lá chega aqui fragmentado também. Além disso, há outros fatores – históricos, geográficos, políticos, como já mencionado – que interferem na questão do estudo do espanhol e das culturas hispano-americanas nos Estados Unidos. Por fim, fazer o doutorado nesse ambiente multicultural foi, para mim, uma experiência bastante enriquecedora.

Por que da escolha de Drummond, Cabral, Paz e Neruda? O que eles têm em comum que permitiu-lhe uni-los em seu estudo?

Meu estudo nasceu do gosto que tenho pela análise, pelo comentário e pela interpretação de textos literários, ou mais especificamente, poéticos. A questão do sentido, em amplo espectro, sempre me fascinou, e ainda me fascina. Assim, eu diria que meu livro é menos sobre os poetas que você menciona e mais sobre a questão o sentido, ou melhor, como o sentido, segmentado em suas várias dimensões – linguístico, estético, político, crítico, teórico, dialético… –, se forma na confluência do texto poético, da mente do leitor e do contexto histórico-cultural em que ambos se inserem, e do qual ambos são, a um só tempo, agentes e produtos. Para investigar a questão do sentido, fixei-me inicialmente no célebre caso da polêmica provocada pelo poema de Drummond “No meio do caminho”. O chamado “poema da pedra” incitou o debate mais acalorado da história do Modernismo brasileiro. E no centro desse debate, encontrava-se a discussão em torno de seu sentido e valor. As leituras que o poema, então, recebeu foram as mais disparatadas. Mas afinal, que fatores textuais, teórico-culturais e históricos possibilitaram tanta divergência de atribuição de sentido? E por que essa divergência perde força na década de 1960? Essas são algumas questões sobre as quais me debruço e às quais tento responder.

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Da pedra de Drummond, passei à pedra de Cabral, por razões distintas. No caso de Cabral, interessava-me não o processo de atribuição de sentido, e sim a problematização de um sentido atribuído: o da relação pedra/despersonalização lírica na poesia cabralina. Isso me levou, entre outros exercícios, ao da análise do poema “A educação pela pedra”. A relação entre pedra e educação também surge num poema da última fase de Neruda: o de número XVII, de Las piedras del cielo, coletânea publicada em 1970. Nessa última fase, pouco estudada pela crítica, mesmo nos países de língua espanhola, predomina um tom desencantado em relação ao homem e à história, que a poesia nerudiana havia decantado na fase épico-política de Canto general. O curioso é que a imagem da pedra mostra-se recorrente nessa trajetória que vai do entusiasmo ao desencanto. O ápice da afirmação do homem e da história através da pedra encontra-se, pela minha hipótese de leitura, em “Alturas de Macchu Picchu”. E um dos pontos mais baixos do desencanto em relação a esses mesmos elementos pode ser lido no poema XVII. No entanto, a imagem da pedra, que serviu de figura de afirmação do homem e da história, é duas décadas depois retomada para corrigir e negar tal afirmação. E o que eu faço é tentar compreender como Neruda manipula os sentidos ou as metáforas do mundo mineral para expressar percepções díspares do homem e da história. Já na poesia de Paz, examino a pedra como metáfora de origem, mito e sagrado, a partir da análise de um poema sem título, referido pelo primeiro verso: “Como las piedras del Principio”. Como se vê, há muito pouco, ou mesmo quase nada, ligando esses poetas, que eu reúno por meio de uma imagem forte, no caso de Drummond, e além de forte, recorrente ou identitária no caso da poesia de Cabral, Neruda e Paz: a imagem da pedra.

 

Por que Drummond é a “pedra porosa”; João Cabral é a “pedra narcísica”; Neruda, a “desencantada”; e Paz, a “logocêntrica”?

Os títulos dos capítulos de meu livro sintetizam um aspecto semântico de cada “pedra” examinada. Creio que a resposta anterior esclarece um pouco essa questão. A porosidade da pedra de Drummond aponta para a permeabilidade ou vulnerabilidade de sentido que essa imagem alcança no contexto do poema “No meio do caminho”, articulado ao contexto cultural de rivalidade entre modernistas e antimodernistas. No caso de Cabral, os conceitos de narcisismo e antinarcisismo, eu os tomo emprestados a Antonio Candido e Eduardo Escorel, que os usam, respectivamente, para caracterizar a poesia cabralina desde uma perspectiva predominantemente psicológica. No meu ensaio, emprego a noção de narcisismo dentro de um enquadramento estritamente retórico, ou seja, tal conceito serve para nomear “(i) manobras textuais de autorreferencialidade [metapoesia] em poemas que, em princípio, objetivam o outro, e (ii) manobras extratextuais, isto é, externas e paralelas aos poemas, que visam à construção de um ethos autoral legitimador a priori da obra de Cabral”. Pode parecer um tanto técnica essa definição, que foi extraída da introdução do meu estudo. No entanto, em meu ensaio sobre Cabral, examino vários exemplos que ilustram esses argumentos. Sobre a imagem da pedra, ela é uma metáfora dessa autorreferencialidade na poesia cabralina. Sobre Neruda, queria entender o pessimismo histórico de sua última fase. Ou seja, como sua poesia, por um lado, incorpora os fatos históricos pós-1956, quando os horrores do stalinismo são revelados, e por outro, como essa incorporação coincide com um retorno parcial do poeta à sua fase residenciária (de Residencia en la tierra). Em relação à pedra nerudiana, sua simbologia oscila entre o entusiasmo e o desencanto com a história. Mas meu ensaio, embora examine essa oscilação, centra-se nas ideias de desencanto, desilusão, ceticismo, com que o poeta observa o fluxo da história. Por fim, no capítulo sobre Paz, localizo em sua poesia uma tensão discursiva, na forma de impasse, entre a noção de sagrado mítico (logos) e o conceito de vitalidade tal como proposto por Nietzsche. Para tanto, defino o sagrado mítico em Paz e a vitalidade nietzschiana, e mostro como essa tensão se afigura inconciliável desde o ponto de vista da crítica logocêntrica de Jacques Derrida. Todas essas questões, no entanto, nascem da leitura crítica dos textos poéticos, e são reflexões desenvolvidas com o intuito de ampliar a compreensão desses textos.

 

Octavio Paz

Octavio Paz

Quais os desafios de analisar a obra de poetas que escrevem em línguas diferentes (português e espanhol), tentando, ao mesmo tempo, uni-los em um mesmo estudo?

Volto um pouco ao ponto das universidades americanas e às ideias de diversidade e intercâmbio culturais que nelas ocorrem. Historicamente, o Brasil tem adotado uma postura mais de isolamento do que de integração em relação à América hispânica. Houve – e eu cito isso no capítulo sobre Neruda – uma política pan-americanista promovida pelo Estado Novo na década de 1940, que deu seus frutos na cultura brasileira. Mas nenhuma política integracionista pode funcionar sob o jugo de um regime autoritário. E o fato é que durante o século XX, de modo geral, o Brasil teve seus olhos voltados para a Europa e os Estados Unidos, quando poderia tê-los voltados também, com mais frequência, e até com mais afeto, aos nossos vizinhos de língua espanhola. Tudo isso, repito, tem mudado nas últimas décadas, embora não se saiba se essas mudanças continuarão seu curso. Aqui, nos Estados Unidos, cresce o interesse pelos estudos interamericanos, que em parte se assemelham ao pan-americanismo do Estado Novo, e que englobam aspectos comparativos das Américas, desde o Canadá até a Argentina, passando pelo Caribe francês, inglês e espanhol. Trata-se de uma iniciativa cujo foco principal recai numa ideia de integração dos países das Américas.

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Com meu livro, tento contribuir – e esse é o meu desafio – para uma maior integração dos estudos literários de língua portuguesa e de língua espanhola, desde uma perspectiva latino-americana, e tendo o Brasil como centro de convergência. Assim, ao abordar a poesia nerudiana, examino a princípio a história de sua recepção no Brasil. Não é exagero dizer que, em relação a Neruda, o mundo de língua espanhola se dividiu, e ainda se divide, entre nerudistas entusiasmados e antinerudistas furiosos. No Brasil, ainda que em proporção menor, não foi e não é diferente. E isso tem suas raízes e razões históricas, que procuro esclarecer. Haroldo de Campos, por exemplo, foi um antinerudista e um pró-octaviano (ou pró-Octavio Paz). Mas, curiosamente, Paz não foi um antinerudista, embora ele e Neruda tivessem divergido radicalmente no plano das ideias políticas. Tudo isso, eu trato como notas de enquadramento histórico nos capítulos sobre Neruda e Paz. Também trato um pouco das relações poético-literárias entre Drummond e Neruda, e Cabral e Neruda. Desse modo, espero contribuir para um melhor entendimento dos vínculos que nos ligam culturalmente, seja por afinidade, seja por dissidência, à América hispânica, representada em meu estudo pelo Chile de Neruda e o México de Octavio Paz.

 

O livro não traz uma “conclusão” para o estudo. A que isso se deve? Há uma “conclusão” possível?

A natureza do sentido é dinâmica e, portanto, o sentido é sempre provisório. Seu caráter provisional, no entanto, não impede que o busquemos; ao contrário, incita-nos a buscá-lo pelo prazer lúdico da busca desonerada do pressuposto da existência de uma verdade final e fixa. Essa é uma conclusão possível, e também provisória, do meu estudo. Se não dediquei um espaço específico para ela, isso se deve ao fato de o último capítulo, sobre Octavio Paz, discutir esse argumento na abordagem da crítica ao logocentrismo de Jacques Derrida. Assim, de certa maneira, o último capítulo do livro funciona como uma forma, ainda que indireta, de conclusão.