Renata Albuquerque

Décio, plural

Na data em que faria 88 anos, Décio Pignatari ganha exposição em sua homenagem

Por Renata de Albuquerque

Decio Pignatari crédito Vilma SlompSe estivesse vivo, Décio Pignatari faria hoje 88 anos. Nascido em Jundiaí, interior paulista, Pignatari tornou-se um dos mais importantes intelectuais de sua época. Ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, lançou as bases da Poesia Concreta, que mudou profundamente a literatura brasileira e ecoou por todo o mundo.

Pignatari, a um só tempo, criou a Teoria da Poesia Concreta e a colocou em prática, com seus poemas, romances, contos, crônicas e até peças de teatro. Foi ensaísta, tradutor, escritor, bacharel em direito, publicitário, ator (atuou em Sábado, de Ugo Giorgetti) e professor. Um multiartista, intelectual que atuava nos mais diversos meios.

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Poema “Beba Coca-Cola”: crítica à perda da identidade cultural

Morto em 2012, Pignatari torna-se, agora, tema da exposição “Arquivo Décio Pignatari: Um Lance de Dados”, que acontece no Centro Cultural São Paulo, de hoje até 25 de outubro. A exposição busca contextualizar a obra poética e teórica de Décio Pignatari, por meio de debates, palestras e da exibição de livros, datiloscritos, áudios, partituras e correspondências, entre outros. A mostra tem um arranjo constelar e é composta de núcleos por onde orbitam dados das diferentes frentes de Décio Pignatari. A poesia concreta, como não poderia deixar de ser, tem lugar de destaque. Os itens ficam dispostos em estantes, que não apenas mimetizam uma biblioteca, mas também convidam o visitante à interação.

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“Organismo”: o ato sexual em poema

O nome da exposição alude a Un Coup de Dês, poema de Stéphane Mallarmé, que se tornou base fundamental da formulação poética da Teoria Concreta. O poeta francês é o assunto de um dos núcleos da exposição. Outro é dedicado a Ezra Pound, cuja obra Pignatari traduziu e cujo experimentalismo foi-lhe inspirador. O terceiro núcleo, por sua vez, tematiza Oswald de Andrade, pilar “marginalizado” do Modernismo Brasileiro, cuja importância Pignatari ajudou a revitalizar.

O quarto núcleo da exposição é dedicado ao próprio Pignatari, com a exposição de peças de seu espólio, que está sendo catalogado e digitalizado. São raridades, como exemplares das revistas Noigandres, Invenção e Código. Ao todo, catorze estantes reúnem poemas, fotos, publicações e edições especiais, além de uma mesa com livros para leitura e manuseio. Tudo para entrar no universo de Pignatari e perceber que ele é imenso e plural.

Serviço
Arquivo Décio Pignatari: Um Lance de Dados
De 20 de agosto a 25 de outubro de 2015
Centro Cultural São Paulo: Rua Vergueiro, 1000 (Sala Tarsila do Amaral)
De terça a sexta: das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados: das 10h às 18h
Informações: (11) 3397-4002

Abertura da exposição – 20 de agosto, 19h

Debate – 27 de agosto, às 19h
Signatari: do verbal ao não verbal
Augusto de Campos, Tadeu Jungle, Walter Silveira e Dante Pignatari como mediador
Local: Sala Lima Barreto

Palestra – 28 de agosto, às 19h
Décio Pignatari e o Memorial da Cultura – IDART
Claudio Ferlauto
Local: Sala de Debates – Piso Caio Graco

Conheça outras obras de Décio Pignatari

Raduan Nassar e os 40 anos de Lavoura Arcaica

*Por Renato Tardivo

TardivoA mesa com o cineasta e diretor de tevê Luiz Fernando Carvalho e o escritor Lourenço Mutarelli estava atrasada. O anfiteatro da Livraria da Vila, na Vila Madalena, em São Paulo, estava lotado. Marcelino Freire, organizador da Balada Literária, evento que naquele ano de 2012 homenageava o escritor Raduan Nassar, estava apreensivo. “O Luiz está atrasado, porque foi almoçar com um amigo aqui de São Paulo – vocês imaginam quem é o amigo…”, sugeriu Marcelino, dando a entender que seria o próprio Raduan. Como se sabe, o autor de Lavoura Arcaica, Um Copo de Cólera e Menina a Caminho e outros contos se mantém reservado desde que abandonou a literatura para dedicar-se exclusivamente à produção rural. Era esperado, portanto, que não estivesse nos seus planos dar as caras na Balada Literária, ainda que – ou sobretudo – na condição de autor homenageado. Mas qual não foi a surpresa de todos quando Luiz Fernando Carvalho chegou na livraria na companhia de Raduan Nassar? Atônito, o público ficou em pé. Eu jamais me esquecerei do que se seguiu. Raduan trocou o semblante estrangeiro de quem não pertencia àquela parafernália toda ao me ver na primeira fila e, com certa familiaridade, sussurrar: “Oi, Tardivo”.

Porvir que vem antes de tudoTenho muita admiração por Raduan Nassar. Seu romance Lavoura Arcaica, um dos livros mais importantes da literatura brasileira, me acompanhou (sempre me acompanhará) durante o meu mestrado, quando analisei a correspondência do livro com o filme homônimo (dirigido por Luiz Fernando Carvalho). O trabalho foi publicado pela Ateliê – Porvir que Vem Antes de Tudo Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica. O romance, lançado em 1975, completa 40 anos agora em 2015. A Revista Cult lembrou-se da data e me convidou a escrever sobre o romance na edição de fevereiro. Por sinal, sempre que tive oportunidade ao longo deste ano, como agora, faço questão de festejar os 40 anos de Lavoura Arcaica.

Na condição de pesquisador, jamais esbocei qualquer tentativa de me encontrar com Raduan. Sempre soube de sua postura reservada e optei por respeitá-la de antemão, procurando me abrir exclusivamente para o que a obra me comunicasse. Posso dizer que funcionou. No momento certo, com o trabalho já publicado, tive a felicidade de conhecê-lo. O encontro a que me refiro no parágrafo inicial deste texto foi o segundo, ocasião em que pudemos papear mais um pouco. Raduan Nassar escreveu (apenas?) 3 livros, sua “safrinha” como ele já disse, e vêm dessa safrinha as linhas mais preciosas que a literatura brasileira produziu. Pelo o que expus até aqui, reconheço que sou suspeito, mas basta consultar nossos antologistas ou críticos para confirmar que Raduan Nassar é um dos nossos autores mais relevantes – no patamar em que se encontram Machado, Rosa, Álvares, Drummond, Bandeira, Graciliano, Clarice…

Meu espaço para este texto está perto de acabar e noto que pouco ou nada falei sobre Lavoura Arcaica. Talvez porque, com o passar do tempo, eu tenha me permitido revisitar os afetos envolvidos em meus encontros, desencontros e reencontros com a história (tarefa, diga-se, encampada por André, narrador-protagonista do romance). É nessa condição que me recordo de uma das poucas perguntas na Balada Literária que fez Raduan levantar a cabeça (quase sempre baixa) e dizer alguma coisa. Perguntaram a ele se sua entrega à literatura teria valido a pena. Após alguns segundos com o olhar fora de foco, Raduan virou-se para o interlocutor e, com alguma resignação, sussurrou: “Não sei”.

Conheça mais sobre Lavoura Arcaica

Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Livro Os Arquétipos Literários ganha reedição

Edição com tradução inédita, que estava esgotada, mostra como Eleazar Meletínski modifica e amplia a teoria junguiana sobre os arquétipos, para aplicá-la aos estudos literários

Por: Renata de Albuquerque

Os livros escritos por Eleazar Meletínski situam-no como um dos nomes mais importantes das Ciências Humanas na Rússia. Em Os Arquétipos Literários, ele dá continuidade à pesquisa sobre mito e literatura, analisando como mitos e arquétipos são abordados nessa arte. Em sua pesquisa, Meletínski amplia as fronteiras da teoria junguiana sobre os arquétipos. De acordo com o autor russo, as relações individuais/coletivas começam a manifestar-se apenas no “estádio” do romance cortês e medieval (e não desde o “estádio” do mito). Segundo ele, a função do mito seria harmonizar as relações do homem com a sociedade e o mundo, para além de harmonizar a consciência individual com a subconsciência coletiva.

O livro, que hArquetiposavia sido publicado em 1998 pela Ateliê Editorial, em tradução inédita feita por Arlete Cavaliere, Aurora F. Bernardini e Homero Freitas de Andrade, estava esgotado nas prateleiras. Agora que a obra ganha reedição, o Blog da Ateliê conversou com Arlete Cavaliere a respeito. Ela é ensaísta, tradutora e professora de teatro, arte e cultura russa e professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde se graduou em língua e literatura russa e defendeu seu mestrado, doutorado e livre-docência. Realizou estágio de pós-doutorado durante o ano de 1992 na Universidade Nova de Lisboa, onde também lecionou. Foi professora leitora na Universidade Estatal Lomonóssov de Moscou entre 2002 e 2003. Coordena o Curso de Língua e Literatura Russa do Departamento de Letras Orientais e o LERUSS-Laboratório de Estudos Russos-FFLCH/USP. É autora e organizadora de vários livros, como O inspetor geral de Gógol-Meyerhold: um espetáculo síntese (Perspectiva, 1996); Tipologia do simbolismo nas culturas russa e ocidental (org., Humanitas, 2005); e Teatro russo: literatura e espetáculo (org., Ateliê Editorial, 2011). De sua atividade como tradutora, destaca-se a cotradução de Ivánov, de A. P. Tchékhov (Edusp, 1998) que foi indicada ao Jabuti.

Em sua opinião, qual a importância em discutir os mitos a partir de uma visão semiótica na literatura, como é a abordagem de Meletínski? A psicanálise é uma chave eficiente para a análise de obras literárias em quaisquer circunstâncias?

Arlete Cavaliere: O etnólogo russo Eleazar Meletínski propõe um caminho teórico de extremo interesse para se pensar e analisar a obra literária dentro de uma perspectiva ligada à poética histórica, à mitologia comparada e à tradição do folclore narrativo e épico-heróico. Em um primeiro momento a estratégia analítica de Meletínski é inventariar os mais importantes grupos arquetípicos que constituem a estruturação básica e os motivos que permeiam a narrativa, seguindo um percurso a partir do estudo do mito, passando para o conto maravilhoso, depois para o epos, para o romance de cavalaria e, finalmente, para o romance de costumes. Conforme Meletínski explicita em seu livro Os Arquétipos Literários, o seu objetivo não é a descrição mitológica enquanto tal, mas a resenha daqueles “tijolos” de enredo que constituíram o arsenal básico da narrativa tradicional.

De que maneira a questão dos arquétipos literários está presente na literatura brasileira? Muitas pessoas conseguem perceber esta questão em obras como Grande Sertão: Veredas, Macunaíma e outras. Mas é possível aplicar esse tipo de leitura a obras de autores mais contemporâneos? Como?

A.C.: Se a proposta essencial de Meletínski é apresentar um desenvolvimento orgânico e dinâmico de diversos motivos arquetípicos de modo a alcançar também, por meio desse viés analítico, as transformações dos arquétipos na literatura moderna, me parece perfeitamente possível analisar esse processo da passagem do mito à literatura, tomando como objeto de estudo diferentes textos literários, modernos ou contemporâneos. Refletir e captar o movimento dessa espécie de “desmitologização” e de afastamento gradual dos temas mitológicos tradicionais em literaturas de outros países e de diferentes épocas pode ser um procedimento de análise muito profícuo.

Em sua opinião, há alguma forma renovada, diferente ou inovadora do uso de arquétipos literários que possa ser dada como exemplo, nacional ou mundialmente?

A.C.:Certamente o diálogo que as teorias de Meletínski estabelecem com as investigações do estruturalismo francês, da semiótica e da psicologia junguiana abre perspectivas infinitas, sempre novas e inusitadas, para a análise do pensamento mítico, sua estruturação e trajetória no âmbito da história literária. Um bom exemplo é o livro A Estrutura do Conto de Magia – Ensaios sobre mito e conto de magia, recentemente lançado pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e organizado por Aurora Fornoni Bernardini e S. Nekliúdov, que apresenta vários ensaios instigantes de autoria de diferentes pesquisadores russos do grupo de Meletínski, traduzidos para essa coletânea diretamente do russo, e que vem demonstrar o quanto esse campo de estudos está longe de se esgotar.

Livro “A Descoberta do Frio” aborda o racismo no Brasil

O escritor Oswaldo de Camargo fala de sua motivação para escrever o livro, que agora ganha reedição da Ateliê

Por Oswaldo de Camargo*

Oswaldo de Camargo_crédito Clarissa Di CiommoComecei, com 16 anos, a escrever versos, no geral escorados nas minhas leituras de poetas românticos e parnasianos, depois nas de alguns poemas do simbolista negro Cruz e Sousa. Eu já havia passado por experiências bem dolorosas, como a orfandade, com a perda da mãe aos seis anos, e pai, aos sete.

Como escritor, a cidade em que nasci, Bragança Paulista, tem extrema importância. Ali começou o rastro que até hoje me impulsiona a escrever, na tentativa de desvendar a razão daquilo que me levou a mim, minha família e a tantos negros de minha geração à borda da quase miserabilidade.
Percebi, após, que o que eu queria expressar não podia ser pelo verso, nem pela metáfora pura, mas pela prosa. Escrevi e publiquei, então, pela Editora Martins, O Carro do Êxito (contos), 1972. Depois enveredei pela novela com A Descoberta do Frio, cujo inicial enredo foi uma tentativa de escrever teatro.

O Carro do Êxito, A Descoberta do Frio, bem como minha recente novela Oboé, publicada pela ECA, da USP, graças ao empenho de Plínio Martins, se inserem em uma linha ficcional e poética que vem sendo estudada e vista como Literatura Negra, a qual pode ser datada, nos meados do século XIX, a partir dos versos de “Quem sou eu? ou Bodarrada”, do precursor do abolicionismo no Brasil e poeta Luís Gama.

Por que negra?

Porque, após séculos sem fala, o negro pôs se a expor e continua expondo, com ficção ou poesia, suas experiências particulares, sua visão da história pátria, que, acredito, vem secularmente trazendo consequências infelizes ao seu viver. Sou, pela persistência no tema, um dos mais antigos nesta temática.

Descobertafrio_fioA Descoberta do Frio traz, bem disfarçados, em vários capítulos, fatos de minha própria história de negro brasileiro. A escritaé de alguém que trabalhou por muito tempo o verso, a linguagem imagística. Se eu tentasse fazer uma obra de não ficção, eu depararia com dois fatores: não tenho vocação para pesquisa, para o texto de análise social ou histórico, etc. Por outro lado, só vou adiante quando algo me entusiasma.

E a Literatura, desde o início, me entusiasmou, tornou-se a minha segunda vida, já com os poemas, já com a prosa, a partir de O Carro do Êxito. Em muitos aspectos, A Descoberta do Frio é livro de quem conhece o “frio” e tenta mostrar a cara horrenda dele com beleza e estética, fatores fundamentais para o convencimento em arte.

Fato que não posso ocultar é que, com 13 anos, tive o primeiro vislumbre do preconceito ou, mais grave, racismo em nosso país. Minha resposta, a que mais me entusiasma, é escrever.

Como escritor, reconheço também que tive muita sorte, pois, logo que saí do Seminário Menor Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto (SP), em 1954, pude conhecer, na Associação Cultural do Negro, no Prédio Martinelli, hoje Edifício América, escritores que eu admirava, como Afonso Schmidt, Colombina, Nestor Gonçalves, Solano Trindade, Abdias Nascimento, Florestan Fernandes, muitas vezes ali presente, e que prefaciou meu livro 15 Poemas Negros.

Tive sorte porque, filho de apanhadores de café, em uma fazenda de Bragança Paulista, pais analfabetos, pude com o tempo avaliar a importância fundamental do livro e da leitura para a melhor e mais prazerosa vida das pessoas. Também para que o “frio” seja descoberto e combatido.

E o que li de ficção?

Após a poesia, me aproximei de autores de variado naipe, como Adonias Filho (Memórias de Lázaro), O Encontro Marcado, do Fernando Sabino, A Montanha Mágica, de Thomas Mann, ficção de Dostoievski, Hermann Hesse, Kafka, o nigeriano Amos Tutuola. Negro ou branco, pela leitura somos todos miscigenados…
É preciso ficar claro: n´A Descoberta do Frio, “frio” é o preconceito, digo mesmo, o racismo. Sobre este, vem montada há séculos a Indiferença, o quinto cavaleiro do Apocalipse.

Alguns estudiosos têm apontado que, em vários aspectos, A Descoberta do Frio consegue mostrar, com ficção, por que a existência de grande parte da população negra brasileira continua, de vários modos, difícil, dolorosa, mesmo amarga.

A maior esperteza dos que pretenderam manter privilégio e poder, após a Abolição, foi manter o negro analfabeto.
Se tivesse aprendido a ler…

*Oswaldo de Camargo é escritor e jornalista

Muito antes do Twitter, os livros

Textos curtos já eram tema de diversas obras muito antes do microblog existir

Por Renata de Albuquerque

Para algumas pessoas, o Twitter já está tão incorporado ao dia a dia que há quem nem se lembre de como era a vida sem #. Mas o Twitter, microblog que nos ensinou a sintetizar ideias, emoções e opiniões em apenas 140 caracteres, nasceu há menos de uma década, em 2006.

E, se ainda hoje há quem ache que é impossível se expressar com tão poucos caracteres, imagine antes dessa ferramenta se tornar popular?  O ano era 1998 quando Marcelino Freire lançou a primeira edição de EraOdito, um livro que se propunha a revisitar os provérbios, máximas e anexins populares, redescobrindo neles (e dentro deles, inclusive visualmente) novos sentidos e significados. Signos pululam das páginas, num exercício de criatividade de quem sabe que é possível dizer mais usando apenas o mesmo e já repisado texto:

 

 

acura

 

Outras vezes, em EraOdito, Marcelino “deturpa”, modifica essas frases tão comuns e nos presenteia com o inesperado:

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Tudo muito curto, visual, com um poder de síntese que, se não prenunciava o Twitter, denunciava que era possível comunicar mais do que o óbvio usando apenas (ou quase unicamente) o evidente. Em 2002, EraOdito ganhou uma edição da Ateliê e, dois anos depois, Marcelino voltou a fazer muito com pouco.

Sem t’tulo-12O desafio, desta vez, era reunir cem histórias inéditas, de cem escritores brasileiros do século XXI, escritas com apenas 50 letras (sem contar título e pontuação). O resultado, Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, é tão espantoso quanto apaixonante. Glauco Mattoso, Índigo, Fernando Bonassi, Ivana Arruda Leite e muitos outros provam que é possível contar uma história tão curta que cabe em um tuíte:

“- Morreu de quê?

– Gastou-se.”

(Eugênia Menezes)

 

Em 2009, a economia de caracteres voltou à pauta na Ateliê Editorial, com o lançamento de Orações Insubordinadas – Aforismos de Escárnio e Maldizer, de Carlos Castelo. A agudeza e ironia das frases curtas atingem em cheio problemas atuais do país: corrupção, autoritarismo, conservadorismo. A inversão de frases conhecidas desloca-nos do conforto do senso comum:

oracoes_insubordinadas

“Narcotráfico é organizado demais. Nós aqui temos anarcotráfico”, escreve o autor, conhecido também por ser letrista do provocativo Língua de Trapo.

Em outras passagens, a reflexão vem de uma ambiguidade estudada e cheia de segundas intenções:

 

“Temos ao menos uma coisa em comum com a Suécia: somos um país bárbaro”

 

Ironia pura, destilada em pouquíssimas letras, e que produz acidez no riso amarelo – e por vezes tragicômico – do leitor.

Com tantas mensagens curtas – mas complexas – em seu catálogo, a Ateliê envereda, em outubro de 2009, pelo microblog. Em abril de 2010, publica seu primeiro Tweet:

Primeiro Tweet com borda

 

Hoje, já são quase 10 mil seguidores. E ainda há quem diga que não é possível se expressar com tão poucos caracteres…

 

 

“O preocupante para Arendt é que o ódio conta com aqueles que não têm o hábito da reflexão”, diz autora de Hannah Arendt – Ética & Política

Em entrevista, Eugenia Sales Wagner fala da atualidade do pensamento da filósofa alemã de origem judaica

Por Renata de Albuquerque

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Eugenia Sales Wagner

Hannah Arendt acreditava que o ódio, “assentado em interesses particulares inconfessáveis”, tem uma grande força destrutiva. Na obra, que acaba de chegar à sua segunda edição, a pesquisadora analisa a teoria arendtiana tendo como base os cinco tipos de amor descritos pela filósofa alemã – o amor à sabedoria, o amor ao próximo, o amor à liberdade, o amor da vontade e o amor ao mundo.

Como conjugar temas como Filosofia, Ética e Política com liberdade e amor?

Eugenia Sales Wagner:  Hannah Arendt: Ética & Política procura aproximar-se do que Arendt trataria em “O Julgar”, a última parte prevista, mas não escrita, de A Vida do Espírito. Essa aproximação, conquistada apenas ao final do livro, coincide com o desvendamento das relações entre Filosofia, Ética, Política, Liberdade e Amor no pensamento arendtiano, de modo que tratar com ligeireza dessas relações e conceitos só seria possível à custa de depauperá-los. Além disso, ao seguir pistas e enigmas deixados por Arendt, o percurso que revela tais relações guarda um certo mistério e suspense, necessários a  captura e domínio desses conceitos, que devem ser preservados para o leitor. Posso adiantar, apenas, que Liberdade, Amor, Ética e Política no pensamento arendtiano são ideias intimamente associadas.

 

Como se dá a mudança do código de ética, de maneira que se verifica a origem do Mal (o totalitarismo)?

ESW: Essa questão é interessante, pois foi com ela que Arendt se viu às voltas desde os idos da ascensão do nazismo na Alemanha. Refletiu sobre esse tema em diferentes obras, tendo admitido que havia dado, inicialmente, uma importância excessiva ao papel da ideologia em Origens do Totalitarismo. Perguntava-se como, na Alemanha, durante a Segunda Guerra, parte das pessoas comuns aceitou de imediato e sem estranheza o código “matar” em detrimento do antigo “não matar”, ainda que nem todas elas tivessem cometido crimes. Depois de presenciar o julgamento de Eichmann, em Jerusalém, Arendt passou a acreditar que a irreflexão é a marca daqueles que, sem qualquer questionamento, deixam se guiar por meio de códigos e de regras de conduta e tornam-se, por isso, pouco confiáveis em momentos de crise, facilitando o estabelecimento e o fortalecimento de Regimes Totalitários. Esse fenômeno está na origem do conceito político por ela denominado “banalidade do mal”. Ainda que não seja a única condição para o cometimento do mal, a irreflexão e, assim, a incapacidade para julgar sem parâmetros em momentos de crise é, segundo H. Arendt, cada vez mais presente em nossas sociedades. Parece significativo o número de indivíduos que, uma vez dedicados exclusivamente às atividades voltadas para a sobrevivência – ao consumo e às ocupações cotidianas –, não costuma cultivar o hábito de pensar os acontecimentos políticos, de modo que a irreflexão pode ser percebida em pessoas pertencentes a diferentes condições sociais, culturais e educacionais.

 

Como compreender e julgar podem ser postos em prática em um panorama de policiamento ideológico (como foi o momento dos governos totalitários do século XX)?

ESW: Arendt crê que aqueles que têm o hábito de refletir levando em conta os outros, isto é, as diferentes perspectivas a partir das quais um acontecimento pode ser visto, aprimoram a compreensão e a capacidade para julgar.  Um julgamento firmado exclusivamente em interesses privados atesta que aquele que julga não leva em consideração outras formas de ver o mundo, pois, ainda que pense é destituído de um “pensamento alargado”, o pensamento fundado na comunidade. É possível, portanto, compreender e julgar em momentos de crise ou em um panorama de policiamento ideológico, como você mencionou; o que é impossível, no último caso, é manifestar essa compreensão e esse julgamento publicamente sem se tornar um mártir.

 

capa Hannah Arendt Etica Politica_2a  edQuais os desafios de levar a filosofia a um público amplo, como defende Arendt?

ESW: Vários são os desafios e podemos destacar, inicialmente, a importância que Arendt concedeu ao pensador capaz de permanecer conectado com os problemas de seu tempo, evitando o solipsismo que condiciona o aparecimento de ideias obscuras e incomunicáveis. Outro desafio é o de aceitar o convite que essa pensadora faz para nos juntarmos a ela, a Sócrates, a Kant e a Jaspers, na exploração das sendas abertas pelo pensamento crítico, o pensamento modesto e não doutrinário, despojado da vaidade e da arrogância de considerar a si próprio como definitivo a respeito de um determinado tema; o pensamento crítico procura popularizar-se e abrir-se ao exame livre de muitos. Neste livro há ainda o desafio de criar um espaço de compreensão entre Arendt, a autora e o leitor ou leitora que possua maior ou menor intimidade com o pensamento arendtiano, um espaço em que clareza e complexidade não concorram entre si, mas encontrem-se conectados.

 

O que o entendimento dos cinco tipos de amor pode agregar à compreensão do momento atual?

ESW: O amor à sabedoria, o amor ao próximo, o amor à liberdade, o amor da vontade e o amor ao mundo, que conformam, respectivamente, cada um dos cinco capítulos do livro, foram estruturados e elaborados com a intenção de que cumprissem dois movimentos concomitantes: o de destruir preconceitos e o de introduzir conceitos. Refletir sobre essas formas de amor permitiu destituí-las de falsas conotações, bem como revelá-las como formas de poder. Cada uma das formas de amor tem o seu lugar próprio no mundo; nem todas têm vocação política, ainda que façam morada no coração dos seres humanos.

 

Qual a atualidade da obra de H. Arendt para o mundo de hoje? Por que discuti-la?

ESW: As ideias arendtianas guardam uma atualidade impressionante, até mesmo porque H. Arendt (1909-1975)  não está tão distante de nós; o tempo dela é ainda, sob vários aspectos, o nosso tempo. A importância de repensar e discutir tais ideias encontra-se, principalmente, na força do pensamento de Arendt, que se dedicou a refletir sobre a importância política do livre pensar, da comunicabilidade daquilo que é pensado, da vontade enraizada na comunidade e do julgar sem parâmetros em momentos de crise, para dar apenas alguns exemplos.

 

Qual a implicação de discutir Ética e Política sob o signo do Amor nos dias de hoje, em que há um discurso de ódio que contamina a esfera política na sociedade brasileira, enfraquecendo a argumentação e a discussão saudável e substituindo-as por insultos, muitas vezes infundados?

ESW: O preocupante para Arendt é que o ódio, geralmente assentado em interesses particulares inconfessáveis, conta com aqueles que não têm o hábito da reflexão e nenhum compromisso com a comunidade para criar uma força de grande poder destrutivo. O ódio não apenas avilta, mas destrói o espaço público-político, que no sentido arendtiano é um espaço de compreensão compartilhado por cidadãos dispostos não apenas a falar, mas também a ouvir; cidadãos que trazem no espírito o senso de comunidade.

O ódio e a violência – que nem sempre se manifesta como violência física – não podem instaurar um novo espaço comum após a destruição que provocam, pois deixam suas marcas nas entranhas daquilo que criam. É nesse sentido mesmo que Arendt convoca todos aqueles que têm o hábito de pensar para aparecerem em momentos de crise, ainda que seja no papel de espectador, para julgar os acontecimentos, recolocando a verdade política em seu lugar, pois para ela a verdade política existe: é a verdade fatual, que o desejo de dominação falsifica. Para Arendt “a liberdade de opinião é uma farsa se não garantir a informação fatual”. Naturalmente isso se torna um empreendimento nada fácil quando o poder da informação encontra-se concentrado em poucas mãos. Creio que para Arendt a maior corrupção é a corrupção dos fatos.

 

Conheça outras obras de Eugenia Sales Wagner

Para António Apolinário Lourenço, “Mensagem é um livro com capacidade para captar e agradar a qualquer tipo de leitor”

Pesquisador, responsável pela nova edição lançada pela Ateliê Editorial, acredita que o leitor menos experimentado só precisa de uma leitura orientada para “descobrir” o clássico português

 

Por Renata de Albuquerque

Mensagem é a única obra literária em português lançada por Fernando Pessoa em vida. São 44 poemas sobre os grandes personagens históricos portugueses, as grandes navegações e as glórias passadas e vindouras do país. Apesar de ser muito conhecido e um dos livros mais lidos – e por isso fazer parte da Coleção Clássicos Ateliê – Mensagem é uma obra cheia de complexidades. Por isso, para elaborar esta edição, a Ateliê Editorial convidou o pesquisador português António Apolinário Lourenço para realizar o trabalho de edição da obra.  Ele, que é professor da Universidade de Coimbra e prestigiado estudioso da obra de Fernando Pessoa, escreve um ensaio de apresentação da obra e notas que auxiliam professores e alunos a compreender os sentidos mais profundos do livro. A seguir, ele fala sobre a obra para o Blog da Ateliê:

 

 

 

apolinárioMensagem é uma obra complexa. Em sua opinião, como jovens leitores podem fruir dela, superando eventuais dificuldades? O livro de alguma maneira auxilia o professor a ser o mediador/facilitador dessa leitura?

António Apolinário Lourenço: Mensagem é um livro com capacidade para captar e agradar a qualquer tipo de leitor, mas exige uma leitura orientada e esclarecida para aceder aos níveis de entendimento mais profundos ou mais obscuros. É necessário compreender, desde logo, o caráter simbólico do sebastianismo pessoano, designadamente a forma como o poeta, chegando a colocar-se a si próprio no lugar do rei Desejado, patrocina a regeneração da cultura e da literatura que se exprimem em português. Estamos certos que esta edição coloca ao alcance dos professores a informação necessária para que estes se constituam como mediadores e facilitadores da leitura de Mensagem junto do público juvenil.

Por que a leitura de Mensagem é importante no contexto escolar do Brasil, neste início de século XXI? Como a presente edição procura auxiliar e aproximar o estudante deste texto que data da primeira metade do século XX? De que instrumentos esta edição lança mão para realizar esta aproximação?

AAL: Mensagem é um poema profético no qual se desenha e se sustenta uma utopia nacionalista: o Quinto Império, um império cultural português, já divinamente prenunciado na fundação do país e nas grandes Descobertas marítimas e prestes a concretizar-se no presente. Um império cultural português, um império de poetas e gramáticos, como também escreveu o autor, é evidentemente um império da língua portuguesa, que Pessoa dizia ser a língua com maior capacidade imperial. O mito sebastianista que alimenta ideologicamente Mensagem, e que nela se cruza com a simbólica templária e rosacruciana, está também enraizado na cultura brasileira. Através da introdução e das notas, proporciona-se ao leitor, e particularmente ao público escolar, a chave interpretativa de cada um dos poemas.

Por que a intertextualidade entre Camões e Pessoa (Os Lusíadas e Mensagem) é considerada polêmica, como afirma a introdução desta edição?

AAL:O problema não reside na afirmação da existência de uma relação intertextual, que é óbvia, entre Os Lusíadas e a Mensagem, mas em apresentar a epopeia camoniana como única fonte de inspiração do livro de Pessoa ou, pior ainda, em considerar Mensagem como uma versão atualizada de Os Lusíadas. O que pretendo provar é que, apesar de Camões ser considerado por Fernando Pessoa como um marco a superar, não era visto pelo autor de Mensagem como um modelo a seguir, e o seu diálogo com Os Lusíadas é suplantado por outros diálogos poéticos com obras mais próximas cronologicamente da sua, como é o caso de Pátria, de Guerra Junqueiro (obra que Pessoa afirmou ter ultrapassado a epopeia de Camões) e principalmente de D. Sebastião, de Luís de Magalhães, um contemporâneo de Eça de Queirós cuja obra mais conhecida é O Brasileiro Soares.

 

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De que maneira as ilustrações ajudam o leitor, no caso desta edição?

AAL: Esta edição de Mensagem tem dois tipos de ilustrações. Por um lado, há reproduções de gravuras, de capas de livros ou de retratos de personagens históricas, com um caráter essencialmente informativo; por outro lado, há um conjunto de ilustrações inéditas, propositadamente produzidas para esta edição por Kaio Romero, que constituem em si mesmas uma leitura e uma interpretação do livro de Fernando Pessoa. Num registo estético muito próximo da linguagem dos quadrinhos, estas ilustrações não desrespeitam a semântica de Mensagem, mas acrescentam-lhe uma nota humorística que enriquece a sua recepção.

 

Em sua opinião, o que pode chamar a atenção e gerar interesse do jovem brasileiro, em uma obra que é um “épico” tão distante da realidade atual, tanto do ponto de vista cronológico quanto geográfico – e, porque não dizer – linguístico?

AAL: Mensagem sempre foi um livro apreciado no Brasil e, surpreendentemente, tem sido inclusivamente menos questionado politicamente aqui do que em Portugal, onde por vezes é ideologicamente associado à ditadura de Salazar, que começava a desenhar-se na época em que se publicou o livro de Pessoa. Mas o que se expõe em Mensagem é uma utopia (a construção de um Império cultural de matriz portuguesa, a que facilmente o Brasil se associa) e não a glorificação do regime ou do país real habitado pelo poeta. E as utopias não envelhecem facilmente. Também o simbolismo religioso esotérico de que Mensagem está impregnada mantém plena atualidade e está dentro da linha de muitas obras literárias que ocupam hoje os tops mundiais de vendas. Por outro lado, Mensagem tem igualmente uma dimensão lúdica, poucas vezes mencionada, que também procurei revelar nas notas que acompanham os poemas. Finalmente, não creio que se possa falar de um problema linguístico. O Brasil tem uma forte tradição da edição comentada dos clássicos do idioma (infelizmente Portugal é, nesse aspecto, bem mais paroquial). Não entendo as obras dos grandes escritores como modelos do uso da língua, mas como paradigmas do seu bom uso artístico. É por isso que Machado de Assis, Eça de Queirós, Luandino Vieira ou Guimarães Rosa, do mesmo modo que Fernando Pessoa, são reconhecidamente património comum da língua portuguesa.

 

Qual a mensagem de Mensagem para os dias de hoje?

AAL: O desafio enfrentado por Fernando Pessoa é um desafio que tem plena atualidade. A regeneração nacional que, sob a máscara do Sebastiano, se perfila em Mensagem, é uma regeneração cultural que continua sendo necessária. Recusa-se neste livro tanto a acomodação como a mediocridade (“Triste de quem é feliz”, escreveu o poeta). Noutros textos, que deixou inéditos, Pessoa registou que a tripla vinda do Encoberto (outro dos símbolos com que designa a regeneração cultural pretendida) ocorreria em 1640 (ano em Portugal recuperou a sua independência face a Espanha), 1888 (o ano em que nasceu o próprio Fernando Pessoa) e 2198. Talvez devamos, brasileiros, portuguesas, africanos, asiáticos e timorenses que nos expressamos em português, trabalhar para a glória do idioma tendo em vista esse horizonte temporal. Não é seguro que D. Sebastião regresse nessa ou em qualquer outra data da ilha encantada em que a sua alma se refugiou depois da desastrosa derrota de Alcácer-Quibir. Mas, como também escreveu Pessoa, no combate pelo Quinto Império não vai ser derramada qualquer “gota de sangue” e, “se falharmos, sempre conseguimos alguma coisa — aperfeiçoar a língua. Na pior hipótese, sempre ficamos escrevendo melhor”.

 

 

“Antologia da Poesia Erótica Brasileira” – Poemas Selecionados

capa antologia da poesia erotica brasileira

 

Eliane Robert Moraes, organizadora da Antologia da Poesia Erótica Brasileira – lançada na FLIP 2015 – conta, em entrevista, que a obra, ilustrada com desenhos de Arthur Luiz Piza, reúne desde textos anônimos até poemas de escritores consagrados, como Mário de Andrade, Olavo Bilac e Adélia Prado. A seguir, ela fez duas seleções, especialmente para os leitores do Blog da Ateliê terem uma pequena amostra do que o livro reserva a eles (e nós selecionamos alguns desenhos também).

 

 

Seleção 1: “Um pouco mais comportada, mas sem perder o tom ‘picante'”, diz a organizadora

ilustra piza 106

“Por decoro”

Artur Azevedo (1855–1908)

Quando me esperas, palpitando amores,

e os lábios grossos e úmidos me estendes,

e do teu corpo cálido desprendes

desconhecido olor de estranhas flores;

 

quando, toda suspiros e fervores,

nesta prisão de músculos te prendes,

e aos meus beijos de sátiro te rendes,

furtando as rosas as purpúreas cores;

 

os olhos teus, inexpressivamente,

entrefechados, languidos, tranquilos,

olham meu doce amor, de tal maneira,

 

que, se olhassem assim, publicamente,

deveria, perdoa-me, cobri-los

uma discreta folha de parreira.

 

 

“Seios”

Cruz e Souza (1861-1898)

 

Magnólias tropicais, frutos cheirosos

das arvores do Mal fascinadoras,

das negras mancenilhas tentadoras,

dos vagos narcotismos venenosos.

Oasis brancos e miraculosos

das frementes volúpias pecadoras

nas paragens fatais, aterradoras

do Tédio, nos desertos tenebrosos…

Seios de aroma embriagador e langue,

da aurora de ouro do esplendor do sangue,

a alma de sensações tantalizando.

O seios virginais, talamos vivos,

onde do amor nos êxtases lascivos

velhos faunos febris dormem sonhando…

 

 

“Soneto”

Mário de Andrade (1893-1945)

Aceitaras o amor como eu o encaro?…

…Azul bem leve, um nimbo, suavemente

Guarda-te a imagem, como um anteparo

Contra estes moveis de banal presente.

Tudo o que ha de melhor e de mais raro

Vive em teu corpo nu de adolescente,

A perna assim jogada e o braço, o claro

Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo

Também mais nada, só te olhar, enquanto

A realidade e simples, e isto apenas.

Que grandeza… A evasão total do pelo

Que nasce das imperfeições. O encanto

Que nasce das adorações serenas.

ilustra piza 52

“Noturnos VIII”

Gilka Machado (1893-1980)

E noite. Paira no ar uma etérea magia;

nem uma asa transpõe o espaço ermo e calado;

e, no tear da amplidão, a Lua, do alto, fia

véus luminosos para o universal noivado.

 

Suponho ser a treva uma alcova sombria,

onde tudo repousa unido, acasalado.

A Lua tece, borda e para a terra envia,

finos, fluidos filos, que a envolvem lado a lado.

 

Uma brisa sutil, úmida, fria, lassa,

erra de vez em quando. E uma noite de bodas

esta noite… há por tudo um sensual arrepio.

 

Sinto pelos no vento… e a Volúpia que passa,

Flexuosa, a se rocar por sobre as casas todas,

como uma gata errando em seu eterno cio.

“Epitalâmio”

José Paulo Paes (1926-1998)

uva

pensa da

concha oclusa

entre coxas abruptas

teu

vinho sabe

a tinta espessa

de polvos noturnos

(falo

da noite

primeva nas águas

do amor da morte)

“Divisamos assim o adolescente”

Mário Faustino  (1930-1962)

Divisamos assim o adolescente,

A rir, desnudo, em praias impolutas.

Amado por um fauno sem presente

E sem passado, eternas prostitutas

Velavam por seu sono. Assim, pendente

O rosto sobre o ombro, pelas grutas

Do tempo o contemplamos, refulgente

Segredo de uma concha sem volutas.

Infância e madureza o cortejavam,

Velhice vigilante o protegia.

E loucos e ladrões acalentavam

Seu sono suave, até que um deus fendia

O céu, buscando arrebatá-lo, enquanto

Durasse ainda aquele breve encanto.

 

 

“Lembranças de Maio”

Adélia Prado (1935-)

 

Meu coração bate desamparado

onde minhas pernas se juntam.

É tão bom existir!

Seivas, vergonteas, virgens,

tépidos músculos

que sob as roupas rebelam-se.

No topo do altar ornado

com flores de papel e cetim

aspiro, vertigem de altura e gozo,

a poeira nas rosas, o afrodisíaco

incensado ar de velas.

A santa sobre os abismos –

a voz do padre abrasada

eu nada objeto,

lírica e poderosa.

 

Seleção 2: Que a organizadora intitula “Safadezas sortidas”

ilustra piza 73

 “A pica ressuscita mulher morta”

Francisco Moniz Barreto (1804-1868)

A pica o instrumento é que no mundo

Mais milagres tem feito e mais proezas2;

A pica o melhor traste e das belezas,

Mal que começa a lhes coçar o sundo.

 

A pica é o cão, que avança furibundo

A plebeias, fidalgas, e princesas;

A pica em chamas Troia pôs acesas,

E a Dido fez descer do Urco ao fundo.

 

É a pica – carnal, possante espada,

Que o mundo, perfurante, emenda, entorta,

E tudo vence, como bem lhe agrada.

 

A pica, ora e calmante, ora conforta;

Sendo em dose alopática aplicada,

A pica ressuscita a mulher morta.

 

[Não passou por essa rua]

Laurindo Rabelo (1826-1864)

Não passo por esta rua,

Que não veja esta perua,

Na porta com dois e três;

Que fodas não dá no mês

Aquele cono tão quente!

E chega a ser tão potente

A maldita da cachorra,

Que no cu sempre tem porra,

Na porta sempre tem gente!

 

“Ela”

Olavo Bilac (1865-1918)

Maria tem vinte amantes!

Uns tortos, outros direitos;

Todos eles são galantes,

Todos vivem satisfeitos…”

Mulher de recursos fartos!

Como é que esta impenitente,

Tendo no corpo dois quartos,

Dá pousada a tanta gente?

ilustra piza 97

“Os quatro Elementos – A terra”

Vinicius de Moraes (1913- 1980)

Um dia, estando nós em verdes prados

Eu e a Amada, a vagar, gozando a brisa

Ei-la que me detém nos meus agrados

E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa

 

Com face cauta e olhos dissimulados

E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza

Como se os beijos meus fossem mal dados

E a minha mão não fosse mais precisa.

 

Irritado, me afasto; mas a Amada

A minha zanga, meiga, me entretém

Com essa astúcia que o sexo lhe deu.

 

Mas eu que não sou bobo, digo nada…

Ah, e assim… (só penso) Muito bem:

Antes que a terra a coma, como eu.

 

“Brincadeira”

Francisco Alvim (1938-)

Debaixo da mesa –

de porquinho –

um fuçando o outro

“Poesia Pura”

Rubens Rodrigues Torres Filho (1942-)

No álbum dos nossos momentos felizes

nunca me esquecerei daquela vez

que você gozou tão gostoso, junto comigo,

lá no sofá do apartamento da Mourato

que peidou. Soltou um peido alto,

de prazer? De gratidão? E foi lindo

que aí você me olhou e sorriu encabulada.

Então peido não é amor?

Se vem do cu é menos expressão?

Mais sonoro e sincero poema

de amor, juro: estou para ouvir.

“O valor de um texto nunca se mede por sua moralidade, mas por sua qualidade estética”, afirma organizadora da Antologia da Poesia Erótica Brasileira, lançada na FLIP

Em entrevista exclusiva, Eliane Robert Moraes conta que a ideia da obra surgiu com a leitura de um texto de Mário de Andrade, homenageado da Festa deste ano

Por Renata de Albuquerque

Eliane R Moraes 1

Eliane, que organizou, na antologia, séculos de poesia erótica

Quando teve a ideia de fazer uma Antologia da Poesia Erótica Brasileira? Como foi esse processo?

Eliane Robert Moraes: A ideia primeira me surgiu ao ler um esboço de prefácio a Macunaíma, escrito em 1926, no qual Mário de Andrade observava que, no Brasil, as literaturas populares eram frequentemente pornográficas, apesar da ausência de um erotismo literário sistematizado no país. Para justificar seu argumento, o autor evocava as produções eróticas de outros povos, como os gregoscapa antologia da poesia erotica brasileira, os franceses ou os indianos, que souberam organizar suas expressões escritas em torno do sexo. Mas essa tradição realmente não existia entre nós e o que me surpreendeu mais ainda é que, passados mais de oitenta anos dessa afirmação do escritor, a erótica literária brasileira continuava desconhecida, aguardando uma compilação.

Como se pode imaginar, as ponderações de Mário de Andrade estão na origem desta Antologia da Poesia Erótica Brasileira, que vem a lume quase um século depois de suas palavras para dar testemunho não só da existência de uma lírica erótica do país, mas também de sua extraordinária riqueza. A quantidade e a qualidade da produção poética nela apresentada – sendo apenas parte de uma extensa pesquisa que levantou por volta de trezentos poetas e mais de mil poemas – não deixa dúvidas sobre a convicção de que, para se formar tal corpus, talvez só estivesse faltando um empenho de organização.

Já havia outra obra similar no mercado editorial?

ERM: Não. Houve no passado uma ou outra tentativa de reunir textos eróticos, mas sem o respaldo de uma pesquisa rigorosa que cobrisse a história da literatura brasileira como um todo. O trabalho ora publicado se diferencia, portanto, das meras seleções feitas ao gosto de um organizador, por oferecer um conjunto da nossa lírica erótica, reunindo uma centena de nomes que vão de Gregório de Matos (século XVII) até poetas contemporâneos, alguns dos quais ainda vivos. Inclui autores canônicos, como Castro Alves, Olavo Bilac, Cruz e Souza, Drummond ou Hilda Hilst – por vezes publicados originalmente sob pseudônimos –, e outros menos conhecidos, como Francisco Moniz Barreto, Múcio Teixeira ou Moysés Seyson, incorporando ainda alguns anônimos que praticaram o gênero nesses quatro séculos da nossa poesia

Você conseguiu reunir poesias de diversas épocas e autores (até mesmo apócrifas). Qual foi o fio condutor que a levou a organizar a antologia como ela é?

ERM: Para constituir uma “pornografia organizada” do país, buscando levar em conta tanto as formas literárias populares quanto as eruditas, optei por um critério de seleção que privilegiasse os “poemas sexuais explícitos”, tal como proposto pelo poeta José Paulo Paes, que também participa desta Antologia. Ao escrever sobre o assunto, que o interessava muito, ele esclarece que “o grau dessa explicitação pode variar do fescenino ao alusivo, mas nunca a ponto de este fazer perder de vista o que o outro nomeia sem mais aquela”. Assim, os poemas selecionados se alternam entre a sensualidade meramente alusiva e a obscenidade mais provocante que, reunidos, dão testemunho um excesso que é, antes de tudo, o da imaginação.

ilustra piza 5 Ao lado e abaixo, desenhos de Arthur Luiz Piza que ilustram o volume

 

Como foi o processo de pesquisa: quais as fontes pesquisadas, como você levantou esse material?

ERM: Iniciei a pesquisa por volta de 2005, e desde então andei vasculhando inúmeras bibliotecas públicas e importantes coleções privadas, dentro e fora do Brasil. Foi uma verdadeira aventura, já que muitas vezes eu buscava poemas produzidos na clandestinidade e até mesmo proibidos em sua época.

De forma geral, o livro segue o modelo de uma série de antologias do gênero  publicadas na Europa, sobretudo a partir de meados do século XX. Tomem-se como exemplos, para ficarmos nos domínios mais próximos de nós, a notável Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada pela poeta portuguesa Natália Correia em 1966, com diversas reedições desde então, ou a Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (séculos XVIII e XIX) compilada por Fernando Ribeiro de Mello em 1975, ou ainda a Antología de la poesia erótica española e hispanoamericana editada por Pedro Povencio em 2003.

 

O tema do erotismo ainda é pouco tratado dentro do universo dos estudos literários (vide a “novidade” com que se configura o erotismo na obra de Mário de Andrade, por exemplo). Em sua opinião, por que isso acontece?

ERM: Gosto de lembrar a escritora e ensaísta americana Susan Sontag, que caracteriza a “imaginação pornográfica” como uma forma extrema de consciência que transcende as esferas sociais e psicológicas a que estamos acostumados. A ficção erótica, diz ela, tende a desorientar o leitor, deslocá-lo mental e fisicamente. Por essa razão, os textos obscenos seriam portadores de certo princípio de conversão do leitor, semelhante ao que encontramos nas literaturas de cunho eminentemente religioso. Segundo a autora, a leitura desses livros pode proporcionar “uma aventura por regiões longínquas da consciência”. Não é pouco, convenhamos…

Eu diria ainda mais: trata-se de uma forma de conhecimento que abre ao pensamento a possibilidade contínua de alargar a escala humana para além da vida em sociedade. O repertório de temas que o erotismo aciona – bestialização, violência, perda de si no outro, etc. –, seja de forma trágica ou cômica, aponta para essa constante problematização da noção de ser humano e de humanidade. Dai certa sensação de perigo que a associação entre sexo e pensamento pode por vezes provocar…

ilustra piza 16

O “valor literário” da poesia erótica é “menor”?

ERM: O sexo vem sendo tema literário desde sempre. Está no Satyricon de Petrônio, no Cântico dos Cânticos da Bíblia, na Priapeia grega e em tantos outros escritos da Antiguidade e de outros períodos históricos. Trata-se de um dos temas essenciais da humanidade, assim como acontece com o amor, a guerra, a religião…

O que determina a qualidade do erotismo literário é o critério estético, sempre. Os textos eróticos, quando são de boa qualidade, têm uma capacidade ímpar de mexer com a vida da gente, de nos fazer refletir, de nos transtornar, de expressar coisas que vivenciamos e que fantasiamos, mas normalmente não conseguimos colocar em palavras. Ou seja, são textos que vasculham nossos subterrâneos. Nada a ver com o erotismo comercial… Em certo sentido, se quisermos, a literatura é como a gastronomia – alguns livros são meros exemplos de fast-food; outros oferecem um banquete para a sensibilidade e o pensamento. Hoje, mais do que nunca, é preciso avaliar a qualidade, pois há muitos textos que só fazem banalizar o erotismo e não acrescentam nada à nossa experiência humana.

 

Como podemos definir o gênero literário erótico? Quais as diferenças entre pornografia e erotismo?

ERM: Essa distinção é muito complexa e, geralmente, baseia-se num critério moral. Para o senso comum, o pornográfico é o que “mostra tudo”, enquanto o erótico é “o velado”. Contudo, para o estudioso do erotismo literário, essa distinção é falsa, senão moralista… A rigor, livros como os do marquês de Sade, de Georges Bataille, de Glauco Mattoso, de Hilda Hilst ou de Reinaldo Moraes, são muito mais obscenos do que a pornografia comercial de uma Bruna Surfistinha ou de uma E. L. James. A diferença entre eles não está no grau de obscenidade, mas na composição formal: o valor de um texto nunca se mede por sua moralidade, mas por sua qualidade estética.

Os escritos do italiano Pietro Aretino, reconhecidamente o mais importante escritor erótico do Renascimento, são um bom exemplo de clássicos licenciosos que buscavam, segundo palavras do próprio autor, “mostrar a coisa em si”. Assim também, alguns poemas desta Antologia da Poesia Erótica Brasileira são extremamente obscenos mas, ao mesmo tempo, literatura de primeira linha.

 

A literatura está quase sempre permeada pelo erótico, mesmo nas obras que não têm esse tema como foco. Mas o que, precisamente, define um livro como erótico?

ERM: Quando se fala em texto erótico, está se falando de uma literatura que mobiliza um tema específico – o sexo, a sensualidade, o desejo carnal – e constrói seu pensamento a partir disso. Não se trata de um gênero literário, mas sim de um campo da literatura que se manifesta em diversos gêneros. Existem romances eróticos, sonetos eróticos, epopeias eróticas e assim por diante.

Por isso mesmo, gosto de dizer que o erotismo literário é, antes de tudo, um modo de pensar. Um modo de pensar por escrito, é claro, implicando uma operação específica de linguagem que, como vimos, trabalha no sentido de deslocar seus objetos para um lugar simbólico que se identifica, invariavelmente, com o baixo-corporal. Trata-se de uma escrita que se singulariza por fazer de Eros seu operador fundamental, elegendo-o como mediador exclusivo de seus jogos entre forma e fundo. Por isso mesmo, antes de ser um modo de pensar o sexo, o erotismo literário é um modo de pensar a partir do sexo.

A criação desse lugar imaginário, organizado segundo os imperativos da libido, implica algo mais do que a mera representação da sexualidade. Ao submeter a referência sexual a uma estilização, o escritor fica livre para transformar o sexo num observatório a partir do qual se pode contemplar qualquer prisma do universo, incluindo o que está aquém ou além do próprio sexo. Daí que o autor explicitamente obsceno possa ser considerado, como propõe Italo Calvino, “aquele que mediante os símbolos do sexo procura fazer falar alguma outra coisa”, sendo que “essa coisa pode ser redefinida, em última instância, como outro eros, um eros último, fundamental, mítico, inalcançável”.

 

Leia aqui alguns poemas selecionados pela autora

 

*Eliane Robert Moraes é professora de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo (USP), e pesquisadora do CNPq. Foi professora visitante nas universidades da Califórnia de Los Angeles (UCLA, USA), de Nanterre (Paris 10 – FR), de Perpignan Via Domitia (FR) e da Nova de Lisboa (PT).

Entre suas publicações destacam-se diversos ensaios sobre o imaginário erótico nas artes e na literatura, e a tradução da História do Olho de Georges Bataille (Cosac & Naify, 2003). É autora, dentre outros, dos livros: Sade – A Felicidade Libertina (Imago, 1994), O Corpo Impossível (Iluminuras/Fapesp, 2002), Lições de Sade – Ensaios sobre a Imaginação Libertina (Iluminuras, 2006) e Perversos, Amantes e Outros Trágicos (Iluminuras, 2013). Organizou a primeira Antologia da Poesia Erótica Brasileira (Ateliê, 2015) e atualmente, desenvolve pesquisa sobre as linhas de força do erotismo literário no Brasil.

Contos que Sangram

Renato Tardivo*

angu de sangue bxAngu de Sangue, coletânea de contos de Marcelino Freire, foi publicado pela primeira vez em 2000. No entanto, as dezessete narrativas do livro, que acaba de ser reimpresso, são extremamente atuais.

Não é exagero afirmar, por exemplo, que sua ambiência ficcional antecipa boa parte do (bem-sucedido) cinema pernambucano dos últimos anos, ao abordar, por meio de uma prosa ágil, a violência urbana e seus ruídos, a sexualidade explícita (mas não gratuita), o resgate dos afetos.

Mas é a convergência entre conto, teatro e poesia a maior virtude do livro. Não são poucas as frases que soam como versos exaustivamente lapidados, não obstante não percam o frescor e a oralidade de quem diz o que sente, e, ainda, componham narrativas que capturam o leitor e o derrotam, como queria Cortázar, por nocaute.

Os contos breves de Angu de Sangue são retratos da miséria humana. Sem concessões, Marcelino Freire extrai da abjeção, beleza; do “lixão”, “paraíso”; de “Socorrinho”, a menina abusada sexualmente, o “desmaio de anjo”. No conto “A Cidade Ácida”, por sua vez, morte e poesia aproximam-se vertiginosamente; também com poesia, em “J. C. J.”, adolescente infrator e vítima, no fim das contas, revelam-se dois lados de uma mesma moeda.

Ainda que as narrativas equilibrem-se quanto à (alta) qualidade, a mais brilhante delas é justamente a que dá título ao livro: “Angu de Sangue” é um conto inventivo que trabalha muito bem a dimensão espaço-temporal e os paralelismos entre amor e violência, ruptura e ligação, “como se fosse novidade o fim de um relacionamento, o começo de um outro ainda mais violento”. A (aparente) circularidade do conto aponta, na verdade, para a passagem do tempo em espiral, em que sempre se pode sangrar mais um pouco. Afinal, “a gente não se toca quando o coração está parando”.

A vida tem mesmo dessas incoerências: de súbito, vai morrendo aos poucos, e, quando vamos ver, “mataram o salva-vidas”. Com efeito, os planos fechados das narrativas de Angu de Sangue são emblema de um Brasil diverso e arcaico que historicamente (ainda) se alimenta do próprio sangue. Até quando?

Conheça outros títulos de Marcelino Freire

 

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir Que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).