Renata Albuquerque

Para entender a sociedade de consumo

Carina Marcondes Ferreira Pedro fala sobre o recém-lançado Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, sobre fluxos de importação de mercadorias nas últimas décadas do século XIX

Por Renata de Albuquerque

 

CarinaPedro_300dpiPor que entender o fluxo de importação de mercadorias no final do século XIX é importante na atualidade? Porque as tendências e os hábitos de consumo no Brasil foram fortemente marcados pelos acontecimentos desse período. Em Casas Importadoras de Santos e Seus Agentes, Carina Marcondes Ferreira Pedro debruça-se sobre o sistema e as rotas comerciais marítimas por meio das quais as mercadorias e produtos de consumo eram trazidos ao Brasil. O livro recém-lançado é resultante da dissertação de Mestrado desenvolvido no Programa de Pós-graduação em História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP).

 

Carina, que já atuou como professora de História e Ciências Sociais no ensino básico e orientadora educacional online no curso de especialização em História do Programa Rede São Paulo de Formação Docente (Redefor/Unicamp), conta que sua pesquisa começou ainda em 2006, no período da graduação, quando realizou o projeto de iniciação científica em História da Cultura Material do Museu Paulista, como aluna do curso de História na FFLCH-USP. A seguir, ela fala sobre sua obra:

casas importadoras de Santos primeiracapa

 

Você diz que a história do consumo no Brasil foi pouco abordada em seus aspectos culturais. Dada a importância desse tema, a que você atribui essa lacuna? O que esse viés de pesquisa tem a nos ensinar?

Carina Marcondes Pedro: Os estudos sobre os aspectos culturais do consumo a que tivemos acesso foram produzidos, em sua maioria, nos países que dominavam a economia capitalista nos séculos XIX e XX, como Inglaterra e Estados Unidos, que, ao exportar artigos industrializados para o Brasil e outros países da América Latina, disseminavam seus valores e modelos culturais. No Brasil, encontramos estudos importantes da História Econômica que nos forneceram visões sobre o macroprocesso que envolvia as importações. A minha pesquisa buscou compreender, do ponto de vista da História Cultural, as novas relações comerciais estabelecidas entre a Província de São Paulo e os países industrializados no final do século XIX, a partir das casas importadoras, instaladas junto ao Porto de Santos, conjugando elementos que envolvem desde sua conformação física até a trajetória e dinâmica de seus agentes e os artigos que importam e comercializam. Essas firmas, em boa parte fundadas por estrangeiros, foram responsáveis por disseminar valores e práticas culturais, localmente associados aos diversos artigos estrangeiros que adentravam o país nesse período. Compreender esses aspectos é também entender a formação de uma sociedade de consumo que provocou uma ruptura com o passado ao procurar por novos referenciais.

 

O livro toma como base, entre outros assuntos, pesquisas relacionadas à história cultural do consumo, com seus hábitos materiais. O que você pode nos dizer sobre isso?

CMP: Os estudos da história cultural do consumo ajudam a compreender, entre outras questões, como se deu a disseminação de valores e modelos culturais dos países industrializados, a construção de redes de consumo e suas relações com a vida urbana, a distribuição de bens materiais e, finalmente, entender como se deu a transição de uma sociedade assentada sobre a estabilidade de artefatos para uma sociedade de consumo dinâmica. Nela, a palavra “novidade” torna-se comum nos anúncios de artigos importados, revelando as mudanças rápidas que aconteciam no final do século XIX. Na minha pesquisa, a problemática se voltou para a compreensão dos valores e práticas culturais implicados no sistema de comércio de importação de coisas materiais, papel de seus agentes, objetos que faziam circular e formas de comercializá-los na cidade de Santos.

 

Por que escolher o período do fim do século XIX e início do XX para ser objeto de pesquisa? Por que escolher São Paulo e não, por exemplo, o Rio de Janeiro, que era a capital do Brasil de então?

CMP: A passagem do século XIX para o XX é um momento de sensível mudança na Província de São Paulo. Foi nesse período que a circulação de mercadorias ganhou nova dinâmica com a expansão do comércio internacional, no caso de São Paulo, com a expansão da economia cafeeira. A cidade de Santos, como núcleo operacional de todo o sistema de exportações/importações desta região, também passa por transformações profundas com a construção da ferrovia São Paulo Railway (1867), o incremento do movimento portuário e a presença cada vez mais numerosa dos negociantes e firmas importadoras nas ruas do centro comercial, que são parte do próprio processo de crescimento e transformação do porto, como ponto central no circuito de distribuição dos produtos estrangeiros.

ilustração casas importadoras cap 1

Imagem que abre o primeiro capítulo do livro

De que forma essa história está ligada aoshábitos que mantemos atualmente? Sua pesquisa dá pistas, ou indica, as mudanças profundas pelas quais a economia, o comércio e as relações de consumo passaram ao longo do século XX e ainda estão passando neste início de século XXI?

CMP: No final do século XIX os comerciantes enxergaram a oportunidade de vender mais em datas específicas do calendário, como “Natal, Ano Bom e Reis”. O ato de presentear e se vestir com roupas novas nesses dias passa a ser valorizado. Hoje em dia vemos que este hábito se intensificou e passamos a ter muito mais datas comemorativas em que o consumo é estimulado. A exposição e a vitrine também são práticas comerciais que se desenvolveram no século XIX. O anúncio de uma loja que passa a ter “exposição permanente” nos revela que os objetos começam a ser organizados de modo a estimular a observação visual dos clientes, indicando uma preocupação crescente em despertar o desejo de consumo por meio desse sentido.

 

Que semelhanças e diferenças você enxerga no consumo da época tratada em sua obra e daquele praticado nos dias de hoje?

CMP: No que diz respeito ao comércio de artigos importados, percebo que a origem estrangeira do produto ainda é valorizada, especialmente, quando se trata de uma marca consolidada no mercado internacional. Naquele período, contudo, para muitos artigos, não tínhamos uma fabricação nacional – hoje temos essa opção. As casas comerciais de importados ainda possuem uma grande variedade de produtos, porém, diferentemente daquela época, há uma definição nítida do público-alvo, desde a conformação física da loja até as ações de marketing. Hoje, vemos marcas especializadas em vender um tipo de produto para um determinado grupo de consumidores.

 

Você diz ainda que os novos produtos eram introduzidos no cotidiano e passavam a participar das ações, hábitos e referências culturais das sociedades locais. Você pode dar alguns exemplos? Há alguma curiosidade que você descobriu durante as pesquisas, e que não imaginava existir ou funcionar da forma que funcionava?

CMP: Descobri durante a minha pesquisa uma variedade de objetos cada vez maior entrando pelo Porto de Santos, como pianos, candelabros, fogão, porcelanas, aparelhos telefônicos, que passaram a constituir materialmente os interiores residenciais e comerciais. Também fizeram parte dessa gama variada de importados diversos gêneros alimentícios, como vinhos, cervejas, conservas, temperos, e no que diz respeito ao vestuário, encontrei chinelos, roupa branca, chapéus, fitas, entre outros artigos. Uma das curiosidades que descobri foram os anúncios de bebidas importadas, que apareceram com o nome da marca ou selo do fabricante associado ao nome da casa importadora que trazia o artigo para o Brasil, apresentada como “únicos importadores na Província”. Esse apelo de exclusividade denunciava a existência de um comércio de produtos falsos ou similares ocorrendo no período. Entre as precauções que o consumidor podia tomar estava a identificação do importador no rótulo da bebida.

 

 

Seleta de Poemas – Viagem a um Deserto Interior

 

Imagem2Hoje, 15 de outubro de 2015, a partir das 19h, acontece o lançamento do livro Viagem a um Deserto Interior, de Leila Guenther, na Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37 – Bela Vista – São Paulo). A autora fez, ela mesma, uma seleção de poemas e ilustrações (feitas por Paulo Sayeg), exclusiva para os leitores do Blog da Ateliê conferirem alguns trechos do livro, em primeira mão. “Espero todos no lançamento desta noite”, convida.

 

CONTORCIONISMO

viagem 5

Já caibo numa

Caixa de sapato

 

Mas o que eu queria mesmo

Era ser trapezista

 


viagem 2
A CHAT WITH CHET

Gosto mais de sua voz agora

grave, baixa, pesada

pela força de atração da terra

sem aquele caráter flutuante de quando você era

um rapaz bonito e perfeito.

 

Gosto da economia de suas notas

e da sonoridade que elas adquiriram

depois que você perdeu os dentes.

Gosto mais de você sem dentes

e dos sulcos que surgiram das profundezas de sua face

depois que a máscara uniforme de garoto se quebrou.

 

Queria ter podido afagar todo esse seu rosto verdadeiro

quando você caiu daquela janela em Amsterdã.

 

 

 

LESS                                                                                          viagem 4

Nunca tive um lugar que fosse meu.

O que tenho são mochilas, caixas de papelão, objetos

[descartáveis usados inúmeras vezes.

Me resguardo atrás das paredes frágeis de embalagens e

[sacolas de plástico.

Quando acordo durante a noite, é sempre em outro lugar.

[Um dia a porta fica à direita; no outro, a cama é

[estreita. As vezes esbarro em objetos que

[surgem do vazio.

 

Nunca tive para onde voltar. Não lembro como é tomar

[água em copo.

Vivo nos livros. Os que estão guardados, longe. Fiz deles

[minha casa. Construo com páginas e paciência o teto,

[as janelas, o minúsculo quintal.

Já faz tempo que a escova de dentes não habita uma

[gaveta.

Já faz muito tempo que desaprendi a utilidade dos

[cabides.

 

 

 

 

CONSTRUINDO A PAISAGEM

Usando a natureza

Para imitar a arte

 

Reduzindo o cascalho

A abstração

viagem1Petrificando a distância

Para sustentar o tempo

Assim engendra a cabeça raspada que o sol cresta

De nenhum ponto do espaço se veem as quinze partes:

Uma está sempre escondida atrás do todo

Em Ryoan-ji

Não há nada mais vivo do que as pedras

E para quem as dispõe

Já não é possível sair do jardim

Sem perturbar a ordem do arado

viagem 3

DIA DE NATAL:

em silêncio ela agradece

pelo filho que não teve

 

 

 

Almada Negreiros é reapresentado aos leitores brasileiros com uma antologia que reúne diversas expressões do multiartista português

Por Milena O. Cruz e Renata de Albuquerque

Apesar de sua imensa importância nas artes do século XX, o multiartista português Almada Negreiros ainda não é tão conhecido no Brasil. Nascido em 1893, ele foi poeta, ficcionista, dramaturgo, filósofo,  pintor, desenhista e conferencista. Para preencher a lacuna de conhecimento sobre ele no país, a Ateliê Editorial acaba de lançar Poesia É Criação – Uma Antologia. A edição foi realizada com o apoio da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas/Portugal. O livro, lançado dia 8 de outubro em um evento na Livraria da Vila (São Paulo), foi organizado por Fernando Cabral Martins e Sílvia Laureano Costa, que falaram, juntos, sobre a experiência ao Blog da Ateliê:

Capa da antologia, lançada em 8 de outubro, em evento na Livraria da Vila, em São Paulo

Capa da antologia, lançada em 8 de outubro, em evento na Livraria da Vila, em São Paulo

Trabalho a quatro mãos

A “quatro mãos”, o trabalho passa por um diálogo sobre as opções e por uma divisão das tarefas. Trabalhamos juntos noutros projetos ligados ao Almada – quase se pode dizer que temos um entendimento tácito que nos aproxima e liberta de discussões supérfluas.

 

Escolhas

Quem elabora uma antologia sabe que tem de fazer escolhas. Quem lê uma antologia sabe que está perante uma seleção. Para escolher é necessário ir ao todo da obra literária (ou, pelo menos, ao conjunto da obra publicada). Se, depois de ler a antologia, o leitor ficar com vontade de conhecer mais textos de Almada Negreiros, então, o nosso desafio estará cumprido.

 

Ilustre desconhecido

Julgamos que Almada Negreiros precisa de ser novamente apresentado ao público brasileiro. Um artista esquecido é como um artista desconhecido. Há muitas maneiras de voltar a fazer esta apresentação, a edição de uma antologia é uma delas. Mas é necessário, depois, divulgar e promover a sua leitura junto das escolas e das universidades, por exemplo. Sendo um artista plural, seria necessário também organizar uma exposição retrospectiva que desse a conhecer a obra plástica de Almada. E desenvolver o conhecimento dos outros aspectos da sua obra multiforme.

 

Legado artístico

A sua é a poesia de um artista moderno, dedicada à expressão violenta das emoções e à criação constante de formas novas de as exprimir. Também se pode dizer que a importância do gênero poético é quantitativamente maior na primeira fase da sua obra. Depois disso, o teatro, a pintura e a filosofia numerológica e geométrica tomam o primeiro lugar.

 

Organização do livro

O tríptico que pretendemos criar no livro corresponde às três grandes fases que se podem definir na linha cronológica da vasta e heterogênea obra de Almada Negreiros: a primeira ligada ao momento revolucionário das Vanguardas, a segunda dedicada à construção e difusão da arte modernista, a terceira trilhando um caminho singular de artista, poeta, filósofo e performer. A organização do livro é cronológica, com uma exceção. Um dos textos, “O Meu Teatro”, foi escrito por Almada no final da sua vida para servir de prefácio ao volume de teatro das suas primeiras Obras Completas. Mas, nesta antologia, ele ficava muito bem no final da segunda parte, fora da cronologia, mas na sequência das duas peças de teatro antologiadas. Por vezes, as regras merecem a exceção.

 

Almada no mundo

Almada está já traduzido em várias línguas. Nos últimos anos, desde o centenário do seu nascimento, em 2013, tem havido um novo fôlego de edições internacionais. Saíram novos livros em Itália e na Noruega, por exemplo. Na Colômbia está no prelo uma antologia traduzida e nos EUA prepara-se também uma edição almadiana. Almada tem feito parte do programa de diversos colóquios internacionais em países como Brasil, EUA, Colômbia, Itália, Espanha, Inglaterra… (uns já aconteceram; outros estão agendados ainda para este ano). Estes eventos constituem importantes plataformas de discussão e partilha, cruciais para a difusão internacional do artista. Desde o final do ano passado, é possível conhecer uma parte significativa do espólio de Almada Negreiros, através do arquivo virtual disponível no site www.modernismo.pt. A internet é um veículo sem fronteiras, muito favorável à divulgação e ao estudo de um autor. Este projeto (ligado à Universidade Nova de Lisboa e aos herdeiros de Almada) tem ainda muito para crescer, mas acreditamos que é uma boa maneira de iniciar ou de aprofundar o conhecimento da obra de Almada.

Ateliê Editorial chega a 10 mil no Twitter e comemora com sorteio de livro para seus seguidores

Foi em 12 de abril de 2010 que o perfil @atelieeditorial publicou seu primeiro tuíte. Cinco anos depois, estamos comemorando a marca: somos 10 mil no Twitter!

E, para celebrar, decidimos fazer um sorteio para quem segue nosso perfil no Twitter. O livro escolhido é um dos mais cobiçados de nosso catálogo: Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci, lançado em 2012 e, ainda hoje, um dos mais queridos títulos entre os nossos leitores.

cadernos anatomicos

 

E você, também quer participar desse sorteio? Então, veja como:

A Ateliê Editorial irá sortear um exemplar do livro Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci entre os seguidores do perfil @atelieeditorial no Twitter, conforme regulamento abaixo:

Regulamento do sorteio:

1- O sorteio  acontecerá na semana em que o perfil @atelieeditorial atingir 10 mil seguidores. Caso isso ocorra em um sábado, o sorteio será realizado na semana seguinte.

2- Poderão participar do sorteio apenas seguidores do perfil @atelieeditorial que não tenham ligação direta com a Ateliê Editorial e demais empresas e pessoas envolvidas com a realização do sorteio (funcionários, organizadores, patrocinadores, parceiros, etc.).

3- Para confirmar a participação no sorteio do exemplar, o usuário precisa realizar o retweet (RT) da URL http://sorteia.eu/czI utilizando a #atelie10mil.

4- A inscrição é única e intransferível e dará direito a um número de participação (cupom) que entrará no sorteio.

5- O sorteio será realizado pela sorteia.eu e o resultado será divulgado pelo perfil @atelieeditorial no Twitter

6- O ganhador do sorteio receberá um exemplar do livro Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci, publicado pela Ateliê Editorial.

7- A Ateliê Editorial entrará em contato com o ganhador para definir a forma e data da entrega do livro.

8- Quaisquer dúvidas, divergências ou situações não previstas neste regulamento serão julgadas e decididas de forma soberana e irrecorrível pela Equipe Ateliê Editorial.

*Promoção encerrada em março/2016. Vencedora: Gabriela Carestiato Rodrigues.

A anatomia de Leonardo da Vinci

Cecilia Felippe Nery*

 

cadernos capa

Desde os primórdios da criação, o homem descobriu no desenho uma forma de representar – e registrar – fatos da vida e do cotidiano, visando ainda entender sua existência no mundo de maneira a aprimorá-la. Hoje pode ser banal, mas há pouco mais de 500 anos um dos grandes desafios era desbravar o corpo humano para conhecer sua intricada anatomia de músculos, esqueleto e órgãos fundamentais para a vida.

É neste cenário que surgem os artistas-anatomistas e, dentre eles, o gênio italiano Leonardo di Ser Piero Da Vinci, ou simplesmente Leonardo Da Vinci, um expoente do Renascimento que foi ainda cientista, matemático, engenheiro, inventor, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. Seu interesse pela anatomia levou-o a desenhar órgãos e elementos dos sistemas anatomofuncionais do corpo humano que, anos depois, foram reunidos, junto a anotações, no livro Leonardo on the Human Body, com tradução do italiano para o inglês de Charles Donald O`Malley e John Bertrand de Cusance Morant Saunders.

Desenhos-Anatomicos3Em 2012 a obra ganhou uma versão em português – Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci -, publicada pela Ateliê Editorial/Unicamp, com tradução de Maria Cristina Vilhena Carnevale e Pedro Carlos Piantino Lemos. O livro tem 520 páginas com informações e mais de 1.200 desenhos de Leonardo feitos ao longo de 15 anos (1498-1513), tendo por base os tratados médicos de Galeno de Pérgamo (129-200), de Mondino del Luzzi (1270-1326) e de Avicena (980-1037), além da dissecação de peças anatômicas de animais e de corpos humanos. Com esse material, Da Vinci pretendia fazer um Tratado de Anatomia, que não chegou a concluir.

Os tradutores brasileiros trabalharam em Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci durante dez anos. A obra reúne os esboços de caráter artístico e técnico, acrescida do conteúdo teórico e prático das anotações do artista, segundo os sistemas anatomofuncionais do corpo humano na sequência cronológica em que foram feitos. O livro conta com uma parte introdutória em que traz interessantes fatos históricos dos estudos anatômicos durante o Renascimento, e das ilustrações anteriores aos desenhos de Leonardo Da Vinci, durante e depois dele.

 

Desenhos-Anatomicos2

Influência da matemática

Na época do Renascimento, os artistas se aproximavam dos médicos-anatomistas para melhor retratar o corpo humano em suas obras. Da Vinci, no entanto, considerava a anatomia “como algo mais que simples coadjuvante da arte” e, com isso, “adquiriu conhecimentos anatômicos que ultrapassaram aqueles que seriam suficientes para desempenhar sua arte”, descrevem os tradutores. O artista, porém, não chegou a ser um anatomista, pois estudou a anatomia de forma pouco sistemática, atendo-se mais aos aspectos que lhe interessavam artisticamente. “Mas foi o que mais conseguiu estabelecer vínculo mais estreito entre arte e anatomia, alcançando com seus desenhos anatômicos maior grau de perfeição até então alcançado por um artista-anatomista”, afirmam.

Embora alguns dos esboços de Da Vinci não tenham a perfeição de um desenhista-anatomista, as ilustrações são esplêndidas, com forte influência dos conhecimentos matemáticos do artista. Elas mostram uma evolução no trabalho de reprodução, aprendida por meio do conhecimento das leituras, a execução de algumas dissecações de animais e a inspeção da superfície do corpo humano vivo. Não é comprovado que Leonardo tenha realizado diversas dissecações humanas. A única que executou, de fato, no intuito de desvendar a disposição dos vasos do corpo humano foi a do “homem centenário”, realizada na cidade de Florença, entre 1504 e 1506.

A maior exatidão nos seus desenhos é feita a partir de 1489. Leonardo criou um método que consistia em representar cada tema sob quatro aspectos, propiciando ao observador uma visão do elemento anatômico tal qual o veria ao caminhar ao seu redor, analisando-o sob todos os ângulos. Um método que utilizaria durante toda a sua carreira anatômica.

Os esboços e as anotações de Leonardo ficaram muito tempo perdidos. Logo após sua morte, eles foram herdados por Francesco Melzi, seu discípulo, que os guardou até 1570. Mas depois foram dispersados e passaram por caminhos desconhecidos. Só no século passado que o trabalho de Da Vinci pode ser ordenado no livro de O’Malley e Saunders, trazendo assim à luz da humanidade o brilhantismo do artista, e que os brasileiros também podem conhecer na obra em português da Ateliê Editorial e Unicamp.

 

*Jornalista formada pela Puccamp, pós-graduada em Jornalismo Internacional (PUC-SP) e Jornalismo Literário (ABJL). Mantém o blog de literatura “Sobre Leituras e Observações” – www.leituraseobservacoes.blogspot.com

Leitura, cognição e cultura

A leitura é uma atividade que traz mais que novas informações; ela nos ajuda a conhecer o passado e a exercitar nossa capacidade de abstração e criatividade

Antônio Suárez Abreu*

antonio suarezBenjamin K. Bergen, professor de ciência cognitiva da Universidade de San Diego, Califórnia, escreveu recentemente um livro instigante chamado LouderthanWords, onde narra suas pesquisas sobre leitura no Laboratório de Linguagem e Cognição da sua universidade.   Segundo ele, à medida que lemos um texto, nossa mente vai construindo, inconscientemente, imagens vinculadas a ele.  Se lemos a respeito de um bife no açougue, imaginamo-lo de cor vermelha, mas, se lemos a respeito de um bife no prato, imaginamo-lo de cor marrom, tostado. Segundo ele, quando ouvimos ou lemos um texto de ação, que contém movimentos, o local de nossas mentes responsável por eles reproduz os movimentos, como se os estivéssemos de fato praticando.   A conclusão a que chegamos é que ler não nos traz apenas novas informações, mas exercita enormemente nossa capacidade de abstração criativa.

Um outro fato importante é que, em nosso dia a dia, tudo o que fazemos tem relação com nosso passado.  Se chegamos à frente de um elevador, sabemos que temos de apertar um botão para chamá-lo e, ao entrar nele, um outro, situado na parede, correspondente ao andar que queremos atingir.  Fazemos isso por analogia, porque já utilizamos, anteriormente, muitos outros elevadores.   Somente conseguimos viver e agir em nosso presente, graças ao nosso passado.   Se nossa memória passada fosse apagada subitamente, não poderíamos sequer dar um passo à frente.  Bem, é aí que surge um outro fator importante da leitura.  Por meio dela, podemos tornar também disponível para nós o passado de outras pessoas.   Antes da descoberta da escrita, cada geração partia da estaca zero, pois não dispunha dessa memória armazenada. Certa vez, quando elogiado por seus feitos científicos, Isaac Newton disse: “Se eu vi mais longe foi por estar sobre ombros de gigantes”, fazendo alusão aos conhecimentos obtidos pela leitura daqueles que o haviam antecedido.

Ler carrega nossas mentes com informações que nos permitem ser criativos, adaptando conhecimentos passados a situações presentes, utilizando elementos da ciência e tecnologia que não estavam disponíveis em épocas anteriores.  Foi o que aconteceu com Alan Turing, quando criou seu primeiro computador, durante a Segunda Guerra Mundial.  Ele foi buscar no passado as experiências de Charles Babbage e Ada Lovelace, filha de Lord Byron, criadores dos algoritmos que levariam, hipoteticamente, à construção de uma Máquina Analítica, cuja existência era impossível no século dezenove, quando havia apenas recursos mecânicos e não os eletrônicos com que contava Turing, já na metade do século vinte.

E a leitura de ficção?  Bem, estou falando de grandes autores como Shakespeare, Oscar Wilde, Machado de Assis e não de best-sellers descartáveis.  Quando lemos essas grandes obras, temos duas coisas a ganhar: a possibilidade de “viver outras vidas” e a possibilidade de conhecer épocas e culturas diferentes.   O grande escritor peruano Mario Vargas Llosa, ganhador do prêmio Nobel de Literatura, falando sobre leitura de ficção, nos diz:“Condenados a uma existência que nunca está à altura de seus sonhos, os seres humanos tiveram que inventar um subterfúgio para escapar de seu confinamento dentro dos limites do possível: a ficção.  Ela lhes permite viver mais e melhor, ser outros sem deixar de ser o que já são, deslocar-se no espaço e no tempo sem sair de seu lugar nem de sua hora e viver as mais ousadas aventuras do corpo, da mente e das paixões, sem perder o juízo ou trair o coração.”

Além de viver outras vidas em nossas mentes – e aprender e crescer com elas – quase sempre nos deparamos com informações interessantes sobre o mundo presente ou passado.  Lendo o clássico To Kill a Mockingbird, de Nelle Harper Lee, topamos com a descrição de um meio de transporte chamado “HooverCart”.  Ficamos, então, sabendo que nos Estados Unidos, durante a grande depressão dos anos 30, pessoas que tinham comprado automóveis e não tinham mais dinheiro para a gasolina arrancavam seus motores e atrelavam cavalos ou mulas à lataria, improvisando um meio insólito de transporte, batizado, por ironia, com o nome do presidente americano da época Herbert Hoover.

Ler, enfim, é muito mais que simplesmente informar-se. Leitura é diversão, uma maneira de conhecer realidades distantes no tempo e no espaço e de colecionar uma bagagem cultural ampla, que nos ajuda a entender o mundo de uma maneira mais vasta e profunda.

 

* Antônio Suárez Abreu é professor titular de Língua Portuguesa da UNESP, professor associado da USP e autor de vários livros sobre a linguagem.

Conheça a obra de Antônio Suárez Abreu

Quando não há mais sujeito e objeto

Renato Tardivo*

 

Viagem a um Deserto Interior é o mais recente livro de Leila Guenther. Seus poemas e microcontos agrupam-se em cinco seções: “Paisagens de Dentro”, “O Deserto Alheio”, “Castelo de Areia”, “Um Jardim de Pedra” e “A Possibilidade de Oásis”. Nota-se, portanto, uma (bem-sucedida) intenção narrativa oferecendo de antemão continente às narrativas do livro. Não é aleatório que o “espaço” seja o tema mais relevante da obra; aliás, ele está indicado em diversas palavras-chave: “viagem”, “deserto”, “interior”, “paisagens”, “castelo”, “jardim”, “oásis”.

Mas, se há deslocamento do interior de si para o interior do outro, da fragilidade da areia para a dureza da pedra, da aridez do deserto ao oásis (ou à possibilidade dele), há deslocamento também entre os versos dos poemas e os microcontos, o que confere ainda mais movimento à viagem. Aqui, poesias são narrativas e narrativas, poesias.

Imagem2Há algo de Drummond – cuja referência chega a ser explicitada – no modo de abordar o desconcerto de mundo, nos desfechos surpreendentes, no olhar ao mesmo tempo simples e profundo. Leila, ainda, repete alguns temas (suas pedras no meio do caminho?),de modo a marcar a passagem do tempo, a efemeridade do instante: a mulher sem filhos, as noites das estações do ano, as referências orientais…

E, no fim, há oásis? Cabe ao leitor empreender a sua própria descoberta. Leila nos ajuda, e muito, sugerindo trajetórias, habitando os continentes possíveis e impossíveis, da caixa de sapatos (em que consegue caber) ao desejo de ser trapezista (o que ainda não é).

Mas, talvez,a dica mais preciosa esteja em “Mushin” (em uma tradução livre, “suspensão do pensamento”):

 

Quando não há mais sujeito e objeto

como saber se aquele que mata

não é o mesmo que é morto?

 

 

Conheça outras obras de Leila Guenther

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Os Mistérios dos Livros de Pantagruel

Nova tradução do Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, exclusiva da Ateliê Editorial, esclarece pontos obscuros de versões anteriores
 

Nesta entrevista, Élide Valarini Oliver fala sobre o trabalho de tradução do Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, editado pela Ateliê Editorial, com coedição da Editora Unicamp. Professora titular de literatura brasileira e comparada na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, ela destaca dois mistérios que descobriu durante esse trabalho e deixa explícito o critério que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Melhor Tradução pelo Terceiro Livro da série: “Em geral, as traduções para as outras línguas não respeitam o estilo do autor”, diz.

 

Bom Pantagruel_Capa jpgSua tradução é feita diretamente do francês. É a primeira vez que isso acontece?

Élide Valarini Oliver Hoje em dia, apenas especialistas conseguem entendê-lo. Por isso, existem “traduções em francês modernizado” para o público não especializado francês. Além disso, o próprio estilo do escritor é extremamente exigente, erudito, cheio de referências recônditas, jogos de palavras impossíveis em outras línguas, etc. Em geral, o que se traduz são apenas os dois primeiros livros do autor.

Muito tempo atrás folheei uma edição portuguesa, que me pareceu bastante distorcida e pobre. Em geral, as traduções para as outras línguas não respeitam o estilo do autor, suas peculiaridades, suas inversões “barrocas” digamos assim, as assonâncias de poeta que se encontram no texto. Elas também não rimam o que está rimado no texto, não propõem soluções criativas para os problemas que a cada frase se encontram em Rabelais, cortam trechos do texto… Não estou exagerando.

O que mais incomoda, porém, é o desrespeito ao estilo, a tentativa de fazer o autor encaixar-se numa língua preestabelecida, em vez de fazer a língua encaixar-se no estilo do autor, que é o que o próprio autor fez, quando escreveu em sua própria língua.Assim, se o autor inventa uma terminação esdrúxula num adjetivo, temos que manter isso, não importa o quanto “esdrúxulo” isso possa parecer.

Outra coisa grave é achar que só porque uma palavra parece a mesma, ela significa exatamente a mesma coisa atualmente. Não é bem assim. É preciso conhecer filologia, gramática histórica, etc. Tudo isso eu comento, em notas de rodapé, em minha tradução. O que fiz, porque fiz, discuto origem das palavras, o que for necessário.
Outra coisa grave é tentar “limpar” o texto das palavras obscenas que o autor usa. Isso chega a ser antiético, pois o tradutor não pode ser censor. Mas ocorreu, e ainda ocorre. Nos séculos subsequentes, era comum, na França, aparecerem edições expurgadas assim.

Qual o diferencial desta tradução frente às já existentes, já que falamos de uma obra clássica?

EVO: Acho que o que a diferencia é que sou uma estudiosa do autor. Minha tese de doutoramento foi sobre ele e Joyce. Mais tarde, baseada nesta tese, mas já com muito mais material, escrevi um livro sobre ele, publicado também pela Ateliê: Joyce e Rabelais: Três Leituras Menipeias.
Além desse interesse acadêmico, digamos, também escrevo poesia, contos, crônicas. Tenho paixão pela literatura. Gosto de traduzir.

Sempre vivi no meio de várias línguas: francês, italiano, inglês, português, latim. Adoro provençal, occitan, etc. Gosto também de etimologia. Em suma, tudo isso entra e acaba fazendo a diferença. Por exemplo, ao traduzir o Quarto Livro, por causa dessa babel linguística em que vivo, acabei, por assim dizer, esclarecendo dois mistérios, duas expressões que Rabelais usa e que as edições francesas acadêmicas ou não comentam, ou propõem soluções que não podem ser aceitas. Explico isso nas notas correspondentes, pois no total acabei fazendo 1.411 notas para esta edição. Com isso, escrevi também um artigo, em francês, para comentar e propor minhas resoluções, que vai sair nos Nouvelles Etudes Rabelaisiennes.

 

ElideValariniQuais são os dois mistérios que você esclareceu durante a tradução?

EVL:Acho que viver numa confluência de línguas, nessa babel em que vivo, não é fácil. Muitas vezes esqueço uma palavra na língua em que mais necessito e lembro em pelo menos duas outras que não vão me servir em nada no momento (risos), mas em alguns casos ajuda muito, sobretudo no universo rabelaisiano, por exemplo. Foi o que aconteceu com uma palavra “misteriosa” que Rabelais usa e que grafa “cela”. Ora, todo o mundo sabe que “cela” quer dizer “aquilo ali”, ou “isso” ou ainda “isso aí”, dependendo do contexto. Evidentemente, Rabelais usa este e outros demonstrativos, mas em uma frase no fim do capítulo XLVII, a palavra “cela” não tem nada a ver com isso e se tornou um mistério.

Alguns editores franceses acham que se trata de Sela, em hebraico, mas isso não faz sentido tampouco, inclusive porque quando Rabelais usa Sela, ele o faz com “S” e sabe muito bem a diferença. Outros ainda acham que foi um cochilo, etc. Mas, consultando o dicionário Cotgrave, francês-inglês, elaborado no século dezessete pelo autor homônimo, e que inclui verbetes de muitas palavras e expressões usadas por Rabelais, encontrei ali um segundo significado de cela, ligado a “wot” – palavra agora arcaica em inglês, de “wit”, mas usada por Shakespeare, por exemplo, e que significa “ter sacado alguma coisa”.
Isso, sim, fazia sentido com o contexto do Rabelais.

O outro mistério diz respeito a uma expressão encontrada no capítulo LXVI: “contre faire le loup em paille” que hoje ninguém sabe mais o que quer dizer. Também encontrei no Cotgrave alguma glosa, mas isso é mais complicado porque diz duas coisas diferentes: seria fingir que se dorme, ou também estar entre o acordar e o dormir. Cada edição do Rabelais em francês oferece uma sugestão, mas não fazem sentido. A edição da Pléiade, muito bem-feita e bastante séria, não oferece sugestão nenhuma, o que acho melhor. Comentei tudo isso nas notas que fiz à minha tradução, mas depois resolvi escrever um pequeno artigo em francês a respeito disso e o enviei à Mireille Huchon, que editou minuciosamente a obra completa do Rabelais para a coleção Pléiade, e que é uma autoridade no assunto Rabelais. Foi assim que surgiu a oportunidade de publicar o meu artigo para a Nouvelles Études Rabelaisiennes.

Quando sai o artigo na Nouvelles Etudes Rabelaisiennes?

EVO: Ainda não sei quando vai sair o artigo porque, de pequenininho que era, realmente muito modesto, inclusive em termos de contribuição aos estudos rabelaisianos, está virando, graças às sugestões de Mireille Huchon, um pouco maiorzinho. Estou em fase de revisão final.

Você tem a intenção de traduzir outros livros do Bom Pantagruel?

EVO: Sim, tenho a intenção de fazer (quase) toda a obra. Ou seja, agora, os dois primeiros livros ao menos. Estou começando o Gargantua. Resolvi começar pelo Terceiro e depois fui para o Quarto – que são os mais complexos em todos os sentidos. E também porque são os menos conhecidos. Quando se trata de Rabelais, muitas vezes o público não sabe que ele escreveu o terceiro e o quarto. Haveria também o que se convencionou chamar de Quinto Livro, mas isso é um problema, pois o que se acreditou ter sido um livro inacabado do autor, na realidade, hoje mais parece um rascunho para o Quarto Livro. Ainda não resolvi se vou entrar nisso, mas os “prognósticos pantagruelinos” são divertidos também. Vamos ver.

Que linha você segue na hora de fazer um trabalho como esse? O que considera essencial e do que procura fugir?

EVO: Em minha introdução ao livro, dou muitos detalhes sobre os critérios que uso para traduzir. O que posso dizer é que não sigo linha alguma. Sigo a linha do Rabelais. Ele é meu companheiro de jornada há muitos anos, isso acaba gerando uma certa afinidade, que me dá, mais ou menos, uma liberdade para imaginar que se ele estivesse escrevendo em português, usaria esta ou aquela palavra, por exemplo. E depois, ao reler, sempre imagino que ele está ali do lado. E se ao reler, rio muito, então melhor ainda!

Mas, além da tradução, o que fiz foi proporcionar ao leitor um contexto amplo não apenas das ocorrências e situações aos quais o livro se refere, mas, por exemplo, na introdução, contextualizar o livro em sua época, os perigos que o autor incorreu ao publicá-lo, as ideias de Rabelais, etc. Acho que isso ajuda o leitor, visto que se trata de um autor que, se já era complexo em seu tempo, agora, passados quinhentos anos, o é ainda mais.
Outra coisa importante: devido à minha profissão, tenho tempo para fazer isso. Traduzir Rabelais acaba fazendo parte da minha vida, quase como uma atividade à parte. Não trabalho apenas com Rabelais. Escrevo, pesquiso e dou aulas sobre literatura brasileira e comparada. Acabei de publicar um livro sobre Machado de Assis, por exemplo. De certa forma, traduzir Rabelais para mim, é como partir em viagem.

Ler é cegar o tempo

A leitura é um hábito que pode ser cultivado até mesmo quando se leva a vida corrida das metrópoles

 Alex Sens*

 

Verão na Noruega, o sol brilha tímido nas fímbrias escuras da meia-noite e os turistas exploram sua natureza com aquele desejo fervilhante de aventura. De uma perigosa formação rochosa chamada Trolltunga, despenca uma estudante australiana que só queria fotografar a si mesma. Um casal de alemães adentra a famosa geleira Nigardsbreene é esmagado por um bloco de gelo que se desprende abruptamente, assim como suas vidas. Uma russa se arrisca na beirada íngreme da cachoeira Vøringsfossen e é engolida pela furiosa morte líquida que já desfez tantos outros corpos.

Se a leitura fosse uma distração perigosa, colocada nesses contextos seria mais cômica do que trágica. Morrer lendo talvez soe romântico e é inegável sua possibilidade. Os turistas, corajosos ou desavisados, não estavam lendo, mas poderiam. Trazendo outros acidentes para cá, eis a mulher cair nos trilhos do metrô enquanto caminha com um livro aberto e os olhos salgados de emoção; eis o jovem poeta atravessar a Avenida Paulista e ser levado por um ônibus enquanto lê T. S. Eliot e morde uma maçã verde, que rola pelo asfalto com uma vírgula de sangue onde os dentes cavaram um verso; eis o professor apressado que pisa em falso enquanto lê um ensaio da Sontag e desaparece na escuridão de um bueiro. Trocamos os livros por celulares e a realidade macabra dessas imagens torna-se ainda mais palpável.

Foto de Alex Sens

Foto de Alex Sens

Sem um livro, a concentração do sujeito durante o momento da espera é absolutamente focada na própria espera e na inflexível densidade do tempo. Em agências bancárias, presas em filas tediosas, pessoas cujos olhos se voltam urgentes para o alarme que indica a próxima senha se acham nauseadas pelo ócio.Com tantas pessoas perdidas num vazio característico das filas, sobretudo a dos bancos, a vontade é de dar a elas um pouco de leitura, uma utilização inteligente do tempo. Ler é cegar o tempo, mas comumente estamos diante de um tempo enxertado nos olhos arregalados da pressa ou cansados da modorra. Ler, onde quer que seja, é viver em melhor companhia, mas invariavelmente, dentro ou fora das filas, o que vemos é o tempo fugindo da leitura e sendo reclamado como se fosse estreito, tão estreito como um livrinho de cem páginas possível de ser lido em dez dias durante aqueles minutos que antecedem o sono — ou sua vez numa fila.

Com o mesmo caráter raro de encontrar um âmbar durante um passeio, no Brasil e em tantos outros países em que a leitura também é um problema socialmente desigual, ainda é um instante de encanto ver um leitor distante da sua condição de ponteiro-de-tempo no relógio-fila, apartado da espera, esse lugar inatingível quando a literatura ou qualquer outro tipo de arte é o próprio meio. Estamos acostumados a ver cabeças tombadas sobre aparelhos luminosos, nunca sobre um conjunto de folhas. Concentração, adquirida com mais leitura, é a força necessária para a lógica de uma interpretação coesa. O saber ler nada tem a ver com a decifração de símbolos e fonemas, mas com interpretação, e a competência para ela vem tanto da concentração dedicada quanto da necessidade de se perguntar a leitura, de se deixar encharcar pelo que está sendo lido.

Como toda atividade mental que tem a necessidade de se tornar mais uma atividade possível, portanto acessível a todos, a prática da leitura demora a ser enraizada e tornada não intervalo de tempo, mas consumação dele, comunhão com a inteligência e com a cultura. Utilizar-se da leitura sem moderação, mas com um olhar e um ouvido no mundo ao redor para que ela não se torne assassina da atenção, em trens, metrôs, filas e salas de espera, pode e deve ser a extinção das desculpas e da culpabilidade da falta de tempo. Nós controlamos nosso tempo, nós, e somente nós, o moldamos como argila e damos a ele o formato mais adequado. Por prazer ou acidente, leia sempre, leia mais, leia muito. Só não morra por isso porque há uma lista infinita de obras a serem lidas e elas esperam ser dessacralizadas pelo seu precioso e irrecuperável tempo.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

Boris Kossoy faz 50 anos de carreira dedicada à fotografia

Fotógrafo brasileiro é uma das mais fortes referências para estudiosos e amantes da fotografia

Por Milena Oliveira Cruz

Boris Kossoy não é apenas um dos mais importantes fotógrafos nacionais; é, também, um grande estudioso da história da fotografia e de seu caráter documental. Foi graças às suas pesquisas incansáveis que em 1976 o mundo soube: a fotografia foi descoberta no Brasil, pelo francês Hercule Florence, e não por Louis Daguerre, na França de 1839, como até então se acreditava.

A todo momento, a carreira de Boris Kossoy uniu criação e reflexão, como em Realidades e Ficções na Trama FotográficaEste livro aborda os mecanismos mentais que regem a representação (produção) e a interpretação (recepção) da fotografia. De maneira didática, o autor explica o processo de construção de realidades – e, portanto, ficções – que a imagem possibilita.

Hildegard Rosenthal. Largo do Arouche em Janeiro de 1942. Acervo Instituto Moreira Salles.

Hildegard Rosenthal. Largo do Arouche em Janeiro de 1942. Acervo Instituto Moreira Salles.

Fotografia & História, lançado em 2001, é uma publicação pioneira no país, que traz princípios de investigação e uma metodologia de análise crítica das fontes fotográficas, a partir de uma abordagem sociocultural. Em 2012 a obra ganhou uma edição ampliada da Ateliê Editorial e ainda hoje é considerada referência para historiadores, cientistas sociais e estudiosos da comunicação.

Os Tempos da Fotografia – O Efêmero e o Perpétuo reúne textos sobre história, imprensa e memória, em que a fotografia é tanto fonte de pesquisa quanto objeto de estudo. O efêmero e o perpétuo fundamentam suas reflexões sobre a imagem e, nessa perspectiva, a fotografia ocupa o centro do debate sobre as ambíguas relações entre representação e fato, entre o aparente e o oculto. Boris Kossoy também publicou, pela Ateliê Editorial, Imprensa Confiscada pelo DEOPS – 1924-1954, em parceria com Maria Luiza Tucci Carneiro.

A importância do trabalho de Boris Kossoy é reconhecida também no exterior: obras do fotógrafo fazem parte do acervo permanente do Museum of Modern Art – MoMA (Nova York), George Eastman House (Rochester, Nova York), Smithsonian Institution (Washington, D.C.), Bibliothèque Nationale de Paris e Museu de Arte de São Paulo, entre outras instituições.

Boris Kossoy. Brasília, 1972. Acervo do Autor.

Boris Kossoy. Brasília, 1972. Acervo do Autor.

Por tudo isso, ele recebe, a partir de 10 de setembro, uma exposição internacional que celebra os seus 50 anos de carreira: Imago: sobre o Aparente e o Oculto. “Procuro e encontro grande parte dos meus temas no contexto da chamada realidade concreta, imediata. Nela me intrigam certos cenários e fatos corriqueiros que passam normalmente despercebidos para outras pessoas: não posso deixar de registrar determinadas ocorrências que noto nas casas, nas ruas, nos caminhos, nas janelas para onde dirijo minha câmera, lembrando Hitchcock, tentando desvendar o drama que pode estar acontecendo naquele lar, nas vitrines do comércio, na sedução de um gesto, na inquietação de um olhar”, diz Kossoy na página da Fundação Brasilea, onde será realizada a exposição.“(…) Me refiro, pois, ao que a câmera não registra, o oculto da representação, sua realidade interior. Passados 50 anos de meus inícios na fotografia, ainda é esta dicotomia do aparente/oculto o desafio permanente que me motiva e emociona.”

Conheça mais sobre a obra de Boris Kossoy