Renata Albuquerque

Primeiro lançamento de 2016 é o novo livro de poesia de Wassily Chuck

Por: Renata de Albuquerque

 

“É preciso compreender a poesia de Wassily Chuck não como fuga da realidade, mas como fuga para a realidade”, escreve José de Paula Ramos sobre o lançamento Rumo à Vertigem ou a Arte de Naufragar-se, livro dedicado ao amigo e escritor Ivan Teixeira, falecido em 2013. Concordando com tal ideia, o autor, que é engenheiro, filósofo e diplomata, fala, a seguir, de alguns aspectos da obra e de sua concepção de poesia, embora ressalte que, para ele, “o poema é bicho de sombra, e o excesso de claridade o fere”.

Capa Rumo a Vertigem

Poesia – Em meio a um tempo que transforma a linguagem em mera ferramenta, relacionada a questões de produção e eficiência, em meio à disseminação crescente das linguagens técnica e eletrônica, que tendem a esvaziar a força criadora das palavras, a poesia busca recobrar um sentido mais profundo do texto, que nos remete à possibilidade de criar a nós próprios, de criar nosso mundo, recobrando, assim, a infinita liberdade da palavra.

 

Silêncio: Para criar faz-se necessário gerar um espaço de disponibilidade, um espaço vazio, um espaço de silêncio. Por isso, pode-se dizer que não nas palavras, nos silêncios do texto jaz o poema. As palavras somente tecem o espaço para que o silêncio se expresse. Nesse sentido, a poesia seria a forma possível para dizer o indizível, a tentativa, sempre imperfeita (daí a tristeza em todo poema), de dar voz à secreta sintaxe do silêncio.

 

Nosso tempo – O sentimento trágico na Grécia antiga surgia do embate entre o homem e o destino, enquanto o sentimento trágico de nossos dias surge do embate entre o homem e a ausência de destino. Pois, com a partida dos deuses, não há mais uma lei maior regendo nossas vidas. E, nesse mundo destituído de sentido, o homem mais não é que “sonho de uma sombra”. Sair do sonho e chegar à vida, eis a busca da poesia.

 

O poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770 - 1843)

O poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770 – 1843)

Unicidade – O chileno Jorge Teillier dizia que poucos poetas têm na vida mais de um poema para escrever. O filósofo Heidegger dizia algo semelhante. No meu caso, sempre fui consciente de ter apenas um poema. E todos os livros são variações desse verso, que viro, reviro, desviro dentro de minha voz (creio que os primeiros mestres, ainda todos estrangeiros, pois eram os livros da biblioteca paterna, como Hölderlin, Trakl, Celan, Jabès e, mesmo, Rilke, poderiam ser vistos sob essa ótica).

 

Multiplicidade – Se todo escritor é muitas pessoas, eu seria essencialmente duas. Uma que crê na “fundação do Ser pela palavra poética” (conforme leitura que Heidegger faz de Hölderlin). Outra que é filha do ceticismo contemporâneo. Da busca de conciliar essas duas vozes, de buscar fazer com que uma aceite a outra, após tê-las feito medirem-se uma pela outra, disso falam os meus livros. E creio que a tensão distendida entre essas duas vozes favorece a criação poética.

 

O mar – Nasci numa cidade junto ao mar. O sal e o rumor das ondas são minha marca de nascença. A imensidão do mar seria, para mim, o infinito possível dos homens. O mar permeia todos os meus escritos, o mar é sempre protagonista, mesmo quando não nomeado.

 

O livro – O texto narra a busca de uma “palavra cheia de silêncios”, que possa recriar e refundar um sentido para a vida em nosso mundo atual. Trata-se, assim, de uma viagem através do niilismo de nosso tempo, do utilitarismo de nossas palavras, buscando um porto, um passo além do nada, uma voz mais nova e mais viva.

Ilustração de Luise Weiss para "Rumo à Vertigem": a inevitável presença do mar

Ilustração de Luise Weiss para “Rumo à Vertigem”

O título – A imagem da vertigem se liga diretamente à ideia do naufrágio. Rumar à vertigem é rumar à linguagem, pois, para mim, escrever é mais que um verbo, é uma vertigem. E rumar à linguagem é buscar o abismo de silêncio de onde toda palavra emerge, é buscar o naufrágio.

 

Viagem – Trata-se de uma viagem através da linguagem, em busca da linguagem. Viagem que se liga intrinsecamente à figura do naufrágio. Pois, o naufrágio é neste caso não só inevitável, mas também desejado. Como diz Clarice Lispector: “A linguagem é meu esforço humano. Por destino tenho de ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível. O indizível só poderá me ser dado através do fracasso da minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu”.

 

Finitude – Não se descobre um sentido para a vida sem aceitar que a morte faz parte da vida, sem aceitar que morte é, em verdade, “a metade mais larga da vida”, com dizia Rilke. Toda poesia se relaciona com a finitude, com o fato de sermos seres não só efêmeros, mas seres que têm consciência de serem efêmeros. Na viagem do livro, também se busca aprender a habitar a vida, com sua violenta e triste beleza, aprender a sorver a limpidez do efêmero, aprender a difícil dicção da palavra “morte”.

 

A forma – São onze cantos, que somados ao prólogo e ao epílogo perfazem um total de treze capítulos, indicando o número aziago que rege a viagem. Tal estrutura, contudo, não foi pensada antes de escrever o livro, mas, sim, emergiu durante o processo de escrita. Ou seja, foi imposta pela própria viagem do livro. Escrever é, muitas vezes, menos um fazer, que um deixar ser de um texto, assim como a poesia é, por vezes, menos um dizer que uma escuta do silêncio.

Conheça outras obras de Wassily Chuck

Sugestões de leitura para o Cancioneiro, de Petrarca (quinta parte)

O Cancioneiro, de Petrarca, é um livro do século XIV. Apesar de ser considerado o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente, a distância que nos separa deste clássico – que a Ateliê lançou com a tradução de José Clemente Pozenato e ilustrações de Enio Squeff em 2015 – muita vezes dificulta sua leitura.

Foi pensando nisso que nesta semana publicamos a última parte do texto Sugestões para um leitor de hoje que queira ler o “Cancioneiro” de Petrarca, escrito pelo poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro Armindo Trevisan.

cancioneiro

Sexta Sugestão         

Talvez o leitor estranhe que Petrarca tanto enalteça seu ídolo, uma Laura

que possivelmente não poderia ser estrela de um filme. Qualquer tentativa de desmitizá-la a banalizaria. Laura jamais poderá descer das alturas rarefeitas da imaginação. Será sempre uma mulher vislumbrada. Mas o que o poeta escreveu sobre ela, a propósito dela, e sobretudo, o que conseguiu extrair do poço sem fundo de suas próprias experiências e fantasias, não foram, nem possivelmente nunca o serão, exploradas como ele as explorou. Inclusive porque a linguagem de Petrarca é   – ela própria, em si – uma fabulosa criação pessoal:

Se amor não é, qual é meu sentimento?petrarca 5

Mas se ele é amor, por Deus, que coisa é e qual?

Se boa, de onde lhe vem a ação mortal?

Se má, por que é tão doce seu tormento? (p. 239).

 

 

 

 

A atualidade de Petrarca consiste, afinal, no seguinte paradoxo: ele anacroniza os poetas contemporâneos! Ao lermos seu Cancioneiro, percebemos o quanto os poetas modernos e contemporâneos beberam em suas fontes, o quanto lhe devem em pedágio.

Em vista disso, leitor, não se preocupe com o tom aparentemente monocórdico de seus versos. A monocordia não é dele, é dos poetas que vieram após ele. É dos poetas que o assimilaram.

A leitura do Cancioneiro possui o mérito de revelar o quanto na literatura moderna e contemporânea já estava in nuce em Petrarca. Porque o que Petrarca descobriu não foi um tipo de poesia, mas a própria poesia moderna, como ela se expandiu, como – a partir de Dante – tomou nova direção: a de Petrarca.

Petrarca descobriu a inquietude contemporânea, o desassossego, e com ele os inumeráveis caminhos que daí partem, e vão desaguar, inclusive… em Fernando Pessoa!

Tudo o que se relaciona com o eu do poeta, com o homem que subjaz ao criador, está em Petrarca.

O autor do Cancioneiro só não descobriu um elemento essencial que define nosso mundo: o eu ampliado de Baudelaire ou de Nietzsche, bem como o “eu” inflado e não totalmente perscrutado das massas, das multidões. Porque a realidade é que Petrarca foi um Robinson Crusoé de si. Faltou-lhe imaginar o nós, verdadeiro e ilusório que resultou da explosão atômica do eu, e nos levou à noosfera alucinada e alucinante de nossa realidade contemporânea.

Eis porque a poesia moderna é necessária, possui seu universo peculiar, e sob certos aspectos se afastou de Petrarca, e nada deve a ele.

Ela veio completar Petrarca, mas não aprisioná-lo em fórmulas.

A poesia, portanto, permanece viva e criativa, e inclusive continua a inspirar-se no mundo do grande inspirador do autor do Cancioneiro, Agostinho de Hipona que escreveu:

Grande abismo é o homem, Senhor! Contais os fios de seus cabelos (…) porém seus cabelos são muito mais fáceis de contar que os afetos e movimentos de seu coração.[1]

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[1] Cit. in: Peter Brown. Santo Agostinho, uma Biografia. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Editora Record, 2005. p . 209.

Sugestões de leitura para o Cancioneiro, de Petrarca (quarta parte)

O Cancioneiro, de Petrarca, é um livro do século XIV. Apesar de ser considerado o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente, a distância que nos separa deste clássico – que a Ateliê lançou com a tradução de José Clemente Pozenato e ilustrações de Enio Squeff em 2015 – muita vezes dificulta sua leitura.

Foi pensando nisso que nesta semana damos continuidade à publicação do texto Sugestões para um leitor de hoje que queira ler o “Cancioneiro” de Petrarca, escrito pelo poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro Armindo Trevisan.

 

cancioneiro

Quinta Sugestão

 

Esqueça o aspecto “amante” de Petrarca.  Ele é, além do mais, um ciumento incomparável. Reserva Laura, a física, para si, comprazendo-se em exibir a outra Laura, a meta-física, a que está além do corpo, a imaginária, para o leitor. Que este a imagine quanto quiser – e puder! O poeta não se importa de desenhá-la ou pintá-la verbalmente:

 

Verdes panos, ou de rubro tingidos

                        não vestiram té agora,

                        nem trança de ouro mulher envolveu

tão bela como essa que me espolia

                        do juízo, e do rumo da liberdade

consigo me arrasta, pois não sustenho

nem jugo menos grave. (p. 81).

 

Apegue-se, portanto, ao Poeta! Ele é mais interessante que a própria mulher que celebra, tanto assim que poucos retratos “imaginários” dela ficaram, e no entanto, são inúmeras, e sempre atuais, as edições do Cancioneiro. Repare como Petrarca possui finura:

petrarca 2

pela esperança que é de amor a filha,

e em tua acerba vida te conserva,

da intempérie livra esta alfombra;

 

veremos depois juntos, maravilha,

sentar-se a mulher nossa sobre a erva

e fazer dos braços sua própria sombra.(p. 89).

 

De tão suspiroso que o poeta é, corre o risco de saturar-nos! Mas como supor saturação quando o ouvimos confessar com humildade:

 

Eu sou daqueles que o choro renova;

            e é bom que sem engano

as lágrimas que emano

mostrem nos olhos a minha alma inteira:

como é minha bandeira

falar dos olhos dela

(não há coisa mais bela

ou algo que me toque tão lá dentro),

corro muito e reentro

lá onde a dor mais fundo me enregela,

e com o coração punem-se as luzes

que na estrada de Amor me foram cruzes. (p., 95).

 

Não esqueça, leitor, que Petrarca está sempre consciente de que seu corpo é uma sarça ardente!  Às vezes – e isso é uma heresia que me permito – chego a pensar que ele transferia para Laura seus impulsos sexuais, tendo em seus braços outra mulher. Esta, porém, super-tangível. A outra seria a que ele verdadeiramente abraçava? Não sejamos insolentes. A tanto não me arrisco. Leiamos apenas o que ele escreve:

 

Amor, tu que consegues por encantopetrarca3

            Uma só alma em dois corpos habitar,

o que faz nela ser tão peculiar

o querer menos, quando a quero tanto? (p. 109).

 

 

Acrescentemos, um tanto abusivamente, que talvez Petrarca estivesse a evocar a frase do Mestre: “Serão dois numa só carne”!

Reitero-lhe, leitor: o poeta, na sua condição de amante, poderá “decepcionar” o público de hoje, que poderia exigir-lhe mais atenção ao tato. Na sua condição, porém, de poeta Petrarca nunca decepciona. O que vemos sobrenadar às suas imagens e metáforas são tábuas de naufrágio, mediante as quais o poeta sempre se salva. É isso que o imortalizou, mesmo quando se queixa de que sua amada Laura não dava a mínima atenção à sua poesia. Mulheres amadas sempre existiram, e existirão, mas poetas capazes de tornar uma única mulher inesquecível são raros. Eis por que o próprio Petrarca comenta:

 

Oh dor, por que devo ir

fora do rumo a magoar a quem amo?

Deixa que eu vá aonde o prazer me acalanta.

Já de vós não reclamo,

olhos serenos sobre o mortal fluir

nem dela que de tal modo me encanta.

            (…)

mas cada vez que para mim olhais

de vós mesmos ficais sabendo mais. (p. 143).

 

Leitor, procure descobrir a poesia desse gênio que amou a natureza tanto quanto a mulher, e por vezes, a despiu imaginativamente com tanta volúpia que muitos, ainda hoje, a despeito de nossa decantada permissividade, não seriam capazes de fazê-lo:

 

E digo que há um instante,

                        qual eu não a tinha visto até agora,

se me despiu; e isso deixou gelado

o coração na hora.

E o será sempre, indo nós de braço dado.

 

Mesmo com todo o medo e tremor meu,

já que ela me dera tanta firmeza,

a abracei com fineza,

para mais aprender dos olhos seus:

e ela que removera já o seu véu,      

me disse: Amigo, agora tens certeza

de toda a minha beleza;

pede quanto convier aos anos teus.

            Senhora, eu disse, há muito tempo meus

Afetos pus em vós, todo inflamado.

Por isso, neste estado

Querer ou não querer está suposto.-

Com voz então de timbre mavioso

respondeu, e com um rosto

que o meu temor tornou esperançoso: petrarca 4

raro do mundo foi na grande turba

quem ouvindo falar do meu valor

não sentisse fervor

mesmo que de somente uma centelha:

e a adversária minha que o bem perturba

tudo apaga: lá vive-se ao sabor

e reina outro senhor

que uma vida tranqüila aconselha. (p.207).

 

Através de seu Cancioneiro, Petrarca permanece atual, necessário a um mundo que pensa vivenciar o amor à revelia da imaginação. O poeta dá-nos lições concretas de imaginação corporal. Um mundo – como o nosso – que aprendeu a desnudar as mulheres, ganharia muito aprendendo com Petrarca a desnudá-las na presença de suas almas.

Dizem os estudiosos que os elementos naturais, os lamentos dos pássaros, a brisa do verão, o murmúrio das águas são – “homólogos dos suspiros do poeta, do seu rio de lágrimas, e das palavras de Laura. Essa interação do sentimento e da natureza não se limita ao registro da tristeza. O soneto 192 repousa, ao contrário, na relação natureza/alegria, do mesmo modo que na quarta estrofe da canção: Chiare fresche e dolci acque” se descreve uma chuva de flores amorosas”[1]:

 

Dos belos ramos caía

tão doce na memória,

uma chuva de flor em seu regaço;

e sentada eu a via,

humilde em tanta glória,

coberta já da auréola qual um laço.

uma flor no seu braço

outra na loura trança,

eram ouro e opala

que estavam a adorná-la;

uma pousava em terra, uma outra em dança

no ar, vagamente flor,

parecia dizer:Aqui reina Amor.

 

Em tais momentos, o Poeta do Cancioneiro deixa de ser renascentista, fundador do lirismo ocidental, e se torna simplesmente um Poeta Vivo, tão vivo como a primeira criança que haja, por acaso, nascido na primeira hora deste dia!

 

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[1] Christian Bec: Fundamentos de Literatura Italiana.Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1984. p..86).

Sugestões de leitura para o Cancioneiro, de Petrarca (terceira parte)

O Cancioneiro, de Petrarca, é um livro do século XIV. Apesar de ser considerado o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente, a distância que nos separa deste clássico – que a Ateliê lançou com a tradução de José Clemente Pozenato e ilustrações de Enio Squeff em 2015 – muita vezes dificulta sua leitura.

Foi pensando nisso que nesta semana damos continuidade à publicação do texto Sugestões para um leitor de hoje que queira ler o “Cancioneiro” de Petrarca, escrito pelo poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro Armindo Trevisan.

 

cancioneiro

Quarta Sugestão.

Abra, enfim, o Cancioneiro. Sem prevenção, nem preconceitos. “Prepare seu coração” – dizia Geraldo Vandré – para as coisas que Petrarca lhe vai dizer. A primeira delas já no primeiro soneto da coletânea. O poeta avisa-lhe que vai suspirar muito:

 

Vós que escutais em rima esparsa o coro

            dos suspiros com que eu meu ser nutria,

            naquele erro em que jovem me perdia,

quando outro eu era do que sou, e coro:

 

no vário estilo em que razôo e choro

entre esperanças vãs, vã agonia,

onde haja quem do amor provou a via,

se não o seu perdão, piedade imploro.         (p. 39).

 

Amigo, você está percebendo que não é fácil penetrar o universo de Petrarca! Ele não é um poeta de aeroporto, de leitura amena e divertida, embora o título: Cancioneiro insinue tal ilusão. Petrarca é um poeta culto. Console-se com Camões, que se inspirou em Petrarca e, até parafraseou alguns de seus sonetos. Não estranhe não serem frequentes no Cancioneiro referências a episódios exteriores. Tudo ali é relacionado com uma viagem ao fundo da noite, isto é, ao fundo do coração. Ao longo desse percurso, o poeta limita-se a abrir uma janela aqui – sobre sua autobiografia – outra acolá – sobre a história da época – como no soneto III no qual diz:

 

Era o dia em que o sol escurecia

            pesaroso da morte do Senhor,

            quando sem dar por mim, sem nem supor,

            teu belo olhar, Senhora, me prendia.

 

O poeta reporta-se ao olhar do primeiro encontro com Laura, sua musa até ao fim da vida dela, em 1348, e da vida do próprio poeta. Você poderá perguntar-me: “Quem era essa moça?” Pergunta complexa, difícil de ser satisfeita. O poeta tinha encontrado essa jovem numa igreja de Avignon – onde o Papa residia então – numa Sexta-Feira Santa, 06 de abril de 1326. Até hoje a crítica não sabe quem era essa criatura fascinante! Sabe-se apenas algo a seu respeito: que era loura, e tinha olhos pretos, e que morreu vítima de uma terrível epidemia de peste que assolou a Europa pouco depois. Dirá você: “Não deixou o poeta nada que a pudesse identificar?” Respondo: quase nada. Não obstante, sabemos que o poeta teve uma ligação com uma avinhonesa, da qual resultou um filho natural, Giovanni, nascido em 1337, e uma filha, de nome Francisca, nascida em 1343, cinco antes da morte da Musa. Sugiro-lhe não se interessar muito em saber mais. No presente caso, isso seria quase “voyeurismo”. O poeta não quis que ninguém a visse, mas aceitou, envaidecido, que seus leitores a imaginassem. Trata-se, portanto, de um ser de imaginação. Ele a descreveu sem jamais cansar-se, fornecendo-nos os predicados físicos que lhe atribuía, sempre predicados sensoriais acondicionados num papel celofane espiritualizante. Elogia na sua musa a beleza de seu nome (“o doce som ouvido”), de seus cabelos louros, sobretudo de seus olhos, tão límpidos e fulgurantes que os comparou ao sol:

 

Assim Aquela, sol mais que mulher,

            ao me lançar os raios do olhar,

 

            cria de amor palavras e pensar.(p. 47).

 

Em determinados versos remove um pouco a cortina:

 

petrarca 1

O que eu mais desejava foi roubado;

            do véu sou tão refém,

            que em fogo e gelo morto me mantém

            quando a luz dos teus olhos me escondeu.(p. 49).

 

 

Persuada-se de uma realidade: o erotismo de Petrarca, por mais ubíquo que seja, é sempre subliminal. Nunca o expõe à vista do leitor. As pistas que o poeta dá são evasivas, e tendem a transformar-se em alusões. O mais a que ele chega é identificá-la com Dafne que Apolo perseguia, mas que ao tocá-la, viu-a transformar-se em árvore:

 

Pudesse eu tê-la ao despontar do sol,

            e ninguém nos visse senão estrelas

            uma só noite, e nunca viesse a aurora;

            e não se transformasse em verde selva

            a fugir-me dos braços, como o dia

            em que Apolo a seguia aqui na terra. (p. 61).

Sem dúvida, o leitor pode forçar as coisas, e ir mais adiante, até porque Petrarca se permite sugestões tangíveis como a seguinte:

 

 

 

 

 

 

E persegui tão longe o meu desejo

                        que um dia, caçando, como eu fazia,

                        pasmei: aquela fera bela e crua

em uma fonte, nua

estava , quando o sol mais forte ardia.

Eu, que essa vista nunca mais apago,

fiquei a olhá-la, e teve ela vergonha;

para então se vingar ou por disfarce

com a mão jogou água em minha face. (p. 69).

 

Qualquer leitor percebe que essa espécie de jogos de amor escondem algo mais sério. Não vá adiante, caro amigo! Certifique-se que já estamos na página 71 do Cancioneiro, e que o poeta, em momento algum, deixou de celebrar sua mulher amada, nem deixará, ou seja, uma mulher em carne e osso, terrivelmente corporal, porém metamorfoseada numa surpreendente “mulher-fantasma”, numa mulher inapreensível. Diferentemente da Beatriz de Dante, a Laura de Petrarca não é jamais convertida em símbolo. Continua mulher, continua fêmea, porém com a labilidade de um peixe que resvala das mãos do pescador…

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Sugestões de leitura para o Cancioneiro, de Petrarca (segunda parte)

O Cancioneiro, de Petrarca, é um livro do século XIV. Apesar de ser considerado o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente, a distância que nos separa deste clássico – que a Ateliê lançou com a tradução de José Clemente Pozenato e ilustrações de Enio Squeff em 2015 – muita vezes dificulta sua leitura.

Foi pensando nisso que nesta semana damos continuidade à publicação do texto Sugestões para um leitor de hoje que queira ler o “Cancioneiro” de Petrarca, escrito pelo poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro Armindo Trevisan.

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Terceira Sugestão.

Situe-se, mesmo que precariamente, em relação ao espaço e ao tempo do Cancioneiro. Imagine-se na Itália dividida em principados e ducados entre 1304 e 1374. Se você julgar complicado transportar-se a tempos tão recuados, faça de conta que está em Florença, onde nasceram os pais do poeta. Depois viaje até Arezzo onde o poeta nasceu, cidade mundialmente célebre pelos afrescos sobre “A Legenda da Santa Cruz”, com que Piero della Francesca adornou a capela-mor da Basílica de São Francisco (Piero nasceu 36 anos após a morte do poeta). Transfira-se para esse período. Após tal tomada de posição, esqueça espaço e tempo, e faça um esforço de reimplantação da Natureza, não propriamente no espaço territorial da Itália, mas no contexto dos versos do poeta. No tempo dele não havia energia elétrica, nem transportes rodoviários e ferroviários. As cidades já eram populosas quando chegavam a 100.000 habitantes. Digo-lhe isso porque as pessoas de então nem tinham sequer descoberto o gosto pelas paisagens. A luta pela vida, o esforço para extrair do chão a alimentação, era tão áspero, que não sobrava tempo para contemplar o entorno. Os homens dessa época olhavam unicamente para o céu, para pedir a Deus bom sol e chuvas moderadas que favorecessem as colheitas. Não esqueça que Petrarca foi o primeiro homem a escalar um monte – o Ventoux – porque desejava gozar de uma verdadeira paisagem. Um autor francês chamou-o, já em 1914,“o primeiro turista, o primeiro alpinista dos tempos modernos”.[1] Depois de você estar bem posicionado em termos de espaço e tempo, prepare-se para uma surpresa: o primeiro poema do Cancioneiro não é um olhar para fora, é um olhar para dentro. É um olhar moderno. Até então, o universo subjetivo, que hoje nos obsessiona, e que acabou por favorecer-nos com um Comandante Cousteau da psique humana, Sigmund Freud, ainda não existia. Um dos primeiros exploradores da subjetividade foi o próprio Petrarca, considerado criador do lirismo ocidental, pioneiro da prospecção das jazidas até certo ponto insondáveis de nosso subconsciente e inconsciente.

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[1] Henri Hauvette. Littérature Italienne. Troisième édition. Paris, Librairie Armand Colin, 1914. p.128.

Sugestões de leitura para o Cancioneiro, de Petrarca (primeira parte)

O Cancioneiro, de Petrarca, é um livro do século XIV. Apesar de ser considerado o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente, a distância que nos separa deste clássico – que a Ateliê lançou com a tradução de José Clemente Pozenato e ilustrações de Enio Squeff em 2015 – muita vezes dificulta sua leitura.

Foi pensando nisso que, a partir de hoje e nas próximas quatro semanas, vamos publicar aqui no Blog da Ateliê algumas sugestões de como tornar a leitura do Cancioneiro mais aprazível e próxima do leitor do século XXI. O texto Sugestões para um leitor de hoje que queira ler o “Cancioneiro” de Petrarca é do  poeta, crítico de arte e ensaísta brasileiro Armindo Trevisan.

“Sempre me interessei pela poesia de Petrarca. Não sou um entendido nela, mas um leitor apaixonado por ela. Escrevi este texto inspirado na  excelência da tradução do Pozenato, visto que que um leitor capaz de degustar o original italiano,  não precisa recorrer à versão esplêndida que o Pozenato realizou para a língua portuguesa. Meu texto é uma homenagem afetuosa ao Pozenato, para  agradecer-lhe o serviço que prestou à Cultura Brasileira. Não é admirável que um autor – do gabarito do Pozenato – dedique cinco anos a uma tarefa de tal envergadura?”, pergunta o autor, antes de iniciar suas sugestões:

cancioneiro

Capa da edição do Cancioneiro, que concorreu ao Prêmio Jabuti de tradução

Primeira Sugestão:

Siga ao pé da letra o conselho de Roland Barthes: deleite-se, primeiramente, com o prazer do texto. Na medida do possível – e do razoável – esqueça o que lhe ensinaram sobre os Clássicos, sobre sua perenidade, sobre o que teriam sido, ou poderiam ter sido. Ponha entre parênteses as elucubrações de historiadores da literatura e críticos. Seja você mesmo: saboreie o texto, o texto nu, a poesia de Petrarca na sua esplendorosa e erótica nudez de mulher que saiu do banho. Afaste de si as sutilezas de teóricos que tendem a considerar você um pobre diabo! Tenha auto-estima; diga-lhes que você é capaz de ler um grande clássico. mesmo que ele seja um gigante, e você um pigmeu.

 

 

Segunda Sugestão:

Agradeça ao ficcionista e poeta José Clemente Pozenato por ter traduzido essa obra-prima da literatura italiana, a maior de todas depois da Divina Comédia – ou melhor, ao lado dela. Agradeça-lhe o imenso serviço que prestou à literatura de língua portuguesa. Lembre-se de que, pela primeira vez em nosso idioma, alguém pode ler o Cancioneiro como ele é – ou como Petrarca teria apreciado que o lessem, se falasse a nossa língua. Antes de o Pozenato verter seus versos para nossos ouvidos – sim, principalmente para nossos ouvidos, uma vez que, no tempo de Petrarca, Gutenberg não havia inventado a imprensa – existia um hábito entre os medievais que praticamente esquecemos: a leitura em voz alta. Atente nisto: a tradução de Pozenato não só é uma recriação verbal de alta excelência, mas principalmente, constitui um esforço de invenção acústica a partir de uma criação melódica insuperável. Pozenato conseguiu quase sempre, diria gentilmente: sempre,  transpô-la para o português preservando-lhe a melodia de nascença. Cá e lá, o tradutor foi obrigado a recorrer a algumas jóias guardadas nos baús de cedro de nossos dicionários antigos, como o substantivo “louçania” e o adjetivo “loução”. Como manter em toda a versão, sem quebra de tensão e agrado, o tilintar saboroso das rimas? Lembre-se que boa parte do gosto de uma iguaria provém de seus condimentos. Na primeira vez que provamos determinado prato, podemos não apreciá-lo totalmente. Com o tempo, verificamos que seu sabor tornou-se para nós mais delicioso.

Nesta altura, não considero inoportuno referir a você um episódio pessoal: em 1960, tentei pela primeira vez ler o Cancioneiro na sua versão original. Vi logo que não possuía vocabulário suficiente para tal aventura, tampouco argúcia e finura para apreender os requebros lexicais e sintáticos de seu autor. Anos depois, aventurei-me novamente a ler o Poeta. Fiquei sempre com a sensação de o ter lido pela metade. Com a tradução do Pozenato, pude realizar uma leitura cuidadosamente bilíngue. Só então avaliei, com a devida justiça, o trabalho do tradutor! Ele será lembrado, em nossa terra, pelo apreciadores da grande literatura!

Retrospectiva 2015: o que ler agora?

Por: Renata de Albuquerque

“Finalmente!”. Essa é a sensação da maior parte das pessoas quando chega o final do ano. Afinal, esse é um momento em que (quase) todo mundo faz uma pausa no trabalho e nos estudos, para recuperar as energias para o ano que vai começar.

E, para quem gosta de ler, a pergunta que fica é: o que ler agora? Durante o ano todo priorizamos as leituras “necessárias” e deixamos as “prazerosas” para depois. Ou são os livros técnicos, ou são os didáticos e paradidáticos que acabam tomando o espaço de poesia, romance, contos e biografias.

Então, para ajudar na escolha das “leituras de férias”, a Ateliê faz uma Retrospectiva dos seus principais lançamentos do ano:

angu de sangue bxAngu de Sangue

Marcelino Freire

Estreia de Marcelino Freire como contista, neste ano o livro ganhou uma nova edição, em comemoração aos seus 15 anos de lançamento.

 

 

 

Antologia da Poesia Erotica BrasileiraAntologia da Poesia Erótica Brasileira

Elaine Robert Moraes

Um dos maiores sucessos do ano, foi lançado durante a Flip e traz mais de 350 poemas escritos nos últimos quatro séculos por autores brasileiros.

 

 

 

kalevala capaKalevala – Poema Primeiro

Elias Lönnrot; tradução  Álvaro Faleiros e José Bizerril

Pela primeira vez esta parte do poema épico finlandês foi traduzida para o português. A edição estava esgotada e, em 2015, a Ateliê reeditou o volume.

 

 

 

capa mensagemMensagem

Fernando Pessoa

Esta edição de Mensagem traz ao leitor brasileiro, pela primeira vez, o texto rigorosamente estabelecido, segundo critérios da crítica textual, e atualizado, segundo o acordo ortográfico de 1990. A apresentação é de António Apolinário Lourenço.

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia É Criação: Uma Antologia

José de Almada Negreiros; Organização Fernando Cabral Martins e Sílvia Laureano Costa

Antologia que reúne poemas, crônicas, contos, diferentes prosas e até desenhos do multiartista português.

 

 

 

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom PantagruelO Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel

François Rabelais; tradução Élide Valarini Oliver

Nesta tradução inédita, Élide Valarini Oliver desvenda dois trechos até então obscuros da obra clássica.

 

 

 


decioblogTerceiro Tempo

Décio Pignatari

O futebol visto pelos olhos do poeta concretista e a partir dos pés de craques como Ademir da Guia, Rivellino, Nilton Santos, Garrincha e Pelé.

 

 

 

 

voz que cantaA Voz que canta na Voz que Fala – Poética e Política na Trajetória de Gilberto Gil

Pedro Henrique Varoni de Carvalho

O autor trafega pela análise do discurso e aponta como Gilberto Gil trouxe o seu discurso poético-tropicalista ao Ministério da Cultura.

 

Ateliê fecha 2015 com poesia

Por Renata de Albuquerque

2015 foi um ano cheio de dificuldades: econômicas, políticas, sociais. Mas, como disse Nietzsche, “nós temos a arte para não sucumbirmos junto à verdade”. Por isso, a Ateliê resolveu apostar na poesia para celebrar o final do ano e presenteia seus leitores com três obras que, se não são feitas apenas de versos, tecem-se de poética, criam imagens cheias de significações transcendentes e fazem da linguagem uma ferramenta lúdica de fruição:

 

Desconhecer, Ricardo Lima

desconhecer

Obra contém 40 poemas, escritos ao longo de três anos – todos sem título, sem tema definido e em letras minúsculas. Isso porque, para o autor, o mais importante é a unidade formada por todos eles. “No caso dos meus poemas penso que títulos seriam limitadores, pois iriam sugerir uma leitura, direcionar a interpretação. Além disso, como os poemas são sempre curtos, a inexistência de títulos possibilita uma leitura mais ininterrupta do livro, como se fosse um grande poema”.

Poema da página 11 de Desconhecer

nasci para cultivar

mundo

que não verei

 

neto do meu filho

cidadezinha asiática

sombra de algumas sementes

 

nasci para cultivar uma encosta

com floresta.

 

 

 

Girassol Voltado para a Terra, Renato Tardivo

grassol

A intenção de Tardivo era a de que seu terceiro livro de ficção fosse um romance. No entanto, ele explica, frases curtas, enredos concisos, mistérios cotidianos e existenciais foram surgindo.Depois de entrar nas redes sociais, diz, passou a se interessar pelo exercício da comunicação imediata e concisa.“Há um ou outro poema também, mas, em que se pese a transgressão de gênero, considero que se trata de um livro escrito em prosa”, define.

Metamorfose

Ela arrancou o texto à unha, enrodilhou-se em suas

frases. Envergonhadas, letras escorriam – como lágrimas –

das pernas.

 

Porta-retratos, Marise Hansen

portaretrato

Com apresentação de Ricardo Aleixo e quarta-capa escrita por Arnaldo Antunes, Porta-retratos é a estreia de Marise Hansen na poesia, que compila poemas escritos entre 2011 e 2014. Os temas variam: a lua, a solidão, o amor, a espera, o tempo, o mar, os mitos, mas costumam, em comum, estabelecer estreito vínculo com imagens, vistas sob novas perspectivas. “Muitos de meus poemas surgem de imagens, de momentos, de flagrantes. Gosto do ato de enquadrar, de encontrar ângulos, expressões de rosto, paisagens, contrastes e luzes”, esclarece a autora.

Peso Leve

Pesa

Transitar entre o invisível

Tanto quanto pesa

Esta poesia substantiva,

Tangível.

 

 

Esta poesia substantiva

De coisas e verbos

No infinitivo

Em que o tangível

É tão – e só –

Infinito.

 

Fetichismos Visuais: as contradições da comunicação na metrópole contemporânea

Por: Renata de Albuquerque

Em Fetichismos Visuais– Corpos Erópticos e Metrópole Comunicacional, o antropólogo italiano  Massimo Canevacci lança um olhar sobre a experiência pós-moderna da cidade polifônica e suas contradições, lançando mão de um novo conceito: o metafetichismo. A seguir, Canevacci fala sobre o livro, que acaba de ser reeditado pela Ateliê Editorial:

O antropólogo italiano Massimo Canevacci

O antropólogo italiano Massimo Canevacci

Você optou por se distanciar das definições de Marx e Freud sobre fetichismo. Como define esse novo fetichismo que investiga no livro, à luz do mundo globalizado, da sociedade da informação e dos excessos em que vivemos?

Massimo Canevacci: Marx e Freud utilizam o conceito de fetichismo da mesma maneira colonial dos primeiros portugueses, que encontraram na África rituais sagrados que não entenderam e que classificaram como animistas, bárbaros, mágicos, primitivos. Feitiço é palavra que deriva da latim, facticius; isto é fabricado, coisa material sem espiritualidade. Por isso, animismo significa uma alma menor, uma quase-alma. Infelizmente, para Marx, fetichismo é parte da alienação; e, para Freud, da perversão (só masculina). Assim, eles continuam a utilizar esta palavra no sentido colonial e discriminativo, que foi difundido pelo pesquisador francês de Brosses. No sentido comum atual, fetichismo continua a ser estigmatizado como uma aura suja que circunda uma atitude ou define um site pornô. Para mim, o fetichismo visual – e ainda mais o digital – manifestam uma ruptura em relação a este sentidos clássicos ou populares. O conceito de fetichismo esconde um enigma que eu queria tentar de desvelar e que não é possível elaborar numa maneira tradicional.  Nesse sentido “cotidiano”, o fetichismo é aplicado à moda, publicidade, cinema, videoclipes, design, arquitetura e, claramente, no youporn. Mas esta palavra tornou-se vazia, porque não consegue penetrar o enigma daquele que se continua a chamar fetiche.

primeira capafetichismos_visuais

O que é o “além do metafetichismo”? Qual a metáfora possível?

MC: A minha tentativa vai na direção de liberar tendencialmente o fetichismo das incrustações coloniais e modernas que continuam a ser divulgadas na contemporaneidade. Uma tentativa de separar fetichismo da alienação   ou reificação. Observar a potencialidade  de um conceito que vai além do dualismo objeto/sujeito, além do pensamento dicotômico em geral e afirmar uma antropologia não-antropocêntrica. Neste sentido, uma coisa, um objeto, uma mercadoria  ou – na minha palavra que unifica tudo isso,  facticidade – é possível perceber um lado vivente, de entidade, que tem uma sua biografia e sempre mais também uma biologia.  O meta-fetichismo tenta explorar o além do domínio que em parte está ainda incorporado no tradicional fetiche e verificar  a potencialidade de libertação das coisas de não ser só útil. O meta-fetichismo é a metáfora do  desejo difundido da meta-morfoses: mudar identidades, prazeres, formas, “corpos”, vidas…

Como o fetichismo que você define se coloca diante da nova realidade do voyeurismo que passou a existir a partir do advento da internet (caso, por exemplo, dos reality shows, que fazem tanto sucesso)?

MC: Voyerismo e narcisismo são duas palavras-chaves que foram inventadas antes da revolução digital ou da pessoa “normal” que vira famosa – mais que no sentido de Warhol (dos quinze minutos de fama) – por um reality show. Voyerismo e narcisismo cruzam a tela do computador, skin and screen, carne e pixel, e fundamentalmente o inconsciente não é mais uma articulação  dentro o “eu”. Ele se estende fora do sujeito e vai incorporando uma dilatação onde orgânico e inorgânico se misturam sempre mais. Isto é, sujeito e objeito… ou tecno-digital e tecno-cultura. Assim fetichismo por um lado vira uma das possível perversão normalizada apresentada da comunicação atual, entre dezenas e de cenas de outras; por outro lado, para mim, vira só um slogan ou melhor um símbolo vazio sem sentido. Este voyerismo adéqua a sua potência ao nível mais “normal” (desculpe a palavra) que cruza as antigas divisões de classes e vira a potencia da banalidade que se autorrepresenta. E agora todo o  mundo se pode autorrepresentar. Esse é o desafio da política e da antropologia comunicacional.

Andy Warhol: "todos têm direito a 15 minutos de fama"

Andy Warhol: “todos têm direito a 15 minutos de fama”

Como se coloca, dentro de sua hipótese, a questão da visão psicanalítica do “constituir-se pelo olhar do outro” versus o “reificar-se no olhar do outro”? Há alguma síntese possível que possa acolher o conceito de metafetichismo?

MC:  A clássica dialógica, seja psicanalítica que antropológica ou narrativa,  sempre afirmou que o indivíduo é tal enquanto existe o olhar do outro. É o outro que constrói a minha identidade. Mas alguns autores (me refiro a Adorno) afirmam que é impossível anular cada elemento reificado; que existe uma relação complexa entre reificação e objetivação. Quero dizer que não é possível purificar cada objeto de fragmentos reificados. Para amplificar o discurso, precisamos dizer que entra em cena também a petrificação, ou seja: como o mito é ainda presente na cultura cotidiana em cada experiência metropolitana ou indígena.   A objetivação é a natureza mediada pela cultura; a petrificação é a ratio mediada pela mitologia; a reificação é o objeto mediado pela indústria. Uma síntese é impossível: a síntese e a dialética estão mortas. É possível só aceitar o desafio de sincretizar os olhares: o olhar nunca é puro ou autêntico, mas felizmente é sempre híbrido e cheio de sintomas que manifestam a impuridade reprimida pelo domínio não somente ocidental.

Como se constitui a relação entre coisa, criatura e cultura a partir do conceito de metafetichismo?

MC: Esta composição – conceito para mim determinante em direção a uma nova narrativa  antropológica – deseja misturar, cruzar e atravessar  artes, performances, contos, vídeos, “digital storytellers” onde o meta-fetichismo elabora nas pragmáticas indisciplinadas modos outros de enfrentar natureza/cultura, criatura/coisa, mito/razão. Eu acho que muitos artistas em sentidos expandidos (incluindo cientistas) ou rituais em parte consumados (carnaval ou mega-concertos) tentam elaborar  este meta-fetichismo além do colonialismo, da reificação, da perversão ou do sentido “comum”. Aqui nasce a aliança e a dança entre meta-fetichismo e meta-morfoses.

Ficções Psicanalíticas

Renato Tardivo*

psi nova temporada

Recentemente, estreou a segunda temporada de Psi, série com texto e direção geral do psicanalista italiano radicado no Brasil, Contardo Calligaris. Embora não se trate de uma série de consultório, como In Treatment (adaptada no Brasil com o título Sessão de Terapia e direção de Selton Mello), a linguagem privilegiada é a psicanalítica.

Os episódios, mais ou menos independentes entre si,se passam em São Paulo e giram em torno de Carlo Antonini (em ótima interpretação de Emílio de Mello), espécie de alter ego do próprio Calligaris. Seu ofício de psicanalista de consultório é abordado, conquanto não incida ali o foco narrativo. Psi reúne situações de clínica extensa, isto é, eventos para além do consultório aos quais a psicanálise tem algo a dizer.

Emílio de Mello interpreta Carlo Antonini

Emílio de Mello interpreta Carlo Antonini

Como em In Treatment, um dos pontos positivos é abordar a humanidade do psicanalista. A tônica da primeira temporada é mais ou menos a seguinte: Antonini demonstra desinteresse pelas histórias (banais) dos pacientes que o procuram, e não titubeia em encaminhá-los para Valentina (Cláudia Ohana), sua colega de ofício, ex-aluna e ex-amante – Valente, como ele a chama, é sua principal interlocutora. Enquanto isso, no outro extremo, o psicanalista se atrai por histórias (surpreendentes) de não pacientes.

Claro está, o público-alvo não são psicanalistas ou psicoterapeutas. Nesse sentido, vale ressaltar que se trata de uma trama de ficção: não há preocupação com a verossimilhança nas histórias. Essa ressalva, contudo, não isenta parte da primeira temporada (sobretudo a primeira metade) do seguinte problema: Antonini, que vê o mundo pela lente da psicanálise, se confunde com um super-herói. Suas interpretações excessivamente didáticas e suas atitudes têm o poder de salvar pessoas, famílias, em suma, de resolver situações complicadíssimas.

Ao longo da segunda metade da primeira temporada, os textos ficam menos afetados. Carlo segue desinteressado pelos sintomas dos clientes – o que talvez equivalha ao bloqueio criativo de um artista –, mas deixa a posição de super-herói e o roteiro passa a explorar também aquilo que ele não dá conta de resolver. Resultado: a série fica mais interessante.

Há mudanças na vida de Antonini na segunda temporada (até o momento em que este texto foi escrito, ela está no quarto episódio), mas a tônica se assemelha à do fim da temporada anterior: roteiros equilibrados e um Carlo Antonini mais humano. Há, ainda, um reforço no time de diretores dos episódios, com nomes como o de Tata Amaral.

Quem está familiarizado com as ficções e, sobretudo, com as crônicas de Contardo Calligaris irá notar semelhanças entre elas e Psi. Com efeito, a série adota uma linguagem que problematiza o cotidiano pela lente da psicanálise, trazendo elementos para refletir a loucura e, principalmente, a normalidade presentes em nossa rotina por uma lógica que subverte o senso comum.

Mas a crença exagerada no poder da psicanálise às vezes enfraquece a trama. Se, em vez de trazê-la em sua vertente iluminista, o roteiro explorasse o potencial ficcional da psicanálise, o resultado poderia ser mais interessante – realidade e ficção, amalgamadas pela psicanálise, compareceriam em equilíbrio, fazendo justiça à premissa de Freud de que nosso psiquismo se constitui enquanto ficção. Essa observação vale para Psi e para as demais ficções de Contardo Calligaris: resultam demasiadamente psicanalíticas.

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Conheça as obras sobre psicanálise já publicadas pela Ateliê