Renata Albuquerque

A voz de Gilberto Gil

Por: Renata de Albuquerque

 

De fã a pesquisador. Essa é a trajetória que o jornalista e pesquisador Pedro Henrique Varoni de Carvalho percorreu para tentar apreender e explicar a trajetória de Gilberto Gil dos palcos ao Ministério da Cultura – posto que assumiu em janeiro de 2003, durante o primeiro mandato do  presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

voz que cantaVaroni é autor do livro A Voz que Canta na Voz que Fala: A Trajetória Poética e Política de Gilberto Gil, que acaba de ser lançado agora pela Ateliê Editorial. Na obra, ele trafega pela análise do discurso e aponta como Gilberto Gil trouxe o seu discurso poético-tropicalista ao ministério, sugerindo e promovendo mudanças até então inéditas no que toca ao tratamento dado à cultura brasileira pelo Estado.

O autor, que é Mestre e Doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, professor do Curso de Jornalismo da Universidade Tiradentes (Aracaju/SE) e Diretor de Jornalismo da TV Sergipe (afiliada da Rede Globo em Aracaju), fala sobre sua obra ao Blog da Ateliê:

Como teve a ideia de escrever sobre Gilberto Gil? Quando a admiração de fã tornou-se curiosidade de pesquisador?

Pedro Henrique Varoni de Carvalho: As canções de Gil e Caetano foram uma descoberta da infância. Um tio tinha uma boa coleção de discos e fui seduzido pela sonoridade das canções. Poucas coisas são tão fortes como a gravação de “Aquele Abraço” ou o violão de “Expresso 2222”, pra ficar em alguns exemplos. Essas e outras canções de Gil sempre me impressionaram.   Ele é um artista que conjuga uma expressão poética densa, uma musicalidade rica e um jeito de interpretar as canções, bastante original. A curiosidade sobre a música orientou desde então meu trabalho de jornalista e pesquisador. Então as questões relacionadas à música brasileira estão, desde sempre, no meu campo de interesse.

Pedro-Varoni-2015

Pedro Varoni

Durante o Mestrado no Programa de Pós-graduação em Linguística da Universidade Federal de São Carlos propus a noção conceito que seria trabalhada no Doutorado, a de arquivo de brasilidade baseada no pensamento de Foucault. O arquivo é tanto depositário da memória quanto o que garante as condições de enunciabilidade. Trata-se da busca de uma metodologia baseada na Análise do Discurso a partir das contribuições de Michel Pêcheux e Foucault para descrever e interpretar a história brasileira, tomando por referência a relação entre acontecimentos e memória.  Essas inquietações levaram-me ao tropicalismo como um momento histórico que instaurou outra ordem do discurso no meio cultural brasileiro.  As linhas de pesquisa do programa de Pós Graduação em Linguística da UFSCar tinham, naquele período, um foco na análise dos discursos políticos.   A imagem de Gilberto Gil tocando no plenário da ONU motivou a busca de respostas relacionadas às relações de saber e poder em torno da canção. O Ministro artista evocava outra imagem: a do jovem músico se apresentando no Festival da Record em 1967. Nessa fase da pesquisa estava sendo lançado o documentário “Uma Noite em “1967” que muito contribuiu para as reflexões do meu trabalho. Assim, Gilberto Gil aparece como uma síntese de alguns acontecimentos daquele momento: o encontro entre o artista tropicalista e o líder sindical tornado Presidente da República, as transferências simbólicas da política para a canção e da canção para a politica. Tudo isso a partir do referencial teórico metodológico da Análise do Discurso.

 

Como se deu o processo de pesquisa: como foi essa trajetória, quais as dificuldades encontradas no caminho?

PHVC: Era preciso separar, desde o início, o indivíduo do sujeito do discurso. Pela Análise do Discurso, o sujeito é interpelado pela linguagem, história e inconsciente.   Não há sujeito pleno como origem e fim do discurso, como não há assujeitamento pleno.  Assim, a dificuldade inicial era encontrar este sujeito do discurso por detrás dos aspectos biográficos.  A noção de subjetividade lançada por Foucault e trabalhada por outros autores foi a que possibilitou esse encontro com o sujeito do discurso Gilberto Gil. O pensamento de Suely Rolnik foi de grande valia para se pensar a subjetividade hippie-tropicalista-antropofágica, fruto do exílio e das experimentações existenciais dos anos 1960 e 1970 que se davam a ver na dimensão do corpo, das micropolíticas. Ao mesmo tempo em que Gil se insere nessa ordem do discurso para criar suas canções a subverte, contribuindo para a emergência de uma contracultura tropical litorânea.

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Capa do álbum Refazenda (1975)

O tropicalismo foi o acontecimento discursivo que possibilitou uma ampliação das bandeiras micropolíticas no Brasil. A trilogia de Gil – os álbuns Refazenda, Refavela e Realce, antecipa tendências comportamentais e políticas. A questão da valorização de estilo de vida sustentável, os direitos de cidadania, contra o racismo, o machismo e por fim a legitimidade do entretenimento e da poesia popular são temáticas atuais e que já estavam lá nesses álbuns conceituais de Gil.  Essa complexidade demandou um trabalho arqueológico e genealógico tanto sobre a eclosão do tropicalismo quanto seus desdobramentos. Ao mesmo tempo como o assunto já foi tema de muitas e importantes pesquisas, era preciso tentar ir além. Buscar responder qual o sentido do tropicalismo hoje, tentar analisá-lo com olhos contemporâneos para refletir sobre o seu lugar no arquivo de brasilidade.

O que mais o surpreendeu durante a pesquisa?

PHVC: As hipóteses foram sendo construídas durante o trabalho. No momento do projeto interessava saber as condições da transferência de valor simbólico da canção para a política institucional, principalmente ligada à ascensão de Lula ao poder. A investigação revelou de um lado o processo histórico de constituição da canção brasileira como rede de recados do popular para o político-midiático. Desde o samba, passando pela geração dos Festivais – que inclui além de Gil, Caetano, Chico, os grandes nomes da chamada MPB – há uma relação entre a canção e o dinamismo dos acontecimentos.  Talvez o último momento em que isso se dê seja com a geração do rock dos anos 1980, período que coincide com a volta da democracia no país.  A partir daí as linhas de força da canção perdem o elo entre o passado recente e o futuro próximo, uma crise de transmissibilidade nos termos do filósofo Giorgio Agambem.  É justamente esse momento que coincide com a chegada de Lula ao poder e a escolha de Gilberto Gil como seu Ministro da Cultura.  Por isso, o trabalho se chama a voz que canta na voz que fala. Procurei, de certa forma, inverter a descoberta de Luís Tatit de que há sempre uma voz que fala na voz que canta. No caso da presença física e simbólica de Gilberto Gil como Ministro da Cultura de Lula há uma transferência desse capital da canção para a política, da voz que canta na voz que fala.

Gilberto Gil canta "Imagine" na ONU

Gilberto Gil canta “Imagine” na ONU

A grande imagem desse movimento é justamente a apresentação de Gil no plenário da ONU, num momento em que o Brasil aparecia, aos olhos do mundo, como exemplo de tolerância mestiça e Lula era saudado como “O cara” por Barack Obama. Caetano Veloso disse que Gil era o Lula do Lula. Esse enunciado pode ser interpretado a partir das dicotomias entre uma esquerda engajada que gerou o movimento sindical de onde Lula surgiu e os elementos comportamentais de uma contracultura negro-baiana de onde vem Gilberto Gil.  As questões de gênero, raça, da diversidade entram no Governo Lula também pela voz de Gilberto Gil.  Esses valores simbólicos contribuem, naquele momento, para uma nova posição do Brasil no jogo geopolítico internacional.

De que maneira o conceito de Antropofagia, que o Tropicalismo tão bem utilizou, aplica-se à atuação de Gilberto Gil como ministro de Lula? Que exemplos concretos podem se dados dessa atuação nesse contexto?

PHVC: Em Oswald de Andrade a antropofagia era um pensamento filosófico, uma intuição no contexto da busca do nacional-popular que justifica o modernismo brasileiro.  Defendemos na nossa pesquisa que com o tropicalismo esse pressuposto filosófico se torna estratégica político-midiática, foi algo que transcendeu o projeto estético das canções.  Nesse sentido, o tropicalismo é uma aplicação prática do preceito filosófico antropológico. A motivação para que Gilberto Gil se engajasse no tropicalismo, no final dos anos 1960, veio de uma imersão sua na cultura popular do interior de Pernambuco em que a vitalidade da Banda de Pífanos o fez pensar no jovem rock inglês. Essa aproximação entre universos simbólicos tidos como inconciliáveis pelos defensores de uma autêntica música brasileira procura chamar atenção, sobretudo, para as relações entre mídia e cultura popular. Se aqui chegavam os Beatles e os Rolling Stones teríamos de criar uma sonoridade brasileira moderna e cosmopolita. É o movimento que desagua, por exemplo, no mangue beat.

O ministro segue essa trilha da “guerrilha cultural nos canais do sistema”. A proposta dos pontos de cultura, em que comunidades do interior teriam direito a uma ilha de edição, uma câmara e internet de banda larga é uma atualização da antropofagia tal como foi lida pelo tropicalismo. Fazer circular a cultura popular é a única forma de revitalizá-la, de manter o vínculo com o contemporâneo. Tornar todos potencialmente produtores de conteúdo e não apenas consumidores passivos da cultura de massa. A ideia de antropofagia é, nesse sentido, como salientam muitos pensadores, uma das mais profundas e originais contribuições do modernismo brasileiro ao mundo. A relação entre fluxos homogeneizantes da sociedade globalizada e sínteses antropofágicas das culturas histórico-territoriais tornou-se uma das possibilidades para a crise de identidades nesses tempos líquidos.

Em sua opinião, como a atuação de Gilberto Gil enquanto ministro contribuiu para a criação (ou manutenção) de uma (nova?) autoimagem brasileira durante os anos Lula?

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião

PHVC: A presença de um artista com a trajetória de Gilberto Gil contribuiu para o efeito simbólico de que a chegada de Lula ao poder significava uma correção histórica de séculos de mazelas sociais no país.  De um lado a trajetória de um pau de arara, líder sindical. De outro a de um negro, filho de uma classe média baiana que contribuiu com sua arte para a criação de uma linguagem original e moderna, que o habilitou a transitar pelas plateias do mundo. A potência do canto com mensagens pacifistas e de defesa da diversidade fizeram de Gil uma espécie de embaixador brasileiro em momentos marcantes. Na ONU além de suas canções, ele cantou músicas de John Lennon, Bob Marley e saudou Luiz Gonzaga. É um acontecimento que dialoga com a eclosão do tropicalismo e, de alguma forma, com as utopias da geração dos anos 1960, não só no Brasil, mas no mundo.

É possível fazer uma análise dialética dessa atuação do artista no Ministério? Existe uma síntese possível para o “caso Gilberto Gil”, cuja atuação política (esperada na esfera artística) transbordou os limites da arte e passou a se realizar na política partidária e na esfera do poder público?

PHVC: “O caso Gilberto Gil” é exemplar da potência poética e política vivenciada no Brasil pela geração de artistas surgida nos anos 1960. Do cinema novo ao tropicalismo, passando pela canção de protesto, pelos vários movimentos teatrais havia um desejo de transformação do real a partir de uma nova linguagem. Esse lugar da arte sofre uma cisão a partir dos anos 1980 em que de um lado há um aumento do aspecto mercadológico, do culto às celebridades, de certa frivolidade que resulta numa música para fazer dançar ou provocar emoção fácil. Visto por esse ângulo o movimento de Gil em direção a política não deixa de ser a retomada dessa utopia de uma juventude revolucionária.

O movimento de Gil em direção ao Ministério é também sintoma de uma crise nas linhas de força da canção popular. A MPB de gosto universitário dos anos 1960 não gera prosseguimento a não ser em nichos. Naquele período eclodiram as discussões sobre o fim da canção, a partir de uma provocação de Chico Buarque, na verdade indicando o deslocamento para o rap, a nova voz da periferia nos anos Lula.  Essa possibilidade de expressão periférica possibilitada pelas novas tecnologias e o movimento da sociedade não deixa de ser o sonho da geração dos anos 1960. Então quando Gil se aventura no dispositivo governamental ele legitima esse fluxo a partir de políticas como os pontos de cultura. E o faz não mais só como artista, mas como aquele que propõe as políticas públicas para a cultura. Conceitualmente, os pontos de cultura são o equivalente simbólico da bolsa-família, no sentido de dar voz à diversidade brasileira.

Outro aspecto da atuação do Ministro é esse status de embaixador cultural do país defendendo uma ideia que vem de Gilberto Freyre, passa por Darcy Ribeiro de que somos uma nação mestiça e criativa, muitas vezes promovendo um relativo apagamento da colonização violenta que nos constitui. Isso apesar das canções de Gil como “A Mão da Limpeza” e “Nos Barracos da Cidade” colocar o dedo na ferida.

Qual o legado da atuação de Gilberto Gil, nesse sentido, para o Brasil de hoje, que vê o fortalecimento do conservadorismo nas mais diversas esferas?

PHVC: O artista como sujeito do discurso se inscreve na subjetividade hippie-antropofágica de matriz africana que tem sido um elemento de resistência à onda conservadora porque preconiza o direito às liberdades do corpo, contra o racismo. Suely Rolnik fala nas subjetividades dos anos 1960 que continuam a produzir sentido na sociedade. Assim, temos o “Coronel em nós”, “o hippie em nós”, “a tradição, família e propriedade em nós”. Essas subjetividades explicam muito das radicalizações e conservadorismo que eclodem nesse momento. Elas não surgem agora, são atualizadas, vêm à luz diante de uma nova ordem do discurso ainda de difícil apreensão. É algo que o trabalho apenas sugere, mas seria um prosseguimento dele.

Rolnik também tem uma discussão bastante interessante sobre o que denomina de “Zumbi antropofágico”, que seria uma banalização da mistura fazendo com que a energia revolucionária dos anos 1960 fosse domesticada pelo capitalismo. O resultado é um excesso de relativismo gerando misturas inodoras, sem alma, quase sempre a favor apenas do mercado. Há um núcleo de identidade a partir do qual se promovem as misturas. No caso de Gil é a baianidade de Caymmi e a poética sertaneja de Luiz Gonzaga. Gil resulta do encontro do sertão com o litoral.  É preciso uma dissociação do próprio tempo, demonstra-nos Agambem, para capturar o contemporâneo, traduzir em linguagem o que o real quer dizer. Esse é o principal ensinamento da trajetória deste artista ímpar.

Alfabetização e analfabetismo funcional

Ler é mais do que saber unir letras e sílabas; quem não consegue escrever, ler ou interpretar textos é considerado analfabeto funcional e perde a oportunidade de adquirir os conhecimentos que a leitura de um bom livro pode proporcionar e entender melhor o mundo ao seu redor

Antônio Suárez Abreu*

Antônio Suárez Abreu 2Houve época em que bastava alguém conseguir escrever o próprio nome para ser considerado alfabetizado. Assinar um documento, em vez de pôr nele a impressão digital, era sinal de progresso.  Há, ainda hoje, treze milhões de brasileiros que põem impressão digital no lugar do nome.  São os completamente analfabetos. Há, também, uma quantidade muito maior de brasileiros que, embora sejam capazes de escrever algo além do próprio nome e de ler anúncios publicitários, tropeçam de forma vergonhosa, quando têm de escrever ou ler um texto mais complexo.  São os chamados analfabetos funcionais.  Compõem mais da metade da população do país e ultrapassam, em número, aqueles que têm apenas o ensino fundamental. Muitos universitários não alcançam a efetiva competência em leitura e escrita e, quando formados, só conseguem acesso a subempregos. A quantidade de gente reprovada nos exames da OAB é um bom indicador dessa realidade.

Numa primeira etapa, alfabetizar-se não é apenas estabelecer relações entre letras, sons e palavras.  É, simultaneamente a isso, ser capaz de responder a duas demandas cognitivas: entender o significado de cada palavra e inseri-la em um papel sintático dentro da frase.  Quando uma criança lê sequências como A menina fechou a porta e Minha mãe carregou a menina, tem de compreender não apenas que menina é uma criança do sexo feminino, mas também que essa palavra tem a função de agente, na primeira frase, e de paciente, na segunda.  O nome técnico desse procedimento é parsing.  Por incrível que pareça, há até mesmo alunos de pós-graduação com baixa competência nessa habilidade.  A maior parte das redações de vestibular e até mesmo dissertações de mestrado e teses de doutorado apresentam frases truncadas e pontuação caótica.   Vejamos um trecho retirado de uma das redações do último Enem: A escola deve tratar do tema da violência contra a mulher.Educando os jovens para que aprendam que esse tipo de agressão não é normal e vendo a mulher como companheira.  Certamente a segunda oração deve fazer parte da anterior, ou seja, o ponto final deve ser substituído por uma vírgula: A escola deve tratar do tema da violência contra a mulher, educando os jovens para que aprendam que esse tipo de agressão não é normal e vendo a mulher como companheira.  Porém, como não é a escola que deve ver a mulher como companheira, mas os jovens que aprenderam isso na escola, o aluno poderia dar a esse período outra redação: A escola deve tratar do tema da violência contra a mulher, educando os jovens para que aprendam que esse tipo de agressão não é normal e aprendam a ver a mulher como companheira.

Essa competência em escrever se aprende com a tradicional análise sintática, hoje execrada pelos planos de ensino e dominada precariamente até mesmo pelos professores.  Fiz uma pesquisa informal na Unesp, entre os meus pouquíssimos alunos de Letras – sete ou oito por sala – que apresentavam escrita adequada e fluente: todos eles tinham tido aulas de análise sintática no ensino fundamental e médio.  O outros não sabiam sequer localizar um sujeito posposto e tiveram de aprender isso na Universidade.

colher de sopa de manteigaVamos, agora, à leitura.  Ao ler, vamos construindo o sentido do texto dentro de nossas cabeças, a partir das informações que temos arquivadas em nossa memória.   Ao ler uma simples frase como: Coloque uma colher de sopa de manteiga  numa tigela, temos de saber, antecipadamente, que não existe sopa de manteiga, que colheres de sopa, de sobremesa etc. são utilizadas para medir ingredientes na cozinha e que apenas a manteiga medida pela colher deve ser posta na tigela, e não a colher.   A leitura competente e fluente depende, pois, do nosso passado.   Aprender a ler, ter uma alfabetização completa implicam construir esse passado por meio de leituras acumuladas.   Isso vale tanto para o domínio do vocabulário quanto para outros como cultura, história, tecnologias.  Durante a primeira aula do curso de Economia de uma importante universidade pública paulista, o professor disse aos alunos que  essa ciência tem palavras com sentido diferente do uso comum e que os alunos não se acanhassem em perguntar quando não soubessem.  Imediatamente, um dos calouros levantou a mão e perguntou: “Professor o que significa debalde”?   O mestre teve de explicar o sentido desse advérbio a um aluno que, apesar de ter passado num vestibular concorrido, havia lido muito pouco.

Em alguns textos, a exigência desse conhecimento passado é muito maior.   Imagine alguém lendo um trecho do livro Autoengano, em que o economista e filósofo Eduardo Giannetti fala do autoengano dos amantes: “É como se estivessem fora de si – embriagados  por poções wagnerianas, hipnotizados pelo fascínio de Circe ou enfeitiçados  por encantamentos como o que, segundo a lenda, enlouqueceu Lucrécio.  Os apaixonados perdem o sono, dançam na chuva e ouvem estrelas.   Para entendê-lo plenamente, o leitor deve ter, em sua memória, o enredo  da ópera de WagnerTristão e Isolda, em que Tristão, inadvertidamente, bebe uma poção amorosa e se apaixona por Isolda, princesa que ele devia conduzir ao seu tio em matrimônio.

singingintherainDeve ter, também, em seu passado, a história de Ulisses, que foi enfeitiçado pela deusa Circe, em sua viagem de volta da Guerra de Troia, e a lenda segundo a qual Lucrécio, poeta romano, teria enlouquecido de amores e se suicidado.  Deve ter, ainda, em sua memória, o filme Cantando na Chuva, protagonizado por Gene Kelly e um dos mais famosos poemas da “Via Láctea” de Olavo Bilac: “Ora, direis, ouvir estrelas…”.

Concluindo, para não ser analfabeto funcional, é preciso ter o hábito da leitura como lazer, que é muito comum na Europa e nos Estados Unidos, mas extremamente raro no Brasil, em que a leitura per capita é calculada em rasos 1,7 livros por ano.

 

 

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita (Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

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Da Europa à América Latina

 

Por: Renata de Albuquerque

 

As cerca de quatro décadas e a questão geográfica que separam a Segunda Guerra Mundial da Guerra das Malvinas podem, em uma análise superficial, fazer com que não se consiga estabelecer relação entre esses dois conflitos. Mas o Doutor em História Osvaldo Coggiola vê pontos de intersecção entre essas duas guerras.

outra guerra fim do mundo“A Inglaterra e os EUA, que venceram a Guerra das Malvinas, também venceram a Segunda Guerra Mundial. A posse inglesa das Malvinas é um ressabio da hegemonia mundial ainda presente das potências anglo-saxãs. O único navio norte-americano não afundado em Pearl Harbor foi vendido depois à Argentina, onde foi se transformando no Cruzador General Belgrano, que foi afundado pela Inglaterra na  Guerra das Malvinas, com centenas de marinheiros argentinos mortos. São marcas muito profundas”, explica ele, que é autor de A Outra Guerra do Fim do Mundo, livro em que trata de detalhes do conflito (como dados e movimentações dos exércitos) e analisa a legitimidade dos discursos de ambos os países para justificar suas posições.

Coggiola nasceu na Argentina e, em 1976, foi expulso da Universidade Nacional de Córdoba por causa do Regime Militar vigente, então. Estudou na França, onde se doutorou em História, e hoje e Professor Titula e Chefe do Departamento de História da USP. Em sua avaliação, na Argentina, a questão Malvinas continua presente no sentido histórico, político e cultural. Já na Inglaterra, segundo o autor, formou-se um consenso acerca da necessidade de uma soberania compartilhada.

“O conflito pela soberania das ilhas continua presente, embora hoje por vias diplomáticas. A questão diz respeito a toda a América do Sul. Não só pela soberania territorial e pelas riquezas petroleiras hoje comprovadas do arquipélago, mas sobretudo porque existe uma forte base militar da OTAN a escassos 400 quilômetros da Argentina, a quinze minutos de voo de aviões militares, ou seja, vizinha às costas da América do Sul. As Malvinas, na posse da Inglaterra, e o embargo norte-americano a Cuba são as duas mais importantes questões pendentes a respeito da soberania territorial da América Latina”, afirma.

A dissipação da raça humana

O tema da solidão, quando tratado pela ficção científica, resulta em obras como Perdido em Marte, The Leftovers e Dissipatio H. G. — O Fim do Gênero Humano

Alex Sens*

Condição primária do artista, estando sua arte ainda num plano essencialmente virtual ou absolutamente real, a solidão não só é ferramenta para a potencialização do pensar, através da observação e da concentração, como é também o alimento da criatividade. Colocada na esfera da ficção, a solidão torna-se melancólica, mas necessária, portanto um meio que apresenta um fim, sendo este a sua ideia principal, o tema. Só a arte, com seu poder imagético, pode transferir para os nossos sentidos o que na prática é ainda impossível, improvável, impalpável. É isso que faz a ficção, sobretudo a ficção científica, seja na literatura ou no cinema, onde arte e ciência se encontram e se conectam intimamente por uma tênue linha de percepção e risco, por isso mesmo uma linha fascinante. Usando o poder da imaginação, o homem já criou inúmeros cenários apocalípticos e suas consequências, hipóteses filosóficas sobre o esvaziamento do planeta, desaparecimentos misteriosos, o fim da espécie humana e a vida extraterrestre.

Matt Damon, em "Perdido em Marte"

Matt Damon, em “Perdido em Marte”

Desde as primeiras teorias sobre o fim do mundo e sobre uma profunda mudança estrutural no nosso planeta, o cinema, a TV e a literatura vem expressando o estranho e dominante papel da solidão. Surgiram recentemente nesse cenário o filme Perdido em Marte, baseado no livro homônimo de Andy Weir, e que conta a história de um astronauta que precisa sobreviver no planeta vermelho enquanto espera por ajuda, e a série televisiva “The Leftovers”, também baseada num romance de Tom Perrota e que narra o inexplicável desaparecimento de 2% da população mundial, uma metáfora para o “arrebatamento cristão”. Seguindo a mesma linha dessa dissipação humana e o poder da solidão sobre quem fica ou, numa outra visão, quem é abandonado, o italiano Guido Morselli escreveu em 1973 o romance Dissipatio H. G. — O Fim do Gênero Humano (Ateliê Editorial, tradução de Maurício Santana Dias, 168 páginas).

dissipatio

Como reflexo de seu desejo pela solidão, o autor, torturado por ruídos que atrapalhavam seu processo criativo, projetou e construiu uma pequena casa entre as pradarias de Gavirate, e nela pode dar voz a um personagem que um dia acorda sozinho no mundo. Narrado por este personagem cujo nome permanece oculto assim como a causa principal do romance, o livro não se apoia somente em seu monólogo de caráter filosófico, ontológico, histórico e misterioso, mas também na essência de um mundo solitário e suas assustadoras, mas realistas, possibilidades. Há cachorros, gatos, pássaros, vacas, ratos e toda sorte crescente de animais, mas não pessoas. Conhecemos a cidade de Crisópolis e suas cercanias em — excetuado pela narração precisa e envolvente — absoluto silêncio, com hotéis vazios, carros parados no meio da estrada, camas faltando corpos, uma paisagem inteira onde “permanece ainda aquilo que é orgânico e vivo, mas não humano”. A figura solipsista discorre primeiro sobre uma tentativa de suicídio e o restante vem de sua incansável busca por um conhecido. Em dado momento, quando já sabemos que sua personalidade misantropa de repente sente necessidade de um contato humano, o leitor pode se perder numa possibilidade de sonho, também questionada pelo personagem, este único sobrevivente do que chama de “Evento”. Também temos aqui um narrador não-confiável, cuja amizade com um psiquiatra e passagens por internações beira uma provável esquizofrenia ou uma realidade inventada por ela. Um dos pontos mais brilhantes do livro acontece quando o tempo é medido em semanas pela espessura do bolor num pedaço de queijo, revelando o quanto a inteligência perceptiva pode ser adaptada à falta de um simples calendário.

Tudo, desde a narrativa de Morselli, que cometeu suicídio antes da publicação do livro, passando pela exploração do conceito de solidão e suas respostas emocionais, pelo caos aparentemente organizado de um mundo desabitado, chegando a uma espécie de ascese filosófica que mantém, ou pelo menos tenta manter, a sanidade do personagem, faz de Dissipatio H. G. um breve, rico e apurado tratado da solidão, uma pedra preciosa e cinzenta cravada no temor ou na atração pela condição de se estar só consigo mesmo, com a fatalidade da vida ou com a inevitável condenação ao autoconhecimento.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. PublicouEsdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

 

Clássicos: da Ateliê para a sala de aula – e muito além dela

Marise Hansen*

Algumas palavras parecem ser feitas umas para as outras. É o caso das duas que formam a dupla “Clássicos Ateliê”, quando se considera atentamente que um clássico é aquela obra que “por sua originalidade, pureza de expressão e forma irrepreensível, constitui modelo digno de imitação”, e que ateliê é o “local preparado para a execução de trabalhos de arte”. Fica fácil perceber aí um par perfeito, que é a união da obra literária de sentido universal, atemporal, perene, com o tratamento artesanal que ela merece.

livros de vestibular

Títulos da Coleção Clássicos Ateliê: sempre presentes nas listas dos vestibulares brasileiros

A coleção Clássicos Ateliê assume esse espírito, dispondo obras representativas das literaturas brasileira e portuguesa em edições preparadas com apuro meticuloso. A preocupação com os detalhes de cada edição pode ser vista na escolha iconográfica, na pesquisa e estabelecimento de texto, nas ilustrações que acompanham cada título. Entretanto, é sobretudo nas apresentações de cada obra que o diferencial da coleção se faz evidente. Os ensaios que precedem cada título da coleção, escritos por professores universitários e de Ensino Médio, primam pela profundidade de análise sem perder de vista a clareza e o didatismo, o que é imprescindível quando se pensa que a apresentação da obra deve atuar como uma espécie de comentário crítico, quase como uma aula escrita.

Quem vive o cotidiano da sala de aula com os estudantes que se preparam para os vestibulares, sabe a importância de, muito mais que se “mandar ler”, se ensinar a ler. Parece ter sido definitivamente sepultado o chavão “adolescente não gosta de ler”. É notório o quanto a literatura juvenil movimenta o mercado editorial. Mas sabe-se também que há muitos títulos que nossos alunos não leriam por conta própria, dada a dificuldade mesma da linguagem – original, artística, desafiadora – de um “clássico”. Quem tem a chance de estar perto desses alunos enquanto eles se veem levados a “enfrentar” um clássico, sabe, no entanto, que a paixão pela obra é garantida, quando não imediata, desde que a aproximação a ela se faça com o auxílio de um leitor experiente.

Quem entende, gosta: a fórmula é simples. E para ser leitor competente, há que se aprender a ler para além do que está explícito. Para tanto,é certo que existem as aulas e, para apreender o sentido do texto literário num nível ainda mais profundo, e de forma mais independente, existem as apresentações da coleção Clássicos Ateliê. Elas atuam como o tal “leitor experiente”, que, se na sala de aula é o professor, no momento de leitura e reflexão do aluno é o texto ensaístico que elucida o sentido das obras e suas múltiplas possibilidades de leitura; fornece informação, documentos e iconografia a respeito do contexto de produção e do discurso cultural vigente; estabelece comparações entre obras, estilos e autores da literatura universal. Para auxiliar o jovem leitor nessa apreensão de obras tão significativas, é fundamental que o autor do prefácio tenha não só amplo conhecimento sobre as mesmas, como também familiaridade com a prática em sala de aula: só assim se tem ideia da linguagem a ser usada para atingir o leitor que se inicia num clássico. Unir a profundidade acadêmica com a clareza didática é um diferencial da coleção, percebido nos textos introdutórios bem como nas notas explicativas (de vocabulário, sintaxe, referências culturais, recursos estilísticos, linguagem figurada).

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Para o vestibular 2016 de duas das principais universidades do país, USP e Unicamp, a coleção Clássicos Ateliê abrange sete títulos: Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett; Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida; Til, de José de Alencar; Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; O Cortiço, de Aluísio Azevedo; A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós – comuns às listas dos dois vestibulares; e Sonetos de Camões, da lista da Unicamp. Essas obras contam com apresentações que abrangem os aspectos mais representativos de cada obra, sem deixar de sugerir sentidos novos, originais. Para quem vai prestar esses vestibulares (ou outros, que vários se baseiam nessas listas, tidas como canônicas), é fundamental, por exemplo, estar familiarizado com o espirito galhofeiro presente no romance de Manuel Antônio de Almeida, como uma espécie de protótipo da malandragem brasileira; com o universo de cinismo e abuso das elites do Brasil imperial representado por meio do defunto-autor Brás Cubas; com a crítica ao consumismo irrefletido e causador de permanente frustração, tema atualíssimo desenvolvido por Eça de Queirós em A Cidade e as Serras.

A Ilustre Casa de Ramires

A Ilustre Casa de Ramires

Para além de listas de vestibular, a leitura de clássicos será sempre parte da formação do leitor. Nesse sentido, a coleção conta com outras obras dos autores “clássicos” (O Guarani e Iracema, de José de Alencar; O primo Basílio e A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós; Dom Casmurro, de Machado de Assis) e com outros gêneros, além da prosa de ficção, como a poesia, no já citado Sonetos, de Camões, no recém-lançado Mensagem, de Fernando Pessoa, e no poema dramático Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. Assim, quanto maior o repertório de leitura dos clássicos, mais sucesso em provas e exames vestibulares, haja vista o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado por mais de sete milhões de candidatos no mês de outubro, em que uma das questões da prova de Português era sobre O Ateneu, de Raul Pompeia, um clássico de nossa literatura contemplado pela coleção. O teste aborda a relação entre o colégio, vale dizer, a educação e sua função social, e os interesses capitalistas e individualistas de seu diretor, aspecto explorado na apresentação do romance para o volume da Ateliê.

Sabe-se no entanto, que a leitura dos clássicos, quando bem aproveitada, isto é, quando as obras são verdadeiramente compreendidas, trará benefícios que transcendem em muito as exigências de provas e exames vestibulares: será capaz de levar o jovem leitor a pensar criticamente a sociedade brasileira, as relações humanas e o próprio indivíduo, o que constitui o imensurável alcance da literatura.

Conheça a Coleção Clássicos Ateliê

*Professora de Literatura e subcoordenadora de Português no Colégio Bandeirantes, São Paulo.Mestre e doutoranda em Literatura Brasileira pela USP, com projetos de pesquisa sobre Machado de Assis e João Guimarães Rosa. Autora da apresentação e das notas de A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós, edição Clássicos Ateliê.Autora do posfácio de O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett (Penguin/Companhia das Letras) e de análises de clássicos da literatura brasileira para a Companhia das Letras (Caderno de leituras).

Para entender a sociedade de consumo

Carina Marcondes Ferreira Pedro fala sobre o recém-lançado Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, sobre fluxos de importação de mercadorias nas últimas décadas do século XIX

Por Renata de Albuquerque

 

CarinaPedro_300dpiPor que entender o fluxo de importação de mercadorias no final do século XIX é importante na atualidade? Porque as tendências e os hábitos de consumo no Brasil foram fortemente marcados pelos acontecimentos desse período. Em Casas Importadoras de Santos e Seus Agentes, Carina Marcondes Ferreira Pedro debruça-se sobre o sistema e as rotas comerciais marítimas por meio das quais as mercadorias e produtos de consumo eram trazidos ao Brasil. O livro recém-lançado é resultante da dissertação de Mestrado desenvolvido no Programa de Pós-graduação em História Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP).

 

Carina, que já atuou como professora de História e Ciências Sociais no ensino básico e orientadora educacional online no curso de especialização em História do Programa Rede São Paulo de Formação Docente (Redefor/Unicamp), conta que sua pesquisa começou ainda em 2006, no período da graduação, quando realizou o projeto de iniciação científica em História da Cultura Material do Museu Paulista, como aluna do curso de História na FFLCH-USP. A seguir, ela fala sobre sua obra:

casas importadoras de Santos primeiracapa

 

Você diz que a história do consumo no Brasil foi pouco abordada em seus aspectos culturais. Dada a importância desse tema, a que você atribui essa lacuna? O que esse viés de pesquisa tem a nos ensinar?

Carina Marcondes Pedro: Os estudos sobre os aspectos culturais do consumo a que tivemos acesso foram produzidos, em sua maioria, nos países que dominavam a economia capitalista nos séculos XIX e XX, como Inglaterra e Estados Unidos, que, ao exportar artigos industrializados para o Brasil e outros países da América Latina, disseminavam seus valores e modelos culturais. No Brasil, encontramos estudos importantes da História Econômica que nos forneceram visões sobre o macroprocesso que envolvia as importações. A minha pesquisa buscou compreender, do ponto de vista da História Cultural, as novas relações comerciais estabelecidas entre a Província de São Paulo e os países industrializados no final do século XIX, a partir das casas importadoras, instaladas junto ao Porto de Santos, conjugando elementos que envolvem desde sua conformação física até a trajetória e dinâmica de seus agentes e os artigos que importam e comercializam. Essas firmas, em boa parte fundadas por estrangeiros, foram responsáveis por disseminar valores e práticas culturais, localmente associados aos diversos artigos estrangeiros que adentravam o país nesse período. Compreender esses aspectos é também entender a formação de uma sociedade de consumo que provocou uma ruptura com o passado ao procurar por novos referenciais.

 

O livro toma como base, entre outros assuntos, pesquisas relacionadas à história cultural do consumo, com seus hábitos materiais. O que você pode nos dizer sobre isso?

CMP: Os estudos da história cultural do consumo ajudam a compreender, entre outras questões, como se deu a disseminação de valores e modelos culturais dos países industrializados, a construção de redes de consumo e suas relações com a vida urbana, a distribuição de bens materiais e, finalmente, entender como se deu a transição de uma sociedade assentada sobre a estabilidade de artefatos para uma sociedade de consumo dinâmica. Nela, a palavra “novidade” torna-se comum nos anúncios de artigos importados, revelando as mudanças rápidas que aconteciam no final do século XIX. Na minha pesquisa, a problemática se voltou para a compreensão dos valores e práticas culturais implicados no sistema de comércio de importação de coisas materiais, papel de seus agentes, objetos que faziam circular e formas de comercializá-los na cidade de Santos.

 

Por que escolher o período do fim do século XIX e início do XX para ser objeto de pesquisa? Por que escolher São Paulo e não, por exemplo, o Rio de Janeiro, que era a capital do Brasil de então?

CMP: A passagem do século XIX para o XX é um momento de sensível mudança na Província de São Paulo. Foi nesse período que a circulação de mercadorias ganhou nova dinâmica com a expansão do comércio internacional, no caso de São Paulo, com a expansão da economia cafeeira. A cidade de Santos, como núcleo operacional de todo o sistema de exportações/importações desta região, também passa por transformações profundas com a construção da ferrovia São Paulo Railway (1867), o incremento do movimento portuário e a presença cada vez mais numerosa dos negociantes e firmas importadoras nas ruas do centro comercial, que são parte do próprio processo de crescimento e transformação do porto, como ponto central no circuito de distribuição dos produtos estrangeiros.

ilustração casas importadoras cap 1

Imagem que abre o primeiro capítulo do livro

De que forma essa história está ligada aoshábitos que mantemos atualmente? Sua pesquisa dá pistas, ou indica, as mudanças profundas pelas quais a economia, o comércio e as relações de consumo passaram ao longo do século XX e ainda estão passando neste início de século XXI?

CMP: No final do século XIX os comerciantes enxergaram a oportunidade de vender mais em datas específicas do calendário, como “Natal, Ano Bom e Reis”. O ato de presentear e se vestir com roupas novas nesses dias passa a ser valorizado. Hoje em dia vemos que este hábito se intensificou e passamos a ter muito mais datas comemorativas em que o consumo é estimulado. A exposição e a vitrine também são práticas comerciais que se desenvolveram no século XIX. O anúncio de uma loja que passa a ter “exposição permanente” nos revela que os objetos começam a ser organizados de modo a estimular a observação visual dos clientes, indicando uma preocupação crescente em despertar o desejo de consumo por meio desse sentido.

 

Que semelhanças e diferenças você enxerga no consumo da época tratada em sua obra e daquele praticado nos dias de hoje?

CMP: No que diz respeito ao comércio de artigos importados, percebo que a origem estrangeira do produto ainda é valorizada, especialmente, quando se trata de uma marca consolidada no mercado internacional. Naquele período, contudo, para muitos artigos, não tínhamos uma fabricação nacional – hoje temos essa opção. As casas comerciais de importados ainda possuem uma grande variedade de produtos, porém, diferentemente daquela época, há uma definição nítida do público-alvo, desde a conformação física da loja até as ações de marketing. Hoje, vemos marcas especializadas em vender um tipo de produto para um determinado grupo de consumidores.

 

Você diz ainda que os novos produtos eram introduzidos no cotidiano e passavam a participar das ações, hábitos e referências culturais das sociedades locais. Você pode dar alguns exemplos? Há alguma curiosidade que você descobriu durante as pesquisas, e que não imaginava existir ou funcionar da forma que funcionava?

CMP: Descobri durante a minha pesquisa uma variedade de objetos cada vez maior entrando pelo Porto de Santos, como pianos, candelabros, fogão, porcelanas, aparelhos telefônicos, que passaram a constituir materialmente os interiores residenciais e comerciais. Também fizeram parte dessa gama variada de importados diversos gêneros alimentícios, como vinhos, cervejas, conservas, temperos, e no que diz respeito ao vestuário, encontrei chinelos, roupa branca, chapéus, fitas, entre outros artigos. Uma das curiosidades que descobri foram os anúncios de bebidas importadas, que apareceram com o nome da marca ou selo do fabricante associado ao nome da casa importadora que trazia o artigo para o Brasil, apresentada como “únicos importadores na Província”. Esse apelo de exclusividade denunciava a existência de um comércio de produtos falsos ou similares ocorrendo no período. Entre as precauções que o consumidor podia tomar estava a identificação do importador no rótulo da bebida.

 

 

Seleta de Poemas – Viagem a um Deserto Interior

 

Imagem2Hoje, 15 de outubro de 2015, a partir das 19h, acontece o lançamento do livro Viagem a um Deserto Interior, de Leila Guenther, na Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37 – Bela Vista – São Paulo). A autora fez, ela mesma, uma seleção de poemas e ilustrações (feitas por Paulo Sayeg), exclusiva para os leitores do Blog da Ateliê conferirem alguns trechos do livro, em primeira mão. “Espero todos no lançamento desta noite”, convida.

 

CONTORCIONISMO

viagem 5

Já caibo numa

Caixa de sapato

 

Mas o que eu queria mesmo

Era ser trapezista

 


viagem 2
A CHAT WITH CHET

Gosto mais de sua voz agora

grave, baixa, pesada

pela força de atração da terra

sem aquele caráter flutuante de quando você era

um rapaz bonito e perfeito.

 

Gosto da economia de suas notas

e da sonoridade que elas adquiriram

depois que você perdeu os dentes.

Gosto mais de você sem dentes

e dos sulcos que surgiram das profundezas de sua face

depois que a máscara uniforme de garoto se quebrou.

 

Queria ter podido afagar todo esse seu rosto verdadeiro

quando você caiu daquela janela em Amsterdã.

 

 

 

LESS                                                                                          viagem 4

Nunca tive um lugar que fosse meu.

O que tenho são mochilas, caixas de papelão, objetos

[descartáveis usados inúmeras vezes.

Me resguardo atrás das paredes frágeis de embalagens e

[sacolas de plástico.

Quando acordo durante a noite, é sempre em outro lugar.

[Um dia a porta fica à direita; no outro, a cama é

[estreita. As vezes esbarro em objetos que

[surgem do vazio.

 

Nunca tive para onde voltar. Não lembro como é tomar

[água em copo.

Vivo nos livros. Os que estão guardados, longe. Fiz deles

[minha casa. Construo com páginas e paciência o teto,

[as janelas, o minúsculo quintal.

Já faz tempo que a escova de dentes não habita uma

[gaveta.

Já faz muito tempo que desaprendi a utilidade dos

[cabides.

 

 

 

 

CONSTRUINDO A PAISAGEM

Usando a natureza

Para imitar a arte

 

Reduzindo o cascalho

A abstração

viagem1Petrificando a distância

Para sustentar o tempo

Assim engendra a cabeça raspada que o sol cresta

De nenhum ponto do espaço se veem as quinze partes:

Uma está sempre escondida atrás do todo

Em Ryoan-ji

Não há nada mais vivo do que as pedras

E para quem as dispõe

Já não é possível sair do jardim

Sem perturbar a ordem do arado

viagem 3

DIA DE NATAL:

em silêncio ela agradece

pelo filho que não teve

 

 

 

Almada Negreiros é reapresentado aos leitores brasileiros com uma antologia que reúne diversas expressões do multiartista português

Por Milena O. Cruz e Renata de Albuquerque

Apesar de sua imensa importância nas artes do século XX, o multiartista português Almada Negreiros ainda não é tão conhecido no Brasil. Nascido em 1893, ele foi poeta, ficcionista, dramaturgo, filósofo,  pintor, desenhista e conferencista. Para preencher a lacuna de conhecimento sobre ele no país, a Ateliê Editorial acaba de lançar Poesia É Criação – Uma Antologia. A edição foi realizada com o apoio da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas/Portugal. O livro, lançado dia 8 de outubro em um evento na Livraria da Vila (São Paulo), foi organizado por Fernando Cabral Martins e Sílvia Laureano Costa, que falaram, juntos, sobre a experiência ao Blog da Ateliê:

Capa da antologia, lançada em 8 de outubro, em evento na Livraria da Vila, em São Paulo

Capa da antologia, lançada em 8 de outubro, em evento na Livraria da Vila, em São Paulo

Trabalho a quatro mãos

A “quatro mãos”, o trabalho passa por um diálogo sobre as opções e por uma divisão das tarefas. Trabalhamos juntos noutros projetos ligados ao Almada – quase se pode dizer que temos um entendimento tácito que nos aproxima e liberta de discussões supérfluas.

 

Escolhas

Quem elabora uma antologia sabe que tem de fazer escolhas. Quem lê uma antologia sabe que está perante uma seleção. Para escolher é necessário ir ao todo da obra literária (ou, pelo menos, ao conjunto da obra publicada). Se, depois de ler a antologia, o leitor ficar com vontade de conhecer mais textos de Almada Negreiros, então, o nosso desafio estará cumprido.

 

Ilustre desconhecido

Julgamos que Almada Negreiros precisa de ser novamente apresentado ao público brasileiro. Um artista esquecido é como um artista desconhecido. Há muitas maneiras de voltar a fazer esta apresentação, a edição de uma antologia é uma delas. Mas é necessário, depois, divulgar e promover a sua leitura junto das escolas e das universidades, por exemplo. Sendo um artista plural, seria necessário também organizar uma exposição retrospectiva que desse a conhecer a obra plástica de Almada. E desenvolver o conhecimento dos outros aspectos da sua obra multiforme.

 

Legado artístico

A sua é a poesia de um artista moderno, dedicada à expressão violenta das emoções e à criação constante de formas novas de as exprimir. Também se pode dizer que a importância do gênero poético é quantitativamente maior na primeira fase da sua obra. Depois disso, o teatro, a pintura e a filosofia numerológica e geométrica tomam o primeiro lugar.

 

Organização do livro

O tríptico que pretendemos criar no livro corresponde às três grandes fases que se podem definir na linha cronológica da vasta e heterogênea obra de Almada Negreiros: a primeira ligada ao momento revolucionário das Vanguardas, a segunda dedicada à construção e difusão da arte modernista, a terceira trilhando um caminho singular de artista, poeta, filósofo e performer. A organização do livro é cronológica, com uma exceção. Um dos textos, “O Meu Teatro”, foi escrito por Almada no final da sua vida para servir de prefácio ao volume de teatro das suas primeiras Obras Completas. Mas, nesta antologia, ele ficava muito bem no final da segunda parte, fora da cronologia, mas na sequência das duas peças de teatro antologiadas. Por vezes, as regras merecem a exceção.

 

Almada no mundo

Almada está já traduzido em várias línguas. Nos últimos anos, desde o centenário do seu nascimento, em 2013, tem havido um novo fôlego de edições internacionais. Saíram novos livros em Itália e na Noruega, por exemplo. Na Colômbia está no prelo uma antologia traduzida e nos EUA prepara-se também uma edição almadiana. Almada tem feito parte do programa de diversos colóquios internacionais em países como Brasil, EUA, Colômbia, Itália, Espanha, Inglaterra… (uns já aconteceram; outros estão agendados ainda para este ano). Estes eventos constituem importantes plataformas de discussão e partilha, cruciais para a difusão internacional do artista. Desde o final do ano passado, é possível conhecer uma parte significativa do espólio de Almada Negreiros, através do arquivo virtual disponível no site www.modernismo.pt. A internet é um veículo sem fronteiras, muito favorável à divulgação e ao estudo de um autor. Este projeto (ligado à Universidade Nova de Lisboa e aos herdeiros de Almada) tem ainda muito para crescer, mas acreditamos que é uma boa maneira de iniciar ou de aprofundar o conhecimento da obra de Almada.

Ateliê Editorial chega a 10 mil no Twitter e comemora com sorteio de livro para seus seguidores

Foi em 12 de abril de 2010 que o perfil @atelieeditorial publicou seu primeiro tuíte. Cinco anos depois, estamos comemorando a marca: somos 10 mil no Twitter!

E, para celebrar, decidimos fazer um sorteio para quem segue nosso perfil no Twitter. O livro escolhido é um dos mais cobiçados de nosso catálogo: Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci, lançado em 2012 e, ainda hoje, um dos mais queridos títulos entre os nossos leitores.

cadernos anatomicos

 

E você, também quer participar desse sorteio? Então, veja como:

A Ateliê Editorial irá sortear um exemplar do livro Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci entre os seguidores do perfil @atelieeditorial no Twitter, conforme regulamento abaixo:

Regulamento do sorteio:

1- O sorteio  acontecerá na semana em que o perfil @atelieeditorial atingir 10 mil seguidores. Caso isso ocorra em um sábado, o sorteio será realizado na semana seguinte.

2- Poderão participar do sorteio apenas seguidores do perfil @atelieeditorial que não tenham ligação direta com a Ateliê Editorial e demais empresas e pessoas envolvidas com a realização do sorteio (funcionários, organizadores, patrocinadores, parceiros, etc.).

3- Para confirmar a participação no sorteio do exemplar, o usuário precisa realizar o retweet (RT) da URL http://sorteia.eu/czI utilizando a #atelie10mil.

4- A inscrição é única e intransferível e dará direito a um número de participação (cupom) que entrará no sorteio.

5- O sorteio será realizado pela sorteia.eu e o resultado será divulgado pelo perfil @atelieeditorial no Twitter

6- O ganhador do sorteio receberá um exemplar do livro Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci, publicado pela Ateliê Editorial.

7- A Ateliê Editorial entrará em contato com o ganhador para definir a forma e data da entrega do livro.

8- Quaisquer dúvidas, divergências ou situações não previstas neste regulamento serão julgadas e decididas de forma soberana e irrecorrível pela Equipe Ateliê Editorial.

*Promoção encerrada em março/2016. Vencedora: Gabriela Carestiato Rodrigues.

A anatomia de Leonardo da Vinci

Cecilia Felippe Nery*

 

cadernos capa

Desde os primórdios da criação, o homem descobriu no desenho uma forma de representar – e registrar – fatos da vida e do cotidiano, visando ainda entender sua existência no mundo de maneira a aprimorá-la. Hoje pode ser banal, mas há pouco mais de 500 anos um dos grandes desafios era desbravar o corpo humano para conhecer sua intricada anatomia de músculos, esqueleto e órgãos fundamentais para a vida.

É neste cenário que surgem os artistas-anatomistas e, dentre eles, o gênio italiano Leonardo di Ser Piero Da Vinci, ou simplesmente Leonardo Da Vinci, um expoente do Renascimento que foi ainda cientista, matemático, engenheiro, inventor, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. Seu interesse pela anatomia levou-o a desenhar órgãos e elementos dos sistemas anatomofuncionais do corpo humano que, anos depois, foram reunidos, junto a anotações, no livro Leonardo on the Human Body, com tradução do italiano para o inglês de Charles Donald O`Malley e John Bertrand de Cusance Morant Saunders.

Desenhos-Anatomicos3Em 2012 a obra ganhou uma versão em português – Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci -, publicada pela Ateliê Editorial/Unicamp, com tradução de Maria Cristina Vilhena Carnevale e Pedro Carlos Piantino Lemos. O livro tem 520 páginas com informações e mais de 1.200 desenhos de Leonardo feitos ao longo de 15 anos (1498-1513), tendo por base os tratados médicos de Galeno de Pérgamo (129-200), de Mondino del Luzzi (1270-1326) e de Avicena (980-1037), além da dissecação de peças anatômicas de animais e de corpos humanos. Com esse material, Da Vinci pretendia fazer um Tratado de Anatomia, que não chegou a concluir.

Os tradutores brasileiros trabalharam em Os Cadernos Anatômicos de Leonardo Da Vinci durante dez anos. A obra reúne os esboços de caráter artístico e técnico, acrescida do conteúdo teórico e prático das anotações do artista, segundo os sistemas anatomofuncionais do corpo humano na sequência cronológica em que foram feitos. O livro conta com uma parte introdutória em que traz interessantes fatos históricos dos estudos anatômicos durante o Renascimento, e das ilustrações anteriores aos desenhos de Leonardo Da Vinci, durante e depois dele.

 

Desenhos-Anatomicos2

Influência da matemática

Na época do Renascimento, os artistas se aproximavam dos médicos-anatomistas para melhor retratar o corpo humano em suas obras. Da Vinci, no entanto, considerava a anatomia “como algo mais que simples coadjuvante da arte” e, com isso, “adquiriu conhecimentos anatômicos que ultrapassaram aqueles que seriam suficientes para desempenhar sua arte”, descrevem os tradutores. O artista, porém, não chegou a ser um anatomista, pois estudou a anatomia de forma pouco sistemática, atendo-se mais aos aspectos que lhe interessavam artisticamente. “Mas foi o que mais conseguiu estabelecer vínculo mais estreito entre arte e anatomia, alcançando com seus desenhos anatômicos maior grau de perfeição até então alcançado por um artista-anatomista”, afirmam.

Embora alguns dos esboços de Da Vinci não tenham a perfeição de um desenhista-anatomista, as ilustrações são esplêndidas, com forte influência dos conhecimentos matemáticos do artista. Elas mostram uma evolução no trabalho de reprodução, aprendida por meio do conhecimento das leituras, a execução de algumas dissecações de animais e a inspeção da superfície do corpo humano vivo. Não é comprovado que Leonardo tenha realizado diversas dissecações humanas. A única que executou, de fato, no intuito de desvendar a disposição dos vasos do corpo humano foi a do “homem centenário”, realizada na cidade de Florença, entre 1504 e 1506.

A maior exatidão nos seus desenhos é feita a partir de 1489. Leonardo criou um método que consistia em representar cada tema sob quatro aspectos, propiciando ao observador uma visão do elemento anatômico tal qual o veria ao caminhar ao seu redor, analisando-o sob todos os ângulos. Um método que utilizaria durante toda a sua carreira anatômica.

Os esboços e as anotações de Leonardo ficaram muito tempo perdidos. Logo após sua morte, eles foram herdados por Francesco Melzi, seu discípulo, que os guardou até 1570. Mas depois foram dispersados e passaram por caminhos desconhecidos. Só no século passado que o trabalho de Da Vinci pode ser ordenado no livro de O’Malley e Saunders, trazendo assim à luz da humanidade o brilhantismo do artista, e que os brasileiros também podem conhecer na obra em português da Ateliê Editorial e Unicamp.

 

*Jornalista formada pela Puccamp, pós-graduada em Jornalismo Internacional (PUC-SP) e Jornalismo Literário (ABJL). Mantém o blog de literatura “Sobre Leituras e Observações” – www.leituraseobservacoes.blogspot.com