Renata Albuquerque

“Conto Até Dez”: uma raridade que pode chegar às mãos de leitores apaixonados por livros

Quem ama livros, sabe que  quanto mais raros, mais exclusivos, maior é nossa vontade em colecioná-los. Conto Até Dez é exatamente assim. O livro foi lançado em 2005 para celebrar os dez anos de existência da Ateliê Editorial – fundada em 1995. Mas, ele nunca foi comercializado: foi apenas distribuído para alguns sortudos e sortudas que o receberam como presente durante a festa de comemoração da primeira década da Ateliê, que aconteceu na Pinacoteca do Estado e durante a qual foram lançados, concomitantemente, dez novos livros do catálogo da editora.

Desde então, Conto Até Dez virou item de colecionador. Organizado por Marcelino Freire (autor de Angu de Sangue e organizador da Coleção LêProsa), o pequeno e raro volume reúne textos inéditos e exclusivos de Ademir Assunção, Bruno Zeni, Gil Perini, Ivana Arruda Leite, Márcia Denser, Moacyr Godoy Moreira, Nelson de Oliveira, Paulo Franchetti, Paulo Ribeiro e Rodrigo de Faria e Silva.

Na apresentação do volume, Cláudio Giordano ressalta a importância da editora se debruçar sobre o livro enquanto objeto (“livros sobre livros”, um tema muito caro à editora ainda hoje, que é uma de suas marcas registradas). Discutir a história, a função e a arte do livro faz parte, ainda hoje, de uma das preocupações da editora.   

Agora, quase quinze anos depois de sua primeira aparição, o raríssimo Conto Até Dez volta a circular. Mas, mais uma vez, ele será dado de presente. Para conseguir um exemplar deste volume exclusivo, basta adquirir um dos títulos da Coleção LêProsa (promoção por tempo limitado).

“Somente nos Cinemas”: contos de Jorge Ialanji Filholini

Somente nos Cinemas, o novo livro de contos de Jorge Ialanji Filholini, é o mais recente lançamento da Coleção LêProsa, da Ateliê Editorial, que enfoca a literatura de autores brasileiros contemporâneos. A coleção é coordenada por Marcelino Freire, também organizador da Balada Literária e autor de Angu de Sangue. A seguir, o autor fala ao Blog da Ateliê:

Como foi o processo de criar Somente nos Cinemas? Quanto tempo levou para escrever o livro, como escolheu os contos que dele fazem parte?

Jorge Ialanji Filholini:  O começo de tudo foi quando escrevi o conto “Bianca Movies”, acredito que foi em 2017. Gostei muito da elaboração da narrativa que, no decorrer da leitura, vai intercalando entre o casal de protagonistas e suas diferenças de gostos, principalmente em relação aos filmes. E isso é tão gostoso: a troca de apreço pela arte. Descobrindo aos poucos naquela caminhada pelas ruas da madrugada de São Carlos. A personagem Bianca foi criada a partir do meu amor pelo cinema, uma aventura com ela em seus vários signos cinematográficos. Eu amava passear pelos corredores das locadoras de vídeos. Passar pelas estantes, pegar as caixas e escolher qual filme será assistido no fim de semana. E quis colocar um pouco disso tudo nela. Nesse desenvolvimento do conto, senti a vontade de ampliar as temáticas que envolvessem filmes, atores, cenógrafos, roteiristas, cinéfilos e pequenos detalhes relacionados à sétima arte. O que pensariam. Em quais situações poderia colocá-los. O cinema estaria ali à espreita da minha escrita. Os contos foram surgindo iguais aos trailers de cinema. Um por um com uma ideia pronta para ser desenvolvida, tornando-se um longa, um desenrolar da película no projetor. Depois era só montar e colocar para exibição.

Qual sua relação com cinema? De que maneira ele o inspira e faz parte da sua vida?

JIF: O cinema foi a primeira arte com que eu tive contato. Desde criança, aquelas imagens iam processando na minha mente e eu sem entender nada. No decorrer da maturidade, ia ao cinema sozinho. Trocava um esconde-esconde, um futebol de rua, uma pipa, por uma bela sessão de cinema.  Em São Carlos, os ingressos eram muito baratos no começo do século. Eu assistia dois ou três filmes por dia. Acabava uma sessão e já entrava em outra. Era uma sensação boa. Eu e aquela história sobre relações humanas. Absurdos ou não. Fantasia. Eu era um intrometido cinematográfico. Queria entrar nas vidas daqueles personagens, daquelas tramas. Foram surgindo as inspirações. Os cortes de cenas, os diálogos, os detalhes em que o plano da câmera lhe joga, o suspense. A elaboração dos cenários. Aquele enquadramento marcante. A minha mente é uma câmera rodando 24h por dia em um filme pessoal que, de certa maneira, torna-se imperdível e em cartaz pelo resto da vida.

 Quais são os filmes e diretores de cinema que você admira e de que maneira eles estão em Somente nos Cinemas?

JIF: Primeiro, logo na epígrafe, com a fenomenal Agnès Varda: “Cinema é luz e tempo”. Tenho enorme admiração pelo o seu trabalho com documentários, mas tenho paixão por “Cléo, das 5 às 7”. A luminosidade e o tempo que a personagem de Corinne Marchand desenvolve é uma aula sobre o cotidiano e de como ele transcende em nossas fases ordinárias.

São tantos cineastas que admiro que, se citar aqui, ficaria faltando outros tantos. Por isso, dedico o livro para as cineastas e os cineastas do Brasil. Foram tão essenciais no meu amor cinematográfico. Impossível não se emocionar com a sequência final do julgamento em “O caso dos irmãos Naves”. Pegar carona com a trupe mambembe de “Bye Bye, Brasil”. Subir as escadarias do Paço em “O pagador de promessas”. Sentir arrepio das lágrimas ao assistir a cena de Regina Casé dentro da piscina em “Que horas ela volta”. As tantas facetas de Paulo Miklos em “O Invasor”. Um jovem João Miguel se despedindo de seu amigo alemão na estação de trem no sertão em “Cinema, Aspirinas e Urubus”. Caminhar com Corisco num cangaço fantástico em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Estão estes e muitos dialogam com o meu cinema. O cinema que vem a partir de mim, do meu olhar de amante de filmes. E Somente nos Cinemas está montado em sua linguagem literocinematográfica.

Jorge Ialanji Filholin fotografado por Ciete Silvério/Agência Foto

Na orelha do livro, Fernanda D’Umbra escreve que você faz uma mistura “quase impossível”: a literatura, o cinema, a vida e a morte. Entretanto, há muitos casos em que cinema e literatura se misturam; em que vida e morte são complementares. Em sua opinião, o que há de diferente nesta mistura que você propõe?

JIF: A Fernanda foi uma das primeiras leitoras do meu primeiro livro “Somos mais limpos pela manhã”, publicado em 2016 pelo Selo Demônio Negro. E, no término de sua leitura, ela escreveu um depoimento e uma crítica tão maravilhosos sobre os contos que, sem dúvida, eu gostaria de ter um texto seu em um futuro livro meu. O que deu certo, o maravilhoso texto de orelha da Fernanda em Somente nos Cinemas sintetiza muito do meu pensamento sobre o cinema e como ele está colado no meu cotidiano e escrita. Ela descreve: “Os olhos filmam, os ouvidos constroem o áudio, o cérebro edita e o coração que se vire. E, se a vida se passa basicamente dentro da nossa cabeça, tudo é ficção. Deus! A realidade não existe”. Para mim, esta é a definição que quis propor e, se for diferente, os leitores é que projetarão isso em uma tela branca dentro da cabeça. Eu apenas dei o play na ficção banal que é a vida.

E não poderia deixar de fora os olhares plurais dos parceiros de elenco que me ajudaram na construção de todo Somente nos Cinemas. A visão artística de Lourenço Mutarelli em sua elaboração da capa, maravilhosamente por meio de colagens. O texto de prefácio da querida e brilhante Cristina Judar, uma leitura essencial para a finalização do livro e, também, de duas pessoas que muito me incentivaram na escrita, mesmo por campos diferentes. Um, o da ficção, que foi Marcelino Freire; e outro, pela leitura e apontamento acadêmico, o amigo e professor Jorge Vicente Valentim, competente e emocionalmente exposto no posfácio do meu livro.

De que maneira a linguagem cinematográfica “contagiou” (ou foi transposta para) a escrita de seus contos neste livro?

JIF: Eu gosto do cotidiano. Gosto de colocar os meus personagens em situações degradantes. O absurdo transformando a narrativa. Gosto dos cortes cinematográficos e isto é fascinante transpor em meus contos. As letras são os planos se encaixando no filme e formando uma história onde o montador, o diretor, o roteirista, o ator, estão todos em mim.

O livro é apenas para leitores cinéfilos? Ou: existem camadas de leitura que apenas os cinéfilos poderão compreender na leitura do livro?

JIF: Somente nos Cinemas é um convite para se entrar em meu mundo cinematográfico e literário. As portas da sala de exibição estão abertas. É só sentar e apreciar a leitura ou, melhor, a sessão. 

Conheça a Coleção LêProsa

Plinio Martins recebe prêmio na Balada Literária 2019

Em seu XIV ano, a Balada Literária homenageia o educador e pensador Paulo Freire. O evento acontece em São Paulo entre os dias 4 e 8 de setembro. No domingo, Dia Mundial da Alfabetização, o já tradicional Prêmio Donizete Galvão, em memória do jornalista e escritor falecido em 2014, será recebido por quatro personalidades que estiveram presentes na educação do país. Serão agraciados com o prêmio a educadora ANA MAE BARBOSA, para a editora GITA K. GUINSBURG, para o editor PLÍNIO MARTINS FILHO e para o professor de literaturas da UFSCar JORGE VICENTE VALENTIM.

O evento ocorrerá no domingo, 8 de setembro, a partir das 14h30, no Centro Cultural b_arco (Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426). Para o criador e curador da Balada Literária, o escritor Marcelino Freire, premiar os quatro são “A educação movida pela curiosidade e pelo profundo amor. Na leitura do mundo e o mundo da leitura, que estes mestres e mestras merecidamente dedicaram as suas vidas a passar adiante as palavras e ensinamentos à sociedade”. A programação completa da Balada Literária pode ser conferida no site oficial: www.baladaliteraria.com.br

Um brasileiro à procura de sua identidade

Aurora Bernardini*

A seguir, o Blog da Ateliê reproduz a resenha de Aurora Bernardini sobre O Língua para o número 30 da Revista Qorpus. Agradecemos a gentileza da revista em permitir o compartilhamento deste material:

Eromar Bomfim, autor do livro de que vamos falar, nasceu em Formosa do Rio Preto (BA). Filho de comerciantes, aos 13 anos de idade, mudou-se com a família para São Paulo. Estudou Letras na USP, com pós-graduação em literatura brasileira. Publicou com sucesso o romance O Olho da Rua, pela Nankin Editorial, em 2007, e Coisas do Diabo Contra, pela Ateliê Editorial, em 2013 e, agora, O Língua, também pela Ateliê Editorial, sua obra prima.

É justamente da união de coisas bem sabidas (bem vividas) e tramas bem imaginadas que nasce o encanto desse O Língua, que poderia se chamar Um brasileiro à procura de sua identidade, ou “ o primeiro brasileiro”, como quer Eromar. Ele explica, em trecho de carta pessoal do autor enviado à resenhista em maio de 2019:


“Os personagens são do século XVII, embora vivam até hoje como ancestrais que se manifestam aos líderes no ritual de Toré que existe nos nossos dias em núcleos caboclos no submédio São Francisco. Este, dos artifícios que usei , é esboçado no primeiro capítulo, norteado pela ideia de que na transformação há permanência.

Os personagens indígenas são tapuias do Nordeste, notadamente povos que habitavam a Bahia, no chamado “sertão de dentro”. Distinguiam-se dos povos tupis e tupinambás do litoral e foram chamados tapuias que significa “língua travada”. Falavam várias línguas, sendo o kiriri uma das mais amplas, possuindo subdivisões.

As batalhas no enredo são reais, mas a efabulação sobre como ocorreram é fictícia. A destruição do mocambo de Geremoabo, por exemplo, comandada por Fernão Carrilho, é real. Mas eu a narrei como imaginei, seguindo a psicologia de meus personagens. A geografia é real, mas com muitos nomes atualizados. Fauna e flora são típicas da região. Retratei-as segundo meu conhecimento e experiência, além de alguma pesquisa. Li obras da história colonial tradicional, teses universitárias, bem como obras etnográficas. Os gerais do Rio Preto, onde vivem meus narradores, eu conheço. Mas é importante ressaltar que meu personagem central, Leonel, é um mameluco. Não é mais índio, mas também não é branco. É o primeiro brasileiro. Foi pensando nele que fiz essa história. Meus narradores são fictícios, salvo Aleixo. Existiu um certo Aleixo, insubordinado, no século XVII. Reais são alguns dos personagens brancos, como padre Roland é Padre João de Barros. Deles aproveitei o papel que desempenharam na invasão, mas imaginei toda a trama que os envolve. O mesmo fiz com o militar Domingos Rodrigues Carvalho. Mas a nenhum deles dei voz. Apenas contracenam com meus personagens que são oriundos da camada sofrida da população.”


O eixo da trama são as caçadas que os homens brancos (leia-se: súditos do rei de Portugal) fazem a índios e negros fugidos, suas selvagerias e seus engodos, e a resistência (leia-se: fuga) desses, para escapar à submissão e à morte. Mas cada personagem tem sua história que é magistralmente contada por alguns dos protagonistas principais e da qual citaremos alguns exemplos. Um deles, o que começa a relatar nas primeiras páginas e volta a fazê-lo nas últimas, na sala do dono da casa, onde se reúnem os narradores, é uma mulher. A índia anaió, Ialna, que, mal chegada à puberdade, é violada pelo padre, membro da aldeia missionária e tem um filho, o mameluco Urutu, mais tarde batizado como Leonel pelo padre João de Barros, o jesuíta que o levou consigo, fugindo dos fazendeiros destruidores das aldeias dos padres, e que tem o dom de aprender várias línguas com a maior facilidade, daí ser chamado O Língua, e ter, muitas vezes, a função de intérprete. “Nunca mais vi esse rapaz andar com outros meninos, que eram mais desgarrados e varavam por aqueles brejos atrás de uma fruta, de um mel, de um passarinho. Tinha ficado muito diferente dos outros, os que desobedeciam às regras dos padres, e por isso viviam recebendo chicotadas deles” (BONFIM, 2018, p. 51), conta Ascuri, o indio anaió que “viu Urutu crescer e virar o que virou” (BONFIM, 2018, p. 35) e que vivia com duas mulheres, Cipassé e a bonita Yacui, mais tarde cobiçada pelo padre João.

“No mesmo dia que os padres deixaram São Francisco Xavier, os homens do grande sesmeiro Garcia entraram na aldeia… Os padres tinham ido embora. Vendo-se sozinhos, os sapoiás abandonaram as cabanas e caíram nos matos. Em pequenos grupos ou desgarrados, todos se dispersaram em rumos diferentes” (BONFIM, 2018, p. 60), conta Ascuri.

Outro indiozinho, que cresce na casa dos meninos índios na cidade de Salvador, onde os padres da Igreja o batizaram como Aleixo, relata: “Fiquei conhecido na cidade de Salvador e nos sertões. Na cidade conheci uns negros. De noite eles saíam, sorrateiros, da casa de seus senhores. Junto com eles, roubávamos artigos nos armazéns. Facões, enxadas, panos. Vinham outros e carregavam para os mocambos. Um dia fomos descobertos. Os negros apanharam até não poder mais. Me botaram na cadeia. Depois de uns dias fui degredado para a cidade do Rio de Janeiro por ordem do governador.” (BONFIM, 2018, p. 61). Aleixo consegue fugir e vai bater nas Minas Gerais, onde os povos estavam em luta contra os fazendeiros. Sobe, depois, para a Bahia, sempre sob ordens de prisão. Quando Fernão Carrilho, “o governador da horda de assassinos… que partia para matar negro como quem vai almoçar e que tinha gosto de matar tanto os negros tapanhuns como os índios da terra” (BONFIM, 2018, p. 62) foi para Canabrava, com ordem para retirar os melhores guerreiros para lutar contra Geremoabo, os padres assinalaram quatro dos seus. Eram três moritises e mais Leonel. Aleixo estava lá e ficou amigo de Leonel e, depois, os dois se irmanaram com Gabiroba, um mocambeiro que conseguira escapar. Aleixo vai lutar para destruir o quilombo de Geremoabo porque não tem outra saída, já que Fernão Carrilho tinha diploma legal para recrutar coercitivamente quem ele quisesse e ainda pesava sobre Aleixo um mandado de prisão; Leonel vai porque, por lei, os aldeamentos missionários eram obrigados a fornecer índios para guerrear ao lado das expedições militares contra outros índios (esta foi, aliás, a razão do assassinato do líder indígena Cristóvão, pois ele se negou a entregar seus cento e vinte guerreiros ao paulista Baião Parente, contratado para destruir povos indígenas). Gabiroba era um escravo fugido que havia se refugiado em Geremoabo.

Esta era a bandeira de Carrilho: “… Eu trago aqui regimento e poder de juntar nessa campanha, tanto brancos como pretos, negros da terra como vocês, e mulatos, e todo gênero de gente que seja capaz de jornada para destruir os mocambos de negros fugidos e salteadores em Geremoabo, e onde mais se encontrarem esses seminários de hereges e ateísta.” (BONFIM, 2018, p. 65). Só que, aos poucos, umas coisas ia pensando Aleixo, que iam entrando na sua cabeça e saindo, “como o rio que corre escondido por baixo das pedras: está ali e não está… Depois seriam os índios também, os perseguidos. O perseguidor é que não mudava: era sempre o branco, sedento de terras para seu gado, sedento de metais amarelos, sedento de pólvora do salitre, sedento de negros para o trabalho, sedento de índios para sua defesa, sedento do ventre das mulheres índias para seus haréns, sedento das meninas negras para gerar mais negro. E o índio que recusasse tinha o mesmo destino que o negro tinha: a morte debaixo dos olhos mudos do governador e do padre.” (BONFIM, 2018, p. 70).

Eromar Bomfim, fotografado por Hemerson Celtic

Depois do ataque aos negros fugidos, que é um dos momentos mais lancinantes do livro, encontram-se os três, Aleixo, Gabiroba e Leonel, feridos, mas ainda vivos, e decidem fugir da tropa e, após perambular sem rumo, vão em busca de outro mocambo, com gente. As aventuras se sucedem: suçuaranas, piabinhas, as sete moças virgens se banhando, com quem eles passam dias felizes (deixando-as grávidas da prole que irá repovoar Natuba). Até que eles encontram, às margens do rio Natuba, na Missão com o mesmo nome, o índio Cristóvão, com cento e vinte guerreiros aos quais se juntam, para resistir aos ataques dos brancos. Natuba é arrasada, Cristóvão é esquartejado, Aleixo é remetido à cadeia, Gabiroba o ajuda a evadir-se e Leonel é levado como intérprete a serviço de sua majestade. Novas fugas, até que Aleixo é comprado por um amo, para cultivo de suas hortas. Padres do Santo Ofício perseguindo Gabiroba, Leonel, em Salvador se entregando à bebida, Aleixo e Gabiroba, munidos de amuletos, fugindo para Rio Preto.

Agora a voz retorna de novo a Ialna que relata poeticamente suas vicissitudes, suas lutas, suas perdas, e o anseio que nunca a abandona de voltar a encontrar seu filho, enquanto ela também segue para o leito do Rio Preto. Lá se instalando decide que é a hora de reencontrar Urutu, é a hora que seu filho deixe o mundo do pai para voltar ao da mãe, “esse filho que foi a semente que produziu a sociedade do Brasil. Agora, a planta que cresce carrega o mesmo mal da semente. É por isso que até hoje estamos assim.” (BONFIM, 2018, p. 175). Incumbe Gabiroba, que é o dono da casa onde todos se encontram, e mais dois vizinhos, amigos de Gabiroba, de ir até Salvador e lhe trazer o filho de volta. Depois de muitas buscas acabam encontrando-o no Largo de Jesus. Preparam a viagem de volta que é empreendida com grande alegria. Iam passando pela Reserva Florestal de Marimbondo, lugar onde “dorme o espírito de muitos povos, e o ouvido atento ainda ouve suas vozes, indiferente a toda novidade desses tempos…” (BONFIM, 2018, p. 188) quando se deram conta que Leonel havia desaparecido.

“Quando eu fui levar a notícia para Ialna, eu ia escabreado, sem saber o que dizer a ela…”, (BONFIM, 2018, p. 190) desespera-se Gabiroba – “Eu sei. Ele já está comigo. E o espírito de tudo que vive novamente se manifesta, e quem vê se alegra pode dançar” (BONFIM, 2018, p. 190). Assim falou Ialna, por meio desse enigma, cuja solução talvez esteja no texto que Darcy Ribeiro nos legou em seu livro O povo brasileiro, obra de uma vida:

“Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós, brasileiros, somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal que também somos.”

*Escritora, pintora, tradutora. Possui doutorado em Letras (USP) e é professora titular da Universidade de São Paulo (USP). Departamento de Letras Orientais (DLO), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Universidade São Paulo (USP).

Sôbô – Uma Saga da Imigração Japonesa

Por: Renata de Albuquerque

O Brasil e o Japão têm uma longa e sólida História juntos. Primeiro, no início do século XX, os japoneses começaram a chegar ao Brasil. Depois, já no final do mesmo século, descendentes de japoneses nascidos no Brasil atravessaram o oceano em direção contrária a de seus pais e avós. Hoje, são mais de 1,5 milhões de japoneses e descendentes vivendo no Brasil.

Tudo começou em 1908. No dia 18 de junho, o navio Kasato Maru chegou no Porto de Santos trazendo 793 pessoas que haviam partido, 52 dias antes, do Porto de Kobe, região central do Japão. Grande parte dos imigrantes – não só os vindos no Kasatu Maru – fixou-se em São Paulo e transformou a capital paulista na maior colônia japonesa do mundo fora do Japão.

Sôbô – Uma Saga da Imigração Japonesa, livro que acaba de ganhar uma nova edição da Ateliê, narra parte desta história, contada pelo autor, Tatsuzô Ishikawa, que, em 1930, embarcou para o Brasil no navio La Plata Maru, como imigrante individual com auxílio do governo. Com este livro, que descreve a imigração japonesa no Brasil, Tatsuzô ganhou o primeiro prêmio Akutagawa – o prêmio literário de maior valor no Japão, instituído em 1935. O livro tem tradução de Maria F. Tomimatsu, Monica Okamoto e Takao Namekata.

Sôbô é um retrato de algo que chocou seu ator: as condições em que os japoneses migraram para o Brasil. A vida no Japão estava difícil – e endureceria ainda mais no período da Segunda Guerra. O livro originou um estilo que consagrou Tatsuzô: o romance social. Como explica o jornalista Sakae Ishikawa no prefácio do livro, o estilo de Tatsuzô, seu pai, é o de “perguntar ao mundo em forma de romance”.

Tudo começa na hospedagem em que os imigrantes ficavam em Kobe. Ele descreve não  apenas o lugar, mas a expectativas das pessoas que esperavam pela viagem que poderia levá-las a um lugar melhor. A segunda parte da narrativa dedica-se à viagem em si. Já a terceira parte fala da chegada ao Brasil, com ênfase na população de trabalhadores rurais.

O título do livro já explica muito do que seria essa saga. Sôbô é uma palavra composta por dois ideogramas. “Sô remete a Sôsei, ‘povo’, ou ‘cor de capim’, ‘apressar-se’, ‘envelhecer’. Bô, a ‘imigrante’, ‘povo subjugado’. O imigrante é comparado ao capim ou erva daninha, como algo desprezível”, explica Marilia Kubota.

A escolha desse viés para retratar os imigrantes japoneses é uma inovação de Tatsukô. Grande parte da literatura sobre o assunto se debruça sobre a individualidade, a tradição cultural do antigo Japão e a vida da classe média alta urbana. Poucos dão espaço ao trabalhador rural e as dificuldades por quais passam: a barreira da língua, dos costumes e até mesmo da alimentação em um país tão distante e diferente.

Apesar de, nos anos 30, ter ficado apenas cerca de seis meses no Brasil, Tatsuzô – que faleceu em 1985 – guardou lembranças do país por toda sua vida e retratou-as com maestria em Sôbô. 

Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras: Um brinde à resistência das livrarias brasileiras

por Katherine Funke*

Será que voltaremos tanto no tempo que livreiros favoráveis à liberdade de pensamento terão de criar um fundo falso nas estantes da loja? É impossível não sair da leitura do Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras, de Ubiratan Machado, sem essa pergunta na cabeça.

O livro traz informações históricas mais do que úteis – inspiradoras – sobre modos de sobrevivência de cem livrarias brasileiras, desde o comércio jesuíta dos séculos 17 e 18 até as mais recentes, como a Livros & Livros, fundada em 1988 e que ainda resiste bravamente aberta dentro da Universidade Federal de Santa Catarina.

Quem já viveu bons momentos em uma livraria vai ser transportado a outros espaços-tempo folheando a publicação. Eu mesma, lendo sobre a Livros & Livros, não posso deixar de ser lançada ao dia em que autografei meu primeiro livro de contos na sua grande loja do centro de Florianópolis, um grande espaço com dois andares, muito bem decorado, infelizmente já extinto. Cada um com suas lembranças – e quantas são, para quem ama livros e livrarias!

Impossível não se apaixonar pela história de cada livreiro. Este manual – que nada tem de “pequeno”, nem no formato, nem na profundidade da pesquisa empreendida pelo autor – está mais para labirinto onde cem quixotes de três séculos se encontram conosco, os quixotes-leitores, do lado de fora do livro.

O método mais gostoso de ler este Pequeno Guia, aliás, é levá-lo para ler em uma pequena livraria da sua cidade, e desfrutar dos muitos causos e dados sentindo o sabor de fazer parte dessa espécie de movimento contracultural chamada loja de livros.

Escolhi uma chamada “Barba Ruiva”,  já no seu terceiro endereço no centro de Joinville, onde divide espaço com uma cafeteira e tem uma parede adornada com a placa “Rua Marielle Franco – Brasil”. Levanto os olhos por um momento e vejo o livreiro, o ruivo e barbado Fernando Koenig, pendurado numa escada para alcançar um volume desejado por uma cliente. Sorrio e volto às páginas impressas em papel pólen, absorta pela leitura.

Labirinto

O guia segue a linha do tempo, linearmente, conforme vai apresentado experiências de livreiros de diversas regiões do território nacional. O autor da obra, Ubiratan Machado, avisa logo de entrada que o guia está incompleto. Mas nem mesmo os mapas e as enciclopédias conseguem dar conta de tudo. Ele explica que se esforçou para abranger livrarias de todos os Estados – mas alguns livreiros não se dedicaram a colaborar com informações para a pesquisa.

Jorge Luis Borges, se fosse Machado, faria uma narrativa inversa, talvez: inventaria as histórias ocultadas por esses livreiros e deixaria para o prefácio um resumo da pesquisa informativa. Mas a Ubiratan Machado cabe a paixão pelo detalhe, pelo dado histórico, checado, apurado, contrastado com depoimentos & notícias de jornal, e a isso também é preciso amar e agradecer com o mais profundo respeito, em tempos de apagamento e constante reescrita da História.

Por causa da pesquisa de Machado, ficamos sabendo que interessados em comprar livros marxistas ou de filosofia durante a ditadura, em Belém (PA), tinham uma alternativa combativa na livraria Jinkings. Seu proprietário a fundou em 1965, depois de ter passado quatro meses encarcerado por ordem militar. Raimundo Jinkings, desafiando o regime, criou uma estante com fundo falso para atender às encomendas consideradas subversivas pela censura.

O autor conseguiu levantar não só detalhes sobre a rotina das lojas, como também relacioná-los com o contexto político e social das fases de abertura, desenvolvimento e, às vezes, do fechamento das livrarias selecionadas para compor o guia.

Assim, ele informa que o dono da rede Nobel de Livrarias veio para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, direto da Itália. Cláudio Milano se fixou em São Paulo, em 1943, e depois de algum tempo vivendo como encadernador, passou a distribuir livros. E também ficamos sabendo de um folclore vigente a respeito de um truque de Henfil e sua turma mineira em Belo Horizonte, nos anos 1960: entrar na livraria Itatiaia com as pastas escolares infladas de ar para sair de lá com as pastas cheinhas de volumes surrupiados…

O cuidadoso trabalho de edição da obra faz com que cada livraria seja apresentada com seu selo ou logo, e algumas imagens histórias. Impossível não passar alguns minutos detida pela fotografia da página 156, que retrata um evento dentro da livraria Brasiliense.

Sem dúvida, este livro é um presente à inteligência e um brinde à resistência de livreiros, editores, escritores e leitores do Brasil. Em tempos de fechamento de livrarias e de muitas mudanças no âmbito governamental do país em relação à educação, arte e cultura, o Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras cristaliza o amor ao saber com um cuidado inigualável.

 * Mestre e doutoranda em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Conheça outras obras de Ubiratan Machado

“Caligramas”, de Guillaume Apollinaire: segunda edição

Caligramas,os poemas de Guillaume Apollinaire, foram escritos durante a Primeira Guerra Mundial para representar imagens, valendo-se das noções de caligrafia e dos ideogramas utilizados em línguas orientais. A obra tornou o poeta francês precursor da poesia visual, depois praticada por outros artistas, como Mallarmé na França e pelos concretistas no Brasil. Caligramas chega agora à segunda edição, com tradução, notas e introdução escrita pelo poeta e professor livre-docente de Literatura Francesa da USP,  Álvaro Faleiros, em uma coedição Ateliê Editorial e UnB. A seguir, ele fala sobre esta nova edição da obra.

Que novidades traz esta segunda edição, em relação à anterior?

Álvaro Faleiros: Além da revisão dos poemas, fiz um novo prefácio destacando o centenário de morte de Apollinaire e a Primeira Guerra Mundial.

A Introdução do livro foi escrita a partir de sua Tese de Doutorado. Qual foi sua hipótese nesse estudo?

AF: Na verdade o livro todo é fruto da tese, sendo a parte mais prática e aplicada do trabalho. Meu desejo foi o de explorar as diferentes dimensões textuais do texto poético em tradução. A riqueza e a variedade de formas nos Caligramas levou-me a escolhê-lo como objeto de estudo. No que diz respeito aos poemas visuais, a principal hipótese é de que eles não podem ser tratados como um todo. Assim, proponho uma classificação dos mesmos em diferentes tipos, em função de seu grau de complexidade.

Quando se fala em caligramas, é inevitável pensar em figuras: não apenas as de linguagem, mas também imagens que os poemas propõem. Em sua opinião, isso torna Caligramas uma obra mais hermética ou mais simples para o público brasileiro? Que repertório é preciso ter para compreender essas relações postas na obra?

Álvaro Faleiros

AF: A beleza dos caligramas é que podem ser apreciados também como pinturas. Além disso, são poemas singelos, com ar de crônicas sobre a Primeira Guerra Mundial. Não se trata de obra de difícil leitura. Apollinaire era jornalista e sempre prezou pela comunicabilidade.  

O trabalho de tradução vai além de apenas  “colocar em português” as palavras escritas em outro idioma. O trabalho mais profundo, de transposição de significados é essencial para que o leitor tenha preservada sua experiência de leitura. Em Caligramas isso inclui formas e questões visuais. Quais foram os mais importantes desafios desse trabalho?

AF: O grande desafio foi dar a ver os movimentos das palavras na página, sem perder de vista a dimensão semântica.

O senhor aponta, no livro, a questão da fusão entre “guerra e poesia” feita por Apollinaire. Pode, por gentileza, falar um pouco sobre isso?

AF: Os poemas dos Caligramas foram escritos durante a Primeira Guerra Mundial, no calor da batalha. Muitos deles foram escritos no front, onde Apollinaire lutou pela França contra os alemães. Para as vanguardas, das quais Apollinaire participou com entusiasmo, as batalhas estéticas exigiam um engajamento que se assemelhava ao da guerra. Havia uma crença de que aquela grande guerra era lutada pela liberdade. Depois, devido à carnificina que se produziu, essa fé foi relativizada pelo próprio Apollinaire, que já não se iludia mais com a suposta beleza da guerra.

Criar em meio à barbárie da guerra. Isto foi o que fez Apollinaire no início do século XX. Hoje, em um contexto histórico de radicalismo e violência latente (e, muitas vezes, explícita), qual a importância de reler a obra deste poeta? O que ela nos diz, hoje?

AF: Ao observarmos a ilusão que pode levar alguém a lutar de forma ferrenha por certos ideais e a morrer por eles, podemos relativizar esse tipo de atitude e defender mais equilíbrio e mais diálogo. O convívio com as diferenças é o que faz de nós seres civilizados. A fé cega sempre nos leva à barbárie. Sempre é bom nos lembrarmos disso.

Leia nas férias

Quem ama livros, sempre aproveita o frio e o tempo mais livre das férias para colocar as leituras em dia. Mas julho está acabando. Para incentivar os leitores a continuarem a investir seu tempo nas leituras que dão prazer (não apenas as obrigatórias), A Ateliê Editorial está estendendo a campanha “Leia nas Férias”.

A proposta é dar opções de livros que podem ser lidos como um “combo”, seja porque tratam de assuntos correlatos, ou porque são dos mesmos autores. São muitos assuntos, para todos os gostos: língua portuguesa e semiótica, literatura realista, equilíbrio e natureza, arquitetura, design, arte, cinema, filosofia, sociologia, música, literatura grega, idade média, ficção e literatura portuguesa.   

Gostou? Então, veja alguns livros da seleção:

A Capa do Livro Brasileiro

Mesclando a análise da evolução das capas com a história do desenvolvimento do livro, dos editores e dos capistas, Ubiratan Machado oferece uma visão ampla e consistente da história do livro brasileiro do ponto de vista de suas capas. O autor costura a história das capas na trajetória das principais escolas literárias do período em tela, ressaltando as interações entre forma e conteúdo. 

Bibliomania

Marisa Midori Deaecto e Lincoln Secco, dois jovens eruditos que têm em comum a paixão pelo livro e pela história, falam dos livros como falamos de nossos amigos, de pessoas íntimas, numa escrita semelhante a um concerto de voz a serviço do tema, como só os verdadeiros escritores têm a ousadia de fazer.
Bibliomania é uma cooperação harmônica entre alguns atores do mundo editorial (autor, editor e designer) que veem o livro como uma terra de palavras, de acolhimento e de deleite.

A Lição Aproveitada – Modernismo e Cinema em Mário de Andrade

Lição Aproveitada

No vasto campo dos estudos de literatura comparada, o professor João Manuel dos Santos Cunha escolheu como tema o encontro de Mário de Andrade com o cinema. O autor seduz, “andradinamente”, com todas as informações hoje disponíveis sobre as relações do cinema com a literatura, o que faz deste livro leitura obrigatória tanto nos cursos de letras como nos cursos de cinema. Para os que fazem cinema, na teoria e na prática, ou para aqueles que apenas veem filmes, este livro nos desvenda prazerosamente a mágica inventora de uma obra-prima do Modernismo brasileiro, Amar, Verbo Intransitivo. De como Mário de Andrade “escreveu” um filme, ou “viu” um romance.

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor

 Eliete Negreiros apresenta uma reflexão sobre a representação do amor na obra do compositor e sua inscrição no âmbito da tradição do pensamento e da lírica ocidental. Através das canções criadas e cantadas por ele, a autora revisita poetas e pensadores como Safo, Platão, Aristóteles, Montaigne, Freud, Walter Benjamin e Octavio Paz.

Literatura Grega: Irradiações

Conceitos gregos (ser, logos, dialética, ética, política) agitam o pensamento agora. Inquietações de tragedistas atenienses voltam ao palco em peças contemporâneas. Procedimentos narrativos de Homero são reelaborados na prosa de Guimarães Rosa. Do romance, o gênero sem limites, encontram-se prenúncios nas invenções literárias de Platão. Os gêneros gregos continuam a gerar.

“Inocência”, um dos mais famosos romances de Visconde de Taunay

Inocência foi lançado em 1872. Escrito por Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay – o Visconde de Taunay – este romance regionalista traz para o leitor o ambiente do sertão e o comportamento do sertanejo, por meio da história de amor impossível entre Inocência e Cirino. Nesta edição da Ateliê Editorial, Inocência chega ao leitor repleta de notas de rodapé que ajudam a entender o contexto da obra, informações relevantes e outros dados que facilitam e aprofundam a leitura. Com apresentação de Jefferson Cano e ilustrações de Kaio Romero, Inocência tem estabelecimento de texto e notas de José de Paula Ramos Jr, que fala sobre o lançamento com o Blog da Ateliê.

Inocência é, por assim dizer, um “ponto fora da curva” na obra de Taunay, já que é regionalista e trata do ambiente rural. De que maneira esta obra se liga a outras do autor?

José de Paula Ramos Jr: Talvez não devêssemos considerar Inocência um “ponto fora da curva” na obra de Taunay, na medida em que ela apresenta núcleos de interesse diversos, o sertão, a cidade, a guerra, a degradação decorrente do regime escravista, memorialismo, observações de viagens, entre outros. O romance Inocência poderia ser considerado um “ponto fora da curva” na obra de Taunay, sim, na perspectiva estética, pois está muito acima das demais obras do autor do ponto de vista artístico. Inocência é a sua obra-prima.

A trama se passa no sertão do Mato Grosso, ainda durante o século XIX. Durante o século XX, diversos autores escreveram sobre os sertões brasileiros, mas no século XIX, isto ainda não era comum. Podemos considerar esta uma inovação de Taunay ou o cenário é apenas pano de fundo para uma narrativa basicamente de cunho romântico, típica de sua época?

José de Paula Ramos Jr.

JPRJ: Na literatura brasileira, o regionalismo é uma corrente de vasto e prestigiado acolhimento pelo público e pela crítica. Teve início com o romantismo e, desde então, vem sendo tradicionalmente praticado, evidentemente, com as mudanças correspondentes às poéticas culturais que historicamente se sucedem e sempre trazem algo de novo (basta pensar nas inovações trazidas por obras regionalistas de Coelho Neto, de Graciliano Ramos e de Guimarães Rosa, para ficarmos com só três exemplos). Taunay não esteve só na criação do regionalismo literário de nossa literatura. Ao seu lado é possível indicar autores e obras como O Gaúcho, O Sertanejo, Til, O Tronco do Ipê, romances de José de Alencar; não se pode esquecer a contribuição de Bernardo Guimarães, com O Seminarista, O Garimpeiro, O Ermitão de Muquém; é preciso lembrar de Franklin Távora, com O Cabeleira. Entre todos eles, porém, Taunay se distingue como autor do mais belo romance regionalista do nosso romantismo, que já continha aspectos antecipadores do realismo.

Quais os diferenciais desta edição da Ateliê?

JPRJ: A edição do romance Inocência, da Coleção Clássicos Ateliê, oferece ao leitor um texto fidedigno, estabelecido com o rigor da crítica textual. As notas autorais são mantidas e, para o leitor em formação, são acrescentadas notas lexicais e culturais, que contribuem para o entendimento do texto. A edição Ateliê de Inocência é apresentada por Jefferson Cano, professor doutor da Universidade de Campinas, com o ensaio “Natureza, Civilização e a Perda da Inocência”, que enriquece a fortuna crítica da obra.

Quais os aspectos mais interessantes do texto “Natureza, Civilização e a Perda da Inocência” em sua opinião?

JPRJ: O estudo de Jefferson Cano reconstitui o processo de publicação da primeira edição de Inocência e da sua recepção pela crítica literária. O primeiro torna possível entrever algumas das dificuldades enfrentadas pelos autores do século XIX para que suas obras fossem publicadas, fator que certamente se associa à consciência dos editores quanto à incerteza de retorno do investimento, pois o leitorado era diminuto (estima-se que na década de 1870, excluídas as crianças, 78% da população livre do país era analfabeta). A recepção da crítica, por sua vez, foi francamente favorável e é exemplarmente resenhada. Alguns aspectos pertinentes levantados pela crítica pioneira e supérstite são retomados, desenvolvidos, analisados e interpretados de modo original e perspicaz por Jefferson Cano: a paisagem e o homem do sertão não se diferenciam, integram-se, e quando em contato com personagens que representam a cultura urbana, a mútua incompreensão é inevitável, bem como o choque entre essas duas realidades tão diversas – a natureza e a civilização. Outras importantes oposições presentes no romance são destacadas e, nesse contexto, ganha importância o narrador cuja função é demonstrada numa perspectiva tão inédita quanto minuciosa e pertinente.

Visconde de Taunay

Sob quais aspectos a leitura de Inocência pode surpreender o leitor do século XXI?

JPRJ: Um leitor do século XXI pode se surpreender com a leitura de Inocência por várias razões. Entre elas: a alta qualidade artística do texto; a ação verossímil, bem articulada e emocionante; a hábil criação de personagens, tanto em seus aspectos físicos quanto morais; a revelação da cultura dos sertanejos no século XIX, na região de Mato Grosso: seus usos, costumes, tradições e valores, entre os quais se destaca o papel de lamentável degradação das mulheres, totalmente sujeitas aos desígnios arbitrários dos homens.

Impressões de um leitor de Euclides da Cunha

Por Renata de Albuquerque

A FLIP já acabou, mas Euclides da Cunha (homenageado da 17ª edição da Festa) merece continuar na pauta. Por isso, hoje, o Blog Ateliê traz impressões de leituras de Felipe Tavares de Moraes sobre Euclides da Cunha, suas obras e os livros sobre o autor. Felipe é professor, formado em História, Mestre em Educação pela UFPA e Doutor em Educação pela USP e se considera um “leitor comum, não especialista na obra euclidiana”.  Entretanto, Euclides da Cunha despertou sua atenção já durante o Ensino Médio e ele nunca mais parou de ler as obras do carioca e as escritas sobre o autor.

“Nas aulas sobre os movimentos de contestação a recém implantada República, Canudos era mencionado como uma destas manifestações. (…). Os Sertões (era considerado), segundo os professores no Ensino Médio, uma das principais obras do pensamento brasileiro. Foi aí que fiquei curioso em lê-lo. Ingressei no curso de História, na Universidade Federal do Pará (UFPA), no qual tive a oportunidade de ler a obra, conhecer com mais profundidade a trajetória intelectual de Euclides da Cunha e as suas contribuições para pensar o Brasil e a Amazônia”, conta ele.

Felipe Tavares de Moraes

Sua formação em História permitiu que ele percebesse, em Euclides da Cunha, o desejo de entender o Brasil profundo, a realidade sertaneja “dos mais longínquos rincões amazônicos”, ainda que com um profundo pessimismo. “O sertão é uma categoria central no projeto intelectual de Euclides da Cunha, no qual civilizar o Brasil era civilizar o sertão. Por isso, urgia investigar o sertão”, acredita. Segundo ele, ler Os Sertões continua uma obra atual porque faz o leitor tomar contato com uma carnificina que guarda laços com a realidade atual do país.

O interesse por Euclides da Cunha adensou-se por causa de sua Tese de Doutorado, em que Felipe analisa a construção do seu pensamento social e educacional de José Veríssimo. “A minha hipótese é que José Veríssimo e Euclides da Cunha compartilhavam o mesmo instrumental analítico cientificista, porém suas análises eram orientadas por distintas experiências sociais, políticas e culturais, respectivamente, de um ‘natural’ (paraense) e de um ‘estrangeiro’ (fluminense) a região”.

Para os leitores que consideram a obra de Euclides da Cunha difícil, Felipe diz: é uma obra árida, com é típico de obras oitocentistas, um testemunho de um tempo histórico que, por meio da linguagem literária, jornalística e científica nos permitem acessar uma época cheia de dilemas, ambiguidades e ambivalências. “Não é uma linguagem fácil. Este desafio da linguagem, porém, não deve desencorajar o jovem leitor brasileiro contemporâneo. Nesse sentido, a edição do Os Sertões, da Ateliê Editorial, a meu ver, é a melhor disponível no mercado editorial brasileiro. O prefácio, a cronologia, as notas e o índice fazem desta edição uma das mais completas, sobretudo pelas notas críticas de rodapé que proporcionam uma imersão integral na leitura, evitando a consulta onipresente do dicionário e do google, e permitindo o contato com este outro tempo evocado nos significados e imagens do texto euclidiano”, diz.

Já sobre Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, a biografia do escritor carioca, Felipe afirma que ela se destaca por ser um estudo rigoroso, que faz um levantamento documental sobre a vida e obra do autor de Os Sertões. Segundo ele, essa pode ser uma “bússola para aqueles que são marinheiros de primeira viagem na obra de Euclides da Cunha”. “O que mais me interessou na biografia de Amory é o capítulo dedicado a trajetória de Euclides na Amazônia, chamado ‘À Margem da História’, pois meus investimentos de pesquisa vão tratar exatamente deste período da sua vida. Nesse sentido, a biografia é excelente no levantamento de fontes relacionadas ao trabalho de Euclides na Amazônia”, conclui.