Renata Albuquerque

História da Língua Portuguesa

Antônio Suárez Abreu*

Surge agora, pela Ateliê, uma nova reimpressão do livro História da Língua Portuguesa, organizado pelo Prof. Segismundo Spina, editado pela primeira vez em 2008.   É uma obra dirigida especialmente aos alunos de Letras, mas que será lida com facilidade por qualquer pessoa leiga que se interesse pela história do nosso idioma.  Além de explicar brevemente as características gramaticais de cada um dos períodos da história do Português, desde seu surgimento no século XII até os dias atuais, seus autores incluem, ao final de cada capítulo, análises de textos emblemáticos de cada um desses períodos, o que permite ao leitor um entendimento mais funcional e colorido da língua.

É preciso dizer que, durante os últimos quarenta anos, os estudos históricos da Língua Portuguesa foram postos em segundo plano, dando lugar apenas a estudos sincrônicos, obedecendo à cartilha de Ferdinand de Saussure, o que foi um erro.  Atualmente, a Linguística Histórica vem ganhando cada vez mais importância, uma vez que é possível e desejável conciliar seu conhecimento com o funcionamento da língua atual.   Esse é o ponto de vista da moderna Linguística Cognitiva, sobretudo quando trabalha com o fenômeno da Gramaticalização, ou faz uso do modelo da Teoria da Complexidade, uma vez que os processos cognitivos usados para processar a linguagem em uso são os mesmos que a levam sofrer mudanças ao longo do tempo. Joan Bybee, em seu recente livro Language Change, publicado em 2015, diz que “Entender a mudança linguística nos ajuda a entender os estados sincrônicos, suas estruturas e as variações encontrada neles.”

As pessoas encarregadas de escrever os capítulos da História da Língua Portuguesa compõem um time de primeira linha.  Assim, Amini Boainain Hauy  ficou responsável por descrever a parte mais antiga do Português, desde o século XII até o século XIV; Dulce de Faria Paiva ficou com a tarefa de trabalhar com  o Português do século XV até o século XVI, passando o bastão a Segismundo  Spina, que trabalhou os séculos XVI e XVII.  A seguir, Rolando Morel Pinto ficou encarregado do século XVIII, Nilce Sant’Anna Martins, do século XIX e, finalmente, Edith Pimentel Pinto, do século XX.   O resultado é um harmonioso relato de fatos linguísticos relacionados a importantes momentos históricos e culturais, dando ao leitor uma visão privilegiada do panorama linguístico de Portugal, Brasil e de outros países lusófonos ao longo de oito séculos.  Parabéns a Ateliê, por contribuir para essa importante tarefa!

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita(Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

Conheça as obras de Antônio Suárez Abreu

Livros novos com desconto: os melhores presentes de Natal

Para quem ama ler, livro é sempre o melhor presente: de aniversário, ou mesmo sem ter data comemorativa próxima. Então, dar livro de presente de Natal é acertar em cheio! Não tem  como errar. E se der para aproveitar promoções de verdade, com preços mais baixos e descontos, melhor ainda.

 

A Ateliê Editorial preparou uma lista incrível, para todos os gostos e bolsos, de livros novos e com desconto. Veja algumas sugestões:

 

Antologia Fantástica da Literatura Antiga

Marcelo Cid reúne nesta Antologia cerca de trezentas histórias provenientes da Antiguidade greco-latina num arco de tempo que começa no século VIII a.C., com excertos de Homero, e se estende até o século VI d.C. Provenientes de textos poéticos, mas também de obras de Filosofia, História, Teologia e Medicina (quem diria?), são narrativas breves, dotadas não só de algum evento extraordinário mas também de certa incômoda estranheza, que só faz aguçar a curiosidade dos leitores. [João Angelo Oliva Neto]

De R$65,00 por R$39,00

 

Palmeirim de Inglaterra

A novela portuguesa de cavalaria Palmerim de Inglaterrafoi escrita por Francisco de Moraes em 1544. O enredo está dividido em duas partes:  a primeira trata do nascimento e as primeiras aventuras dos irmãos gêmeos, Palmeirim e Floriano, filhos de D. Duardos e Flérida. A segunda, mostra os dois irmãos que saem pelo mundo, realizando façanhas  ao lado de companheiros e damas, até culminar na grande batalha final entre “turcos” e “cristãos”, na qual sucumbem muitos dos heróis cuja trajetória acompanhamos nas páginas iniciais. Feitos de guerra e feitos de amor dão um colorido especial ao objetivo maior: a defesa da cristandade.

De R$ 182,00 por R$109,20

 

A Casa dos Seis Tostões

Paul Collins e sua família abandonaram as colinas de San Francisco para se mudarem para o interior do País de Gales – para se mudarem, na verdade, para a vila de Hay-on-Wye, a “Cidade dos Livros”, que ostenta mil e quinhentos habitantes e quarenta livrarias. Convidando os leitores a entrarem em um santuário para os amantes dos livros, A Casa dos Seis Tostões é uma meditação sincera e muitas vezes hilária sobre o que os livros significam para nós.

De R$ 58,00 por R$ 34,80

Arte, DorArte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise

Entender a percepção como fenômeno estético é o que motiva as reflexões deste livro. Os treze ensaios retomam ideias de Lyotard, Argan, Winnicott, Bachelard, Chauí, entre outros. No entanto, o pensamento de Frayze-Pereira gira em torno das obras de Freud, Merleau-Ponty e Foucault. Com eles, o autor mostra que a arte se faz no encontro de dois sentimentos: o da forma e o do mundo. A partir dessa conexão entre percepção e política, a obra lança nova luz sobre o entendimento humano.

De R$ 82,50 por R$ 41,25

Cancioneiro de PetracaCancioneiro

Cancioneiro de Petrarca, concluído por volta de 1370, foi o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente. Nele, Petrarca abriu o caminho para uma poesia do sentimento, num jogo emocionante com a razão, e com uma nova linguagem. O que há de solene, de quase escultural em Dante torna-se variado, por vezes esvoaçante, em Petrarca. A fortuna favoreceu mais o primeiro, mas o segundo deixou marcas mais fundas, que perduram até hoje na poesia.

De R$160,00 por R$112,00

 

Gentíssima

Era com lápis, papel e noções de taquigrafia que a jovem jornalista Maria Ignez registrava, nos anos de 1960, depoimentos de famosos e anônimos. Deixando de lado o gravador e convocando a prosa solta, ela capturava na fala das pessoas os instantes mais fugazes, cotidianos. Em sua escrita ágil, a autora consegue ir muito além da biografia ou do furo jornalístico. Seus entrevistados compõem um rico mosaico cultural: de Dalí a Di Cavalcanti, de Pixinguinha a Gil, de Kubitschek a uma lavadeira carioca.

De R$ 43,00 por R$ 21,50

 

Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português

Desde a Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil, de José de Anchieta, de 1595, vários utilíssimos dicionários dessa língua foram organizados e publicados por diferentes autores. Este livro de Ermano Stradelli, no entanto, contém uma diferença que o torna um documento de grande relevância linguística, sociológica e antropológica. Tendo vivido e trabalhado na região amazônica, onde morreu, sendo fluente na língua geral, recolheu um vocabulário vivencial da língua nheengatu. Não mais as relíquias dos tempos iniciais da Conquista, mas a língua nheengatu já adaptada à conceituação e à descrição de coisas e situações da sociedade que dessa Conquista resultou. O nheengatu como língua dinâmica, o que explica sua vitalidade até os dias de hoje em várias regiões do Brasil, como o Alto Rio Negro, onde é língua oficial. [José de Souza Martins]

De R$72,00 por R$ 43,20

 

Âncora Medicinal para Conservar a Vida com Saúde

Alimentação, qualidade do ar, higiene e descanso são alguns dos temas desta obra. Sua primeira edição é de 1721, mas o texto traz diversas recomendações surpreendentemente atuais para manter uma vida saudável. A obra teve apenas três reedições, todas no século XVIII, e ressurge agora com glossário. A linguagem foi atualizada pelos professores Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, Leônidas Querubim Avelino (UFMT), Sílvio de Almeida Toledo Neto e Heitor Megale (USP).

De R$82,50 por R$ 41,25

 

Livro Viva VaiaViva Vaia – Poesia 1949-1979

Esta edição de Viva Vaia, obra que estava esgotada, é a mais completa de todas as que já vieram a público. Além de manter o projeto gráfico original, de Julio Plaza, ela devolve a impressão em cores a alguns poemas – dentre os quais o clássico “luxo”. Este volume contém ainda um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, que não foi incluído nas versões anteriores por motivos técnicos. Vem encartado, com o livro, o CD Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor. Contém CD encartado

De R$ 145,00 por R$ 87,00

 

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Seleta de poemas “Na Pureza do Sacrilégio”

Confira a seguir alguns poemas do livro “Na Pureza do Sacrilégio”, de Carlos Cardoso, com desenhos de Lena Bergstein. A seleção foi feita pelo próprio autor, cujas fotos são de Bel Pedrosa:

 

Camaleão

Como um camaleão rastejo pelo
silêncio do meu quarto.

É poesia o encontro das paredes?

São ópio as estrelas aplumadas em
cada esquina do meu ego?

Ou será benevolente a lágrima que escorre por
minh’alma quando brado louco por felicidade?

Os arredores repletos de melancolia
ainda se refazem do gelo.

A ausência de um ombro, de um
corpo catatônico que seja,
faz-me lembrar o quanto era bom
o diálogo com os meus olhos.

Tocar a escuridão quando a voz do
desespero insistia no apego.

Mozart me enlaça com um fio de
náilon na garganta.
São as trevas rodeadas de luzes
intangíveis,

metáfora do abominável descaso
público a um quase morto.

Ninguém, nem mesmo a solidão, tem
mãos assim tão pequenas.

 

 

 

Eu serei noite e serei dia

 

Tenho uma outra face
que não é a rebeldia do exílio,
conto com a morte
e uma palavra de alívio

para quando o sermão de Maria
ocultar o sublime sonho

do unicórnio perdido,

saberei que o tempo
é apenas uma gota d’água
a beber o saber etéreo
da fugaz sabedoria,

sempre que as coisas
forem tristes
e o rio guardar em si,
o ser

por onde o ser não navega,

eu serei noite e serei dia,
e serei dia e serei noite.

 O poema, o começo

 

Indago, por onde iniciar essa resenha.
De dentro para fora, de um lado para o outro,
sem foco, com rima, com ou sem sentimento.

Lamento, tormento, piedade, felicidade.

Simples feito a natureza, complexo como a humanidade,

  Agudo, fraco, obtuso, disforme,

angelical ou demoníaco,
soberbo, decente, incoerente, desejoso,
voluptuoso e indiferente.

Com as mãos sujas de argila, o copo cheio de tequila,
e aquela menina que tanto desejo, seu beijo.

Ou abordando a tristeza, a sutileza, as formas de beleza,
as luzes, a ribalta.

Por onde começar essa bossa, esse texto,
essa nossa vossa discordância,
pela juventude, tema de infância,
pela infância, pureza e relevância.

Afinal, iniciarei pela instância, ininterrupta discrepância.

 

 

 

 

 

 

 

Frase primeira

E como falar
de outra forma?
de cortar
e reformatar o futuro,
e assim querer
e ser sem par.
Por que ser assim
pura forma?
tanta cor
entre ares dúbios,
ferrugens,
e sorrateiros costumes
de manter
sombras assimétricas,
como a de pensar
antes de ser,
e andar
por entre cadeiras

que margeiam limites
intangíveis,

formas sem abdômen,

sem retina.
Ainda quero uma frase primeira,
nua,
ligeiramente inteira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ventania

Para Antonio Cicero

Iluminar a sombra
e torcer pelo sol
até que venha a chuva,

sapatear pela escuridão
com trovões e ventania,

molhar os dedos
sentir o frio e o arrepio
que é estar.

Ateliê na 19ª Festa do Livro da USP

A Ateliê marca presença, mais uma vez, na Festa do Livro da USP. Esta já é a 19ª edição da festa, que oferece livros com descontos de, no mínimo, 50%.

A Ateliê Editorial está na Tenda Azul, com uma grande lista de livros em promoção. Veja no mapa:

Veja a seguir alguns dos livros que estarão à venda no evento:

Almanaque Tipográfico Brasileiro

O Almanaque Tipográfico Brasileiro apresenta, de maneira divertida, a arte de transformar letras em objetos visuais. Conta com a colaboração de diversos especialistas, como o escritor Fernando Morais, o tipógrafo Cláudio Rocha e a bibliotecária Ana Virgínia Pinheiro. Juntos, eles compuseram este mix de artigos, brincadeiras, curiosidades e ilustrações, no típico estilo almanaque. O resultado é um registro irreverente da história da tipografia, dos primeiros tipos aos grafites urbanos.

De R$ 61,00 por R$10,00

 

Sobrecapa do livro “Capas de Santa Rosa”

Livro vencedor do Prêmio Jabuti 2016 (categoria Projeto Gráfico),  Capas de Santa Rosa mostra o trabalho de Tomás Santa Rosa, que se  dedicou a vários ofícios no campo das artes plásticas: executou pinturas e gravuras, criou capas, ilustrações e projetos gráficos para livros, revistas e jornais, elaborou cenários e figurinos para o teatro. Foi responsável pela cenografia da peça Vestido de Noiva, dirigida por Ziembinski em 1943, considerada um divisor de águas no processo de modernização do teatro brasileiro. A convivência com Portinari, com quem trabalhou e de quem se tornou amigo, permitiu que aperfeiçoasse o seu apurado senso estético. Com esse conhecimento, Santa Rosa passou a assinar a coluna de crítica de arte no Diário de Notícias em 1945, herdando o posto do aclamado Di Cavalcante. Luís Bueno destaca neste livro o que considera fundamental para o conhecimento da história da editoração e do design gráfico no Brasil: as capas criadas por Santa Rosa. De R$ 118,00 por R$ 50,00.

Ensaiando a Canção – Paulinho da Viola e Outros EscritosEnsaiando a Canção – Paulinho da Viola e Outros Escritos é um recorte da obra de Paulinho da Viola e reflexão sobre a canção brasileira. Eliete Negreiros analisa poesia e canção e encontra as temáticas, os procedimentos artísticos e a poética no trabalho do sambista. A primeira parte do livro mostra alguns sambas e mergulha na obra do compositor. Há também breve história do samba carioca e entrevista inédita com o artista. Já a segunda se detém em questões gerais do universo da canção e destaca mais o aspecto literário, considerando letra de música como poesia. De R$ 36,00 por R$ 5,50.

 

 

Em A Moeda da Arte – A Dinâmica dos Campos Artístico e Econômico no PatrocínioEduardo Fragoaz examina as complexas relações entre o campo financeiro-econômico e o campo artístico. Sua tese geral é que mesmo que, em última instância, o marketing que obedece ao primeiro campo tenda a prevalecer, a lógica do campo artístico não é passiva e reativa, negociando possibilidades de ações e espaços com resultados significativos para vida cultural e para a experiência do público. De R$ 63,00 por R$ 15,00.

 

 

Por Minha Letra e Sinal é o fruto de sete anos de pesquisas do Projeto Filologia Bandeirante. A partir do exame de manuscritos, os estudiosos obtiveram informações sobre a época das bandeiras e sobre a língua portuguesa do período. Além disso, identificaram, por meio de entrevistas, traços linguísticos que permanecem até hoje nas cidades erguidas sobre os antigos caminhos do ouro. Ao revelar parte fundamental do passado brasileiro, a obra torna-se referência para historiadores e linguistas. De R$ 77,00 por R$ 16,00.

 

 

Hypnerotomachia Poliphili  é uma reprodução fac-similar do exemplar que pertenceu à Biblioteca Guita e José Mindlin. Em iniciativa conjunta da Imprensa Oficial, Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes e Biblioteca Paulo M. Levy (com apoio da Engep e Biblioteca Vinária Reppucci) edita-se o notável incunábulo que saiu das prensas de Aldo Manuzio em 1499. Intitulado Hypnerotomachia Poliphili (Batalha de Amor em Sonho de Polifilo), é considerado obra-prima de composição tipográfica, em especial pela incrível harmonia alcançada no casamento do texto com as mais de 170 xilografias. Por R$ 120,00

Carlos Cardoso volta à poesia com “Na Pureza do Sacrilégio”

Leia, a seguir, um trecho do prefácio do livro, escrito pelo escritor e crítico literário Silviano Santiago:

Carlos Cardoso fotografado por Bel Pedrosa

A criação revela o ser pelo desnudamento ao mesmo tempo em que o poema o revela ao leitor. O ser se dá a se conhecer, sendo re/conhecido pelo outro.

Em Carlos Cardoso, o termo positivo, a pureza se subordina ao termo negativo, o sacrilégio. Isso formalmente. Do ponto de vista semântico, a pureza na verdade se sobrepõe ao sacrilégio. A estética é superior à ética, embora, no frigir dos ovos, com ela se confunda. Apenas parecem se excluir. Ganha a expressão. Mas não é apenas a expressão que se reforça, como lembra Houaiss; reforça-se também e principalmente o deslizamento contínuo entre polos extremos e opostos de valoração. Lembre-se que na notável interpretação do México que é O labirinto da solidão (1950), Paz não elege como herói uma das várias figuras em destaque na História nacional mexicana. De modo quase impiedoso, descarta a todas, a fim de mostrar as fronteiras fluidas do nacionalismo geográfico. Paz elege como herói mexicano, isto é, como encarnação absoluta da mexicanidad, a figura nacional mais contraditória e polêmica, ou seja, alguém que representa o extremo oposto das figuras públicas destacadas e louvadas pela História − o pária mexicano que se exilou na Califórnia pela miséria ambiente na terra natal. Elege como herói o estrangeirado pachuco, um dos extremos a que pode chegar o mexicano, como ele aclara.

O deslizamento do formal ao semântico e do semântico ao formal não é apenas uma das graças do notável poema de Fernando Pessoa, como Jakobson demonstrou genialmente; é também o movimento que articula, em várias cadeias estruturantes, os sucessivos poemas de Carlos Cardoso. Como Pessoa nos poemas do livro Mensagem, Carlos é um “poeta da estruturação”, que abole todos os golpes da “incerteza”. Ao se dispor a “limitar” sua voz poética pelos termos extremos, Carlos tampouco se proporá como um “poeta da variedade”, para citar uma vez mais o linguista e crítico russo. O poeta limitado é aquele que não se exprime pela incerteza; ele constrói, arquitetura e estrutura, para nos valer dos três verbos escolhidos pelo próprio Pessoa e citados por Jakobson.

A força do oximoro é tão potente no universo de Carlos Cardoso que o leitor pode se valer da figura de retórica como chave para uma compreensão global de todos os poemas de Na pureza do sacrilégio. É simples, acompanhem-me. De um dos extremos do livro − o título e a epígrafe já comentados – dê um grande salto até o outro extremo − o poema final da coleção. Neste, os dias – isto é, as ocupações do poeta com a palavra – se acumulam entre a queda dos amanheceres e o raiar dos entardeceres, mas não se acumulam na incerteza do vaivém entre termos opostos. Acumulam-se no reforço da viagem cotidiana entre os amanheceres em queda e os entardeceres em brilho, que vêm previstos na capa pelo oximoro e são ratificados por Octavio Paz em termos de criação poética. Leiamos, em contraste, o último poema do livro:

 

Que caia o amanhecer,

O raiar do entardecer,

que os dias acumulem-se

não na incerteza,

mas na pureza do sacrilégio.

Traduzir para aproximar o leitor do texto

Álvaro Faleiros explica as motivações que o levaram a traduzir Mallarmé

Renata de Albuquerque

“Un coup de dés jamais n’abolira le hasard”. Os hoje muito conhecidos versos de Stéphane Mallarmé (1842 – 1898) certamente foram um desafio no século XIX, não apenas para leitores, mas também para intelectuais. Tido como o primeiro poema tipográfico de que se tem notícia, o texto pode ser considerado revolucionário. No Brasil, a tradução do poeta concretista Haroldo de Campos tornou-se icônica. Icônica, mas não única.

Álvaro Faleiros, poeta, compositor, tradutor e professor livre-docente de Literatura Francesa da USP contribuiu grandemente para essa fortuna crítica com sua tradução de “Um Lance de Dados“, que agora chega à segunda edição. Para falar sobre o trabalho, o Blog da Ateliê entrevistou-o:

Traduzir Mallarmé é, por si, um desafio, que deve ter sido ainda maior porque a tradução do poeta Haroldo de Campos é um marco da literatura brasileira. Poderia nos falar sobre como foi essa experiência? Que desafios enfrentou?

Álvaro Faleiros: Como digo na orelha, a retradução nasceu de uma necessidade de sala de aula. Apesar de deslumbrante, a tradução de Haroldo de Campos torna o texto de Mallarmé ainda mais opaco. O grande desafio foi aderir mais ao texto mallarmeano, sem tanta liberdade de invenção.

O senhor escreve, no texto “Refrações sobre Um Lance de Dados de Mallarmé” que “uma boa tradução acaba por provocar uma outra ainda”. De que maneira seu trabalho foi provocado pelo trabalho de Campos?

AF: Haroldo de Campos fez uma tradução de invenção, o contraponto que me pareceu necessário foi o de uma tradução na busca de maiores correspondências semiótico-textuais.

Que inquietações estão postas em sua tradução?

AF: A necessidade de cada tempo de produzir sua própria historicidade.

O poeta Stéphane Mallarmé

Houve alguma preocupação, de sua parte, em deixar a tradução menos erudita do que aquela proposta por Campos? Por quê?

AF: Não creio que  palavra seja “menos erudita”, mas sim, “mais aderente” ao texto de Mallarmé, pois assim poderia ajudar o leitor brasileiro a aproximar-se um pouco mais do texto.

Que influência a tradução feita por Haroldo de Campos  exerceu sobre seu trabalho? Como avalia essa relação entre ambos os resultados, já que o senhor sugere, no texto de abertura do volume, em uma nota de rodapé, que se coteje sua tradução com o original e com outras traduções, citando, neste caso, a de Campos?

AF: Haroldo de Campos é o primeiro grande teórico da tradução poética no Brasil. Qualquer estudioso que queira se debruçar sobre a poética do traduzir entre nós deve conhecer sua obra. No meu caso, creio prestar-lhe homenagem ao produzir deslocamentos teóricos e práticos a partir do que ele fez. Assim, retraduzir Mallarmé significa, nesse caso, preencher uma lacuna deixada, isto é, permitir ao leitor lidar com nuanças macro e micro-textuais sobretudo de ordem mais imagética.

No texto que abre o volume, Marcos Siscar afirma que “A dificuldade e a estranheza de Mallarmé nos interessariam, hoje, por motivos diferentes daqueles que a destacaram no século passado”. Quais seriam estes motivos, em sua opinião? 

AF: Mallarmé não precisa ser compreendido apenas como um poeta de vanguarda, ele pode ser lido como alguém que se move em diálogo mais delicado com a tradição, vide o que fez com o soneto e o verso octossilábico; este é o caminho da leitura proposta por Siscar.

E ainda: pessoalmente, por que esta obra de Mallarmé despertou seu interesse como tradutor?

AF: Nesse caso específico foi a dificuldade de meus alunos de ler a tradução do Haroldo de Campos em sala; quis dar a eles uma tradução que os ajudasse de algum modo a lidar com as opacidades do texto sem acrescentar-lhe outras.

Sua tradução leva em conta o que o senhor chamou de “redes semânticas que permeiam o universo do poema”. Como foi construído esse aspecto do trabalho?

AF: Não se trata de “criar enredamento”, mas de explicitar os que se encontram no texto, por exemplo, lidar com nuanças imagéticas e semânticas como a sutil distinção que existe em francês entre “abîme” e “gouffre” e que não foi trabalhada na versão haroldiana.

Em seu texto “Refrações sobre Um Lance de Dados de Mallarmé”, o senhor escreve: “Neste poema, o itálico marca graficamente a hipótese do número, da linguagem – o Ser – ante a eterna tese do acaso – o Nada”, trecho que nos remete ao texto de Sartre, de título “O Ser e o Nada”. É possível fazer alguma relação entre sua tradução e a obra de Sartre – ou, por outra: a obra de Sartre exerceu algum tipo de influência no seu trabalho de traduzir Mallarmé?

AF: Não, Sartre não me influenciou diretamente, apesar de eu reconhecer que a visada mais ontológica da obra de Mallarmé por ele tratada também permeia de algum modo a leitura por nós proposta.

O que Será?

Renato Tardivo*

Adélia Bezerra de Meneses

Desenho Mágico – Poesia e Política em Chico Buarque, premiado ensaio de Adélia Bezerra de Meneses originalmente publicado em 1981, reflete com profundidade os primeiros quinze anos da obra do artista. Sua leitura hoje, quando Chico acaba de lançar o 38º álbum de estúdio, torna-se ainda mais interessante. Os desdobramentos de sua obra – ampliando-se também à prosa de ficção – parecem ter comprovado a precisão do exame empreendido por Adélia: “Nostalgia, utopia e crítica delineiam uma trajetória em espiral em que, num progressivo expandir-se, há a retomada, sempre, dos inícios, e a volta dos temas fulcrais” (p. 143).

As composições de Chico Buarque (canções e peças de teatro) são agrupadas nas seguintes categorias (que correspondem a capítulos do livro): Lirismo Nostálgico, As Canções de Repressão, Variante Utópica e Vertente Crítica. Assim, suas primeiras canções não abordam, ao menos não diretamente, temas políticos; apresentam, em vez disso, uma temporalidade mítica, na qual a realidade é posta entre parênteses. “Carolina”, em cujos “olhos fundos/guarda tanta dor”, talvez seja um dos principais emblemas do lirismo nostálgico. A canção, que rendeu uma série de interpretações nem sempre favoráveis (como a dos tropicalistas), “é extremamente significativa de um determinado momento histórico: aquele em que uma parcela da intelectualidade brasileira, alijada da práxis política, tende a se refugiar em situações de melancolia e inação: da janela, vê (ou não vê) o tempo passar” (p. 61).

Ocorre que, após os três primeiros álbuns, as composições de Chico privilegiam a “tensão para um futuro aberto […] A proposta dessas canções será a de mudança do presente” (p. 67). Em vez de “canções de protesto”, a autora propõe que nomeemos as produções desta fase de “canções de repressão”, pois trazem em sua estrutura a atmosfera que pairava sobre o Brasil – e, por conseguinte, sobre sua classe artística – do início dos anos 1970. “Apesar de você”, “Cálice”, “Angélica”, entre tantas outras, dão mostras de um autor sensível, vigoroso e maduro. Mobilizada por um presente repressor, a obra de Chico passa a desenhar (e desejar) novas (e não menos difíceis) formas de ser.

Um dos desdobramentos das canções de repressão é a potencialização da utopia – que resulta em “uma crítica não direta, mas que brota do confronto entre uma realidade ‘real’ e uma realidade possível” (p. 103). Uma das canções mais fortes nessa direção é “O que Será”: “projeção para um futuro absoluto, para aquilo que só pode existir por enquanto na fantasia, mas de que os homens se nutrem para o seu enfrentamento com a realidade” (p. 118). O futuro, já em aberto a partir das canções de protesto, se radicaliza enquanto absoluta incerteza. É como se, em sua vertente utópica, o compositor construísse um estatuto político para o impossível.

 

E a vertente crítica, conquanto já estivesse presente em canções anteriores, como “Pedro Pedreiro” (do primeiro disco), marca, segundo a autora, a produção mais recente (quando da escrita do ensaio) do compositor. A clássica “Construção”, os textos para teatro, “Bye-bye Brasil”, “Até o Fim”, a novela Fazenda Modelo e, em uma das leituras mais originais do livro, “Sabiá” – belíssima canção que, no entanto, se notabilizou pela rixa com “Para Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré – são composições pródigas “em crítica social, numa trajetória que parece corresponder a um percurso pessoal e político” (p. 143). A crítica de Chico se volta inclusive à própria capacidade de criar, como em “Essa Moça Tá Diferente” e “Agora Falando Sério” – crítica que, décadas mais tarde, se expressaria na angústia contida em seus romances. “Crise da sociedade. Crise da linguagem” (p. 154). Crise do Eu, podemos acrescentar – e, além da obra literária, composições posteriores como “Todo Sentimento” e “Futuros Amantes” tomariam essa direção.

Nostalgia (volta ao passado), utopia (construção do futuro) e crítica (leitura lúcida do presente) – a obra de Chico Buarque é, com efeito, atravessada por essas três vertentes. À flor da terra, à flor da pele, sua palavra é corpo por excelência e, como emblema da espiral vertiginosa que confere historicidade à sua obra, o corpo cantado por ele é “palavra/que se produz/muda”.

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

 

Conheça outras obras de Adélia Bezerra de Meneses  

Clássicos para o vestibular em promoção e com desconto

Já é novembro! Durante os últimos meses, todos os estudantes que planejam fazer vestibular se dedicaram muito a estudar, fazer simulados e aprender mais. As provas de primeira fase da Fuvest e da Unicamp acontecem ainda neste mês. E ainda há muito por estudar. Uma das partes mais importantes é a lista de obras obrigatórias.

Para dar uma forcinha para os estudantes nesta reta final, a Ateliê preparou uma promoção com títulos clássicos, que fazem parte da lista de diversos vestibulares. As obras, que trazem estudos introdutórios e notas explicativas especialmente escritas para quem quer conhecer melhor os textos, estão com descontos de até 50%.

Além de títulos clássicos, como Dom Casmurro (Machado de Assis), Triste Fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto) e Mensagem (Fernando Pessoa), entre outros, também há livros que explicam melhor autores, obras e panoramas históricos.

É o caso de Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa, um excelente roteiro para o entendimento de um dos poetas mais importantes da língua portuguesa. A vida e a obra do autor de Mensagem são apresentadas de maneira integrada, em torno aos temas centrais de sua trajetória, tais como: a linguagem modernista, a criação dos heterônimos, as ideias políticas e estéticas e os diferentes projetos literários. Capítulo após capítulo, forma-se uma figura complexa e genial – verdadeira esfinge literária.

 

 

Eça de Queiroz. Uma Biografia, é a mais completa e rica biografia do escritor português. Neste volume o leitor encontrará não apenas a informação mais fidedigna sobre a vida do escritor, acompanhada de vasta e preciosa iconografia, mas também reflexões críticas de primeira ordem. Neste livro generoso, encontrará ainda o leitor uma sucinta apresentação editorial das mais notáveis obras queirozianas, acompanhada de resumo do enredo e seleta coletânea de excertos de opiniões críticas. A esse rigor de informação e cuidado documental se alia uma prosa limpa e sedutora, o que torna este volume tão agradável ao leitor comum quanto indispensável ao especialista e ao estudante interessado na cultura luso-brasileira do século XIX.

O Altar & o Trono, de Ivan TeixeiraO Altar & o Trono – Dinâmica do Poder em “O Alienista”  traz minucioso levantamento dos discursos artísticos e culturais de que Machado de Assis se apropriou para escrever O Alienista. Ao mesmo tempo, analisa os processos retóricos em que se articulam as matérias. O leitor encontrará neste livro hipóteses estimulantes para uma revisão conceitual de Machado de Assis. Pela primeira vez, o artista é examinado em intrínseca relação com os signos de sua época e em sua condição de homem de imprensa: associado a grupos de poder, afeito à dinâmica dos periódicos, atento à reciprocidade dos compromissos e integrado com projetos editoriais.

 

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