Renata Albuquerque

Contos que Sangram

Renato Tardivo*

angu de sangue bxAngu de Sangue, coletânea de contos de Marcelino Freire, foi publicado pela primeira vez em 2000. No entanto, as dezessete narrativas do livro, que acaba de ser reimpresso, são extremamente atuais.

Não é exagero afirmar, por exemplo, que sua ambiência ficcional antecipa boa parte do (bem-sucedido) cinema pernambucano dos últimos anos, ao abordar, por meio de uma prosa ágil, a violência urbana e seus ruídos, a sexualidade explícita (mas não gratuita), o resgate dos afetos.

Mas é a convergência entre conto, teatro e poesia a maior virtude do livro. Não são poucas as frases que soam como versos exaustivamente lapidados, não obstante não percam o frescor e a oralidade de quem diz o que sente, e, ainda, componham narrativas que capturam o leitor e o derrotam, como queria Cortázar, por nocaute.

Os contos breves de Angu de Sangue são retratos da miséria humana. Sem concessões, Marcelino Freire extrai da abjeção, beleza; do “lixão”, “paraíso”; de “Socorrinho”, a menina abusada sexualmente, o “desmaio de anjo”. No conto “A Cidade Ácida”, por sua vez, morte e poesia aproximam-se vertiginosamente; também com poesia, em “J. C. J.”, adolescente infrator e vítima, no fim das contas, revelam-se dois lados de uma mesma moeda.

Ainda que as narrativas equilibrem-se quanto à (alta) qualidade, a mais brilhante delas é justamente a que dá título ao livro: “Angu de Sangue” é um conto inventivo que trabalha muito bem a dimensão espaço-temporal e os paralelismos entre amor e violência, ruptura e ligação, “como se fosse novidade o fim de um relacionamento, o começo de um outro ainda mais violento”. A (aparente) circularidade do conto aponta, na verdade, para a passagem do tempo em espiral, em que sempre se pode sangrar mais um pouco. Afinal, “a gente não se toca quando o coração está parando”.

A vida tem mesmo dessas incoerências: de súbito, vai morrendo aos poucos, e, quando vamos ver, “mataram o salva-vidas”. Com efeito, os planos fechados das narrativas de Angu de Sangue são emblema de um Brasil diverso e arcaico que historicamente (ainda) se alimenta do próprio sangue. Até quando?

Conheça outros títulos de Marcelino Freire

 

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir Que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Muito além da filosofia

Organizador de Rousseau e as Artes fala sobre a obra, em que pesquisadores mostram a importância do pensador suíço em diversas áreas do conhecimento

Por Renata de Albuquerque

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) atuou em diversos campos do conhecimento. O escritor lançou suas ideias no campo da teoria política, foi compositor musical autodidata, mas sua faceta mais conhecida é a de filósofo.

Em 2012, ano em que se completariam trezentos anos de seu nascimento, foi organizado o colóquio Rousseau e as Artes; uma iniciativa do Consulado Geral da Suíça em São Paulo e da Universidade de Campinas.

Com o objetivo de encontrar os interlocutores contemporâneos de Rousseau, o Colóquio extrapolou os muros do meio acadêmico e foi levado também à Pinacoteca do Estado de São Paulo, um ambiente que apenas reforçou o conceito que o projeto já explicitava no nome: trazer ao público informações sobre como a obra do pensador suíço tem influência também sobre as artes.

capa rousseau baixaA importância e a repercussão da iniciativa foi tamanha que agora a Ateliê coloca nas prateleiras o livro Rousseau e as Artes, organizado por Célia Gambini e Paulo Mugayar Kühl. O livro registra as reflexões dos pesquisadores presentes no evento, que procurou complementar os estudos sobre Jean-Jacques Rousseau, realizados no campo estritamente filosófico, e estendê-los ao campo das artes. “É possível emprestarmos algumas categorias do pensamento de Rousseau e verificar o quanto elas nos ajudam a pensar alguns aspectos da produção artística contemporânea”, considera Kühl. A seguir, ele fala sobre o assunto:

“As artes, desde a antiguidade, sempre atraíram a atenção de filósofos e vários eram os temas da discussão: a função delas na sociedade, questões mais específicas do que hoje chamaríamos de criação artística, as diversas preceptivas que tentavam de um modo ou outro regular a criação e também a recepção das obras etc. No século XVIII, vários são os pontos de mudança: um progressivo abandono da noção de mímese como o elemento central das artes, uma ênfase maior em questões como o gosto, o gênio, o nascimento da Estética como disciplina etc. Rousseau, assim como nos outros assuntos a que se dedicou, traz uma série de questionamentos palpitantes para o debate sobre as artes. De um lado, seu enorme interesse na música e o confronto com algumas ‘facções’ já estabelecidas – daí sua preferência pela música italiana, seu desprezo pela música francesa e a condenação que daí deriva. Mas também uma visão crítica sobre o teatro, sobre as artes do desenho, sempre com o intuito de rever posições estabelecidas, exercer a crítica e, quando possível, propor novos caminhos. O que pretendemos mostrar neste colóquio é que suas posições com relação às artes são equiparáveis ao Rousseau ‘pensador político’ ou ao Rousseau ‘educador’. Na verdade, segundo Marie-Pauline Martin, o pensamento do autor suíço sobre música é estruturador de toda sua posterior reflexão sobre questões da política.

Desde o século XVIII, muitas foram as transformações nas artes e no pensamento sobre elas. Não se trata de estabelecer um paralelo imediato entre as ideias de Rousseau e a produção artística na atualidade, mas sim, de encontrar ecos tardios, ressonâncias constantes, permanências escondidas. Os textos que compõem o livro mostram como tanto os detratores quanto os apreciadores de Rousseau o colocaram num lugar central, o que, de modo, nos chega até hoje. Assim, é possível emprestarmos algumas categorias do pensamento de Rousseau e verificar o quanto elas nos ajudam a pensar alguns aspectos da produção artística contemporânea. Nesse sentido, o texto de Peter Schneemann, que faz parte do livro, é muito esclarecedor ao tratar do tema da ‘inocência’. Mas também podemos tomar vários outros conceitos, sobretudo o de ‘natural’ e ‘natureza’ para olharmos uma produção artística que está tanto nos museus e galerias, mas também nos teatros, salas de concerto e na produção de música. No mesmo ano de comemorações do tricentenário do nascimento de Rousseau, foram realizados vários curta-metragens, com diversos diretores que realizaram seus filmes inspirados por ideias de Rousseau (http://lafautearousseau.com/). Ali vemos o quanto as questões levantadas pelos filósofos ainda são palpitantes e podem frutificar das mais variadas maneiras”.

Permanente Mutação

Por: Renato Tardivo*

        Muito já se falou sobre a relação entre literatura e memória. Ora, a literatura é um dos registros por meio do qual deixamos o nosso legado às futuras gerações, e, reciprocamente, todo escritor se vale da memória para a criação de sua ambiência ficcional.



borda2  Literatura e Memória Política – Angola. Brasil. Moçambique. Portugal, coletânea organizada por Benjamin Abdala Junior e Rejane Vecchia Rocha e Silva, reúne ensaios sobre livros de autores da língua portuguesa, atentando justamente para a presença de aspectos históricos e políticos articulados à dimensão propriamente estética das obras.

Em “Da Certeza das Vidas Novas à História Real de um Amor Impossível”, Laura Cavalcanti Padilha apresenta um cuidadoso estudo sobre as obras dos angolanos Luandino Vieira e Pepetela, sustentando a tese de que ambos executam uma escrita para a liberdade, seja no período anterior à independência de Angola, seja nos dias de hoje, quando se ressignifica todo o derramamento de sangue e se ponderam as conquistas e limites trazidos pela revolução.

Na parte dedicada a escritores brasileiros, vale destacar o minucioso ensaio de Benjamin Abdala Junior – “Linguagem e Vida Social nos Romances de Graciliano Ramos”. Escreve o autor: “Formam-se, então, nos campos de atividades humanas dos romances de Graciliano Ramos, articulações hegemônicas que envolvem os objetos, uma rede opressiva que reproduz as articulações dominantes, que procura subordinar a si as demais, que vêm da experiência sociocultural” (p. 93). E conclui que as personagens nos romances de Graciliano são sujeitos históricos, e a forma com que o autor trabalha a linguagem convida o leitor a entrar na história e refleti-la de dentro.

Em “Escrita, História e Política em José Saramago”, Pedro Brum Santos discute a interface entre o literário e o social na obra do escritor português a partir do romance História do Cerco de Lisboa, livro em que ficção e história se encontram perfeitamente: “A ficção, de tal modo, busca responder ao desafio de compreender o passado não como um tempo acabado, mas como algo vivo em permanente mutação” (p. 283).

        A afirmação acima sobre o livro de Saramago pode se estender às demais obras analisadas na coletânea (são 15 ensaios no total). Do ponto de vista da psicanálise, memória envolve sempre, em maior ou menor grau, algo de traumático, uma vez que está associada a vivências que nos marcaram. Dessa perspectiva, passamos a vida ressignificando as experiências traumáticas, de modo a criar diferentes possibilidades de encaminhá-las. Esta é, em linhas muito gerais, a noção de temporalidade freudiana do après-coup, segundo a qual o vivido é ressignificado “depois do trauma”. Assim, a literatura não teria apenas a função de registrar a memória política de um período, senão de reeditá-la, mantê-la viva, “em permanente mutação”.

Conheça outras obras de Benjamin Abdala Jr. 

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir Que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê Editorial).

Da academia à ficção

Trajetória de O mistério do Leão Rampante assemelha-se à da Ateliê Editorial, editora que se lançou no mercado com a publicação deste título: se no caso do livro um projeto acadêmico originou uma ficção, a editora publica, hoje, tanto estudos quanto literatura

Por Rodrigo Lacerda*

Leão-Rampante---20-Anos

 Eu escrevi O mistério do leão rampante por acaso. Era 1994, eu tinha 24-25 anos e estava me formando na faculdade de História na USP. Milagrosamente, havia surgido uma professora disposta a me orientar no mestrado, Janice Theodoro, uma das intelectuais mais inquietas do departamento. Ela iniciava então um curso de pós sobre as fronteiras entre literatura e história, ou sobre “meta-história”, como era moda falar, e me convidou a acompanhá-lo como ouvinte. O trabalho final do curso pedia que transformássemos nosso projeto de tese num livro de ficção.

Sentei na frente do computador com duas coisas em mente: o texto deveria soar abarrocado, irônico e sonoro como o dos meus escritores preferidos – João Ubaldo Ribeiro e Eça de Queirós –, e ter a estrutura simples e o humor leve do libreto da ópera Don Giovanni, de Mozart/Lorenzo da Ponte. Escrevi tudo em quinze dias, consultando documentos de feitiçaria do século XVIII, manuais de heráldica e textos sobre Shakespeare.

O que saiu foi uma novela histórica meio bufa, passada na Inglaterra Elisabetana, na qual a concepção de indivíduo em Shakespeare (o pretensioso tema da minha tese) é o assunto de fundo. Orgulhoso do resultado, e surpreso, mostrei para a orientadora, que adorou. Em seguida mostrei aos amigos, também com boa resposta.

Nessa mesma época, eu havia conseguido um emprego na editora da USP. O diretor editorial Plínio Martins Filho – um dos responsáveis por fazer da Edusp uma editora de verdade, com equipe e catálogo próprios, e não um mero BNDES editorial para os empresários do ramo – já estava por lá. Eu o conhecera rapidamente dois ou três anos antes, logo que chegara a São Paulo, quando intermediei uma co-edição Nova Fronteira-Edusp.

Um belo dia, passei a ele uma cópia de O mistério do Leão Rampante. Sinceramente não lembro se, além da sua opinião, havia implícito ou explícito no meu gesto um pedido de ajuda para a publicação. É muito provável que houvesse, seria até natural. Mas eu jamais poderia prever a sorte que eu tive.

O Plínio me disse que sempre havia tido vontade de abrir a própria editora, mas nunca aparecera um livro que o animasse a botar mãos à obra. Agora, ao ler o Leão Rampante, sentira o clic:

“Você aceita ser o primeiro livro da minha editora?”

Assim nasceu a Ateliê Editorial.

Ele colocou uma única condição: o livro precisaria do prefácio de algum escritor da minha preferência ou de um professor da universidade. Fã incondicional do João Ubaldo Ribeiro, sugeri ao Plínio que tentasse com ele. O Plínio, acatando a sugestão, mandou um Sedex para a Academia Brasileira de Letras, com uma carta e uma cópia do livro. Não houve resposta. Então apelei ao meu pai, amigo e àquela altura ainda editor do João Ubaldo, perguntando se teria a cara de pau de pedir um textinho de apresentação diretamente. Ele teve.

Semanas depois, eu estava na Edusp, trabalhando pela manhã, quando minha irmã telefonou. Com a voz excitada e emocionada, e meu pai ao seu lado, ela disse que passaria por fax (ainda não se usava internet para esse tipo de coisa) o texto que haviam acabado de receber do nosso ídolo familiar. E me lembro de ver o timbre da ABL saindo da máquina, seguido pelo texto curto, mas com adjetivos poderosos, que fez meu ego inflar mais instantaneamente que um air bag.

Não tenho muitas lembranças da produção do livro. O projeto gráfico é do Plínio com seu sócio na época, um colega nosso de Edusp. Lembro vagamente de rever as provas, e nitidamente de escrever as orelhas. O lançamento aqui em São Paulo foi marcado para o dia 31 de maio de 1995. Talvez essa falta de memória para detalhes da produção deva-se ao fato de que minha filha, Clara, nasceria logo depois, em julho, e eu vivia essa expectativa muito intensamente. Ter um filho, escrever um livro…

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Frente e verso do convite do lançamento em São Paulo

 

 

 

 

O lançamento paulista foi na livraria do Pedro Correia do Lago, na rua João Cachoeira, 267, Itaim. No Rio, o lançamento foi no Shopping da Gávea, na livraria Timbre, do histórico Aluísio Leite e sua ótima sócia Kiki. O livro ganhou boas resenhas em quase todos os jornais. O escritor João Antônio, que viraria tema do meu doutorado, e minha mestra shakespeariana Bárbara Heliodora, o editor-escritor-jornalista-professor Paulo Roberto Pires, o jornalista-romancista Sergio Rodrigues, e a jornalista-professora-produtora cultural Cristiane Costa foram alguns dos que escreveram falando bem dele.

Um elogio maravilhoso foi o do jornalista Jorge Vasconcellos. Ele, nessa época, juntamente com o amigo Claudiney Ferreira, tinha um programa sobre literatura no rádio chamado Certas Palavras. Chegando para mim, o Jorge perguntou: “Foi você mesmo que escreveu esse livro?”

Achando curiosa a pergunta, respondi:

“Foi, por quê?”

“Poxa, é que eu não dava nada por você…”

Não é toda hora que a gente reverte uma opinião dessas!

 

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O Certas Palavras daria ao livro o primeiro prêmio de Melhor Romance. Em final de 1995, comecinho de 96, precisei voltar a morar no Rio de Janeiro. Por isso, enquanto as votações do prêmio Jabuti corriam, eu e o Plínio estávamos torcendo longe um do outro. Lembro que, em alguma conversa com ele, eu argumentei que achava impossível ganhar, pois concorria com vários nomes já consagrados:

“Seria como o Madureira chegar na final da Copa do Mundo.”

 

Um dia, no meu trabalho, chegou a lista dos premiados e a letra do Plínio bem grande na página:

“O Madureira chegou!”

*Autor de O Mistério do Leão Rampante

Esplendor do Barroco Luso-brasileiro

Benedito Lima de Toledo*

barroco

Em rítmico compasso, as incursões do autor por vasto patrimônio de colégios jesuíticos, conventos franciscanos e mosteiros beneditinos, em todo o Brasil, propiciam contributos novos para o melhor abalizamento dos primórdios da arquitetura luso-brasileira.

Objetiva o presente livro, produto de circunstanciado trabalho de pesquisa, oferecer ao leitor a oportunidade de ingressar e usufruir da riqueza desse universo, suas emoções e sua capacidade de surpreender e despertar inquietações.

São 429 imagens.  Há plantas e reproduções de esquemas e documentos, sendo que a maior parte do material distribuído ao longo de 365 páginas de Esplendor do Barroco Luso-brasileiro é constituída por documentação fotográfica devida a seu autor, o arquiteto Benedito Lima de Toledo.

Nascido com o Maneirismo, no fim do Renascimento, o Barroco conheceu manifestações em vários países da Europa, ganhando destaque em Portugal, notadamente em sua expressão rococó.

Uma obra que trata do Barroco obviamente não poderia deixar de dar o devido destaque a Antônio Francisco Lisboa – o Aleijadinho -, e sua diversificada produção na elaboração de riscos, na escultura em pedra sabão e na talha dos altares.  Deveria ter, pelo convívio com seu pai, sólidas noções da arte de construir.

Engenheiros militares engajados nas missões demarcatórias foram responsáveis por um apreciável acervo de obras.

Por mais de três séculos o Barroco traduziu as aspirações e as contradições da sociedade brasileira, ávida de encontrar seus próprios caminhos.  É a arte que dá expressão aos anseios da nação em sua longa busca de autoafirmação.

*Arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e Professor Titular da História da Arquitetura na mesma instituição.Bolseiro da Fundação CalousteGulbenkian para estudo da arquitetura popular em Portugal. Membro da Academia Paulista de Letras (Cadeira 39).

Conheça outras obras do autor

Mais segurança para comprar livros da Ateliê Editorial

Você que acompanha a Ateliê aqui no Blog, no site, no Facebook ou no Twitter já deve ter notado que algumas mudanças estão acontecendo.

Uma delas diz respeito à forma de fazer suas comprar no nosso site. Para tornar o processo de compra o mais seguro possível, quando você compra em nosso site, o sistema acessa diretamente o site da operadora do cartão, para que os seus dados não sejam expostos.

Acontece que alguns dos sites das operadoras pedem um “código de segurança extra” para realizar a operação. Isso é completamente normal. Trata-se de um sistema de segurança anti-fraude chamado Autenticação Adicional – 3D Secure. Ele é utilizado pelas operadoras de cartões junto a alguns bancos:  Verified by Visa e MasterCard SecureCode. Se esse código de segurança extra for solicitado pelo site, basta fazer a confirmação e finalizar sua compra normalmente.

 

Para entender melhor como o sistema funciona, assista a esse vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=nq5pOL9j1A4

 

Agora, pode ir às compras no nosso site, que está ainda mais seguro para garantir que você continue lendo bons livros com comodidade e tranquilidade!

 

Condensação e expansão em Viva Vaia

Por: Thiago Moreira Correa*

Viva Vaia Viva Vaia traz ao leitor uma ampla visão da obra de Augusto de Campos, pois podemos observar a evolução de formas ocorrida ao longo de 30 anos em sua poesia. Dos versos decassílabos de Rei menos o reino (1949-1951), passando pelo experimentalismo de Poetamenos (1953), pela instauração da Poesia Concreta (Exposição Nacional de Arte Concreta no MAM/SP, em 1956), chegando às Intraduções (1974-1977) e aos galácticos Stelegramas (1975-1978); a transformação poética parece ser um fio condutor – dentre muitos – que nos liga à totalidade do livro.

Ora, essa mudança pode ser pensada sob vários pontos de vista. No entanto, ao passar da produção poética para a crítica desenvolvida não somente por Augusto de Campos, mas também pelos seus “irmãos concretistas”, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, verificamos termos recorrentes que podem balizar essa leitura global que Viva Vaia nos proporciona. São eles: inovação e condensação.

Dessa crítica, notamos que a condensação tem um papel preponderante para a criação de uma poesia inovadora, cujos pilares Mallarmé, Pound, Joyce e Cummings levariam à tão cara forma sintético-ideogramática de uma poesia verbivocovisual. Por isso, buscamos compreender brevemente como essa técnica efetiva-se nas poesias feitas no período de 1949 a 1979.

A abordagem escolhida para tratar desse processo de condensação está situada na teoria da linguagem, já que a exploração da plasticidade e sonoridade verbal fundamenta a produção dessa poesia. Assim, consideramos a Expressão e o Conteúdo da linguagem para fazer nossa análise (os termos “plano de expressão” e “plano de conteúdo”, estabelecidos por Louis Hjelmslev, foram simplificados para Expressão e Conteúdo, para evitar a terminologia que divide cada plano em forma e substância).

Expressão e Conteúdo

 

Expressão e Conteúdo formam, por meio de sua junção, o sentido linguístico. Por isso são indissociáveis: a Expressão é a veiculadora dos conteúdos, que se não forem expressos, não tornarão possível a apreensão da mensagem.  Do mesmo modo, se a Expressão não está vinculada a nenhum conteúdo, o resultado é uma mensagem ininteligível. Por exemplo, se ouvíssemos duas pessoas falando dinamarquês, sem que soubéssemos a língua, somente teríamos acesso à Expressão fonética daquela língua, dissociada de qualquer Conteúdo.

Além disso, um mesmo conteúdo pode ser expresso de diversas formas: um romance e um filme podem ter conteúdos equivalentes, porém cada linguagem o expressa com suas formas particulares, que são manifestadas por um ou mais de um canal de percepção (audição, olfato, paladar, tato e visão). Entretanto, dividimos Expressão e Conteúdo para fins de análise, contribuindo para a compreensão do sistema linguístico.

Logo, o caráter verbivocovisual da poesia de Augusto de Campos analisado pela teoria da linguagem gera outra perspectiva sobre o objeto poético: diversas Expressões manifestariam um mesmo Conteúdo verbal. A plasticidade e a sonoridade das palavras e a tatilidade da página são empregadas para intensificar conteúdos verbais – o que ganha maior relevância nessa nova edição com papel Offset. A partir dessa divisão, priorizamos a relação entre conteúdo e visualidade.

Se o processo de condensação guia nossa análise, é necessário relacioná-lo ao seu contrário semântico – a expansão – para identificar as direções tomadas pela Expressão e Conteúdo poéticos. Respeitando a sucessão cronológica, observamos que a fase chamada de “pré-concreta” possui uma tendência à expansão verbal e a uma neutralidade visual, se comparada ao restante da obra – nem expansiva e nem condensada, ou seja, regular. O uso intenso da sintaxe analítico-discursiva e das figuras de linguagem, principalmente a metáfora, criaria um efeito expansivo no conteúdo verbal; já o emprego das regras poéticas tradicionais (rima e metrificação) e da tipografia homogênea formaria poemas neutros ou regulares, mantendo o método da tradição poética.  Apesar de que uma análise comparativa, aos poemas produzidos por outros autores no mesmo período, encontraria traços de uma poesia mais condensada, precursora da síntese concretista.

Em Poetamenos (1953) e Bestiário (1955) há uma expansão plástica e uma condensação verbal. Por exemplo, no poema “Paraíso pudendo” (1953), há uma síntese de várias temáticas: sexual, religiosa e metalinguística, sob uma multiplicidade cromática, topológica e eidética, como ressalta Antônio Vicente S. Pietroforte. Desse modo, o conteúdo verbal seguiria nessa mesma direção – redução metafórica e síntese sintática – até o seu ápice na Poesia Concreta; enquanto que a Expressão perderia intensidade nesse movimento expansivo e acompanharia a condensação verbal, devido à monocromia e ao geometrismo.

Dessa intensa condensação verbal e plástica alcançada pelo Concretismo, como em “Tensão” (1956) e “Pluvial” (1959), os poemas posteriores a ele são direcionados a uma flutuação de maior ou menor condensação do Conteúdo, e a Expressão regressaria a seu anterior processo de expansão. Esse ponto de vista pode ser identificado no aumento da heterogeneidade visual de poemas como “Psiu!”(1966) e “Memos” (1976), bem como nos aumentos e diminuições da presença verbal em poemas como “Greve” (1961) e “Eco de Ausonius” (1977) ou em “Luxo” (1965) e “Rever” (1970). O extremo dessa expansão plástica e dessa condensação verbal produz poemas como “Olho por Olho” (1964) e “Pentahexagrama para John Cage” (1977) ou o livro Profilogramas (1966-1974), em que o conteúdo verbal se resume aos títulos dos poemas. Entretanto, tais extremos integram uma pequena parte dessa fase posterior.

Seria nesse campo intermediário, entre os poemas concretos e poemas visuais ou plásticos, que a maior parte da obra “pós-concretas” estaria situada. Como mostra o esquema abaixo:

Plano do Conteúdo Verbal

Esquema 1 Plano de conteúdo verbal VIVA VAIA

 

Plano de Expressão Plástico

 

Esquema 2 Plano de expressão verbal VIVA VAIA

Portanto, podemos pensar em uma poesia que condensa seus conteúdos verbais e expande sua expressão plástica. No entanto, é necessário observar que essa expansão plástica contribui para a intensificação do conteúdo verbal, criando a força comunicativa da poesia de Augusto de Campos e que parte desse efeito de objetividade e síntese se deve ao desenvolvimento da metalinguagem nesse tipo de poesia.

Viva Vaia reúne a heterogeneidade desse work in progress que é a obra de Augusto de Campos, mostra o desenvolvimento de sua poética e nos seduz com o seu experimentalismo artístico. Depois de mais de 60 anos fazendo poesia, a vaia é condensada ao nada e viva (!) essa poesia sempre inovadora.

 

Conheça outros livros de Augusto de Campos publicados pela Ateliê Editorial

 

*Thiago Moreira Correa trabalha nas áreas de tradução e pesquisa em Semiótica e Linguística Geral. É mestre pela Universidade de São Paulo com a dissertação “A metalinguagem na poesia de Augusto de Campos”, atualmente, realiza pesquisa em nível de doutorado sobre Inscrições Urbanas.

 

 

Capa Premiada

Escritores, Gatos e TeologiaA capa do livro Escritores, Gatos e Teologia, criada por Gustavo Piqueira para a obra de Waldecy Tenório, que a Ateliê Editorial publicou em 2014 acaba de receber o prêmio de melhor capa de livro de ficção e não ficção do IDA. Um reconhecimento que, certamente, só reforça e confirma o compromisso da Ateliê não apenas com o conteúdo mas com a qualidade estética das obras que edita. A seguir, Piqueira fala sobre a premiação:

Blog da Ateliê: Que Prêmio o livro recebeu? 

Gustavo Piqueira: A capa do livro Escritores, Gatos e Teologia recebeu um IDA International Design Award 2015, prêmio internacional de design com base nos Estados Unidos.

 

Qual a importância dele? O que significa esse prêmio na sua carreira?

GP: Um prêmio é, acima de tudo, um reconhecimento da consistência do trabalho que desenvolvo, especialmente quando se trata de um prêmio internacional, onde a seleção é feita frente a projetos desenvolvidos ao redor do mundo. Eu já ganhei um número considerável de prêmios – mais de 300 – mas sempre é bacana ir adicionando novos à lista…

 

O que, em sua opinião, fez com que essa capa fosse vencedora? Quais os diferenciais dela?

GP: Na verdade, isso é muito difícil dizer, o critério do júri é sempre algo muito subjetivo. Acredito que a capa busca não fazer qualquer leitura muito literal do texto (ou do título) mas, por outro lado, tenta não se tornar neutra demais. Talvez tenha sido essa combinação o que encantou o júri. Mas, como disse, é apenas uma hipótese.

 

 

Marina Abramović – singular e múltipla

Renato Tardivo*

 

A servia Marina Abramović é uma das artistas mais relevantes da atualidade. Com a exposição Terra comunal, em cartaz até maio deste ano no Sesc Pompeia, em São Paulo, o público tem a oportunidade de conhecer de perto o seu trabalho, além de participar de bate-papos e vivências com a artista.

Conhecida como a “avó da performance”, Abramović vem se notabilizando nas últimas décadas ao propor diversas obras cujo continente é o seu próprio corpo. Assim, ao levar as possibilidades corpóreas ao limite – explorando suas relações com outros corpos e com a natureza e, ainda, desafiando muitas vezes o seu funcionamento – a artista convoca o espectador a refletir sobre a sua própria condição.

 

Perspectiva relacional

É célebre a proposição de Marcel Duchamp: “São os espectadores que realizam as obras”. Em direção análoga, o historiador da arte Giulio Carlo Argan afirma que “a arte existe para ser percebida”. O papel do espectador, dessa perspectiva, é essencial, pois não se limita a assimilar ou acessar elementos contidos na obra, mas participa ativamente da construção de sentido. Esta é, portanto, uma perspectiva relacional, segundo a qual o sentido não se encerra apenas na obra nem apenas no espectador: ele se constrói entre a obra e o espectador.

Marina Abramović potencializa esse efeito ao eleger como temas das performances esse espaço do entre, sobretudo nas obras que criou com o artista e companheiro de vida por 13 anos, Uwe Laysiepen (conhecido como Ulay). Vamos relembrar algumas delas.

Em 1977, o casal expôs “Imponderabilia”, performance que consistia no seguinte: nus, de frente um para o outro, estáticos e simétricos, os artistas apoiavam-se em colunas de modo a deixar um espaço estreito entre seus corpos. Ao público, cabia passar por esse espaço, inevitavelmente tocando os corpos dos artistas. Nessa mesma época, o casal propôs “Light/Dark”: frente à frente e sentados sobre os calcanhares, ambos estapeavam a face um do outro, iluminados por duas fontes de luz sobre o fundo escuro em que se encontrava o público – que reagia das mais diferentes formas. E em “Rest energy”, performance apresentada em 1980, Abramović segurava um arco, enquanto Ulay tensionava uma flecha, apontada para a artista. Nessas e em outras performances, há, portanto, uma tensão entre os corpos, seja entre os corpos dos artistas, seja entre estes e os espectadores.

Com o fim da parceria com Ulay, Marina dedicou-se às aproximações da performance com o teatro, interpelando ainda mais diretamente o espectador. Célebre, nesse sentido, é “The artist is present”, performance de 2010 que se estendeu por mais de 700 horas, ao longo de meses, no MoMA, em Nova York. Nela, a artista ficava sentada, imóvel, de um lado de uma mesa e o espectador sentava-se do outro lado, olhando os olhos da artista por tempo previamente indeterminado. Ao longo da exposição, Abramović prescindiu da mesa, restando apenas as cadeiras.

Marina Abramović - The Artist is Present - A Artista está Presente The Artist is Present**

Trata-se, com efeito, de uma performance emblemática, uma vez que, nela, mais do que nunca, a artista explorou corpo e mente à exaustão, mas dessa vez imbuída de raro minimalismo: viver em silêncio a troca de olhares com o outro. Com efeito, “The artist is present” empreende um mergulho radical no espaço intermediário entre artista e público, de modo a questionar essas próprias condições: o espectador é convocado a participar da obra enquanto a artista o contempla.

 

Espaço invisível

Ao convocar o espectador a partir de um mergulho nas faculdades expressivas do corpo, Marina Abramović dialoga com o pensamento de Maurice Merleau-Ponty, filósofo que supera o dualismo entre o sentir e o entender ao propor que o pensamento recue ao seu ponto de partida, isto é, ao mergulho no sensível.

É também em consonância com Merleau-Ponty que, por exemplo, João A. Frayze-Pereira mostra a construção da arte a partir do encontro entre a forma e o mundo em Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise.

No caso de Abramović, o corpo, tocante e tangível, zona de fronteira entre mundo interno e mundo externo, é emblema da ambiguidade perceptiva: como no encontro entre as mãos que se tocam (qual toca e qual é tocada?), há uma reversibilidade que jamais se esgota. Este hiato entre nós e as coisas, sujeito e objeto, artista e espectador, é o espaço invisível que preexiste e amadurece em sintonia com o visível. E é a este lugar que as performances de Marina Abramović nos convocam – porque é dali que partem e para lá que retornam. Não é aleatória, portanto, a ênfase na sensorialidade em suas obras.

Em “The artist is present”, a propósito, há uma exaustão que ultrapassa o cansaço físico. Desde Freud, sabemos que somos muitos e que, por isso, convocamos o outro (que também nos convoca) a múltiplos lugares. Resumidamente, este é o fenômeno da transferência: transferimos todo o tempo (e não apenas em análise) emoções e afetos que dizem respeito à nossa complexa trama histórica. Assim, em direção contrária à banalização tipicamente contemporânea em que somos muitos e nenhum, Marina Abramović se expõe à multiplicidade feroz do olhar do outro, de modo que esse outro, refletido no corpo da artista, possa se ver, se sentir, se pensar: singular e múltiplo.

 

* Escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir Que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

**Marina Abramović

The Artist is Present (A ArtistaestáPresente)

Performance

3 meses

The Museum of Modern Art, Nova York, NY

2010

Fotografia de Marco Anelli

Cortesia do Acervo Marina Abramović