Renata Albuquerque

Retrospectiva 2015: o que ler agora?

Por: Renata de Albuquerque

“Finalmente!”. Essa é a sensação da maior parte das pessoas quando chega o final do ano. Afinal, esse é um momento em que (quase) todo mundo faz uma pausa no trabalho e nos estudos, para recuperar as energias para o ano que vai começar.

E, para quem gosta de ler, a pergunta que fica é: o que ler agora? Durante o ano todo priorizamos as leituras “necessárias” e deixamos as “prazerosas” para depois. Ou são os livros técnicos, ou são os didáticos e paradidáticos que acabam tomando o espaço de poesia, romance, contos e biografias.

Então, para ajudar na escolha das “leituras de férias”, a Ateliê faz uma Retrospectiva dos seus principais lançamentos do ano:

angu de sangue bxAngu de Sangue

Marcelino Freire

Estreia de Marcelino Freire como contista, neste ano o livro ganhou uma nova edição, em comemoração aos seus 15 anos de lançamento.

 

 

 

Antologia da Poesia Erotica BrasileiraAntologia da Poesia Erótica Brasileira

Elaine Robert Moraes

Um dos maiores sucessos do ano, foi lançado durante a Flip e traz mais de 350 poemas escritos nos últimos quatro séculos por autores brasileiros.

 

 

 

kalevala capaKalevala – Poema Primeiro

Elias Lönnrot; tradução  Álvaro Faleiros e José Bizerril

Pela primeira vez esta parte do poema épico finlandês foi traduzida para o português. A edição estava esgotada e, em 2015, a Ateliê reeditou o volume.

 

 

 

capa mensagemMensagem

Fernando Pessoa

Esta edição de Mensagem traz ao leitor brasileiro, pela primeira vez, o texto rigorosamente estabelecido, segundo critérios da crítica textual, e atualizado, segundo o acordo ortográfico de 1990. A apresentação é de António Apolinário Lourenço.

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia É Criação: Uma Antologia

José de Almada Negreiros; Organização Fernando Cabral Martins e Sílvia Laureano Costa

Antologia que reúne poemas, crônicas, contos, diferentes prosas e até desenhos do multiartista português.

 

 

 

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom PantagruelO Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel

François Rabelais; tradução Élide Valarini Oliver

Nesta tradução inédita, Élide Valarini Oliver desvenda dois trechos até então obscuros da obra clássica.

 

 

 


decioblogTerceiro Tempo

Décio Pignatari

O futebol visto pelos olhos do poeta concretista e a partir dos pés de craques como Ademir da Guia, Rivellino, Nilton Santos, Garrincha e Pelé.

 

 

 

 

voz que cantaA Voz que canta na Voz que Fala – Poética e Política na Trajetória de Gilberto Gil

Pedro Henrique Varoni de Carvalho

O autor trafega pela análise do discurso e aponta como Gilberto Gil trouxe o seu discurso poético-tropicalista ao Ministério da Cultura.

 

Ateliê fecha 2015 com poesia

Por Renata de Albuquerque

2015 foi um ano cheio de dificuldades: econômicas, políticas, sociais. Mas, como disse Nietzsche, “nós temos a arte para não sucumbirmos junto à verdade”. Por isso, a Ateliê resolveu apostar na poesia para celebrar o final do ano e presenteia seus leitores com três obras que, se não são feitas apenas de versos, tecem-se de poética, criam imagens cheias de significações transcendentes e fazem da linguagem uma ferramenta lúdica de fruição:

 

Desconhecer, Ricardo Lima

desconhecer

Obra contém 40 poemas, escritos ao longo de três anos – todos sem título, sem tema definido e em letras minúsculas. Isso porque, para o autor, o mais importante é a unidade formada por todos eles. “No caso dos meus poemas penso que títulos seriam limitadores, pois iriam sugerir uma leitura, direcionar a interpretação. Além disso, como os poemas são sempre curtos, a inexistência de títulos possibilita uma leitura mais ininterrupta do livro, como se fosse um grande poema”.

Poema da página 11 de Desconhecer

nasci para cultivar

mundo

que não verei

 

neto do meu filho

cidadezinha asiática

sombra de algumas sementes

 

nasci para cultivar uma encosta

com floresta.

 

 

 

Girassol Voltado para a Terra, Renato Tardivo

grassol

A intenção de Tardivo era a de que seu terceiro livro de ficção fosse um romance. No entanto, ele explica, frases curtas, enredos concisos, mistérios cotidianos e existenciais foram surgindo.Depois de entrar nas redes sociais, diz, passou a se interessar pelo exercício da comunicação imediata e concisa.“Há um ou outro poema também, mas, em que se pese a transgressão de gênero, considero que se trata de um livro escrito em prosa”, define.

Metamorfose

Ela arrancou o texto à unha, enrodilhou-se em suas

frases. Envergonhadas, letras escorriam – como lágrimas –

das pernas.

 

Porta-retratos, Marise Hansen

portaretrato

Com apresentação de Ricardo Aleixo e quarta-capa escrita por Arnaldo Antunes, Porta-retratos é a estreia de Marise Hansen na poesia, que compila poemas escritos entre 2011 e 2014. Os temas variam: a lua, a solidão, o amor, a espera, o tempo, o mar, os mitos, mas costumam, em comum, estabelecer estreito vínculo com imagens, vistas sob novas perspectivas. “Muitos de meus poemas surgem de imagens, de momentos, de flagrantes. Gosto do ato de enquadrar, de encontrar ângulos, expressões de rosto, paisagens, contrastes e luzes”, esclarece a autora.

Peso Leve

Pesa

Transitar entre o invisível

Tanto quanto pesa

Esta poesia substantiva,

Tangível.

 

 

Esta poesia substantiva

De coisas e verbos

No infinitivo

Em que o tangível

É tão – e só –

Infinito.

 

Fetichismos Visuais: as contradições da comunicação na metrópole contemporânea

Por: Renata de Albuquerque

Em Fetichismos Visuais– Corpos Erópticos e Metrópole Comunicacional, o antropólogo italiano  Massimo Canevacci lança um olhar sobre a experiência pós-moderna da cidade polifônica e suas contradições, lançando mão de um novo conceito: o metafetichismo. A seguir, Canevacci fala sobre o livro, que acaba de ser reeditado pela Ateliê Editorial:

O antropólogo italiano Massimo Canevacci

O antropólogo italiano Massimo Canevacci

Você optou por se distanciar das definições de Marx e Freud sobre fetichismo. Como define esse novo fetichismo que investiga no livro, à luz do mundo globalizado, da sociedade da informação e dos excessos em que vivemos?

Massimo Canevacci: Marx e Freud utilizam o conceito de fetichismo da mesma maneira colonial dos primeiros portugueses, que encontraram na África rituais sagrados que não entenderam e que classificaram como animistas, bárbaros, mágicos, primitivos. Feitiço é palavra que deriva da latim, facticius; isto é fabricado, coisa material sem espiritualidade. Por isso, animismo significa uma alma menor, uma quase-alma. Infelizmente, para Marx, fetichismo é parte da alienação; e, para Freud, da perversão (só masculina). Assim, eles continuam a utilizar esta palavra no sentido colonial e discriminativo, que foi difundido pelo pesquisador francês de Brosses. No sentido comum atual, fetichismo continua a ser estigmatizado como uma aura suja que circunda uma atitude ou define um site pornô. Para mim, o fetichismo visual – e ainda mais o digital – manifestam uma ruptura em relação a este sentidos clássicos ou populares. O conceito de fetichismo esconde um enigma que eu queria tentar de desvelar e que não é possível elaborar numa maneira tradicional.  Nesse sentido “cotidiano”, o fetichismo é aplicado à moda, publicidade, cinema, videoclipes, design, arquitetura e, claramente, no youporn. Mas esta palavra tornou-se vazia, porque não consegue penetrar o enigma daquele que se continua a chamar fetiche.

primeira capafetichismos_visuais

O que é o “além do metafetichismo”? Qual a metáfora possível?

MC: A minha tentativa vai na direção de liberar tendencialmente o fetichismo das incrustações coloniais e modernas que continuam a ser divulgadas na contemporaneidade. Uma tentativa de separar fetichismo da alienação   ou reificação. Observar a potencialidade  de um conceito que vai além do dualismo objeto/sujeito, além do pensamento dicotômico em geral e afirmar uma antropologia não-antropocêntrica. Neste sentido, uma coisa, um objeto, uma mercadoria  ou – na minha palavra que unifica tudo isso,  facticidade – é possível perceber um lado vivente, de entidade, que tem uma sua biografia e sempre mais também uma biologia.  O meta-fetichismo tenta explorar o além do domínio que em parte está ainda incorporado no tradicional fetiche e verificar  a potencialidade de libertação das coisas de não ser só útil. O meta-fetichismo é a metáfora do  desejo difundido da meta-morfoses: mudar identidades, prazeres, formas, “corpos”, vidas…

Como o fetichismo que você define se coloca diante da nova realidade do voyeurismo que passou a existir a partir do advento da internet (caso, por exemplo, dos reality shows, que fazem tanto sucesso)?

MC: Voyerismo e narcisismo são duas palavras-chaves que foram inventadas antes da revolução digital ou da pessoa “normal” que vira famosa – mais que no sentido de Warhol (dos quinze minutos de fama) – por um reality show. Voyerismo e narcisismo cruzam a tela do computador, skin and screen, carne e pixel, e fundamentalmente o inconsciente não é mais uma articulação  dentro o “eu”. Ele se estende fora do sujeito e vai incorporando uma dilatação onde orgânico e inorgânico se misturam sempre mais. Isto é, sujeito e objeito… ou tecno-digital e tecno-cultura. Assim fetichismo por um lado vira uma das possível perversão normalizada apresentada da comunicação atual, entre dezenas e de cenas de outras; por outro lado, para mim, vira só um slogan ou melhor um símbolo vazio sem sentido. Este voyerismo adéqua a sua potência ao nível mais “normal” (desculpe a palavra) que cruza as antigas divisões de classes e vira a potencia da banalidade que se autorrepresenta. E agora todo o  mundo se pode autorrepresentar. Esse é o desafio da política e da antropologia comunicacional.

Andy Warhol: "todos têm direito a 15 minutos de fama"

Andy Warhol: “todos têm direito a 15 minutos de fama”

Como se coloca, dentro de sua hipótese, a questão da visão psicanalítica do “constituir-se pelo olhar do outro” versus o “reificar-se no olhar do outro”? Há alguma síntese possível que possa acolher o conceito de metafetichismo?

MC:  A clássica dialógica, seja psicanalítica que antropológica ou narrativa,  sempre afirmou que o indivíduo é tal enquanto existe o olhar do outro. É o outro que constrói a minha identidade. Mas alguns autores (me refiro a Adorno) afirmam que é impossível anular cada elemento reificado; que existe uma relação complexa entre reificação e objetivação. Quero dizer que não é possível purificar cada objeto de fragmentos reificados. Para amplificar o discurso, precisamos dizer que entra em cena também a petrificação, ou seja: como o mito é ainda presente na cultura cotidiana em cada experiência metropolitana ou indígena.   A objetivação é a natureza mediada pela cultura; a petrificação é a ratio mediada pela mitologia; a reificação é o objeto mediado pela indústria. Uma síntese é impossível: a síntese e a dialética estão mortas. É possível só aceitar o desafio de sincretizar os olhares: o olhar nunca é puro ou autêntico, mas felizmente é sempre híbrido e cheio de sintomas que manifestam a impuridade reprimida pelo domínio não somente ocidental.

Como se constitui a relação entre coisa, criatura e cultura a partir do conceito de metafetichismo?

MC: Esta composição – conceito para mim determinante em direção a uma nova narrativa  antropológica – deseja misturar, cruzar e atravessar  artes, performances, contos, vídeos, “digital storytellers” onde o meta-fetichismo elabora nas pragmáticas indisciplinadas modos outros de enfrentar natureza/cultura, criatura/coisa, mito/razão. Eu acho que muitos artistas em sentidos expandidos (incluindo cientistas) ou rituais em parte consumados (carnaval ou mega-concertos) tentam elaborar  este meta-fetichismo além do colonialismo, da reificação, da perversão ou do sentido “comum”. Aqui nasce a aliança e a dança entre meta-fetichismo e meta-morfoses.

Ficções Psicanalíticas

Renato Tardivo*

psi nova temporada

Recentemente, estreou a segunda temporada de Psi, série com texto e direção geral do psicanalista italiano radicado no Brasil, Contardo Calligaris. Embora não se trate de uma série de consultório, como In Treatment (adaptada no Brasil com o título Sessão de Terapia e direção de Selton Mello), a linguagem privilegiada é a psicanalítica.

Os episódios, mais ou menos independentes entre si,se passam em São Paulo e giram em torno de Carlo Antonini (em ótima interpretação de Emílio de Mello), espécie de alter ego do próprio Calligaris. Seu ofício de psicanalista de consultório é abordado, conquanto não incida ali o foco narrativo. Psi reúne situações de clínica extensa, isto é, eventos para além do consultório aos quais a psicanálise tem algo a dizer.

Emílio de Mello interpreta Carlo Antonini

Emílio de Mello interpreta Carlo Antonini

Como em In Treatment, um dos pontos positivos é abordar a humanidade do psicanalista. A tônica da primeira temporada é mais ou menos a seguinte: Antonini demonstra desinteresse pelas histórias (banais) dos pacientes que o procuram, e não titubeia em encaminhá-los para Valentina (Cláudia Ohana), sua colega de ofício, ex-aluna e ex-amante – Valente, como ele a chama, é sua principal interlocutora. Enquanto isso, no outro extremo, o psicanalista se atrai por histórias (surpreendentes) de não pacientes.

Claro está, o público-alvo não são psicanalistas ou psicoterapeutas. Nesse sentido, vale ressaltar que se trata de uma trama de ficção: não há preocupação com a verossimilhança nas histórias. Essa ressalva, contudo, não isenta parte da primeira temporada (sobretudo a primeira metade) do seguinte problema: Antonini, que vê o mundo pela lente da psicanálise, se confunde com um super-herói. Suas interpretações excessivamente didáticas e suas atitudes têm o poder de salvar pessoas, famílias, em suma, de resolver situações complicadíssimas.

Ao longo da segunda metade da primeira temporada, os textos ficam menos afetados. Carlo segue desinteressado pelos sintomas dos clientes – o que talvez equivalha ao bloqueio criativo de um artista –, mas deixa a posição de super-herói e o roteiro passa a explorar também aquilo que ele não dá conta de resolver. Resultado: a série fica mais interessante.

Há mudanças na vida de Antonini na segunda temporada (até o momento em que este texto foi escrito, ela está no quarto episódio), mas a tônica se assemelha à do fim da temporada anterior: roteiros equilibrados e um Carlo Antonini mais humano. Há, ainda, um reforço no time de diretores dos episódios, com nomes como o de Tata Amaral.

Quem está familiarizado com as ficções e, sobretudo, com as crônicas de Contardo Calligaris irá notar semelhanças entre elas e Psi. Com efeito, a série adota uma linguagem que problematiza o cotidiano pela lente da psicanálise, trazendo elementos para refletir a loucura e, principalmente, a normalidade presentes em nossa rotina por uma lógica que subverte o senso comum.

Mas a crença exagerada no poder da psicanálise às vezes enfraquece a trama. Se, em vez de trazê-la em sua vertente iluminista, o roteiro explorasse o potencial ficcional da psicanálise, o resultado poderia ser mais interessante – realidade e ficção, amalgamadas pela psicanálise, compareceriam em equilíbrio, fazendo justiça à premissa de Freud de que nosso psiquismo se constitui enquanto ficção. Essa observação vale para Psi e para as demais ficções de Contardo Calligaris: resultam demasiadamente psicanalíticas.

*Renato Tardivo é escritor, psicanalista, professor universitário e doutor em Psicologia Social pela USP. Publicou os livros de contos Do Avesso (Com-Arte/USP) e Silente (7Letras), e o ensaio de Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica (Ateliê).

Conheça as obras sobre psicanálise já publicadas pela Ateliê

Preconceito racial?

Por: Renata de Albuquerque*

 

O dia 20 de novembro foi escolhido como o Dia Nacional da Consciência Negra em 2003. A data lembra a morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, que aconteceu em 1695. Há quem diga que lembrar a data com um feriado não é necessário,  já que o Brasil é um país de mestiços e que a escravidão acabou há muito tempo. Mas será que não há mesmo racismo no país que foi o último de seu continente a abolir a escravidão, em 1888?

O preconceito no Brasil é tão forte que até mesmo Machado de Assis foi vitimado por ele. O escritor carioca, que fundou a Academia Brasileira de Letras e é considerado um dos mais importantes autores brasileiros, passou por um processo de  “embranquecimento”.

No início do século XX – Machado morreu em 1908 – ainda era vigente o pensamento segundo o qual os negros não eram capacitados para o trabalho intelectual. Machado de Assis, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira de origem portuguesa, era descendente de escravos alforriados. Mas, para torná-lo um exemplo, um modelo brasileiro, foi preciso “branqueá-lo”.

Machado de Assis por volta dos 25 anos

Machado de Assis por volta dos 25 anos

A "foto oficial" de Machado de Assis

A “foto oficial” de Machado de Assis

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Até mesmo o atestado de óbito do escritor carioca afirma que ele era branco, ainda que sua máscara mortuária ateste o contrário. A foto “oficial” de Machado ameniza os traços africanos que ele pudesse vir a ter. Uma depuração que foi possível graças a uma prática comum de então: a reaplicação de produtos químicos para reavivar os traços das imagens. O cabelo alisado e esbranquiçado, a pele clareada; o nariz mais afilado; os lábios escondidos por barba e bigode, para parecerem mais finos na foto de perfil.

Em 1939, em pleno Estado Novo, comemorou-se o centenário de Machado de Assis. A Ditadura Vargas aproveitou a oportunidade para fazer dele um mito nacional. A exposição “Machado de Assis” foi organizada pelo Instituto Nacional do Livro (INL). Estreou o  filme Um Apólogo – Machado de Assis, de Humberto Mauro, realizado pelo Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE). Fotos de Machado “branqueado”  passaram a enfeitar escolas recém-inauguradas e sua imagem passa a ilustrar moedas de 500 réis.

Houve um tempo em que nem mesmo a qualidade literária daquele que muitos consideram o maior escritor brasileiro de todos os tempos não era suficiente para deixar a questão da cor da pele em segundo plano. Recentemente, em 2011, quando muitos achavam que o racismo era uma questão superada, a propaganda de um banco retratou o escritor por meio de um ator de pele branca.

O racismo ainda é uma triste realidade que ainda é preciso combater.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de si: o querer e o poder de personagens femininas nos primeiros contos de Machado de Assis.

 

Conheça as obras de Machado de Assis publicadas pela Ateliê

Conheça as obras sobre Machado de Assis publicadas pela Ateliê

A voz de Gilberto Gil

Por: Renata de Albuquerque

 

De fã a pesquisador. Essa é a trajetória que o jornalista e pesquisador Pedro Henrique Varoni de Carvalho percorreu para tentar apreender e explicar a trajetória de Gilberto Gil dos palcos ao Ministério da Cultura – posto que assumiu em janeiro de 2003, durante o primeiro mandato do  presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

voz que cantaVaroni é autor do livro A Voz que Canta na Voz que Fala: A Trajetória Poética e Política de Gilberto Gil, que acaba de ser lançado agora pela Ateliê Editorial. Na obra, ele trafega pela análise do discurso e aponta como Gilberto Gil trouxe o seu discurso poético-tropicalista ao ministério, sugerindo e promovendo mudanças até então inéditas no que toca ao tratamento dado à cultura brasileira pelo Estado.

O autor, que é Mestre e Doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, professor do Curso de Jornalismo da Universidade Tiradentes (Aracaju/SE) e Diretor de Jornalismo da TV Sergipe (afiliada da Rede Globo em Aracaju), fala sobre sua obra ao Blog da Ateliê:

Como teve a ideia de escrever sobre Gilberto Gil? Quando a admiração de fã tornou-se curiosidade de pesquisador?

Pedro Henrique Varoni de Carvalho: As canções de Gil e Caetano foram uma descoberta da infância. Um tio tinha uma boa coleção de discos e fui seduzido pela sonoridade das canções. Poucas coisas são tão fortes como a gravação de “Aquele Abraço” ou o violão de “Expresso 2222”, pra ficar em alguns exemplos. Essas e outras canções de Gil sempre me impressionaram.   Ele é um artista que conjuga uma expressão poética densa, uma musicalidade rica e um jeito de interpretar as canções, bastante original. A curiosidade sobre a música orientou desde então meu trabalho de jornalista e pesquisador. Então as questões relacionadas à música brasileira estão, desde sempre, no meu campo de interesse.

Pedro-Varoni-2015

Pedro Varoni

Durante o Mestrado no Programa de Pós-graduação em Linguística da Universidade Federal de São Carlos propus a noção conceito que seria trabalhada no Doutorado, a de arquivo de brasilidade baseada no pensamento de Foucault. O arquivo é tanto depositário da memória quanto o que garante as condições de enunciabilidade. Trata-se da busca de uma metodologia baseada na Análise do Discurso a partir das contribuições de Michel Pêcheux e Foucault para descrever e interpretar a história brasileira, tomando por referência a relação entre acontecimentos e memória.  Essas inquietações levaram-me ao tropicalismo como um momento histórico que instaurou outra ordem do discurso no meio cultural brasileiro.  As linhas de pesquisa do programa de Pós Graduação em Linguística da UFSCar tinham, naquele período, um foco na análise dos discursos políticos.   A imagem de Gilberto Gil tocando no plenário da ONU motivou a busca de respostas relacionadas às relações de saber e poder em torno da canção. O Ministro artista evocava outra imagem: a do jovem músico se apresentando no Festival da Record em 1967. Nessa fase da pesquisa estava sendo lançado o documentário “Uma Noite em “1967” que muito contribuiu para as reflexões do meu trabalho. Assim, Gilberto Gil aparece como uma síntese de alguns acontecimentos daquele momento: o encontro entre o artista tropicalista e o líder sindical tornado Presidente da República, as transferências simbólicas da política para a canção e da canção para a politica. Tudo isso a partir do referencial teórico metodológico da Análise do Discurso.

 

Como se deu o processo de pesquisa: como foi essa trajetória, quais as dificuldades encontradas no caminho?

PHVC: Era preciso separar, desde o início, o indivíduo do sujeito do discurso. Pela Análise do Discurso, o sujeito é interpelado pela linguagem, história e inconsciente.   Não há sujeito pleno como origem e fim do discurso, como não há assujeitamento pleno.  Assim, a dificuldade inicial era encontrar este sujeito do discurso por detrás dos aspectos biográficos.  A noção de subjetividade lançada por Foucault e trabalhada por outros autores foi a que possibilitou esse encontro com o sujeito do discurso Gilberto Gil. O pensamento de Suely Rolnik foi de grande valia para se pensar a subjetividade hippie-tropicalista-antropofágica, fruto do exílio e das experimentações existenciais dos anos 1960 e 1970 que se davam a ver na dimensão do corpo, das micropolíticas. Ao mesmo tempo em que Gil se insere nessa ordem do discurso para criar suas canções a subverte, contribuindo para a emergência de uma contracultura tropical litorânea.

Refazenda-capa

Capa do álbum Refazenda (1975)

O tropicalismo foi o acontecimento discursivo que possibilitou uma ampliação das bandeiras micropolíticas no Brasil. A trilogia de Gil – os álbuns Refazenda, Refavela e Realce, antecipa tendências comportamentais e políticas. A questão da valorização de estilo de vida sustentável, os direitos de cidadania, contra o racismo, o machismo e por fim a legitimidade do entretenimento e da poesia popular são temáticas atuais e que já estavam lá nesses álbuns conceituais de Gil.  Essa complexidade demandou um trabalho arqueológico e genealógico tanto sobre a eclosão do tropicalismo quanto seus desdobramentos. Ao mesmo tempo como o assunto já foi tema de muitas e importantes pesquisas, era preciso tentar ir além. Buscar responder qual o sentido do tropicalismo hoje, tentar analisá-lo com olhos contemporâneos para refletir sobre o seu lugar no arquivo de brasilidade.

O que mais o surpreendeu durante a pesquisa?

PHVC: As hipóteses foram sendo construídas durante o trabalho. No momento do projeto interessava saber as condições da transferência de valor simbólico da canção para a política institucional, principalmente ligada à ascensão de Lula ao poder. A investigação revelou de um lado o processo histórico de constituição da canção brasileira como rede de recados do popular para o político-midiático. Desde o samba, passando pela geração dos Festivais – que inclui além de Gil, Caetano, Chico, os grandes nomes da chamada MPB – há uma relação entre a canção e o dinamismo dos acontecimentos.  Talvez o último momento em que isso se dê seja com a geração do rock dos anos 1980, período que coincide com a volta da democracia no país.  A partir daí as linhas de força da canção perdem o elo entre o passado recente e o futuro próximo, uma crise de transmissibilidade nos termos do filósofo Giorgio Agambem.  É justamente esse momento que coincide com a chegada de Lula ao poder e a escolha de Gilberto Gil como seu Ministro da Cultura.  Por isso, o trabalho se chama a voz que canta na voz que fala. Procurei, de certa forma, inverter a descoberta de Luís Tatit de que há sempre uma voz que fala na voz que canta. No caso da presença física e simbólica de Gilberto Gil como Ministro da Cultura de Lula há uma transferência desse capital da canção para a política, da voz que canta na voz que fala.

Gilberto Gil canta "Imagine" na ONU

Gilberto Gil canta “Imagine” na ONU

A grande imagem desse movimento é justamente a apresentação de Gil no plenário da ONU, num momento em que o Brasil aparecia, aos olhos do mundo, como exemplo de tolerância mestiça e Lula era saudado como “O cara” por Barack Obama. Caetano Veloso disse que Gil era o Lula do Lula. Esse enunciado pode ser interpretado a partir das dicotomias entre uma esquerda engajada que gerou o movimento sindical de onde Lula surgiu e os elementos comportamentais de uma contracultura negro-baiana de onde vem Gilberto Gil.  As questões de gênero, raça, da diversidade entram no Governo Lula também pela voz de Gilberto Gil.  Esses valores simbólicos contribuem, naquele momento, para uma nova posição do Brasil no jogo geopolítico internacional.

De que maneira o conceito de Antropofagia, que o Tropicalismo tão bem utilizou, aplica-se à atuação de Gilberto Gil como ministro de Lula? Que exemplos concretos podem se dados dessa atuação nesse contexto?

PHVC: Em Oswald de Andrade a antropofagia era um pensamento filosófico, uma intuição no contexto da busca do nacional-popular que justifica o modernismo brasileiro.  Defendemos na nossa pesquisa que com o tropicalismo esse pressuposto filosófico se torna estratégica político-midiática, foi algo que transcendeu o projeto estético das canções.  Nesse sentido, o tropicalismo é uma aplicação prática do preceito filosófico antropológico. A motivação para que Gilberto Gil se engajasse no tropicalismo, no final dos anos 1960, veio de uma imersão sua na cultura popular do interior de Pernambuco em que a vitalidade da Banda de Pífanos o fez pensar no jovem rock inglês. Essa aproximação entre universos simbólicos tidos como inconciliáveis pelos defensores de uma autêntica música brasileira procura chamar atenção, sobretudo, para as relações entre mídia e cultura popular. Se aqui chegavam os Beatles e os Rolling Stones teríamos de criar uma sonoridade brasileira moderna e cosmopolita. É o movimento que desagua, por exemplo, no mangue beat.

O ministro segue essa trilha da “guerrilha cultural nos canais do sistema”. A proposta dos pontos de cultura, em que comunidades do interior teriam direito a uma ilha de edição, uma câmara e internet de banda larga é uma atualização da antropofagia tal como foi lida pelo tropicalismo. Fazer circular a cultura popular é a única forma de revitalizá-la, de manter o vínculo com o contemporâneo. Tornar todos potencialmente produtores de conteúdo e não apenas consumidores passivos da cultura de massa. A ideia de antropofagia é, nesse sentido, como salientam muitos pensadores, uma das mais profundas e originais contribuições do modernismo brasileiro ao mundo. A relação entre fluxos homogeneizantes da sociedade globalizada e sínteses antropofágicas das culturas histórico-territoriais tornou-se uma das possibilidades para a crise de identidades nesses tempos líquidos.

Em sua opinião, como a atuação de Gilberto Gil enquanto ministro contribuiu para a criação (ou manutenção) de uma (nova?) autoimagem brasileira durante os anos Lula?

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião

PHVC: A presença de um artista com a trajetória de Gilberto Gil contribuiu para o efeito simbólico de que a chegada de Lula ao poder significava uma correção histórica de séculos de mazelas sociais no país.  De um lado a trajetória de um pau de arara, líder sindical. De outro a de um negro, filho de uma classe média baiana que contribuiu com sua arte para a criação de uma linguagem original e moderna, que o habilitou a transitar pelas plateias do mundo. A potência do canto com mensagens pacifistas e de defesa da diversidade fizeram de Gil uma espécie de embaixador brasileiro em momentos marcantes. Na ONU além de suas canções, ele cantou músicas de John Lennon, Bob Marley e saudou Luiz Gonzaga. É um acontecimento que dialoga com a eclosão do tropicalismo e, de alguma forma, com as utopias da geração dos anos 1960, não só no Brasil, mas no mundo.

É possível fazer uma análise dialética dessa atuação do artista no Ministério? Existe uma síntese possível para o “caso Gilberto Gil”, cuja atuação política (esperada na esfera artística) transbordou os limites da arte e passou a se realizar na política partidária e na esfera do poder público?

PHVC: “O caso Gilberto Gil” é exemplar da potência poética e política vivenciada no Brasil pela geração de artistas surgida nos anos 1960. Do cinema novo ao tropicalismo, passando pela canção de protesto, pelos vários movimentos teatrais havia um desejo de transformação do real a partir de uma nova linguagem. Esse lugar da arte sofre uma cisão a partir dos anos 1980 em que de um lado há um aumento do aspecto mercadológico, do culto às celebridades, de certa frivolidade que resulta numa música para fazer dançar ou provocar emoção fácil. Visto por esse ângulo o movimento de Gil em direção a política não deixa de ser a retomada dessa utopia de uma juventude revolucionária.

O movimento de Gil em direção ao Ministério é também sintoma de uma crise nas linhas de força da canção popular. A MPB de gosto universitário dos anos 1960 não gera prosseguimento a não ser em nichos. Naquele período eclodiram as discussões sobre o fim da canção, a partir de uma provocação de Chico Buarque, na verdade indicando o deslocamento para o rap, a nova voz da periferia nos anos Lula.  Essa possibilidade de expressão periférica possibilitada pelas novas tecnologias e o movimento da sociedade não deixa de ser o sonho da geração dos anos 1960. Então quando Gil se aventura no dispositivo governamental ele legitima esse fluxo a partir de políticas como os pontos de cultura. E o faz não mais só como artista, mas como aquele que propõe as políticas públicas para a cultura. Conceitualmente, os pontos de cultura são o equivalente simbólico da bolsa-família, no sentido de dar voz à diversidade brasileira.

Outro aspecto da atuação do Ministro é esse status de embaixador cultural do país defendendo uma ideia que vem de Gilberto Freyre, passa por Darcy Ribeiro de que somos uma nação mestiça e criativa, muitas vezes promovendo um relativo apagamento da colonização violenta que nos constitui. Isso apesar das canções de Gil como “A Mão da Limpeza” e “Nos Barracos da Cidade” colocar o dedo na ferida.

Qual o legado da atuação de Gilberto Gil, nesse sentido, para o Brasil de hoje, que vê o fortalecimento do conservadorismo nas mais diversas esferas?

PHVC: O artista como sujeito do discurso se inscreve na subjetividade hippie-antropofágica de matriz africana que tem sido um elemento de resistência à onda conservadora porque preconiza o direito às liberdades do corpo, contra o racismo. Suely Rolnik fala nas subjetividades dos anos 1960 que continuam a produzir sentido na sociedade. Assim, temos o “Coronel em nós”, “o hippie em nós”, “a tradição, família e propriedade em nós”. Essas subjetividades explicam muito das radicalizações e conservadorismo que eclodem nesse momento. Elas não surgem agora, são atualizadas, vêm à luz diante de uma nova ordem do discurso ainda de difícil apreensão. É algo que o trabalho apenas sugere, mas seria um prosseguimento dele.

Rolnik também tem uma discussão bastante interessante sobre o que denomina de “Zumbi antropofágico”, que seria uma banalização da mistura fazendo com que a energia revolucionária dos anos 1960 fosse domesticada pelo capitalismo. O resultado é um excesso de relativismo gerando misturas inodoras, sem alma, quase sempre a favor apenas do mercado. Há um núcleo de identidade a partir do qual se promovem as misturas. No caso de Gil é a baianidade de Caymmi e a poética sertaneja de Luiz Gonzaga. Gil resulta do encontro do sertão com o litoral.  É preciso uma dissociação do próprio tempo, demonstra-nos Agambem, para capturar o contemporâneo, traduzir em linguagem o que o real quer dizer. Esse é o principal ensinamento da trajetória deste artista ímpar.

Alfabetização e analfabetismo funcional

Ler é mais do que saber unir letras e sílabas; quem não consegue escrever, ler ou interpretar textos é considerado analfabeto funcional e perde a oportunidade de adquirir os conhecimentos que a leitura de um bom livro pode proporcionar e entender melhor o mundo ao seu redor

Antônio Suárez Abreu*

Antônio Suárez Abreu 2Houve época em que bastava alguém conseguir escrever o próprio nome para ser considerado alfabetizado. Assinar um documento, em vez de pôr nele a impressão digital, era sinal de progresso.  Há, ainda hoje, treze milhões de brasileiros que põem impressão digital no lugar do nome.  São os completamente analfabetos. Há, também, uma quantidade muito maior de brasileiros que, embora sejam capazes de escrever algo além do próprio nome e de ler anúncios publicitários, tropeçam de forma vergonhosa, quando têm de escrever ou ler um texto mais complexo.  São os chamados analfabetos funcionais.  Compõem mais da metade da população do país e ultrapassam, em número, aqueles que têm apenas o ensino fundamental. Muitos universitários não alcançam a efetiva competência em leitura e escrita e, quando formados, só conseguem acesso a subempregos. A quantidade de gente reprovada nos exames da OAB é um bom indicador dessa realidade.

Numa primeira etapa, alfabetizar-se não é apenas estabelecer relações entre letras, sons e palavras.  É, simultaneamente a isso, ser capaz de responder a duas demandas cognitivas: entender o significado de cada palavra e inseri-la em um papel sintático dentro da frase.  Quando uma criança lê sequências como A menina fechou a porta e Minha mãe carregou a menina, tem de compreender não apenas que menina é uma criança do sexo feminino, mas também que essa palavra tem a função de agente, na primeira frase, e de paciente, na segunda.  O nome técnico desse procedimento é parsing.  Por incrível que pareça, há até mesmo alunos de pós-graduação com baixa competência nessa habilidade.  A maior parte das redações de vestibular e até mesmo dissertações de mestrado e teses de doutorado apresentam frases truncadas e pontuação caótica.   Vejamos um trecho retirado de uma das redações do último Enem: A escola deve tratar do tema da violência contra a mulher.Educando os jovens para que aprendam que esse tipo de agressão não é normal e vendo a mulher como companheira.  Certamente a segunda oração deve fazer parte da anterior, ou seja, o ponto final deve ser substituído por uma vírgula: A escola deve tratar do tema da violência contra a mulher, educando os jovens para que aprendam que esse tipo de agressão não é normal e vendo a mulher como companheira.  Porém, como não é a escola que deve ver a mulher como companheira, mas os jovens que aprenderam isso na escola, o aluno poderia dar a esse período outra redação: A escola deve tratar do tema da violência contra a mulher, educando os jovens para que aprendam que esse tipo de agressão não é normal e aprendam a ver a mulher como companheira.

Essa competência em escrever se aprende com a tradicional análise sintática, hoje execrada pelos planos de ensino e dominada precariamente até mesmo pelos professores.  Fiz uma pesquisa informal na Unesp, entre os meus pouquíssimos alunos de Letras – sete ou oito por sala – que apresentavam escrita adequada e fluente: todos eles tinham tido aulas de análise sintática no ensino fundamental e médio.  O outros não sabiam sequer localizar um sujeito posposto e tiveram de aprender isso na Universidade.

colher de sopa de manteigaVamos, agora, à leitura.  Ao ler, vamos construindo o sentido do texto dentro de nossas cabeças, a partir das informações que temos arquivadas em nossa memória.   Ao ler uma simples frase como: Coloque uma colher de sopa de manteiga  numa tigela, temos de saber, antecipadamente, que não existe sopa de manteiga, que colheres de sopa, de sobremesa etc. são utilizadas para medir ingredientes na cozinha e que apenas a manteiga medida pela colher deve ser posta na tigela, e não a colher.   A leitura competente e fluente depende, pois, do nosso passado.   Aprender a ler, ter uma alfabetização completa implicam construir esse passado por meio de leituras acumuladas.   Isso vale tanto para o domínio do vocabulário quanto para outros como cultura, história, tecnologias.  Durante a primeira aula do curso de Economia de uma importante universidade pública paulista, o professor disse aos alunos que  essa ciência tem palavras com sentido diferente do uso comum e que os alunos não se acanhassem em perguntar quando não soubessem.  Imediatamente, um dos calouros levantou a mão e perguntou: “Professor o que significa debalde”?   O mestre teve de explicar o sentido desse advérbio a um aluno que, apesar de ter passado num vestibular concorrido, havia lido muito pouco.

Em alguns textos, a exigência desse conhecimento passado é muito maior.   Imagine alguém lendo um trecho do livro Autoengano, em que o economista e filósofo Eduardo Giannetti fala do autoengano dos amantes: “É como se estivessem fora de si – embriagados  por poções wagnerianas, hipnotizados pelo fascínio de Circe ou enfeitiçados  por encantamentos como o que, segundo a lenda, enlouqueceu Lucrécio.  Os apaixonados perdem o sono, dançam na chuva e ouvem estrelas.   Para entendê-lo plenamente, o leitor deve ter, em sua memória, o enredo  da ópera de WagnerTristão e Isolda, em que Tristão, inadvertidamente, bebe uma poção amorosa e se apaixona por Isolda, princesa que ele devia conduzir ao seu tio em matrimônio.

singingintherainDeve ter, também, em seu passado, a história de Ulisses, que foi enfeitiçado pela deusa Circe, em sua viagem de volta da Guerra de Troia, e a lenda segundo a qual Lucrécio, poeta romano, teria enlouquecido de amores e se suicidado.  Deve ter, ainda, em sua memória, o filme Cantando na Chuva, protagonizado por Gene Kelly e um dos mais famosos poemas da “Via Láctea” de Olavo Bilac: “Ora, direis, ouvir estrelas…”.

Concluindo, para não ser analfabeto funcional, é preciso ter o hábito da leitura como lazer, que é muito comum na Europa e nos Estados Unidos, mas extremamente raro no Brasil, em que a leitura per capita é calculada em rasos 1,7 livros por ano.

 

 

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita (Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

Conheça outras obras de Antônio Suárez Abreu

Da Europa à América Latina

 

Por: Renata de Albuquerque

 

As cerca de quatro décadas e a questão geográfica que separam a Segunda Guerra Mundial da Guerra das Malvinas podem, em uma análise superficial, fazer com que não se consiga estabelecer relação entre esses dois conflitos. Mas o Doutor em História Osvaldo Coggiola vê pontos de intersecção entre essas duas guerras.

outra guerra fim do mundo“A Inglaterra e os EUA, que venceram a Guerra das Malvinas, também venceram a Segunda Guerra Mundial. A posse inglesa das Malvinas é um ressabio da hegemonia mundial ainda presente das potências anglo-saxãs. O único navio norte-americano não afundado em Pearl Harbor foi vendido depois à Argentina, onde foi se transformando no Cruzador General Belgrano, que foi afundado pela Inglaterra na  Guerra das Malvinas, com centenas de marinheiros argentinos mortos. São marcas muito profundas”, explica ele, que é autor de A Outra Guerra do Fim do Mundo, livro em que trata de detalhes do conflito (como dados e movimentações dos exércitos) e analisa a legitimidade dos discursos de ambos os países para justificar suas posições.

Coggiola nasceu na Argentina e, em 1976, foi expulso da Universidade Nacional de Córdoba por causa do Regime Militar vigente, então. Estudou na França, onde se doutorou em História, e hoje e Professor Titula e Chefe do Departamento de História da USP. Em sua avaliação, na Argentina, a questão Malvinas continua presente no sentido histórico, político e cultural. Já na Inglaterra, segundo o autor, formou-se um consenso acerca da necessidade de uma soberania compartilhada.

“O conflito pela soberania das ilhas continua presente, embora hoje por vias diplomáticas. A questão diz respeito a toda a América do Sul. Não só pela soberania territorial e pelas riquezas petroleiras hoje comprovadas do arquipélago, mas sobretudo porque existe uma forte base militar da OTAN a escassos 400 quilômetros da Argentina, a quinze minutos de voo de aviões militares, ou seja, vizinha às costas da América do Sul. As Malvinas, na posse da Inglaterra, e o embargo norte-americano a Cuba são as duas mais importantes questões pendentes a respeito da soberania territorial da América Latina”, afirma.

A dissipação da raça humana

O tema da solidão, quando tratado pela ficção científica, resulta em obras como Perdido em Marte, The Leftovers e Dissipatio H. G. — O Fim do Gênero Humano

Alex Sens*

Condição primária do artista, estando sua arte ainda num plano essencialmente virtual ou absolutamente real, a solidão não só é ferramenta para a potencialização do pensar, através da observação e da concentração, como é também o alimento da criatividade. Colocada na esfera da ficção, a solidão torna-se melancólica, mas necessária, portanto um meio que apresenta um fim, sendo este a sua ideia principal, o tema. Só a arte, com seu poder imagético, pode transferir para os nossos sentidos o que na prática é ainda impossível, improvável, impalpável. É isso que faz a ficção, sobretudo a ficção científica, seja na literatura ou no cinema, onde arte e ciência se encontram e se conectam intimamente por uma tênue linha de percepção e risco, por isso mesmo uma linha fascinante. Usando o poder da imaginação, o homem já criou inúmeros cenários apocalípticos e suas consequências, hipóteses filosóficas sobre o esvaziamento do planeta, desaparecimentos misteriosos, o fim da espécie humana e a vida extraterrestre.

Matt Damon, em "Perdido em Marte"

Matt Damon, em “Perdido em Marte”

Desde as primeiras teorias sobre o fim do mundo e sobre uma profunda mudança estrutural no nosso planeta, o cinema, a TV e a literatura vem expressando o estranho e dominante papel da solidão. Surgiram recentemente nesse cenário o filme Perdido em Marte, baseado no livro homônimo de Andy Weir, e que conta a história de um astronauta que precisa sobreviver no planeta vermelho enquanto espera por ajuda, e a série televisiva “The Leftovers”, também baseada num romance de Tom Perrota e que narra o inexplicável desaparecimento de 2% da população mundial, uma metáfora para o “arrebatamento cristão”. Seguindo a mesma linha dessa dissipação humana e o poder da solidão sobre quem fica ou, numa outra visão, quem é abandonado, o italiano Guido Morselli escreveu em 1973 o romance Dissipatio H. G. — O Fim do Gênero Humano (Ateliê Editorial, tradução de Maurício Santana Dias, 168 páginas).

dissipatio

Como reflexo de seu desejo pela solidão, o autor, torturado por ruídos que atrapalhavam seu processo criativo, projetou e construiu uma pequena casa entre as pradarias de Gavirate, e nela pode dar voz a um personagem que um dia acorda sozinho no mundo. Narrado por este personagem cujo nome permanece oculto assim como a causa principal do romance, o livro não se apoia somente em seu monólogo de caráter filosófico, ontológico, histórico e misterioso, mas também na essência de um mundo solitário e suas assustadoras, mas realistas, possibilidades. Há cachorros, gatos, pássaros, vacas, ratos e toda sorte crescente de animais, mas não pessoas. Conhecemos a cidade de Crisópolis e suas cercanias em — excetuado pela narração precisa e envolvente — absoluto silêncio, com hotéis vazios, carros parados no meio da estrada, camas faltando corpos, uma paisagem inteira onde “permanece ainda aquilo que é orgânico e vivo, mas não humano”. A figura solipsista discorre primeiro sobre uma tentativa de suicídio e o restante vem de sua incansável busca por um conhecido. Em dado momento, quando já sabemos que sua personalidade misantropa de repente sente necessidade de um contato humano, o leitor pode se perder numa possibilidade de sonho, também questionada pelo personagem, este único sobrevivente do que chama de “Evento”. Também temos aqui um narrador não-confiável, cuja amizade com um psiquiatra e passagens por internações beira uma provável esquizofrenia ou uma realidade inventada por ela. Um dos pontos mais brilhantes do livro acontece quando o tempo é medido em semanas pela espessura do bolor num pedaço de queijo, revelando o quanto a inteligência perceptiva pode ser adaptada à falta de um simples calendário.

Tudo, desde a narrativa de Morselli, que cometeu suicídio antes da publicação do livro, passando pela exploração do conceito de solidão e suas respostas emocionais, pelo caos aparentemente organizado de um mundo desabitado, chegando a uma espécie de ascese filosófica que mantém, ou pelo menos tenta manter, a sanidade do personagem, faz de Dissipatio H. G. um breve, rico e apurado tratado da solidão, uma pedra preciosa e cinzenta cravada no temor ou na atração pela condição de se estar só consigo mesmo, com a fatalidade da vida ou com a inevitável condenação ao autoconhecimento.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. PublicouEsdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

 

Clássicos: da Ateliê para a sala de aula – e muito além dela

Marise Hansen*

Algumas palavras parecem ser feitas umas para as outras. É o caso das duas que formam a dupla “Clássicos Ateliê”, quando se considera atentamente que um clássico é aquela obra que “por sua originalidade, pureza de expressão e forma irrepreensível, constitui modelo digno de imitação”, e que ateliê é o “local preparado para a execução de trabalhos de arte”. Fica fácil perceber aí um par perfeito, que é a união da obra literária de sentido universal, atemporal, perene, com o tratamento artesanal que ela merece.

livros de vestibular

Títulos da Coleção Clássicos Ateliê: sempre presentes nas listas dos vestibulares brasileiros

A coleção Clássicos Ateliê assume esse espírito, dispondo obras representativas das literaturas brasileira e portuguesa em edições preparadas com apuro meticuloso. A preocupação com os detalhes de cada edição pode ser vista na escolha iconográfica, na pesquisa e estabelecimento de texto, nas ilustrações que acompanham cada título. Entretanto, é sobretudo nas apresentações de cada obra que o diferencial da coleção se faz evidente. Os ensaios que precedem cada título da coleção, escritos por professores universitários e de Ensino Médio, primam pela profundidade de análise sem perder de vista a clareza e o didatismo, o que é imprescindível quando se pensa que a apresentação da obra deve atuar como uma espécie de comentário crítico, quase como uma aula escrita.

Quem vive o cotidiano da sala de aula com os estudantes que se preparam para os vestibulares, sabe a importância de, muito mais que se “mandar ler”, se ensinar a ler. Parece ter sido definitivamente sepultado o chavão “adolescente não gosta de ler”. É notório o quanto a literatura juvenil movimenta o mercado editorial. Mas sabe-se também que há muitos títulos que nossos alunos não leriam por conta própria, dada a dificuldade mesma da linguagem – original, artística, desafiadora – de um “clássico”. Quem tem a chance de estar perto desses alunos enquanto eles se veem levados a “enfrentar” um clássico, sabe, no entanto, que a paixão pela obra é garantida, quando não imediata, desde que a aproximação a ela se faça com o auxílio de um leitor experiente.

Quem entende, gosta: a fórmula é simples. E para ser leitor competente, há que se aprender a ler para além do que está explícito. Para tanto,é certo que existem as aulas e, para apreender o sentido do texto literário num nível ainda mais profundo, e de forma mais independente, existem as apresentações da coleção Clássicos Ateliê. Elas atuam como o tal “leitor experiente”, que, se na sala de aula é o professor, no momento de leitura e reflexão do aluno é o texto ensaístico que elucida o sentido das obras e suas múltiplas possibilidades de leitura; fornece informação, documentos e iconografia a respeito do contexto de produção e do discurso cultural vigente; estabelece comparações entre obras, estilos e autores da literatura universal. Para auxiliar o jovem leitor nessa apreensão de obras tão significativas, é fundamental que o autor do prefácio tenha não só amplo conhecimento sobre as mesmas, como também familiaridade com a prática em sala de aula: só assim se tem ideia da linguagem a ser usada para atingir o leitor que se inicia num clássico. Unir a profundidade acadêmica com a clareza didática é um diferencial da coleção, percebido nos textos introdutórios bem como nas notas explicativas (de vocabulário, sintaxe, referências culturais, recursos estilísticos, linguagem figurada).

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Para o vestibular 2016 de duas das principais universidades do país, USP e Unicamp, a coleção Clássicos Ateliê abrange sete títulos: Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett; Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida; Til, de José de Alencar; Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; O Cortiço, de Aluísio Azevedo; A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós – comuns às listas dos dois vestibulares; e Sonetos de Camões, da lista da Unicamp. Essas obras contam com apresentações que abrangem os aspectos mais representativos de cada obra, sem deixar de sugerir sentidos novos, originais. Para quem vai prestar esses vestibulares (ou outros, que vários se baseiam nessas listas, tidas como canônicas), é fundamental, por exemplo, estar familiarizado com o espirito galhofeiro presente no romance de Manuel Antônio de Almeida, como uma espécie de protótipo da malandragem brasileira; com o universo de cinismo e abuso das elites do Brasil imperial representado por meio do defunto-autor Brás Cubas; com a crítica ao consumismo irrefletido e causador de permanente frustração, tema atualíssimo desenvolvido por Eça de Queirós em A Cidade e as Serras.

A Ilustre Casa de Ramires

A Ilustre Casa de Ramires

Para além de listas de vestibular, a leitura de clássicos será sempre parte da formação do leitor. Nesse sentido, a coleção conta com outras obras dos autores “clássicos” (O Guarani e Iracema, de José de Alencar; O primo Basílio e A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós; Dom Casmurro, de Machado de Assis) e com outros gêneros, além da prosa de ficção, como a poesia, no já citado Sonetos, de Camões, no recém-lançado Mensagem, de Fernando Pessoa, e no poema dramático Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. Assim, quanto maior o repertório de leitura dos clássicos, mais sucesso em provas e exames vestibulares, haja vista o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado por mais de sete milhões de candidatos no mês de outubro, em que uma das questões da prova de Português era sobre O Ateneu, de Raul Pompeia, um clássico de nossa literatura contemplado pela coleção. O teste aborda a relação entre o colégio, vale dizer, a educação e sua função social, e os interesses capitalistas e individualistas de seu diretor, aspecto explorado na apresentação do romance para o volume da Ateliê.

Sabe-se no entanto, que a leitura dos clássicos, quando bem aproveitada, isto é, quando as obras são verdadeiramente compreendidas, trará benefícios que transcendem em muito as exigências de provas e exames vestibulares: será capaz de levar o jovem leitor a pensar criticamente a sociedade brasileira, as relações humanas e o próprio indivíduo, o que constitui o imensurável alcance da literatura.

Conheça a Coleção Clássicos Ateliê

*Professora de Literatura e subcoordenadora de Português no Colégio Bandeirantes, São Paulo.Mestre e doutoranda em Literatura Brasileira pela USP, com projetos de pesquisa sobre Machado de Assis e João Guimarães Rosa. Autora da apresentação e das notas de A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós, edição Clássicos Ateliê.Autora do posfácio de O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett (Penguin/Companhia das Letras) e de análises de clássicos da literatura brasileira para a Companhia das Letras (Caderno de leituras).