Renata Albuquerque

Aldo Manuzio: uma aventura chamada livro

Por Renata de Albuquerque*

A Ateliê Editorial acaba de reeditar Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro. O livro, cuja primeira edição é de 2004, estava esgotado e o fato de voltar às prateleiras deve ser comemorado. Afinal, mais que uma simples biografia de uma figura fundamental para o universo dos livros, a obra percorre e  analisa cuidadosamente as contribuições de Manuzio, mestre quinhentista (1450-1515).

O livro é escrito pelo historiador e pesquisador de projetos gráficos Enric Satué, que é historiador, teórico e crítico de projetos gráficos, além de projetista, investigador e divulgador de livros. O estudioso já publicou mais de uma dezena de livros, ganhou diversos prêmios e debruçou-se sobre a vida e obra de Manuzio, um nome central para a cultura do livro no mundo.

O livro como objeto físico tem mais de cinco séculos e meio de História, tendo sido pouco alterado estruturalmente desde sua criação. E as contribuições de Manuzio para este objeto de desejo, ainda que feitas no início da Idade Moderna, permanecem até hoje.

Aldo Manuzio

Ainda na Introdução, descobrimos que o autor considera apenas três invenções importantes para o livro que não tenham sido ideias de Manuzio: a tipologia estreita, encolhida e condensada (criada no século XIX); a publicação da fotografia em livro e o livro com texto linear (contribuição dada por Jan Tschichold). Logo no início da leitura, a sensação – que depois se confirma – é que, sem Manuzio, o livro não seria o que conhecemos hoje. É de Manuzio, por exemplo, a primeira publicação da História em tipografia cursiva. “Justamente na biblioteca do poeta Piero Bembo, Manuzio encontrou o legendário manuscrito autógrafo de Francesco Petrarca, que dizem ter utilizado para compor a primeira publicação da história em tipografia cursiva, editada em 1501”, explica Satué.

Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro analisa o livro como objeto, contempla a vida e obra de Manuzio e faz referências críticas à situação atual do livro. Conta, por exemplo, como Manuzio teria embarcado na aventura de tornar-se editor – com a ajuda financeira de Giovanni Francesco Pico della Mirandola, que investiu na ideia de seu professor e amigo.

Violinos e “efes”

Durante a leitura, descobrimos ainda que a tipografia cursiva teria “inspirado” os luthiers, criadores de violinos da cidade de Cremona, na Itália (país natal de Manuzio). “Será que a influência cultural das formas tipográficas aldinas, estendendo-se além de seus limites razoáveis, alcançou a música sinfônica, da qual os violinos são a parte substancial? Se assim for, toda a numerosa família das cordas traria no peito esse doce estigma aldino, de tal sorte que, ao contemplar uma grande orquestra sinfônica, poderíamos encontrar até setenta e cinco efes cursivos de diferentes tamanhos”, diz o texto.

Com quase 300 páginas, o livro fala de diagramação, História, projetos editoriais e muitos outros aspectos da editoração, em capítulos que abordam as variadas facetas de Manuzio: editor, tipógrafo e livreiro – e a obra que publicou. Traz ainda um capítulo especial com informações sobre o tempo em que Manuzio viveu, as pessoas com quem se relacionava – e como influenciou e foi influenciado por elas. Por fim,  Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro traz uma reflexão sobre o legado deste gênio, sendo de grande interesse para quem trabalha no mercado editorial ou mesmo para quem ama livros e quer saber um pouco mais sobre os aspectos formais desse objeto que, há mais de 500 anos, encanta e fascina leitores ao redor do mundo.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Novidade: Hidra Vocal

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

Desta vez, entrevistamos com os organizadores do livro Hidra Vocal, que será em breve lançado. Marcelo Lachat é professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Ele é Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutorado pela UNIFESP. Maria do Socorro Fernandes de Carvalho, professora de Literatura da UNIFESP, é Doutora em Literatura Portuguesa pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com pós-doutorados pela USP e ULisboa. Já a professora de Literaturas de Língua Inglesa na Universidade Federal de São Paulo, Lavinia Silvares, é Doutora e pós-doutora pela USP. Leia a seguir:

Marcelo Lachat

Qual o tema do livro?

Resposta: O livro Hidra Vocal é uma coletânea de textos que discutem como os variados campos artísticos se articulam com o âmbito da retórica e da poética – duas importantes disciplinas que, desde a chamada “Antiguidade Clássica”, formularam preceitos para as produções discursivas e artísticas em diversas línguas, espaços geográficos e momentos históricos. Desse modo, o tema do livro perpassa diferentes práticas de representação a fim de investigar as relações entre retórica, poética e as artes.

Por que homenagear o Prof. João Adolfo Hansen com essa obra? Qual a importância de homenageá-lo?

R: O professor João Adolfo Hansen foi pioneiro nos estudos de retórica e poética no Brasil, sobretudo em suas relações com o campo hoje dito “literário”. Desde a década de 1980, Hansen tem produzido obras importantíssimas acerca do assunto, como o livro A Sátira & O Engenho: Gregório de Matos e a Bahia do Século XVII (Ed. Ateliê/Unicamp, vencedor do Prêmio Jabuti em 1990), em que realiza um estudo profundo a respeito da produção poética do Brasil colônia. Além da relevância de sua obra, a homenagem ao professor Hansen se dá também como reconhecimento de sua imensa generosidade intelectual, traço que sempre encantou e animou seus orientandos, colegas e alunos.   

Maria do Socorro Fernandes Carvalho

Quais os destaques do livro em sua opinião?

R: A relevância deste livro consiste no fato de ele ser um significativo panorama dos estudos sobre retórica e poética no Brasil, reunindo trabalhos de professores/pesquisadores de diferentes universidades brasileiras: USP, UNIFESP, UESB e UFSM. Além disso, a obra conta também com textos de dois grandes professores estrangeiros: Isabel Almeida (Universidade de Lisboa) e Roger Chartier (Collège de France).

Lavinia Silvares

O livro traz a fala do próprio Professor em um evento na Unifesp. Que evento é esse e de que forma a fala do professor incentivou a elaboração do volume?  

R: O livro resulta do encontro de estudiosos brasileiros e estrangeiros em um evento sobre retórica e poética, realizado na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH-UNIFESP) em setembro de 2018: o I Panorama dos Estudos Poéticos e Retóricos no Brasil. Abarcando um amplo escopo temático e temporal, os trabalhos apresentados ao longo de três dias versaram sobre poesia, música, narrativas em prosa, arquitetura e outras artes e campos do saber em sua relação com as técnicas retóricas e poéticas. Contando com a presença de grandes pesquisadores e professores, o encontro também homenageou os trabalhos acadêmicos do professor João Adolfo Hansen, fundamentais para o desenvolvimento dos estudos retóricos e poéticos no Brasil. Assim, nesta obra, reúnem-se textos inéditos produzidos pelo professor Hansen e pelos conferencistas convidados, consistindo ela em um arco de reflexões contemporâneas acerca de retórica, poética, história, arte e cultura em diferentes matizes e nuances teóricas e críticas.

Romance de formação é tema de novo livro da Ateliê

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

Desta vez, entrevistamos Marcus V. Mazzari, professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo. Ele traduziu para o português, entre outros, textos de Walter Benjamin, Adelbertvon Chamisso, Heinrich Heine, Karl Marx, Gottfried Keller e Jeremias Gotthelf. Entre suas publicações estão Romance de formação em perspectiva histórica. O Tambor de Lata, de Günter Grass (Ateliê Editorial, 1999), Labirintos da aprendizagem (Editora 34, 2010) e A dupla noite das tílias – História e Natureza no Fausto de Goethe (Editora 34, 2019). Coordena desde 2015 a coleção Thomas Mann, editada pela Companhia das Letras.Em breve, o livro que organizou com Cecilia Marks, Romance de Formação: caminhos e descaminhos do herói, estará nas prateleiras. A seguir, ele fala sobre a obra:

Do que trata o livro?

Marcus V. Mazzari: O livro é dedicado ao gênero literário “romance de formação” (Bildungsroman), criado por Goethe, no final do século XVIII, com o romance Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. O volume enfeixa 26 ensaios que contemplam manifestações desse gênero em várias literaturas, não só europeias (alemã, espanhola, francesa, inglesa, italiana, portuguesa, russa), mas também a brasileira, que comparece com sete nomes, peruana (José MaríaArguedas), moçambicana (Paulina Chiziane). Um espectro, portanto, rico e diversificado de um gênero de imensa relevância na Literatura Mundial.

Marcus Mazzari

A  quem o livro deve interessar, em sua opinião: apenas estudiosos e pesquisadores ou o público em geral?

MVM: O livro tem grande interesse ao público em geral, pois lhe apresenta, de uma perspectiva muito fecunda (justamente a da questão da “formação”), renomados clássicos literários, entre os quais romances de Machado de Assis e o rosiano Grande Sertão: Veredas, e também obras menos conhecidas, mas de grande valor estético.

Quais os destaques do livro, em sua opinião?

MVM: É difícil mencionar alguns destaques em meio a tantos textos excelentes. O ensaio de Luis Bueno sobre a produção romanesca de Machado de Assis a partir do prisma da “formação” e, sobretudo, da “não formação” do homem brasileiro de elite é certamente um dos highlights do volume. Importante mencionar também os ensaios de Paulo Bezerra (Dostoiévski), Walnice N. Galvão (Victor Hugo), Sandra G. Vasconcelos (Dickens).

Lembro ainda que Maria Augusta Vieira enfocou a “aprendizagem deleitosa” (como figura no título do belo ensaio) de Dom Quixote e Sancho Pança, num romance precursor do Bildungsroman; e Willi Bolle fez uma aguda leitura “atualizadora” da formação de Franz Biberkopf, no romance de Alfred Döblin Berlim Alexanderplatz, o que transparece no título de seu ensaio: “Crise do Romance – Crise de um País”. O ensaio de Cecilia Marks oferece-nos uma magistral leitura bakhtiniana de Grande Sertão: Veredas. Mas com isso estou deixando de mencionar muitas outras riquezas do volume, como o ensaio de Mário Frungillo que enfoca a obra de Thomas Mann na confluência entre Romance de Formação e Romance Picaresco, ou seja, as Confissões do impostor Felix Krull.

De que forma o livro poderá contribuir com o contexto brasileiro atual, em sua opinião?

MVM: Já os ensaios sobre autores brasileiros (Machado e G. Rosa, como já mencionado, mas também Lima Barreto, Clarice Lispector ou Antônio Callado) incorporam à abordagem dos romances reflexões críticas sobre a história brasileira, o que representa uma contribuição no sentido visado pela sua pergunta.

O estudo que enfoca a produção de Dalcídio Jurandir, sobre o moderno Bildungsroman na “Amazônia Oriental”,traça interessantes paralelos com a obra narrativa de Milton Hatoum, para quem a tradição do romance de formação é muito importante: o ciclo romanesco O lugar mais sombrio, cujo segundo volume, Pontos de fuga, foi lançado em 2019, é apresentado explicitamente como “romance de formação”.

O ensaio sobre Jorge Amado considera o herói de Jubiabá, Antônio Balduíno, “um dos primeiros, senão o primeiro herói negro da literatura brasileira”, lançando uma reflexão sobre a questão racial em nosso país. Mas também os outros textos podem contribuir significativamente para uma discussão ampla e aprofundada (de uma perspectiva comparativa) da atual situação brasileira. O mencionado estudo de Willi Bolle, por exemplo, apoia-se no breve ensaio “Sobre a estupidez” (Über die Dummheit), de Robert Musil (representado no volume pelo seu monumental romance O homem sem qualidades), para aludir à extrema estupidez de um país que elegeu Adolf Hitler em janeiro de 1933 – e assim convidando o leitor, de maneira sub-reptícia, a refletir sobre os recentes desdobramentos na história brasileira… Enfim, num momento em que a cultura e a educação estão tão aviltadas no Brasil, este volume sobre as várias modalidades de “formação” se reveste de um significado bastante candente.

Orações Insubordinadas: aforismos para uma leitura rápida e divertida

Segundo o dicionário, aforismos são textos curtos e sucintos, de estilo fragmentário, relacionados a uma reflexão de natureza prática ou moral. Com base nessa definição, o publicitário piauiense Carlos Castelo, fundador do grupo Língua de Trapo, escreveu Orações Insubordinadas – Aforismos de Escárnio e Maldizer. O livro traz as frases curtas e cortantes, de autoria do próprio Castelo, que causam riso e reflexão ao mesmo tempo. A seguir, ele conversa com o Blog da Ateliê:

O que o levou a escrever Orações Insubordinadas – Aforismos de Escárnio e Maldizer?

Carlos Castelo: Desde muito jovem me interessei pelas formas breves. Primeiro foram os provérbios. Gostava de toda a sabedoria que eles traziam em sentenças tão curtas. Depois, com 14 anos, li o Meditações, do Marco Aurélio. E assim fui seguindo, conhecendo outros autores, até que descobri o frasismo de humor: Barão de Itararé, Don Rosse Cavaca, Nelson Rodrigues, Dirceu, Millôr – só para citar os brasileiros. Era natural que, um dia, eu passasse a criar minhas próprias frases e isso aconteceu a partir de 2007. Foi no site Castel-O-Rama, do Humor UOL. Ali comecei a produzir sistematicamente num link chamado Aboboral.A compilação dos anos em que escrevi o Aboboral fez nascer o Orações Insubordinadas.

Como foi feita a seleção dos seus aforismos?

CC: Eu guardava num arquivo todos aforismos que postava no Castel-O-Rama, e no meu Twitter, o @casteladas. O critério usado foi o de cortar as frases sobre fatos passageiros, do dia a dia, e optar pelas frases atemporais. Justamente para não deixar o livro datado. Creio que funcionou, já que o Orações Insubordinadas continua sendo lido, e provoca riso e reflexão, há mais de 10 anos.

Em sua opinião, qual a força do aforismo? Para você, aforismos são atemporais ou podem perder relevância ao longo do tempo?

CC: A força do bom aforismo é a sua alta densidade. Ele contém muita informação, paradoxo, desconstrução ou originalidade em poucas palavras. Então, quando o leitor o decifra é como se detonasse uma explosão de prazer. Isto não é propriamente uma ideia minha, mas uma simplificação grosseira do que dizia Sigmund Freud em Os chistes e sua relação com o inconsciente. Se um aforismo será atemporal, ou perderá a relevância, vai depender da massa de sua densidade.

Seu livro teve a primeira edição lançada em 2009, mas ele continua causando riso. A que você deve essa permanência?

CC: Devo essa continuidade, como disse, ao critério de escolha das frases mais atemporais da minha produção. E também ao fato do aforismo ter se adaptado muito bem ao mundo da internet e suas redes sociais. Por sua brevidade e capacidade de estimular a discussão, ele é um gênero literário perfeito para a Grande Rede. Meu livro, portanto, chegou no momento certo, na hora em que passou-se a valorizar 140 caracteres como se fossem 140 páginas.

Os aforismos têm, em comum, o humor e a graça que causam. É possível identificar como se dá a construção desse efeito de humor que os aforismos causam no leitor?  

CC: Os aforismos de humor, que são os que escrevo, funcionam como o chamado humor “on-liner”. Normalmente possuem uma frase inicial que levanta a bola e, uma segunda, que faz o “saque” – o famoso “punchline”. Mas há muitas outras maneiras de se criar um aforismo. Podem ser lugares comuns refeitos, definições de neologismos, falas, diálogos, comparações, indagações, provocações, paródias de frases famosas e até microcontos. Ou seja, quase tudo pode ser um aforismo de humor, desde que ele faça rir e pensar.

Morte aos Papagaios

A subjetividade é a chave do processo de criação do designer gráfico. Esta é a premissa de Morte aos Papagaios, o primeiro livro de Gustavo Piqueira, um dos mais importantes designers gráficos do país, que trata, de maneira leve e divertida, questões relativas à atividade do profissional de design. À frente de seu estúdio Casa Rex, Gustavo Piqueira é um dos mais reconhecidos e premiados designers gráficos do Brasil, com mais de 500 prêmios recebidos. Conhecido por livros nos quais mistura livremente texto e imagem, ficção e não ficção, design, história e tudo mais que encontrar pela frente, ele já lançou 30 títulos de sua autoria. Pela Ateliê Editorial, além de Morte aos Papagaios, publicou: “Clichês Brasileiros”, a tradução e edição de “A História Verdadeira” de Luciano de Samósata e a edição de “William Morris – Sobre as artes do livro”A seguir, o autor fala ao Blog da Ateliê sobre o livro:

O quanto de ficção e o quanto de “lastro real”existe no livro?

Gustavo Piqueira: Digamos que o livro é todo construído a partir de um “lastro real”, mas sempre com considerável liberdade. Ou seja: não houve preocupação em me ater a nenhuma espécie de rigor — fosse ele acadêmico ou factual. Acho que dá pra considerar Morte aos Papagaios como um livro de “não ficção livre”, se é que existe tal categoria.

A tecnologia e os meios de trabalho disponíveis para um designer mudaram muito desde que o livro foi lançado. De que maneira isso impacta no conteúdo do livro?

Gustavo Piqueira

GP: Na verdade os meios de trabalho para um designer gráfico não mudaram – eles seguem os mesmos da época em que escrevi o livro (a grande mudança se deu na década de 1990, com a chegada dos softwares gráficos que são, essencialmente, os mesmos de hoje, só que com menos recursos). Já a tecnologia como um todo se alterou profundamente — ou melhor, o impacto da tecnologia em nossas vidas se alterou profundamente. De qualquer modo, penso que um livro escrito há 16 anos e que buscava falar do mundo a seu redor termina por, inevitavelmente, carregar trechos que já podem ser considerados como parte do passado. O que não é, vale dizer, um atestado de invalidez — apenas indica que é recomendável a consciência desse ajuste temporal para sua leitura.

O que “alimenta” a criatividade?

GP: Ainda que muita gente tenha lido o livro dessa maneira, Morte aos Papagaios não é um livro sobre criatividade em si, não fala sobre como ser ou não criativo nem nada do gênero. Para dizer a verdade, o termo “criativo” nunca me agradou muito, me parece mais um jargão publicitário do que qualquer outra coisa. Minha ideia com Morte aos Papagaios foi a de falar de design como uma atividade cuja “bibliografia” não está exclusivamente em livros de design, vídeos de design ou qualquer outra obra de referência restrita, mas sim em tudo o que nos rodeia. Em absolutamente tudo, inclusive nas coisas mais cotidianas. Mais do que “dicas para estimular a criatividade” ou algum tipo de “defesa da criatividade”, se há uma tese central no livro é a de que design é uma atividade que acredito se basear num conhecimento amplo, universal. Não uma atividade técnica em que basta um aprofundamento vertical na disciplina em si para se chegar a uma atuação consistente.

O que, na sua opinião, faz com que um projeto seja efetivamente original e relevante?

GP: É uma pergunta que não dá para sintetizar numa resposta, numa só direção. Em linhas gerais creio que ele deve, ao mesmo tempo, refletir o tempo presente e projetar alguma visão futura.

Como você percebe que um trabalho seu está “acima da média” quando o termina?

GP: Bom, eu só posso responder por aqueles que estão “acima da minha média”… E acho que a resposta não tem muito segredo: é fácil perceber quando acabei de executar algo que foi um pouco além daquilo do que eu já havia executado, que dei um passinho à frente na minha trajetória. Agora, o curioso disso é que muitas vezes projetos em que eu senti isso, projetos que me marcaram por terem sido aqueles que ampliei de algum modo minha capacidade, minhas “forças”, não necessariamente foram aqueles que obtiveram maior reconhecimento, como prêmios e etc. Muito pelo contrário, aliás.

Qual a importância dessa autoavaliação, tanto para perceber o que pode melhorar quanto para perceber o que foi positivo no projeto?

GP: É fundamental. Autocrítica, capacidade de autoavaliação é um dos itens fundamentais em quase qualquer atividade.

O que você gostaria de dizer hoje ao leitor de “morte aos papagaios” que não havia sido dito quando o livro foi lançado, há mais de 15 anos?

GP: Acho que muitas coisas. Morte aos Papagaios foi meu primeiro livro — logo, é mais do que natural que hoje eu enxergue nele uma série de problemas, das mais variadas origens. Mas a melhor maneira de dizer outras coisas não é reescrevendo algo, mas escrevendo coisas novas. É o que venho tentando fazer. E, quando de tempos em tempos reencontro Morte aos Papagaios, posso até não me reconhecer em boa parte da obra, mas sinto o prazer de reencontrar um velho amigo.

Conheça outros livros de Gustavo Piqueira

Entrevista com Miguel Sanches Neto

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

O primeiro entrevistado da série é Miguel Sanches Neto, autor de “Museu da Infância Eterna” e “Herdando uma Biblioteca” . Acompanhe:

Miguel Sanches Neto/Divulgação

O que é possível falar sobre os novos lançamentos?

Miguel Sanches Neto: Estes dois livros fazem parte de um projeto maior em que busquei uma seleção temática de minhas crônicas. Durante duas décadas, escrevi para jornais e revistas, quando ainda havia algum espaço para literatura, crônicas com um viés literário, e agora, aos 55 anos, estou concluindo a organização deste material. Então, o gênero é a crônica, mas uma crônica literária, mais interessada nas estruturas de memória e de linguagem do que em atualidades, por isso talvez funcionem melhor no suporte livro do que no formato jornal ou revista, espaço em que elas surgiram.

O que é possível dizer sobre Herdando Uma Biblioteca?

MSN: Herdando Uma Biblioteca é a segunda edição, bastante mudada e ampliada, de um conjunto de textos que eu havia publicado em 2004 pela editora Record. Interessante é que este livro foi pensando para a Ateliê e acabou saindo pela Record. Então, nesta edição, ele volta à sua casa original. É um volume de crônicas sobre como, vindo de uma família de analfabetos, eu tive que inventar a minha biblioteca, tive que acreditar que era, sim, possível uma vida intelectual ao lado dos livros. Este é meu único volume de crônicas que não foi publicado em jornais. Nasceu como projeto estruturado para livro, como se fosse um romance fragmentado de meu amor à biblioteca. Faz parte de uma área muito forte da Ateliê Editorial, a de livro sobre livros, que é um gênero à parte, que transcende os gêneros literários.

O que se pode adiantar sobre Museu da Infância Eterna?

MSN: É uma coletânea em torno das minhas memórias de infância em uma família muito pobre no interior do Paraná, em contraponto com minha memória de pai de duas crianças, Camila (hoje, advogada, com 25 anos) e Antônio (12 anos). Durante a infância deles, tentei registrar como uma criança vê e expressa o mundo. Estes volumes concluem uma série maior, as minhas “Crônicas Reunidas”.

O que motivou o senhor a escrevê-los?

MSN: Herdando uma biblioteca nasceu de uma afirmação de Anne Fadiman. Em Ex-libris: confissões de uma leitora comum, a autora dizia que todo escritor nasce da biblioteca paterna, das leituras das gerações familiares ou grupais que o antecedem. Eu pensei na hora: isso não vale para o Brasil, país em que a relação entre cultura popular e cultura erudita é muito estreita. Eu mesmo não tive nenhum livro em casa até meus 14, 15 anos. Minha família era de agricultores analfabetos ou pouco escolarizados. Então, resolvi contar a história das bibliotecas que nascem do nada, de encontros casuais com livros e pessoas. Já Museu da Infância Eterna é uma organização de textos produzidos em momentos muito diferentes de minha vida e para colunas que mantive nos meios de comunicação.

Lira dos Vinte Anos

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Talvanes Faustino*, que escreve sobre Lira dos Vinte Anos. Agradecemos a colaboração de Talvane e esperamos que todos apreciem a leitura!

No Solo Da Saudade Brotaram As Lembranças De Morrer Das Tripas Do Cadáver De Poeta Foi Feita A Lira Dos Vinte Anos

Quem nessa fronte que animava o gênio,

A rosa desfolhou da vida tua?

Onde o teu vulto gigantesco? Apenas

Resta uma ossada solitária e nua!

Machado de Assis

Manuel Antônio Álvares de Azevedo, Maneco, para seus amigos da Faculdade de Direito de São Paulo, nascido sob o signo de virgem no dia 12 de setembro de 1831. Neste mesmo ano, poucos meses antes do nascimento daquele que viria a ser uma das vozes poéticas mais importantes das letras nacionais, o então imperador do Brasil, Dom Pedro I, abdicava no dia 7 de abril do trono, em favor do seu filho Pedro II[1]. Em 1845 Álvares entra para o colégio Pedro II no Rio de Janeiro, então capital do império. Três anos mais tarde, o jovem bardo, entra para a Faculdade de Direito, lugar onde travaria relações de amizade com Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa, que segundo seus biógrafos eram seus melhores amigos, por escolha de Coelho Neto (1864-1934). Álvares de Azevedo, tornou-se o patrono da cadeira número dois da Academia Brasileira de Letras[2] (ABL).

A Lira dos Vinte Anos é provavelmente a obra mais publicada de Álvares de Azevedo. Não é uma tarefa hercúlea encontrar edições desta belíssima obra: são inúmeras as opções e formatos. Assim como, não é impossível dizer, qual entre tantas, deve ser a preferência do leitor. A edição da Ateliê Editoral numa primeira mirada, não tem muito de especial. Mas, ao ler com mais atenção, vemos que nesta 4º edição há um ensaio introdutório a vida e obra de Álvares de Azevedo, a cargo do Dr. José Emílio Major Neto[3], que também fez as notas explicativas. São mais de 500 notas e estas servem como apoio ao leitor na busca pela compreensão da poesia do autor. Ao abrir o livro, nos deparamos com mais novidades, que tornam esta edição diferente de todas as outras que tive a oportunidade de ler. Esta é a primeira vez que vejo uma edição ilustrada da Lira dos Vinte Anos. As ilustrações ficaram a cargo de Ricardo Amadeo, suas ilustrações em preto e branco têm um charme muito especial e ajudam a vermos transformadas em imagem as belas palavras de Álvares de Azevedo. Para completar, temos uma cronologia da vida e obra do cantor da Lira, um vocabulário básico das palavras mais usadas e pequenos textos informativos sobre as influências de Álvares de Azevedo.

Numa resenha escrita por Machado de Assis, sobre o livro Lira Dos Vinte Anos, o velho bruxo, defende que estamos diante de um grande talento, mas que lhe faltou tempo, tempo não apenas para terminar os poemas que deixou incompletos, mas também, tempo para desenvolver sua poesia.

Aquela imaginação vivaz, ambiciosa, inquieta, receberia com o tempo as modificações necessárias; discernindo no seu fundo intelectual aquilo que era próprio de si, e aquilo que era apenas reflexo alheio, impressão da juventude, Álvares de Azevedo, acabaria por afirmar a sua individualidade poética. Era daqueles que o berço vota à imortalidade. (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019)

Machado de Assis

Com isto Machado de Assis defende uma tese de que a pouca idade de Álvares de Azevedo e sua falta de experiência literária fizeram dele ainda um reflexo das suas influências. Machado fala obviamente de Lord Byron, poeta inglês e maior expressão do romantismo do seu país natal. Mas vale o destaque que Machado não perde de vista que Álvares é um “grande talento”. Mesmo ainda não tendo afirmado a sua individualidade, ele mostra na sua poesia que é destinado a imortalidade. Avançando na leitura vemos o Bruxo, tocar em outro tema caro, seria a sensibilidade demostrada nos poemas verdadeira?

O poeta português Fernando Pessoa, escreveu que “o poeta é um fingidor [..] que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente” e esta palavra “dor” é sem dúvida uma das palavras com as quais podemos explicar a obra de Álvares de Azevedo. Avançando no texto do mestre, vemos que ele toca no tema da sinceridade da dor do Sr. Azevedo, “Nesses arroubos da fantasia, nessas correrias da imaginação, não se revelava somente um verdadeiro talento; sentia-se uma verdadeira sensibilidade. A melancolia de Azevedo era sincera” (ASSIS, Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo, 2019). E segue voltando a destacar a realmente lamentável falta de tempo que a existência deu ao poeta.

Álvares de Azevedo viveu pouco, mas viveu o suficiente para colocar seu nome no panteão das letras nacionais. Sua poesia que trata de temas tão íntimos e caros ao ser humano que, mesmo após 168 anos da sua morte, encontram nas almas de seus leitores, um solo fértil de saudade, onde brotam as flores das lembranças de morrer, regadas com as lágrimas descridas, que alimentam as tripas que formas as cordas das lira dos vinte anos e na suas cabeças, brilha a glória moribunda do poeta da morte, brilha, Álvares de Azevedo.

Bibliografia

ASSIS, M. D. (10 de Janeiro de 2019). Resenha: Lira Dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo. Acesso em 28 de Maio de 2020, disponível em Blog Do Pensar Poético: https://pensarpoetico.wordpress.com/2019/01/10/resenha-lira-dos-vinte-anos-alvares-de-azevedo/#more-3438

ASSIS, M. D. (29 de Maio de 2020). ÁLVARES D’AZEVEDO (Poesias Diversas). Fonte: Machado De Assis UFSC: https://machadodeassis.ufsc.br/obras/poesias/POESIA,%20Poesias%20dispersas,%201855-1939.htm#%C3%81LVARESDAZEVEDO

AZEVEDO, Á. D. (2014). Lira Dos Vinte Anos. Cotia: Atiliê Editorial.


[1] Porém o pequeno príncipe não pôde assumir o trono por ter apenas 6 anos de idade. Como solução, se inicia o período regencial, que acaba em 1840 com o golpe da maioridade, voltando o poder para a dinastia Bragança, neste ano nosso poeta havia completado 9 primaveras.

[2] A cadeira da qual Álvares é patrono, segue atualmente ocupada pelo escritor Tarcísio Padilha.

[3] Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP (2007) e mestre em Teoria e História Literária pela UNICAMP (2001).

Talvanes Faustino

* Talvanes Faustino é natural de Maceió, Alagoas, graduando em História, porém, em processo de mudança para o curso de Letras, porque a literatura falou mais alto. É autor de livros de poesias e contos, todos publicados de forma independente. A primeira publicação é do livro Portal Da Escuridão Do Meu Olhar de 2012 e o último trabalho publicado é o conto “Pássaros e Morcegos” (2019). Além de Álvares de Azevedo, tem em autores como Machado de Assis, Victor Hugo, Graciliano Ramos e a influência e o aprendizado e o incentivo para continuar escrevendo.

Livros sobre Design são discutidos em clube de leitura

A designer gráfica Tereza Bettinardi sempre teve o hábito de ler muitos livros sobre design e de fazer indicações aos amigos e amigas, inclusive pelas redes sociais. Quando começou a quarentena, ela percebeu que o mercado editorial estava sofrendo muito os impactos do distanciamento social e também que “era muito difícil ler livros de ficção”. Foi então que teve uma ideia: criar um clube do livro no qual as pessoas pudessem discutir virtualmente livros sobre design. Assim nasceu o “Clube do Livro do Design”, que tem uma lista de leitura que inclui dois títulos da Ateliê Editorial: Morte aos Papagaios e A Forma do Livro. Leia a seguir a entrevista que Tereza concedeu ao Blog da Ateliê:

Tereza Bettinardi

Como foi a decisão de criar clubes de leitura?

Tereza Bettinardi: Sempre compartilhei livros de design que estava lendo pelos stories do instagram e muita gente me escrevia pedindo dicas de leitura. Quando entramos todos de quarentena, percebi duas coisas: que era muito difícil ler livros de ficção [simplesmente não conseguia me concentrar] e que um setor muito importante de atuação do meu estúdio – trabalho basicamente com design editorial, capas e livros – estava sentindo os efeitos da crise. Nesse meio tempo, fui convidada para gravar um vídeo-resenha para a Editora Ubu sobre um lançamento da área de design… e acabei me empolgando com o retorno das pessoas sobre o vídeo. Pensei que poderia propor algo que pudesse dar conta da falta de encontro e discussão sobre a nossa profissão e que, ao mesmo tempo, fosse possível movimentar um pouquinho o mercado editorial.

Como funcionam esses clubes: quantos são, quem participa, como são feitas as discussões?

TB: No começo fiz uma lista de seis livros todos em português e editados no Brasil [isso era muito importante!], cada um será lido mês a mês pelos participantes. A ideia é que seja um clube de leitura 100% digital. Depois percebi que vários livros que gostava e considero importantes ficaram de fora – alguns por não terem tradução nem nunca terem sido editados no Brasil. Foi aí que surgiu o segundo grupo [com livros em português e inglês]. A inscrição foi aberta e não tinha nenhum pré-requisito: pode ser estudante, designer recém-formado ou até mesmo de outras áreas. As discussões serão feitas através da plataforma slack e as aulas serão exibidas na plataforma zoom, por videoconferência.

Quantos são os participantes do clube?

TB: Temos mais de 150 participantes distribuídos em três grupos [tivemos que abrir uma turma extra, tamanho o interesse!]. Pessoas de diversos pontos do país [e alguns do exterior!]. Estamos muito empolgadas!

Como é feita a escolha dos livros do clube?

TB: Sempre comprei muitos livros na área, então são livros que já estão na minha biblioteca – alguns mais recentes e outros desde a época de estudante de design. A escolha levou em conta alguns critérios: autores importantes para o campo, ideias que precisam ser levadas à superfície e discutidas por mais gente e também livros que inspirem e tragam alguma leveza para este momento [estamos todos precisando, não é mesmo?].

Por que foi escolhido A  Forma do Livro?

TB: Sempre me intrigou muito a biografia do Jan Tschichold. O pensamento e a prática dele reúnem  duas grandes correntes estéticas que dominaram a tipografia do século XX: a ousada “nova tipografia” e os princípios da tipografia clássica, orientada pelas convenções seculares em vigor desde a Renascença. Esta coletânea de ensaios é muito importante, é quando Tschichold revê seus postulados da juventude e volta-se ao estudo e reflexão da tipografia tradicional e sobretudo aos vários  aspectos da composição tipográfica: página e mancha, parágrafos, grifos, entrelinhamento, tipologias, formatos e papéis, entre outros. Mesmo com mais de 14 anos de experiência no design editorial, este livro é [e sempre será] um refúgio, uma fonte valiosa de consulta e acredito que é peça fundamental para qualquer designer.

Por que foi escolhido Morte aos Papagaios?

TB: Li este livro pela primeira vez na época da faculdade. Coloquei na lista por ser um autor brasileiro, um livro escrito por um designer que tem uma prática relevante e que, ao mesmo tempo, consegue produzir alguma reflexão sobre o campo. São poucos que conseguem unir esses dois interesses e acredito que isso deve ser estimulado.

Em sua opinião, qual a importância de discutir livros sobre design? De que maneira eles contribuem para o repertório dos participantes do clube?

TB: É fundamental! Acho que no Brasil, o exercício da crítica em design ainda é muito incipiente e muitas vezes restrito ao meio acadêmico [sem grande interlocução com o meio profissional]. Por outro lado, existe um número crescente de designers que buscam se atualizar através dos livros… é preciso ficar atento a este movimento [sobretudo as editoras na escolha de seus títulos].

Homenagem a Olga Savary

Por José Armando Pereira da Silva*

A jornalista, escritora, tradutora e ensaísta Olga Savary, que faleceu, vitimada pela covid em maio de 2020, trabalhou com Massao Ohno por mais de uma década.

Massao e Olga Savary (1933 -2020) – uma associação improvável, que durou mais de dez anos. O profissionalismo de uma autora sempre empenhada e organizada se confrontando com o espirito boêmio do editor, que não respeitava prazos, falhava na distribuição dos livros, não prestava contas da vendas e não aceitava suas sugestões. Então, como explicar que confiasse a Massao a edição de sete de suas obras mais significativas e ainda o chamasse para trabalhos em outras editoras? Ela mesma responde: “Ele sabia fazer um livro”.

Suas habilidades de designer (e ousadia, como Altaonda, em grande formato, estampando na capa o retrato da autora) combinadas com a escolha dos ilustradores Calasans Neto, Manabu Mabe e Aldemir Martins, Tomie Ohtake, Guita Charifker, Kazuo Wakabayashi deram aos livros de Olga, com o reconhecimento literário, visibilidade para prêmios em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sobre Retratos, concluía a jornalista Elizabeth Vieira: “Um belo livro. Que vale a pena ser lido. E visto” (Jornal da Tarde, 9.12.1989).

Na sua temporada carioca dos anos 1980, Olga foi sua anfitriã no meio literário, e se considera lançadora de seu nome fora do reduto paulistano. Foi quem o apresentou a Marly de Oliveira.

Outra afinidade os aproximou: o gosto pelo haicai. Olga estava entre as primeiras cultoras e divulgadoras do gênero no Brasil. Como praticante, ampliou o arco temático tradicional e liberou-se de estrita grade formal, sem fugir ao espirito das imagens-sínteses. Buscou lições dos mestres Bashō, Buson e Issa, que traduziu em O Livro dos Hai-kais (p. ), abrindo caminho para outros autores do gênero no catalogo de Massao. Quando voltou ao mestre, no preparo para a editora Hucitec de Hai-kais de Bashō, foi a ele que confiou a coordenação gráfica.

Também precursor, Magma mostra outra faceta da obra de Olga Savary. Provavelmente o primeiro livro integralmente de poesia erótica escrito por uma mulher no Brasil. Serve-lhe de capa obra de Tomie Ohtake – truque mais uma vez usado pelo editor: involucro minimalista de suave combinação cromática para um conteúdo ardente. O contrário se dá em Eden Hades, onde as representações da ave do paraíso, da mulher nua e de São Jorge matando o dragão, criadas por Guita Charifker, conduzem diretamente aos arquétipos míticos e sagrados que são dominantes nos poemas.

Olga Savary soma ao oficio poético trabalhos como jornalista, contista, tradutora e organizadora de antologias. Além dos clássicos do haicai, traduziu Borges, Cortazar, Fuentes, Lorca, Neruda e Octavio Paz. Organizou a Antologia Brasileira de Poesia Erótica (1984) e a Antologia da Nova Poesia Brasileira (1992), reunindo 334 poetas de todos os Estados brasileiros, na qual também convocou Massao para a supervisão gráfica. Sua obra tem recebido várias análises, sendo a mais abrangente no âmbito acadêmico a de Marleine Paula Toledo: Olga Savary – Erotismo e Paixão (2009).

Conheça mais sobre Massao Ohno e Olga Savary

*José Armando Pereira da Silva é Mestre em Teatro pela Universidade do Rio de Janeiro e em História da Arte pela USP. Pertence à Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) Publicou: Província e VanguardaThomas Perina – Pintura e PoéticaJoão Suzuki – Travessia do SonhoA Cena Brasileira em Santo AndréPaulo Chaves – Andamentos da Cor e Artistas na Metrópole – Galeria Domus, 1947-1951. Organizou: Guido Poianas – Retratos da CidadeVertentes do Cinema ModernoLuís Martins, um Cronista de Arte em São Paulo e José Geraldo Vieira – Crítica de Arte na Revista Habitat.  É autor de Massao Ohno, Editor (Ateliê Editorial).

Coração, Cabeça e Estômago: humor e crítica em um texto clássico

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Camila Justo*, que escreve sobre Coração, Cabeça e Estômago, escrito por Camilo Castelo Branco em 1862 . Agradecemos a colaboração de Camila e esperamos que todos apreciem a leitura!

A leitura da novela satírica publicada em 1862, Coração, Cabeça e Estômago poderá nos ajudar a conhecer  Camilo Castelo Branco, o autor, e outros aspectos de sua obra.  Em relação à estrutura: apresenta um preâmbulo, sob forma de diálogo entre os amigos Faustino Xavier Novaes e o editor (provavelmente o próprio Camilo Castelo Branco) em torno de um amigo em comum, morto há seis meses. O editor em questão recebe a incumbência de organizar, revisar e publicar o livro de memórias do falecido Silvestre da Silva; e três partes , a saber: 

A primeira é intitulada CORAÇÃO e é a mais longa. Ela abarca boa parte do livro e vai de 1844 a 1854. Nela, Silvestre da Silva, apresenta-se como um saloio ingênuo, sonhador e cheio de esperança, que deixa sua pequena aldeia em Soutelo e migra para Lisboa, onde”inicia seu noviciado amoroso”. Nesse período, suas atitudes e decisões são norteadas pelos sentimentos e excessos de sua imaginação.

Ele ama (ou melhor, tenta amar, sete mulheres), mas sempre de forma instantânea (apaixona-se à primeira vista) e leviana, fortemente influenciado pelos romances e poesia românticos que ávida e irrefletidamente consome.

Silvestre tenta reproduzir a todo custo o estilo de vida e padrões de comportamento adotados por seus heróis e poetas românticos preferidos,  o que acaba desencadeando uma série de situações ridículas e jocosas e, ao mesmo tempo, dignas de reflexão. 

As mulheres pelas quais Silvestre se apaixona apresentam traços de caráter e personalidade semelhantes entre si, reproduzindo sempre os mesmos padrões de escolha de objeto amoroso: todas elas são frívolas, vaidosas, cínicas e interesseiras, e não hesitam em trocá-lo por homens endinheirados na primeira oportunidade.

Depois de sete decepções amorosas consecutivas, Silvestre ainda conhece outras duas mulheres: Paula, “a mulher que o mundo respeita” (é cínica, hipócrita e calculista, trai o conde com o qual se casa por conveniência), mas como é rica, a alta sociedade lisboeta faz vistas grossas ao caso extraconjugal que mantém com o mestre-escola e mesmo sendo adúltera é adorada em seu meio social; e a última é Marcolina, “a mulher que o mundo despreza”, foi aliciada e vendida pela mãe aos 14 anos de idade a um barão. 

Com a morte deste, Marcolina, casa-se com Augusto, um antigo amor, que após o casamento revela-se um homem violento, perdulário, libertino e jogador e dilapida o dinheiro obtido com venda das joias que a esposa recebera de presente. Desesperada e tendo de sustentar suas irmãs, vê-se obrigada a se prostituir. Marcolina e Silvestre se conhecem no Cais do Sodré, justamente no momento em que ela tencionava dar cabo de sua própria vida, pois havia contraído tuberculose e se sentia abandonada pela família.

Ao ouvir sua triste história, Silvestre se compadece da moça e a leva para sua aldeia natal em Soutelo, em busca de ares mais puros e benfazejos à sua debilitada saúde.

No leito de morte, Marcolina declara seu amor por Silvestre, que, ao mesmo tempo, se dá conta de também a amava, pois segundo ele, Marcolina era a mais verdadeira, pura, sincera e santa que “as mulheres que o mundo respeita”.

A segunda parte denomina-se CABEÇA (sede da inteligência, da razão, do cálculo, da consciência, do planejamento e da premeditação) e estende-se por cinco anos (1855-1860), em que Silvestre da Silva, entediado com a monotonia, a tristeza e fealdade de sua aldeia, muda-se para a cidade do Porto, onde passa a trabalhar como jornalista e se interessa pela política local.  

Faz duras críticas aos romances românticos franceses, questionando os padrões de beleza de suas heroínas, sempre pálidas, magras e frágeis a que as jovens procuravam imitar à custa de forçados jejuns e noites mal dormidas e que mulher portuense do passado tinha aspecto bonito, vistoso, saudável, era bem fornida de carne, tinha as faces coradas e mais disposição de ânimo. Silvestre acaba se envolvendo em uma série de confusões com figuras ilustres da sociedade portuense, denuncia sua hipocrisia, pondo a nu seus aspectos ridículos, degradantes e comezinhos, o que lhe trará sérios problemas financeiros e profissionais, e este será o motivo que o fará regressar definitivamente à aldeia onde nasceu.

Ilustração do livro Coração, Cabeça e Estômago, feita por Gustavo Piqueira

A terceira, e última parte denomina-se ESTÔMAGO (órgão que representa o instinto de sobrevivência, nossas necessidades básicas, instintivas tais como comer, beber, procriar, dormir). Nesse período,  que vai de 1860-1861, o protagonista procura uma vida bucólica, serena e isenta de preocupações.   Silvestre nos conta as razões por que se casou com Tomásia e como isto se deu.

Pode -se dizer que o título da novela é uma espécie de metáfora da trajetória de seu protagonista: no início é um saloio ingênuo, romântico, atrapalhado, cheio de esperanças, mas à medida que se decepciona com as mulheres com quem tenta se relacionar e com a sociedade em que se insere, deixa-se corromper pelo meio, tornando-se amargurado, cético, acomoda-se se ao status quo, tanto é verdade que morre de caquexia, empanzinado de tanto comer.

Por fim,  outro aspecto digno de nota é o modo como Camilo Castelo Branco satiriza o Romantismo, movimento estético e filosófico, a que num primeiro momento parece estar associado. Isto se evidencia pela maneira concisa, desidealizada, sem aqueles floreios retóricos, tão caros aos românticos, como  Silvestre da Silva, o narrador da novela nos descreve a personagem Tomásia.

Segundo ele, Tomásia é uma jovem rústica, “escura de inteligência”, não sabia ler nem escrever e era desprovida de vaidade. Porém, ao ler a novela, tem se a impressão de que ela era uma mulher sincera, de coração puro, inocente, sensata, trabalhadora, temente a Deus, forte tanto física quanto moralmente e o mais admirável, dotada de um senso prático incomum às mulheres do século XIX, sobretudo, se a compararmos àquelas que Silvestre conheceu nas cidades de Lisboa e Porto . 

Desta forma , cabe lembrar que no mesmo ano de publicação desta obra veio a lume a novela passional  Amor de Perdição, considerada tanto pelos críticos e historiadores literários quanto pelo público, a obra-prima de Camilo Castelo Branco, mas  a leitura de Coração, Cabeça e Estômago deixa claro que sua produção literária  é mais vasta e diversificada e não se restringe às histórias fatalistas, de amores impossíveis, infelizes, repleto de lances trágicos ou melodramáticos, como muitos manuais de literatura do Ensino Médio querem nos fazer crer.

*Graduada em Letras Português/Espanhol pela UNIVAP (Universidade do Vale do Paraíba 2003), especializada em Literatura pela UNITAU (Universidade de Taubaté 2008/2009).