Renata Albuquerque

Entre o Vivido e o Imaginado

Renato Tardivo*

 

Afonso Segreto

No dia dezenove de junho comemorou-se mais um dia do cinema brasileiro. Trata-se da data em que foram realizadas as primeiras filmagens no Brasil. O ítalo-brasileiro Afonso Segreto fez tomadas da Baía de Guanabara em 1898.

Desde então, o cinema brasileiro foi atravessado por uma série de tendências e movimentos culturais. Muitas vezes, mais uma de tendência esteve em cartaz simultaneamente – é o caso da Pornochanchada e do Cinema Marginal.

 

 

A vista da Baía de Guanabara feita por Afonso Segreto

Recentemente notamos duas tendências majoritárias: as comédias que visam ao entretenimento em uma linguagem muito próxima da televisiva e os filmes que, sem maior pretensão de bilheteria, filmam o Brasil e o brasileiro, convocando o espectador para dentro da tela.

O cineasta Kleber Mendonça Filho destaca-se, neste segundo grupo.. Seu cinema histórico e poético centra-se em Recife – em um quarteirão, como em O Som ao Redor (2012), ou em um edifício, como em Aquarius (2015). Até agora, esses são seus dois longas.

Em O Som ao Redor, a câmera transita entre o interior (das residências e personagens) e o exterior. Dentro, “ouve-se” a imagem de fora; fora, “ouve-se” a imagem de dentro. O foco narrativo são os ruídos. A temática do filme é abordada pelo mergulho no particular.

Esse mergulho  se potencializa em Aquarius. A câmera adentra tanto o apartamento de Clara, a protagonista, como a própria personagem. Com o câncer e os cupins como pano de fundo, ambos associados à destruição, o filme aborda a questão da resistência.

Conquanto os dois filmes enquadrem um perímetro muito restrito de Recife, suas temáticas são universais. Esse trânsito de dentro para fora reflete um cinema de ficção em íntima comunicação com a realidade. Kleber Mendonça Filho filma o Brasil e propõe um resgate inovador da História. Seu cinema de ficção comunica algo novo ao habitar a linha tênue, quase invisível, entre o vivido e o imaginado.

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

16/06: Bloomsday

Por Renata de Albuquerque

Todo dia 16 de junho é celebrado por quem é apaixonado por literatura e livros. Nesse dia é comemorado, ao redor de todo o mundo, o Bloomsday. Instituída na Irlanda, a data homenageia Leopold Bloom, o protagonista de Ulisses, de James Joyce, que durante o dia 16 de junho de 1904 revive em Dublin, a clássica odisseia de Homero.

Mas, Leopold Bloom vive sua odisseia em um romance realista, ambientado no século XX. As figuras mitológicas são representadas por pessoas comuns e as batalhas épicas são episódios do dia a dia. Nem por isso o livro é menos interessante. As experimentações estéticas e de linguagem que Joyce propõe em Ulisses ainda fazem deste um dos livros mais instigantes da história da literatura. Alguns o consideram hermético, complexo e difícil de ler. Outros, o tomam como um desafio.

“Joyce Era Louco?” enfoca a obra do escritor irlandês

A complexidade da obra de James Joyce é tamanha que ela talvez seja uma das mais estudados do mundo. Ulisses foi construído com recursos até então inéditos – mas posteriormente usados largamente na ficção moderna – como o discurso interior, a fragmentação da estrutura do romance e a alternância do foco narrativo.

Antônio Houaiss, Bernardina Pinheiro e Caetano Galindo traduziram a obra para o português. São trabalhos hercúleos, cujo legado é a possibilidade de cruzar referências e oferecer ao leitor como um todo um panorama riquíssimo daquilo que, para muitos, é “intraduzível”.

Não há uma data exata que marque o início das comemorações do Bloomsday. A  celebração do “Dia de Bloom” pode ter começado em 1924 ou 1925, quando amigos de James Joyce – que lançara o livro em 1922 – fizeram uma festa para o escritor, que, então, passava por dificuldades. Outra versão indica que a data passou a ser lembrada no fim dos anos 40, após a morte do irlandês. Mas, a hipótese mais aceita dá conta de que a celebração tenha se iniciado em 1954, data do aniversário de 50 anos do dia retratado no romance.

O fato é que o Bloomsday é hoje celebrado pelo mundo todo, com leituras de trechos do livro, em festas com encenações e bebida. Enquanto isso, James Joyce continua instigando leitores e críticos com sua obra universal.

Conheça alguns títulos sobre James Joyce

Enquanto eu lia

Eliane Fernandes*

Você que é viciado em ler, assim como eu, já percebeu que quando estamos lendo acontecem coisas não programadas? Parece que o universo conspira contra nossa leitura!O telefone que toca –  e é sempre aquela pessoa que fala mais que tudo no mundo; o marido resolve conversar sobre a relação ou a educação dos filhos. Ele teve a hora do jantar toda ou o caminho pra casa, mas é só pegar um livro que o assunto brota. O cachorro que pede atenção, muitas vezes latindo, subindo no colo e, nos casos mais desesperadores, roubando o livro da sua mão; a mãe que quer mostrar uma receita nova que ela resolveu fazer no almoço de domingo ou aquela sede momentânea que dá mesmo que você tenha acabado de beber alguma coisa.

Quando não se tem o costume de ler, existem muitas barreiras a serem conquistadas. No meu caso, a concentração foi o maior desafio. Eu começava a ler e logo estava pensando na roupa que usaria no dia seguinte; no que comeria no jantar ou coisas assim.

Mas o que mais me lembro é das situações inusitadas que minha falta de concentração observava. Eu leio muito no ônibus. No inicio, como não conseguia me concentrar, minha mente vagava pelas ruas junto com o ônibus. Muitas vezes, nós mesmos nos boicotamos. Um livro que hoje leio em 3 dias, eu levava 10 ou 15 dias pra concluir. Como eu superei isso? Treino. Muito treino. Eu lembro que eu me perdia no meio da leitura e tinha que voltar do começo. Qualquer barulho tirava minha concentração. Hoje eu leio com fone de ouvido. Parece estranho, mas eu nunca lembro o que eu ouvi, porque eu entro de uma maneira nas páginas que me esqueço do mundo.

Mas, mesmo assim, algumas situações tiram a concentração.Eu leio a caminho do trabalho e na volta para casa. Independente do que estou lendo, as pessoas me olham como se estivesse fazendo algo anormal. Só avisando: Ler é normal! Outro dia, estava eu no ônibus e um senhor passou a catraca e foi procurar assento. Quando passou por mim, ele percebeu que estava com um livro. Em vez de perguntar qual era o nome do livro ele simplesmente parou do meu lado e tentou ler o título, só que para isso ele esqueceu de se segurar e o ônibus estava em movimento. Resultado: o senhor quase caiu. Se tivesse perguntado nada disso teria acontecido, mas enfim, são situações que não pedimos para acontecer, são situações que acontecem e nos fazem pensar.

Primeiro que a cultura brasileira não é de incentivo a leitura e a segunda é que muitas pessoas têm dificuldade de aceitar as pessoas lendo em público. Por outro lado, quem gosta de ler se congrega. Ler livros pode ser fonte de amizade. Por diversas vezes eu fui à livraria e sempre tem alguém que se aproxima perguntando qual obra estou levando. Isso já basta pra trocar contatos e manter uma conversa sobre livros. Depois que eu comecei a ler eu descobri que as pessoas a minha volta também leem, e é muito legal pois trocamos experiências e livros. De certo modo os livros me aproximou mais das pessoas. E sou grata por isso.

Cada livro aberto é um novo momento, um novo enredo e diversas novas possibilidades.

 

*Filha mais velha de uma família simples da capital da cidade de São Paulo, terminou o ensino médio em 2005. Formada em Ciências Econômicas, especializada em Finanças e prestes a tornar-se especialista em Perícia Criminal e Ciências Forenses.

Arabia Brasilica: o fio da memória costurado por Raduan Nassar, Milton Hatoum e Salim Miguel

Por: Renata de Albuquerque

Sem ter formação arabista, o italiano Alberto Sismondini, nascido em Ventimiglia, aproximou-se da cultura do Oriente fazendo um movimento parecido que o levara, na juventude, a aproximar-se da França, país fronteiriço à sua cidade natal. “Para ter a percepção de não estar a apodrecer no recanto mais recôndito da província italiana, era preciso ser bilíngue”, afirma. Foi por sentir falta de estar próximo de uma cultura “tão importante quanto a francesa” e por ler a literatura de autores libaneses francófonos que fez contato mais próximo com a cultura árabe.

Esta familiaridade o levou a conhecer a literatura de autores como Salim Miguel, Raduan Nassar e Milton Hatoum, que se tornaram seu objeto de estudo no livro Arabia Brasilica. A seguir, Alberto Sismondini, que é Mestre e Doutor em Literatura Comparada e Tradução Literária pela Universidade de Siena, subdiretor do Centro de Línguas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Membro do Centro de Literatura Portuguesa da mesma Universidade desde 2006, fala sobre sua obra:

 

Alberto Sismondini

O que despertou seu interesse no estudo da cultura árabe?

Alberto Sismondini: Não tenho uma formação de arabista. De alguma forma, quando já vivia em Coimbra, estava a ressacar  com a falta de uma cultura de proximidade tão importante como a francesa. Gosto do francês e  das marcas da cultura francesa impressas no imaginário colectivo global, daqueles signos que Annie Ernaux aproveita nas suas narrativas, tal como uma ferramenta para revigorar a memória dos leitores e desta forma criar uma atmosfera empática de partilha de eventos. Acho que a literatura francesa viveu uma fase de franca popularidade ao virar do século, melhor dizer, do milénio, como puderam testemunhar as recentes atribuições do prémio Nobel a Le Clézio, a Patrick Modiano, além do naturalizado francês Gao Xingjian. Em Itália e Portugal, autores como Daniel Pennac, Muriel Barbery e Amélie Nothomb vendem bem.  Pela prática do francês, isto é ler livros de autores francófonos, conheci os trabalhos de Amin Maalouf, Sélim Nassib e, a seguir, os de Farjallah Haïk, autores libaneses que escolheram o francês como língua de comunicação literária. Nessa altura lia os trabalhos de Yasmina Traboulsi publicados pela «Mercure de France».Pois, o Líbano é considerado em França um país importante, o filho varão da francofonia; os jovens libaneses desde sempre eram considerados campeões em «dictée» , o ditado francês, um autêntico rito de passagem na aprendizagem da língua. Conhecia o Líbano como importante centro editorial do Oriente Médio. No início, confesso, a aproximação à cultura árabe deu-se pela francofonia. A seguir, veio a leitura morosa das Mil e uma noites na primeira tradução italiana do árabe, coordenada por Francesco Gabrieli, um bem conseguido projecto da editora Einaudi (1948). As Mil e  uma noites representam a meu ver um autêntico tratado de cultura árabe clássica.  Sinto-me também grato para com os colegas  da Universidade de São Paulo que, pelo seus escritos, me iniciaram de forma acádemica,  Safa Jubran, Michel Sleiman e Mamede Jarouche, este último com a sua própria tradução de alto cariz filológico das Mil e uma noites …

O que o levou a estudar a obra de Raduan Nassar, Milton Hatoun e Salim Miguel? Como se deu essa escolha?

AS: Uma autêntica epifania literária: Milton Hatoum apareceu em Coimbra na quarta-feira de cinzas de 1999 a apresentar a edição portuguesa do seu Relato de um certo Oriente. Foi um deslumbramento, o exotismo amazonense sobreposto ao exotismo orientalista,tudo redigido numa língua tão elevada! A seguir, foram publicados em Portugal Lavoura arcaica e Um copo de cólera de Raduan Nassar e Dois irmãos de Milton. Deu vontade para ler mais:relembro também de ter conseguido arranjar em Lisboa um exemplar brasileiro do Menina a caminho.

Enquanto no Brasil se  aproximavam as celebrações dos 500 anos da carta do achamento, surgiu Nur na escuridão de Salim Miguel, fiquei intrigado e avancei para ter mais bibliografia dele… e a consegui ter. Quem muito me apoiou nessa procura foi a docente de Literatura Brasileira  em Coimbra, Maria Aparecida Ribeiro.

Arabia Brasilica reúne três autores cujas escritas são, a princípio, muito singulares. O que os liga ou aproxima em termos literários? Por outro lado, o que os distingue? 

AS: Acho que todos foram grandes consumidores de literatura na fase da sua formação.  Um elo comum a meu ver existe e é representado por um trabalho constante com a memória. Salim exerce o seu magistério de escritor expressando a memória da imigração no país  ou de eventos marcantes da história nacional (p. ex. o Golpe de 1964) com a linguagem polida e eficaz de jornalista. É natural que a história da diáspora libanesa ao Brasil seja por ele celebrada em Nur na escuridão. Em Raduan Nassar , cujo Lavoura arcaica foi traduzido em francês com o título La Maison de la mémoire, tal como em Milton Hatoum a memória passa por um processo de ficcionalização da realidade, aqui vislumbram-se as tais leituras da fase de formação: muitos dos meus “queridos franceses” mas também, para Raduan,  Almeida Faria e a sua A Paixão.    De Salim Miguel é bem salientar o papel importante que ele teve em publicar autores da África lusófona  censurados pela mordaça salazarista e impossibilitados de publicar no seu país.

Qual a importância, em sua opinião, de trazer à tona a cultura árabe dentro do contexto brasileiro?

AS: O Brasil é terra de acolhimento desde sempre, cerca de 7 milhões de Brasileiros têm  ascendentes árabes e certas práticas estão bem disseminadas: se alimentar-se é um acto cultural, então é só consumir uma refeição  a base de quibe e esfirra numa lanchonete qualquer do país e podemos afirmar que  todos  os brasileiros «praticam» a cultura árabe.

O Brasil sempre foi um país com tradição de acolher imigrantes. Atualmente, por conta da grande tensão e das guerras no Oriente Médio, há uma onda de imigração bastante forte de pessoas que fogem de seus países para virem ao Brasil. Em sua opinião, essa receptividade histórica continua viva ou há preconceito contra os recém-chegados? 

AS: Quando se fala de imigração no Brasil, logo penso em Graça Aranha e o seu Canaã, repetidamente citado por Salim Miguel no seu Jornada com Rupert. A dialéctica entre Milkau e Lentz voltou à tona, também no Brasil. Há dois anos, após uma conferência, cujo tema era a imigração italiana em São Paulo, um simpático casal catarinense confessou o seu desassossego em ver grupos  de migrantes económicos haitianos serem deslocados para o sul do Brasil… A migração de grupos coesos pobres que até podem subverter a ordem institucionalizada de um território, cria espanto, o mesmo que o Drummond criança, em Minas,  sentia a ouvir os turcos falar uma língua desconhecida ( que ele chama de «língua-problema») jogando cartas “com alaridos”. Acho seja uma questão antropológica de posse de espaços. A intolerância surge entre quem está incumbido a partilhar espaços com comunidades de estrangeiros recém-chegados, daí as piadas, cultura oral transcrita para folhetins, que no século passado vitimaram no Brasil  carcamanos, turcos, portugas… A alta cultura não tem medo da miscigenação, mas quem faz alta cultura institucionalizada não mora nas favelas, nem nos bairros onde mora o povão…

Ainda há ganhos/trocas culturais novas que podem ser verificadas nesta nova onda de imigração? Quais? 

AS: Acho que sim, muitos dos novos imigrantes vindos do Oriente Médio têm formação secundária o até superior e poderão contribuir a enriquecer a sociedade e a economia brasileiras, com projectos inovadores.

De alguma maneira a literatura pode atenuar as diferenças entre as duas culturas ou, por outro lado, ela as aprofunda? Em outras palavras, os autores estudados pelo senhor são profundamente brasileiros e profundamente árabes ou essas características são excludentes? Como isso acontece?

AS: Estamos a falar de autores profundamente brasileiros. Ninguém dos três  teve ou tem conhecimentos aprofundados da fala árabe. A questão das origens não interferiu com a plena adesão à cidadania brasileira, cujo resultado, a partir da segunda geração de migrantes, é a perda da fala de origem dos antepassados. Isso acontecia no antigamente, agora as novas gerações tenham mais recursos, devido à globalização.  No meu livro apenas defendo a inserção de formas narrativas orientais, de padrões artísticos presentes seja na cultura do Levante  como na dos autores libaneses francófonos analisados  (Maalouf, Nassib, Haïk) em paralelo com os brasileiros.

A arquitetura muito além da invenção de Oscar Niemeyer

Por Renata de Albuquerque

Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer, obra organizada por Ingrid Quintana Guerrero e Paulo Bruna e recém-lançada pela Ateliê Editorial, traz ao público textos com análises sobre pontos da criação do arquiteto carioca que parecem esgotados, mas não estão: sua obra em São Paulo, suas ligações com Le Corbusier, a crítica internacional e a arquitetura religiosa latino-americana. Autor do ensaio “A revisão crítica de Oscar Niemeyer”, que faz parte do livro, o Professor Livre-Docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP) Rodrigo Queiroz fala hoje sobre a contribuição que a obra pode dar ao público:

Qual a importância da publicação de “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer”?

Rodrigo Queiroz: Os quatro ensaios abordam aspectos fundamentais para a devida compreensão da obra de Oscar Niemeyer. Por se tratar de uma obra vastíssima e cercada pela ideia – dada pelo próprio arquiteto – de que “arquitetura é invenção”, a compreensão da dimensão histórica dessa obra tão importante, por vezes, acaba sendo eclipsada pelo mito da criação, da originalidade e da invenção. Na verdade, como qualquer outro grande arquiteto, Niemeyer possui um procedimento de trabalho e uma estratégia projetual que nos permite compreender o pensamento de um dos maiores nomes da arte e da arquitetura moderna.

É evidente que quatro ensaios não têm o objetivo de esgotar um tema que permite infinitas interpretações. Contudo, os ensaios aqui publicados abordam justamente aspectos ainda pouco discutidos sobre Niemeyer e sua obra.

O ensaio assinado pelo Prof. Paulo Bruna, “A obra de Oscar Niemeyer em São Paulo”, como o próprio nome já diz, discorre sobre os projetos de Niemeyer construídos em São Paulo, com destaque para os edifícios de habitação e escritórios localizados na região central da capital paulista. É possível perceber nesses projetos o apuro de Niemeyer na implantação dos edifícios, assim como a precisa relação com o contexto da cidade existente, aspectos pouco abordados nas obras de arquitetos pertencentes ao movimento moderno, invariavelmente lidos pela chave da forma abstrata que se sobrepõe ao contexto, à memória e ao tempo da cidade histórica.

Já Hugo Segawa, em “Entre dois pavilhões: a repercussão internacional de Oscar Niemeyer”, dedica-se à análise do impacto internacional da obra de do arquiteto carioca. Trata-se de uma reflexão importante pois nos permite compreender a recepção do ambiente estrangeiro à obra de Niemeyer, assim como seu reconhecimento internacional como um mito da arquitetura moderna.

Em “O espaço sagrado em Oscar Niemeyer e alguns desdobramentos na América Latina”, Ingrid Quintana Guerrero aborda os templos religiosos projetados por Niemeyer. Se uma das principais premissas da arquitetura moderna foi justamente a negação do caráter simbólico inerente à sua função, é natural imaginar que o tema do templo religioso sempre foi visto como um tabu pelo movimento moderno, principalmente pela sua vertente construtiva. Contudo, no caso das igrejas projetadas por Niemeyer, é possível diagnosticar o diálogo do arquiteto com a história do espaço religioso, seja na Igreja de São Francisco de Assis (1943), na Pampulha, cujas superfícies remetem inequivocamente à arquitetura religiosa colonial e ao Barroco; seja na Catedral Metropolitana de Brasília (1958), onde a cúpula que historicamente iluminou das igrejas, assume a escala da própria catedral; ou como na Capela de Nossa Senhora de Fátima (1958), diálogo franco com a Capela de Ronchamp, um dos mais conhecidos projetos de Le Corbusier, mestre de Oscar Niemeyer.

Laboratório de Ensaios do Centro Técnico da Aeronáutica em São José dos Campos – CTA (1947). Fonte: Hugo Segawa

Meu texto, “A revisão crítica de Oscar Niemeyer”, aborda o período de transição da obra do arquiteto, durante a segunda metade da década de 1950. Trata-se de um momento no qual o arquiteto revê o aspecto compositivo dos seus edifícios e, paulatinamente, substitui as formas carregadas de elementos acessórios por formas simplificadas, cujo contorno, na maioria das vezes, define-se pela própria solução estrutural do projeto.

A obra pode chamar a atenção de leitores não ligados ao universo da arquitetura ou é dedicado apenas a profissionais da área? Por quê?

RQ: Claro que o livro se presta como um importante conteúdo para estudantes, profissionais, docentes e pesquisadores da área da arquitetura e urbanismo. Contudo, por se tratar de um personagem de conhecimento público, e pelos ensaios fugirem, em certa medida, de uma estrutura eminentemente acadêmica, parece natural que o livro desperte o interesse de um público maior que o especializado.

 

Existe uma vasta bibliografia sobre a obra de Niemeyer. De que maneira este livro se diferencia do que já existe no mercado editorial?

RQ: Sim, há uma vasta bibliografia sobre a obra de Oscar Niemeyer. Mas devemos lembrar que a imensa maioria deles é composta por títulos que não têm como objetivo se aprofundar na análise de sua obra. Invariavelmente, são livros de grandes formatos, com ricos ensaios fotográficos, que se enquadram mais na categoria de livros de arte, os conhecidos “coffe table books”. O livro “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer” vem, justamente, conferir conteúdo a um tema ainda muito conhecido e interpretado pela imagem.

 

Ainda há muito a ser estudado sobre Oscar Niemeyer? O que, em sua opinião, ainda merece atenção dos pesquisadores? E de que forma este volume contribui com esta fortuna crítica? 

RQ: Sim, Niemeyer ainda precisa de uma publicação à altura de sua obra. Um livro de maior fôlego, e de perfil quase enciclopédico, uma espécie de “obra completa”. O livro “Quatro Ensaios” é um primeiro passo para a devida e merecida compreensão da obra de um dos principais personagens da história brasileira e da arquitetura moderna.

 

Por que é importante conhecermos mais sobre a trajetória de Oscar Niemeyer?

RQ: Propositalmente, Niemeyer sempre reduziu a importância de suas obras com um discurso surpreendentemente despretensioso. A presença de suas obras no imaginário e no cotidiano do povo brasileiro faz desse arquiteto uma figura singular, sem paralelo entre seus pares, seja no Brasil ou no exterior. Cabe a nós, professores e pesquisadores de sua obra, sistematizar um conhecimento tão rico e vasto e fornecer as informações necessárias à compreensão do maior arquiteto brasileiro.

Os corpos de Joyce

Por Renata de Albuquerque

Em Joyce Era Louco?, o Professor e tradutor Donaldo Schüler discute a criação literária de James Joyce a partir dos ensinamentos de Lacan e das teorias psicanalíticas. Assim, realiza uma análise da escrita de Joyce e das significações que ela sustenta. A seguir, em uma entrevista exclusiva para o Blog da Ateliê, ele fala de seu novo livro:

O título remete a uma citação de Lacan. O senhor pode explicar brevemente ao leitor, que ainda não teve contato com o livro, qual a importância dessa referência, já que tanto para Lacan quanto na obra de Joyce a linguagem é um elemento essencial de (des)construção do sujeito e da literatura (respectivamente)?

Donaldo Schüler: A loucura é a origem, a organização vem depois, são os dois momentos salientados por Nietzsche na Origem da tragédia: Dioniso e Apolo.  Dioniso é embriaguez, a loucura dionisíaca quebra regras, ponto de partida para a  invenção artística. Apolo está ligado ao que Lacan chama “saber fazer”. O saber fazer é animado pela embriaguez originária. A embriaguez, como tema, atravessa a obra de Joyce. Dioniso desconstrói, Apolo reconstrói, duas faces da mesma invenção.

O Professor Donaldo Schüler

Como teve a ideia para o livro Joyce Era Louco?

DS: Primeiro foi a tradução do  “Ulisses”, feita por Antônio Houaiss. Como professor de grego, levei meus alunos a saltar do mundo de Homero para a turbulenta Dublin de princípios do século XX, sacudia pela rebeldia das vanguardas. Apareceram concomitantemente traduções e reflexões dos irmãos Campos. Aconteceu em Paris, nos anos 70 do século passado, um ano inteiro dedicado a Joyce pelo inventivo psicanalista Jacques Lacan. As análises de Lacan foram gravadas em fita e estenografadas. Publicações feitas por sociedades psicanalíticas em vários países, também no Brasil, despertaram interesse.  Em 2005 apareceu a versão autorizada das lições de Lacan com o título “Le Séminaire, livre XXIII”. Solicitações contínuas para destrinchar o enredado texto de Lacan levaram-me a escrever “Joyce era louco?”. O livro confronta o Seminário, livro XXIII de Jacques Lacan com a obra literária  de James Joyce. Lacan focaliza a criação literária. Entra em discussão o corpo, o psicanalista divide o corpo do escritor em duas etapas: o corpo que adquiriu nos seus anos de formação e o corpo que o escritor passou a desenvolver a partir de um momento traumático em sua juventude.  A  obra literária é o corpo em que o escritor reside. Inadequado é procurar uma biografia fora da produção literária. O corpo do escritor é o corpo que ele artisticamente produziu.

Qual seu  objetivo com esta obra?

DS: A loucura é preocupação constante de poetas, escritores e teóricos desde Homero. Psiquiatras ocupam-se com a loucura desde princípios do século XIX. A loucura mereceu a atenção de psicanalistas desde os primeiros anos do século XX. Já que psicanalistas examinam textos literários, a teoria psicanalítica não pode ser ignorada por teóricos da literatura. Meu objetivo é participar da discussão para compreender melhor a invenção literária.

O que os leitores podem esperar desta obra, sendo o senhor tradutor do escritor irlandês?

DS: A obra literária é um corpo vivo e original. Traduzido, o corpo literário passa a viver em outro espaço, em outra língua. O tradutor sente a transfiguração no ato de traduzir. Joyce revive na tradução em corpo transfigurado. A tradução participa da invenção literária. O rio narrativo que atravessa a obra de Joyce continua a fluir. O tradutor é leitor de sua própria tradução. No texto reinventado, tradutor e leitor convivem. Todo leitor é tradutor. A obra lida é reinventada na experiência do leitor. A obra terá tantos corpos quantos forem os leitores.

James Joyce

O livro será lançado durante uma exposição de arte. Como se dá essa relação entre arte, psicanálise e literatura na obra de Joyce?

DS: A artista plástica, Elida Tessler, visita a obra de James Joyce, em várias ocasiões. Destaco Claviculário e Dubling. Um dos estojos de Claviculários é dedicado à tradução brasileira do Finnigans Wake. Elida destaca palavras e as grava em chaves, mistério penetra o metal, oferecido ao olhar, ao tato. A obra literária ganha um corpo imprevisto. O mistério aproxima literatura, arte e psicanálise. Ler em cada uma dessas atividades é decifrar mistérios. Quem decifra entra no labirinto sem saída e sem centro. No labirinto caminhos confluem e se dispersam.  Em Dubling, a cidade de Dublin se alarga e se desdobra. Garrafas, destinadas a fluir no rio da vida, encerram palavras que ecoam e se duplicam em quem as experimenta.  Na obra de Joyce, todas as artes convergem.

No início do livro, o senhor cita os gregos, sendo este universo bastante familiar ao senhor, já que traduziu diversas obras de autores como Homero e Sófocles e é professor de Língua e Literatura Grega. De que maneira seu conhecimento da cultura grega o influenciou no trabalho com Joyce? Que ligações, presentes neste novo livro, é possível estabelecer entre Joyce e os gregos, já que para o próprio autor irlandês esta é uma referência essencial, como nos lembra Ulisses?

DS: Em Joyce,  sou levado aos gregos por Joyce. Os gregos fundam o Ocidente.  Ao fundar Joyce funde e confunde. Todos os séculos ressoam na obra de Joyce. Finnegans Wake é uma ópera universal, Ocidente e Oriente colidem, ressoam.  Os gregos nos ensinaram a inventar. Joyce frequenta os gregos para reinventar, ele e os artistas de sua geração e da geração que o precedeu: Wagner, Nietzsche, Salvador Dalí, Picasso, o cinema, cineastas, poetas líricos… Estamos em presença de uma nova Renascença. Esta Renascença está à altura do Renascença dos séculos XIV, XV e XVI.

A pergunta, que é título do livro, parece, em alguma medida, uma pequena provocação ao leitor. Ela tem uma resposta para o senhor? O leitor pode encontrar essa resposta no livro?

DS: Provocar (de provocare) significa chamar para fora. Obra que não provoca não é lida. A leitura nos chama para fora de nós mesmos. Toda pergunta, por lançar ao não saber, inquieta. Acomodados vivem confortavelmente, não inventam. Por que  inventar? Se estamos acomodados sobre um abismo – hipótese que não pode ser excluída – necessitamos de vozes que nos despertem para reinventar caminhos. Repousar  ofende a condição humana, só a ação humaniza.

Conheça outros livros de Donaldo Schüler

Ateliê Editorial lança Joyce Era Louco?, novo livro de Donaldo Schüler

Tradutor premiado de James Joyce no Brasil e especialista em clássicos gregos, Schüler aborda questões universais à luz da literatura, psicanálise e filosofia

O psicanalista Jacques Lacan declarou certa vez que Finnegans Wake, última obra de James Joyce, reflete sintomas de mania. A partir dessa e de outras teorias, o escritor Donaldo Schüler, professor e tradutor brasileiro, realiza uma análise da escrita de Joyce e leva os leitores a visitarem as significações que ela sustenta, em temas como vitalidade, efemeridade, agressividade, paradoxos, mitos e sonhos, utilizando recursos de uma bagagem intelectual acumulada em mais de meio século de atuação, no livro Joyce Era Louco?, que será lançado pela Ateliê Editorial no dia 20 de maio, às 11h30, na Galeria Bolsa de Arte, em São Paulo (SP).

 

O evento acontecerá simultaneamente à abertura da exposição “Recortar Copiar Colar”, primeira mostra individual da artista plástica Elida Tessler, com trabalhos que propõem realizar uma leitura menos passiva das obras literárias. Instalações, fotografias e leituras revisitam os 15 anos de trajetória de Tessler, dialogando com escritores como Euclides da Cunha, Franz Kafka, Haroldo de Campos, Manoel Ricardo de Lima, Marcel Proust, Orhan Pamuk e Virginia Woolf.

 

Schüler e Tessler são interlocutores de longa data. Textualidade e visualidade se encontram em suas propostas, possibilitando dimensionar narrativas oníricas como em Finnegans Wake, considerada uma prosa equivalente ao que os cubistas executaram em tela. Artes plásticas, cultura grega e psicanálise são elementos presentes no livro de Schüler que ajudam nessa tarefa. O autor conta que a ideia de escrever a obra surgiu, primeiro, com a tradução de  Ulisses feita por Antônio Houaiss: “Como professor de grego, levei meus alunos a saltar do mundo de Homero para a turbulenta Dublin de princípios do século XX, sacudida pela rebeldia das vanguardas”.

 

A isso juntaram-se as lições de Lacan, publicadas em 2005, sob o título “Le Séminaire, livre XXIII”, apresentando análises do psicanalista sobre a obra de Joyce. “Solicitações contínuas para destrinchar o enredado texto de Lacan levaram-me a escrever Joyce Era Louco?, revela. “A loucura é preocupação constante de poetas, escritores e teóricos desde Homero. Psiquiatras ocupam-se com a loucura desde princípios do século XIX. A loucura mereceu a atenção de psicanalistas desde os primeiros anos do século XX. Já que psicanalistas examinam textos literários, a teoria psicanalítica não pode ser ignorada por teóricos da literatura. Meu objetivo é participar da discussão para compreender melhor a invenção literária”, conclui o autor.

 

Sobre Donaldo Schüler

Donaldo Schüler é professor, Doutor em Letras e livre-docente pela UFRGS e pela PUC-RS. Tradutor consagrado de James Joyce, Platão, Ésquilo, entre outros escritores, foi laureado com o Prêmio Jabuti por Finnegans Wake em 2004, obra também vencedora de melhor tradução pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) no ano anterior. É autor de mais de vinte livros, entre ficção e não-ficção, entre eles, “Origens do discurso democrático” (L&PM), literatura infantil, como “O astronauta” (L&PM), e poesia, “Martim Fera” (Movimento), além de traduções do grego, incluindo “Antígona”, de Sófocles, “Odisseia”, de Homero, e “O Banquete”, de Platão (L&PM).

 

Sobre Elida Tessler

Elida Tessler é artista plástica e foi professora do Departamento de Artes Visuais e do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS até 2016. Realizou doutorado em História da Arte Contemporânea na Université de Paris I – Panthéon-Sorbonne (França), onde residiu de 1988 a 1993. Entre 2009 e 2010, realizou o Pós-Doutorado na  EHESS-Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociales e junto ao Centro de Filosofia da Arte – UFR de Philosophie – Université de Paris I- Panthéon – Sorbonne. Como pesquisadora, desenvolveu sua pesquisa em torno das questões que envolvem arte e literatura, relacionando a palavra escrita à imagem visual.

 

Serviço:
Lançamento do livro Joyce era Louco? (Ateliê Editorial)

Donaldo Schüler

20 de maio, às 11h30
Abertura da exposição RECORTAR COPIAR COLAR
Elida Tessler
Local: Galeria Bolsa de Arte
Exposição: 20 de maio a 15 de julho, das 10h às 16h
Endereço: Rua Mourato Coelho, 790, Pinheiros
Tel.: 3812-7137
Horário de funcionamento: seg. a sex.: 10h às 19h; sáb., 10h às 16h
GRÁTIS

 

 

 

Ateliê Editorial lança a revista Livro nº6

Nova edição da Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição tem contribuições de pensadores internacionais sobre o impresso   

 

Ilustrada por gravuras da artista plástica ítalo-brasileira Maria Bonomi ao longo de suas páginas, a nova edição da revista Livro, uma publicação anual do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição da Universidade de São Paulo (NELE/USP), oferece uma “experiência sensorial vibrante”, nas palavras de seus editores, Marisa Midori Deaecto e Plinio Martins Filho.

Em seu sexto número, a obra traz texto inédito de Donaldo Schüler, mestre-tradutor de Homero e James Joyce; e artigo de Yann Sodert, ex-diretor da Biblioteca Mazarine (França), que apresenta uma abordagem histórica sobre catalografia e suas curiosidades ao longo dos tempos.

Livro no 6 reflete, entre outros pontos, a respeito da leitura do jornal, e traz a reconstrução de um importante capítulo da história editorial brasileira: a trajetória de Jorge Zahar e a revolucionária coleção Biblioteca de Ciências Sociais. Esta edição levanta, ainda, questões relacionadas à crise cultural do impresso, ao analisar a função das bibliotecas atualmente.
Resultado do esforço coletivo de professores, pesquisadores e profissionais dedicados ao estudo da palavra, a publicação tem como finalidade conduzir o leitor a uma reflexão sobre a difusão de pesquisas que têm a palavra impressa como seu objeto principal. Desde seu número de estreia, Livro busca cobrir os ciclos de vida do impresso no Brasil e no mundo. A cada número da revista é escolhido um artista gráfico para ilustrá-la.
Nesta edição, buscando enriquecer o repertório do prazer da leitura e de suas múltiplas formas de contaminação, quer pela política, quer pelo efeito sublimador da literatura, a seção ARQUIVO reúne material precioso e inédito da produção jornalística de Pagu, publicada sob o pseudônimo de Mara Lobo.

 

Os conteúdos propostos pelos editores proporcionam uma grande e deliciosa viagem. A seção DOSSIÊ aborda Edição e Política, enquanto ALMANAQUE reúne aforismos como “A cobiça dos livros é sabedoria”. ACERVO se volta para duas coleções brasileiras da maior importância: a temática de “Servinas”, explorada de um ponto de vista historiográfico e documental e a coleção de Félix Pacheco, cuja fortuna conforma o não menos rico acervo da Biblioteca Mario de Andrade.

 

Já MEMÓRIA rende homenagem a Charles Grivel, professor emérito da Universidade de Manheim, investigador de primeira linha do texto-imagem, das vanguardas artísticas, da fotografia, do romance popular, da narratologia e da literatura de vampiros.

 

Esta edição traz uma série de novidades e conta com artigos de colaboradores como o belga Jacques Hellemans, além de Jean Pierre Chauvin, José de Paula Ramos Jr., Maria Viana, Alexandre Augusto dos Santos Alves, Laura Fernández Cordero, Danilo A.Q. Morales, Lincoln Secco, Flamarion Maués, Nuno Medeiros, Fabiano Cataldo de Azevedo, Kenneth David Jackson, Pablo Antonio Iglesias Magalhães, Rizio Bruno Sant´Ana, Claudio Giordano, Simone Homem de Mello, Emerson Tin, Marcello Rollemberg, Eduardo de Souza Cunha, Vinicius Juberte, Márcia Lígia Guidin, Marisa Midori Deaecto, Antonio Castillo Gomes, Jaa Torrano, Marcelo Tápia, Paulo Martins, Roberto Oliveira, Zepa Ferrer e Geraldo Holanda Cavalcanti.

 

Os interessados em adquirir a Livro nº6 podem fazê-lo pelo site da editora e ou em grandes livrarias.

 

Serviço:

ISSN:2179-801x

Tamanho: 18 × 27 cm

Número de páginas:424

Preço: R$ 80,00

 

Sobre a Ateliê Editorial

 

Site:www.atelie.com.br

Blog:blog.atelie.com.br

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Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

 

Fundada em 1995, a Ateliê Editorial atua principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; e estudos sobre o livro e seu universo.  O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual.

 

Identidade: Eu

Renato Tardivo*

Eu, Daniel Blake, filme dirigido por Ken Loach e vencedor da Palma de Ouro de 2016, em Cannes, é excelente e necessário.

A trama gira em torno das tentativas (frustradas) de Blake, que é carpinteiro, de conseguir o seguro desemprego do governo inglês a que tem direito por ter sofrido um enfarto.

O espectador logo empatiza com o protagonista, um senhor bem intencionado, que tenta apenas adquirir o seu direito, mas é sucessivamente ludibriado pela burocracia, seja no telefone (o filme começa apenas com o código sonoro, em um daqueles diálogos cômicos não fossem trágicos), seja pessoalmente, subjugado por funcionários que são muito eficientes ao usar a regra para punir, mas não para atender aos direitos dos cidadãos.

As tentativas de Blake não encontram vazão. É como se ele estivesse à iminência de outro enfarto: a pressão só aumenta. A fotografia com baixa saturação contribui para essa atmosfera – o Sol nunca se põe.

Há um momento, contudo, em que o protagonista, ao presenciar a humilhação sofrida por uma mulher acompanhada de dois filhos pequenos, se rebela. Ele grita em favor dela, e eles são brutalmente expulsos do estabelecimento.

Ocorre que, a partir daí, há um contraponto para as negativas recebidas por Daniel. Ele passa a ajudar a moça e seus dois filhos, uma menina e um menino, recém-chegados à cidade e sem nenhum dinheiro. Blake, que não recebe o mínimo, se doa para o outro.

Trata-se de um cinema de denúncia. O cinema de Loach é moderno, não há dúvida. Há sequências, no entanto, que lembram o cinema clássico – a câmera estática captando a chegada da personagem que, ao passar, é filmada em contracampo, por exemplo. Esse recurso talvez sirva para universalizar o filme, que em certa medida lembra um documentário – quem nunca se estressou ao telefone ou pessoalmente, vítima da burocracia?

O tema central é a  identidade – colocado  desde o título redundante. No clímax do filme, após tantas negativas, Daniel picha seu nome, exatamente como no título: “I Daniel Blake”. É muito bonita essa sequência, pois, após sentir sua existência anulada, a personagem, além de ir à forra, se liberta, renasce.

As trocas com a mulher e as crianças – que em momento decisivo também o ajudam –, bem como com seu vizinho, caminham em direção oposta à forma como Blake é tratado pelos funcionários do governo. Nessa medida, o filme aborda a identidade em sua complexidade, mostrando que ela se constrói no contato com a alteridade, com o mundo e por meio da (cada vez mais rara) iniciativa de se doar ao próximo.

 

Quer saber mais sobre como a psicanálise trata o tema da identidade? Conheça nossos títulos sobre o assunto 

  *Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê).