Renata Albuquerque

“Geórgicas”, de Virgílio, ganha edição anotada e comentada pelo Grupo de Trabalho Odorico Mendes

Um poema sobre as práticas e as técnicas de agricultura. Este assunto que aparenta não despertar interesse é o pretexto que Virgílio (70 a.C. – 19 a.C.) usa, em Geórgicas,  para tratar de temas grandiosos: a força do sentimento amoroso, as dificuldades humanas, o papel do trabalho. Para muitos, esta é a maior obra de Virgílio.

A nova edição de Geórgicas, que a Ateliê Editorial está lançando, traz o texto integral (os quatro “livros”) em versão bilíngue, comentado e anotado por integrantes do Grupo de Trabalho Odorico Mendes – que congrega docentes da Unicamp, USP, UNIFESP, UFMG e UNESP. A edição é organizada por Paulo Sérgio de Vasconcellos, que fala a seguir ao Blog da Ateliê:

O que é o Grupo de Trabalho Odorico Mendes?

Paulo Sérgio de Vasconcellos: O Grupo de Trabalho Odorico Mendes é um grupo de pesquisa que nasceu no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e tem por objetivos principais estudar e divulgar as traduções da obra de Virgílio realizadas pelo tradutor maranhense Manuel Odorico Mendes (1799-1864). Odorico Mendes foi considerado por Haroldo de Campos um pioneiro da tradução criativa dos textos poéticos em português e também da reflexão crítica sobre o processo tradutório, e o grupo pretende mostrar aos leitores não especialistas os méritos dessa empreitada pioneira através de edições bem cuidadas de sua obra. Houve formações diferentes do grupo, em função das atividades do momento; nos primeiros trabalhos, contou-se com a colaboração não apenas de docentes de várias universidades mas também de pós-graduandos. Para a anotação e comentário das Geórgicas, reuniu-se um grupo de docentes da Unicamp, USP, UNIFESP, UFMG e UNESP.

Qual a importância de Geórgicas na obra de Virgílio?

PSV: Atribuem-se a Virgílio, com segurança, três obras que tiveram grande influência na literatura ocidental; as Geórgicas é a segunda delas na ordem cronológica. Há quem julgue ser essa a maior obra de Virgílio, um juízo subjetivo mas que diz muito sobre sua recepção; o próprio Odorico Mendes considera essa a obra mais bem acabada do poeta. Se nas Bucólicas, sua obra de estreia, Virgílio imitava Teócrito no gênero pastoril, dando voz a personagens que eram pastores-poetas, nas Geórgicas imita sobretudo Hesíodo, praticando o gênero didático. O poema tem um tema técnico, as práticas e técnicas dos agricultores, mas esse parece ser apenas um pretexto para tratar de temas mais grandiosos como a força do sentimento amoroso em todos os seres animados, as dificuldades que o homem enfrenta na lida diária, etc. Em meio à simulação de transmissão de conteúdos agrários, aparecem episódios notáveis como o da descida do poeta Orfeu ao mundo dos mortos na tentativa vã de resgatar da morte sua esposa Eurídice, e aqui Virgílio parece refletir sobre os limites do poder da poesia. É um clássico, aberto a releituras constantes. Por outro lado, trata-se do poema mais difícil de Virgílio, por causa dos conteúdos técnicos (cultivo dos campos e do gado, arboricultura, apicultura), mas justamente o desafio do poeta é tratar de grandes temas universais a partir de matéria aparentemente tão miúda e antipoética.

Quanto tempo levou para concluir o trabalho que agora está ao alcance do público, nesta edição de Geórgicas? Quais foram os desafios enfrentados nesse processo?

PSV: A tarefa consumiu cerca de dez anos. Todos os que participaram do projeto são professores universitários, que têm uma rotina de trabalho muito exigente, entre aulas, pesquisas, orientações, atividades administrativas etc. Além disso, a trabalho de anotação e comentário da tradução foi muito cuidadoso e, por isso, lento. O português de Odorico Mendes busca a precisão na tradução dos termos técnicos, e o grupo teve de fazer muita pesquisa de vocabulário (por vezes em dicionários de séculos passados) para identificar com precisão os sentidos do léxico empregado pelo tradutor. O conjunto foi submetido a revisões minuciosas e criteriosas de toda a equipe para que o trabalho resultasse o melhor possível, uma espécie de homenagem a um tradutor genial que no passado foi alvo de incompreensões.

Paulo Sérgio de Vasconcellos

Qual a importância de ter a obra integral à disposição do público? Além deste, quais são os outros diferenciais desta edição da Ateliê?

PSV: A edição da Ateliê não tem igual. Toda dificuldade apresentada pelo texto e  que poderia atrapalhar a leitura do não-especialista  (vocabulário técnico, sintaxe complexa, alusões mitológicas, alusões a acontecimentos históricos, etc.) recebeu uma explicação em nota de rodapé. São centenas de notas, redigidas com todo rigor filológico. Além disso, depois de cada “livro” das Geórgicas, além das notas do próprio tradutor, interessantes por revelar suas concepções de tradução, acrescentam-se notas e comentários feitos pelo grupo; nelas, analisamos os modos por vezes surpreendentes como Odorico Mendes responde a certos aspectos do texto latino e comentamos, sobretudo, como efeitos de som, ritmo, sintaxe do original virgiliano são recriados no português de Odorico. O leitor terá, assim, uma espécie de demonstração didática dos modos como Odorico Mendes traduz a obra. Por fim, a edição traz o texto latino adotado por Odorico e aponta erros de impressão que a edição original trazia, quer no texto latino, quer no texto português.

Por favor, pode escrever brevemente sobre a suposta “humildade” das Geórgicas, que Matheus Trevisam aponta no texto de introdução?

PSV: A Antiguidade classificava os vários gêneros poéticos segundo uma hierarquia; os gêneros mais elevados eram a epopeia e a tragédia (aliás, objetos da Poética de Aristóteles). Gêneros como a comédia e a poesia didática (caso das Geórgicas) eram, comparativamente, considerados mais “humildes”. Mas que não nos enganemos. O tema é “humilde” e também certo vocabulário técnico pode parecer prosaico, mas a grandiosidade da mais alta poesia perpassa toda a obra. Justamente o desafio de Virgílio era dotar essa matéria humilde de densidade poética, e a recepção da obra diz bastante sobre o sucesso de sua empreitada.

O que o sr. gostaria de dizer ao público que pretende ler Geórgicas e nunca antes teve acesso à obra? O que esperar desta edição?

PSV: O leitor não está diante de uma obra fácil, não está diante de uma tradução fácil. Mas este é um caso em que superar a complexidade que muito exige do leitor é  gratificante. Há episódios belíssimos na obra (como o tão influente de Orfeu e Eurídice, no final do quarto “livro”) e, no conjunto, uma visão do homem e do mundo que alterna sombras e luz: em Virgílio, a realidade retratada nunca é monocromática nem fácil, daí as interpretações por vezes radicalmente divergentes de suas obras, quando se acaba vendo só uma face de um mundo na verdade mutifacetado. Entre outros temas que o poema parece tratar de forma sutil, destaco que a natureza aparece personificada, mas ao mesmo tempo o homem parece por vezes animalizado: uma espécie de simpatia universal em que homens e animais compartilham muita coisa em sua condição de existência no mundo, afetados igualmente por forças como o impulso erótico, a doença e a morte. É um longo poema para se ler e reler. A tradução é o que se pode esperar de um tradutor como Odorico Mendes: nada banal, criativa, poética. Gonçalves Dias dizia que Odorico metrifica “como um rei” e sem dúvida, mas não só pela habilidade na métrica, há passagens de suas traduções que poderiam figurar em antologia do que de melhor produziu a poesia brasileira. O leitor tem diante de si uma edição que tudo faz para aplainar as dificuldades de fruição de um dos mais instigantes projetos tradutórios, o de uma obra como as Geórgicas, o poema mais desafiador, e talvez o mais instigante, de Virgílio.

Conheça outros títulos da coleção

“Epigramas” ganha edição em brochura: leia trechos

O Twitter popularizou a ideia de escrever em poucos caracteres para expressar uma mensagem. Hoje, fala-se de política, comportamento, cultura e até fofocas de celebridades em 280 caracteres. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos. O poeta Marco Valério Marcial foi um dos precursores da técnica de criar poemas cômicos, pornográficos e de crítica social muito concisos. Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso), é autor dos “Epigramas”, edição bilíngue traduzida por Rodrigo Garcia Lopes que acaba de chegar à nova edição. Agora em brochura, a obra fica mais acessível e prática.

Confira a seguir alguns desses pequenos, mas cortantes poemas:

IV
Se acaso, César, topar com meus livrinhos,
Deixe essa cara séria de dono do mundo.
O riso é liberado até em seus triunfos.
Ser tema de piada não envergonha um líder.
Leia meus poemas como quem assiste
as palhaçadas de Latino, a Tímele.
Que o Censor permita a graça inofensiva.
Lasciva é minha página, vida limpa.

Contigeris nostros, Caesar, si forte libellos,
terrarum dominum pone supercilium.
consuevere iocos vestri quoque ferre triumphi,
materiam dictis nec pudet esse ducem.
qua Thymelen spectas derisoremque Latinum,
illa fronte precor carmina nostra legas.
innocuos censura potest permittere lusus:
lasciva est nobis pagina, vita proba.

XIX
Se não me engano, Élia, tinha quatro dentes:
Dois foram expulsos numa tosse, dois na outra.
Pode tossir agora o dia todo, velha:
Não tem lugar pra tosse em sua boca.

Si memini, fuerant tibi quattuor, Aelia, dentes:
expulit una duos tussis et una duos.
iam secura potes totis tussire diebus:
nil istic quod agat tertia tussis habet.

LXXXIII
Seu totó lambe sua boca, sua língua. Como gosta!
Não me admiro, Maneia. Cães adoram bosta.

Os et labra tibi lingit, Manneia, catellus:
Non miror, merdas si libet esse cani.

XIII
Juiz e advogado adoram uma propina.
Não duvide, Sexto: pague sua dívida.

Et iudex petit et petit patronus.
solvas censeo, Sexto, creditori.

XXVIII
Surpreso que a orelha de Mário feda?
Culpa sua, Nestor, que falou nela.


Auriculam Mario graviter miraris olere.
tu facis hoc: garris, Nestor, in auriculam.

A Literatura em sua Humanidade

Renato Tardivo*

Os Arquétipos Literários, livro fundamental do russo E. M. Melentínski, foi publicado pela primeira vez no Brasil em 1998. Agora acaba de sair sua terceira edição.

Além de uma apresentação, assinada pela professora Aurora Fornoni Bernardini, uma das tradutoras da obra para o português, o livro divide-se em duas partes: “Sobre a Origem dos Arquétipos Temáticos, Literários e Mitológicos” e “As Transformações dos Arquétipos na Literatura Russa Clássica – cosmos e caos, herói e anti-herói”.

O texto aborda as relações dos mitos e arquétipos com a ficção, de modo a, por meio de um aprofundado estudo da história da literatura, delinear as estruturas mentais da humanidade.

Fortemente influenciado pela teoria dos arquétipos de C. G. Jung, Melentínski, no entanto, diverge do médico suíço no seguinte sentido: enquanto para Jung o mito diz de uma harmonização do pensamento individual consciente com o inconsciente coletivo, para Melentínski essa harmonização apareceria não no estádio do mito, mas no estádio do romance cortês e medieval.

Da perspectiva original de Melentínski, então, a função do mito seria harmonizar as relações do homem com a sociedade, a cultura e o mundo que os envolve.

Na seção dedicada à literatura russa, o autor analisa obras de escritores como Gógol, Dostoiévski e Tolstói, destacando a presença de arquétipos do cosmos e do caos, do herói e do anti-herói. É interessante perceber nas análises que, ao se valer de arquétipos arcaicos, a literatura os transforma, os recria e, por que não dizer, os atualiza.

Assim, o livro de Melentínski configura-se como um trabalho fundamental de crítica literária, uma vez que, como poucos, habita o trânsito compreendido entre as obras, quem as produziu e a tradição. E é por isso que não se trata de mera aplicação de conceitos psicanalíticos ou antropológicos à literatura, mas, felizmente, de considerá-la uma das produções humanas mais preciosas.     

* Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, dos livros Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp), Cenas em Jogo – Literatura, Cinema, Psicanálise e do volume de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

“Velhos Amigos”, o mundo é a memória que carregamos das coisas

Por Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Das vizinhas ao meio,

Sobre a escada a fiar, uma velhinha,

Naquele ponto onde se perde o dia;

E recordando vai do seu bom tempo

Quando em dias de festa se adornava

E ainda fresca e esbelta

Costumava dançar entre os que foram

Seus companheiros da idade mais bela.

Giacomo Leopardi, “O sábado da aldeia”, tradução de Ecléa Bosi

Desde muito antes de a literatura servir à ciência como repositório para a compreensão sobre determinadas circunstâncias sociais e humanas, formou-se um movimento criativo ao contrário. Isto é, pensadores de campos diversos do saber experimentaram suas ideias através do literário. Os nomes que talvez logo nos saltam da lembrança são os de Albert Camus, Jean-Paul Sartre ou Simone de Beauvoir, pensadores e autores de ficções que animavam os conceitos por ele pensados. Mas, eles não foram precursores desse recurso; se formos aos primeiros livros que se propõem oferecer alguma resposta para inquietações de ordem diversa e uma explicação sobre o mundo e as coisas, encontraremos títulos como A República, de Platão, Émile ou De l’éducation, de Jean-Jacques Rousseau, Diálogo sobre a Religião Natural, de David Hume, La Religieuse, de Denis Diderot, Assim falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche, apenas para citar alguns dos textos formadores do que é possível denominar como uma linha criativa no âmbito do literário. A rápida referência aos três primeiros escritores é pela proximidade com o nosso tempo. E porque não apenas fizeram da literatura um campo de experimentação sobre ideias; embora concebessem a literatura como esse repositório do qual se beneficiaram nomes diversos da filosofia, da psicanálise e das ciências sociais, para citar alguns dos campos principais nessa relação, esses pensadores construíram uma obra sem transformar o literário em objeto submetido ao regime do seu pensamento. Sabiam que os discursos que modulam a ciência não são literatura, mesmo que nela se manifestem.

Foi o conjunto de textos Velhos Amigos (Ateliê Editorial, 2019) que deu acesso a Ecléa Bosi nesse seleto grupo de criadores que se utilizaram do seu pensamento na experimentação do literário. Quando este título veio ao público, Memória e sociedade. Lembranças de velhos, certamente seu trabalho mais conhecido, chegava aos 25 anos. Sua reedição, em quase duas décadas sobre esse tempo, chega em boa hora. Para uns poderá ser uma descoberta, como foi para todos em 2003. Mas, essa descoberta, entretanto, não será puro acaso. Os que mantinham ou mantêm um simples contato com a obra teórica de Ecléa Bosi sabem do cuidado com que a autora lida com a linguagem, situando-se sempre numa zona de fronteiras quase desfeitas entre o discurso objetivo da academia e o de inclinação ficcional-subjetiva encontrado com maior reiteração na literatura. Estamos diante de uma autora filha de uma geração que interviu continuamente no rigor acadêmico interceptando-o pelo despojamento do comum, num claro esforço de estabelecimento de diálogo com grupos sociais fora das margens da língua e dos espaços intelectuais sem se descuidar da seriedade e do rigor necessários a qualquer pesquisa.

Uma maneira possível de observar os estreitamentos de um trabalho com a linguagem e o zelo pelos afetos, força ideológica, formal e estilística de sua obra são os laços que a obra acadêmica de Ecléa Bosi mantiveram com os universos criativos do artísticos, permitindo que outros criadores traduzissem essas textualidades em expressões variadas, como o espetáculo Doces Lembranças, produzido pelo Departamento de Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo a partir de Memória de Velhos ou a função iluminadora de Cultura de massa e cultura popular. Leituras de operárias nas criações do teatrólogo Timochenco Wehbi.

A aproximação com modos de tratamento comuns à literatura não finda no trabalho de manipulação da linguagem científica; Ecléa Bosi foi leitora assídua de ficção e poesia. Só isso pode garantir ao pensador acadêmico modulações fora do tom sisudo recorrente no discurso de seu meio. Herança do trabalho da pensadora que se dedicou a trabalhos de tradução de poesia – Federico García Lorca, Giacomo Leopardi ou Rosalía de Castro numa antologia já escassa entre nós(Editora Nós, 1966) – e mesmo à escrita de poesia, como soubemos com a publicação de A casa e outros poemas (Com-Arte, 2018). Velhos Amigos nos coloca ante seu trabalho criativo com a ficção e não é apenas um experimento no literário – nele intervêm uma quantidade variada de referências de dentro e fora da nossa literatura que nos coloca em contato com outros nomes formadores, certamente, do vasto repertório de leitura da autora: Manuel Bandeira, Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade, Vicente de Carvalho, Cecília Meireles, Guimarães Rosa, Fernão de Magalhães, Lamartine, Máksim Górki, Carlo Collodi, Hans Christian Andersen, entre outros – nomes pinçados numa visita planar pelos textos reunidos na antologia ora em análise. Essa presença se nota ainda no intertexto, isto é, na retomada de textos diversos citados diretamente ou incorporados ao discurso narrativo.

Mas, por que Velhos Amigos é produto de uma experiência do pensamento teórico da autora pelo literário? A resposta a essa pergunta não é tão simples. Não estamos diante de um mero trabalho de transposição de ideias do campo teórico para o literário, mas de um exercício criativo que deixa o leitor entrever resquícios de um no outro. As possibilidades são muitas: é a reiteração de questões, preocupações, temas e espectros ideológicos; é a atmosfera das narrativas, situações, modulações discursivas; é maneira das descrições; é o itinerário, os afetos e as geografias recuperadas. O leitor nota precisamente um paciente, minucioso e recatado trabalho de tessitura quando percebe nos textos esses variados tons que os determinam: ora como se a própria memória da escritora, vivida, ouvida e imaginada, ora pelas aproximações com o imaginário popular e erudito, ora as concepções muito articuladas com certo apelo pedagógico. Ainda que assuma tons variados, como é esperado no modo narrativo, não deixamos de reparar um continuum vocal, muito bem definido como o tom do ensinamento, à maneira de um narrador antigo que nos coloca outra vez em contato a magia de dizer as coisas envoltas em situações que nos impele ao movimento de aprender pela decifração, pelo exemplo e pela reflexão.

Os fios desse tecido, alguns mostrados acima, formam um conjunto de narrativas que recuperam um tempo imemorial, um passado continuamente revisitado pelos narradores desses textos; suas vozes estão tomadas por um saudosismo mesmo quando as situações recuperadas são difíceis e trágicas. Isso porque toda memória é condicionada por afetos toda vez que interpelada. E as múltiplas vozes recuperadas pela escritora são determináveis pelos resquícios de suas vivências e das vidas com as quais cruzou nos seus itinerários de pesquisa. Velhos Amigos é um agradabilíssimo reencontro com as memórias daquelas personagens de seu principal trabalho acadêmico; é o demonstrativo de que o distanciamento objetivo reiterado pelo discurso acadêmico é moeda ultrapassada: os nossos objetos de pesquisa são constituídos pela força da paixão com a qual nutrimos nossos interesses e depois de longo tempo de convivência conosco se nos infiltram e tornam parte de nossa existência, respiram do mesmo ar que respiramos, nos determinam, influenciam na compreensão e organização do nosso mundo.

Se no território acadêmico esse distanciamento fora colocado em xeque, aqui, Ecléa Bosi se permite à liberdade só possível no literário. Vale recuperar o primeiro texto dessa antologia, “Ao alcance da mão”. Este título situa o leitor que os episódios recuperados passam da memória e alcançam à ponta dos dedos e da caneta que os recriam como literatura. É uma narrativa com cariz introdutório – o que significa dizer que, embora diversas, as histórias ocupam certa ordem e estão alinhavadas por um único fio: tenta responder uma pergunta que, uma vez colocada no interior da própria narração, logo transforma o texto em metatexto. A pergunta é “de onde vêm as histórias” e a resposta é dada contando uma história: “Uma jovem certa vez perguntou ao educador Paulo Freire como ele havia conseguido entender gente de tantos países e ser admirado por povos de línguas e culturas tão diferentes. Ele revelou um segredo. Quando menino, nas ruas e pontes da sua cidade do Recife, vivia conversando com velhos, mendigos, vendedores ambulantes.” Essa constatação parece servir ao itinerário que se segue. “Se conto histórias”, diz na continuação o mesmo texto, “é porque em longas caminhadas precisava distrair meus amiguinhos”; e acrescenta: “O que está escrito neste livro sempre esteve ao alcance da mão, e, se lhe alegra saber, tudo é verdadeiro.”

As vozes que falam em Velhos Amigos são as da experiência. De um narrador que durou muito tempo em sua própria terra e uma vez em terras alheias se aventurou em ouvir as personagens com raízes das mais profundas com o lugar onde viviam. Podemos, assim, dizer que a Ecléa Bosi desses textos é a pesquisadora, muito tempo depois de seu interesse pelas histórias de velhos, transformada ela própria em velha contadora de histórias. Assume-se então em pelo menos dupla persona, a que reinventa o acontecido consigo, o vivido, e a que revive as histórias de outros. Esse narrador assume posições diversas: preocupa-se com a degeneração da memória, com o papel da experiência na formação dos laços interpessoais, com o registro de vivências situadas num tempo não contaminado pelo imediatismo e com o trabalho contínuo da tradição de fazer permanecer no outro os eventos da história, não só os agradáveis mas os traumáticos. Ou seja, o fio único que alinhava as narrativas dessa antologia é o que compreende a história não como um tempo estanque e irrepetível e sim continuação e passível de repetição.

É por isso que se preocupa em revisitar episódios dos mais terríveis, como os campos de concentração levantados pelo nazismo ou o ataque dos Estados Unidos a Hiroshima; contados pela voz do sobrevivente, esses relatos ressaltam em desencanto o peso do horror na história e o papel dos habitantes do presente em não deixá-lo cair no esquecimento sob ameaça de retorno à barbárie. Com o mesmo sentido, agora para ressaltar os exemplos positivos, faz de figuras históricas em personagens importantes; é o caso da presença já citada dos escritores da literatura nossa e estrangeira, de Paulo Freire, de Dom Helder Câmara, Câmara Cascudo, Aleijadinho ou Santos Dummont. Se imiscui claramente certo propósito educativo, como dissemos, visível este no tom moralizante de algumas narrativas. A pedagogia do exemplo não é uma puramente pedagogia; perfaz a cor mais natural do fabular, que é, como se sabe, o espírito mais original da literatura. Podemos ampliar essa perspectiva observando que as narrativas reunidas nessa antologia buscam catar o perdido ou em vias de se perder como se conseguir isso seria devolver ao leitor parte de sua identidade, afinal, o que nos define passa pelo vivido e o seu reconhecimento enquanto elemento participativo na transformação das coisas e mesmo das outras vidas posteriores. Prevalece, assim, certo traço de uma coletividade constituída pelo entrecruzamento de uma rede saberes, algo que não deixa de se mostrar em crise pela maneira como algumas narrativas reiteram certa modificação da natureza e dos ambientes urbanos ou ainda a falha da memória.

O impacto do falso progresso, este que nega a natureza enquanto continuidade do homem, se apresenta de diversas formas nessas narrativas: da destruição da natureza naqueles textos de forte apelo ambiental ao descarte de vidas nos asilos como se fôssemos em velhos o refugo de uma sociedade cegamente guiada pelos princípios da produção, dos distanciamentos nas relações entre jovens e velhos à nossa relação com a nossa e a memória alheia. Essas, algumas das preocupações entrevistas ora pela maneira como se é recorrente nas sociedades do alto capitalismo ora pela via contrária, isto é, quando personagens atuam na contramão dos novos paradoxais costumes são outras das questões que formam o conteúdo de Velhos Amigos. Todos esses textos se revestem de um lívido frescor, por vezes se oferecem como se uma crônica, outras de um triz autobiográfico, outras de uma ironia sobre nossas obsessões, outras de certo cariz antropológico saudado por Adélia Prado no breve texto colocado na abertura do livro. A poeta mineira reconhece-se na sensibilidade de Ecléa Bosi para o miúdo e a capacidade de presentificá-lo através da escrita – na certa está atenta ao traço de poesia que ilumina sensivelmente a prosa nos momentos que o leitor não deixará de se mostrar tocado pelas descrições, revelações, ou fulguração dos sentidos sobre o mundo, seus habitantes, os gestos e as coisas. Isso porque essas infiltrações poéticas assumem também um valor exemplar, o de nos propiciar uma visita aos meandros da existência ao mesmo tempo que nos colocam em contato como uma metafísica do homem. Há nisso uma clara aproximação com a poesia de Rosalía de Castro, pela maneira como Ecléa Bosi fabula o particular e o transitório, sempre atenta ao simples e porque nele repousa o sublime, o que atinge o cerne da natureza humana e a revela enquanto a beleza terrível de existir.

Não é apenas a memória de velhos que se mostra nos textos de Velhos Amigos. O olhar da autora se debruça para um cotidiano atulhado de coisas em vias de esquecimento, para solidão das coisas carregadas de afetos por contar ou ainda vivas portas de acesso a esse mundo outro fundamental às nossas existências: o fabular – um quadro, um retrato, a casca de uma árvore, uma estrela de tecido de Auschwitz, uma bengala, o livro antigo. Esse trabalho singular com o resíduo se assemelha ao do próprio poeta na contemporaneidade, uma vez que, sua função num mundo desatento para a memória das coisas porque seduzido pelo valor do novo e da novidade tem sido a de refigurar a existência daquilo que sem-valia e descarte; sua tarefa, se antes era a de oxigenação da linguagem, para reiterar um termo de Umberto Eco, é, agora, também a de retransmissão dos sentidos. Em “As Crianças de Parma”, é o contato da criança com uma litogravura que favorece a transmutação da cena pictural em realidade; em “Objetos e pé”, para recuperar mais um exemplo, as lembranças de menino ativadas por uma fotografia de coqueiros impele o velho Teófilo à obsessão pelo sonho de infância de uma ilha, espécie de paraíso outro, que é, no fim de tudo, ele próprio.

Se antes dizíamos que a escritora não perde o tom professoral ao nos propor uma reabilitação da memória biográfica e histórica para o não esquecimento do passado, também para a compreensão do presente e, consequentemente, uma revisão sobre o futuro e que isso guarda certo interesse de restauro de uma coletividade em decomposição, aqui podemos ampliar esta leitura. É sua preocupação uma reaprendizagem dos sentidos, uma reeducação pela sensibilidade, a única possibilidade de acesso ao que o cotidiano da pressa, do refugo e do entulho não nos deixa ver. Tal reeducação só pode ser oferecida pelo artístico, como referido em Velhos Amigos enão somente pela literatura, como citado, mas por outras expressões como a música, a pintura, o teatro, a dança e as manifestações populares. Tudo isso tem um desígnio muito claro: são os objetos artísticos que nos colocam em contato com a dimensão humana de nós próprios, esse que nos diferencia do animal em sua forma não-domesticada, além de constituir em elemento fundamental às nossas memórias. Um povo sem arte é um povo sem memória. E o apagamento da memória pode significar o endurecimento dos afetos, a banalização do mal e a condenação de uma sociedade à barbárie – talvez já não precisemos ir muito longe no tempo para saber disso, mesmo assim, há situações num passado igualmente não-distante fundamentais de mantê-las redivivas e isso só é possível pela memória.

A grande imagem que nos é oferecida pelo diálogo entre peças muitas vezes tão diversas (a crônica de costumes, social e histórica, a anedota popular, o episódico, o autobiográfico, o conto de exemplo, a fábula, o registro antropológico) compreende um instante entre um passado e um presente que se habilita negá-lo. Essa observação pode ser compreendida na imagem simbólica oferecida em textos como “Em Ouro Preto”, em que o tom autoconfessional descreve por entre sendas de um breve relato de viagem o contato com os prédios de Belo Horizonte que taparam o horizonte, o trânsito que expulsou de suas ruas as crianças, os oleiros e as cirandas. A cidade do interior mineiro é que fará a viajante não só corroborar com os versos de Carlos Drummond de Andrade – “Minas não há mais”, como reexperimentar seu avesso, pelos sentidos do passado; Ouro Preto é vista como a cidade que resistiu o mal do progresso por baixo dos cobertores de serra e a resistência dos moradores que se ofendem com o olho interesseiro do turista enquanto pulula com o frevo dos jovens estudantes, estes que são vistos como a vida da cidade à noite e numa cena tanto bucólica quanto revestida de uma nostalgia de um ajuntamento deles ao redor da estátua de Tiradentes reflete a narradora: “Bem que eu gostaria de sentar-me com eles, mas os degraus eram alto demais”. O recorte desse episódio no final destas breves notas é para observar que as narrativas de Velhos amigos estão profundamente marcadas pelos sentidos de uma palavra citada logo acima: nostalgia. A sensação de saudade idealizada associada a um desejo sentimental de regresso define “Em Ouro Preto”, que pode ser lido como uma síntese da atmosfera que envolve as circunstâncias que formam este livro sobre memória-vivido, memória-sonho, memória-trabalho, ou apenas o tempo paralaxe da memória.

Para Ecléa Bosi a sociedade se constitui das vivências dos velhos (o título da antologia reafirma essa tese), do trabalhador comum. É dela a afirmativa de que: “Os feitos abstratos, as palavras dos homens importantes só se revestem de significado para o velho e para a criança quando traduzidos por alguma grandeza da vida cotidiana”. E é o que se mostra nessa antologia. Permita o leitor, apenas um exemplo a mais que justifique isso. Em “Aventura nos confins do mar”, outro texto dos mais bonitos de Velhos amigos, o leitor encontra a seguinte situação: os avós, muito simples, que modificam sua rotina de trabalho levando o neto para passear; pela viagem, compram-lhe uma bola; uma vez na praia, o objeto é arrastado pelas ondas, o que demanda um esforço hercúleo do frágil avô na tentativa de recuperá-lo. Fique apenas com esses episódios, sem o desfecho – são suficientes para perceber no literário o desenvolvimento da ideia da pensadora. Na mesma linha, o leitor não pode deixar de perceber que o trabalho da escritora se reveste do mesmo princípio aqui definido: só alcançamos seu grande feito pelo enredamento do cotidiano.

Este mapa de afetos, reafirmamos, volta em boa hora; seus lugares nos retiram do bulício corriqueiro para um mundo não-visto e um tempo cada vez mais escasso em decorrência de uma abjeta ditadura da informação produto do apelo radical de um modelo social que se impõe cada vez mais ignorando a dimensão humana que nos define. Depois da travessia por esses territórios, podemos reaprender os sentidos – não é esta outra das principais dimensões da literatura, patente desde os gregos, nos proporcionar um acesso ao negado pela realidade imediata? Comecemos, então, por Velhos amigos. É nossa vez de ouvir o que tem a dizer aquela que durante toda uma vida nos propôs ouvir os negados de falar. Uma reeducação dos sentidos passa pela revisão e ainda reaudição. O círculo se abre (nunca se fecha, aliás, porque continuidade) – quem nos chama é Ecléa Bosi.

Pedro Fernandes de Oliveira Neto é professor de Teoria da Literatura, Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa na Universidade Federal Rural do Semi-Árido. Tem Doutorado em Literatura Comparada pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem na Universidade Federal do Rio Grande do Norte com pesquisa sobre a obra de José Saramago e António Lobo Antunes. Coordena o Grupo Estudos Sobre o Romance; e integra o Grupo de Estudos Críticos da Literatura. É autor de Retratos para a construção do feminino na prosa de José Saramago (Editora Appris, 2012). Dirige o blog Letras in.verso e re.verso, a revista de poesia 7faces e a Revista de Estudos Saramaguianos.

“Paradeiro”, de Luís Bueno, vence o Prêmio Literário Biblioteca Nacional

Paradeiro, romance de estreia de Luís Bueno, foi aclamado pela crítica ao vencer o Prêmio Literário Biblioteca Nacional na categoria romance. No livro, o autor traz à tona questões como doença e morte, experiências radicalmente transformadoras da existência humana.

O livro tem uma estrutura incomum, que instiga o leitor. Paradeiro tem como um de seus cenários a cidade de São José dos Campos. Mas, o romance acontece em épocas diferentes e a ação envolve personagens distintos. O exercício de estilo desafiou o autor. “Os três planos da narrativa não se relacionam pelo enredo. Ao contrário, as personagens têm pouco ou nenhum conhecimento uma da outra”, afirma Bueno.

A escolha de São José dos Campos, interior de São Paulo, não foi casual. No começo do século XX, era uma cidade que atraía pessoas que precisavam se tratar de tuberculose. Na segunda metade daquele século, tornou-se um polo industrial e já havia sido cenário de vários outros livros. Citada por Machado de Assis em Quincas Borba; por Dinah Silveira de Queirós em Floradas na Serra; e recentemente por Rodrigo de Oliveira em  As Crônicas dos Mortos.

Prêmio Literário Biblioteca Nacional

Paradeiro conquistou o primeiro lugar na categoria Romance do Prêmio Literário Biblioteca Nacional de 2019 (Prêmio Machado de Assis). O prêmio existe desde 1994 e contempla autores, tradutores e projetistas gráficos brasileiros, com o objetivo de dar reconhecimento a quem movimenta o mercado editorial do país.

São nove categorias premiadas: poesia, romance, conto, ensaio social, ensaio literário, tradução, projeto gráfico, literatura infantil e literatura juvenil. A comissão julgadora é composta de 27 pessoas, três para cada categoria.

O Primo Basílio, de Eça de Queirós

O Primo Basílio é talvez a mais conhecida das obras de Eça de Queirós no Brasil. Adaptada para o cinema e a televisão, o romance realista  publicado em 1878 relata o triângulo amoroso de  Luísa, seu marido Jorge e o primo dela, Basílio, em uma trama que coloca luz na hipocrisia da sociedade burguesa lisboeta da época.

Luísa e Jorge têm boa condição financeira e um casamento morno, apesar dos presentes que ele dá a ela. Ele é engenheiro e, durante uma viagem que faz a trabalho, o primo de Luísa, Basílio, vai visitá-la. Reacende-se então um romance entre os ex-namorados da época da adolescência. Luísa é retratada como uma mulher sonhadora, leitora de romances românticos que se ilude com a chegada do primo. Eles vivem uma paixão intensa que ao longo do tempo também arrefece.

Nesse contexto, a criada Juliana é o contraponto realista da protagonista. Ao perceber que Luísa e Basílio têm um caso (e que inclusive se encontram em um quarto alugado especialmente para os amantes), Juliana passa a chantagear a patroa, depois de ter descoberto cartas trocadas entre os primos. Luísa sugere a Basílio que fujam para Paris, mas ele a deixa em Lisboa.

Então, Luísa é humilhada por Juliana e obrigada a oferecer presentes à empregada, inclusive substituindo-a nas tarefas domésticas. Quando Jorge volta de viagem, percebe algo estranho e diferente na relação entre a esposa e a subalterna, pois as chantagens de Juliana são cada vez maiores. Para tentar se livrar do problema, Luísa pede ajuda a um amigo, Sebastião, que ameaça Juliana e retoma as cartas que ela havia interceptado. Entretanto, a seguir, Juliana morre.

Enquanto isso, Luísa também adoece e Jorge descobre, na correspondência da mulher, uma carta de Basílio. Para poupar a mulher de alguma notícia negativa que pudesse ter chegado na carta, Jorge decide abrir a correspondência. Assim, descobre do caso entre os primos. Confronta Luísa sobre a situação e ela, então, também morre.

Análise

O Primo Basílio é, em essência, uma crítica ao Romantismo e a tudo o que ele exalta: a idealização do amor romântico de que “padece” Luísa é o que a leva a morrer, em última instância. Mas Eça de Queirós não deixa também de criticar a burguesa da época, sua mediocridade, a beatice de fachada, o conservadorismo e a vida de aparências são alvos constantes do romance. Até o amor devoto de Jorge é ridicularizado e transformado em sofrimento pela esposa traidora.

Assim, o romance se alinha ao Realismo: a influência que o ambiente exerce sobre as personagens, a irracionalidade ligada à sexualidade (traço presente no Naturalismo) e uma ironia cruel e inteligente.  

O foco narrativo é em terceira pessoa. O narrador é onisciente e o tempo, cronológico (apesar dos flashbacks em que a sonhadora Luísa lembra do casamento e das doces promessas dos primeiros tempo com Jorge e também com Basílio).

Conheça outros livros da Coleção https://www.atelie.com.br/publicacoes/colecoes/colecao-classico-atelie/

Caligramas: seleta de poemas de Guillaume Apollinaire

Por Renata de Albuquerque

“Caligrama”: palavra que se origina da mistura entre “ideograma” e “caligrafia” é o título de um dos mais importantes livros de poemas de Guillaume Apollinaire, que acaba de ser relançado. Em sua origem, o termo já revela a vocação de ir além da palavra escrita e expressar seus significados também pela forma – que sugerem desenhos.

O caligrama, ao unir imagem e palavra, explode em significado, como lembra Véronique Dahlet no prefácio da edição: “ Erupção dentro da unidade da palavra, cujo desmantelamento ocorre em prol da materialidade tipográfica; erupção na linearidade narrativa do discurso, criando ilhas textuais circundadas pelos brancos que preenchem o papel de sintaxe; erupção, enfim, da visibilidade na legibilidade e do figurativo na ordem do signo linguístico”.

É o desafio de traduzir “para além da palavra” que Álvaro Faleiros assume ao decidir transpor estes textos de Apollinaire do francês ao português em Caligramas. Afinal, além de lidos, eles  precisam ser “vistos” para que sejam compreendidos por inteiro, dentro de seu contexto histórico e proposta artística. Além do ritmo e das rimas, as imagens e o espaço gráfico precisam fazer sentido e complementam-se em metáforas. E aí mora a genialidade do trabalho.

A seguir, alguns exemplos do trabalho de Álvaro Faleiros que estão em Caligramas:

O Bom Crioulo

O Blog da Ateliê traz aos leitores o texto de Arthur Virmond de Lacerda Neto sobre “Bom Crioulo”, o primeiro romance brasileiro a abordar a homossexualidade masculina no Brasil pós-abolicionista e republicano. O texto original está no link https://arthurlacerda.wordpress.com/2016/09/19/bom-crioulo/

Intitula-se “Bom Crioulo” o romance do cearense Adolfo Caminha,  cujo tema consiste na relação amorosa e sexual havida entre o protagonista,  Amaro, Bom Crioulo de alcunha, e o jovem Aleixo, “um belo marinheirito de olhos azuis, muito querido por todos e de quem diziam-se cousas”.

Embarcadiços ambos, conhecem-se a bordo, onde Amaro interessa-se por Aleixo e desenvolve por ele uma relação de proteção que se transforma em um vínculo de amor e em convivência marital, ao passarem a coabitar em um quarto de pensão, no Rio de Janeiro.

Singelíssimo e destituído de lances significativos, o entrecho do livro  termina com o assassínio de Aleixo por Amaro, em um rompante de ciúmes deste, por haver aquele se afeiçoado a uma mulher.

Para mais da relação afetiva, o livro descreve, explicitamente, a homossexualidade do protagonista, como no passo em que ele sente-se dominado pelo “desejo de unir-se ao marujo como se ele fora do outro sexo, de possui-lo, de tê-lo junto de si, de amá-lo, de gozá-lo!”.

Em uma fase inicial, Amaro hesita em satisfazer ao seu  desejo. Pondera que, sendo marinheiro de baixa graduação, “outros de categoria superior praticavam quase todas as noites ali mesmo sobre o convés”, o ato de “carnalidade grega” porque ansiava e que, afinal, satisfez à bordo, o que o levou a compreender “nitidamente que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres”.

Descoberto o que lhe gratificava os sentidos, Bom Crioulo “não se contentava em possui-lo [a Aleixo] a qualquer hora do dia ou da noite, queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher à toa”, propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação”.

Certa feita, Aleixo suplicou-lhe: “Basta!”, ao que Amaro replicou-lhe: “Não, não! Um bocadinho mais…”

Publicado em 1895, em um tempo em que a sexualidade correspondia a um tabu generalizado; em que, acerca dela, abundavam a incompreensão e o desconhecimento, na maioria das pessoas e em que a homofobia existia em grau elevado, a concepção,  a redação e a publicação de “Bom Crioulo” equivaleram a atos de desassombro do autor, que não temeu as reações adversas do público leitor:  causaram indignação as cenas de homossexualidade explícita e, por décadas, foi livro proibido em bibliotecas escolares e públicas. Consta que, ao tempo, a Armada em peso leu-o e revoltou-se com as suas descrições explícitas e, certamente, com as referências à homossexualidade como realidade comum nos navios.

Durante o Estado Novo (1937-1945), a Marinha solicitou ao governo que obstasse a distribuição da segunda edição do livro, cujos exemplares recolheram-se, sob a alegação, inteiramente falsa, de tratar-se de obra comunista.

Nos anos de 1950, a crítica literária Lúcia Miguel Pereira acusava Adolfo Caminha de mau gosto, por tratar de um “tema abjeto” com minúcias desnecessárias.

Transcorreram oitenta e cinco anos até que, na década 80, surgissem novas edições e traduções suas nos Estados Unidos, na Alemanha, na França e no México. Mesmo assim, uma resenha dele, da autoria Léo Ribeiro, foi recusada, em 1983, pelo Jornal da Tarde (de São Paulo), porque o tema desagradava aos seus proprietários.

Republicado em 2008 e 2009, no Brasil, deixou de representar uma raridade bibliográfica e já não escadandaliza como antanho. No futuro, não escandalizará de todo, quando as pessoas houverem aprendido a entender a natureza humana e a respeitar as diversas formas como se manifestam os seus semelhantes, em relação à sexualidade e não só. Assim, a reação do público leitor a “Bom crioulo” serve de indicador do estado da mentalidade acerca do uranismo e da liberdade sexual: se, no passado, e por décadas, sofreu reprovação e ocultamento, equivalerá a índice de maturidade da psicologia coletiva a sua aceitação como descrição de uma parte dos impulsos e dos sentimentos normais e naturais das pessoas.

Nos últimos anos, Nélson de Carvalho publicou “O terceiro travesseiro”, narrativa verídica de uma relação homoafetiva, emocionante por vezes, porém pobre, mesmo medíocre, na sua realização literária. Com um enredo comparativamente simples e com um volume de texto menor, Adolfo Caminha produziu uma obra superior àquela.

Conheça este e outros livros da Coleção Clássicos Ateliê

A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente

“Farsa” é o nome que se dá ao gênero teatral que explicita a caricatura sobre personagens e situações. O resultado é uma crítica aos costumes de um tempo e de um grupo social. Esse foi o gênero escolhido por Gil Vicente ao escrever um texto sobre a máxima “Mais vale um asno que me leve que um cavalo que me derrube”.

O desafio teria sido lançado quando, acusado de plágio, o autor aceitou a proposta de escrever a respeito de um mote escolhido por outras pessoas, para que, com isso, pudesse provar sua originalidade e capacidade enquanto autor. A provocação gerou, então, o que é considerado por muitos o texto mais complexo e divertido desse autor nascido em 1465, em Évora (Portugal) e considerado o pai do teatro português.

Em “Farsa de Inês Pereira”, apresentada pela primeira vez ao Rei D. João III, no ano de 1523, Gil Vicente denuncia hábitos e costumes amorais e até degradantes da sociedade portuguesa, em um tom que beira o jocoso. Até hoje a peça diverte e arranca risadas de espectadores e leitores. Ao contrário de outras peças escritas pelo autor, nesta não há uma “lição de moral”, com punição explícita da personagem.

Resumo

Inês Pereira é uma jovem na idade de se casar. Ela é pressionada pela mãe, com a ajuda da alcoviteira Lianor Vaz, a conseguir um marido adequado, que a sustente financeiramente. Mas Inês sonha que seu marido queira se divertir tanto quanto ela, que saiba tocar viola. Inês espera, com o casamento, fugir das obrigações do trabalho doméstico.

O primeiro pretendente é Pero Marques, um camponês rico que, quando vai à casa de Inês, comporta-se de uma maneira que ela acha ridícula, sem nenhum traquejo ou refinamento social. Ela dispensa o pretendente e aceita a proposta de Brás da Mata, feita por intermédio dos judeus Latão e Vidal. Brás da Mata é um escudeiro cujo objetivo é dar o golpe do baú em Inês Pereira. Por isso, age com refinamento e acaba por conquistar a jovem.

Já casada, Inês passa a sofrer nas mãos do marido e percebe a armadilha em que caiu. Trancada em casa, sua única ocupação é costurar e lamentar o que lhe aconteceu. O marido vai para a guerra, onde morre. Viúva, Inês casa-se com Pero Marques. Algum tempo depois, reencontra um antigo namorado seu, chamado de ermitão, e ambos marcam um encontro. Inês pede a Pero que a leve ao local marcado e, com isso, engana o marido, que a leva nas costas para o compromisso, sem perceber que estava sendo enganado. Daí justifica-se o mote “mais vale um asno que me carregue que um cavalo que me derrube”.

Análise

“Farsa de Inês Pereira” foi encenada pela primeira vez em uma época de decadência da monarquia feudal e ascensão do mercantilismo. Esse embate socioeconômico ecoa na obra de Gil Vicente.

Inês Pereira é a personagem por meio da qual Gil Vicente critica a frivolidade da burguesia portuguesa da época, que desejava apartar-se da rusticidade do campo. Brás da Mata é o personagem que representa a “esperteza” condenável, o galanteador ambicioso. Já Pero Marques é o camponês inocente e ingênuo.

Por ser um texto dramatúrgico, não tem foco narrativo, mas rubricas que indicam detalhes das cenas, e diálogos que ajudam o leitor a entender cada personagem. O foco principal da crítica desta obra é a decadência dos valores e da formação da família e, Portugal naquela época.  

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

Jerusa Pires Ferreira: Uma leitura imediata

Leituras Imediatas é o último escrito de Jerusa Pires Ferreira, professora de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP. A publicação traz textos “que giram em torno da ideia de mitopoéticas, no sentido de que constituem permanente recriação e ao mesmo tempo a levam a problematizar dicotomias para pensar manifestações da cultura”, como escreve Adriano C. A. e Sousa na quarta capa do livro. A seguir, ele fala ao Blog da Ateliê:

Qual sua relação com Jerusa Pires Ferreira?

Adriano Carvalho Araújo e Sousa: Eu sou um recém-doutor. Qualquer pessoa com menos de dez anos da conclusão não pode arvorar um posto de destaque. Contudo, posso dizer que até aqui minhas pesquisas são profundamente marcadas pela obra da professora Jerusa Pires Ferreira. Fui seu orientando de mestrado e doutorado e ela dizia publicamente que eu estava entre os melhores profissionais formados por ela. Mantínhamos estreita amizade, ao que ela sempre referia em tom jocoso, porque nem sempre é ideal ser amigo de um orientando. Estivemos em contato muito próximo ao menos nos últimos dez anos. Para  mim, o mais relevante disso tudo foi o constante aprendizado que tive com ela e outros intelectuais amigos seus, como Marlyse Meyer, Jacó Guinsburg, Vladimir Krysinski e obviamente Boris Schnaiderman. Agora, nada disso teria acontecido sem a sintonia de sensibilidades que tive com Jerusa, muito grande em termos de uma concepção de conhecimento alegre, exuberante e vivo, que transita entre linguagem e cultura.

Como foi o convite para escrever a quarta capa e a orelha do livro? – Você acompanhou o processo de escolha dos textos que compõem o livro? Como foi?

ACAS:  Bom, acredito ter sido por esses fatores que já mencionei. Fui convidado por seu editor, Plínio Martins, a redigir textos apresentando o livro Leituras Imediatas, cuja seleção acompanhei de perto. Mais ainda, pude auxiliar Jerusa no trabalho de revisá-los. Há um fato curioso, de bastidor. Jerusa teve auxílio do professor Jerzy Brzozowski, seu amigo da Universidade de Cracóvia, que na época atuava como visitante no Brasil, para separar folhetos da Índia, semelhantes ao nosso Cordel. Infelizmente, o material não entrou nesse livro, porque Jerusa entendia que não harmonizava com os demais.

O título do livro remete a leituras que, segundo a autora, “têm data bem definida e correspondem a posições de momento”. Qual a importância de perenizar em um livro tais posições? Essas posições não poderiam mudar com o tempo?

ACAS: Essa pergunta é muito boa, porque vai permitir um esclarecimento. É exatamente o oposto disso que o livro trata. Veja, quando Jerusa fala em “data bem definida” e “posições de momento” significa que não se pode calar em face do autoritarismo ignorante. É preciso voltar-se contra a arbitrariedade do extermínio, opor-se a um império que apaga violentamente o outro da história. Jerusa se refere aí ao extermínio de um lugar que é berço da civilização. A imagem é das mais nefastas: um ex-militar e secretário de defesa norte-americano pisando em tesouros da civilização mundial; um país sofre uma invasão destruidora, bárbara e consequentemente desestabilizadora daquela modernidade árabe. É um convite a questionar o que o discurso oficial julga ser “importante”. Então vamos tentar inverter o raciocínio em cima de sua pergunta: no caso específico da escritura de Jerusa, o mais frequente é o oposto de “dar importância”. Nada é importante. A questão toda é voltar-se para a possibilidade de contato com o outro, o que sofre um apagamento realizado por um olhar oficialesco e por vezes institucionalizado.

O trabalho de Jerusa volta-se para compreender, escrutinar e inclusive propor análises rigorosas de textos que normalmente são apagados pelo discurso oficial, seja ele o do capitalismo, seja o da academia. Eu insisto que os seus trabalhos, e principalmente sua forma arrojada (cria inclusive conceitos) para abordar esses que não têm voz, propiciam sempre novos elementos para um prosseguimento de novas reflexões sobre o que se convencionou chamar contemporâneo. É o oposto da perenidade, há sempre movimento. Um livro como esse procura aquilo que corresponde a colocar movimento nas palavras, aquilo que é uma reprodução em série de uma proposta que aborda linguagem e cultura, a serialização que o poeta popular imprime a partir de sua obra. O lugar de uma voz sempre repercutida. Esse é ponto de partida: são vozes sempre em movimento.

Jerusa Pires Ferreira fotografada por Ricardo Filho

Em comum, os textos têm a análise de assuntos ligados à cultura popular. Qual a importância dessa discussão, não apenas nos meios acadêmicos, mas também colocada na sociedade?

ACAS: A partir daqui, eu vou propor que pensemos o lugar desse pensamento, o que ele faz, que mecanismos coloca em ação, em vez de perguntar se ele é importante ou não. Pra mim, o que ressalta desse livro é a proposta ousada de dar voz a figuras normalmente julgadas como arcaísmos ou mesmo sob denominações como “cultura de massas”, “indústria cultural”, ou um campo específico de “cultura popular” que muitas vezes só serve para criar um exotismo. Nesse sentido, lembro de que nem todos os textos populares são bons ao olhar de Jerusa. Ela impõe uma análise bastante crítica e rigorosa sobre eles. Quanto à sociedade, as pesquisas em humanas levam a uma discussão sofisticada que encontra seu par em perguntas caras à antropologia e que traz a contribuição de um conceito como o de cultura das Bordas.

O estudo da literatura de cordel ocupa um espaço relevante no livro. Quais as contribuições da autora a respeito deste tema?

ACAS: Jerusa teve formação em Portugal, no instituto de Alta Cultura, onde teve mestres do porte de Maria de Lourdes Belchior Pontes (1923-1998) e Hernâni Cidade (1887-1975), os quais volta e meia viria mencionar em seus artigos e palestras. Também participou dos famosos Seminários de Semiótica em Urbino, Itália. Ambos estão na gênese do livro fundante que é Cavalaria em Cordel, responsável por pavimentar um projeto de sempre acompanhar essa produção. Paul Zumthor – a quem Jerusa gostava de se referir como um mestre – viria comentar o aspecto inovador de Cavalaria em Cordel em texto publicado na revista Critique (Paris, março de 1980): “As questões de toda ordem, colocadas pelo livro de Jerusa Pires Ferreira, ultrapassam o quadro da etnografia e importam para a definição funcional das tradições poéticas orais e sua complexa e movente relação com a escritura” (tradução de Jerusa). É um olhar sobre a tradução cultural, sobre a oralidade e o gesto em que linguagem e cultura encontram sua síntese máxima. Isso está dado desde sempre no trabalho desses artistas. Leituras Imediatas traz esse projeto do Cordel sob o olhar de sua confluência com a televisão, dominante na época, mas eu diria que oferece um belo aporte para os pesquisadores de relações entre Cordel e novas mídias.

Que lugar este livro ocupa no conjunto da obra de Jerusa Pires Ferreira?

ACAS: Bom, pensando o lugar que esse livro ocupa, lembro que Paul Zumthor diz em Escritura e Nomadismo, publicado pela Ateliê com tradução de Jerusa, que um grande pesquisador não deixa uma obra antes dos 56 anos. Talvez, o lugar que o livro de Jerusa ocupa face a barbárie em que vivemos, será o de apontar daqui a 50 anos, que o Brasil traz consigo uma cultura marcada, e aqui uso expressão de Zumthor, pela permanência da voz.

A voz é algo que nos distingue e permite pensar a tradução cultural permanente presente na obra de nossos artistas, seja um cineasta como Júlio Bressane ou um músico como Egberto Gismonti, um pianista como João Donato ou um poeta como Leandro Gomes de Barros.

Conheça melhor a obra de Jerusa Pires Ferreira