Renata Albuquerque

Irradiações da Literatura Grega na cultura ocidental

Por: Renata de Albuquerque

Dizer que a Grécia é o berço da cultura ocidental é quase um clichê. Mas, você já parou para pensar de que maneira os clássicos gregos ecoam até os nossos dias? O professor, escritor e tradutor Donaldo Schüler não apenas pensou, como estudou a fundo e compartilha esse conhecimento com os leitores no livro Literatura Grega: Irradiações. Ele é Doutor em Letras e Livre-Docente pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde foi professor de língua e literatura gregas. A seguir, ele fala sobre seu mais novo livro ao Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia do livro?

Donaldo Schüler: A ideia vem de longe. Interessa-me a Literatura Comparada, a relação do que se escreve hoje com o que escreviam os gregos. A comparação revela continuidades, interrupções, diferenças. A literatura é construída por nossos interesses. Se lemos Homero, ele entra na esfera das nossas preocupações. Homero é autor vivo. Os leitores lhe dão vida.

O que levou em conta para escolher os autores gregos citados no livro?

DS: A seleção dos autores antigos já foi feita há muitos séculos. Noventa por cento do que os gregos escreveram está perdido. Estamos diante de ruínas. Cada geração constrói a sua própria Grécia. Enquanto refazemos a Grécia com o que resta, nós nos construímos a nós mesmos. A ênfase é dada por nossas preferências. Como estamos ligados à época em que escrevemos, o momento participa de nossas escolhas, nem sempre podemos dar conta da seleção  que fazemos. Dos autores mais recentes, figuram aqueles que entram no horizonte  dos nossos interesses.

Donaldo Schüler

Como foi feito o trabalho de realizar uma “ponte” entre os autores gregos e os autores mais “recentes”, como Machado de Assis, Borges, Guimarães Rosa e Shakespeare?

DS: Os autores que você cita são leitores de textos antigos. Quando Shakespeare põe em cena personagens de outros tempos, ele discute questões do seu tempo. Quem encena Shakespeare hoje está atento ao que acontece agora. O palco é um lugar de muitas ressonâncias. Os heróis buscados no sertão brasileiro preservam traços dos heróis de outros tempos. Mesmo a leitura de autores atuais nos leva às origens. Os textos de Machado de Assis conectam o Brasil com o mundo.

Sob que aspecto é possível dizer que a herança grega é ressignificada por autores mais atuais?

DS: Os gregos estão presentes mesmo quando  nossa atenção não está voltada a eles. Quando pensamos, afirmamos ou negamos o que eles pensaram. Eles são nossos interlocutores. Assim os preservamos vivos. O mundo se amplia quando ultrapassamos o que nos cerca. Nunca somos herdeiros passivos. O que não conquistamos não nos pertence.

Há algo na literatura grega que ainda persiste intocado? Ou: existem “irradiações” sem outras intervenções externas, que mantenham os conceitos inalterados desde a Grécia Antiga?

DS: O tempo modifica tudo.  O que experimentamos acontece pela primeira vez. Aquilo que não tocamos nos escapa.  Vivemos dias acelerados. Muitas são as vozes que advertem o excesso de informações. Se não decidimos parar para pensar, para meditar, para escrever, as informações  nos dilaceram. Paramos para viver.

Em sua opinião, qual a “irradiação” mais interessante enfocada pelo livro e por quê?

DS: O que escrevemos se divide no interesse dos leitores, a irradiação acontece assim. O leitor é ativo. O leitor desmonta e remonta o que lê. O leitor participa da invenção. Significativo é o texto que leva a inventar. O texto provoca, o interesse é a participação do leitor.

 

Conheça mais sobre a obra de Donaldo Schüler

Cinematografia: a poesia da narrativa em movimento

Por: Renata de Albuquerque

Cinematografia é a técnica de projetar imagens estáticas  e sequenciais em uma tela, com velocidade suficiente para dar movimento a elas. As imagens presentes nos 90 poemas de Paulo Lopes Lourenço reunidos em Cinematografia criam narrativas a partir desse conceito. Ilustrado por Fernando Lemos, este é o primeiro livro de poemas de Lopes Lourenço lançado no Brasil. Os textos aqui reunidos foram quase todos escritos durante a estada do autor no país – ele foi Cônsul Geral de Portugal em São Paulo entre 2012 e 2018. A seguir, o autor fala ao Blog da Ateliê:

 

Que autores o influenciam como poeta?

Paulo Lopes Lourenço: Há muito ecletismo nas minhas referências, tanto nas literárias quanto nas plásticas ou visuais, que de resto são até mais marcantes do que as influências sobre os processos de escrita. A tradição poética portuguesa não me passou ao lado, claro, mas seria impossível ignorar anos e anos de paixão pelos clássicos russos ou pela literatura contista americana, ou até mesmo a “escrita automática”. E embora eu escreva de facto poesia, o que escrevo parece radicar mais nas artes visuais, em especial na fotografia e no cinema. Nesse sentido, tanto me sinto impelido a partir de uma peça do Brancusi, quanto por um romance do Scott Fitzgerald, um quadro do Hopper ou por uma canção indy bem escrita. O teatro e o cinema foram uma presença constante enquanto crescia.

 

O que este livro tem de diferente de seus livros anteriores?

PLL: O período que o livro cobre é biográfica e literariamente de transição. Nele se procurou uma certa condição de apaziguamento interior, um armistício íntimo entre o que procuro na escrita – uma liberdade mais irrestrita, a generosa transigência plástica das palavras, a sua possível transmutação estética – com um desejo de honestidade verbal. Nesse sentido, este é um livro mais sereno, mais convalescido, mas também menos inocente, sempre se auto-testando.

 

Por que a escolha do título Cinematografia?

PLL: Este livro poderia ter-se chamado Crónicas dos Primeiros Dias Velhos, expressão que aliás dá nome a um dos poemas da coletânea agora lançada. Cinematografia, porém, tem a vantagem de oferecer uma senha de acesso mais clara sobre o que proponho ao leitor e de algum modo me reconciliar com a ideia que sempre cultivei sobre o processo da escrita: uma fórmula, simultaneamente mais rica e mais limitada, de fazer cinema. Estes poemas poderiam ser fotogramas, fabricados visuais ou instalações. E embora contenham, também, uma experiência narrativa precisa e oculta, eles são a minha coleção particular e pessoal de curtas metragens.

 

Como foi feita a seleção dos poemas que fazem parte deste volume? Eles foram escritos especialmente ou selecionados dentro de universo mais amplo?

PLL: Estes poemas foram escritos nos últimos 7 a 8 anos, formando dois corpos distintos, onde coexistem temas diversos, mas no essencial unidos por uma certa procura de coerência: um mais antigo (e mais curto) e outro mais recente (e mais amplo). Ao longo dos últimos dois ou três anos, começou a surgir a ideia de os publicar como uma peça única que pudesse juntar dois períodos distintos de escrita e, ao fazê-lo, desvendar uma espécie de rito de passagem, de caminho interior consumado, mais reconciliado consigo próprio e, talvez por isso, um pouco mais irônico. Essa transição é, acredito, muito clara para quem lê o livro em sequência.

 

Este é seu primeiro livro publicado no Brasil, escrito durante o período em que morou em São Paulo e lançado no momento em que se despede de sua função como cônsul no país. De que maneira isto afeta a poesia deste livro, os personagens que fazem parte dele, os temas que de ele trata?

PLL: É inegável que muitos dos textos foram escritos nestes últimos 6 anos e que a minha estada aqui os marcou. Não é aliás por acaso que dedico o livro também a São Paulo, a que retribuo de modo muito sincero pelos anos gratos que aqui vivi. E sendo embora verdade que esta cidade tem uma densidade e um lastro próprios que fazem dela intensamente cinematográfica, seria exagerado porém dizer que ela afetou a razão de ser do livro. Ele teria acontecido provavelmente sem São Paulo, embora não lhe pudesse ser indiferente. Longe disso.

Ilustração de Fernando Lemos

A paisagem urbana de São Paulo é parte do cenário de Cinematografia? Como a cidade está presente no livro?

PLL: Há apenas um curto poema alusivo no livro que procura sintetizar o magnetismo da cidade a partir de um olhar conciso e despojado, mas quanto mais falamos sobre S.Paulo, mais corremos o risco de não lhe fazer justiça. Sempre me fascinei pela beleza anônima que se revela inesperadamente numa grande urbe. De uma forma ou de outra, porém, interessa-me mais o ponto de vista do que aquilo que se vê. Interessa-me mais a frase do que o sujeito.

 

No prefácio do livro, Manuel da Costa Pinto escreve: “Paisagens, ruas, casas, interiores, móveis e utensílios imantados de lembranças são, mais do que “correlato objetivo” (o procedimento fundamental da poesia moderna identificado por Eliot), coordenadas espaciais: como no cinema – entendido aqui como arte de esculpir o tempo –, colocam os seres em situação, transformando-os porém em aparição destinada a logo desaparecer, a irmanar-se às coisas”. Como o senhor idealizou esculpir essas imagens de maneira a colocá-las em movimento, criando essa cinematografia?

PLL: Foi de fato como Manuel Costa Pinto que me dei conta pela primeira vez dessa tentação cenográfica, como se de alguma forma eu convocasse figurantes com um determinado propósito cênico, para compor um quadro, uma paisagem ou uma cena, mas que não vingam além do desejo descritivo ou onírico que os anima. De certa forma, embora se tratem de poemas totalmente narrativos (há sempre uma história, um olhar, um pensamento, uma alusão ou até mesmo um axioma ensaiado por detrás de cada um dos textos), a sua natureza é a de uma abstração plástica. Nesse sentido, uma personagem tem a mesma importância que um substantivo ou uma imagem. Por trás de cada composição fotográfica ou de cada encenação, uma narrativa alusiva, um conto em miniatura ou até um esboço de novela – mas o que eu quero provavelmente compartilhar mesmo é a anti-história que se esconde por detrás dessa aparente – e ainda assim convicta – narrativa. É a contra-narrativa que eu busco. É o adjetivo que eu quero contar. Como no cinema, o que me interessa mais é o plano e o movimento da câmera.

“Cenas em Jogo” conecta literatura, psicanálise e cinema

Por: Renata de Albuquerque

“Cenas em Jogo” é o título do livro que traz ao público o resultado do Doutorado do psicanalista, escritor e professor Renato Tardivo. No estudo, ele retoma a intersecção entre psicanálise, cinema e literatura, abordando diversos títulos, como Abril Despedaçado, O Cheiro do Ralo e Linha de Passe. Todas as obras analisadas por Tardivo são brasileiras e carregam consigo uma afinidade temática: “liberdade e opressão, ressignificação da lei e perversão, realidade e ficção, entre outras”. A seguir, o autor fala sobre o lançamento ao Blog da Ateliê:

O livro é resultado da sua tese de Doutorado. Que adaptações foram feitas ao texto original para transformá-lo em livro?

Renato Tardivo: Muito poucas. Desde a minha dissertação de mestrado, também publicada em livro pela Ateliê, percebi que desenvolvia uma escrita ensaística que, conquanto procurasse certo rigor acadêmico, tinha por objetivo principal ser acessível e comunicar-se com o leitor. Nesse sentido, a forma das análises está em íntima conexão com seu conteúdo, uma vez que, mais importante do que defender uma tese junto a este ou àquele grupo, procuro sempre uma forma autoral de expressão e, portanto, de abertura ao diálogo. De forma resumida, é a esta perspectiva que, ao fim do livro, dou o nome de “poético-crítica”.

O título do livro “Cenas em Jogo” remete ao “Jogo de Cena” de Eduardo Coutinho, que também faz parte do livro. De que maneira a problematização da ficção se coloca em “Cenas em Jogo”? Por que essa referência à obra de Coutinho e qual o impacto dela na sua obra?

RT: O capítulo em que me debruço sobre o filme “Jogo de Cena” é, do meu ponto de vista, um dos mais importantes do trabalho, uma espécie de clímax, porque, nele, discuto os temas principais da pesquisa e é a partir dele que o trabalho caminha para um desfecho. É nesta seção do livro, por exemplo, que destaco uma espécie de colapso provocado pela profusão de imagens, informações, discursos, isto é, certa banalização entre a realidade e o artifício. Como resistência a essa conjuntura, talvez a principal mensagem de “Jogo de Cena” seja convocar o espectador a viver o sobressalto inerente à ambiguidade entre ficção e realidade, o que não significa tomar puramente uma pela outra, mas impactar e ser impactado de modo a ampliar as experiências acerca de si e do outro. Dessa perspectiva, ficção e realidade se alimentam reciprocamente e contribuem para construções mais autênticas.

Como se deu a escolha dos títulos que seriam enfocados em sua tese? O que você levou em consideração para eleger cada um?

Renato Tardivo

RT: A escolha não foi imediata. Ao começar o doutorado, tinha consciência de que queria terminá-lo refletindo minha própria tomada de contato com obras literárias e cinematográficas, na interface da arte com a psicanálise. Mas não tinha clareza de como atingir esse objetivo. Foi então que percebi que se tratava de uma pesquisa de processo e que deveria retomar obras com as quais havia entrado em contato nos últimos anos, seja em sala de aula, em debates ou palestras. Por isso, também, retomar o trabalho anterior com o romance Lavoura Arcaica e o filme homônimo, que é o ponto de partida desse processo. Quando defini o corpus, notei que havia uma coerência temática entre as obras, embora diversas à aparência: liberdade e opressão, ressignificação da lei e perversão, realidade e ficção. Daí encontrei um campo fértil para refletir em que medida as leituras acrescentavam sentidos às obras e, reversivelmente, em que medida as obras acrescentavam sentidos à leitura, isto é, em que medida a tomada de contato com as obras pôde construir e fundamentar uma perspectiva de leitura.

Estudos que envolvam a intersecção dos campos da literatura, psicanálise e cinema não são exatamente uma novidade. Por outro lado, esta parece ser uma fonte inesgotável de pesquisa.  De que forma sua obra contribui para esse cenário?

RT: De fato, não são poucos os trabalhos que articulam os campos da literatura, do cinema e da psicanálise. No entanto, grande parte deles parece se apropriar das obras de arte a fim de validar conceitos da psicanálise, fazendo das obras mero receptáculo de teoria psicanalítica, sem contribuições à arte e à própria psicanálise. Em outra direção, encampando a perspectiva da psicanálise implicada, a partir do campo delineado por João A. Frayze-Pereira, orientador da minha pesquisa, procurei me aproximar das obras assumindo o potencial criativo e inventivo da psicanálise e, assim, buscando ampliar as possibilidades de sentido às obras e às leituras que se voltam a elas. Há, nessa medida, certa autonomia entre os ensaios.

Em sua opinião, qual foi o “achado”, a constatação, a “descoberta” mais interessante desse estudo?   

RT: Operar no plano da estética em diálogo com a psicanálise me permitiu desenvolver, no último capítulo do livro, aspectos caros à relação autor-leitor-obra, como “entre o vivido e o imaginado”, “realidade, ideologia, ficção” e minha proposta de “perspectiva poético-crítica”. Mas, sobretudo, mais do que chegar a um “achado”, espero que o trabalho tenha funcionado, parafraseando o esteta Luigi Pareyson, como “um fazer que, enquanto faz, inventa o modo de fazer”.

Conheça a obra de Renato Tardivo

“Konstantinos Kaváfis – 60 poemas” ganha nova edição

A literatura grega não é feita apenas de textos do período clássico da Idade Antiga. Autores mais recentes também reservam ao leitor experiências literárias impactantes, como é o caso de Konstantinos Kaváfis (1863 – 1933), considerado um dos mais importantes escritores cuja produção foi elaborada em grego moderno. Autor de mais de 150 poemas, teve sua obra reunida apenas postumamente.

 “Konstantinos Kaváfis – 60 poemas”, tem seleção e notas de Trajano Vieira, um dos mais importantes pesquisadores da cultura helênica no Brasil. Na obra, o leitor tem a oportunidade de entrar em contato com um universo esteticamente rico e provocador. A seguir, Trajano Vieira fala ao Blog da Ateliê sobre o livro:

Que alterações foram feitas em relação à primeira edição?

Trajano Vieira: A segunda edição mantém exatamente os princípios que nortearam a primeira: tentar apresentar ao leitor, através da linguagem poética, algo da expressividade estética de um autor extraordinário.

Como se deu o processo de tradução dos poemas para esta antologia, à época da primeira edição? Houve ajustes para esta segunda edição?

TV: O processo de tradução foi uma decorrência do processo de leitura dos poemas do autor. Aqueles textos que me tocavam mais, eu os tentava traduzir. Preservei as traduções que, pelo menos para o meu gosto, atingiram alguma qualidade estética. As demais, deletei. De um modo geral, costumo trabalhar assim: só consigo traduzir obras que, no processo de leitura, me motivam a vertê-las. Isso não é garantia de sucesso, apenas um princípio de trabalho.

 

No prefácio do livro, o senhor fala da poesia fantasmagórica e do exotismo dos personagens de Kaváfis. Poderia, por gentileza, falar um pouco sobre isso para os leitores que não conhecem esse autor?

TV: Trata-se da atmosfera que prevalece nos poemas de Kaváfis. Seus personagens são avessos ao banal e previsível. Normalmente suas atitudes sugerem naturezas excêntricas. Parecem viver num universo deslocado, em que não é mais possível realizar suas fantasias. Daí o tema da morte ser tão recorrente em sua produção. Quase nada do tempo histórico vale a pena ser vivido. O imaginário refinado se expande e domina as ações dos personagens. Um dos parâmetros fortes dessa experiência é o ideal clássico, o tom contemplativo avesso ao utilitarismo e à redundância cotidiana.

 

Konstantinos Kaváfis

O senhor destaca ainda a dimensão estética da linguagem de Kaváfis. O que se pode dizer a respeito disso?

TV: Destacam-se, em sua linguagem, o coloquialismo e o distanciamento da elocução, num padrão verbal de elevadíssimo domínio formal, fazendo às vezes pensar em T. S. Eliot. A erudição do autor se evidencia em seu conhecimento profundo da tradição greco-latina. Muito do desespero que se depreende de situações que ele representa se deve à constatação de que certo gosto literário se perdeu irremediavelmente na modernidade. Registre-se, entretanto, que sua poesia é tributária, por outro lado, de um forte traço da produção moderna: a ironia.

 

Como se dá a inserção de elementos teatrais na poesia do autor grego?

TV: Normalmente, através da configuração de um personagem exótico, que parece histórico, mas não é. Esse personagem desenvolve comportamento incomum diante de uma situação. Tal aspecto que denominaríamos ficcional prende a atenção do leitor, surpreendido com a imprevisibilidade da ação. A beleza é um parâmetro central para esse tipo de personagem, não só a beleza de certa forma física, mas a que se busca num determinado estado de espírito, impossível de perdurar ou até mesmo de se provar. Algumas vezes, fica no ar a sugestão de que nada vale a pena, porque até o êxtase mais intenso não passa de uma quimera na temporalidade transitória.

 

Existe um elemento de coloquialismo na poesia de Kaváfis que permitiria fazer uma aproximação deste poeta com a poesia de Drummond. O senhor pode falar brevemente a respeito, por favor?

TV: Haroldo de Campos, em sua tradução notável do poema mais famoso de Kaváfis, “À espera dos bárbaros”, introduz, num certo momento, uma expressão de um poema de Drummond, correlata ao do poeta neogrego. A aproximação seria possível justamente por causa da confluência de ironia e registro coloquial, presente nos dois autores. Certa visão sobre a trágica experiência humana, um reflexo da percepção da brevidade da vida, é outro aspecto que poderia aproximar os dois autores. Contudo, as figuras emblemáticas da poesia de Kaváfis nada têm a ver com as representações de Drummond. A luxúria que retoma certa visão do classicismo tardio é algo que afasta o primeiro escritor do segundo. A melancolia diante da vulgaridade dos fatos cotidianos leva Kaváfis a outra direção, em que os personagens se arriscam e se excedem em sua incontida sensualidade. Esse tipo de risco é menos presente em Drummond, que se retrai muitas vezes diante da potencialidade do desastre.

 

O senhor considera que há um elemento de ironia na poesia de Kaváfis? Como ela se coloca na obra?

TV: A ironia está presente sobretudo no comportamento de personagens que cultivam a hiperestesia, diante da qual os fenômenos cristalizados pelo senso comum num certo contexto não têm nenhuma importância. É da ausência de ilusão sobre a positividade dos fatos históricos que nasce a ironia extremamente sutil com que o autor constrói a experiência incomum. Registre-se, contudo, que sua linguagem é bastante precisa. Ela não padece de indefinições redundantes, nem de evasões de transes surrealistas.

 

Conheça a obra de Trajano Vieira

 

“Moleque de fábrica”: memória de um trabalhador

Por Carina Pedro *

O livro “Moleque de Fábrica – Uma Arqueologia da Memória Social” do sociólogo e professor José de Souza Martins é um mergulho profundo nas memórias do autor, da sua infância à maturidade, das difíceis relações familiares e profissionais estabelecidas entre o campo e a cidade, que ajudaram a formar o homem adulto e acadêmico, crítico de sua própria trajetória. São memórias com as quais muitos brasileiros vão se identificar, seja pela imigração de seus antepassados, pela infância no interior e na cidade (uma das do ABC paulista), em meados dos anos cinquenta, quando ser operário de fábrica era o destino certo da maioria dos trabalhadores. A obra é composta por catorze capítulos, um prólogo e uma conclusão, que nos fazem refletir sobre o Brasil de José e de outros tantos brasileiros.

No primeiro capítulo “Estranho Regresso”, Martins narra sua viagem a Portugal nos anos 70 e a descoberta da história de origem de seu pai, nascido em Santiago de Figueiró. Em pouco tempo, informações surpreendentes sobre sua família paterna foram reveladas, em especial, sobre sua avó Maria de Souza Martins, a Mãe Maria, e o contexto de nascimento de seu filho, Alberto, pai de Martins. Um dos indícios de que algo tinha sido omitido é o fato de Alberto ter herdado apenas o nome de sua mãe. No segundo capítulo “Encontro na Estação Victoria” podemos conhecer mais sobre a família materna do autor, que emigrou da Espanha duas vezes, a primeira para Argentina e a segunda e definitiva para o Brasil, onde após trabalharem nos cafezais, construíram sua própria casa de pau a pique no bairro caipira do Arriá em Pinhalzinho (SP). Entre as memórias compartilhadas, Martins nos revela como foi a morte de seu avô materno e de uma de suas tias, ainda pequena, tragédia que repercutiu na personalidade de sua mãe até os últimos dias.

No capítulo três, “Iniciação ao medo”, o autor nos conta sobre o início da sua vida escolar em um externato católico, com regras rígidas de comportamento, após a morte precoce do pai e a necessidade de sua mãe trabalhar. Outra mudança significativa na vida de Martins e seu irmão foi o segundo casamento de sua mãe, que os levou a morar na área rural, em um pequeno lote de terra em Guaianazes. No capítulo quatro, “A arca encantada”, temos um interessante relato de um evento ocorrido nessa passagem do autor pela roça: a busca de um baú cheio de moedas de ouro enterrado por um antigo senhor de escravos. No capítulo “A cachorra Lembrança”, a partir das dificuldades vivenciadas por Martins e sua família em Guaianazes, o autor faz uma profunda reflexão sobre as principais oposições entre a cultura caipira e a cultura urbana.

O autor com a mãe e o irmão, em 1948, em Guaianazes

O capítulo “Moleques de rua” traz algumas questões sobre a sociabilidade infantil no subúrbio operário. Como exemplo, brinquedo e brincadeira eram coisas diferentes para eles, sendo que o brinquedo só fazia sentido se resultasse em uma atividade coletiva na rua, considerada um território livre para brincar com bola de borracha, papagaio, peão, etc. No capítulo “A margem”, o sociólogo traz à tona a cultura da sova ou a violência doméstica praticada contra os imaturos, atitude que interpreta como uma transferência injusta para os filhos das adversidades da vida operária. Tal prática ocasionou a separação definitiva de sua mãe e seu padrasto. O capítulo “Cada dia do nosso pão” aborda uma nova fase da sua vida familiar e profissional, quando ainda adolescente consegue um emprego na Cerâmica São Caetano.

“Vida intransitiva” traz uma reflexão sobre os conflitos culturais vivenciados pelos imigrantes. O autor discute os dois casamentos de sua mãe, o primeiro com seu pai português, que representou a vitória da cultura europeia e a negação do mundo caipira, e o segundo com seu padrasto, que configurou um retorno sem sucesso para o meio rural. No capítulo dez, “A pulga e a fé”, Martins relata suas experiências nas religiões católica e protestante, sendo esta última considerada pelo autor uma importante influência no seu autodidatismo. Na sequência, em “Os mistérios da fábrica”, o leitor encontrará uma análise detalhada de quem fez parte do sistema fabril. Cumprindo seus deveres de trabalhador na Cerâmica São Caetano, Martins presenciou fatos inusitados, como o suposto aparecimento de um demônio para uma das operárias. Acontecimento que mais tarde virou objeto de estudo do sociólogo.

No capítulo doze “Na última manhã de Getúlio” é abordada a reação à morte de Getúlio Vargas, cuja trajetória cruza com a do fundador da Cerâmica São Caetano, o engenheiro Roberto Simonsen, pioneiro na adoção de direitos sociais e fundador da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Em “A greve” colocam-se outras questões relacionadas ao trabalho na fábrica, como a invisibilidade dos trabalhadores e sua alienação. Há, inclusive, uma crítica aos sindicatos da época, que não prestavam atenção nas crianças e adolescentes. Como ressalta Martins, o trabalho e sua disciplina eram vistos como algo benéfico pelos pais operários. O capítulo catorze, “A saída do labirinto”, é um relato sobre a chegada do autor à vida adulta, a saída da fábrica e o início no curso de Formação de Professores Primários do Instituto de Educação Dr. Américo Brasiliense, de onde saiu formado para ingressar no curso de Ciências Sociais da USP.

Escrever sua própria biografia, baseada nas memórias de um homem comum, que vivenciou a pobreza e as dificuldades que dela derivam, possibilitou ao sociólogo José de Souza Martins compartilhar uma história real, repleta de incertezas e angústias que lhe são próprias, assim como as alternativas encontradas para superar as inúmeras adversidades. Na conclusão do seu livro, após tantas lembranças significativas e comoventes, o autor insiste na necessidade de voltarmos a atenção para o operário de carne e osso, aquele que vai até a fábrica porque precisa e que nela entra como objeto e não como sujeito, com ele foi um dia. Além da consciência da exploração, esse trabalhador precisa se libertar de seu passado e encontrar caminhos para promover as mudanças. Um deles seria o encontro com a grande cultura, aquela que emancipa e provoca superações.

*Historiadora, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e agente cultural na Secretaria de Cultura de Santos. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

Conheça o livro “Moleque de Fábrica – Uma Arqueologia da Memória Social”

 

Férias: tempo de descansar e reenergizar

Por Renata de Albuquerque*

“Enfim, férias!”. Para qualquer pessoa, de qualquer idade, a palavra “férias” traz consigo uma sensação de felicidade e tranquilidade. É a chance de escapar das pressões do cotidiano, de ter tempo para fazer apenas o que se quer, de dedicar-se exclusivamente àquilo que mais se gosta, sem ter obrigações a cumprir: viajar, relaxar, colocar as leituras em dia e recarregar as energias gastas.

E as férias não são bem-vindas à toa. Vivemos uma rotina com a sensação de que temos cada vez menos tempo disponível, mais tarefas a executar, mais trânsito. O estresse diário afeta a saúde física e mental e, segundo pesquisas, é uma doença que já atinge cerca de 90% da população mundial. Por isso, a pausa das férias não é apenas merecida, mas necessária.

Para quem gosta de ler (e se você está lendo esse blog, provavelmente este é seu caso!), uma parte das férias é sempre dedicada aos livros que compramos mas não tivemos tempo de ler, àqueles lançamentos que colocamos em uma lista de desejos, às releituras dos livros mais amados.

E, se você precisa de uma razão extra para se motivar a ler, aqui vai ela: um estudo recente comprova que a leitura é a melhor forma de reduzir o estresse. Apenas seis minutos de leitura diária são capazes de reduzir o estresse em até 68%, com diminuição da frequência cardíaca e da tensão muscular. Os resultados da leitura foram mais eficazes contra o estresse que ouvir música (61%), caminhar (42%) e jogar videogame (21%). “É mais que uma mera distração; é um engajamento ativo da imaginação, pois as palavras impressas no papel estimulam a criatividade e fazem você entrar, essencialmente,  em um estado alterado de consciência”, destaca a pesquisa.

Para dar uma forcinha extra para que você relaxe nas férias, a Ateliê está com uma promoção de 30% de desconto em todo o site. Confira alguns títulos:

 

Epigramas – Se hoje em dia o Twitter desafia o internauta a escrever em poucos caracteres, Marco Valério Marcial, ainda na Roma Antiga, já produzia uma poesia curta, objetiva carregada de ironia. A tradução é de Rodrigo Garcia Lopes.

 

 

A Capa do Livro Brasileiro – O bibliófilo Ubiratan Machado reuniu mais de 1700 capas coloridas reunidas em uma só obra que analisa os 130 anos de História, desde a primeira capa que data de 1820. 

 

 

 

Os Sertões – Organizada por Leopoldo M. Bernucci, a 5ª edição revista e ampliada traz  notas explicativas sobre a obra e seu contexto histórico. O prefácio serve de introdução para os leitores apreciarem a diferentes linguagens que se entrecruzam em Os Sertões.

 

 

O Hóspede – Livro de contos de Mário Higa, que tem a figura paterna como tema central. “O nascimento de uma voz própria, avançada, reveladora, no frequentemente repetitivo, tímido e desanimador cenário da literatura contemporânea”, aponta Rinaldo Gama.

 

 

Gramática Integral da Língua Portuguesa – Nesta gramática, Antônio Suárez Abreu  procura mostrar para que serve tudo aquilo que se estuda numa gramática. Por isso, ela é prática, funcional e útil tanto aos estudiosos da língua como a quem apenas tem dúvidas pontuais, já que traz exemplos simples.

 

Electra(s) – Trajano Vieira, um dos mais importantes pesquisadores brasileiros, traduz em um só volume a Electra de Eurípedes e a de Sófocles, permitindo uma comparação estilística quanto às diferenças e semelhanças de ambas.

 

 

Conheça todas as promoções  (válidas por tempo limitado)

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“Moby Dick”, o romance infinito

Maria Schtine Viana*

Na obra Por quê ler os clássicos?,  Italo Calvino faz a seguinte afirmação: “Um clássico é um livro que nunca termina de dizer aquilo que tinha para dizer”. Isso significa que o clássico é uma obra aberta, em que os sentidos podem ser revistos a cada nova geração de leitor, de acordo com os valores do tempo em que está sendo lida. Mas essa inesgotabilidade de sentidos também pode ser associada ao fato de que a cada nova leitura que fazemos de um clássico termos a sensação que estar lendo uma obra nova.

Recentemente reli Moby Dick, pois daria um ciclo de palestras em que trataria justamente da importância de ler os clássicos, e pude comprovar essa máxima de Calvino  mais uma vez. Passagens que não haviam chamado minha atenção em leituras realizadas anteriormente ganharam importância e, ao reler trechos que havia assinalado nas leituras feitas anos atrás, perguntava-me o motivo de aquele trecho ter sido tão importante outrora.

Com isso quero dizer que foi com a emoção de uma baleeira de primeira viagem que embarquei novamente com Ishmael a bordo do Pequod por algumas noites seguidas, relendo avidamente as aventuras do capitão Ahab em busca de Moby Dick. Mesmo conhecendo o desfecho trágico do romance. Na verdade, estava ansiosa por ler novamente os três dias de caçada que ocorrem nos capítulos finais, quando, em meio aos embates dos arpoadores sob o comando de Ahab, vence, majestosamente, a potência da natureza. Talvez goste dessa obra justamente por saber que as últimas palavras do obstinado capitão, ao lançar o arpão que selaria sua morte, são apenas a confirmação de que, se a única certeza que temos é a de que somos mortais, é preciso lembrar sempre que os embates enfrentados no decorrer da vida devem ser realmente significativos. Ainda que para outrem eles pareçam desprovidos de sentido, cada ser humano é singular e deve ter liberdade para escolher o leviatã com o qual quer lutar.

Cabe lembrar que muito do realismo presente em Moby Dick se deva ao fato de o autor dessa obra monumental, o norte-americano Herman Melville, ainda muito jovem ter embarcado como grumete em um navio em direção a Liverpool, na Inglaterra. Essa viagem permitiu que Melville descobrisse duas paixões que o acompanhariam pelo resto da vida: o mar e a escrita literária. Seu livro Redburn (1849) foi baseado nessa primeira experiência de viagem. Nele, o escritor denuncia a exaustão da vida a bordo. Três anos mais tarde, depois de inúmeras tentativas de sobreviver como escriturário e professor, embarca em janeiro de 1841 em um navio baleeiro, o Acushnet, que o levaria aos mares do Sul. Essa viagem, com duração de aproximadamente 18 meses, lhe forneceu os elementos necessários para escrever Moby Dick, dez anos depois.

Cansado da pesca de baleias, desembarca do Acushnet na ilha Nuku-Hiva, na companhia de um camarada, que o abandona dias depois. Convive com os moradores locais por algum tempo, até ser resgatado pela tripulação do Lucy Ann, um barco australiano.

O escritor Herman Melville

Os primeiros livros de Melville, Typee: A peep at Polynesian life (Uma espiadela na vida da Polinésia, 1846) e Mardi (1849), foram inspirados nessas viagens. No primeiro, relata sua convivência com os nativos das ilhas Marquesas; no segundo, descreve sua vida a bordo do Lucy Ann. Uma das experiências relatadas em Mardi é o motim organizado pelos tripulantes, que reivindicavam o pagamento em atraso e melhores condições de vida a bordo, do qual Melville participou e que resultou em sua prisão no Taiti. Consegue fugir da prisão e chega a trabalhar como agricultor nessa ilha antes de retornar para Boston, três anos depois, como marinheiro, a bordo da fragata United States. Essas últimas aventuras foram relatadas no livro Omoo (1847).

Todavia, Melville escreveu sua obra-prima, Moby Dick, não no calor das viagens, mas alguns anos depois, em 1851. Diferentemente dos livros anteriores, nessa obra o que impera não é o espírito aventureiro e a prosa de fácil entendimento. Por trás da aparente caça à baleia branca, descortina-se um mundo simbólico, metafísico e denso, que não caiu no gosto popular. As vendas não atingiram o patamar esperado.

O escritor faleceu em Nova Iorque em 1891, aos 72 anos, e o mundo ainda demoraria pelo menos mais trinta anos para reconhecer sua genialidade literária. Isso porque, com o advento da Primeira Guerra Mundial, sua obra passou a ser vista como uma reflexão possível acerca do sombrio destino da humanidade. A luta constante entre o bem e o mal, tão presentes em Moby Dick, e a busca pela perfeição do caráter humano fizeram com que filósofos e escritores da segunda metade do século XX passassem a vê-lo como uma espécie de precursor do existencialismo.

O crítico inglês D. H. Lawrence, em particular, em ensaio de 1923, faz uma interessante analogia entre a obra e o desejo de domínio por parte dos norte-americanos. De acordo com ele, no momento em que a obra foi escrita os Estados Unidos lutavam por expandir suas fronteiras. Por isso, o que temos no romance são três raças selvagens, simbolizadas pelos três arpoadores de diferentes origens: Queequep, o ilhéu do Sul; Tashtego, o pele-vermelha da costa; e Daggoo, o negro, servindo sob a bandeira norte-americana, ao comando do capitão de um barco que representaria o mundo civilizado.

À primeira vista, o romance de Melville trata da perseguição obstinada de um capitão em busca do cachalote que lhe destruiu a perna em um embate em alto-mar. No entanto, o próprio narrador deixa claro que os reais motivos do capitão Ahab eram de outra ordem: “Havia poucos motivos para duvidar de que, desde aquele encontro quase fatal, Ahab nutrisse uma violenta sede de vingança contra a baleia, ainda mais terrível porque, em sua morbidez frenética, atribuíra a ela não apenas todos os seus infortúnios físicos, como também seus sofrimentos intelectuais e espirituais.”

Antes da caçada propriamente dita, o narrador Ishmael, único sobrevivente da trágica aventura, apresenta informações minuciosas sobre a região onde se encontra; a maneira como conhece Queequeg, o ilhéu dos mares do Sul, que será um dos principais arpoadores na caça à baleia branca. Detalhes sobre a equipagem do navio e a origem da tripulação; informações históricas sobre a caça à baleia e muitas outras vão preparando o espírito do leitor para a grande batalha que será travada em alto-mar.

Mais de uma centena de páginas antecedem a apresentação do grande capitão Ahab. Além disso, somente alguns capítulos depois de sua aparição é que a tripulação, e também os leitores, saberemos que o baleeiro Pequod foi equipado especialmente para uma perseguição a Moby Dick, e não para uma caçada rotineira a quaisquer espécies de baleia.

Dessa maneira, Melville vai enredando o leitor de tal forma em sua trama narrativa que, como os marinheiros recrutados pelo obstinado Ahab, já não se consegue desembarcar do navio. Passa-se a fazer parte dessa comunidade de baleeiros solitários que percorrem os mares por três anos, em busca desse monstro sagrado, sabendo-se, de antemão, que a essa missão estria fadada ao fracasso.

Mais um exemplo desse processo gradual de construção narrativa, que parte do geral até chegar no específico, pode ser verificado no capítulo intitulado “A brancura da baleia”. Nele o narrador discorre sobre o branco em suas diversas manifestações, passando pela delicadeza da camélia e das pérolas, pela coragem do destemido corcel branco, pela inocência das noivas em suas vestes nupciais – até chegar ao terror que aparições encobertas pela alvura dos fantasmas podem provocar, para sintetizar que, Moby Dick, o cachalote branco representava simbolicamente todas essas manifestações da brancura. Se, por um lado, o branco é apresentado neste capítulo como símbolo de pureza, da inocência e do poder divino; em contrapartida, simboliza também a palidez da morte e o horror das aparições sobrenaturais. É o vazio que tudo esconde.

O narrador Ishmael desenvolve reflexões em torno dos mistérios que o circundam ao entrar em contato com esse vazio, representado por Moby Dick, e empenha-se em entendê-lo por meio de questionamentos que não passam apenas pela razão, mas também pela sua fé, suas emoções e dúvidas. Por outro lado, o capitão Ahab ataca esse vazio e seu desejo é destruí-lo, ainda que assim acabe levando consigo toda tripulação ao encontro da morte.

Quando escreveu Moby Dick, Melville estava longe de saber que sua obra se tornaria um clássico, mas as impressões que Jorge Luis Borges apresenta dessa obra confirmam minhas sensações: esta é uma obra que vale a pena ser lida e (re) lida como um romance infinito. Escreve o escritor argentino: “No inverno de 1851, Melville publicou Moby Dick, o romance infinito que determinou sua glória. Página a página, a narrativa se engrandece até usurpar o tamanho do cosmos: no início, o leitor pode supor que seu tema é a vida miserável dos arpoadores de baleias; depois, que o tema é a loucura do capitão Ahab, ávido por perseguir e destruir a Baleia Branca; depois, que a Baleia e Ahab e a perseguição que fatiga os oceanos do planeta são símbolos e espelhos do Universo.”

 

 

*Atualmente, mora em Portugal e é doutoranda no Departamento de Estudos Estudos Portugueses, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É escritora e autora de obras didáticas e livros destinados à formação de professores. Mestre em Culturas e Identidades Brasileiras pelo IEB-USP e Bacharel em Letras pela mesma instituição, escreveu os livros Silêncios no escuro (Ateliê), História e Geografia do Nordeste (FTD), A lenda dos diamantes e outras histórias mineiras (Scipione), Festa no céu (Positivo), Asa da Palavra: literatura oral em verso e prosa (Melhoramentos), Um estudo sobre as obras clássicas de viagens e aventuras, Um estudo sobre as fábulas e os contos de fadas (Eureka), entre outros.

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Um mito, duas versões

Por: Renata de Albuquerque

Trajano Vieira é um dos mais reconhecidos pesquisadores da literatura grega no Brasil. Com uma bagagem de décadas de estudo e dedicação ao tema, ele preparou, exclusivamente para a Ateliê Editorial, a tradução de duas versões da tragédia Electra: uma de Sófocles; outra de Eurípedes. O desejo de vingar a morte do pai desdobra-se, em cada autor, com características próprias, que vão da tensão ao humor. A seguir, o Doutor em literatura grega pela USP, livre docente e professor do IEL,  na Unicamp, fala sobre seu Electra(s):

 

Qual a importância em reunir as duas “Electra” em só volume? Esta é uma iniciativa inédita?

Trajano Vieira: O objetivo maior da publicação num único volume das duas Electra, que apresentam o mesmo mito, foi dar ao leitor a oportunidade de comparar o diferente tratamento conferido ao tema por dois poetas trágicos com características bastante distintas: Sófocles e Eurípides. Desconheço a existência de projetos tradutórios com a mesma motivação. Creio que não há, pelo menos entre nós.

Quais os desafios da tradução para compor um volume como esse? As traduções foram realizadas especialmente para este volume ou já haviam sido feitas anteriormente e foram apenas reunidas?

TV: As duas traduções foram pensadas em função da publicação da Ateliê. Os desafios que obras dessa magnitude impõem ao tradutor são inúmeros. Destacaria, entre outros, a necessidade de encontrar uma coerência formal em português, que dialogue com aspectos centrais da linguagem do original. Se o resultado é positivo ou não, cabe ao leitor avaliar. Contudo, deve-se considerar a relevância ou não do gesto tradutório. Nesse tipo de trabalho, o tradutor se arrisca ao buscar formulações que escapem dos sentidos cristalizados nos dicionários e nas gramáticas. Esses instrumentais são ponto de partida e não de chegada, como costuma ocorrer em traduções escolares convencionais.

 

A bibliografia sobre as Electra(s) é vasta. Para este trabalho especialmente, quais foram as referências utilizadas e por quê?

TV: Eis uma questão de difícil resposta. Como você observa, a bibliografia sobre as duas tragédias é imensa. Até por dever de ofício, por causa da minha atividade de professor na Unicamp, procuro me manter atualizado sobre as publicações especializadas, dando preferência àquelas que abordam questões poéticas e retóricas. Acabo privilegiando os ensaios com qualidade estilística e procuro me distanciar dos que exibem argumentação esquemática e perfunctoriamente acadêmica. Estes últimos trabalhos dão muitas vezes a impressão de estar fazendo uma grande descoberta científica, quando na verdade revelam apenas o uso nem sempre significativo de uma vírgula ou de um ponto e vírgula. Entre os especialistas de tragédia que admiro muito, não só pela agudeza e erudição, como pela elegância da escrita, mencionaria Bernard Knox.

 

Quais são os principais pontos de contato entre os textos de Sófocles e Eurípides?

TV: O principal ponto de contato entre ambos decorre das características de fundo do gênero trágico. Refiro-me à questão do destino e de sua inesperada reviravolta, cujos efeitos nefastos exibem a fragilidade da experiência humana. O personagem atua como senhor de sua história e descobre, ao final, que outros aspectos foram responsáveis por sua forma de agir e de enxergar a vida. Normalmente isso ocorre tarde demais, quando o cenário negativo conduz o herói à própria destruição.

 

O que os distancia mais?

TV: A concepção de linguagem e do próprio gênero trágico afasta os dois escritores. A grosso modo, apenas para situar o leitor que desconhece os autores, pode-se dizer que em Sófocles prevalece o tom sereno e a abordagem clássica do acontecimento trágico. Eurípides é sobretudo moderno e chega a introduzir elementos cômicos em sua obra (notem-se, por exemplo, as características acentuadamente simplórias do marido oficial de Electra…), dando a impressão, muitas vezes, de que seu projeto procura ir além do gênero trágico tradicional. Há um aspecto dramático na Electra de Eurípides que antecipa certos traços romanescos.

 

De que maneira o senhor recomenda a leitura, para que as diferenças e semelhanças fiquem mais claras para o leitor? Cena a cena ou cada peça em sua totalidade?

TV: Cada um de nós deve descobrir o modo mais adequado de realizar a própria leitura. Eu prefiro ler integralmente cada uma das obras, para, num segundo momento, retomar trechos marcantes e estabelecer paralelos.

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Mistura de técnicas marca ilustrações de “Coração, Cabeça e Estômago”

Gustavo Piqueira, da Casa Rex, é um designer premiado internacionalmente. Ele foi convidado a ilustrar a edição de “Coração, Cabeça e Estômago”, de Camilo Castelo Branco, que a Ateliê acaba de lançar, pela coleção Clássicos Ateliê. Nesta entrevista, ele fala ao Blog da Ateliê sobre como foi a experiência:

Quando surgiu o convite para ilustrar a obra, você a leu? Ou o interesse veio após a leitura?

Gustavo Piqueira: Eu a li após o convite, o Plínio Martins Filho me chamou para ilustrar pois considerou que eu gostaria da obra (o que de fato ocorreu).

Caso tenha lido a obra, qual foi sua primeira impressão a respeito?

GP: Confesso que foi surpreendente: como muitos, o que conhecia de Camilo Castelo Branco era “Amor de Perdição” — não esperava uma obra tão divertida como “Coração, Cabeça e Estômago”.

 

Quais foram suas inspirações e referências para ilustrar a obra?

GP: Já que o texto apresentava esse viés cômico, quis brincar com a própria ideia de ilustração contemporânea para um clássico: quase todos os personagens masculinos que ilustrei (inclusive aquele que representa o protagonista) tem o rosto do próprio Camilo Castelo Branco. Mesmo os outros rostos que compõe as ilustrações vem de retratos expostos em sua antiga casa, hoje tornada museu. Além disso, misturei não apenas técnicas de desenho — colagem, pincel, caneta — como também uma execução de aparência mais “descontraída” tomando, contudo, o tipo de caricatura que predominava nos periódicos da segunda metade do século 19 como base gráfica estrutural. Ou seja, a ideia foi mesclar técnicas, épocas e tons.

 

Qual a função, em sua opinião, das ilustrações nesta edição?

GP: Penso que ajudar a aproximar o leitor contemporâneo do texto, ajudar a remover uma eventual torcida de nariz que aqueles livros considerados “clássicos” podem trazer a tiracolo, como se a classificação fosse sinônimo de conteúdo pouco interessante ou ultrapassado.

 

Camilo Castelo Branco é um autor considerado romântico, mas nesta obra ele mostra uma veia cômica bastante marcada. Isto, para o trabalho de ilustração, foi um desafio ou um elemento que ajuda na desconstrução da imagem canônica do “clássico para vestibular”?

GP: Para a ilustração não foi nenhum problema, pois os desenhos terminam por se vincular muito mais à narrativa específica do livro do que à obra do autor como um todo.

Como essa veia cômica do autor foi traduzida no trabalho de ilustração?  

GP: Escolhi passagens específicas que pudessem ser traduzidas em desenhos divertidos e, mesmo naquelas imagens que ilustram trechos mais neutros, busquei acrescentar alguma expressão ou movimento que carregasse um pouco de graça. O objetivo foi o de criar uma série engraçada, mas sem passar do ponto.

 

Como foi o trabalho de elaboração da capa? Qual foi sua preocupação maior quanto a este aspecto?

GP: A capa deveria seguir o padrão da coleção Clássicos Ateliê. Logo, penso que o trabalho foi muito mais o de encontrar um “encaixe” entre a linguagem que adotei nas ilustrações e essa estrutura.

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Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo

Lenina Pomeranz, professora livre docente associada do Departamento de Economia da FEA – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP acaba de lançar  Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo. Sua pesquisa sobre o processo de transformação sistêmica da Rússia, teve início com o acompanhamento da perestroika, como a primeira pesquisadora a implementar um programa de cooperação entre o Instituto da América Latina da Academia de Ciências da URSS e a USP. Ela, que fez seu doutoramento no Instituto Plejanov de Moscou, de Planejamento da Economia Nacional e pós doutoramento na Boston University, com bolsa Fulbright fala, nesta entrevista ao Blog da Ateliê, sobre seu novo livro:

Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo

Neste ano em que se comemoram 200 anos de Marx, qual o legado deste autor e do socialismo soviético para o mundo de hoje?

Lenina Pomeranz: A resposta a esta pergunta exige, em primeiro lugar, a divisão dela em duas. A relação entre o legado de Marx e o do socialismo soviético é motivo de ampla discussão entre marxistas e pós marxistas, parte dos quais não reconhece o sistema soviético como socialista. Além disso, a contribuição de Marx, no seu 200º aniversário transcende o socialismo soviético, não obstante façam parte do legado marxista as preocupações e os escritos sobre a Rússia, nos anos finais da década de 1880. São exatamente estes escritos, relativos aos caminhos alternativos possíveis para a revolução russa, derivados da existência da exploração comunitária da agricultura – característica própria da Rússia à época – que constituem um bom exemplo de como os fundamentos de sua teoria podem e devem ser aplicados em diferentes contextos e situações históricas do sistema.  Acredito que este seja o seu grande legado.

Quanto ao legado do socialismo soviético, está no aprendizado que oferece uma  avaliação dos acertos e erros incorridos na tentativa de construção de um sistema alternativo ao capitalismo dominante. Ambos, acertos e erros, foram muitos e esta avaliação, mesmo restringida pelo curto espaço do tempo histórico que separa os dias de hoje da data de sua extinção, é plena de ensinamentos.

 

Seu livro fala de sua experiência na Rússia em um momento de profundas mudanças históricas. Pessoalmente, o que mais lhe marcou nessa experiência?

LP: Marcou-me profundamente o processo pelo qual acabou se dando o desmanche da URSS. A esperança de um socialismo de face humana, bandeira da perestroika , acabou por desfazer-se,  frente à realidade social  em que este socialismo deveria ser implantado.

 

Como foi ser pesquisadora do tema e viver seu “objeto de estudo” na prática?

LP: Foi muito bom, porque esta vivência tornou possível sentir o clima da época, a explosão da participação popular nas ruas, derivada da glasnost – a democratização política, acompanhar as contradições de interesses e os conflitos que permearam o processo de transformação iniciado com a perestroika, assim como, posteriormente,  o aguçamento dessas contradições e conflitos que levaram ao fim da URSS.

 

É possível falar em um legado do socialismo soviético ao capitalismo russo? Se sim, quais são os ecos do primeiro no segundo?  Ou: há rastros do primeiro no segundo?

LP: É possível sim, embora os fundamentos de ambos os sistemas sejam completamente distintos. Exatamente para entender as heranças culturais do passado existentes no novo capitalismo russo, busquei estruturar a minha pesquisa e o livro dela resultante, em torno dos traços culturais básicos formados ao longo da história russa.  Como rastros do socialismo soviético, já existentes antes mesmo dele, dois são proeminentes: o paternalismo e o autoritarismo. No âmbito do paternalismo, pode se incluir a preocupação com a manutenção, ainda que restrita, de alguns benefícios do sistema de bem estar social existentes no sistema soviético.

 

Na apresentação do livro, a senhora escreve: “Afirmar que entendi seria prepotência; mas procurei fazê-lo. Dadas as próprias necessidades de acompanhar a construção de um novo sistema, tanto no plano econômico quanto no plano político, ou seja o como, durante alguns anos releguei a segundo plano a análise do funcionamento do sistema soviético, o porquê.” Hoje, o que se pode depreender dessa análise do porquê?

LP: Logo depois da dissolução da URSS, surgiram inúmeras análises sobre esse porquê, apontando para fatores que estiveram presentes e marcaram a existência deste país. A minha contribuição ao debate em torno dessas análises do  porquê  está em sublinhar alguns elementos dessa experiência, que julgo devam ser considerados no debate em torno do tema, ressaltando o seu caráter controverso e as limitações impostas pelo limitado tempo histórico desde a dissolução da URSS. Resumindo, estes elementos referem-se: i) ao quadro de referências em que se deu a revolução de outubro de 1917: a participação da Rússia na 1ª. Guerra Mundial e suas consequências sobre a vida da população, inclusive seus anseios pela paz; a não realização da esperada revolução mundial; a existência de forte tradição revolucionária contra o czarismo; finalmente, a construção do socialismo em um único país; ii) às condições nas quais se deu a evolução do sistema: a Rússia era um país relativamente atrasado em comparação com os países econômica e politicamente mais avançados, o que levou à adoção de uma estratégia de crescimento centrado na industrialização; não havia experiências anteriores, nem indicações teóricas sobre como construir o novo sistema, o que, por sua vez,  levou à adoção pragmática de alternativas até finalmente se consolidar no modelo formado a partir dos anos 1930, sob a liderança de Stalin; iii) ao stalinismo e as marcas positivas e negativas por ele deixadas; iv) ao debate sobre as possibilidades de  reforma do sistema, introduzido pelo insucesso da perestroika.

 

O que se pode dizer do sistema russo hoje, cem nos depois da revolução de 1917?

LP: Acredito que a melhor resposta a esta pergunta será fazer uma nova pergunta: teria a revolução russa interrompido um caminho no sentido do desenvolvimento capitalista da Rússia? Em outros termos, qual teria sido o perfil do capitalismo russo se o seu desenvolvimento não tivesse sido interrompido pela revolução de outubro de 1917 e a construção do sistema socialista soviético, que marcou significativamente o século XX? Acredito que uma resposta  a estas perguntas depende de um aprofundada análise das condições históricas que determinaram a própria eclosão da revolução.

Conheça a obra Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo.