Renata Albuquerque

Mistura de técnicas marca ilustrações de “Coração, Cabeça e Estômago”

Gustavo Piqueira, da Casa Rex, é um designer premiado internacionalmente. Ele foi convidado a ilustrar a edição de “Coração, Cabeça e Estômago”, de Camilo Castelo Branco, que a Ateliê acaba de lançar, pela coleção Clássicos Ateliê. Nesta entrevista, ele fala ao Blog da Ateliê sobre como foi a experiência:

Quando surgiu o convite para ilustrar a obra, você a leu? Ou o interesse veio após a leitura?

Gustavo Piqueira: Eu a li após o convite, o Plínio Martins Filho me chamou para ilustrar pois considerou que eu gostaria da obra (o que de fato ocorreu).

Caso tenha lido a obra, qual foi sua primeira impressão a respeito?

GP: Confesso que foi surpreendente: como muitos, o que conhecia de Camilo Castelo Branco era “Amor de Perdição” — não esperava uma obra tão divertida como “Coração, Cabeça e Estômago”.

 

Quais foram suas inspirações e referências para ilustrar a obra?

GP: Já que o texto apresentava esse viés cômico, quis brincar com a própria ideia de ilustração contemporânea para um clássico: quase todos os personagens masculinos que ilustrei (inclusive aquele que representa o protagonista) tem o rosto do próprio Camilo Castelo Branco. Mesmo os outros rostos que compõe as ilustrações vem de retratos expostos em sua antiga casa, hoje tornada museu. Além disso, misturei não apenas técnicas de desenho — colagem, pincel, caneta — como também uma execução de aparência mais “descontraída” tomando, contudo, o tipo de caricatura que predominava nos periódicos da segunda metade do século 19 como base gráfica estrutural. Ou seja, a ideia foi mesclar técnicas, épocas e tons.

 

Qual a função, em sua opinião, das ilustrações nesta edição?

GP: Penso que ajudar a aproximar o leitor contemporâneo do texto, ajudar a remover uma eventual torcida de nariz que aqueles livros considerados “clássicos” podem trazer a tiracolo, como se a classificação fosse sinônimo de conteúdo pouco interessante ou ultrapassado.

 

Camilo Castelo Branco é um autor considerado romântico, mas nesta obra ele mostra uma veia cômica bastante marcada. Isto, para o trabalho de ilustração, foi um desafio ou um elemento que ajuda na desconstrução da imagem canônica do “clássico para vestibular”?

GP: Para a ilustração não foi nenhum problema, pois os desenhos terminam por se vincular muito mais à narrativa específica do livro do que à obra do autor como um todo.

Como essa veia cômica do autor foi traduzida no trabalho de ilustração?  

GP: Escolhi passagens específicas que pudessem ser traduzidas em desenhos divertidos e, mesmo naquelas imagens que ilustram trechos mais neutros, busquei acrescentar alguma expressão ou movimento que carregasse um pouco de graça. O objetivo foi o de criar uma série engraçada, mas sem passar do ponto.

 

Como foi o trabalho de elaboração da capa? Qual foi sua preocupação maior quanto a este aspecto?

GP: A capa deveria seguir o padrão da coleção Clássicos Ateliê. Logo, penso que o trabalho foi muito mais o de encontrar um “encaixe” entre a linguagem que adotei nas ilustrações e essa estrutura.

Conheça a Coleção Clássicos Ateliê

Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo

Lenina Pomeranz, professora livre docente associada do Departamento de Economia da FEA – Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP acaba de lançar  Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo. Sua pesquisa sobre o processo de transformação sistêmica da Rússia, teve início com o acompanhamento da perestroika, como a primeira pesquisadora a implementar um programa de cooperação entre o Instituto da América Latina da Academia de Ciências da URSS e a USP. Ela, que fez seu doutoramento no Instituto Plejanov de Moscou, de Planejamento da Economia Nacional e pós doutoramento na Boston University, com bolsa Fulbright fala, nesta entrevista ao Blog da Ateliê, sobre seu novo livro:

Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo

Neste ano em que se comemoram 200 anos de Marx, qual o legado deste autor e do socialismo soviético para o mundo de hoje?

Lenina Pomeranz: A resposta a esta pergunta exige, em primeiro lugar, a divisão dela em duas. A relação entre o legado de Marx e o do socialismo soviético é motivo de ampla discussão entre marxistas e pós marxistas, parte dos quais não reconhece o sistema soviético como socialista. Além disso, a contribuição de Marx, no seu 200º aniversário transcende o socialismo soviético, não obstante façam parte do legado marxista as preocupações e os escritos sobre a Rússia, nos anos finais da década de 1880. São exatamente estes escritos, relativos aos caminhos alternativos possíveis para a revolução russa, derivados da existência da exploração comunitária da agricultura – característica própria da Rússia à época – que constituem um bom exemplo de como os fundamentos de sua teoria podem e devem ser aplicados em diferentes contextos e situações históricas do sistema.  Acredito que este seja o seu grande legado.

Quanto ao legado do socialismo soviético, está no aprendizado que oferece uma  avaliação dos acertos e erros incorridos na tentativa de construção de um sistema alternativo ao capitalismo dominante. Ambos, acertos e erros, foram muitos e esta avaliação, mesmo restringida pelo curto espaço do tempo histórico que separa os dias de hoje da data de sua extinção, é plena de ensinamentos.

 

Seu livro fala de sua experiência na Rússia em um momento de profundas mudanças históricas. Pessoalmente, o que mais lhe marcou nessa experiência?

LP: Marcou-me profundamente o processo pelo qual acabou se dando o desmanche da URSS. A esperança de um socialismo de face humana, bandeira da perestroika , acabou por desfazer-se,  frente à realidade social  em que este socialismo deveria ser implantado.

 

Como foi ser pesquisadora do tema e viver seu “objeto de estudo” na prática?

LP: Foi muito bom, porque esta vivência tornou possível sentir o clima da época, a explosão da participação popular nas ruas, derivada da glasnost – a democratização política, acompanhar as contradições de interesses e os conflitos que permearam o processo de transformação iniciado com a perestroika, assim como, posteriormente,  o aguçamento dessas contradições e conflitos que levaram ao fim da URSS.

 

É possível falar em um legado do socialismo soviético ao capitalismo russo? Se sim, quais são os ecos do primeiro no segundo?  Ou: há rastros do primeiro no segundo?

LP: É possível sim, embora os fundamentos de ambos os sistemas sejam completamente distintos. Exatamente para entender as heranças culturais do passado existentes no novo capitalismo russo, busquei estruturar a minha pesquisa e o livro dela resultante, em torno dos traços culturais básicos formados ao longo da história russa.  Como rastros do socialismo soviético, já existentes antes mesmo dele, dois são proeminentes: o paternalismo e o autoritarismo. No âmbito do paternalismo, pode se incluir a preocupação com a manutenção, ainda que restrita, de alguns benefícios do sistema de bem estar social existentes no sistema soviético.

 

Na apresentação do livro, a senhora escreve: “Afirmar que entendi seria prepotência; mas procurei fazê-lo. Dadas as próprias necessidades de acompanhar a construção de um novo sistema, tanto no plano econômico quanto no plano político, ou seja o como, durante alguns anos releguei a segundo plano a análise do funcionamento do sistema soviético, o porquê.” Hoje, o que se pode depreender dessa análise do porquê?

LP: Logo depois da dissolução da URSS, surgiram inúmeras análises sobre esse porquê, apontando para fatores que estiveram presentes e marcaram a existência deste país. A minha contribuição ao debate em torno dessas análises do  porquê  está em sublinhar alguns elementos dessa experiência, que julgo devam ser considerados no debate em torno do tema, ressaltando o seu caráter controverso e as limitações impostas pelo limitado tempo histórico desde a dissolução da URSS. Resumindo, estes elementos referem-se: i) ao quadro de referências em que se deu a revolução de outubro de 1917: a participação da Rússia na 1ª. Guerra Mundial e suas consequências sobre a vida da população, inclusive seus anseios pela paz; a não realização da esperada revolução mundial; a existência de forte tradição revolucionária contra o czarismo; finalmente, a construção do socialismo em um único país; ii) às condições nas quais se deu a evolução do sistema: a Rússia era um país relativamente atrasado em comparação com os países econômica e politicamente mais avançados, o que levou à adoção de uma estratégia de crescimento centrado na industrialização; não havia experiências anteriores, nem indicações teóricas sobre como construir o novo sistema, o que, por sua vez,  levou à adoção pragmática de alternativas até finalmente se consolidar no modelo formado a partir dos anos 1930, sob a liderança de Stalin; iii) ao stalinismo e as marcas positivas e negativas por ele deixadas; iv) ao debate sobre as possibilidades de  reforma do sistema, introduzido pelo insucesso da perestroika.

 

O que se pode dizer do sistema russo hoje, cem nos depois da revolução de 1917?

LP: Acredito que a melhor resposta a esta pergunta será fazer uma nova pergunta: teria a revolução russa interrompido um caminho no sentido do desenvolvimento capitalista da Rússia? Em outros termos, qual teria sido o perfil do capitalismo russo se o seu desenvolvimento não tivesse sido interrompido pela revolução de outubro de 1917 e a construção do sistema socialista soviético, que marcou significativamente o século XX? Acredito que uma resposta  a estas perguntas depende de um aprofundada análise das condições históricas que determinaram a própria eclosão da revolução.

Conheça a obra Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo.

 

 

“Jogo de Palavras”, de Jacó Guinsburg

Jerusa Pires Ferreira*

               Trata-se, de fato, de um jogo de palavras. Pergunta-se, qual?

Quantos  saberão jogar assim com a graça das significações e sonoridades, ritmos, todos carregados de  atitude  singular que envolve presente e memória?

Se há a evocação de fatos e  sentimentos , há também o chamado, às vezes crítico,  para os dias de agora, apontando para o futuro.

Este livro/jogo/Poema lança suas redes para pequenos textos, histórias, contos do autor, episódios de uma fina crítica que foi se  construindo, ao longo da Vida…

Trazendo o riso,  leva à reflexão, e ao  questionar os conceitos, poderia desembocar na  filosofação tradicional. Mas ele, Hamlet, pede a este que afinal se decida.

Reunir poemas , situá-los , projetá-los rumo a um entendimento sério e  jocoso, é tarefa de quem sabe das palavras e de como elas são capazes de urdir outras tantas.  Como pano de fundo, transparecem  os ditos graciosos, que provém da vivência ídische.

Para você, Jacó, o abraço que parte da leitura /livre mas  comprometida com o encanto / espanto de pensar  o nosso mundo…

*Jerusa Pires Ferreira é doutora e livre-docente pela Universidade de São Paulo. É autora de inúmeros artigos além de professora de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP. Pela Ateliê Editorial publicou: Armadilhas da Memória e Outros EnsaiosCultura das Bordas – Edição. Comunicação. LeituraMatrizes Impressas do Oral – Conto Russo no Sertão e Livros, Editora & Projetos (et alii).

 

Conheça mais da obra de Jacó Guinsburg

 

Clássicos não saem de moda

Por Renata de Albuquerque*

O que é um livro clássico? Aquele que você foi obrigado a ler na escola, porque ia cair no vestibular, quando ainda não tinha maturidade nem experiência de leitura suficientes para entender a razão da importância daquela obra?

Clássicos são muito mais do que a obrigação de leitura escolar. São livros que conseguem, pela genialidade do autor, ressignificarem-se ao longo do tempo, falando ao leitor de cada época de maneira diferente – mas não menos impactante. É como se ele não se esgotasse jamais, como se mostrasse faces diferentes a cada leitura, como se permitisse ser redescoberto pelo mesmo leitor inúmeras vezes.

“Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira”, afirma Ítalo Calvino, em seu Por que ler os clássicos?.

Por isso, clássicos não são um assunto apenas de quem vai prestar vestibular. Os amantes da literatura voltam a eles de tempos em tempos, para beber de sua fonte inesgotável.

Um exemplo interessante é a interpretação de Dom Casmurro. Até 1960, quando Helen Caldwell lançou O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, ninguém colocava em dúvida a traição de Capitu. Depois do lançamento do livro – uma leitura feminista feita sobre bases teóricas então muito recentes – ninguém mais consegue ler o livro sem duvidar dessa traição. E é por isso que se diz que a discussão “traiu ou não traiu” é secundária. O primordial é a genialidade de Machado de Assis ao escrever essa obra prima, que é capaz de tomar outros rumos, ganhar novos significados, tornar-se diferentes metáforas, a depender do leitor que a relê.

Muitas vezes, a mesma pessoa lê o mesmo livro de formas diferentes. Não somos fixos, nos transformamos diariamente, evoluímos, mudamos nossa maneira de pensar. E, quando isso acontece,  somos capazes de ler de maneira diferente o mesmo livro a cada releitura.

Por isso, a Ateliê está voltando aos Clássicos. A editora criou uma seleção especial de títulos que têm a capacidade de instigar e provocar o leitor para muito além daquilo que se explicita em uma primeira leitura. Veja alguns exemplos:

 

 

 

Um Lance de Dados – Livro inovador que traz na poesia de Stéphane Mallarmé elementos visuais e gráficos até então quase desconhecidos para o público. Foi uma das inspirações da Poesia Concreta no Brasil.

 

Memórias de Um Sargento de Milícias – Outro clássico radicalmente inovador, que motivou Antonio Candido a escrever um ensaio que se tornou um clássico dos estudos literários: “Dialética da Malandragem”

Epigramas – Se hoje em dia o Twitter desafia o internauta a escrever em poucos caracteres, Marco Valério Marcial, ainda na Roma Antiga, já produzia uma poesia curta, objetiva carregada de ironia.

 

 

Electra – Eurípedes escreveu uma peça de teatro clássica que serviu de base para a construção de teorias freudianas que ajudam, até hoje, a entender a psique humana.

 

 

 

Conheça outros títulos (com desconto por tempo limitado)

 

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“Coração, Cabeça e Estômago”: o humor de Camilo Castelo Branco

A nova edição de Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco, da Ateliê Editorial, chega às prateleiras como um dos escolhidos a leitura obrigatória do vestibular da Unicamp. A edição busca ajudar o estudante a entender melhor a obra e, para isso, tem apresentação de Jean Pierre Chauvin, doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada, e notas e estabelecimento de texto feitos por ele e por José de Paula Ramos Jr., coordenador da coleção Clássicos Ateliê.

Para além da recomendação do vestibular da Unicamp, Coração, Cabeça e Estômago tem um humor que desperta a atenção do leitor e traz prazer à leitura. A seguir, Jean Pierre Chauvin fala sobre a obra:

Quais foram os principais desafios para o estabelecimento deste texto?

Jean Pierre Chauvin: Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco, data de 1862. De modo a cumprir a vontade do autor e apresentar a versão mais fidedigna possível da obra, o texto do romance foi cotejado com a sua segunda e última edição publicada em vida, ou seja, a versão de 1864. O trabalho, minucioso, foi realizado a quatro mãos, em produtiva parceria com o Professor José de Paula Ramos Júnior, docente do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, USP. Preservamos o texto original em sua íntegra, ao qual foram implementados ajustes que resultaram em atualizações na grafia e pontuação. Edições posteriores do romance também foram consultadas, com o objetivo de dirimir eventuais dúvidas, respeitados os critérios editoriais.

 

Que tipo de barreiras que o leitor brasileiro possa encontrar neste livro o trabalho de estabelecimento de textos e notas desta edição da Ateliê procurou minimizar? Como se deu a realização desse trabalho?

JPC: Creio que o maior obstáculo, para o leitor de hoje, estaria em compreender o léxico empregado pelo romancista português. Por ser uma obra de 1862 – redigida em linguagem castiça e em acordo com o vasto repertório do autor –, Coração, Cabeça e Estômago demandou cuidadoso levantamento do glossário da época, além de numerosas referências e dados culturais a que o autor alude. Este trabalho também foi realizado em parceria com o Professor José de Paula Ramos Júnior.

 

É possível dizer que este livro  é “um ponto fora da curva” dentro do contexto da obra de Camilo Castelo Branco, devido ao humor que contém, ou outras obras do autor também contam com esta característica?

JPC: Camilo Castelo Branco é reconhecido com um dos autores mais prolíficos da língua portuguesa, tendo legado mais de cento e trinta romances e novelas, compostos ao longo de sua carreira. Não se pode afirmar que se trate de um romance atípico, tendo em vista que o escritor alternou narrativas de diversos modos, temas e características, em que predominavam ora o motivo lírico, ora o tom jocoso. Chamaria a atenção para obras como Vinte horas de liteira e A queda dum anjo, acentuadamente pautadas pela ironia.

Camilo Castelo Branco

O humor de “Coração, Cabeça e Estômago” é talvez o aspecto que torna o livro mais conhecido. Este humor consegue divertir o leitor brasileiro do século XXI? Que outros atrativos ele terá na obra?

JPC: O humor se manifesta de várias formas, no romance. Afora as peripécias em que o narrador se envolve, há que se levar em conta o modo como ele maneja a linguagem, ora a conceder menor importância a fatos de grande relevo, ora a sobrevalorizar eventos que, aparentemente, não mereceriam maior atenção. Aí está um dos truques que realçam o traço humorístico e evidenciam o acento irônico do romance. Um leitor que admire e se divirta com a obra de Machado de Assis em nossos dias certamente reconhecerá em Camilo uma de suas matrizes estilísticas e temáticas.

 

Como se estrutura a metalinguagem neste romance?

JPC: Em diversas ocasiões, o narrador discute o ato de recontar os episódios que presenciou e, inclusive, os lances decisivos de que tomou parte. Além disso, há constantes interferências do protagonista nos episódios em andamento, na forma de digressões que relembram ao leitor o caráter convencional da arte literária e permitem-lhe extrapolar os limites do gênero e a filiação do romance, seja como obra romântica, seja como romance realista.

 

Machado de Assis

Há quem tente aproximar esta obra às “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, marcadamente graças à condição pós-morte estabelecida em ambas. O senhor concorda com esta aproximação? Por que?

JPC: A aproximação entre os romances é possível e produtiva, especialmente se considerarmos os constantes diálogos que ambos os narradores ensaiam com o leitor. No entanto, a condição do “defunto-autor”, concebida por Machado de Assis, soa ainda mais radical que a do romancista português. Em Coração, Cabeça e Estômago, o leitor toma contato com um relato aparentemente deixado para a posteridade; já em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o morto fala e, de certo modo, revive enquanto escreve: o tempo do relato e a modalidade do registro difere consideravelmente de uma narrativa para a outra. No que se refere ao enredo, há episódios que apontam relações intertextuais entre os romances de Camilo e o de Machado. Esse diálogo entre as obras sugere a admiração que o escritor brasileiro nutria pelo romancista português.

A obra está na lista de vestibular da Unicamp. A que aspectos da obra o estudante  deve estar atento, se o objetivo da leitura for o vestibular?

JPC: A seleção de Coração, Cabeça e Estômago para o vestibular é oportuna. Como experiência, a fruição do romance é prazerosa e, por isso mesmo, demanda maior atenção. O primeiro alerta diz respeito à advertência, também apontada pela crítica machadiana, de que se deve desconfiar do narrador camiliano. Por ser uma narrativa em primeira pessoa, seu ponto de vista é necessariamente parcial: o leitor acessa a uma das versões dos acontecimentos, segundo a sua ótica peculiar. Além disso, é preciso detectar os momentos em que o protagonista diz uma coisa para sugerir outra. Para isso, ele tece afirmações que afetam modéstia; elogia ações que, no fundo, condena; finge criticar atitudes que nos parecem louváveis. No que se refere à linguagem utilizada por Camilo, orienta-se que o leitor recorra às notas explicativas, de modo a captar precisamente o que o seu narrador descortina, disfarça ou esconde. Afinal, ele não diz o mesmo da mesma forma nas três partes da autobiografia. O seu temperamento muda em acordo com as fases da vida. Poder-se-ia afirmar que se trata de uma narrativa, por assim dizer, fisiológica.

 

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Os Sertões ganha reedição

A Ateliê acaba de lançar a 5ª edição revista e ampliada de Os Sertões. Segundo o professor Leopoldo M. Bernucci, responsável pela edição, cronologia, notas e prefácio, ela “é a única no mercado que oferece de modo abundante e detalhado” notas explicativas sobre a obra e seu contexto histórico. “Tivemos o cuidado de preparar um índice onomástico que acreditamos ser bastante útil para dilucidar muitas das biografias ligadas aos personagens e autores citados por Euclides. O índice remissivo não é menos proveitoso, pois auxilia na busca temática e onomástica com maior agilidade. Incluímos um prefácio nosso também que serve de introdução para os leitores apreciarem a diferentes linguagens que se entrecruzam em Os Sertões”, resume o professor na University of California-Davis, localizada em Davis, California (USA). A seguir, ele fala sobre o trabalho em entrevista para o Blog da Ateliê:

Quais os desafios de preparar uma edição de “Os Sertões”, um clássico brasileiro?

Leopoldo M. Bernucci: A complexidade inerente ao preparo de uma edição como a de Os sertões publicada pela Ateliê desde 2001 se observa no número e na qualidade de notas explicativas a um texto considerado até hoje “difícil”. O desafio maior neste caso, para nós, foi torná-lo minimamente acessível ao público leitor. De que maneira isto foi feito? Em primeiro lugar, contextualizando muitas das referências e alusões encontradas no texto; em seguida, levando os leitores às possíveis fontes de informação utilizadas pelo autor e, finalmente, oferecendo um glossário para o léxico algo hermético de Euclides da Cunha.

As razões para vencer tais desafios são de caráter principalmente técnico, pois o objetivo era apresentar ao público a atualidade de Os Sertões e explicar o seu caráter de obra “clássica”. Para tanto, basta mencionar aqui alguns aspectos do livro e remeter os leitores interessados por este assunto específico a um ensaio que publiquei há uma década  no livro João Alexandre Barbosa: O Leitor Insone. O ensaio se chama “Os sertões como um clássico”. Aclamado ao longo dos anos, depois de mais de um século de sua publicação, Os sertões sem sombra de dúvida é um clássico em todos os sentidos. É lido e relido por um público-leitor diverso, inclusive em muitas de suas versões traduzidas; tem influenciado uma série de escritores estrangeiros como José Eustasio Rivera (Colômbia), Mario Vargas Llosa (Peru), Sándor Márai (Hungria), e brasileiros como Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Paulo Dantas. A sua capacidade universalizante, ainda, faz com que o livro toque os nossos corações tanto pela narração dos fatos regionalizados (interior do nordeste do Brasil) quanto por aquela que, desbordando da esfera local, passa ao mundo da tragédia humana e dos sentimentos comuns e gerais a todos nós. Além disso, como grande clássico, Os sertões revela a consciência que esta obra tem de sua própria linguagem. Isto é, a linguagem euclidiana sinaliza direta e indiretamente as pulsações de sua presença e o valor de sua importância, não só como instrumento para narrar fatos, mas também como veículo de enorme poder de representação destes. Em síntese, é um livro de denúncia social de um dos maiores massacres ocorridos na história do Brasil e que está narrado com uma das mais belas e eficazes linguagens artísticas de todos os tempos.

Leopoldo M. Bernucci

A presente reedição foi revista e ampliada. O que ela traz de diferente da edição anterior?

LMB: Como fizemos com as demais, esta 5ª. edição revista busca aperfeiçoar e expandir o que havíamos feito antes. Isto é, além de preencher as lacunas deixadas nas edições anteriores, retocamos a biografia do autor com base nas últimas e contínuas pesquisas sobre a obra monumental de Euclides. Tal tarefa não é das mais fáceis, já que qualquer pesquisador sério tem que necessariamente enfrentar as dificuldades ligadas à investigação nos arquivos e bibliotecas. Referimo-nos ao fato de, ainda em pleno século XXI, nos depararmos com inéditos do autor que iluminam sobremaneira a sua biografia e obra. A leitura, organização e a interpretação desse material desconhecido implicam enorme esforço de revisão do que já foi escrito pela crítica.

 

No prefacio, é abordada a questão das diferentes linguagens de Os Sertões. Pode explicar muito brevemente a quem não leu ainda o prefácio quais são essas linguagens e por que são usadas?

LMB: Homem de ciências e letras, Euclides manejou como ninguém uma variedade de dicções que refletem o amplo espectro de saberes que ele possuía. Neste texto clássico da nossa literatura brasileira há um encontro fortuito de linguagens que se entrecruzam e que são particularmente específicas a certos tipos de livro, gênero literário, instituições e disciplinas: a Bíblia, a Geologia, o Exército, a Arquitetura, a Meteorologia, a Épica e o Teatro, para ficarmos com apenas alguns exemplos. Esse hibridismo linguístico, num primeiro momento visível no nível lexical, transforma-se depois em imagens homólogas no discurso euclidiano. Por exemplo, para explicar a formação racial no Brasil, nas Notas à 2ª. Edição, Euclides lança mão de uma comparação geológica com os três elementos principais do granito. Da épica, o nosso autor extrai as cenas de luta entre os soldados do exército e os canudenses, a descrição dos instrumentos de guerra, o heroísmo de alguns indivíduos (João Grande, o major Henrique Severiano), e a invocação homérica plasmada na frase Tróia de taipa para definir Canudos. Frases ou vocábulos como Anticristo, Canaã sagrada, arca da aliança e muitos outros estariam aproximando a linguagem bíblica da que procura configurar o mundo religioso de Canudos permeado de um Cristianismo antigo ou primitivo. Poderíamos prosseguir com mais exemplos, porém, fiquemos com esses três e convidemos os leitores a lerem o nosso Prefácio para observarem outras manifestações discursivas.

 

Quais as principais qualidades artísticas de Os Sertões que fazem com que a obra mereça ser lida ainda hoje?

LMB: Entre as mais destacadas qualidades artísticas do livro, estariam a extraordinária erudição de Euclides e a sua habilidade no uso da língua portuguesa transformada pelo seu talento de escritor em linguagem artística. Um grande autor como ele, não somente conhece a tradição da historiografia ou da literatura, mas como já afirmamos acima, exibe um notável conhecimento científico que termina casando-se perfeitamente com essa linguagem. Em resumo, neste famoso escritor, o consórcio entre ciência e arte, como Euclides gostava de assim definir a sua maneira de escrever, é perfeita. Com essa mistura de dotes artísticos, que tão bem caracterizam a sua forma de contar uma história, dando-lhe um significado profundamente épico e trágico, e enriquecendo-a de conhecimentos científicos, o nosso autor eleva a sua narrativa, principalmente sobre Canudos, a um nível máximo de qualidade estética, de argumentação retórica e de uma invulgar precisão no narrar dos fatos.

Já faz alguns anos o professor Alfredo Bosi definiu muito bem a qualidade imperecível que possui Os Sertões. Segundo ele, a atualidade desta obra está na ‘’inegável potência de sua representação”, ou seja no grande talento empregado pelo escritor na criação de sua linguagem artística. Diz ainda este arguto crítico, que Euclides foi mestre em “ler atrás do fato o seu contexto”, confirmando aquilo que sempre se verifica nele: um estudioso, de raciocínio lógico, dedutivo, guiado pela lei da causalidade. É um autor que, em última análise, quer e sabe questionar; e portanto, as suas arguições sempre buscam “superar fáceis esquemas ideológicos” emprestando assim maior vigor e complexidade às unidades caracterizadoras daquilo que ele procura entender. Litoral/sertão, branco/mestiço, ciência/superstição são alguns dos pares antitéticos que uma vez dialetizados por Euclides, saem da zona de conforto das oposições para se tornarem núcleos sintéticos de alta relevância para a compreensão da cultura e história brasileiras.

Conheça Leopoldo M. Bernucci

“Realidades e Ficções na Trama Fotográfica”: uma resenha

Por Carina M. F. Pedro*

 

A 5ª edição revista do livro “Realidades e Ficções na Trama Fotográfica” reúne textos adaptados de palestras proferidas nos anos noventa pelo fotógrafo e pesquisador Boris Kossoy. Sua leitura proporciona diversas reflexões sobre a fotografia e sua história, os processos que estão presentes na sua produção, a sua relação com a construção da memória e da imagem do Brasil como nação, assim como a importância de se preservar em acervos as imagens captadas pelos fotógrafos ao longo de décadas, a fim de servirem como fontes de pesquisa sobre uma época.

Na primeira parte do livro, “Construção e Desmontagem do Signo Fotográfico”, Kossoy apresenta os elementos que constituem a imagem fotográfica. Como “índice” a fotografia é uma prova que o objeto/assunto tangível ou intangível existiu de fato. Como “ícone”, por conta dos seus aspectos tecnológicos, o registro fotográfico é a comprovação documental da aparência e da semelhança que o objeto/assunto tem com a imagem. Apesar disso, a fotografia não deixa de ser um produto elaborado por meio de um processo criativo, no caso, do fotógrafo, que tem o seu próprio repertório técnico, estético e cultural.

O autor também retoma os conceitos de primeira e segunda realidades, de realidade interior e exterior. A primeira realidade é a história particular do objeto/assunto independente do registro fotográfico. O momento em que esse registro é feito também possui uma história que não está visível na fotografia, entendida como realidade interior. A segunda realidade é o objeto/assunto contido nos limites bidimensionais da fotografia, em dado espaço e tempo, que não se modificará mais. Temos acesso a essa realidade exterior que por ser fruto do imaginário do fotógrafo não representa necessariamente a verdade histórica, tornando-se um registro passível de muitas interpretações por parte do receptor, que também possui seus próprios filtros culturais, morais, éticos, entre outros.

Imagem de Guilherme Gaensly presente no livro

Na segunda parte do livro, “Decifrando a Realidade Interior das Imagens do Passado”, Kossoy trata do cartão-postal e de suas possibilidades como meio de correspondência e entretenimento muito utilizado na transição do século XIX para o XX. No Brasil, o autor destaca as imagens do fotógrafo Guilherme Gaensly, que registrou a cidade de São Paulo em um período de crescimento acelerado, devido à expansão da economia cafeeira. Tais registros rodaram o mundo através de cartões-postais, apresentando uma parte da cidade que propagandeava o modo de vida burguês das elites paulistas. Nota-se, assim, uma ausência de fotos de bairros operários da época e raros registros do comércio popular, alguns deles feitos pelo italiano Vicenzo Pastore.

Na sequência, são abordados outros exemplos de construção da imagem do país, como os retratos do imperador D. Pedro II e da Imperatriz Tereza Cristina, feitos em cenários no interior do estúdio, onde a colocação de uma vegetação abundante pretendia comunicar a existência de uma “civilização nos trópicos”. Ainda sobre a construção dessa imagem de país civilizado, o autor resgata a história do Álbum de vues do Brésil, editado pelo Barão do Rio Branco, constituído por noventa e quatro imagens, sendo parte delas reproduções de fotografias e outra parte de desenhos litografados a partir de fotografias. Entre as imagens selecionadas para representar o Império do Brasil, nota-se a predileção pelas paisagens urbanas e naturais, com pouca presença humana, tampouco de índios e negros.

A terceira e última parte, que dá nome ao livro, é um alerta para questão da preservação do patrimônio fotográfico, que proporciona descobertas e inibe o esquecimento de períodos importantes da história. Outro ponto relevante diz respeito à própria interpretação desse tipo de documento, que não será neutra, visto que o historiador também possui suas concepções ideológicas, preconceitos e interesses, sendo preciso um esforço intelectual para compreender a realidade própria do objeto/assunto registrado, assim como da realidade que o envolvia no tempo e no espaço. Por fim, o autor compartilha uma constatação inquietante para os pesquisadores, a de uma realidade sintética, gerada por computação gráfica. Uma realidade que pode nunca ter existido, considerando as infindáveis condições de manipulação eletrônica das imagens, as já existentes e as que estão por vir.

*Historiadora, designer de interiores e mestre em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

Conheça outras obras de Boris Kossoy

A leitura nas lembranças de infância de Marcel Proust

Maria Schtine Viana*

Sabe-se que a memória, tanto voluntária como involuntária, permeia toda  a criação literária do escritor francês Marcel Proust (1871-1922). Confinado em um quarto, quase sem contato com o mundo exterior, o conjunto de romances que recebeu o título geral  de Em busca do tempo perdido foi escrito a partir de suas recordações, como se a vida só tivesse sido vivida para ser posteriormente escrita.

São também fragmentos da memória de infância que Marcel Proust utiliza para escrever o ensaio Sobre a leitura, em 1906, três anos antes de dar início à realização da grande obra que o imortalizaria como romancista. Pode-se afirmar, então, que nesse ensaio já fica evidente a importância das recordações como base seminal de toda obra literária proustiana, escrita posteriormente.

O texto foi produzido originalmente como prefácio para uma das conferências proferidas pelo ensaísta inglês John Ruskin, em 1864, quando da criação da Biblioteca do Instituto de Rusholme, reunidas em livro intitulado Sésamo e lírios, obra traduzida por Marcel Proust. Isso talvez explique o teor bastante ufanista e didático do texto de Ruskin, que não por acaso usa a expressão “Abre-te Sésamo”, palavras mágicas utilizadas pelas personagens do conto Ali-bá-bá e os quarenta ladrões para abrir a gruta onde se escondiam preciosos tesouros, como uma analogia à importância da leitura na formação de crianças e jovens. A leitura seria, então, uma espécie de “Abre-te Sésamo” por meio do qual abrir-se-ia uma passagem secreta, que daria acesso a tesouros ainda mais valiosos que o ouro e a prata.

O escritor Marcel Proust

Portanto, faz todo sentido que para escrever seu prefácio Marcel Proust busque em suas lembranças de infância como leitor elementos não apenas para apresentar as ideias de Ruskin, mas para, em certa medida, debatê-las. As recordações de um dia de férias, desfrutado na casa dos tios-avós, rememoradas vinte anos depois, são o ponto de partida das reflexões proustianas. Por meio da memória, o escritor não apenas narra os fatos ocorridos, como também descreve com precisão três situações que mostram o menino que fora um dia a atuar como leitor.

Chamaremos de primeiro ato de leitura aquele que tem como cenário a sala de jantar. Cerca de duas horas antes do meio-dia, o menino Proust regozija-se com a ideia de ter para si como companhia durante a leitura apenas os objetos que compõem a mesa e como barulho somente o acalentador ritmo pendular do relógio. Alegria que dura pouco, os coadjuvantes entram em cena, quer seja a exigir uma resposta curta, como a dada à cozinheira; quer seja para perturbar com burburinhos o silêncio que reinava. Como se não bastasse, os que voltam mais cedo do passeio determinam que o horário da refeição, prevista para o meio-dia, fosse antecipado, obrigando o leitor a fechar o livro.

O segundo ato de leitura ocorre logo depois do almoço. O cenário agora é o quarto, espaço privado por excelência, para onde nossos olhos leitores são conduzidos na esperança ver o menino Marcel finalmente degustar as páginas que leva consigo. Todavia nada nos é revelado sobre o volume que tem nas mãos. Vários parágrafos são dedicados à descrição detalhada do ambiente, tendo como ponto de partida o desejo de fechar uma janela para ter mais privacidade. Além da minuciosa descrição desse quarto da infância, segue-se uma longa reflexão, bem ao estilo proustiano, sobre a importância do quarto, não deste quarto, onde poderíamos vê-lo a ler, mas outro, o imaginado, desprovido de intimidade, onde tudo inspiraria a criação.

Podemos chamar de terceiro ato de leitura aquele que acontece ao cair da tarde. O cenário agora é o parque, onde o pequeno leitor encontra refúgio em uma alameda. Distante de todos, nesse lugar aprazível, onde até a voz daqueles que gritam seu nome parece não conseguir alcançá-lo, a fruição literária poderia finalmente ocorrer. Todavia nossa atenção é levada habilmente para um outro tempo e lugar, de novo impera a imagem do quarto. Espaço não só de leitura, mas também de insônia. Diga-se de passagem, a dificuldade de dormir também é tema recorrente na literatura proustiana. Ali, e não na cena rememorada anteriormente, ao chegar ao fim da leitura de um romance, Proust nos apresenta algumas reflexões sobre a leitura propriamente dita, muito embora ainda não saibamos o título do livro que tanto o absorvera durante aquele longínquo dia de férias.

Portanto, todas as evocações da memória, inclusive as reflexões decorrentes dessas lembranças, que por sua vez também são reminiscências, são utilizadas para contestar a ideia geral de que a leitura teria um papel fundamental na vida das pessoas, teoria postulada por Ruskin. Assim sendo, as cenas de tentativa de leitura descritas durante um dia de férias foram usadas para demonstrar não a importância da leitura na formação do caráter, como defendido pelo crítico inglês, mas o quanto a encenação do ato de ler foi usado como estratégia para afastar o menino leitor que fora das experiências reais, que, portanto, deixaram de ser vividas. A angústia da busca pelo tempo perdido aqui já é latente.

O livro “Proust, Poeta e Psicanalista” analisa clássicos como “Em Busca do Tempo Perdido”

Se para Ruskin a leitura seria uma espécie de conversação com homens mais sábios do que poderíamos encontrar no mundo real, todo jogo de imagens criado por Proust quer justamente nos mostrar que a leitura o afastou do contato real com as pessoas amadas e que o trabalho do leitor começa quando se chega ao fim de uma obra. Nesse sentido, o que difere essencialmente o livro de um amigo, não é o fato de o livro conter muita ou nenhuma sabedoria, mas a maneira como cada leitor recebe e processa o texto lido a partir das próprias experiências de vida.

A grande maestria de Proust ao construir seu ensaio está justamente em nos conduzir como leitores, alimentando nossa curiosidade sobre o que afinal está o garoto a ler. O escritor nos faz espreitar a personagem por ele criado a partir de lembranças reais, em diferentes cenários, e adia, propositalmente, essa revelação. Portanto, não apenas o ato de ler é instaurado como uma espécie de performance nesse ensaio-prefácio, como habilmente o autor nos faz participar dessa espécie de jogo cênico, no qual não somos apenas leitores, mas também coadjuvantes, que durante a encenação tentam descobrir o que a personagem tentava avidamente ler.

A revelação só nos é dada depois das inúmeras encenações da tentativa do ato de leitura. Além disso, a terminar o livro, que na verdade fora um pretexto para afastá-lo das situações socias reais, constata ele ter sido vítima de uma armadilha, pois, com exceção de uma mera frase, que o fizera realmente ter uma espécie de iluminação, todo o resto do livro O capitão fracasso, de Théophile Gautier, não passava de um acúmulo de descrições chatas e irrelevantes.

William Shakespeare

O exigente leitor não esperava apenas uma história, mas sim que o grande sábio romântico lhe revelasse o que deveria pensar sobre outros escritores, como Shakespeare, Sófocles, Silvio Pellico ou Eurípides. Além do mais, queria ele que o autor lhe concedesse uma chave que pudesse ajudá-lo não apenas a compreender o mundo literário, mas também a tomar decisões práticas no mundo real.

Ao término do texto ficamos nós também à espera de uma resposta sobre para que serve realmente a leitura. Resposta que tampouco Proust realmente nos oferece. Mas por certo ao descrever essas situações de encenação do ato de leitura, na tentativa de provar que a leitura não substitui a experiência de vida propriamente dita, mas pode, como uma espécie de estimulante tirar alguns espíritos preguiçosos do estado de letargia, provocou em mim, não apenas profundas reflexões, como suscitou algumas memórias da leitora voraz que fui quando menina. Isso comprova uma das hipóteses defendidas neste ensaio-prefácio pelo escritor francês: a leitura é fundamental justamente porque o trabalho reflexivo realmente começa quando fechamos o livro.

Conheça mais sobre a obra de Marcel Proust

 

*Nasceu em Carangola, Minas Gerais. Viveu alguns anos de sua juventude em Belo Horizonte para estudar Artes Cênicas. Depois, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou durante muitos anos como editora. Atualmente, mora em Portugal e é doutoranda no Departamento de Estudos Estudos Portugueses, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Escreveu os livros Silêncios no escuro (Ateliê), História e Geografia do Nordeste (FTD), A lenda dos diamantes e outras histórias mineiras (Scipione), Festa no céu (Positivo), Asa da Palavra: literatura oral em verso e prosa (Melhoramentos), Um estudo sobre as obras clássicas de viagens e aventuras, Um estudo sobre as fábulas e os contos de fadas (Eureka), entre outros.

Conheça mais sobre a obra de Maria Schtine Viana 

Ler livro, ser livre (a importância da leitura na formação do jovem leitor)

Por Renata de Albuquerque

Em abril, celebra-se o Dia Internacional do Livro Infantil. Para falar sobre a importância da leitura para crianças, o Blog da Ateliê entrevistou Marise Hansen. Ela é Professora de Literatura e subcoordenadora de Português no Colégio Bandeirantes. Mestre e doutoranda em Literatura Brasileira – USP, é autora de “Porta-retratos” e responsável pela apresentação e notas da edição de “A Ilustre Casa de Ramires”.

Qual a importância da leitura na infância?

Marise Hansen: A leitura na infância é tão importante quanto o se alimentar e o brincar. Estimula a imaginação, incrementa o repertório cultural, desenvolve a empatia. São histórias de “outros”, mas que a criança consegue imaginar como suas, guardado o limite de segurança da representação ficcional, e “viver” experiências e sentimentos que, do contrário, não viveria. Uma criança que lê tende a tornar-se um adulto mais empático, porque só a leitura propicia um “viver outra vida”, o ver o mundo sob outros olhos.

A partir de qual idade já se pode estimular esse hábito?

MH: Por experiência própria, porque fiz isto com meus dois filhos, penso que se deva estimular esse hábito desde a idade de meses. Quando o bebê já consegue segurar objetos, os livros devem ser colocados em suas mãos, e toda hora é hora de folhear páginas, imaginar situações e histórias, ver o mundo representado: na troca de fraldas, no banho (com os livros de plástico). Se o bebê leva o livro à boca, sem problemas, é seu modo de apreendê-lo, faz parte da fase oral. Aos poucos ele vai descobrindo que pode “devorar” o livro sem ser literalmente. Mas já está dado o primeiro passo para a familiaridade da criança com os livros. O primeiro presente que faço questão de dar aos filhos recém-nascidos de amigos é um livro, de pano, plástico, ou cartão grosso.

Como estimular o hábito da leitura? 

MH: Continuando a resposta anterior, o hábito da leitura deve ser estimulado desde cedo. A manipulação do objeto livro é fundamental, o bebê se diverte, sente prazer ao ver figuras e ouvir a voz dos pais se referindo a elas, contando uma história. Sem dúvida, a leitura em voz alta para a criança de qualquer idade é um momento decisivo, até “sagrado”, eu diria. Nada melhor do que silenciar uma TV e ouvir a apenas a voz do contador de histórias, ou contadores, porque as crianças muitas vezes participam ativamente da narração, seja perguntando, comentando, complementando ou até “corrigindo” a história! Comentam as ilustrações, o enredo, os valores envolvidos. Trata-se, portanto, de um momento em que se dão, simultaneamente: aproximação física e emocional com a criança; estímulo da imaginação a partir de tudo o que a história sugere, ou diz sem dizer integralmente; estímulo da percepção visual, com as ilustrações, e da auditiva, com a ênfase no dizer e no pronunciar. A meu ver, tudo isso junto é responsável por desenvolver na criança um tipo muito particular de inteligência, que costumo chamar de “inteligência poética”.

A escola estimula a leitura, mas por outro lado, como existem as “leituras obrigatórias”, muitas crianças e adolescentes acabam por não ter o hábito da leitura. O que os adultos (pais, professores, responsáveis, familiares) podem fazer para diminuir essa sensação de obrigatoriedade?

MH: Acho que deve haver quem mostre ao jovem leitor a pertinência e a atualidade das obras “obrigatórias”, via de regra, as “clássicas”. Se há quem as apresente, leia com eles (filhos, alunos) as páginas iniciais (normalmente, as mais difíceis, pois são a entrada num universo novo, inclusive quanto à linguagem), discuta algumas ideias, eles acabam se interessando, sim, a despeito da obrigatoriedade. Se você apenas “manda” ler, por exemplo, o Auto da barca do inferno, de Gil Vicente, obra de 1517, é uma coisa; se você lê trechos com os alunos, explorando a sonoridade do texto, o humor das falas e a atualidade dos temas (corrupção, preconceito, prepotência da elite), é outra, muito diversa. Algo que tem tido êxito na escola em que trabalho é associar a leitura dos clássicos a obras contemporâneas, compará-las, aproximá-las, identificar o conteúdo comum às questões humanas, independentemente da época em que foram escritas.

Os livros paradidáticos podem contribuir para que crianças cultivem o hábito da leitura? Que livros podem ser oferecidos a cada faixa etária?

MH: Eles não só podem, como devem contribuir para a criação e manutenção desse hábito, desde que lidos de modo significativo, compartilhado. O professor deve atuar como um mediador das leituras e discussões, não como alguém que “manda” ler para apenas fazer perguntas, fazer uma prova, verificar a leitura, o que até pode ser feito, mas não como objetivo primeiro. Na primeira infância devem ser oferecidos inicialmente os livros coloridos, bem ilustrados, com histórias simples, poucas personagens e cenas estimulantes, depois as fábulas e contos de fada, que tratam de valores, medos, emoções a partir de um universo fantasioso. Depois de consolidada a alfabetização, pode-se partir para os livros de aventura, e então para os que tratam do cotidiano de pré-adolescentes e adolescentes, ou biografias, que abordam conflitos, dilemas, tomadas de decisão.

Os professores que, por dever curricular, precisam trabalhar os clássicos em sala de aula, muitas vezes encontram uma barreira: os alunos não entendem o vocabulário (por conta da data em que os clássicos foram escritos) ou ficam resistentes ao conteúdo. Como lidar com esta situação e em vez de criar uma barreira, fazer com que os alunos possam aderir e entender a importância desses livros?

MH: Como diz Ana Maria Machado: “Clássico não é livro antigo e fora de moda. É livro eterno que não sai de moda”. O primeiro passo é o próprio professor se convencer disso. Se ele mesmo está convencido da atualidade e do sentido que a leitura de determinado clássico pode fazer, ele apresenta o livro como um verdadeiro convite, uma oportunidade, e não como uma obrigação. Se “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, de acordo com Ítalo Calvino, o aluno tem de ser estimulado, até desafiado, a atualizar seu sentido: como a sua leitura pode extrair do clássico aquilo que ele ainda não disse? Os alunos costumam apresentar hipóteses surpreendentes de leitura, quando se aborda o clássico sob essa perspectiva.

Conheça a obra de Marise Hansen

Gramática integral e para todos

Mesmo quem gosta de estudar português nem sempre gosta de gramática. As preferências por vezes recaem sobre literatura ou redação, talvez porque gramática seja considerado um aspecto mais teórico e complexo da língua. É exatamente isso que o professor  Antônio Suárez Abreu procura desmistificar na Gramática Integral da Língua Portuguesa. A seguir, ele explica porque esta é uma gramática diferente:

Por que o título “Gramática Integral”?  Qual foi sua intenção ao dar esse título para a obra?

Antônio Suárez Abreu: Esse título surgiu pelo fato de minha gramática anterior ter sido denominada de Gramática Mínima.  Aquela gramática tratava apenas de temas essenciais para quem queria escrever bem, como concordância, regência, colocação, pontuação.  A atual Gramática Integral é completa.  Trata de Fonética e Fonologia, formação das palavras e estuda, de maneira mais aprofundada, cada uma das classes de palavra.

O subtítulo é “Uma Visão Prática e Funcional”. Pode explicá-lo aos leitores do Blog? Qual a razão desse subtítulo?

ASA: A gramática é prática e funcional, porque procuro mostrar para que serve tudo aquilo que se estuda numa gramática.  Um bom exemplo é a maneira como trabalho com os substantivos abstratos.  As gramáticas que existem no mercado, sobretudo as escolares, tratam esse assunto em três ou quatro linhas apenas, dizendo que os substantivos abstratos nomeiam ações, qualidades, estados e sentimentos fora dos seres a que pertencem, como viagem, beleza, estrago e amor.  Só isso!   Eu procuro mostrar que esses substantivos são derivados de verbos e adjetivos e têm uma importante função prática que é recuperar o conteúdo de uma frase anterior, na frase que vem depois.  Imagine que eu diga algo como:

 

O ECAD, em 2015, exigiu da produção da peça “Querido Brahms” – que usava músicas de alemães mortos no século XIX –  formulários preenchidos com o CPF ou o CNPJ de Johannes Brahms e Robert Shumann.   Essa exigência atrasou em dois meses a estreia da peça.

 

O substantivo abstrato exigência (derivado do verbo exigir), retoma, na segunda frase, todo o conteúdo da frase anterior.  Se eu quiser, posso também utilizar o substantivo abstrato insensatez, derivado do adjetivo insensato, dizendo:

 

O ECAD, em 2015, exigiu da produção da peça “Querido Brahms” – que usava músicas de alemães mortos no século XIX –  formulários preenchidos com o CPF ou o CNPJ de Johannes Brahms e Robert Shumann.   Essa insensatez atrasou em dois meses a estreia da peça.

 

Veja que, nessa segunda versão, além de retomar a frase anterior, eu uso o substantivo abstrato para julgar também a ação do ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos autorais), desqualificando-a.

Antônio Suárez Abreu

Sua abordagem na obra é sistêmica, colocando o uso da gramática em um contexto de uso. Pode explicar ao leitor que ainda não conhece o livro o que isso significa? 

ASA: Procurei mostrar ao leitor como, no uso da linguagem, as pessoas trabalham, de modo inconsciente, com processos cognitivos ligados ao corpo e aos sentidos, com destaque para as imagens.  Por que eu posso dizer algo como: Esses drogados são uma desgraça –  em que sujeito e predicativo são substantivos –  sem fazer concordância nominal?  Afinal, drogados está no masculino plural e desgraça, no feminino singular!  E por que não posso fazer o mesmo, dizendo algo como: Minhas irmãs são professor, se aqui também sujeito e predicativo são substantivos?   Bem, eu procuro mostrar que, se o falante não consegue formar em sua mente uma imagem de um desses termos ou dos dois, não há necessidade de concordância nominal.  Afinal, na primeira frase, embora possamos formar a imagem de drogados, não podemos formar a imagem de desgraça, que é uma palavra abstrata.  Já, na segunda frase, podemos formar tanto a imagem de irmãs quanto de professor; então temos de fazer a concordância, dizendo: Minhas irmãs são professoras.

 

Por falar em contexto de uso, as mensagens de texto em celulares e as redes sociais (principalmente o Whatsapp) fizeram surgir uma escrita diferente da normativa, cheia de abreviações e usos que estão longe do cânone tradicional.  O que você tem a dizer sobre isso? 

ASA: A escrita das redes sociais e a do Whatsapp costumam ser feitas – de modo abreviado ou não – no chamado registro informal, ou coloquial, que é diferente do registro formal, empregado quando fazemos uma conferência ou escrevemos um texto científico.  Um registro não interfere no outro.  Em tempos passados, muita gente também achava que a linguagem das revistas em quadrinho, fartamente lidas pelos adolescentes, influiria no uso da norma culta, coisa que nunca aconteceu.

 

O que o motivou a escrever esse livro? Quanto tempo demorou para escrevê-lo?  Qual foi o capítulo mais trabalhoso e complexo?

ASA: Há muito tempo que faço pesquisas em linguística cognitiva, apresento trabalhos sobre o assunto em congressos nacionais e internacionais e oriento dissertações e teses dentro dessa linha, no Programa de Pós-Graduação da UNESP.  Coordeno também, há uns oito anos, um grupo de pesquisa chamado Grupo de Pesquisa e Estudo em Linguística Cognitiva, cadastrado no CNPq, (o GEPELIC), com reuniões mensais e apresentação de excelentes resultados em encontros científicos.   Ano passado, estivemos presentes em congressos no Brasil, na Alemanha, e até mesmo na Croácia.  Todas essas pesquisas vêm sendo utilizadas com grande sucesso na modernização do ensino de línguas por mim e pelo meu grupo.

A ideia de escrever esse livro foi a de dividir com todos os colegas do país o resultado desse trabalho.  Fazer que as ideias criativas surgidas no decorrer de todas essas pesquisas possam servir para melhorar o entendimento e o ensino da língua portuguesa, a partir daquilo que já se está fazendo agora em países cujo nível de educação está a anos luz do Brasil.  Demorei mais de dez anos para finalizar o livro.  O capítulo mais trabalhoso foi o de Fonética e Fonologia, pois trata de um tema que o público costuma achar bastante indigesto.  Por isso, tive de procurar uma forma de linguagem mais simplificada e exemplos mais acessíveis.  Acho que o resultado ficou bastante bom.

 

Como foi a pesquisa para elaborar essa sua “Gramática”? Alguma outra gramática o inspirou ou ajudou-o a traçar o caminho para chegar no resultado desejado? 

ASA: Bem, eu acredito ter lido quase todas as gramáticas do português, daqui e de Portugal, até mesmo as mais antigas, como a do Jerônimo Soares Barbosa. Mas o que me inspirou mesmo foi a leitura de livros como The way we think, de Fauconnier e Turner, um clássico sobre integração conceptual, que me ajudou entender melhor por que podemos dizer coisas como Cenoura é bom para a vista, interpretando cenoura como um conceito e fazendo a concordância do adjetivo bom não com cenoura, mas com um evento implícito de que ela faz parte, numa frase como: [Comer cenoura] é bom para a vista.  Outras leituras que me ajudaram muito foram livros como Louder than words, de Benjamin Bergen, que trabalha com imagens, e Language, usage and cognitition da Joan Bybee, que trabalha com a questão das expressões formulaicas que nos fazem fazer perguntas como: Onde é que você guardou as chaves, em vez de simplesmente dizer: Onde você guardou as chaves.  A lista é enorme e inclui muitos dos meus trabalhos apresentados em congressos.

 

Por que, em sua opinião, essa é uma gramática diferente de outras?

ASA: É uma gramática diferente das outras, por dois motivos.  O primeiro deles é que, em vez de simplesmente copiar aquilo que havia de melhor nas gramáticas em uso no país, pude pôr em prática, ao descrever problemas gramaticais, estudos recentes que mudaram os paradigmas tradicionais de estudo da língua.  O segundo motivo é que procurei redigir meu texto em uma linguagem simples, bastante acessível, bem diferente do “juridiquês gramatical” que já se tornou padrão no país.

 

Conheça as obras de Antônio Suárez Abreu