Renata Albuquerque

Octávio Brandão: pioneiro marxista no Brasil

Octávio Brandão é um nome muito conhecido dos pesquisadores brasileiros que se debruçam sobre a política do início do século XX. Comunista de primeira hora, o intelectual alagoano foi ativista e militante, sendo pioneiro na difusão do marxismo no Brasil. Ele escreveu obras importantes – mas pouco lidas – como Agrarismo e Industrialismo, Canais e Lagoas, Veda do Mundo Novo e Rússia Proletária. Em Octávio Brandão e as Matrizes Intelectuais do Marxismo no Brasil, Felipe Castilho de Lacerda vai além da biografia do alagoano e traz ao público um estudo sobre a obra desse intelectual. A seguir, Lacerda fala sobre seu novo livro ao Blog da Ateliê:

Qual a importância de Octávio Brandão para a história política do Brasil?

Felipe Castilho de Lacerda: Octávio Brandão tem uma grande importância, em primeiro lugar, por ter feito parte do primeiro grupo dirigente do Partido Comunista do Brasil, fundado em 25 de março de 1922 – mesmo que esse primeiro grupo dirigente considerasse, por vezes, a data fundacional do partido o dia 7 de novembro de 1921, quando se fundou o Grupo Comunista do Rio de Janeiro, que alimentou a ideia de fundar o Partido Comunista alguns meses mais tarde. Esse fato é essencial, porque o Partido Comunista foi a agremiação mais longeva da história do país, tendo papel fundamental na cultura, na política e na formação intelectual do Brasil. Octávio Brandão também exerceu um papel de destaque por ter redigido e publicado aquela que é considerada a primeira interpretação marxista da realidade brasileira, o livro Agrarismo e Industrialismo – ainda que eu reforce em meu trabalho que o mesmo autor já esboçara uma tentativa de interpretação dessa mesma realidade em um livro anterior, publicado em 1924, intitulado Rússia Proletária. De toda forma, essa questão também é capital, e isso por dois motivos. Em primeiro lugar, porque o ideólogo do PCB tornou-se o iniciador brasileiro de uma grande cultura de pensamento, que foi o marxismo, ou melhor, os diversos marxismos que fincaram raiz na tradição intelectual brasileira. Em segundo lugar porque, a partir dos contatos de Octávio Brandão e de seus correligionários de partido – principalmente figuras como Astrojildo Pereira, Paulo e Fernando de Lacerda, Rodolfo Coutinho, Antonio Bernardo Canellas, Everardo Dias, entre outros –, com a direção da Internacional Comunista, ele se colocou a tarefa de produzir uma interpretação da realidade brasileira que guiasse os passos de sua agremiação rumo à transformação social. Isso é fundamental para a história das esquerdas ao longo de todo o século XX. A importância que aquelas e aqueles militantes davam para uma relação íntima entre teoria e prática foi fundacional para a história das esquerdas, e talvez mesmo para toda a história das relações entre intelectualidade e política no século que acabamos de deixar para trás. É preciso lembrar que toda a reflexão política no Brasil dos anos 1910-1920 era baixíssima; mesmo as classes dominantes, com toda a estrutura que sempre têm à sua disposição, não fora, antes do PCB, capaz de elaborar um programa que alimentasse suas organizações; por isso mesmo os partidos na Primeira República eram todos fisiológicos e regionais, organizavam apenas grupos de interesses imediatos e não tinham produção ideológica propriamente dita. O PCB de Astrojildo Pereira e Octávio Brandão fundou uma nova cultura política no país, a qual se tornaria espécie de espelho para todas as outras agremiações, independente de sua tendência ideológica.

Felipe Castilho de Lacerda

Por que se interessou em estudar a biografia e o trabalho intelectual de Octávio Brandão?

FCL: Dois motivos que me dirigiram à trajetória de Octávio Brandão foram os principais: em primeiro lugar, eu estava ainda na graduação em História na USP e comecei a estudar o tenentismo. Em dado momento, cujo ano não me recordo mais, assisti a uma palestra do intelectual Milton Pinheiro, que citava um certo livro, escrito por um comunista alguns meses após a Revolução Paulista de 1924, que buscava interpretá-la por meio de uma tentativa de apropriação do marxismo. Tratava-se justamente da obra de Octávio Brandão, Agrarismo e Industrialismo, publicada, por fim em 1926. Pensei, é óbvio, “preciso ler esse livro!” Mais tarde, comecei a estudar História do Livro com a grande especialista nessa área, Marisa Midori Deaecto, que se tornou a minha grande mestra em todos os aspectos da carreira e da vida. A simultaneidade dos dois acontecimentos me fez pensar: “Ora, Agrarismo e Industrialismo é um livro, não é?!” E decidi, assim, entrar na história política das e dos comunistas brasileiras (os) pelos métodos indicados pela História do Livro, da Edição e da Leitura.

A partir daí, comecei a ler e ler… e me encantei com a trajetória daquele filho de Viçosa das Alagoas, que buscara escrever uma espécie de Os Sertões, de Euclides da Cunha, voltado para o espaço geográfico e social de sua terra, de onde nasceu o livro Canais e Lagoas, lançado no Rio de Janeiro em 1919. Fugido da perseguição política, Octávio Brandão desembarcou no capital federal à época, o Rio, ligou-se ao movimento anarquista, casou-se com um poeta de relativo sucesso, Laura da Fonseca e Silva, que muito jovem, participara de salões literários como o de Olavo Bilac, e publicou diversos folhetos de agitação política anarquista. O anarquismo daqueles anos é algo absolutamente instigante. Mais tarde, Octávio Brandão ligou-se ao grupo de anarquistas que aderiram à ideologia e à organização da Internacional Comunista, dedicou-se à difusão daqueles novos ideias, por meio do que chamavam agitação e propaganda, ou “agitprop” e essa foi certamente uma enorme contribuição de Octávio Brandão. O meu estudo se restringe aos anos 1920, mas em 1931, Octávio Brandão e sua esposa Laura são banidos do Brasil, junto às três filhas, passam pela Alemanha e vão viver na União Soviética, como funcionários da Internacional Comunista. Laura falece em 1942, de câncer, em meio ao esforço de guerra soviética e Octávio Brandão volta mais tarde ao Brasil. Mas o que mais me interessou mesmo foram aquelas produções ideológicas de Octávio Brandão nos anos 1920. Para as estudiosas e estudiosos do comunismo, Octávio Brandão é figura conhecida, mas a imensa maioria não leu de fato seus livros, menos ainda outras obras além de Agrarismo e Industrialismo, quando li obras como Canais e Lagoas, Veda do Mundo Novo ou Rússia Proletária, pensei: “Aqui existe muita coisa que explica o processos intelectual daquele autor que é conhecido por um livro, de escrita bastante simplista, que é Agrarismo e Industrialismo”. Por isso, imaginei que fazer esse estudo voltado para aqueles livros e a trajetória de seu autor “em perspectiva” poderia dar alguma contribuição, mesmo que modesta, para a historiografia política brasileira.

Quanto tempo demorou a pesquisa e quais foram os maiores desafios?

FCL: A pesquisa que resultou no livro Octávio Brandão e as Matrizes Intelectuais do Marxismo no Brasil, publicado pela Ateliê, é fruto de minha dissertação de mestrado, defendida no programa de História Econômica da USP, financiado pela Capes e sob a orientação da professora Marisa Midori Deaecto. Dessa forma, o grosso da pesquisa levou o tempo médio de um curso de mestrado, cerca de dois anos e meio a três anos. Deve ter levado um pouco mais, pois eu já começara antes a coleta de fontes, ainda ao longo da graduação em História, quando realizei uma pesquisa em nível de bacharelado. Talvez cerca de quatro anos. É certo que eu poderia dizer que durou muito mais, décadas mesmo, pois tudo que alguém escreve recebe o espírito da autora e do autor, seu complexo de experiências de uma vida toda.

A coleta de fontes em arquivos com o Edgard Leuenroth, da Unicamp, o Cedem, da Unesp, ou a Biblioteca Edgard Carone, do Museu Republicano Convenção de Itu, extensão do Museu Paulista da USP, e mesmo no Centro de Difusión e Investigación en las Culturas de Izquierdas (CeDInCI), em Buenos Aires, demandou bastante esforço, tempo e paciência, mas foi algo relativamente tranquilo e prazeroso, especialmente pela grande ajuda e amabilidade de todas e todos que me receberam nessas instituições. O maior desafio mesmo foi o de um jovem aprendiz em nível de mestrado aprender a pesquisar e analisar fontes, compreender como recortar e definir muito bem seu objeto, para não se perder completamente diante de uma grande quantidade de fontes coletadas e se desesperar: “O que faço agora com isso?!” Mas esse é o desafio de toda e todo investigador(a) que se inicia nas práticas acadêmicas.

Retrato de Octávio Brandão publicado em seu livro de estreia, Canais e Lagoas, de 1919. Acervo Biblioteca Florestan Fernandes da FFLCH-USP.

Octávio Brandão estudou Farmácia. De que maneira a formação acadêmica influenciou a produção intelectual dele?

FCL: A formação de Octávio Brandão foi marcante; e eu diria em duas esferas diferentes. Ele se formou na Escola de Farmácia do Recife. Não era uma instituição tradicional como a famosa Faculdade de Direito da mesma cidade. Isso significou que ele, apesar de fazer parte de um grupo social com privilégios (já que até 1930, 70% da população brasileira era analfabeta), não passou pelos espaços tradicionais de consagração da intelectualidade nacional. Formou, desse modo, parte de uma espécie de segundo escalão da intelligentsia, o que contribuiu em parte para uma carreira sem grandes reconhecimentos. Seu estudo durou três anos e a escolha foi influenciada por seus familiares (o alagoano era órfão de pai e de mãe desde criança) e possibilitou, acima de tudo, que ele provesse seu sustento com a abertura de boticas farmacêuticas tanto no Nordeste, quanto, mais tarde, no Rio de Janeiro.

Mas também se pode observar sua formação a partir do ponto de vista de outra esfera da existência, a do conteúdo mesmo de suas produções. Com seus estudos, ele se interessou pela História Natural, pela Física, pelas ciências da natureza, em resumo. Logo depois, estudou, de forma autodidata, geologia e mineralogia. Esses fatores marcam sobremaneira sua visão de mundo, seus instrumentos mentais, pois, logo em seguida, ele publicará o estudo que tenta unir “ciência e poesia”, com inspiração declarada e direta a Euclides da Cunha. Mas, o pensamento voltado para as ciências naturais continuará marcando seu pensamento mesmo mais tarde, quando se torna comunista e inicia a empreitada de “conhecer” o marxismo. Basta pensar no tipo esquemático de construção das ideias que o leva a, de Canais e Lagoas a Agrarismo e Industrialismo, conceber os processos sociais a partir do conceito de “ciclos”. Isso é marcante e constitui parcela das matrizes intelectuais de seu pensamento e, por que não?, do marxismo brasileiro em seu alvorecer.

Quais são as “matrizes intelectuais de um pensamento que se forma por camadas e em tempos sincrônicos?”, como escreve Marisa Midori Deaecto no prefácio da edição?

FCL: As principais matrizes intelectuais de Octávio Brandão, as quais, por associação, poderiam ser consideradas as próprias matrizes intelectuais do marxismo brasileiro nos albores, foram aquela espécie de “nacionalismo” em gestação, de matriz cientificista e calcada num forte regionalismo; o que apelidei a herança euclidiana. A cultura política anarquista de fins dos anos 1910 e início dos 1920, quando Octávio Brandão, imerso no movimento libertário do Rio de Janeiro, publicou uma série de pequenos folhetos de defesa do anarquismo; ali, ele constituiu uma matriz de pensamento, compartilhada, aliás, por vários de seus correligionários, que apontava para o que poderíamos chamar uma “romantismo libertário”, com forte inspiração no ideário do grupo francês Clarté, de Henri Barbusse, de negação à modernidade capitalista. Por fim, a marca de sua matriz intelectual no momento de transição da postura anarquista à comunista, foi a apropriação do ideário da Internacional Comunista, seja pelo conjunto de material propagandístico chegado da União Soviética, França, Argentina ou Uruguai – o que chamei a rede mundial de circulação de impressos comunistas –, o que explorei no primeiro capítulo do livro, seja pelo contato direto com a direção da Internacional Comunista, que trocava informações, influenciava as análises e solicitava dados para a construção de um programa para o partido. Este último é um aspecto fundamental, poucas vezes notado e que busquei esclarecer no terceiro capítulo da obra.

O que levou Brandão a militar na esquerda brasileira?

FCL: Várias explicações podem ser buscadas para o engajamento. É certo: nunca sabemos o que leva, de fato, as pessoas à militância por um ideal. Podem ser motivos da ordem da tradição familiar, aspectos éticos e morais, acasos na vida… além do mais, toda e todo memorialista, ao apresentar os caminhos percorridos na vida, encontra um ou vários momentos que marcaram sua formação. Octávio Brandão assim o faz em seu livro de memórias, Combates e Batalhas. Mas tendo a acreditar que o que une a todas e a todos que se atiram no ativismo esteja no nível dos sentimentos, pois compartilha-se, apesar das infinitas divergências no seio dos grupos e movimentos de esquerda, revolucionários, de luta contra as opressões e explorações, um ódio comum às formas de autoritarismo e injustiça que se observam ou que se vivenciam ao longo da vida, bem como um amor incondicional à justiça e à igualdade. Entre as duas coisas, a crença de que outro mundo é possível, e só é possível por meio da luta.

Qual o legado de sua produção intelectual e como ela se reflete até hoje em nosso país?

FCL: Octávio Brandão deixou uma obra que deve ser vista do ponto de vista da propaganda política. Isso mesmo antes de adentrar o Partido Comunista do Brasil. Sua obra de divulgação anarquista era bastante básica, mas muito interessante para se contar a história do anarquismo brasileiro. Acho que esse é um ponto bem interessante, pois tenho uma forte inclinação para o anarquismo e creio que ainda se pode aprender muito ao se estudar a história dessa tendência do pensamento revolucionário.

Capa de “Canais e Lagoas”

Mas sua obra de estreia, Canais e Lagoas, e também sua produção após à adesão ao comunismo também possuem importância. Naquela obra de estreia, o alagoano já falava sobre a importância do petróleo e a ação do imperialismo com vistas a colocar as mãos nas jazidas que ele julgava existirem naquele momento. Hoje, o entreguismo da elite que se apossou do governo após o golpe de 2016 e as eleições tragicômicas de um candidato (hoje presidente), que não pode abrir a boca em público, pois seus próprios aliados sabem que dali não pode sair nada de bom, voltam, uma vez mais, a entregar ao capital estrangeiro as riquezas naturais de um país cuja população parece aceitar de bom grado falsas soluções para sua miséria real.

O que podemos aprender com a obra de Octávio Brandão e como ela pode ser lida no Brasil de hoje, que elegeu Jair Bolsonaro? De que maneira a obra de Brandão nos ajuda a entender esta realidade?

FCL: Quando penso no legado ou no que se pode aprender com a obra de Octávio Brandão, creio que se deve expandir um pouco a concepção que temos de obra. Pois o que meu trabalho buscou demonstrar é que a produção intelectual de Octávio Brandão era de fato bastante básica, mas que suas características possuíam um sentido no conjunto do contexto político e intelectual do momento em que foi produzida. Assim, para além de alguns ensinamentos que podem vir da leitura de seu livros – como a caracterização de mesquinha elite colonizada de nosso país ou o papel do imperialismo em uma região que vive à sombra da posição geopolítica dos Estados Unidos da América –, sua principal contribuição foi em termos da propaganda política e do que os comunistas chamavam de agitação e propaganda. Isto é, do esforço em divulgar seus ideais e investir o sangue e o suor na formação política daquelas e daqueles que decidem, por motivos os mais diversos, lutar do seu lado da trincheira. O governo de Jair Bolsonaro, e da elite fardada que tenta guiá-lo e adestrá-lo na arte da opressão política e social, se é risível em suas manifestações no espaço público, comporta apenas um riso de canto de boca, pois se trata do conluio do que há de pior em toda a formação histórica brasileira: o entreguismo neoliberal de uma elite colonizada e o escravismo brutal das elites e classes médias, que não são capazes de ver a gente explorada e oprimida ter sequer uma migalha para confortar o estômago dolorido de fome, preferindo jogar a nação do desfiladeiro e vê-la afundar num lamaçal infinito.

Talvez a obra de Octávio Brandão, entendida nesse sentido lato, possa nos ajudar a compreender que haverá sempre mulheres e homens dispostos a se atirar contra a escravocracia brasileira de longuíssima duração, pois seu futuro pessoal, o de todo o país e, em última análise, o da humanidade, depende da destruição do parasitismo elitista.

Nesse contexto, é compreensível que, apesar da espera repressão político-ideológica que nos ameaça dia a dia, o interesse pelo marxismo venha se renovando. Nessa esteira, a curiosidade pelas matrizes intelectuais do marxismo brasileiro podem ser um item de interesse para intelectuais, estudantes, militantes e todas e todos que se interessem pelo pensamento realmente crítico. Se assim for, a obra de Octávio Brandão certamente terá lugar nas estantes dessas pessoas e poderá propiciar alguns ensinamentos.

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Março é mês de poesia!

Quem ama ler, lembra: março é mês da poesia. Mas você sabe por quê o terceiro mês do ano é considerado o mais poético deles? A razão é que em março são comemoradas duas datas tradicionalmente ligadas à poesia. Até 2015, no dia 14, era comemorado o Dia Nacional da Poesia. E, até hoje, o dia 21 de março é o Dia Mundial da Poesia.

Foi em 1999 que a XXX Conferência Geral da UNESCO determinou que 21 de março fosse considerado o Dia Mundial da Poesia, em uma ação para apoiar a diversidade de línguas existentes no mundo por meio da expressão poética.  Desde então, a data é celebrada pelo mundo afora.

Já o dia 14 de março é a data de aniversário de Castro Alves, poeta romântico brasileiro, nascido em 1847, muito conhecido por sua produção poética ligada a temas como o abolicionismo e crítica social, que marcaram a Terceira Geração do Romantismo Brasileiro. Para o crítico Afrânio Peixoto, ele foi “o maior poeta brasileiro, lírico e épico”, o que por si só já justificaria a escolha da data. Castro Alves escreveu, entre outros, Espumas Flutuantes, sua obra lírica mais significativa. Entretanto, em 2015, foi sancionada a Lei 13.131, que institui como 31 de outubro o Dia Nacional da Poesia, em homenagem à data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.

Qualquer que seja a data, entretanto, de uma coisa a gente tem certeza: poesia é fundamental para a vida. Por isso, hoje, fazemos uma seleta de poemas aqui, no Blog da Ateliê:

O “adeus” de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus

E amamos juntos E depois na sala

“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala


E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .

E da alcova saía um cavaleiro

Inda beijando uma mulher sem véus

Era eu Era a pálida Teresa!

“Adeus” lhe disse conservando-a presa


E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”



Passaram tempos sec’los de delírio

Prazeres divinais gozos do Empíreo

… Mas um dia volvi aos lares meus.

Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!. . . “

Ela, chorando mais que uma criança,



Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”


Quando voltei era o palácio em festa!

E a voz d’Ela e de um homem lá na orquesta

Preenchiam de amor o azul dos céus.

Entrei! Ela me olhou branca surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa!


E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Castro Alves, Espumas Flutuantes

Livro Viva Vaia

DIÁLOGO A DOIS

“A Angústia, Augusto, esse leão de areia…”

(Décio Pignatari)

– A Angústia, Augusto, esse leão de areia Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos E que desdenha a fronte que lhe ofertas

(Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos)

E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos, É o Morto que se fecha em tua pele?

O Expulso do teu corpo no teu corpo? A Pedra que se rompe dos teus pulsos? A Areia areia apenas mais o vento?

– A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro, Esse leão de areia digo este leão

(Ah! o longo olhar sereno em que nos empenhamos, Que é como se eu me estrangulasse com os olhos)

De sangue:

Eu mesmo, além do espelho.

Augusto de Campos, Viva Vaia

ESPELHAR

espelho espelho meu

existe alguém mais

eu

do que

eu

?

Luci Collin, Antologia Poética 1984-2018

III

era o dia em que o sol escurecia pesaroso da morte do Senhor,

quando sem dar por mim, sem nem supor,

teu belo olhar, Senhora, me prendia.

inútil precaver-me parecia

e, desatento aos golpes de amor, segui, de mim seguro: e minha dor

na dor universal assim nascia.

achou-me amor de todo desarmado, aberta a via dos olhos até o peito,

tornado pelas lágrimas num charco.

não parece ter sido grande feito

ferir-me amor com flecha nesse estado

e a ti armada nem mostrar o arco.

Petrarca, Cancioneiro

CIRCE

Porque eu os amava

me encerraram aqui

nesta ilha

neste corpo

Transformo-os

no seu melhor

mas não posso beber

do meu próprio veneno

Por anos esperei

no topo deste penhasco

Ele não voltou:

ensinem-me algo do seu mundo

que eu ainda não saiba

Leila Guenther, Viagem a Um Deserto Interior

Morada

Voltei a escrever para ti

agora que me esqueceste

no intuito de regressar

à esperança que aí me levou,

onde já não moras.

Paulo Lopes Lourenço, Cinematografia

Sem Título

Ser poeta é viver em permanente estado

de(s)atenção

Que importa a luz acesa

a porta aberta

o leite derramando

no fogão?

(mas

o gotejar da torneira:

pulsação)

Marise Hansen, Porta-retratos

Fala D João  3

mais  de pessoa sabe

quem  de peçonha sabe

mocho  a noite  cobreavas

espertando os olhos  da coruja

em pedra  avoenga

meu  gume  afiara

à alva  a cabeça

Évora verá

Hélio Cabral, Fala D. João

Leia mais poesia

Escritoras de livros: literatura para além do Dia Internacional da Mulher

8 de março é Dia Internacional da Mulher. O significado desse dia tem mudado muito, conforme percebemos que as mulheres não precisam (nem devem) ser segregadas como algo à parte da sociedade. Não se trata de comemorar, mas de marcar a importância de promover direitos e igualdade entre homens e mulheres.

Em uma sociedade machista e patriarcal, durante séculos a mulher foi silenciada e colocada em um papel de subserviência. Muitas vezes, restava a elas apenas se expressar em cartas a familiares ou parentes; cartas que muitas vezes nem mesmo chegavam aos seus destinos. Os diários também são um importante documento histórico dessa realidade e, assim, escrever passa a ser uma atividade “consentida” às mulheres, ainda que, mesmo hoje em dia, se nos propusermos a fazer uma lista dos escritores que conhecemos, provavelmente o número de homens será bem maior que o de mulheres. É por isso que hoje o Blog Ateliê se dedica a mostrar alguns dos títulos publicados pela editora que foram escritos por mulheres. Acompanhe:

Antologia Poética – Luci Collin

Esta coedição com a Kotter reúne poemas escritos entre 1984 e 2018. A autora é ensaísta, ficcionista, poeta. Tradutora, professora universitária de Literaturas e Língua Inglesa, bacharel em música (piano e percussão Clássica). Leitora de Jorge de Lima e T.S.Elliot, entre muitos outros. Essa é uma pequena amostra de tudo o que interessa a Luci Collin,  que começou a publicar poesia aos 17 anos e segue, ainda hoje, trazendo sua produção ao público. 

Yaser – Eda Nagayama

Um livro que nasceu da experiência vivida com pessoas, em uma paisagem de guerra. Assim é Yaser, de Eda Nagayama, que alinhava com o fio da ficção a dura realidade da Palestina dos dias de hoje. Eda, que é escritora e atriz paulistana, doutoranda em Estudos Literários (FFLCH/USP), foi voluntária na Palestina, onde se sentia “inimiga por extensão”. Para contar sua experiência, escreveu Yaser. “A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial”, explica a autora.

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes

Casas Importadoras de Santos e seus Agentes – Carina Marcondes Ferreira Pedro

A obra de Carina Marcondes Ferreira Pedro originou-se de uma preocupação em melhor compreender os fluxos de importação de bens de consumo – de objetos domésticos a materiais de construção, de “chita até locomotiva” – que caracterizaram o processo de internacionalização das últimas décadas do século XIX. A opção de pesquisa foi “colocar-se” bem junto à sua entrada na Província, depois Estado de São Paulo, no Porto de Santos. As casas importadoras, que se instalavam estrategicamente nas imediações do Porto, constituíram o “posto de observação” da autora. A ação de seus agentes importadores, o fio condutor que a levou pelos caminhos percorridos. 

Paulinho da Viola e o Elogio do Amor – Eliete Eça Negreiros

O livro apresenta uma reflexão sobre a representação do amor na obra do compositor e sua inscrição no âmbito da tradição do pensamento e da lírica ocidental. Através das canções criadas e cantadas por ele, a autora revisita poetas e pensadores como Safo, Platão, Aristóteles, Montaigne, Freud, Walter Benjamin e Octavio Paz.
Eliete destaca três modalidades do amor na lírica violiniana: o amor breve, o amor melancólico e o amor feliz e vê no aspecto meditativo das canções uma espécie de educação sentimental na medida em que Paulinho da Viola descreve e reflete sobre os estados de apaixonamento.

Viagem a um Deserto Interior – Leila Guenther

“Se a arte não parece ter gênero, as experiências o têm: chegam aos poemas de nossos dias vozes marcadas por um espanto de vida a um tempo estoico e dilacerado, ressurgido de incêndios, vingando um calar histórico. Urro e desprezo podem acalantar a criatura ofendida, as inquietudes podem se abrigar numa forma zen, a paisagem contemplada pode guardar uma guerra dentro. São forças da voz de Leila Guenther, que movem quem a ouça”, escreve Alcides Villaça sobre o livro. 

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel – Élide Valarine Oliver (trad)

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel, o mais radicalmente satírico de toda a obra de Rabelais, reflete, na história de sua publicação, os perigos aos quais o próprio Rabelais se expôs, no fim da vida. Uma primeira edição parcial foi publicada em 1548, em Lyon. Em 1552, sai a edição definitiva, em Paris. Ao mesmo tempo, correm boatos de que Rabelais havia sido levado “acorrentado” à prisão. Nada se prova, mas o famoso médico e escritor desaparece, e morrerá, em circunstâncias desconhecidas, no ano seguinte. Teria presumíveis 70 anos, ou talvez mesmo 59. O livro tem como pressuposto continuar as aventuras do Terceiro Livro, onde Panurge busca resolver a dúvida se deve casar-se ou não.

Silêncios no Escuro – Maria Viana

O primeiro livro que Maria Viana escreveu para adultos quase chegou à maioridade antes de seu publicado. Passaram-se 17 anos desde que a autora mineira – que escreve livros infantis e didáticos e organizou diversas antologias – escreveu o conto que dá título ao volume. A autora relata que só se deu conta de que a morte e o silêncio são os fios condutores de todos os contos do livro Silêncios no Escuro depois de tê-los reunidos. Personagens que não falam habitam histórias que os levam de um extremo a outro (morte e vida; tristeza e alegria), costuradas por uma narrativa escrita por alguém que se define como uma leitora voraz que gosta de “contar histórias”.

“Dom Casmurro” de Machado de Assis

Por Renata de Albuquerque*

“Traiu ou não traiu?”

“Olhos de cigana oblíqua e dissimulada”

“Capitu amava Bentinho?”

É incrível que um romance publicado no fim do século XIX ainda hoje, em pleno século XXI, ainda pareça ser tão popular, ao menos na superfície. Afinal, até quem nunca abriu uma página de Dom Casmurro já ouviu falar em ao menos uma dessas frases. Claro que muito disso se deve  ao fato de que Dom Casmurro, romance de Machado de Assis, publicado em 1899, tornou-se um clássico da literatura brasileira, solicitado em inúmeras provas de pré-vestibular como uma leitura obrigatória – o que o fez obrigatório também no currículo do Ensino Médio, desde que as pessoas escolhiam entre o “Clássico”, “Normal” e “Científico”. Talvez por isso também muita gente não consiga se encantar com a história contada por Bento de Albuquerque Santiago, o Casmurro do título, que na infância era chamado de Bentinho. Afinal,  nada do que é obrigatório parece interessante.  

Mas, por trás dessa obrigatoriedade que o vestibular “exige”, há um livro genial, construído com muita perspicácia, por um autor que faz da ironia sua melhor ferramenta de critica social, que constrói personagens complexos e que pode fazer com que o leitor tenha uma das experiências literárias mais interessantes de sua vida.

Dom Casmurro, que na infância fora chamado de Bentinho, narra o romance em primeira pessoa. Logo no segundo capítulo (depois de explicar o apelido, dado por um poeta) ele explica a razão que o leva a escrever aquele romance: “atar as duas pontas da vida”, rememorando sua existência. Entretanto, logo se vê que o ponto central da narrativa é o ciúme que Bentinho sente por Capitu.

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Bentinho e Capitu

Vizinhos. Assim são Bentinho e Capitu, duas crianças que convivem no Rio de Janeiro, por volta de 1857. Ele, mais abastado, é órfão de pai e mora com a mãe, dona Glória, o tio Cosme, a prima Justina e o agregado José Dias. Capitu, apelido de Capitolina, é filha de Dona Fortunata e Pádua. Capitu e Bentinho tornam-se amigos, mas apesar de nutrirem um sentimento que vai além da amizade, Bentinho é enviado ao seminário, onde conhece Ezequiel Escobar, de quem torna-se amigo. Mais tarde, Bentinho sai do seminário, vai estudar Direito e  casa-se com Capitu. Escobar também se casa com Sancha, amiga de Capitu. Nasce Ezequiel, filho de Capitu – e que Bento Santiago desconfia ser fruto de uma relação entre ela e Escobar (já que o nome da criança é dado em homenagem ao amigo).

O ciúme leva Bentinho a separar-se de Capitu, que vai com o filho para a Europa, onde morre. O filho volta, tenta reatar com Bentinho,  mas também morre. O amigo Escobar morre afogado no mar.

Tantas mortes são a razão pela qual as dubiedades – que tornam o romance tão genial – possível. Com todos mortos, só Bentinho (que narra a história) foi testemunha dela. E, com isso, pode contar o que melhor lhe convier.

A traição de Capitu

A dubiedade que marca o romance (a forma como é narrado, os interditos, a complexidade psicológica de Bentinho e Capitu, o comportamento singular do agregado José Dias)  é a chave para entender que a velha pergunta “traiu ou não traiu?” não é a parte que interessa a Machado de Assis.

Com Dom Casmurro, o escritor constrói uma obra muito maior do que seria se fosse dedicada a levar o leitor a descobrir se houve ou não infidelidade. O grande jogo consiste na chance que o autor dá ao leitor de desconfiar desse narrador (que deixa pistas de sua inconstância e nos dá motivos para tal desconfiança ao longo de todo o romance).

É bom dizer que nem sempre essa dúvida existiu. Apenas em 1960 (portanto mais de sessenta anos depois da publicação da primeira edição de Dom Casmurro), a pesquisadora Helen Caldwell trouxe a público seu estudo O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, em que defende a inocência de Capitu tomando por base indícios do próprio texto machadiano. Tudo isso explica porque Dom Casmurro é um livro imenso, talvez um dos mais importantes da literatura mundial. E ajuda a explicar porque, para além da obrigatoriedade escolar, ele merece ser lido por quem deseja tornar-se um leitor mais experiente, mergulhando nas águas fundas do raro estilo machadiano, cheio de humor e uma fina e aguda ironia, que coloca o leitor no como parte atuante do jogo narrativo.

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*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente

Por: Renata de Albuquerque*

Uma das mais importantes obras do dramaturgo português Gil Vicente – considerado o pai do teatro português – o Auto da Barca do Inferno (ou Auto da Moralidade) foi escrita em 1517 e encenada, pela primeira vez, em 1531. O texto faz parte da trilogia das barcas, composta por esta e por outros dois textos, Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória.

Devido à sua importância histórica para a literatura, o Auto da Barca do Inferno foi escolhido para ser o primeiro título de uma coleção criada pela Ateliê Editorial ainda nos primeiros anos de existência da editora. A ideia da coleção “Clássicos para o Vestibular” era oferecer aos alunos do ensino médio uma edição de qualidade de um livro clássico, que é sempre solicitado nas provas. O livro traz o texto na íntegra, precedido de um texto introdutório que traz análise do enredo, da linguagem, dos personagens, do contexto histórico e do autor. Logo depois, a coleção passou a chamar-se “Clássicos Ateliê”. Afinal, não são apenas os estudantes que merecem ler uma edição bem cuidada de um clássico. Inicialmente, a coleção era coordenada por Ivan Teixeira, professor livre-docente da ECA/USP e professor titular de Literatura Brasileira na FFLCH/USP. Depois do falecimento de seu criador, em 2013, a coleção passou a ser coordenada pelo professor José de Paula Ramos, doutor em Literatura Brasileira pela USP e professor da ECA, da mesma universidade.

Auto da Barca do Inferno

Por ser um auto de moralidade, a peça, de um só ato, é uma alegoria do Juízo Final, uma sátira à sociedade portuguesa do século XVI. O vocabulário – muito distante da maneira como falamos hoje – pode parecer um obstáculo ao entendimento. Mas, se ultrapassado, o texto se revela divertido, com uma comicidade envolvente.

O enredo é simples. Dois barqueiros – o Anjo e o Diabo – estão em um porto, em que recebem, cada um em sua barca, as almas dos passageiros, para transportá-las para o outro mundo. O Diabo convida cada alma para fazer parte de sua barca. O Anjo autoriza ou não outras almas a viajar em sua própria barca. Vai para  céu quem durante a vida seguiu os preceitos divinos. Vai para o inferno quem foi avarento, mesquinho ou cometeu outros pecados.

Os personagens – que são, na verdade, representações de tipos sociais – apresentam-se diante do espectador como em um desfile. Sua história vai definir seu destino. Apenas o parvo e os quatro cavaleiros, mártires da Igreja, que dedicaram a vida ao cristianismo, conseguem embarcar rumo à paz eterna na barca do paraíso.

Cada personagem representa um aspecto da sociedade portuguesa. O Fidalgo, por exemplo, é o tirano representante da nobreza. O Parvo simboliza o povo português, temente a Deus e de bom coração. O Judeu representa as pessoas que não são fieis à fé cristã. O Frade desobedece o voto de castidade e, por isso, também vai para o inferno. Figuras como o Onzeneiro, o Corregedor e o Procurador são alegorias dos burocratas que usam o poder político a seu favor.

É interessante notar que o Diabo fala e age com uma fina ironia e que, muitas vezes, suas intervenções parecem ser a voz do próprio autor. Já o Sapateiro, ainda que tenha-se confessado antes de morrer não conquista o céu – o Diabo o leva porque ele roubava seus clientes.

Gil Vicente

Gil Vicente

Nascido por volta de 1465, em Guimarães, o poeta Gil Vicente é considerado o pai do teatro português. Autor de um teatro popular – apesar de estar no ambiente da Corte Portuguesa – foi um entretenimento para a família real, mesmo contendo diversas críticas ao poder. O teatro de Gil Vicente é caracterizado pela sátira crítica.

Pai de cinco filhos – dois do primeiro casamento e três do segundo, contraído após a morte da primeira esposa – estudou na Universidade de Salamanca, na Espanha. Um dos primeiros registros com seu nome data de 1502, quando encena “Auto da Visitação” ou “Monólogo do Vaqueiro”, em homenagem ao nascimento do príncipe D. João, futuro D. João III. Em 1511 foi nomeado vassalo do rei e mais tarde, mestre da balança da Casa da Moeda (1513). Faleceu por volta de 1536, provavelmente em Évora.

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*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

“Yaser”, de Eda Nagayama

Um livro que nasceu da experiência vivida com pessoas, em uma paisagem de guerra. Assim é Yaser, de Eda Nagayama, que alinhava com o fio da ficção a dura realidade da Palestina dos dias de hoje. Eda, que é escritora e atriz paulistana, doutoranda em Estudos Literários (FFLCH/USP), foi voluntária na Palestina, onde se sentia “inimiga por extensão”. Para contar sua experiência, escreveu Yaserh. “A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial”, explica a autora ao Blog da Ateliê:  

O que a levou à Palestina? O que a motivou a realizar essa jornada?


Eda Nagayama: O meu interesse e desejo de visitar a Palestina já vinha de alguns anos. Em 2014 havia me informado sobre custos e a possibilidade de me voluntariar na Cisjordânia. A oportunidade concreta veio de uma maneira inesperada. Em 2016, estava na Polônia como parte de um programa de intercâmbio acadêmico sobre trauma cultural quando, numa conversa com uma professora de Sociologia sobre refugiados, comentei sobre a Palestina: “Ah, você gostaria de ir para a Palestina? Conheço um programa de voluntariado”. Ela então me apresentou para o coordenador local do EAPPI – Programa de Acompanhamento Ecumênico em Palestina e Israel, do Conselho Mundial das Igrejas (WCC). Fui aprovada e enviada como única representante da Polônia naquele período. Chegando lá, num grupo internacional com finlandeses, noruegueses, ingleses e colombianos, o mais bizarro era parecer japonesa, ser brasileira e ter sido enviada pela Polônia.

A minha motivação para ir para a Palestina estava inicialmente relacionada a Israel. Ainda adolescente, fui muito impactada pelo Holocausto e a Segunda Guerra. Aprofundei e estudei o tema e também um pouco de cultura e literatura judaicas. Quando tive um pouco mais de informação sobre a situação na Palestina, voltei a me sentir afetada diante da opressão, da complexa disputa que se dá em torno da terra e da água, das narrativas dominantes sobre os acontecimentos. A Palestina era uma indagação, uma perplexidade que só iria aumentar após ter visitado vários memoriais e campos de concentração: Auschwitz, Treblinka, Majdanek, Belzec, Gross-Rosen, Plaszów, Theresienstadt, Sachsenhausen. O incomensurável sofrimento e injustiça do passado poderiam constituir uma justificativa absoluta para a opressão e violência contra um outro? O que acontecia na Palestina em nome desse Estado para um povo sem terra, como se terra sem povo?

Que atividades você desenvolveu ali, durante o tempo em que esteve no local?

EN: O programa visava a observação de violações de direitos humanos na Cisjordânia, parcela maior do território do Estado Palestino, separada da Faixa de Gaza. Os participantes do programa eram divididos em grupos e diferentes localidades: Jerusalém, Belém, Hebron, Tulkarm, Colinas do Sul de Hebron, Vale do Jordão e Yanoun, para onde eu fui destinada. As atividades envolviam a visita aos vilarejos da região e o acompanhamento de incidentes como demolição de construções, expropriação de terras, detenção de crianças, agressões e danos a propriedades e plantio, restrição à livre circulação, toque de recolher e punição coletiva. Com a ajuda de um facilitador local, coletávamos relatos e informações sobre os incidentes e produzíamos relatórios que eram distribuídos a outras entidades com envolvimento na situação.

Outra atividade que realizávamos era a presença protetiva visando diminuir ou refrear atos contra a população palestina através da mera presença de estrangeiros. Três vezes por semana fazíamos o acompanhamento da entrada dos alunos de uma escola à beira de uma rodovia em área C, utilizada por israelenses e palestinos. Um grupo de soldados israelenses estava sempre de vigília, de maneira mais ou menos ostensiva, tendo detido meninos em algumas ocasiões sob a acusação de atirarem pedras. Essa atuação era sempre muito tensa e ambivalente – difícil saber se a presença podia realmente ser protetiva, se não poderia justamente acirrar os ânimos. Os soldados podiam detê-los numa demonstração de força? Os meninos podiam se sentir encorajados pela nossa presença? Não vi nenhum menino atirando pedras nem enfrentando soldados. Em compensação, vi soldados detendo meninos, fazendo provocações – também dirigidas a nós. Os palestinos eram o inimigo e, por extensão, nós também. Nunca estive nessa posição – senti medo, indignação, dúvida.

Eda Nagayama fotografada por Lailson Santos

Por que decidiu escrever um livro da experiência que teve na Palestina?

EN: A experiência foi muito impactante e voltei para o Brasil afetada – a tensão é constante e muito distinta daquela provocada pela violência aqui e não corresponde à imagem do conflito na mídia internacional, vinculada à Faixa de Gaza e às bombas do Hamas, aos terroristas e homens-bomba da Segunda Intifada (2000-2005). Apesar de estar em Jerusalém à época de um atentado, copycat dos ataques utilizando caminhões em Nice e Berlim em 2016, a tensão não advinha daí, da ameaça desse tipo de crime, mas da sensação de vulnerabilidade, de arbitrária opressão a que estavam sujeitos os palestinos. Ouvi muitos relatos de pessoas sem futuro nem sonhos, que só queriam ser deixadas em paz. O que acontece na Cisjordânia é, para mim, uma maneira muito perversa de aniquilar indivíduos e um povo. Não é preciso tirar-lhes a vida, mas apenas restringir e privá-la através do abuso e arbitrariedade de força, regras e restrições, a tal ponto de não mais ser entendida como tal. Vida? Que vida? A escrita nasceu assim dessa necessidade de dar voz e visibilidade ao que vi, ouvi e testemunhei, de responder à minha própria ferida. Não sou uma ativista e minha maneira de agir foi através da palavra – gestada na solidão, povoada por essas pessoas, por Yaser e sua família em especial.

Como conheceu Yaser e porque o escolheu para ser protagonista de seu livro?

EN: O vilarejo de Yanoun foi invadido em 2002 por colonos israelenses de assentamentos do entorno. Na época, havia aproximadamente 350 pessoas e foi então que o EAPPI começou através da presença de outsiders para que o vilarejo não fosse tomado e que ao menos parte das famílias pudesse retornar.

Hoje, os que restam não chegam a oitenta, todos parentes, já que era muito comum o casamento consanguíneo. Yaser morava na casa em frente à nossa e foi de sua família que estive mais próxima, podendo conhecer mais das tarefas diárias, da violência sofrida no passado, dos temores e incertezas do presente. Escolher Yaser como meu protagonista foi uma estratégia narrativa para criar mais coesão à diversidade de relatos e experiências, mas também uma forma de expressar meu afeto e respeito pela trajetória – sua e de sua família estendida, de seu povo.

A obra mistura ficção e relatos reais. Quais foram os desafios de equalizar esses dois registros?

EN: A maior questão é mesmo ética: tenho o direito de narrar? Posso “ocupar” Yaser – percorrer seus pensamentos e sentimentos, me apropriar da memória de eventos traumáticos? Foi uma fronteira difícil de constituir, encontrar a medida para que não predominasse o aspecto informativo ou denunciativo, e que o texto tivesse sensibilidade e qualidade literária. O livro, e também minha pesquisa de doutorado, refletem esse questionamento: quais os limites e decorrências da apropriação da realidade por uma alteridade, das distorções ficcionais produzidas por esse outro ao dar voz aos eventos?

Você já iniciou a elaboração do livro com o projeto de mesclar ficção na história real ou isso foi ocorrendo aos poucos, no processo de escrita?

EN: Eu comecei a escrever Yaser sabendo que iria “contaminar” a realidade de alguma ficção, não queria um relato jornalístico. Recebi a sugestão de adotar a minha perspectiva pessoal como voluntária para narrar os eventos. Não, não era isso de forma alguma. E, a princípio, não queria usar as palavras “judeu”, “israelense”, “palestino”, mas somente “um” e “outro” – adotando assim perspectivas relativas e não absolutas. Tal opção poderia gerar muita imprecisão e ambiguidade e assim comprometer justamente a legitimidade dos eventos, seu caráter testemunhal. Os palestinos deveriam ser os protagonistas – fundidos na figura de Yaser -, com um alinhavo ficcional mínimo. Não sei o que Yaser achou dessa sua versão, espero que possa se reconhecer e apreciar.

Quais foram suas inspirações para escrever o livro, do ponto de vista estético?

EN: Eu não sei se posso apontar inspirações literárias para escrever Yaser. A experiência predominou – em situações, paisagens e pessoas. Terra Prometida ou não, a Palestina é um lugar potente, umbigo do mundo que não permite que você permaneça isento ou que parta imune. E esse afetar foi e é fundamental para mim – que reside nos vazios e silêncios dos campos de concentração, que ecoa nas conversas que tive com refugiados ao longo dos anos – aqui em São Paulo, em abrigos na Itália, em um campo de refugiados na Grécia. A minha questão como escritora é encontrar narrativa para essa realidade de contundência, muitas vezes dolorosa e traumática. 

Aniversário da Ateliê: todo mundo em festa!

A Ateliê está comemorando mais um aniversário! E, para que todo mundo entre na festa com a gente, vai ter muito desconto e promoção durante todo o mês de fevereiro.

Todo o catálogo da editora está com 42% de desconto e, para melhorar, ainda vamos ter ofertas surpresa durante vários dias do mês. Então, a dica é ficar de olho diariamente nas nossas redes sociais e no nosso site: www.atelie.com.br porque são muitos e variados títulos, que terão os preços mais baixos em alguns dias do mês, sem aviso prévio. Isso é que é surpresa boa!

Confira a seguir alguns dos títulos mais queridos da Ateliê que estão em promoção:

Os Sertões – Campanha de Canudos

Euclides da Cunha é o autor homenageado da FLIP neste ano. Então, resolvemos dar uma forcinha para você conhecer melhor este clássico da literatura brasileira, um relato sobre a Guerra de Canudos, feito pelo repórter que marcou a nossa literatura. Além do texto rigorosamente restaurado conforme as fontes mais autorizadas, possui cerca de três mil notas, auxiliando o esclarecimento do difícil vocabulário euclidiano. 

Livro Viva Vaia

Viva Vaia

Esta edição de Viva Vaia é a mais completa de todas as que já vieram a público. Além de manter o projeto gráfico original, de Julio Plaza, ela devolve a impressão em cores a alguns poemas – dentre os quais o clássico “luxo”. Este volume contém ainda um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, que não foi incluído nas versões anteriores por motivos técnicos. Vem encartado, com o livro, o CD Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

Gramática Integral da Língua Portuguesa

Esta gramática se destina a todos aqueles que gostariam de conhecer melhor a maneira como funciona a língua portuguesa e resolver dúvidas sobre concordância, regência, ortografia, colocação etc., por meio de respostas simples, escritas em linguagem clara, despidas de complicações ou erudições. Por isso, esta gramática é útil tanto para alunos do ensino fundamental e médio quanto para quem cursa ou já cursou universidade e quer ter segurança ao escrever um e-mail, um relatório, uma apresentação, uma tese acadêmica, uma petição ou até mesmo um livro de ficção.

Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise

Entender a percepção como fenômeno estético é o que motiva as reflexões deste livro. Os treze ensaios retomam ideias de Lyotard, Argan, Winnicott, Bachelard, Chauí, entre outros. No entanto, o pensamento de Frayze-Pereira gira em torno das obras de Freud, Merleau-Ponty e Foucault. Com eles, o autor mostra que a arte se faz no encontro de dois sentimentos: o da forma e o do mundo. A partir dessa conexão entre percepção e política, a obra lança nova luz sobre o entendimento humano.

No Rastro de Afrodite – Plantas Afrodisíacas e Culináriah

Por que algumas plantas e pratos são considerados afrodisíacos? É em torno dessa pergunta que giram as discussões deste livro. O autor, PhD em Botânica, analisa cientificamente mais de quatrocentas espécies vegetais. Com isso, ele pretende mostrar quais delas, de fato, exercem influência sobre o apetite sexual dos seres humanos. No Rastro de Afrodite apresenta também algumas receitas culinárias capazes de despertar a libido.

A Capa do Livro Brasileiro

O bibliófilo Ubiratan Machado reuniu mais de 1700 capas coloridas reunidas em uma só obra que analisa os 130 anos de História, desde a primeira capa que data de 1820. O autor oferece uma densa e coesa história das capas dos livros no Brasil. Obra que nasce original e clássica, é indispensável nas prateleiras de bibliófilos e historiadores.

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Paradeiro: o primeiro romance de Luís Bueno

Paradeiro é o romance de estreia de Luís Bueno e tem como um de seus cenários a cidade de São José dos Campos (SP) em épocas e com personagens distintos. O exercício de estilo desafiou o autor. “Os três planos da narrativa não se relacionam pelo enredo. Ao contrário, as personagens têm pouco ou nenhum conhecimento uma da outra”, afirma Bueno, que é Doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp e professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Paraná (UFPR).A seguir, ele fala com o Blog da Ateliê.

Por que do título Paradeiro?

Luís Bueno: A palavra tem uma ambivalência entre o permanente e o efêmero, passageiro, que está na base do romance. Na esteira dessa ambivalência, o título evoca um lugar ao mesmo tempo metafórico e geográfico em que se foi parar – mas parar até quando? Existe inclusive uma expressão, “paradeiro desconhecido”, que é o ápice dessa ambivalência porque fala de um lugar desconhecido em que alguém está, ou seja, é toda parte e lugar nenhum. É nessa ambivalência que o livro se funda.

O livro se passa em São José dos Campos. Por que dessa escolha?

LB: A história da cidade faz dela um paradeiro ideal para este romance, pois ela é emblemática  desse jogo entre efemeridade e permanência. Uma permanência curiosa, resultado das experiências individuais que se mantêm muitas vezes como resíduos quando a paisagem e a dinâmica de ocupação do espaço urbano mudaram drasticamente. Desde os anos 1960, tem sido uma cidade industrial – abriga fábricas enormes como a GM e a Embraer –, mas antes disso era uma cidade sanatorial na qual uma pequena população local se misturava com uma população flutuante constituída de tuberculosos em tratamento. É, aliás, como cidade sanatorial que ela aparece, aqui e ali, na literatura brasileira, mencionada em romances como Floradas na Serra, de Dinah Silveira de Queirós, ou Território Humano, de José Geraldo Vieira. Antes disso, aparece como cenário de bangue-bangue em Quincas Borba, numa passagem em que é mencionada para dizer mal de um personagem secundário, cujo  cunhado “dera um tiro de garrucha num delegado em São José dos Campos”. Mais recentemente foi o lado de cidade tecnológica que a tornou o cenário da resistência a zumbis na saga As Crônicas dos Mortos, de Rodrigo de Oliveira.

Em Paradeiro o que interessa é a relação entre essas várias cidades que são uma só, a dinâmica histórica de um lugar que muda radicalmente em poucas décadas, no qual também muda a experiência daqueles que vivem ali. Não é porque estamos no mesmo lugar e no mesmo tempo, expostos às mesmas mudanças, que nosso paradeiro é o mesmo.

Mas vale a pena lembrar que São José dos Campos não é o único cenário do livro: o Guarujá, que aliás também passou por uma transformação enorme, ainda que de outra natureza, no mesmo período, também é. Assim como, mais episodicamente, as cidades portuguesas de Leiria e Ruge Água.

Luís Bueno

Podemos dizer que a doença é um fio que liga os personagens, ainda que não necessariamente os defina. Qual a razão para trazer este tema à literatura?

LB: A doença de fato não define os personagens, mas os coloca numa posição privilegiada para reverem o que são. Um ditado diz que para morrer basta estar vivo, mas os vivos em geral não se ocupam tanto assim da morte. Doenças como a tuberculose antes do emprego dos antibióticos, o câncer e o Alzheimer até hoje, no entanto, colocam a vida em relação direta com a ideia de morte: não tem como escapar. Ora, a doença e a morte são experiências radicalmente pessoais que, ao mesmo tempo, são forçosamente partilhadas por todo mundo. A doença é elemento fundamental na criação de um tipo de relação específica entre indivíduos que interessa ao romance, uma relação que não nasce de um contato direto, mas de experiências comuns vividas por pessoas muito diferentes.

Há uma parte do romance que é epistolar. Como se deu a escolha de inserir esse gênero dentro de uma obra que não é apenas feita da troca de cartas?

LB: A forma epistolar ajuda a compor a caracterização de um dos protagonistas, um rapaz na faixa dos 20 anos que vai a São José dos Campos em 1938 para se tratar de uma tuberculose. Ele não é da cidade, não se integra a ela, então, como era usual, mantém correspondência com os amigos de fora, de onde sua vida deveria em tese ter continuado a transcorrer. As cartas concretizam essa situação e permitem que ele revise, nesse contato ao mesmo tempo tão precário e tão íntimo, suas amizades e suas crenças. A troca de correspondência é uma experiência que se transformou demais nas duas últimas décadas. Nosso tempo, afinal de contas, é o da comunicação imediata. No entanto, contrariando as aparências, o contato permanece cheio de ambiguidades, ainda precário e ao mesmo tempo íntimo.

O livro traz uma variedade de vozes, estilos, narradores e datas. Qual o desafio desse tipo de escrita?

LB: Juntamente com a estrutura geral dos capítulos, que giram em torno de um mote central, esse foi o maior desafio na elaboração do romance. Os três planos da narrativa não se relacionam pelo enredo. Ao contrário, as personagens têm pouco ou nenhum conhecimento uma da outra. Sua relação se dá num outro plano, naquilo que partilham mal sabendo que partilham. Para isso funcionar, seria preciso que cada plano fosse escrito de maneira distinta, de maneira que o leitor pudesse identificar cada um desses planos com facilidade. Era necessário também que não houvesse diferenças enormes de registro entre eles. Unidade e distinção ao mesmo tempo, assim como acontece, no plano do enredo, com as vidas que pouco e tudo têm a ver umas com as outras. Esse é o desafio difícil que procurei vencer. O leitor poderá verificar se deu tudo certo ou não.

Você teve uma preocupação com a fidelidade aos fatos históricos, ao escrever o romance, ou eles são apenas pano de fundo?

LB: Gosto de pensar que os “fatos históricos” integram a estrutura da narrativa, sendo mais que pano de fundo. Procurei ser preciso – sempre pensando na precisão que se pode esperar de um texto ficcional – porque isso contribui para que o leitor tenha uma impressão mais forte de realidade. E também porque me interessava que o livro se ligasse à realidade do lugar onde ele foi escrito e onde sua trama tem lugar.

Conheça outros livros de Luís Bueno https://www.atelie.com.br/publicacoes/autor/luis-bueno/

“A Relíquia”, de Eça de Queirós: humor e ironia em um clássico realista

Por Renata de Albuquerque*

Um romance realista cheio de ironia, humor e com um toque de cinismo. Assim é A Relíquia, romance de Eça de Queirós, publicado em 1887 em Portugal. O livro é narrado por Teodorico Raposo (Raposão), órfão de pai e mãe que, ainda criança, vai morar com sua tia, Dona Maria do Patrocínio (Titi), uma senhora beata, avara e casta. É ela quem controla a fortuna que o sobrinho herdará, no futuro.

As características da tia do narrador não são colocadas por acaso pelo autor. Eça de Queirós foi integrante da chamada Geração de 70 de Portugal, um grupo de artistas e intelectuais que desejava a renovação da  vida política e cultural portuguesa, que consideravam decadente. A obra Causas da decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos, de Antero de Quental, componente do grupo, propõe que são três os elementos que levam ao atraso científico e industrial e à decadência moral, econômica e social: o catolicismo, a monarquia absolutista e as conquistas ultramarinas. Em A Relíquia, Eça de Queirós lança mão de uma personagem beata para criticar a igreja católica e a sociedade portuguesa de então.

Enredo

A Relíquia narra as memórias de Teodorico Raposo, órfão cuja mãe morreu no dia seguinte ao parto (um sábado de aleluia) e que, por parte de pai, era neto de padre.  Tudo é contado com um forte tom de ironia. Por isso, o que está posto no romance deve ser lido com uma certa desconfiança do leitor. Graças a este recurso, a obra é uma leitura que agrada e diverte o leitor, pelo humor ácido e pelo cinismo. Teodorico narra as desventuras de viver com a tia e também suas aventuras em uma peregrinação à Terra Santa – viagem que Raposo realiza porque a tia não concordara em enviá-lo a Paris, cidade que Dona Maria do Patrocínio considerava um berço de vício e perdição. Titi pede ao sobrinho que lhe traga uma relíquia de Jerusalém.    

Na Terra Santa, Teodorico passa por uma experiência fantástica. Ele assiste pessoalmente a todo o sofrimento de Jesus Cristo e descobre que, em vez de ressuscitar, ele morreu de fato. Por causa deste episódio, muitos críticos acreditam que o romance fuja um pouco do realismo. Mas, no decorrer da trama, o realismo está fortemente presente.

Obviamente, entretanto, Teodorico não deixa de viver aventuras, ainda que em Jerusalém. Lá ele conhece Miss Mary, com quem tem um romance. Quando se separam, ela lhe dá como lembrança sua camisola, embrulhada em um pacote.

Para honrar a promessa que fez à tia – de trazer-lhe uma relíquia da Terra Santa – Teodorico trança uma falsa coroa de espinhos, que embrulha, de presente para Dona Maria do Patrocínio.

O narrador encontra, em seu caminho, uma mendiga e dá a ela a camisola de Miss Mary. Mas, em vez disso, confunde os pacotes e entrega-lhe a falsa coroa de espinhos. Ao voltar ao Brasil, entrega a camisola à tia que, então, deserda-o. Teodorico lamenta não ter convencido a tia de que aquela seria a camisola de Maria Madalena. Então, começa a vender “relíquias” de Jerusalém, que ele mesmo fabrica, mas o negócio declina com o tempo.

No final, Teodorico Raposo casa-se, torna-se pai e recebe a comenda de Cristo, sem, mesmo assim, deixar de pensar que poderia ter feito fortuna se tivesse dito uma mentira convincente  à tia beata.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê


 
*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Luís Bueno fala sobre a nova edição de “A Trágica História do Doutor Fausto”

Fausto, de Goethe, talvez seja hoje uma das obras mais conhecidas sobre o homem que faz um pacto com Mefistófeles. Mas a peça, publicada no século XIX, está longe de ser a primeira sobre o tema. Johann Faust, um mago necromante – alguém capaz de se comunicar com o mundo espiritual – viveu no início dos anos 1500 e foi tema até mesmo para Martinho Lutero. Sua  fama deu origem a diversas narrativas ao longo dos séculos. Este A Trágica História do Doutor Fausto, que a Ateliê acaba de lançar, reúne A Trágica História do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe, e História do Doutor João Fausto, de 1587, de autor anônimo alemão. O primeiro texto foi traduzido por Luís Bueno e Caetano W. Galindo e o segundo por Mario Luiz Frungillo. O volume, mais um da Coleção Clássicos Comentados, tem organização, notas e introdução de Luís Bueno e posfácio de Patrícia da Silva Cardoso. A seguir, Bueno fala ao Blog da Ateliê:

Como se deu a reunião das pessoas envolvidas no projeto de traduzir os dois textos?

Luís Bueno: Essa reunião se deu há cerca de quinze anos, com a constatação de que não temos muitas traduções do teatro elisabetano no Brasil, além de Shakespeare, e com a provocação de um professor da Unicamp, Eric Mitchell Sabinson, que havia sido meu orientador no mestrado. Uma das peças mais importantes do período é justamente o Fausto de Marlowe, e pareceu lógico começar com ela para dar uma contribuição para diminuir essa lacuna. Sou professor na Universidade Federal do Paraná e logo convidei meu colega de departamento Caetano W. Galindo para traduzir comigo a peça. Mas ainda antes de começarmos a trabalhar, imaginei um volume mais amplo, que trouxesse também a primeira versão escrita da história do mítico mago, aquela de autor anônimo impressa em Frankfurt em 1587, A história do Doutor João Fausto. Falei com um outro amigo, tradutor do alemão, Mario Luiz Frungillo, e ele se interessou imediatamente em fazer a tradução do texto para compor o livro. Por fim, entrou na empreitada Patrícia da Silva Cardoso, que se incumbiu de fazer uma abordagem crítica não apenas dos dois textos, mas também da tradição fáustica.

Qual a contribuição dos envolvidos?

LB: Eu e Caetano W. Galindo traduzimos e anotamos juntos A trágica história do doutor Fausto de Marlowe. Mario Luiz Frungillo traduziu e anotou a História de João Fausto. Patrícia da Silva Cardoso escreveu o posfáco crítico. Com esse material em mãos, eu assumi a tarefa de escrever uma introdução que localizasse os textos para o leitor do nosso tempo. Por fim, decidi acrescentar mais um texto, que me pareceu ser útil tanto para o leitor de Marlowe quanto para o interessado na história do mito fáustico. É que Marlowe utilizou como fonte para escrever sua peça não o texto alemão, mas sim sua tradução inglesa, provavelmente publicada já no ano seguinte, em 1588. Como era comum naquele tempo, o tradutor, também anônimo, se deu grande liberdade e promoveu várias alterações no texto. Para dar ideia da diferença entre as duas versões, traduzi para o português alguns trechos da tradução inglesa para que o leitor pudesse cotejar e verificar o alcance das mudanças feitas pelo tradutor.

 

Luís Bueno

Qual a importância de um trabalho desta magnitude? Já havia outras traduções dessas obras no Brasil? Que inovação este volume, em particular, traz ao leitor?

LB: Quando começamos o projeto, a peça de Marlowe não estava disponível para o leitor brasileiro. Alguns anos depois, a editora Hedra republicou aqui uma tradução portuguesa. Salvo engano, este volume traz tanto a primeira tradução brasileira da peça quanto do texto alemão de 1587, o que em si já pode ser considerado uma inovação. Mas considero a reunião dos textos num só volume, acrescidos de material crítico e informativo original o aspecto mais inovador do volume.

 

O tema do pacto com o demônio é bastante presente no imaginário humano e também na literatura mundial (no Brasil, podemos pensar em Grande Sertão: Veredas, por exemplo, mas há diversas outras obras que abordam o tema). Entretanto, Fausto parece ser a gênese dessa questão. Em que medida se deu o desafio da tradução de textos tão antigos, sobre os quais nem mesmo há certeza sobre qual seria a “versão correta”? Que cuidados a equipe de tradutores teve que tomar para realizar o trabalho?

LB: As histórias de pacto com o demônio datam do início do Cristianismo e foram constituindo pouco a pouco, na Europa, uma larga tradição oral. Essa tradição encontra na figura do doutor Fausto, um sábio com fama de mago que viveu na Alemanha na virada do século XV para o XVI, uma espécie de maturação e síntese. Na peça de Marlowe inicia-se uma inflexão importante nessa tradição, pois o personagem começa a ser caracterizado como um indivíduo moderno, com os dilemas de nosso tempo, e é essa figura que vai constituir uma nova tradição, a especificamente fáustica, que passa pelo mais conhecido dos Faustos, o de Goethe, para desembocar, no século XX, em obras capitais como o Fausto de Fernando Pessoa, o Doutor Fausto, de Thomas Mann e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A tradução de textos mais antigos de fato exige certos cuidados particulares. No caso da História de João Fausto, felizmente há um texto bem fixado. No caso de A Trágica História do Doutor Fausto as coisas são diferentes. O grande problema é que não houve edições durante a vida de Marlowe e duas versões diferentes circularam mais tarde. Até hoje, apesar do grande esforço crítico dedicado à questão, não foi possível determinar qual seria a versão “verdadeira” da peça. No nosso caso, a decisão foi a de escolher a versão mais curta, chamada de A, de entrecho mais concentrado, ainda que cotejando com a outra, o texto B, que foi pontualmente utilizada.

 

Christopher Marlowe

Por que reunir em um só volume A Trágica História do Doutor Fausto e a História do Doutor João Fausto? O que o leitor poderá perceber ao ler ambos os textos de uma só vez, traduzidos pelos mesmos tradutores?

LB: Ao ler os dois textos o leitor vai ter a oportunidade de testemunhar o nascimento desse que é um dos temas mais marcantes da literatura moderna. Na História do Doutor João Fausto o autor alemão anônimo quer divertir, mas principalmente moralizar. O personagem aparece como alguém cujo exemplo não deve ser seguido e ponto final. A moral é muito simples: não vale a pena arriscar tudo para concretizar nossos desejos, não vale a pena fazer o pacto. Na peça de Marlowe estamos num ambiente bastante diferente, o da chamada alta literatura de seu tempo, e as intenções moralizantes são substituídas pelo dilema, pelo problema que é desejar mais do que nos está em princípio destinado. Nela o tema se aprofunda e vemos a dinâmica de um sujeito que não pode apenas ser condenado pelo que fez, mas cujo drama pode sim ser compreendido – o que não quer dizer necessariamente justificado, aqui não cabem julgamentos simplistas. Ao invés de um sujeito de quem temos que nos afastar de qualquer maneira, o que o texto de Marlowe nos dá é a oportunidade de nos identificarmos com as questões suscitadas pela trajetória do protagonista e de colocarmos nossos próprios desejos no espelho dos dele.

 

Por se tratar de um livro da coleção Clássicos Comentados, esse volume se destina apenas ao leitor que faz pesquisas acadêmicas ou também pode agradar ao leigo?

LB: A organização do volume e a tradução não tiveram em mente um leitor específico que fosse um pesquisador. Ao contrário, a ideia foi a de tornar acessíveis os textos a quem quer que os deseje ler. E, quem sabe, a quem se interesse por montar a peça de Marlowe. Afinal, uma peça só se realiza completamente no palco, não é mesmo?

 

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