Renata Albuquerque

Leitura de Autores na Biblioteca Brasiliana

Imagine poder encontrar-se com seu autor predileto, em pessoa, e descobrir o que o fez tornar-se escritor. É esse encontro que o projeto “Leitura de Autores”, da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) promove, mensalmente, desde o mês de setembro.

José Ramos de Paula, que participa do evento

A ideia do projeto, coordenado pelos professores da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Plinio Martins Filho e Jean Pierre Chauvin é trazer autores para falarem aos leitores de suas experiências de leitura, como elas influenciaram em seu desenvolvimento pessoal e como, a partir delas, puderam tornar-se autores. Isso porque a leitura é a atividade fundamental que move uma biblioteca, que influencia o desenvolvimento das pessoas e que era uma “obsessão para Mindlin”, como lembra Martins.

Segundo a apresentação do projeto, “o evento visa a estimular o encontro de profissionais da palavra (em verso e prosa) com aqueles que já são aficionados por literatura, mas também leitores em potencial: alunos, pesquisadores, professores, escritores amadores etc.”.

Nesta primeira edição, já foram convidados Marcelino Freire (autor de “Angu de Sangue”, “Era O Dito” e “BaléRalé”, entre outros); Rodrigo Lacerda (“O Mistério do Leão Rampante”; “Tripé”) e Veronica Stigger (“Sul”; “Os Anões”).

Ainda em novembro acontece o último encontro de 2018, com o professor e poeta José de Paula Ramos Jr, responsável pela Coleção Clássicos Ateliê.

As inscrições para o projeto “Leitura de Autores” são gratuitas e podem ser feitas pelo e-mail bbm@usp.br.

“O Retorno de Bennu”: prosa poética de Majela Colares

Bennu corresponde à Fênix mitológica. “Foi o grito da ave Bennu na criação do mundo que marcou o início dos tempos”, explica Majela Colares na nota que precede o livro “O Retorno de Bennu”, recém-lançado pela Ateliê Editorial. O poeta e contista cearense vive em Recife. Já publicou em português e teve obras traduzidas para o alemão e catalão. “O Retorno de Bennu” traz ao leitor poesia em prosa, aforismos, versos livres e uma poesia caudalosa, que inspira o leitor. A seguir, ele fala sobre o lançamento para o Blog da Ateliê:

Por que a escolha de Bennu, criatura pouco conhecida (em comparação a Fênix, por exemplo), para dar título ao livro?

Majela Colares: Vejo atualmente a humanidade vivendo uma existência caótica, um mundo caótico. Os elevados valores e princípios humanos degenerando-se, a vida correndo em extrema fragilidade, alimentada por valores iníquos, mergulhada em uma futilidade irritante de profunda angústia. Uma cegueira mórbida, alienada… A automação do Homem espraiando-se em todos os sentidos. Tudo é supérfluo, descartável, inconsistente. O livro “O Retorno de Bennu” tenta levar o leitor a uma reflexão sobre os verdadeiros valores humanos; o significado e sentido atuais da vida. A humanidade precisa reumanizar-se. Enxerguei em Bennu – por sua fascinante originalidade, além de nos remeter aos primórdios das mais antigas civilizações, no caso o Egito, e fundamentalmente por sua enigmática História Mitológica – o melhor símbolo para representar este processo de revitalização do humano… (Essa grande e bela metáfora).  Segundo a mitologia egípcia, Bennu (ave sagrada) ressurgia a cada 500 anos com a missão de provocar o renascimento do Homem. Bennu surgia, induzia essa transformação no ser humano e depois desaparecia, após um processo de auto-combustão, para ressurgir novamente 500 anos depois, emergindo das suas próprias cinzas. Penso que a humanidade, os princípios e ideais humanos, como Bennu, precisam mergulhar em um processo auto-regenerativo em busca da vital essência humana, no intuito de alcançar o verdadeiro sentido da vida. Uma vida com mais sensatez e beleza. É para esta renovação de pensamento, reflexivo e transformador, que nos quer despertar “O Retorno de Bennu”.

 

Qual seu contato com a cultura egípcia e de que maneira ela está refletida neste livro?

M.C: O meu contato com a cultura egípcia resume-se apenas a leituras sobre sua História e sua Mitologia; uma leitura em nada profunda. Não sou nenhum especialista em egiptologia. São leituras dispersas… por ser um admirador daquele antigo povo e seus incríveis conhecimentos artísticos e científicos, suas dimensões culturais. Esta cultura está refletida no livro “O Retorno de Bennu” por ser um dos berços da nossa civilização. A mitológica Bennu e o rio Nilo inserem, simbolicamente, a cultura egípcia no conteúdo do livro, mais especificamente explicita no poema “O Retorno de Bennu”, que naturalmente dá título ao livro.

 

Majela Colares fotografado por Társio Pinheiro

Como foi o processo de escolha dos textos que compõem este livro?

M.C: A estrutura de “O Retorno de Bennu” foi rigorosamente pensada. Todos os textos revelam um conteúdo questionador e reflexivo sobre a condição e natureza humanas; uns mais outros menos, mas todos seguem este fio condutor. O teor fundamental do contexto do livro visa despertar no leitor, sinalizar, ainda que o mínimo possível, um sentimento transformador, que o leve a pensar no modelo de vida, imposto pelas regras, conceitos e paradigmas do mundo atual, instigando-o a uma revitalização da essência original do Homem. Todo esse redescobrimento do humano, impulsionado pelo amor, sentimento mais elevado da nossa natureza, conduzido pela linguagem poética. Portanto, o amor e a poesia, em todas as suas formas possíveis, servindo como luz renascedora da humanidade.

 

 

O leitor que abre “O Retorno de Bennu” se depara com trechos de diversos escritores, em prosa e poesia. Entretanto, todos os trechos parecem trazer à tona a questão dos “interstícios”(para usar um termo de Lispector), do intervalo no qual tudo se cria (como escreve Machado: “seria preciso fixar o relâmpago”) e da solidão dessa criação (“ser poeta é minha maneira de estar sozinho”, segundo Pessoa). De que maneira esses temas permeiam sua produção poética reunida neste volume?

M.C: Os trechos de outros autores ao longo do livro servem de epígrafes. Todos esses textos/epigrafes revelam uma ligação muito forte com o livro, com o conteúdo, a estética, a mensagem, tanto no sentido poético quanto no sentido material exposto pelo livro como um todo. Claro que os textos que compõem este volume também são influenciados, em forma e imagens, pelos citados autores.  Apenas o texto/epígrafe de Pessoa traduz um pouco a filosofia de vida do autor: “ser poeta é minha maneira de estar sozinho”.

 

E mais: de que maneira elas se relacionam com a marca do renascimento (essa mensagem de Bennu)?

M.C: A maioria dos textos/epigrafes são trechos de poemas, os trechos em prosa a exemplo das epígrafes de Machado de Assis, Clarice Lispector, Baudelaire e Otávio Paz, exalam um profundo e consistente teor poético; pura prosa poética. Como disse anteriormente, “O Retorno de Bennu” aponta para um renascimento da humanidade, impulsionado pelo sentimento do amor em todos os sentidos possíveis, sob a luz metafórica e transformadora da poesia. Então, se todos os textos/epigrafes possuem elevado teor poético, fica clara a relação com a mensagem que o livro busca passar para o leitor.

 

O livro divide-se em “Percepções”, “Alumbramentos”, “Confluências” e “Lampejos”. A que se deve essa divisão?

M.C: Essa divisão em forma de subtítulos seve como estrutura estética do livro. Todos os subtítulos possuem uma afinidade, ainda que subjetiva, com cada parte da obra. A mais evidente é “Percepções”, composta por cinco textos em prosa poética, sendo cada texto relacionado a um dos nossos sentidos: visão, paladar, tato, audição e olfato.

 

Como lembra Alexei Bueno, “Alumbramentos” é a única parte do livro composta completamente por versos.Como a prosa poética enriquece a poesia (e vice-versa) e o que se pode esperar dessa convivência, em um mesmo volume, em textos de um mesmo autor?

M.C: Escrever prosa é arte difícil e rara, escrever prosa poética é arte rara e mais difícil ainda. Em primeiro lugar a poesia enriquece a prosa; alcançando o texto o status  de prosa poética, esse texto em prosa ganha outra dimensão, a de poesia em prosa. Tudo é muito difícil! Acredito que dei aos textos em prosa poética, a mesma dimensão e qualidade dos poemas escritos em versos. Assim, penso, que por estarem no mesmo nível tanto os textos em prosa poética quanto os textos escritos puramente em versos, a convivência de ambos os estilos em um mesmo volume será muito natural e enriquecedora. Será uma leitura até mais agradável.

Rosa Luxemburgo: Crise e Revolução

Filósofa e economista, nascida no final do século XIX, quando às mulheres era dado quase nenhum espaço no cenário sociopolítico, Rosa Luxemburgo ficou por sua militância revolucionária ligada à Social Democracia da Polônia e ao partido social democrata alemão. Militante socialista, tem ideias consideradas revolucionárias para seu tempo. Em Rosa Luxemburgo: Crise e Revolução, a historiadora Rosa Rosa Gomes examina as atas do congresso do partido (SPD), clareando para o leitor em qual contexto a filósofa e economista formula suas ideias. No volume, ela também faz um resumo das teses de Rosa Luxemburgo e das críticas e anticríticas sobre as teorias da autora que se sucederam. A seguir, ela fala sobre o lançamento para o Blog da Ateliê:

Por que seu interesse em Rosa Luxemburgo? Como ele surgiu?

Rosa Rosa Gomes: Surgiu durante a graduação, quando fiz um trabalho para uma disciplina sobre o livro que acabei estudando no mestrado, A Acumulação do Capital (principal trabalho de Rosa Luxemburgo).

Como foi o trabalho com as atas do Congresso do Partido? Como teve acesso a esse material, quanto tempo demorou para estudá-lo?

RRG: Comecei a fazer meu projeto de pesquisa para estudar a teoria econômica de Rosa Luxemburgo e a ideia era entender como ela desenvolveu essa teoria com o passar do tempo. Demorei uns meses até que encontrei digitalizadas no site alemão da Fundação Friedrich Ebert (Friedrich Ebert Stiftung) todas as atas do Congresso do Partido Social-Democrata Alemão (SPD) antes da I Guerra Mundial. Protokoll des Parteitages.

Depois que comecei de fato a pesquisa primeiro me dediquei a uma bibliografia básica sobre o tema e me debrucei um ano sobre temas de algumas das atas. Apesar de ter acesso a todas, ficou claro no decorrer do processo que eu não conseguiria analisar todas, integralmente. Escolhi então aquelas que eram de anos importantes para a história do SPD, de acordo com a bibliografia, e que tinham temas de pauta relevantes também para entender o desenvolvimento do pensamento de Rosa Luxemburgo, e de sua ação política. Fiz uma seleção de temas e anos, portanto, e tudo que foi analisado encontra-se no livro.

 

O que esses documentos lhe mostraram?

RRG: Eles tornaram visível e concreta a ligação entre política e economia no pensamento e na atuação de Rosa Luxemburgo. Daí a importância de estudar as discussões nos Congressos do SPD e artigos publicados na época pela autora. Dessa forma, foi possível entender as motivações de Rosa Luxemburgo em sua obra econômica e o desenvolvimento de seu pensamento para chegar a essa síntese.

Lincoln Secco afirma, no prefácio, que você “refaz a ligação do que estava separado”. Como foi esse processo? Qual seu ponto de partida e sua hipótese primeira de pesquisa?

RRG: A ideia era entender de que forma, na atividade concreta, a política e a economia não se separavam no pensamento de Rosa Luxemburgo, por isso estudar as discussões no SPD que ajudarem a esclarecer inclusive os interlocutores de Luxemburgo em diversos textos. Inicialmente, iria focar em comparar a brochura Reforma Social ou Revolução? com o livro A Acumulação do Capital e entender as aproximações e diferenças. Quando encontrei as atas dos congressos, abriram-se muitos caminhos e ainda há muito a ser explorado na documentação. A hipótese era que a divisa socialismo ou barbárie sempre esteve presente na obra de Luxemburgo, como afirma Norma Geras. A leitura de outros textos como os de Michael Löwy e Isabel Loureiro apresentaram outra perspectiva. Ao fim, compreendo que há Rosa Luxemburgo vai formulando a possibilidade da barbárie ao longo da década de 1910 até que ela se apresenta inteiramente após a votação dos créditos de guerra no SPD. A pesquisa mostrou quais foram os acontecimentos históricos que levaram Rosa Luxemburgo a formular essas ideias e acho que o livro apresenta isso.

Rosa Rosa Gomes em foto de Amanda Giglio

Michel Löwy escreve, na contracapa: ”a autora não deixa de criticar, em certos momentos, argumentos fatalistas ou economicistas de Rosa Luxemburgo”. Você sabia, desde o início da importância e da necessidade dessa crítica?  

RRG: Não. A crítica veio ao longo da pesquisa. Rosa Luxemburgo já é muito crítica à esquerda e à direita, então, mesmo apontando problemas, tive foco nas suas contribuições para pensar o desenvolvimento do capitalismo.

 

Em sua opinião, a obra de Rosa Luxemburgo continua atual? O que se pode aprender com ela? Que questões atuais podem ser respondidas a partir das teorias da economista?

RRG: A teoria econômica de Rosa Luxemburgo fala sobre a expansão do capital sobre áreas não capitalistas. Em sua época uma expansão geográfica. Atualmente, ainda há espaço para isso, mas há também a expansão sobre os direitos dos trabalhadores, aumentando o grau de exploração. Mas principalmente, Luxemburgo fala do militarismo e seu papel fundamental para a manutenção desse modo de produção. Assim, sua teoria é de extrema importância para pensarmos os arranjos econômicos atuais.

 

As manifestações de 2013 e a atual polarização no cenário político-ideológico brasileiro  podem ser entendidas à luz das teorias de Rosa Luxemburgo? De que maneira isso pode ocorrer?

RRG: A teoria econômica de Luxemburgo não pode ser desvinculada da política, e esse é um ponto central no livro. Assim, sua teoria econômica acaba por definir dois horizontes sociais, ou a revolução socialista ou a barbárie. O cenário de polarização mundial pode ser entendido como uma tentativa desesperada do capital de voltar a acumular e avançando ferozmente sobre direitos e áreas ainda não totalmente dominadas. O que gera inclusive um colapso ambiental, além do social. A teoria econômica de Luxemburgo e sua militância política, especialmente na década de 1910, alertavam sobre a possibilidade da barbárie e sua proximidade com o acirramento das contradições. A disputa continua sendo por acumular capital. No entanto, hoje, há um embate feroz com a extrema concentração da riqueza e a impossibilidade de acumular mesmo com o aprofundamento da barbárie: guerras, genocídios, miséria.

Em sua opinião, qual a maior contribuição de seu livro, em termos de pesquisa desse tema e dessa autora tão importante?

RRG: A pesquisa com as atas dos congressos do SPD, sem dúvida, é a maior contribuição do livro. É uma documentação pouco, ou nada, estudada no Brasil, também pela dificuldade da língua, mas que traz muitas informações sobre os debates internos da social-democracia alemã, o maior partido socialista da época. A partir desses debates, é possível inclusive pensar na trajetória de outros partidos de esquerda e pensar, talvez, o que não fazer.

Conheça a obra 

Coleção Estudos Literários Ateliê: títulos que explicam o que está por trás da literatura

Trazer a produção acadêmica às mãos do público leitor. Esta talvez seja a maneira mais objetiva de explicar a razão pela qual a Coleção Estudos Literários da Ateliê foi criada, há quase duas décadas. É bastante comum que a produção acadêmica não consiga chegar ao leitor mais interessado em saber o que está para além daquilo que ele lê nos títulos mais importantes da literatura mundial: as influências de cada autor, a interpretação de cada obra, o significado de cada personagem.

O terreno dos estudos literários é fértil para unir campos distintos de conhecimento, como literatura, cinema, psicanálise, filosofia e tradução. Por isso, a Ateliê tem mais de cinquenta títulos deste selo, muitos deles publicados com o apoio da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

São títulos variados, como Escritas do Desejo – Crítica Literária e Psicanálise, organizado por Yudith Rosenbaum e Cleusa Rios P. Passos. O livro reúne onze textos que propõe modos distintos de ler as relações críticas entre os dois campos, reafirmando, na esteira de Freud e Lacan, a “dimensão da subjetividade humana” na obra literária.

Outros títulos são dedicados à obra de um artista em especial, como é o caso de Olga Savary – Erotismo e Paixão, escrito por Marleine Paula Marcondes e Ferreira de Toledo. Ela se debruça sobre a obra savaryana priorizando dois de seus traços fundamentais: o erotismo e o patriotismo. A análise teve a colaboração da própria poeta, que concedeu entrevistas, participou de debates e disponibilizou depoimentos dados à imprensa nacional e estrangeira.

Cabo Verde – Literatura em Chão de Cultura, de Simone Caputo Gomes, enfoca a literatura do país e  as relações entre a literatura cabo-verdiana e a cultura crioula; e o diálogo entre essa literatura e outras artes, como a música, a pintura e a escultura.

Há também títulos que aproximam cinema e literatura, como Porvir que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica, de Renato Tardivo. No volume, o autor explica como livro (1975) e filme (2001) compõem um jogo peculiar de identidade e diferença.

 

 

Para que todo esse conhecimento não fique restrito a um círculo específico de pessoas dentro das universidades, os trabalhos acadêmicos ganham uma edição cuidadosa e um belo projeto gráfico para que levem um conteúdo rico, de maneira agradável, aos leitores. Assim, a coleção dá espaço à nova geração de pesquisadores brasileiros e permite o conhecimento de ideias originais e contemporâneas.

Conheça a Coleção Estudos Literários

 

Feliz Dia dos Professores

Essas figuras fazem parte do nosso dia a dia durante toda nossa infância e adolescência; elas nos ensinam ferramentas poderosas, como a leitura e a visão crítica; transmitem conhecimento formal que levaremos para a vida toda. Por isso, desejar “Feliz Dia dos Professores” é mais que uma homenagem protocolar; é algo que cada cidadão deveria fazer com sinceridade e gratidão.

Mas, o que seria de um professor sem livros, se são eles que oferecem a base do conhecimento que ele tão generosamente compartilha?  São os professores que nos incentivam a ler clássicos, a praticar cálculo em exercícios complexos, a entender a organização das células e dos planetas.

Mas, se nós lemos por estímulo deles – e com isso aprendemos tanto – a pergunta é: e eles, o que leem?

Neste ano, esta foi a pergunta que o Blog da Ateliê fez a dois professores para que, mais do que oferecer dicas de leitura, eles pudessem compartilhar suas experiências com outros professores, leitores do Blog.

 

Teoria e ficção

De títulos de ficção aos teóricos, a lista de “o que ler” fica maior a cada dia que passa para qualquer professor que queira se manter atualizado. Mas quais são os livros que merecem ser lidos e relidos?

Ayrthon Breder, graduado em Letras pela PUC-Rio e mestrando em Linguística pela mesma universidade, é professor voluntário de Redação no NEAd (Núcleo de Educação de Adultos/PUC-Rio) com aulas. “O principal livro fonte de minhas aulas de redação para alunos do ENEM é A arte de argumentar: gerenciando razão e emoção. Acredito que um bom professor ensina seus alunos a opinarem, a se colocarem presentes face às diversas situações da vida. A argumentação é importante nessa tarefa, pois ajuda o aluno, não só a discursar com mais propriedade, como também a ser um ouvinte crítico”, explica.

 

 

Já Sávio Lima Lopes, que além de professor do curso de Administração é também graduando em Letras, lembra que a ficção também pode ser usada em sala de aula. “No curso de Recursos Humanos, na aula de Comunicação Empresarial, li o conto “O caso da menina”, que está no livro Angu de Sangue. O objetivo era exemplificar ritmo e entonação das palavras, logo quando começamos a estudar prosódia Já é o terceiro livro do Marcelino Freire que leio”, afirma.

Mas, como também é aluno, ele completa: “Na graduação em Letras meu companheiro inseparável, tem sido Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, E que edição maravilhosa: ilustrada, com um ensaio incrível do Antônio Medina Rodrigues”, conclui.

A seguir, o Blog da Ateliê faz uma seleção para professor nenhum colocar defeito! Feliz Dia dos Professores!

Gramática Integral da Língua Portuguesa

Esta gramática se destina a todos aqueles que gostariam de conhecer melhor a maneira como funciona a língua portuguesa e resolver dúvidas sobre concordância, regência, ortografia, colocação etc., por meio de respostas simples, escritas em linguagem clara, despidas de complicações ou erudições. Por isso, esta gramática é útil tanto para alunos do ensino fundamental e médio quanto para quem cursa ou já cursou universidade e quer ter segurança ao escrever um e-mail, um relatório, uma apresentação, uma tese acadêmica, uma petição ou até mesmo um livro de ficção.

 

Sonetos de Camões

O desejo de plenitude amorosa, as dificuldades existenciais e a injustiça dos homens estão entre os grandes temas do Renascimento presentes na lírica de Camões. Ricos em antíteses e metáforas, seus sonetos estão entre as mais belas expressões literárias da língua portuguesa. A voz reflexiva que se ergue desses versos produz a elevação do espírito e o entusiasmo verbal. Esta edição traz os poemas mais representativos do acervo camoniano, comentados por dois experientes pr

ofessores de Literatura.

 

 

História da Língua Portuguesa

Esta coletânea traça, em detalhes, o percurso histórico da língua portuguesa. Os autores aqui reunidos abordam as mudanças da língua do século XII ao XX, a oposição entre o português europeu e o brasileiro, entre outros assuntos. Sem desmerecer os estudos descritivos, a obra mostra preocupações de caráter explicativo e discute questões que só a investigação histórica pode revelar. Cada um dos seis capítulos vem acompanhado de textos anotados, vocabulário crítico e bibliografia comentada.

 

A Nebulosa

A coleção Clássicos Ateliê oferece ao leitor a 3ª edição de A Nebulosa, poema narrativo de Joaquim Manuel de Macedo, após quase 150 anos fora de circulação. Grande sucesso editorial nas duas edições lançadas em vida do autor, no século XIX, A Nebulosa narra a trágica história de um amor impossível, configurada no âmbito da corrente da poesia romântica noturna e melancólica a que Álvares de Azevedo também se dedicou. Para Antonio Candido, A Nebulosa vem a ser “talvez o melhor poema-romance do romantismo [brasileiro]”. O texto desta edição, estabelecido rigorosamente com base no da segunda (1878?), em cotejo com o da primeira (1857), é introduzido por um precioso estudo crítico de Ângela Maria Gonçalves da Costa, doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp, que dá minuciosa notícia da recepção crítica do poema e analisa seus principais aspectos de forma e conteúdo, no contexto da poética cultural do ultrarromantismo, em que se insere A Nebulosa. O volume conta com ilustrações do artista plástico Kaio Romero.

 

Jacques Derrida – Entreatos da Leitura e Literatura

Literatura e Filosofia. A partir desse encontro promovido pela obra de Jacques Derrida, cujos efeitos ainda incidem sobre o pensamento contemporâneo, este livro reúne artigos de Eneida Maria de Souza, Myriam Ávila, Evando Nascimento, Emílio Maciel, Maria Esther Maciel, Mónica Cragnolini, Roberto Said, Luiz Fernando Ferreira Sá, Ram Mandil, Nabil Araújo, Sérgio Luiz Prado Bellei, Gustavo Silveira Ribeiro e Roniere Menezes.

 

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia é Criação: Uma Antologia

Almada Negreiros, que começa por dar corpo à Vanguarda em Portugal, é uma das figuras de artista mais importantes do século XX português, que atravessa em grande medida, com uma passagem de menos de um ano em Paris e outra de cinco anos em Madrid. Da sua arte de poeta, ficcionista, dramaturgo, desenhista, pintor ou conferencista há vinte e quatro exemplos alinhados nesta antologia, seguindo, com uma exceção, o critério cronológico. Mais que um princípio de simetria ou de arrumação por gêneros, aparecem assim de modo mais evidente as relações entre os textos, o nexo profundo que torna as diferentes artes o mesmo gesto essencial.

Cordel recebe título de patrimônio cultural brasileiro

IPHAN reconhece a literatura rimada de origem oral

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) acaba de conceder à literatura de cordel o reconhecimento de Patrimônio Cultural Brasileiro. O título é uma forma de dar ao gênero, que já sofreu preconceito, reconhecimento oficial. O cordel, que tem origem na tradição oral, é bastante popular no nordeste. Para falar sobre o tema, o Blog da Ateliê entrevistou Mark Curran, brasilianista e professor aposentado de língua portuguesa e estudos brasileiros na Arizona State University. Ele é autor do livro Retrato do Brasil em Cordel e, enquanto pesquisador, teve contato com nomes como Manuel Cavalcanti Proença (primeiro orientador para a pesquisa sobre a tese do Ph.D. no Brasil, em 1966), Orígenes Lessa, Luís da Câmara Cascudo, Sebastião Nunes Batista e Ariano Suassuna. Foi este último que o aconselhou a usar o termo cordel em uma publicação, ainda nos anos 1970. “Dediquei toda a vida profissional de professor e escritor ao cordel, e sua influência na literatura erudita e a história do Brasil. Estou muito feliz a saber a ‘novidade’ do reconhecimento recente pelo IPHAN”, afirma.

Qual a importância desse reconhecimento do IPHAN para o Cordel?

Mark Curran: Acho, sem dúvida, que é um importante passo para a literatura de cordel.  Desde “uma literatura de pouco prestígio” até ser reconhecida como parte importante da herança cultural nacional! (Nós, sabíamos deste valor desde o princípio. Ver os livros seminais da Fundação Casa de Rui Barbosa, por exemplo, e todos meus.) Para onde vai o reconhecimento, não sei.   O “cordel” hoje em dia tem traços semelhantes ao cordel que conheci naquela época, mas a sociedade, a tecnologia, o público leitor, o próprio formato de uma parte do novo cordel, a maneira de escrever e vender e espalhar os livrinhos, tudo isso mudou. Naturalmente. Passou meio século de vida brasileira.

Na opinião do senhor, o cordel ainda é, de certa forma, “marginalizado” como literatura?

MC: É uma pergunta também meio complicada: ninguém pode duvidar a importância das raízes da literatura popular em verso do Nordeste, nem de seus grandes romances e folhetos “clássicos” e nem dos muitos poetas de mais talento.  O que posso dizer é que uma porção dos grandes escritores eruditos brasileiros do século XX via o valor do cordel e até o utilizaram nos seus livros (ver meu livro de 1973, A Literatura de Cordel e estudos sobre José Lins do Rego, Ariano Suassuna, Dias Gomes, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, e talvez o mais importante de todos, João Guimarães Rosa – embora este não utilizasse o cordel mesmo, mas compartilhou o que chamei o “substrato” temática do mesmo. É de assustar uma olhada temática de “Grande Sertão: Veredas” e o cordel). Suspeito que o interesse de hoje em dia tem algo de “moda,” de seguir a “onda,” isso sem conhecer ou mesmo importar a entender o verdadeiro valor do gênero de cordel.  O interessado tem uma tarefa grande e um grande desafio: procurar os livros importantes e lê-los. Marginalizado hoje em dia?  Somente os poetas de hoje em dia podem dizer. Marginalizado no passado?  Com certeza, claro com a exceção dos estudiosos e escritores já mencionados.

Qual a importância do cordel, historicamente, para a literatura brasileira?

MC: Foi um importante elemento de inspiração para aqueles já mencionados, e isso, só isso, basta para provar seu valor.  Para a literatura de hoje em dia, não posso comentar. Mais uma vez, é difícil ser totalmente humilde, dediquei quase 50 anos e várias pesquisas a este assunto, escrevi os resultados, e estes aparecem em vários de meus livros.  Considero, mesmo  sendo de 2010, Retrato do Brasil em Cordel a melhor fonte minha para isso.

O que mudou na literatura de cordel nas últimas décadas, desde que ele se tornou um tema mais enfocado pela mídia? Essa exposição midiática tem influência sobre os cordéis?

MC:  Não estando no Brasil, não posso comentar, mas tenho a impressão, e é só isso, que a mídia criou o que acabo de chamar “cordel à moda.” Quer dizer, uma apreciação ou um conhecimento bastante superficial. Como falei, para realmente entender a literatura popular em verso, tem que voltar às raízes e ler as histórias em verso e obras dos estudiosos mestres como Leonardo Mota, Luís da Câmara Cascudo, etc.  Por outro lado, se a mídia cria a “presença” de cordel para as massas de hoje em dia pelos novos meios de comunicação (social media) ótimo! Quem saberá serão os poetas de hoje em dia.

Atualmente, como é o cenário da produção cordelística no Brasil? Ainda pode ser considerada uma forma inovadora de literatura?

MC: O cenário de produção hoje em dia? Só sei o que sei pelo Facebook. Assis Angelo, grande autoridade sobre o cordel em São Paulo, disse tempos atrás que a produção de, digamos, 2005-2018 rivalizava aquela dos anos 1960.  Sei que o computador e a impressora ao lado “salvou” os poetas para poder produzir romances e folhetos sem o alto custo da velha tipografia. Sei que hoje em dia há temas novos, formatos novos, produções mais finas.

Quem são os principais nomes do cordel atualmente e quais os principais temas abordados?

MC: Os veteranos que conheço são Gonçalo Ferreira da Silva no Rio de Janeiro; José Costa Leite em Condado, Pernambuco; J. Borges em Pernambuco; e Marcelo Soares em Timbaúba, Paraíba. Os novos que só conheço pela Internet são Ariovaldo Viana, Klevisson Viana, Marco Haurélio e outros.

Antologia de poemas de Luci Collin reúne mais de três décadas de poesia

Por: Renata de Albuquerque

Ensaísta, ficcionista, poeta. Tradutora, professora universitária de Literaturas e Língua Inglesa, bacharel em música (piano e percussão Clássica). Leitora de Jorge de Lima e T.S.Elliot, entre muitos outros. Essa é uma pequena amostra de tudo o que interessa a Luci Collin,  que começou a publicar poesia aos 17 anos e segue, ainda hoje, trazendo sua produção ao público. É essa diversidade que a Antologia Poética 1984-2018 (uma coedição entre as editoras de livros Kotter e Ateliê Editorial) traz ao leitor. É sobre isso que a autora fala, a seguir:

 

A escolha dos poemas para a Antologia foram feitas pelo Sálvio Nienkotter e pelo Marcos Pamplona, mas você teve papel importante na seleção final. Como foram escolhidos esses poemas?

Luci Collin: O processo foi muito bem cuidado pelos editores, que leram com muita atenção toda a minha produção poética (com poemas publicados desde 1984), selecionaram os poemas e depois me apresentaram a seleção. Então, em um segundo momento, eu pude também participar, apontando aqueles poemas que não estavam nessa seleta inicial e que eu, principalmente pelo “histórico individual” de cada poema, gostaria de ter na Antologia. O resultado ficou muito orgânico pois corresponde a três leituras, três olhares críticos diferentes. O resultado me surpreendeu – é algo especial ver nascer um livro formado de outros livros.

 

Há dois períodos de “lacuna” na publicação de sua poesia: 1984-1991 e 1997-2012. A que se devem essas lacunas?

LC: Estive, durante esses períodos, envolvida com literatura sim, mas de outras maneiras: ingressei na carreira de magistério superior na UFPR (em 1999, lecionando Literaturas de Língua Inglesa), cursei um doutorado na USP sobre a obra de Gertrude Stein, organizei antologias e traduzi vários poetas (como Gary Snyder e Jerome Rothenberg) e publiquei vários artigos e ensaios em jornais e revistas literárias. Mas, sobretudo, estive publicando ficção. De 1997 a 2011 publiquei cinco livros de contos e um romance e por esses motivos, estive afastada da publicação de poesia.

Luci Collin

Ao publicar uma antologia e revisitar sua obra, que mudanças você notou na sua própria poesia?

LC: Essa questão das mudanças, olhar para a sua produção e perceber quantas coisas foram sendo alteradas ao longo do tempo, é uma emoção enorme. É uma experiência de confronto não só com o seu estilo inicial e com as temáticas que foram  exploradas, mas também com a sua própria relação com o fazer poético ao longo da sua vida. São mais de trinta anos de percepções registrados por meio da palavra. Reunir esses poemas na Antologia funcionou como uma visita, um mergulho mesmo na minha própria trajetória de expressão pela poesia. E tem aqueles poemas que permaneceram importantes ao longo dos anos, que a gente ainda quer mostrar e dividir com os leitores. É como reescrever-se, recontar-se. A princípio, uma voz tímida, frágil e mais ligada ao experimentalismo; com o passar dos anos, uma maior definição do meu timbre, do meu estilo e da medida mais livre do meu poetizar – é isso a Antologia.

 

 

Jussara Salazar chama a atenção, na contracapa do livro, para a questão do estranhamento colocado na sua obra. Como se dá essa construção, no seu fazer poético? É uma construção consciente?

LC: Acredito que as características que acabam marcando a produção de um poeta são muito espontâneas, são como o correspondente de sua voz, de sua personalidade literária sob forma de poemas. A construção acaba se processando um misto de marca individual (talvez um pouco intuitiva) com labor (esse sim, consciente). Nunca reneguei nada do que escrevi e gosto de mostrar os poemas iniciais como expressões primeiras de alguém tentando se expressar de um modo sincero e livre, tentando manter uma fidelidade aos seus próprios anseios com a poesia, num registro de espanto e amorosidade. Às vezes isso causa mesmo um estranhamento, mas eu permaneci com essa perspectiva de chamar o leitor para que construamos, juntos, o poema.

No prefácio, Sálvio Nienkotter chama a atenção para a influência do concretismo na sua obra. Como isso acontece? Além desta, quais são suas outras influências literárias?

LC: Começo a escrever em uma Curitiba da década de 1980, muito influenciada pela presença de Paulo Leminski e da tradição a que ele se ligou, como a dos irmãos Campos. Assim, flertei com o concreto no primeiro livro. Já no segundo livro de poesia, tendo iniciado meus estudos de zen-budismo, passei a uma poesia ainda imagética, mas menos concreta, com a visualidade trabalhada de forma diferente. E, gradualmente, fui me afastando do concreto e do experimental. Com 17 anos, idade em que escrevi o Estarrecer, naturalmente estava sob muitas influências e era imitativa. Eu lia muito Jorge de Lima, Ferreira Gullar, os expressionistas alemães, poesia marginal, poesia beat. Aos poucos fui incluindo poesia francesa e portuguesa, mais autores contemporâneos e, sempre os modernistas como T. S. Eliot, Marianne Moore e William Carlos Williams.

 

De que maneira sua formação em música influencia sua poesia?

LC: Acredito que de um modo substancial porque minha vivência de anos como musicista me fez conceber o texto como literário e musical ao mesmo tempo, um texto em que aparecem elementos comuns às duas linguagens: a rítmica, o fraseado, a melodiosidade. E a interpretação de uma partitura é uma experiência de transporte de códigos para elaboração de uma trama emocional que é muito próxima ao uso que a poesia faz da poeticidade. Aliás, há, inclusive, quem considere que a essência de todas as artes é a poeticidade.

 

Além da Antologia, há outro livro recém-lançado organizado por você: Ao Vires Isto. Pode falar um pouco sobre este livro para os leitores do Blog Ateliê, por favor?

LC: Esse livro é a realização de um grande sonho que era reunir em uma publicação vários ensaístas investigando e discutindo a produção da escritora norte-americana modernista Gertrude Stein. Stein foi uma pensadora revolucionária que influenciou não só a literatura, mas as artes em geral. Nesse livro, organizado pela Profa. Dra. Daniella Aguiar, da Universidade Federal de Uberlândia; pelo Prof. Dr. João Queiroz, da Universidade Federal de Juiz de Fora; e por mim, da Universidade Federal do Paraná, reunimos vários ensaios sob o viés da tradução e da intermidialidade. Colaboraram nesta publicação nomes especialíssimos como Marjorie Perloff, Jerome Rothenberg, Edson Zampronha, Dirce W. do Amarante e Augusto de Campos. O livro representa um importante material crítico sobre Stein – algo que praticamente inexistia no mercado brasileiro até então. E a edição é um primor. Quem se interessa por Modernidade, tradução, intermidialidade seguramente se encantará com o Ao vires isto.

Conheça outras coedições Kotter/Ateliê Editorial

Livros para ler e para colecionar leituras e experiências

Por: Renata de Albuquerque*

“O amor inexplicável faz o coração bater mais depressa”, escreve Clarice Lispector em Água Viva. Para algumas pessoas, o sentimento pode ser inexplicável, mas tem um objeto definido: o livro. Ler é viajar, é sair do próprio mundo e conhecer outros, é mergulhar em outras realidades. A leitura é fascinante e nos ajuda a conhecer pontos de vista diferentes, a olhar o mundo com mais agudez, a entender o que nem sempre está explícito.

Quando o genial Jorge Luis Borges afirma que, para ele, o paraíso seria uma espécie de livraria, é dessa paixão pelo livro que ele fala; uma paixão que reverbera em muitos leitores. E, apesar de toda a tecnologia, o livro físico ainda é, por excelência, a melhor tradução dessa relação entre os leitores e a leitura. O cheiro do livro novo, a sensação de companhia, o virar de páginas, a exposição na estante: tudo são lembranças não só da leitura em si, mas de tudo o que aquele livro representa ou representou na vida de cada leitor.

“Eu li esse livro quando estava no colégio”; “aquele livro me acompanhou durante a licença-maternidade”; “eu li este quando estava de férias no interior”. Experiências de vida e histórias se misturam, formando uma outra memória, a que cada leitor recorre em diferentes momentos da vida.

Por isso, a Ateliê reuniu mais de cem títulos muito variados, abrangendo ficção, teoria literária, poesia, livros técnicos e livros sobre livros. É uma seleção diversificada, que apresenta muitos temas diferentes, que certamente poderão agradar a leitores com os perfis mais heterogêneos. O objetivo é um só: estreitar a relação entre o leitor e o livro, promover encontros que deixarão marcas e produzirão memórias inesquecíveis.

Confira alguns títulos:

A Casa dos Seis Tostões 

Paul Collins e sua família abandonaram as colinas de San Francisco para se mudarem para o interior do País de Gales – para se mudarem, na verdade, para a vila de Hay-on-Wye, a “Cidade dos Livros”, que ostenta mil e quinhentos habitantes e quarenta livrarias. Convidando os leitores a entrarem em um santuário para os amantes dos livros, A Casa dos Seis Tostões é uma meditação sincera e muitas vezes hilária sobre o que os livros significam para nós.

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia é Criação: Uma Antologia

Almada Negreiros, que começa por dar corpo à Vanguarda em Portugal, é uma das figuras de artista mais importantes do século XX português, que atravessa em grande medida, com uma passagem de menos de um ano em Paris e outra de cinco anos em Madrid. Da sua arte de poeta, ficcionista, dramaturgo, desenhista, pintor ou conferencista há vinte e quatro exemplos alinhados nesta antologia, seguindo, com uma exceção, o critério cronológico. Mais que um princípio de simetria ou de arrumação por gêneros, aparecem assim de modo mais evidente as relações entre os textos, o nexo profundo que torna as diferentes artes o mesmo gesto essencial. [Fernando Cabral Martins]

Mensagem

Esta edição de Mensagem traz ao leitor brasileiro, pela primeira vez, o texto dessa obra-prima rigorosamente estabelecido, segundo critérios da crítica textual, e atualizado, segundo o acordo ortográfico de 1990. Deve-se isso ao esforço de António Apolinário Lourenço, professor da Universidade de Coimbra e prestigiado estudioso da obra de Fernando Pessoa. Com seu ensaio de apresentação da obra e as notas que agrega aos poemas, António Apolinário Lourenço oferece aos leitores uma orientação tão segura quanto esclarecedora para resolver tantas dificuldades de compreensão, decorrentes da rica e complexa simbologia de Mensagem.

 

Machado e Rosa – Leituras Críticas

Essa coletânea reúne estudos críticos produzidos por renomados especialistas na literatura de Machado de Assis e Guimarães Rosa. As obras de ambos continuam a instigar seus leitores, permitindo sempre novos enquadramentos e inflexões. Machado e Rosa são contemporâneos precisamente por não coincidirem inteiramente com seu tempo, nem se adequarem de forma estreita a suas normas e exigências. Justamente em razão desse deslocamento e desse anacronismo, os dois a(u)tores em foco foram capazes de perceber, apreender e traduzir seu tempo, deixando-lhe em aberto os paradigmas de forma a serem relidos e revistos no devir. Esta é uma razão suficiente para reconhecer como clássicos nossos dois grandes mestres. Para lê-los e ler sobre eles.

História da Língua Portuguesa

Esta coletânea traça, em detalhes, o percurso histórico da língua portuguesa. Os autores aqui reunidos abordam as mudanças da língua do século XII ao XX, a oposição entre o português europeu e o brasileiro, entre outros assuntos. Sem desmerecer os estudos descritivos, a obra mostra preocupações de caráter explicativo e discute questões que só a investigação histórica pode revelar. Cada um dos seis capítulos vem acompanhado de textos anotados, vocabulário crítico e bibliografia comentada.

 

A Forma do Livro – Ensaios sobre Tipografia e Estética do Livro

Com texto introdutório de Robert Bringhurst, A Forma do Livro traz ensaios que o renomado tipógrafo e designer alemão Jan Tschichold escreveu entre 1937 e 1974. Aborda, de maneira didática, os vários aspectos da composição tipográfica: página e mancha, parágrafos, grifos, entrelinhamento, tipologias, formatos e papéis, entre outros. Aliando precisão técnica e reflexão estética, Tschichold aposta no respeito pelo texto e no cálculo das proporções para conquistar a harmonia do conjunto.

 

A Relíquia

“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia.” Essa é a fórmula que Eça de Queirós aplica, em A Relíquia, contra o cientificismo de sua época. O autor narra a saga de portugueses que, em pleno século XIX, vão a Jerusalém para resgatar um objeto de tempos bíblicos. Por meio da ironia e do humor, o romance excede os limites da análise social e instaura uma imaginação crítica. Na apresentação, Fernando Couto, mestre pela Unicamp, analisa o cenário social em que Eça viveu e escreveu.

 

 

Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise

Entender a percepção como fenômeno estético é o que motiva as reflexões deste livro. Os treze ensaios retomam ideias de Lyotard, Argan, Winnicott, Bachelard, Chauí, entre outros. No entanto, o pensamento de Frayze-Pereira gira em torno das obras de Freud, Merleau-Ponty e Foucault. Com eles, o autor mostra que a arte se faz no encontro de dois sentimentos: o da forma e o do mundo. A partir dessa conexão entre percepção e política, a obra lança nova luz sobre o entendimento humano.

 

 

Livro Viva VaiaViva Vaia

Esta edição de Viva Vaia, obra que estava esgotada, é a mais completa de todas as que já vieram a público. Além de manter o projeto gráfico original, de Julio Plaza, ela devolve a impressão em cores a alguns poemas – dentre os quais o clássico “luxo”. Este volume contém ainda um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, que não foi incluído nas versões anteriores por motivos técnicos. Vem encartado, com o livro, o CD Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

 

Sertões, Os – Campanha de Canudos, de Euclides da CunhaOs Sertões – Campanha de Canudos

Esta 5a. edição comentada de Os Sertões foi revista e ampliada e, até hoje, é a mais completa do clássico de Euclides da Cunha. Além do texto rigorosamente restaurado conforme as fontes mais autorizadas, possui cerca de três mil notas, auxiliando o esclarecimento do difícil vocabulário euclidiano. Originalmente publicada em 2001, é a primeira edição com minucioso e inédito índice onomástico de lugares e pessoas; acurada cronologia da vida e obra do autor; vinte e quatro páginas de iconografia, com informações desconhecidas sobre o assunto; e prefácio elucidativo do organizador, Prof. Leopoldo Bernucci, que aborda o problema das diferentes linguagens de Os Sertões e de suas qualidades artísticas.

 

O Leitor Segundo G.H. – Uma Análise do Romance A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector

Que perfis de leitor e que rituais de leitura a narradora G.H. elege e constrói para seu relato? Essa é a pergunta central deste ensaio, pensado e escrito de maneira poética, associando as dimensões intuitiva e intelectiva da crítica literária. Emilia Amaral apresenta um ponto de vista inovador em relação ao que já se produziu sobre a obra de Clarice. Ao explorar as diferentes figurações do leitor em A Paixão Segundo G.H., o estudo vislumbra novas chaves de interpretação para o romance.

 

Confira a lista completa de livros em promoção

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Figurações do Oitocentos: literatura romântica nas obras de autores brasileiros e europeus

Por: Carina Marcondes Ferreira Pedro*

O livro Figurações do Oitocentos, organizado por Paulo Motta Oliveira, coordenador do Grupo de Estudos Oitocentistas da Universidade de São Paulo, contém ensaios que discutem a literatura romântica nas obras de autores brasileiros e europeus. O leitor poderá saber mais sobre o trabalho de autores como Émile Zola, Abel Botelho, Camilo Castelo Branco, Machado de Assis, Eça de Queirós, José de Alencar e Jane Austen. Os ensaios foram divididos no livro em duas partes: “Entre Tempos e Culturas”, a primeira, e “Religião, História e Crítica”, a segunda.

A primeira parte inicia-se com o ensaio “Émile Zola e Abel Botelho: Dois Olhares, Distintas Nações”, de autoria de Paulo Motta Oliveira. Como recorte, Oliveira seleciona os romances “A Besta Humana” de Zola e o “Barão de Lavos” de Botelho para analisar as realidades das classes sociais de seus países. Nessa comparação, o autor encontra uma forte classe dominante na França e a ausência da mesma em Portugal.  O segundo ensaio “As viagens de Adelbert von Chamisso: Da Literatura à Ciência, da Alemanha ao Brasil”, de Karin Volobuef, trata da obra de Chamisso, autor pouco conhecido no Brasil, embora tenha tido uma breve passagem pelo país. A ensaísta observa que a narrativa do autor é rica e instigante, cheia de expressões poéticas, ao mesmo tempo em que é fluente e objetiva, como a de um homem da ciência ao narrar as intempéries vivenciadas em viagens marítimas.

O terceiro ensaio “As Primeiras Impressões são as que ficam? Jane Austen Retorna ao Cinema”, de Carla Alexandra Ferreira, aborda apagamentos ou relativizações que a obra de Austen sofreu ao ser adaptada para o cinema nos anos 2000. Apesar de alguns pontos fortes do filme “Orgulho e Preconceito”, como o reforço das diferenças sociais que existiam no contexto histórico de Austen, a obra cinematográfica celebra o romance em um nível muito além do apresentado pela escritora em seu livro. Daí a necessidade de situar historicamente temas como o casamento e o amor na obra de Austen.

Coração, Cabeça e Estômago, obra de Camilo Castelo Branco

A ensaísta Flavia Maria Corradin aborda no quarto ensaio “Camilo Castelo Branco Revisitado pela Moderna Dramaturgia” a obra desse autor, considerado o mais importante do romantismo português, por conta de sua originalidade. De acordo com a ensaísta, a intertextualidade está presente nas paródias, estilização e paráfrases de Branco. O último ensaio da primeira parte do livro, de autoria de Renata Soares Junqueira, “Máscaras, Transmutações e Outras Formas do Duplo no Moderno Teatro de Branquinho da Fonseca” diz respeito a esse autor, considerado um dos grandes modernistas portugueses, não somente nas produções literárias, contos e novelas, como também nas obras teatrais. Em suas ficções, a narrativa é marcada por poesia em prosa com personagens que incorporam princípios do romantismo, como o individualismo obsessivo.

 

Na segunda parte do livro, os dois primeiros ensaios discutem a questão da religião na sociedade oitocentista. O primeiro “Cristo Revisitado”, de Aparecida de Fátima Bueno, retoma a obra de Eça de Queiroz, analisando a crítica severa do autor à Igreja Católica do século XIX, com destaque para o romance A Relíquia. Queiroz apresenta um Cristo dessacralizado, que não esconde seus atos falhos, o oposto da visão institucional transmitida aos fiéis pela Igreja.

Eça de Queirós

A obra de Eça de Queiroz continua sendo analisada no segundo ensaio pela perspectiva do orientalismo, mas dessa vez acompanhada pela obra de Machado de Assis. De autoria de Osmar Pereira Oliva, o ensaio intitulado “Eça e Machado e as Reescritas do Livro de Gênesis” destaca em Eça de Queiroz a crítica severa ao clero e a adoção da teoria darwinista, a partir da releitura do Livro de Gênesis. Já em Machado de Assis, a análise da releitura do Livro de Gênesis contribui para identificar a visão deste autor sobre o Oriente, visto que a Bíblia é um texto “paradigmático da cultura oriental” e fundamental nas sociedades ocidentais.

No terceiro ensaio “Quando o Medo Vence o Amor. O Estabelecimento do Domínio Filipino em Oliveira Martins”, de Patrícia Cardoso, é discutida a presença do sebastianismo na obra do historiador Oliveira Martins, que o considera um fenômeno cultural lusitano. Tal fenômeno é utilizado para dar sentido ao passado em seus romances, como em “Febo Moniz”, em que o discurso historiográfico é permeado pela ficção. O quarto ensaio “Gonçalves Dias e a Burocracia Imperial: Favores e Afrontas”, de Wilton José Marques, trata do reconhecimento de Gonçalves Dias como um dos grandes intelectuais do Império e, simultaneamente, rastreia sua inserção no funcionalismo público do segundo reinado do Brasil. Dias queria ser reconhecido como poeta nacional pelos seus méritos literários e não pela via da “lisonja fácil”. A temática indianista é presente em seus poemas, que possuem um tom nacionalista e elementos “de uma nova escola literária”, como foi reconhecido por José de Alencar, seu contemporâneo.

Iracema, de José de Alencar

Iracema, de José de Alencar

O quinto ensaio “Papel da Crítica na Fixação do Indianismo: o Caso José de Alencar”, de Mirhiane Mendes de Abreu, discute o papel do escritor José de Alencar como crítico literário de indianistas contemporâneos, com destaque para as “Cartas sobre a Confederação dos Tamoios”, em que analisou o livro de José Gonçalves de Magalhães. O ensaio ainda destaca outros importantes debates literários com participação de José de Alencar, cuja temática principal era o problema linguístico na literatura local, considerado um dos aspectos controversos da instituição da literatura nacional brasileira. A presença da categoria nacional na retórica oitocentista é o destaque do sexto ensaio, “Retórica do Romantismo”, de Eduardo Vieira Martins. O ensaísta discorreu sobre cinco tratados de retórica: Lectures on rhetoric and belle letres, de autoria do escocês Hugh Blair, “Lições Elementares de Eloquência Nacional” e “Lições Elementares de Poética Nacional” do português Francisco Freire de Carvalho, “Lições de Eloquência Nacional” do padre pernambucano Miguel do Sacramento Lopes Gama e os “Elementos de Retórica Nacional”, de Junqueira Freire. Para Martins, a análise da retórica oitocentista permite uma releitura do romantismo a partir dos valores que orientavam as produções literárias da época, evitando o anacronismo na crítica realizada nos dias atuais.

 

* Historiadora, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e agente cultural na Secretaria de Cultura de Santos. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

Incêndio no Museu Nacional: como preservar os acervos?

Por Renata de Albuquerque

 

O incêndio que se abateu sobre o Museu Nacional do Rio de Janeiro destruiu quase todo o acervo de 20 milhões de peças. Menos de 1,5 milhão de itens saíram intactos. O Museu, que em 2018 completou 200 anos, contava, entre muitos outros itens, com uma coleção de peças egípcias, artefatos greco-romanos e abrigava Luzia, o mais antigo fóssil humano já encontrado no Brasil. Essa tragédia cultural colocou na pauta o tema da conservação dos acervos e dos museus no Brasil, muitos dos quais correm também riscos.

Beatriz Mugayar Kühl

A arquiteta Beatriz Mugayar Kühl, especializada na área de preservação de bens culturais na Katholieke Universiteit Leuven (Bélgica) e doutora pela Universidade de São Paulo e pós-doutora pela Università degli Studi de Roma, explica que o problema não é apenas o dano no acervo. “É um acervo de 200 anos que sumiu. O prédio até pode ser restaurado, mas o próprio edifício era uma peça de acervo, pois mostrava um modo de construir que pegou fogo”, afirma.

Ela, que é uma das organizadoras da Coleção Artes&Ofícios, da Ateliê Editorial, faz parte atualmente de um grupo de trabalho que se dedica a auxiliar na restauração do Museu Paulista. Conhecido como Museu do Ipiranga, ele deve reabrir ao público em 2022, depois de quase uma década em obras. O grupo, formado por profissionais da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) e do Departamento de Pesquisa da Universidade de Ferrar (Itália), tem por função coordenar trabalhos e auxiliar na captação de verbas para preservar tanto a edificação em si quanto o acervo do museu.

Segundo a arquiteta, no Museu Paulista, o diagnóstico estrutural foi concluído em 2017, o projeto arquitetônico de restauração já foi escolhido e está em andamento. “Foi realizado um escaneamento do telhado, para entender como podemos sustentar o forro, por exemplo. Coletamos dados que agora estão sendo analisados e que ajudam os arquitetos a ‘enxergar o que as paredes escondem’, as estruturas, os elementos da construção”. Assim, é possível planejar com mais segurança o restauro e a manutenção futura do edifício, diminuindo o risco para o próprio edifício, o acervo e o público.

“Os museus, principalmente os ligados a universidades, não são apenas locais de visitação. São centros de pesquisa, com elementos que nos ajudam a refletir sobre o hoje, com o olhar contemporâneo sobre peças do passado. E assim conseguimos vislumbrar o amanhã”, avalia.

Com o incêndio do Museu Nacional, aumentou o interesse pelo tema da conservação de acervos. Para quem quer conhecer mais a respeito do assunto, a arquiteta sugere a leitura de Cartas a Miranda, de Quatremère de Quincy. “Esse livro chama a atenção para a questão da preservação. É um livro que pode ser lido por quem está interessado pelo tema”, indica.

Afinal de contas, quanto mais informação tivermos, maior a chance de evitar que tragédias como o incêndio do Museu Nacional se  repitam.

 

 

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