Renata Albuquerque

Livros para ler e para colecionar leituras e experiências

Por: Renata de Albuquerque*

“O amor inexplicável faz o coração bater mais depressa”, escreve Clarice Lispector em Água Viva. Para algumas pessoas, o sentimento pode ser inexplicável, mas tem um objeto definido: o livro. Ler é viajar, é sair do próprio mundo e conhecer outros, é mergulhar em outras realidades. A leitura é fascinante e nos ajuda a conhecer pontos de vista diferentes, a olhar o mundo com mais agudez, a entender o que nem sempre está explícito.

Quando o genial Jorge Luis Borges afirma que, para ele, o paraíso seria uma espécie de livraria, é dessa paixão pelo livro que ele fala; uma paixão que reverbera em muitos leitores. E, apesar de toda a tecnologia, o livro físico ainda é, por excelência, a melhor tradução dessa relação entre os leitores e a leitura. O cheiro do livro novo, a sensação de companhia, o virar de páginas, a exposição na estante: tudo são lembranças não só da leitura em si, mas de tudo o que aquele livro representa ou representou na vida de cada leitor.

“Eu li esse livro quando estava no colégio”; “aquele livro me acompanhou durante a licença-maternidade”; “eu li este quando estava de férias no interior”. Experiências de vida e histórias se misturam, formando uma outra memória, a que cada leitor recorre em diferentes momentos da vida.

Por isso, a Ateliê reuniu mais de cem títulos muito variados, abrangendo ficção, teoria literária, poesia, livros técnicos e livros sobre livros. É uma seleção diversificada, que apresenta muitos temas diferentes, que certamente poderão agradar a leitores com os perfis mais heterogêneos. O objetivo é um só: estreitar a relação entre o leitor e o livro, promover encontros que deixarão marcas e produzirão memórias inesquecíveis.

Confira alguns títulos:

A Casa dos Seis Tostões 

Paul Collins e sua família abandonaram as colinas de San Francisco para se mudarem para o interior do País de Gales – para se mudarem, na verdade, para a vila de Hay-on-Wye, a “Cidade dos Livros”, que ostenta mil e quinhentos habitantes e quarenta livrarias. Convidando os leitores a entrarem em um santuário para os amantes dos livros, A Casa dos Seis Tostões é uma meditação sincera e muitas vezes hilária sobre o que os livros significam para nós.

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia é Criação: Uma Antologia

Almada Negreiros, que começa por dar corpo à Vanguarda em Portugal, é uma das figuras de artista mais importantes do século XX português, que atravessa em grande medida, com uma passagem de menos de um ano em Paris e outra de cinco anos em Madrid. Da sua arte de poeta, ficcionista, dramaturgo, desenhista, pintor ou conferencista há vinte e quatro exemplos alinhados nesta antologia, seguindo, com uma exceção, o critério cronológico. Mais que um princípio de simetria ou de arrumação por gêneros, aparecem assim de modo mais evidente as relações entre os textos, o nexo profundo que torna as diferentes artes o mesmo gesto essencial. [Fernando Cabral Martins]

Mensagem

Esta edição de Mensagem traz ao leitor brasileiro, pela primeira vez, o texto dessa obra-prima rigorosamente estabelecido, segundo critérios da crítica textual, e atualizado, segundo o acordo ortográfico de 1990. Deve-se isso ao esforço de António Apolinário Lourenço, professor da Universidade de Coimbra e prestigiado estudioso da obra de Fernando Pessoa. Com seu ensaio de apresentação da obra e as notas que agrega aos poemas, António Apolinário Lourenço oferece aos leitores uma orientação tão segura quanto esclarecedora para resolver tantas dificuldades de compreensão, decorrentes da rica e complexa simbologia de Mensagem.

 

Machado e Rosa – Leituras Críticas

Essa coletânea reúne estudos críticos produzidos por renomados especialistas na literatura de Machado de Assis e Guimarães Rosa. As obras de ambos continuam a instigar seus leitores, permitindo sempre novos enquadramentos e inflexões. Machado e Rosa são contemporâneos precisamente por não coincidirem inteiramente com seu tempo, nem se adequarem de forma estreita a suas normas e exigências. Justamente em razão desse deslocamento e desse anacronismo, os dois a(u)tores em foco foram capazes de perceber, apreender e traduzir seu tempo, deixando-lhe em aberto os paradigmas de forma a serem relidos e revistos no devir. Esta é uma razão suficiente para reconhecer como clássicos nossos dois grandes mestres. Para lê-los e ler sobre eles.

História da Língua Portuguesa

Esta coletânea traça, em detalhes, o percurso histórico da língua portuguesa. Os autores aqui reunidos abordam as mudanças da língua do século XII ao XX, a oposição entre o português europeu e o brasileiro, entre outros assuntos. Sem desmerecer os estudos descritivos, a obra mostra preocupações de caráter explicativo e discute questões que só a investigação histórica pode revelar. Cada um dos seis capítulos vem acompanhado de textos anotados, vocabulário crítico e bibliografia comentada.

 

A Forma do Livro – Ensaios sobre Tipografia e Estética do Livro

Com texto introdutório de Robert Bringhurst, A Forma do Livro traz ensaios que o renomado tipógrafo e designer alemão Jan Tschichold escreveu entre 1937 e 1974. Aborda, de maneira didática, os vários aspectos da composição tipográfica: página e mancha, parágrafos, grifos, entrelinhamento, tipologias, formatos e papéis, entre outros. Aliando precisão técnica e reflexão estética, Tschichold aposta no respeito pelo texto e no cálculo das proporções para conquistar a harmonia do conjunto.

 

A Relíquia

“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia.” Essa é a fórmula que Eça de Queirós aplica, em A Relíquia, contra o cientificismo de sua época. O autor narra a saga de portugueses que, em pleno século XIX, vão a Jerusalém para resgatar um objeto de tempos bíblicos. Por meio da ironia e do humor, o romance excede os limites da análise social e instaura uma imaginação crítica. Na apresentação, Fernando Couto, mestre pela Unicamp, analisa o cenário social em que Eça viveu e escreveu.

 

 

Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise

Entender a percepção como fenômeno estético é o que motiva as reflexões deste livro. Os treze ensaios retomam ideias de Lyotard, Argan, Winnicott, Bachelard, Chauí, entre outros. No entanto, o pensamento de Frayze-Pereira gira em torno das obras de Freud, Merleau-Ponty e Foucault. Com eles, o autor mostra que a arte se faz no encontro de dois sentimentos: o da forma e o do mundo. A partir dessa conexão entre percepção e política, a obra lança nova luz sobre o entendimento humano.

 

 

Livro Viva VaiaViva Vaia

Esta edição de Viva Vaia, obra que estava esgotada, é a mais completa de todas as que já vieram a público. Além de manter o projeto gráfico original, de Julio Plaza, ela devolve a impressão em cores a alguns poemas – dentre os quais o clássico “luxo”. Este volume contém ainda um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, que não foi incluído nas versões anteriores por motivos técnicos. Vem encartado, com o livro, o CD Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

 

Sertões, Os – Campanha de Canudos, de Euclides da CunhaOs Sertões – Campanha de Canudos

Esta 5a. edição comentada de Os Sertões foi revista e ampliada e, até hoje, é a mais completa do clássico de Euclides da Cunha. Além do texto rigorosamente restaurado conforme as fontes mais autorizadas, possui cerca de três mil notas, auxiliando o esclarecimento do difícil vocabulário euclidiano. Originalmente publicada em 2001, é a primeira edição com minucioso e inédito índice onomástico de lugares e pessoas; acurada cronologia da vida e obra do autor; vinte e quatro páginas de iconografia, com informações desconhecidas sobre o assunto; e prefácio elucidativo do organizador, Prof. Leopoldo Bernucci, que aborda o problema das diferentes linguagens de Os Sertões e de suas qualidades artísticas.

 

O Leitor Segundo G.H. – Uma Análise do Romance A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector

Que perfis de leitor e que rituais de leitura a narradora G.H. elege e constrói para seu relato? Essa é a pergunta central deste ensaio, pensado e escrito de maneira poética, associando as dimensões intuitiva e intelectiva da crítica literária. Emilia Amaral apresenta um ponto de vista inovador em relação ao que já se produziu sobre a obra de Clarice. Ao explorar as diferentes figurações do leitor em A Paixão Segundo G.H., o estudo vislumbra novas chaves de interpretação para o romance.

 

Confira a lista completa de livros em promoção

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

Figurações do Oitocentos: literatura romântica nas obras de autores brasileiros e europeus

Por: Carina Marcondes Ferreira Pedro*

O livro Figurações do Oitocentos, organizado por Paulo Motta Oliveira, coordenador do Grupo de Estudos Oitocentistas da Universidade de São Paulo, contém ensaios que discutem a literatura romântica nas obras de autores brasileiros e europeus. O leitor poderá saber mais sobre o trabalho de autores como Émile Zola, Abel Botelho, Camilo Castelo Branco, Machado de Assis, Eça de Queirós, José de Alencar e Jane Austen. Os ensaios foram divididos no livro em duas partes: “Entre Tempos e Culturas”, a primeira, e “Religião, História e Crítica”, a segunda.

A primeira parte inicia-se com o ensaio “Émile Zola e Abel Botelho: Dois Olhares, Distintas Nações”, de autoria de Paulo Motta Oliveira. Como recorte, Oliveira seleciona os romances “A Besta Humana” de Zola e o “Barão de Lavos” de Botelho para analisar as realidades das classes sociais de seus países. Nessa comparação, o autor encontra uma forte classe dominante na França e a ausência da mesma em Portugal.  O segundo ensaio “As viagens de Adelbert von Chamisso: Da Literatura à Ciência, da Alemanha ao Brasil”, de Karin Volobuef, trata da obra de Chamisso, autor pouco conhecido no Brasil, embora tenha tido uma breve passagem pelo país. A ensaísta observa que a narrativa do autor é rica e instigante, cheia de expressões poéticas, ao mesmo tempo em que é fluente e objetiva, como a de um homem da ciência ao narrar as intempéries vivenciadas em viagens marítimas.

O terceiro ensaio “As Primeiras Impressões são as que ficam? Jane Austen Retorna ao Cinema”, de Carla Alexandra Ferreira, aborda apagamentos ou relativizações que a obra de Austen sofreu ao ser adaptada para o cinema nos anos 2000. Apesar de alguns pontos fortes do filme “Orgulho e Preconceito”, como o reforço das diferenças sociais que existiam no contexto histórico de Austen, a obra cinematográfica celebra o romance em um nível muito além do apresentado pela escritora em seu livro. Daí a necessidade de situar historicamente temas como o casamento e o amor na obra de Austen.

Coração, Cabeça e Estômago, obra de Camilo Castelo Branco

A ensaísta Flavia Maria Corradin aborda no quarto ensaio “Camilo Castelo Branco Revisitado pela Moderna Dramaturgia” a obra desse autor, considerado o mais importante do romantismo português, por conta de sua originalidade. De acordo com a ensaísta, a intertextualidade está presente nas paródias, estilização e paráfrases de Branco. O último ensaio da primeira parte do livro, de autoria de Renata Soares Junqueira, “Máscaras, Transmutações e Outras Formas do Duplo no Moderno Teatro de Branquinho da Fonseca” diz respeito a esse autor, considerado um dos grandes modernistas portugueses, não somente nas produções literárias, contos e novelas, como também nas obras teatrais. Em suas ficções, a narrativa é marcada por poesia em prosa com personagens que incorporam princípios do romantismo, como o individualismo obsessivo.

 

Na segunda parte do livro, os dois primeiros ensaios discutem a questão da religião na sociedade oitocentista. O primeiro “Cristo Revisitado”, de Aparecida de Fátima Bueno, retoma a obra de Eça de Queiroz, analisando a crítica severa do autor à Igreja Católica do século XIX, com destaque para o romance A Relíquia. Queiroz apresenta um Cristo dessacralizado, que não esconde seus atos falhos, o oposto da visão institucional transmitida aos fiéis pela Igreja.

Eça de Queirós

A obra de Eça de Queiroz continua sendo analisada no segundo ensaio pela perspectiva do orientalismo, mas dessa vez acompanhada pela obra de Machado de Assis. De autoria de Osmar Pereira Oliva, o ensaio intitulado “Eça e Machado e as Reescritas do Livro de Gênesis” destaca em Eça de Queiroz a crítica severa ao clero e a adoção da teoria darwinista, a partir da releitura do Livro de Gênesis. Já em Machado de Assis, a análise da releitura do Livro de Gênesis contribui para identificar a visão deste autor sobre o Oriente, visto que a Bíblia é um texto “paradigmático da cultura oriental” e fundamental nas sociedades ocidentais.

No terceiro ensaio “Quando o Medo Vence o Amor. O Estabelecimento do Domínio Filipino em Oliveira Martins”, de Patrícia Cardoso, é discutida a presença do sebastianismo na obra do historiador Oliveira Martins, que o considera um fenômeno cultural lusitano. Tal fenômeno é utilizado para dar sentido ao passado em seus romances, como em “Febo Moniz”, em que o discurso historiográfico é permeado pela ficção. O quarto ensaio “Gonçalves Dias e a Burocracia Imperial: Favores e Afrontas”, de Wilton José Marques, trata do reconhecimento de Gonçalves Dias como um dos grandes intelectuais do Império e, simultaneamente, rastreia sua inserção no funcionalismo público do segundo reinado do Brasil. Dias queria ser reconhecido como poeta nacional pelos seus méritos literários e não pela via da “lisonja fácil”. A temática indianista é presente em seus poemas, que possuem um tom nacionalista e elementos “de uma nova escola literária”, como foi reconhecido por José de Alencar, seu contemporâneo.

Iracema, de José de Alencar

Iracema, de José de Alencar

O quinto ensaio “Papel da Crítica na Fixação do Indianismo: o Caso José de Alencar”, de Mirhiane Mendes de Abreu, discute o papel do escritor José de Alencar como crítico literário de indianistas contemporâneos, com destaque para as “Cartas sobre a Confederação dos Tamoios”, em que analisou o livro de José Gonçalves de Magalhães. O ensaio ainda destaca outros importantes debates literários com participação de José de Alencar, cuja temática principal era o problema linguístico na literatura local, considerado um dos aspectos controversos da instituição da literatura nacional brasileira. A presença da categoria nacional na retórica oitocentista é o destaque do sexto ensaio, “Retórica do Romantismo”, de Eduardo Vieira Martins. O ensaísta discorreu sobre cinco tratados de retórica: Lectures on rhetoric and belle letres, de autoria do escocês Hugh Blair, “Lições Elementares de Eloquência Nacional” e “Lições Elementares de Poética Nacional” do português Francisco Freire de Carvalho, “Lições de Eloquência Nacional” do padre pernambucano Miguel do Sacramento Lopes Gama e os “Elementos de Retórica Nacional”, de Junqueira Freire. Para Martins, a análise da retórica oitocentista permite uma releitura do romantismo a partir dos valores que orientavam as produções literárias da época, evitando o anacronismo na crítica realizada nos dias atuais.

 

* Historiadora, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e agente cultural na Secretaria de Cultura de Santos. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

Incêndio no Museu Nacional: como preservar os acervos?

Por Renata de Albuquerque

 

O incêndio que se abateu sobre o Museu Nacional do Rio de Janeiro destruiu quase todo o acervo de 20 milhões de peças. Menos de 1,5 milhão de itens saíram intactos. O Museu, que em 2018 completou 200 anos, contava, entre muitos outros itens, com uma coleção de peças egípcias, artefatos greco-romanos e abrigava Luzia, o mais antigo fóssil humano já encontrado no Brasil. Essa tragédia cultural colocou na pauta o tema da conservação dos acervos e dos museus no Brasil, muitos dos quais correm também riscos.

Beatriz Mugayar Kühl

A arquiteta Beatriz Mugayar Kühl, especializada na área de preservação de bens culturais na Katholieke Universiteit Leuven (Bélgica) e doutora pela Universidade de São Paulo e pós-doutora pela Università degli Studi de Roma, explica que o problema não é apenas o dano no acervo. “É um acervo de 200 anos que sumiu. O prédio até pode ser restaurado, mas o próprio edifício era uma peça de acervo, pois mostrava um modo de construir que pegou fogo”, afirma.

Ela, que é uma das organizadoras da Coleção Artes&Ofícios, da Ateliê Editorial, faz parte atualmente de um grupo de trabalho que se dedica a auxiliar na restauração do Museu Paulista. Conhecido como Museu do Ipiranga, ele deve reabrir ao público em 2022, depois de quase uma década em obras. O grupo, formado por profissionais da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) e do Departamento de Pesquisa da Universidade de Ferrar (Itália), tem por função coordenar trabalhos e auxiliar na captação de verbas para preservar tanto a edificação em si quanto o acervo do museu.

Segundo a arquiteta, no Museu Paulista, o diagnóstico estrutural foi concluído em 2017, o projeto arquitetônico de restauração já foi escolhido e está em andamento. “Foi realizado um escaneamento do telhado, para entender como podemos sustentar o forro, por exemplo. Coletamos dados que agora estão sendo analisados e que ajudam os arquitetos a ‘enxergar o que as paredes escondem’, as estruturas, os elementos da construção”. Assim, é possível planejar com mais segurança o restauro e a manutenção futura do edifício, diminuindo o risco para o próprio edifício, o acervo e o público.

“Os museus, principalmente os ligados a universidades, não são apenas locais de visitação. São centros de pesquisa, com elementos que nos ajudam a refletir sobre o hoje, com o olhar contemporâneo sobre peças do passado. E assim conseguimos vislumbrar o amanhã”, avalia.

Com o incêndio do Museu Nacional, aumentou o interesse pelo tema da conservação de acervos. Para quem quer conhecer mais a respeito do assunto, a arquiteta sugere a leitura de Cartas a Miranda, de Quatremère de Quincy. “Esse livro chama a atenção para a questão da preservação. É um livro que pode ser lido por quem está interessado pelo tema”, indica.

Afinal de contas, quanto mais informação tivermos, maior a chance de evitar que tragédias como o incêndio do Museu Nacional se  repitam.

 

 

Conheça outros títulos da Coleção Artes&Ofícios

“Jogo de Palavras”: Dobras da Vida

Renato Tardivo*

Jacó Guinsburg, professor emérito da Escola de Comunicações e Arte da USP, está entre os maiores críticos de teatro do Brasil. É, também, um importante editor, destacando-se pela veiculação de obras de vanguarda, comprometidas com a disseminação de reflexão e cultura.

Qual não é, então, a grata surpresa ao deparar com Jogo de Palavras, livro que reúne uma série de poemas de Guinsburg, escritos entre 2012 e 2018?

Aos 97 anos, o autor revela (e talvez descubra) mais uma habilidade, com poemas que conjugam a um só tempo a maturidade de quem já viveu quase um século e o vigor de quem está começando, como lemos em “Visão”: “Do fundo negro da cidade / ele quis vislumbrar / a luz branca da verdade, / mas só lhe foi dado ver / o céu opaco da cidade”.

Ao atravessar temas como política, memória e questões existenciais, a principal marca dos poemas é o jogo de opostos, “as dobras da vida”, que Guinsburg conduz com humor, densidade e, sobretudo, habilidade.

Não há escapismo (a não ser, ironicamente, para a Pasárgada-Brasília) nem niilismo, mas uma sensatez profunda, o que não amortece a potência “da sombra” entre um verso e outro, uma palavra e outra, em suma, um extremo e outro: “Da sombra noturna / de meus desejos / desprendeu-se / a imagem soturna / dos rostos / que não revejo”.

Não por acaso, os poemas têm ritmo, movimento. Os versos procuram o amanhã, a história, a verdade, a própria poesia: “[…] / na esperança do amanhã / desfeito no amanhecer” (em “Sempre”); “[…] / é a nossa história / que a história / historia…” (em “História”); “[…] / Qual verdade? / A verdade da verdade. / É verdade?” (em “Verdade”); “[…] / o escritor / escreve / o inscrito / no circunscrito / do escrito.” (em “Escritor”).

Com efeito, o jogo, circularidade reversível, não tem fim: em perspectivismo infinito, a vida ramifica-se em dobras.

 

Conheça a obra de Jacó Guinsburg

**Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, dos livros Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp), Cenas em Jogo – Literatura, Cinema, Psicanálise e do volume de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê). 

“A Nebulosa” volta às prateleiras, depois de 150 anos

Joaquim Manuel de Macedo é conhecido por romances como A Moreninha. Mas quem lê outros títulos do autor, como A Luneta Mágica, consegue entrever que há muito mais do que o um “Romantismo” estrito em sua obra. A Nebulosa, “talvez o melhor poema-romance do romantismo [brasileiro]”, segundo Antonio Candido é uma dessas obras que resistem a classificações. O texto ficou mais de um século e meio fora de circulação e agora volta às prateleiras, com apresentação de Ângela Maria Gonçalves da Costa, que fala a respeito nesta entrevista:

 

O livro é tema de sua tese. Por que escolheu esse tema?

Ângela Maria Gonçalves da Costa: Escolhi esse tema por ser um poema esquecido pela crítica acadêmica e estar há anos fora do mercado editorial, sendo raros seus leitores, devido às dificuldades de acesso à obra. Me interessou também em A Nebulosa a problemática que o poema traz, já que está longe das exigências da produção de uma literatura nacionalista. É um poema mais próximo dos sentimentos universalistas e da vertente ultrarromântica. Um canto nórdico medieval produzido em terras tropicais no século XIX.

Como foi feita a pesquisa e que desafios ela impôs?

AMGC: A pesquisa começou com a procura da resposta para uma indagação: Por que um poema de sucesso extraordinário na época da publicação e nos anos posteriores acabou caindo no esquecimento? Com a curiosidade aguçada, alguns livros de história literária brasileira foram consultados para buscar informações sobre o poema. Um comentário elogioso de Antônio Candido, dizendo que “talvez fosse o melhor poema-romance do Romantismo” deu pista de que estava no caminho certo. O interesse foi aumentando. A pesquisa se estendeu para bibliotecas públicas e particulares de Campinas, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais para encontrar a obra. Foram encontrados cinco exemplares da 1ª edição e nove exemplares da 2ª edição, número satisfatório para uma obra não editada há um século e meio, o que levou a pensar na hipótese de tiragem alta e com prestígio na época. Depois do contato com o poema, a próxima fase foi pesquisar a fortuna crítica existente, ou seja, qualquer notícia ou comentário sobre o poema que apareceram em periódicos, cursos e histórias literárias entre os séculos XIX e XXI. Me deparei com vários desafios, como entender o porquê da obra cair no esquecimento, o que levou Macedo a enveredar pela poesia e destoar de outros poemas que apareceram na mesma época. Entretanto, merece destaque a busca pela localização de algumas críticas ao poema que Galante de Souza, nos anos vinte, dizia existir. Segundo ele, no Jornal A Atualidade, em 1860, Bernardo Guimarães escreveu uma série de censuras na Parte Literária do referido jornal, no entanto lamentava não ter localizado nenhum exemplar. Tânia Serra também deu notícia dessas críticas, mas garantiu não ter encontrado nenhuma informação. A busca a esse periódico durou meses e nenhuma pista. Quando já pensava em desistir, estava pesquisando no arquivo Edgard Leuenroth, na Unicamp, quando as sete partes da crítica de Bernardo Guimarães apareceram na minha frente, em ótimo estado de conservação. Foi muito gratificante.

 

Ângela Maria Gonçalves da Costa

A senhora aponta uma ligação desta obra com a poesia celta. Tendo sido escrita em um momento de valorização da “cor nacional”, não seria surpreendente se a obra tivesse passado despercebida (ou negativamente criticada) no momento de sua publicação; mas não foi isso o que ocorreu. O que, em sua opinião, levou A Nebulosa a ter tão boa recepção crítica no primeiro momento?

AMGC: Primeiramente, a obra foi dedicada ao imperador Pedro II, lida e patrocinada no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, local de divulgação da literatura, ciência e política na época. O local era parte de um grande projeto que implicava, além do fortalecimento da monarquia e do Estado, a própria unificação nacional, que seria também cultural. No entanto, a aceitação da oferta ao imperador e a posterior publicação custeada por ele não significava que a obra obteria sucesso. O monarca incentivava, mas a obra deveria caminhar por si só. E A Nebulosa seguiu seu caminho como um poema de rara beleza. O fato de não possuir um caráter nacional – ao menos não da maneira como se compreendia o nacional naquele momento – não afetou a sua boa recepção. Apesar da nacionalidade na literatura brasileira provar a atualidade do poema e a sua inserção nos modelos do que se esperava ser uma poesia brasileira naquele momento, havia também um outro grupo de pensamento na época que acreditava que a poesia poderia ser nacional, mesmo quando abusava do subjetivismo lírico, quando se tratava de uma poesia reflexiva, que analisava os pensamentos e sentimentos, tal qual o que se encontrava em A Nebulosa. Antônio Candido afirmou que, ao lado do nacionalismo, havia no romantismo a miragem da Europa, o norte brumoso. A Nebulosa se insere nessa vertente de temática mais universal. A atmosfera nebulosa, soturna, a descrição da natureza orgânica, o dilaceramento interior das personagens dementes de paixão, brancas e pálidas como “neve” e “cristal” transportados para a imaginação tropical, nos sugere um poema escrito na contramão do projeto nacionalista, mas ainda assim ovacionado pela crítica e pelos leitores em geral.

 

A Nebulosa é uma obra que praticamente ficou desaparecida por mais de um século. Quais são as hipóteses para que isso tenha acontecido?

AMGC: Depois de duas edições no século XIX A Nebulosa praticamente desapareceu das prateleiras de livrarias e bibliotecas. Em 2006 foram localizados cinco exemplares da primeira edição e nove da segunda. Dois fatores podem ter contribuído para isso. Um deles se deve ao esparsamento das críticas em periódicos e histórias literárias. No século XX contamos apenas quinze, menos da metade do que foi produzido no XIX. O último comentário de fôlego data de 1863, por Ferdinand Wolf. Depois disso um longo silêncio até 1882, ano da morte do autor. No século XX, apenas algumas pequenas notas, de tempos em tempos, excetuando Antônio Candido, em 1957, que se debruça na análise do poema na sua Formação da Literatura Brasileira. Os livros didáticos ou obras que interessam ao público universitário nem sequer citam o poema de Macedo, tornando-o desconhecido tanto para estudantes como para estudiosos da obra de Macedo ou do romantismo. Outro fator para o desaparecimento de A Nebulosa pode estar relacionado com o caminho escolhido pelo autor. No seu necrológio, em 1882, um crítico, ao fazer o inventário do autor, assim diz: [A Nebulosa] pode considerar-se como a última corda de sua lira, como o último trabalho que ele fez dominado unicamente por preocupações literárias” (Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 12 de abril de 1882). Macedo foi o representante oficial da literatura romântica e sua popularidade se deve à sua primeira fase, mais romântica. O romance, nessa época, passou a ter um público cada vez mais crescente e encontra o seu lugar na literatura brasileira. O Macedinho, como era popularmente conhecido, para satisfazer a exigência desse público, chegou a publicar entre 1867 e 1870 nada menos que dez títulos! Assim, é possível que com essa fecundidade numérica e um público ávido por romances ou até reedições – Vicentina estava na terceira edição em 1870 – as editoras se empenhassem na circulação dessas obras em detrimento de novas edições de A Nebulosa.

 

Joaquim Manuel de Macedo.

Joaquim Manuel de Macedo é popularmente conhecido por A Moreninha. Para além da questão do gênero literário, que surpresas a leitura de A Nebulosa reserva ao leitor?

AMGC: A Nebulosa pode surpreender não só pelo tema e versos fáceis, mas pela expressão natural dos sentimentos. O poema narra a história de um amor impossível. Essa impossibilidade seria tema recorrente do ultrarromantismo, no entanto, o amor desprezado e o efeito da paixão são desenvolvidos como sentimentos contrastantes no homem e na alma feminina. A mulher é representada como o arquétipo da mulher fatal, que sem misericórdia recusa o amor do Trovador, demonstrando vontade e poder de decisão, ao contrário do papel remissivo comumente dado a ela na literatura europeia. O leitor encontrará no poema toda a matéria romântica, como o gosto pelo passado, o medievalismo, o mistério e o horror, os elementos fantásticos, folclóricos e populares, as elegias de caráter rústico, o pitoresco das bruxarias e malefícios, as fadas e feitiçarias, a poesia tumular, o amor e a morte, a fusão de gêneros e a ingenuidade de sentimentos exacerbados. O que pode surpreender na leitura de A Nebulosa é a percepção de que todas essas características são próprias da poesia ossiânica e medieval e se encontram entranhadas no poema de Macedo.

 

Em sua opinião, esta nova edição de A Nebulosa pode ajudar o leitor (e os críticos) do século XXI a (re)descobrir a obra? Ela ainda é uma leitura impactante, que oferece matéria prima para novas críticas e estudos?

AMGC: A terceira edição de A Nebulosa tanto pode ajudar o leitor quanto os críticos de hoje a redescobrirem a obra há muito esquecida no ossuário do romantismo. O poema é importante enquanto fato estético e como fato da historiografia literária. Sua leitura permite ao leitor entrar num mundo romântico e conhecer os conceitos fundamentais do romantismo: a beleza da morte e seu caráter de fatalidade, a comunicabilidade entre os elementos e os seres, a vida e a morte, a dor e a paixão, um canto fúnebre que sugere uma existência mais bela e essencial, resultando num dos mais belos do romantismo brasileiro. Com o restabelecimento da obra, a crítica literária terá instrumentos que possibilitarão o entendimento total do poema e a constatação de sua importância para a história literária. A publicação de A Nebulosa poderá contribuir para que a crítica e leitores atuais possam apreciar essa obra de grande interesse para o conhecimento mais amplo do romantismo no Brasil, bem como da hoje obscura face poética de Joaquim Manuel de Macedo.

Conheça outros títulos da Coleção Clássicos Ateliê

Irradiações da Literatura Grega na cultura ocidental

Por: Renata de Albuquerque

Dizer que a Grécia é o berço da cultura ocidental é quase um clichê. Mas, você já parou para pensar de que maneira os clássicos gregos ecoam até os nossos dias? O professor, escritor e tradutor Donaldo Schüler não apenas pensou, como estudou a fundo e compartilha esse conhecimento com os leitores no livro Literatura Grega: Irradiações. Ele é Doutor em Letras e Livre-Docente pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde foi professor de língua e literatura gregas. A seguir, ele fala sobre seu mais novo livro ao Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia do livro?

Donaldo Schüler: A ideia vem de longe. Interessa-me a Literatura Comparada, a relação do que se escreve hoje com o que escreviam os gregos. A comparação revela continuidades, interrupções, diferenças. A literatura é construída por nossos interesses. Se lemos Homero, ele entra na esfera das nossas preocupações. Homero é autor vivo. Os leitores lhe dão vida.

O que levou em conta para escolher os autores gregos citados no livro?

DS: A seleção dos autores antigos já foi feita há muitos séculos. Noventa por cento do que os gregos escreveram está perdido. Estamos diante de ruínas. Cada geração constrói a sua própria Grécia. Enquanto refazemos a Grécia com o que resta, nós nos construímos a nós mesmos. A ênfase é dada por nossas preferências. Como estamos ligados à época em que escrevemos, o momento participa de nossas escolhas, nem sempre podemos dar conta da seleção  que fazemos. Dos autores mais recentes, figuram aqueles que entram no horizonte  dos nossos interesses.

Donaldo Schüler

Como foi feito o trabalho de realizar uma “ponte” entre os autores gregos e os autores mais “recentes”, como Machado de Assis, Borges, Guimarães Rosa e Shakespeare?

DS: Os autores que você cita são leitores de textos antigos. Quando Shakespeare põe em cena personagens de outros tempos, ele discute questões do seu tempo. Quem encena Shakespeare hoje está atento ao que acontece agora. O palco é um lugar de muitas ressonâncias. Os heróis buscados no sertão brasileiro preservam traços dos heróis de outros tempos. Mesmo a leitura de autores atuais nos leva às origens. Os textos de Machado de Assis conectam o Brasil com o mundo.

Sob que aspecto é possível dizer que a herança grega é ressignificada por autores mais atuais?

DS: Os gregos estão presentes mesmo quando  nossa atenção não está voltada a eles. Quando pensamos, afirmamos ou negamos o que eles pensaram. Eles são nossos interlocutores. Assim os preservamos vivos. O mundo se amplia quando ultrapassamos o que nos cerca. Nunca somos herdeiros passivos. O que não conquistamos não nos pertence.

Há algo na literatura grega que ainda persiste intocado? Ou: existem “irradiações” sem outras intervenções externas, que mantenham os conceitos inalterados desde a Grécia Antiga?

DS: O tempo modifica tudo.  O que experimentamos acontece pela primeira vez. Aquilo que não tocamos nos escapa.  Vivemos dias acelerados. Muitas são as vozes que advertem o excesso de informações. Se não decidimos parar para pensar, para meditar, para escrever, as informações  nos dilaceram. Paramos para viver.

Em sua opinião, qual a “irradiação” mais interessante enfocada pelo livro e por quê?

DS: O que escrevemos se divide no interesse dos leitores, a irradiação acontece assim. O leitor é ativo. O leitor desmonta e remonta o que lê. O leitor participa da invenção. Significativo é o texto que leva a inventar. O texto provoca, o interesse é a participação do leitor.

 

Conheça mais sobre a obra de Donaldo Schüler

Cinematografia: a poesia da narrativa em movimento

Por: Renata de Albuquerque

Cinematografia é a técnica de projetar imagens estáticas  e sequenciais em uma tela, com velocidade suficiente para dar movimento a elas. As imagens presentes nos 90 poemas de Paulo Lopes Lourenço reunidos em Cinematografia criam narrativas a partir desse conceito. Ilustrado por Fernando Lemos, este é o primeiro livro de poemas de Lopes Lourenço lançado no Brasil. Os textos aqui reunidos foram quase todos escritos durante a estada do autor no país – ele foi Cônsul Geral de Portugal em São Paulo entre 2012 e 2018. A seguir, o autor fala ao Blog da Ateliê:

 

Que autores o influenciam como poeta?

Paulo Lopes Lourenço: Há muito ecletismo nas minhas referências, tanto nas literárias quanto nas plásticas ou visuais, que de resto são até mais marcantes do que as influências sobre os processos de escrita. A tradição poética portuguesa não me passou ao lado, claro, mas seria impossível ignorar anos e anos de paixão pelos clássicos russos ou pela literatura contista americana, ou até mesmo a “escrita automática”. E embora eu escreva de facto poesia, o que escrevo parece radicar mais nas artes visuais, em especial na fotografia e no cinema. Nesse sentido, tanto me sinto impelido a partir de uma peça do Brancusi, quanto por um romance do Scott Fitzgerald, um quadro do Hopper ou por uma canção indy bem escrita. O teatro e o cinema foram uma presença constante enquanto crescia.

 

O que este livro tem de diferente de seus livros anteriores?

PLL: O período que o livro cobre é biográfica e literariamente de transição. Nele se procurou uma certa condição de apaziguamento interior, um armistício íntimo entre o que procuro na escrita – uma liberdade mais irrestrita, a generosa transigência plástica das palavras, a sua possível transmutação estética – com um desejo de honestidade verbal. Nesse sentido, este é um livro mais sereno, mais convalescido, mas também menos inocente, sempre se auto-testando.

 

Por que a escolha do título Cinematografia?

PLL: Este livro poderia ter-se chamado Crónicas dos Primeiros Dias Velhos, expressão que aliás dá nome a um dos poemas da coletânea agora lançada. Cinematografia, porém, tem a vantagem de oferecer uma senha de acesso mais clara sobre o que proponho ao leitor e de algum modo me reconciliar com a ideia que sempre cultivei sobre o processo da escrita: uma fórmula, simultaneamente mais rica e mais limitada, de fazer cinema. Estes poemas poderiam ser fotogramas, fabricados visuais ou instalações. E embora contenham, também, uma experiência narrativa precisa e oculta, eles são a minha coleção particular e pessoal de curtas metragens.

 

Como foi feita a seleção dos poemas que fazem parte deste volume? Eles foram escritos especialmente ou selecionados dentro de universo mais amplo?

PLL: Estes poemas foram escritos nos últimos 7 a 8 anos, formando dois corpos distintos, onde coexistem temas diversos, mas no essencial unidos por uma certa procura de coerência: um mais antigo (e mais curto) e outro mais recente (e mais amplo). Ao longo dos últimos dois ou três anos, começou a surgir a ideia de os publicar como uma peça única que pudesse juntar dois períodos distintos de escrita e, ao fazê-lo, desvendar uma espécie de rito de passagem, de caminho interior consumado, mais reconciliado consigo próprio e, talvez por isso, um pouco mais irônico. Essa transição é, acredito, muito clara para quem lê o livro em sequência.

 

Este é seu primeiro livro publicado no Brasil, escrito durante o período em que morou em São Paulo e lançado no momento em que se despede de sua função como cônsul no país. De que maneira isto afeta a poesia deste livro, os personagens que fazem parte dele, os temas que de ele trata?

PLL: É inegável que muitos dos textos foram escritos nestes últimos 6 anos e que a minha estada aqui os marcou. Não é aliás por acaso que dedico o livro também a São Paulo, a que retribuo de modo muito sincero pelos anos gratos que aqui vivi. E sendo embora verdade que esta cidade tem uma densidade e um lastro próprios que fazem dela intensamente cinematográfica, seria exagerado porém dizer que ela afetou a razão de ser do livro. Ele teria acontecido provavelmente sem São Paulo, embora não lhe pudesse ser indiferente. Longe disso.

Ilustração de Fernando Lemos

A paisagem urbana de São Paulo é parte do cenário de Cinematografia? Como a cidade está presente no livro?

PLL: Há apenas um curto poema alusivo no livro que procura sintetizar o magnetismo da cidade a partir de um olhar conciso e despojado, mas quanto mais falamos sobre S.Paulo, mais corremos o risco de não lhe fazer justiça. Sempre me fascinei pela beleza anônima que se revela inesperadamente numa grande urbe. De uma forma ou de outra, porém, interessa-me mais o ponto de vista do que aquilo que se vê. Interessa-me mais a frase do que o sujeito.

 

No prefácio do livro, Manuel da Costa Pinto escreve: “Paisagens, ruas, casas, interiores, móveis e utensílios imantados de lembranças são, mais do que “correlato objetivo” (o procedimento fundamental da poesia moderna identificado por Eliot), coordenadas espaciais: como no cinema – entendido aqui como arte de esculpir o tempo –, colocam os seres em situação, transformando-os porém em aparição destinada a logo desaparecer, a irmanar-se às coisas”. Como o senhor idealizou esculpir essas imagens de maneira a colocá-las em movimento, criando essa cinematografia?

PLL: Foi de fato como Manuel Costa Pinto que me dei conta pela primeira vez dessa tentação cenográfica, como se de alguma forma eu convocasse figurantes com um determinado propósito cênico, para compor um quadro, uma paisagem ou uma cena, mas que não vingam além do desejo descritivo ou onírico que os anima. De certa forma, embora se tratem de poemas totalmente narrativos (há sempre uma história, um olhar, um pensamento, uma alusão ou até mesmo um axioma ensaiado por detrás de cada um dos textos), a sua natureza é a de uma abstração plástica. Nesse sentido, uma personagem tem a mesma importância que um substantivo ou uma imagem. Por trás de cada composição fotográfica ou de cada encenação, uma narrativa alusiva, um conto em miniatura ou até um esboço de novela – mas o que eu quero provavelmente compartilhar mesmo é a anti-história que se esconde por detrás dessa aparente – e ainda assim convicta – narrativa. É a contra-narrativa que eu busco. É o adjetivo que eu quero contar. Como no cinema, o que me interessa mais é o plano e o movimento da câmera.

“Cenas em Jogo” conecta literatura, psicanálise e cinema

Por: Renata de Albuquerque

“Cenas em Jogo” é o título do livro que traz ao público o resultado do Doutorado do psicanalista, escritor e professor Renato Tardivo. No estudo, ele retoma a intersecção entre psicanálise, cinema e literatura, abordando diversos títulos, como Abril Despedaçado, O Cheiro do Ralo e Linha de Passe. Todas as obras analisadas por Tardivo são brasileiras e carregam consigo uma afinidade temática: “liberdade e opressão, ressignificação da lei e perversão, realidade e ficção, entre outras”. A seguir, o autor fala sobre o lançamento ao Blog da Ateliê:

O livro é resultado da sua tese de Doutorado. Que adaptações foram feitas ao texto original para transformá-lo em livro?

Renato Tardivo: Muito poucas. Desde a minha dissertação de mestrado, também publicada em livro pela Ateliê, percebi que desenvolvia uma escrita ensaística que, conquanto procurasse certo rigor acadêmico, tinha por objetivo principal ser acessível e comunicar-se com o leitor. Nesse sentido, a forma das análises está em íntima conexão com seu conteúdo, uma vez que, mais importante do que defender uma tese junto a este ou àquele grupo, procuro sempre uma forma autoral de expressão e, portanto, de abertura ao diálogo. De forma resumida, é a esta perspectiva que, ao fim do livro, dou o nome de “poético-crítica”.

O título do livro “Cenas em Jogo” remete ao “Jogo de Cena” de Eduardo Coutinho, que também faz parte do livro. De que maneira a problematização da ficção se coloca em “Cenas em Jogo”? Por que essa referência à obra de Coutinho e qual o impacto dela na sua obra?

RT: O capítulo em que me debruço sobre o filme “Jogo de Cena” é, do meu ponto de vista, um dos mais importantes do trabalho, uma espécie de clímax, porque, nele, discuto os temas principais da pesquisa e é a partir dele que o trabalho caminha para um desfecho. É nesta seção do livro, por exemplo, que destaco uma espécie de colapso provocado pela profusão de imagens, informações, discursos, isto é, certa banalização entre a realidade e o artifício. Como resistência a essa conjuntura, talvez a principal mensagem de “Jogo de Cena” seja convocar o espectador a viver o sobressalto inerente à ambiguidade entre ficção e realidade, o que não significa tomar puramente uma pela outra, mas impactar e ser impactado de modo a ampliar as experiências acerca de si e do outro. Dessa perspectiva, ficção e realidade se alimentam reciprocamente e contribuem para construções mais autênticas.

Como se deu a escolha dos títulos que seriam enfocados em sua tese? O que você levou em consideração para eleger cada um?

Renato Tardivo

RT: A escolha não foi imediata. Ao começar o doutorado, tinha consciência de que queria terminá-lo refletindo minha própria tomada de contato com obras literárias e cinematográficas, na interface da arte com a psicanálise. Mas não tinha clareza de como atingir esse objetivo. Foi então que percebi que se tratava de uma pesquisa de processo e que deveria retomar obras com as quais havia entrado em contato nos últimos anos, seja em sala de aula, em debates ou palestras. Por isso, também, retomar o trabalho anterior com o romance Lavoura Arcaica e o filme homônimo, que é o ponto de partida desse processo. Quando defini o corpus, notei que havia uma coerência temática entre as obras, embora diversas à aparência: liberdade e opressão, ressignificação da lei e perversão, realidade e ficção. Daí encontrei um campo fértil para refletir em que medida as leituras acrescentavam sentidos às obras e, reversivelmente, em que medida as obras acrescentavam sentidos à leitura, isto é, em que medida a tomada de contato com as obras pôde construir e fundamentar uma perspectiva de leitura.

Estudos que envolvam a intersecção dos campos da literatura, psicanálise e cinema não são exatamente uma novidade. Por outro lado, esta parece ser uma fonte inesgotável de pesquisa.  De que forma sua obra contribui para esse cenário?

RT: De fato, não são poucos os trabalhos que articulam os campos da literatura, do cinema e da psicanálise. No entanto, grande parte deles parece se apropriar das obras de arte a fim de validar conceitos da psicanálise, fazendo das obras mero receptáculo de teoria psicanalítica, sem contribuições à arte e à própria psicanálise. Em outra direção, encampando a perspectiva da psicanálise implicada, a partir do campo delineado por João A. Frayze-Pereira, orientador da minha pesquisa, procurei me aproximar das obras assumindo o potencial criativo e inventivo da psicanálise e, assim, buscando ampliar as possibilidades de sentido às obras e às leituras que se voltam a elas. Há, nessa medida, certa autonomia entre os ensaios.

Em sua opinião, qual foi o “achado”, a constatação, a “descoberta” mais interessante desse estudo?   

RT: Operar no plano da estética em diálogo com a psicanálise me permitiu desenvolver, no último capítulo do livro, aspectos caros à relação autor-leitor-obra, como “entre o vivido e o imaginado”, “realidade, ideologia, ficção” e minha proposta de “perspectiva poético-crítica”. Mas, sobretudo, mais do que chegar a um “achado”, espero que o trabalho tenha funcionado, parafraseando o esteta Luigi Pareyson, como “um fazer que, enquanto faz, inventa o modo de fazer”.

Conheça a obra de Renato Tardivo

“Konstantinos Kaváfis – 60 poemas” ganha nova edição

A literatura grega não é feita apenas de textos do período clássico da Idade Antiga. Autores mais recentes também reservam ao leitor experiências literárias impactantes, como é o caso de Konstantinos Kaváfis (1863 – 1933), considerado um dos mais importantes escritores cuja produção foi elaborada em grego moderno. Autor de mais de 150 poemas, teve sua obra reunida apenas postumamente.

 “Konstantinos Kaváfis – 60 poemas”, tem seleção e notas de Trajano Vieira, um dos mais importantes pesquisadores da cultura helênica no Brasil. Na obra, o leitor tem a oportunidade de entrar em contato com um universo esteticamente rico e provocador. A seguir, Trajano Vieira fala ao Blog da Ateliê sobre o livro:

Que alterações foram feitas em relação à primeira edição?

Trajano Vieira: A segunda edição mantém exatamente os princípios que nortearam a primeira: tentar apresentar ao leitor, através da linguagem poética, algo da expressividade estética de um autor extraordinário.

Como se deu o processo de tradução dos poemas para esta antologia, à época da primeira edição? Houve ajustes para esta segunda edição?

TV: O processo de tradução foi uma decorrência do processo de leitura dos poemas do autor. Aqueles textos que me tocavam mais, eu os tentava traduzir. Preservei as traduções que, pelo menos para o meu gosto, atingiram alguma qualidade estética. As demais, deletei. De um modo geral, costumo trabalhar assim: só consigo traduzir obras que, no processo de leitura, me motivam a vertê-las. Isso não é garantia de sucesso, apenas um princípio de trabalho.

 

No prefácio do livro, o senhor fala da poesia fantasmagórica e do exotismo dos personagens de Kaváfis. Poderia, por gentileza, falar um pouco sobre isso para os leitores que não conhecem esse autor?

TV: Trata-se da atmosfera que prevalece nos poemas de Kaváfis. Seus personagens são avessos ao banal e previsível. Normalmente suas atitudes sugerem naturezas excêntricas. Parecem viver num universo deslocado, em que não é mais possível realizar suas fantasias. Daí o tema da morte ser tão recorrente em sua produção. Quase nada do tempo histórico vale a pena ser vivido. O imaginário refinado se expande e domina as ações dos personagens. Um dos parâmetros fortes dessa experiência é o ideal clássico, o tom contemplativo avesso ao utilitarismo e à redundância cotidiana.

 

Konstantinos Kaváfis

O senhor destaca ainda a dimensão estética da linguagem de Kaváfis. O que se pode dizer a respeito disso?

TV: Destacam-se, em sua linguagem, o coloquialismo e o distanciamento da elocução, num padrão verbal de elevadíssimo domínio formal, fazendo às vezes pensar em T. S. Eliot. A erudição do autor se evidencia em seu conhecimento profundo da tradição greco-latina. Muito do desespero que se depreende de situações que ele representa se deve à constatação de que certo gosto literário se perdeu irremediavelmente na modernidade. Registre-se, entretanto, que sua poesia é tributária, por outro lado, de um forte traço da produção moderna: a ironia.

 

Como se dá a inserção de elementos teatrais na poesia do autor grego?

TV: Normalmente, através da configuração de um personagem exótico, que parece histórico, mas não é. Esse personagem desenvolve comportamento incomum diante de uma situação. Tal aspecto que denominaríamos ficcional prende a atenção do leitor, surpreendido com a imprevisibilidade da ação. A beleza é um parâmetro central para esse tipo de personagem, não só a beleza de certa forma física, mas a que se busca num determinado estado de espírito, impossível de perdurar ou até mesmo de se provar. Algumas vezes, fica no ar a sugestão de que nada vale a pena, porque até o êxtase mais intenso não passa de uma quimera na temporalidade transitória.

 

Existe um elemento de coloquialismo na poesia de Kaváfis que permitiria fazer uma aproximação deste poeta com a poesia de Drummond. O senhor pode falar brevemente a respeito, por favor?

TV: Haroldo de Campos, em sua tradução notável do poema mais famoso de Kaváfis, “À espera dos bárbaros”, introduz, num certo momento, uma expressão de um poema de Drummond, correlata ao do poeta neogrego. A aproximação seria possível justamente por causa da confluência de ironia e registro coloquial, presente nos dois autores. Certa visão sobre a trágica experiência humana, um reflexo da percepção da brevidade da vida, é outro aspecto que poderia aproximar os dois autores. Contudo, as figuras emblemáticas da poesia de Kaváfis nada têm a ver com as representações de Drummond. A luxúria que retoma certa visão do classicismo tardio é algo que afasta o primeiro escritor do segundo. A melancolia diante da vulgaridade dos fatos cotidianos leva Kaváfis a outra direção, em que os personagens se arriscam e se excedem em sua incontida sensualidade. Esse tipo de risco é menos presente em Drummond, que se retrai muitas vezes diante da potencialidade do desastre.

 

O senhor considera que há um elemento de ironia na poesia de Kaváfis? Como ela se coloca na obra?

TV: A ironia está presente sobretudo no comportamento de personagens que cultivam a hiperestesia, diante da qual os fenômenos cristalizados pelo senso comum num certo contexto não têm nenhuma importância. É da ausência de ilusão sobre a positividade dos fatos históricos que nasce a ironia extremamente sutil com que o autor constrói a experiência incomum. Registre-se, contudo, que sua linguagem é bastante precisa. Ela não padece de indefinições redundantes, nem de evasões de transes surrealistas.

 

Conheça a obra de Trajano Vieira

 

“Moleque de fábrica”: memória de um trabalhador

Por Carina Pedro *

O livro “Moleque de Fábrica – Uma Arqueologia da Memória Social” do sociólogo e professor José de Souza Martins é um mergulho profundo nas memórias do autor, da sua infância à maturidade, das difíceis relações familiares e profissionais estabelecidas entre o campo e a cidade, que ajudaram a formar o homem adulto e acadêmico, crítico de sua própria trajetória. São memórias com as quais muitos brasileiros vão se identificar, seja pela imigração de seus antepassados, pela infância no interior e na cidade (uma das do ABC paulista), em meados dos anos cinquenta, quando ser operário de fábrica era o destino certo da maioria dos trabalhadores. A obra é composta por catorze capítulos, um prólogo e uma conclusão, que nos fazem refletir sobre o Brasil de José e de outros tantos brasileiros.

No primeiro capítulo “Estranho Regresso”, Martins narra sua viagem a Portugal nos anos 70 e a descoberta da história de origem de seu pai, nascido em Santiago de Figueiró. Em pouco tempo, informações surpreendentes sobre sua família paterna foram reveladas, em especial, sobre sua avó Maria de Souza Martins, a Mãe Maria, e o contexto de nascimento de seu filho, Alberto, pai de Martins. Um dos indícios de que algo tinha sido omitido é o fato de Alberto ter herdado apenas o nome de sua mãe. No segundo capítulo “Encontro na Estação Victoria” podemos conhecer mais sobre a família materna do autor, que emigrou da Espanha duas vezes, a primeira para Argentina e a segunda e definitiva para o Brasil, onde após trabalharem nos cafezais, construíram sua própria casa de pau a pique no bairro caipira do Arriá em Pinhalzinho (SP). Entre as memórias compartilhadas, Martins nos revela como foi a morte de seu avô materno e de uma de suas tias, ainda pequena, tragédia que repercutiu na personalidade de sua mãe até os últimos dias.

No capítulo três, “Iniciação ao medo”, o autor nos conta sobre o início da sua vida escolar em um externato católico, com regras rígidas de comportamento, após a morte precoce do pai e a necessidade de sua mãe trabalhar. Outra mudança significativa na vida de Martins e seu irmão foi o segundo casamento de sua mãe, que os levou a morar na área rural, em um pequeno lote de terra em Guaianazes. No capítulo quatro, “A arca encantada”, temos um interessante relato de um evento ocorrido nessa passagem do autor pela roça: a busca de um baú cheio de moedas de ouro enterrado por um antigo senhor de escravos. No capítulo “A cachorra Lembrança”, a partir das dificuldades vivenciadas por Martins e sua família em Guaianazes, o autor faz uma profunda reflexão sobre as principais oposições entre a cultura caipira e a cultura urbana.

O autor com a mãe e o irmão, em 1948, em Guaianazes

O capítulo “Moleques de rua” traz algumas questões sobre a sociabilidade infantil no subúrbio operário. Como exemplo, brinquedo e brincadeira eram coisas diferentes para eles, sendo que o brinquedo só fazia sentido se resultasse em uma atividade coletiva na rua, considerada um território livre para brincar com bola de borracha, papagaio, peão, etc. No capítulo “A margem”, o sociólogo traz à tona a cultura da sova ou a violência doméstica praticada contra os imaturos, atitude que interpreta como uma transferência injusta para os filhos das adversidades da vida operária. Tal prática ocasionou a separação definitiva de sua mãe e seu padrasto. O capítulo “Cada dia do nosso pão” aborda uma nova fase da sua vida familiar e profissional, quando ainda adolescente consegue um emprego na Cerâmica São Caetano.

“Vida intransitiva” traz uma reflexão sobre os conflitos culturais vivenciados pelos imigrantes. O autor discute os dois casamentos de sua mãe, o primeiro com seu pai português, que representou a vitória da cultura europeia e a negação do mundo caipira, e o segundo com seu padrasto, que configurou um retorno sem sucesso para o meio rural. No capítulo dez, “A pulga e a fé”, Martins relata suas experiências nas religiões católica e protestante, sendo esta última considerada pelo autor uma importante influência no seu autodidatismo. Na sequência, em “Os mistérios da fábrica”, o leitor encontrará uma análise detalhada de quem fez parte do sistema fabril. Cumprindo seus deveres de trabalhador na Cerâmica São Caetano, Martins presenciou fatos inusitados, como o suposto aparecimento de um demônio para uma das operárias. Acontecimento que mais tarde virou objeto de estudo do sociólogo.

No capítulo doze “Na última manhã de Getúlio” é abordada a reação à morte de Getúlio Vargas, cuja trajetória cruza com a do fundador da Cerâmica São Caetano, o engenheiro Roberto Simonsen, pioneiro na adoção de direitos sociais e fundador da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Em “A greve” colocam-se outras questões relacionadas ao trabalho na fábrica, como a invisibilidade dos trabalhadores e sua alienação. Há, inclusive, uma crítica aos sindicatos da época, que não prestavam atenção nas crianças e adolescentes. Como ressalta Martins, o trabalho e sua disciplina eram vistos como algo benéfico pelos pais operários. O capítulo catorze, “A saída do labirinto”, é um relato sobre a chegada do autor à vida adulta, a saída da fábrica e o início no curso de Formação de Professores Primários do Instituto de Educação Dr. Américo Brasiliense, de onde saiu formado para ingressar no curso de Ciências Sociais da USP.

Escrever sua própria biografia, baseada nas memórias de um homem comum, que vivenciou a pobreza e as dificuldades que dela derivam, possibilitou ao sociólogo José de Souza Martins compartilhar uma história real, repleta de incertezas e angústias que lhe são próprias, assim como as alternativas encontradas para superar as inúmeras adversidades. Na conclusão do seu livro, após tantas lembranças significativas e comoventes, o autor insiste na necessidade de voltarmos a atenção para o operário de carne e osso, aquele que vai até a fábrica porque precisa e que nela entra como objeto e não como sujeito, com ele foi um dia. Além da consciência da exploração, esse trabalhador precisa se libertar de seu passado e encontrar caminhos para promover as mudanças. Um deles seria o encontro com a grande cultura, aquela que emancipa e provoca superações.

*Historiadora, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo e agente cultural na Secretaria de Cultura de Santos. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

Conheça o livro “Moleque de Fábrica – Uma Arqueologia da Memória Social”