Gustavo Martins

Jornalista e roteirista, publicou os livros infantis “A Arca de Noésio” é “Fábulas para o Ano 2000” pela Ateliê Editorial.

Quem critica editais acredita demais nas virtudes do mercado, diz José Durand

José Carlos Durand:  "empréstimos para cineastas são vício, para banqueiros, virtude"

“Empréstimos para cineastas são vício, para banqueiros, virtude”

O novo livro do sociólogo José Carlos Durand, Política Cultural e Economia da Cultura, lança luz sobre uma questão que aflige o setor há décadas: o que falta para nossa produção cultural tornar-se profissional e sustentável?

A antologia de ensaios cobre o período entre 1995 e 2010,  abordando temas como a falta de visão sistêmica na gestão pública, amadorismo na administração da cultura, formação de agentes culturais, leis de incentivo, o papel da crítica e das premiações, além de fazer um panorama comparativo da política cultural na França, Inglaterra e Estados Unidos. Leitura provocativa e essencial para qualquer pessoa envolvida no (ou curiosa pelo) tema.

Em entrevista por email, José Durand comentou alguns dos temas abordados no livro, como a nomeação de artistas para cargos no Executivo, incentivos fiscais para o cinema e a formação de público para eventos culturais de pequeno porte. Leia abaixo:

Um dos temas tratados no livro é a necessidade de profissionalizar a gestão de cultura no Brasil, um contraponto à ideia de colocar “medalhões” das artes para decidir políticas públicas, por exemplo. Você acha que o episódio recente do Ecad, em que um comitê de artistas foi ao Senado pressionar por medidas regulatórias, é um exemplo disso?
José Carlos Durand: O artista ou intelectual consagrado costuma ser impaciente com processos burocráticos e exigências legais, então precisa ser assessorado por gente capaz de lidar com essas situações. Então, prestígio pessoal não é só o que importa. Agora, no caso do Ecad, não foi a visita de “medalhões” que definiu o curso de ação, mas sim uma controvérsia social envolvendo artistas, advogados, fiscais de direitos autorais, gravadoras, promotores públicos etc. Houve até comissão de inquérito. Os “medalhões” foram apenas levantar o brinde ao que havia sido aprovado, e gerar um pouquinho de mídia que não faz mal a ninguém.

Mês passado, o professor e palestrante americano Dov Simens veio ao Brasil e declarou que nossos cineastas estariam “viciados em dinheiro público”. Você concorda com essa visão?
JCD: De um modo geral, críticas como essa partem de pessoas crédulas demais nas virtudes do mercado e nas possibilidades de obter recursos privados a projetos culturais sem antes perguntar se o país em questão tem tradição de real mecenato privado, se tem ou não um parque exibidor aberto a comprar produção independente, se os filmes que o governo financia tem teor cultural, se os cineastas tem uma origem social privilegiada etc. A propósito, por essa lógica, o campo acadêmico cientifico brasileiro seria uma negação total, pois seus projetos de pesquisa são financiados com recursos praticamente só do setor público. É preciso considerar que, em geral, quem acusa cineastas de “viciados em dinheiro público” acredita que, no caso de empresários e banqueiros, tal conduta deixa de ser vício para ser a maior virtude. Ou seja, reclamar e abiscoitar empréstimos subsidiados, a juros negativos, sem nenhuma preocupação com qualquer término ou “porta de saída”, que tanto se cobra de programas de distribuição de renda a quem realmente precisa.

O livro aborda uma questão sensível a todos os campos culturais no Brasil: a dificuldade de formação de público. Seja na música, no cinema ou nas artes plásticas, a sensação é que temos “blockbusters” sazonais que atraem muito público, mas não parecem beneficiar a audiência dos eventos menores, que têm muita dificuldade em chamar atenção. Como se pode diminuir essa diferença?
JDC: A formação de público depende antes de tudo da formação de repertório, que deriva, ao longo do tempo, da educação do gosto e da correlata capacidade de se enfastiar com uma oferta estereotipada e sempre a mesma de bens culturais. Mas é preciso lembrar que a situação é hoje melhor do que antes para os “eventos menores”, devido às novas tecnologias de produção e circulação de bens culturais, e correlato barateamento, o que permite às pessoas navegar mais agilmente em um universo de escolhas muito maior do que algumas décadas atrás. E aos jovens escritores de imprimir seus textos inaugurais e aos jovens compositores e gravadores de registrar sua criatividade e difundi-la em seus círculos.

Quais, na sua opinião, são as medidas mais urgentes a serem tomadas para profissionalizar e fortalecer a política e economia culturais no Brasil?
JCD: O mais urgente é fortalecer a qualidade do ensino sobretudo para aquelas faixas etárias mais importantes para a formação de um gosto mais qualificado em matéria cultural. Coincidentemente, é aquela faixa etária (15-20 anos) que está mais exposta às situações de risco nas periferias das grandes cidades e nas regiões economicamente mais atrasadas. E falo de risco meeesmo, inclusive de vida, e não apenas de universo simbólico empobrecido. Do ponto de vista de gestão cultural propriamente dita, orçamento maior para ministério e secretarias estaduais e municipais, com criação de cargos mediante admissão por concurso e plano de carreira. O MinC no período Lula realizou essa ampliação. Lamentavelmente, há um pensamento conservador para o qual toda e qualquer expansão dos quadros do Estado significa sempre e tão somente “inchamento”, “nepotismo” e “ociosidade”. Levar em conta também que estruturação de carreira e funcionários estáveis significa evitar melhor não interromper tudo o que se faz quando mudam os dirigentes, a cada eleição.

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Eromar Bomfim lança Coisas do Diabo Contra em Paraty

Cenas de crime e violência foram presenciadas no último sábado (6), durante a 11ª Feira Literária Internacional de Paraty. Não houve vítimas, apenas espectadores: era o lançamento do romance Coisas do Diabo Contra, de Eromar Bomfim, que teve trechos lidos pelos atores José de Abreu e Domingos Montagner. O evento lotou a Casa do Autor Roteirista, espaço que levou uma programação paralela de debates sobre literatura e audiovisual à Flip.

Nas palavras do autor, “o livro é a história de um assassinato e de um parricídio. Os personagens são revoltados por condição de fraqueza da humanidade, e conseguem resolver esta fraqueza por meio de gestos radicais e violentos”. A trama é contada por um ex-funcionário de Matias Tavares de Aragão, megaempresário cuja perda da mulher lhe causa uma epifania: só o crime justifica a existência. A partir de uma sombria proposta de negócios, ele envolve sua família em uma cadeia de episódios sangrentos. Sem entregar detalhes, o Bomfim completa: “Os personagens elaboram a ideia de que, pela posse do outro, há uma superação da morte”.

O livro tem projeto gráfico elaborado pela Casa Rex, do artista plástico Gustavo Piqueira.

Domingos Montagner (com José de Abreu ao fundo) lê trechos de Coisas do Diabo Contra

Domingos Montagner (com José de Abreu ao fundo) lê trechos de Coisas do Diabo Contra

Antes do lançamento, Eromar Bomfim participou da mesa “Sentidos do Crime: Formas Literárias de Tratar o Crime na Literatura e TV”, com Paulo Lins (Cidade de DeusSuburbia) e Luiz Eduardo Soares (Elite da Tropa), mediada pelo cientista político Carlos Novaes. Os autores falaram sobre suas linhas particulares de exploração do crime como objeto literário: Paulo Lins pelo viés social (“o crime como reação”), Luiz Eduardo Soares pela antropologia e Eromar pela investigação dos limites da crueldade — ou como acabou-se definindo no debate, “o crime como escolha”.

Eromar Bomfim (esq.) e Carlos Novaes durante o debate

Eromar Bomfim (esq.) e Carlos Novaes durante o debate

Após o debate e a leitura de dois trechos de Coisas do Diabo Contra — que deram ao público uma ideia das situações extremas a que Bomfim expõe seus personagens –, o autor iniciou a sessão de autógrafos. O livro também terá lançamento em São Paulo, que será anunciado em breve.

O editor Plinio Martins e Eromar Bomfim durante a sessão de autógrafos

O editor Plinio Martins e Eromar Bomfim durante a sessão de autógrafos