Gabriel Magalhães

O Centenário de Triste Fim De Policarpo Quaresma (1915-2015)

José de Paula Ramos Jr.*

José De PaulaLima Barreto (1881-1922) entendia que o escritor tem compromisso com a realidade, devendo esforçar-se para revelar o que os simples fatos não dizem. A literatura deveria também cumprir um papel ético, contribuindo para melhorar a humanidade. Por isso, julgou necessário denunciar a hipocrisia, a intolerância, a ambição egoísta e a injustiça, que ele via na base da sociedade brasileira no tempo da então jovem república. Tinha da literatura uma visão militante e usou dela para expressar sua revolta, solidarizando-se com a gente humilde.

Entre os poucos livros publicados em vida do autor e vários outros póstumos, a crítica e a história da literatura brasileira distingue o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915) como a obra-prima de Lima Barreto. Ele conta a história de um idealista, que dedica toda a sua vida ao Brasil e acaba condenado à morte, acusado de traição à pátria.

Policarpo Quaresma faz lembrar o otimismo do doutor Pangloss. Para essa personagem da sátira de Voltaire, este mundo é o melhor dos mundos possíveis; para o protagonista da sátira de Lima Barreto, o Brasil é o melhor dos mundos possíveis. E se não é, deveria ser, pois teria todas as condições favoráveis para isso, desde que o país e a nação se encontrassem com sua própria cultura. Assim pensando, ele lê e estuda todos os livros de sua vasta biblioteca, totalmente dedicada ao Brasil, até decidir pôr em prática as suas ideias, para espanto de vizinhos e amigos, para o deboche da imprensa e da população carioca, quando ele propõe ao Congresso Nacional um decreto que tornasse o tupi-guarani a língua oficial do Brasil, em desfavor da língua portuguesa, e para escândalo dos burocratas do Arsenal de Guerra, onde ocupava o cargo de subsecretário. A hostilidade dos colegas de trabalho e da chefia leva o ingênuo Quaresma ao delírio persecutório e ao manicômio, onde fica internado por seis meses. Ao sair, deprimido e aposentado, muda-se do bairro carioca de São Cristóvão para um sítio, em Curuzu, pouco distante do Rio de Janeiro.

Na roça, Quaresma recupera o antigo entusiasmo nacionalista, agora voltado à convicção de que o Brasil poderia tornar-se o celeiro do mundo. Dedica-se ao trabalho em sua propriedade rural com afinco, para decepcionar-se com a quebra de safra, por força do ataque de saúvas, com a peste que dizimara metade dos animais de criação, e com os magros resultados comerciais apurados, em decorrência dos custos de embalagem e transporte dos produtos, da especulação dos atravessadores e dos achaques fiscais. Chega à conclusão de que “tornava-se necessário refazer a administração. Imaginava um governo forte, respeitado, inteligente, removendo todos esses óbices, esses entraves, […] espalhando sábias leis agrárias, levantando o cultivador… Então sim! o celeiro surgiria e a pátria seria feliz”.

Quando tem notícia da Revolta da Armada (1893), que considera um movimento impatriótico, redige um memorial propondo profunda reforma da economia agrária do país e o entrega pessoalmente ao presidente da república, o marechal Floriano Peixoto, na ocasião em que se oferece como voluntário na luta contra os insurgentes. Quaresma, então, recebe a patente de major de artilharia, mediante o pagamento de vultosa quantia, mesmo sem nunca haver disparado um tiro.

Durante as refregas, Quaresma tem a oportunidade de encontrar Floriano Peixoto, que visitava o posto do major, e de perguntar sobre o memorial. Floriano responde que o havia lido e considerava as propostas como a obra inexequível de um “visionário”.

Decepcionado, Quaresma começa a questionar as qualidades do presidente:

Era pois para sustentar tal homem que deixava o sossego de sua casa e se arriscava nas trincheiras? Era, pois, por esse homem que tanta gente morria? Que direito tinha ele de vida e de morte sobre os seus concidadãos, se não se interessava pela sorte deles, pela sua vida feliz e abundante, pelo enriquecimento do país, o progresso de sua lavoura e o bem-estar de sua população rural?

Vencidos, os marinheiros revoltosos são aprisionados. Quaresma é designado carcereiro, até ser preso e condenado à morte por uma carta escrita ao presidente, em que denunciava as injustiças e atrocidades cometidas contra prisioneiros, arbitrariamente fuzilados.

Eis aí o triste e irônico fim desse Dom Quixote carioca e, sobretudo, brasileiro cujo nome é um oximoro, pois “Policarpo” significa “muitos frutos” (do grego, “poli” + “karpós”), enquanto “Quaresma” é vocábulo que designa o período litúrgico cristão em que a vida se recolhe. Por dar tantos frutos em tempo estéril, o herói visionário sucumbe, vencido pela hipocrisia, pela mediocridade, pelos preconceitos, pelo egoísmo, pelo descaso com os interesses republicanos do país e de seu povo.

Há cem anos o romance se mantém atual.

O texto de Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicado na coleção Clássicos Ateliê, foi estabelecido com base no da primeira edição da obra em livro (1915), lançada no Rio de Janeiro pela Revista dos Tribunais, em cotejo com o do segundo volume das Obras Completas de Lima Barreto, organizadas por Francisco de Assis Barbosa, Antônio Houaiss e M. Cavalcanti Proença, em 1956, para a Editora Brasiliense, de São Paulo. A ortografia foi atualizada, segundo o Acordo Ortográfico vigente, mas mantida a pontuação original do autor. Obedecendo ao rigoroso padrão de qualidade da Ateliê Editorial, o volume traz uma ampla e lúcida apresentação crítica de Ivan Teixeira e notas ao romance, elaboradas por Gustavo B. Martins. As ilustrações artísticas foram executadas por Paulo Batista. Há, ainda, documentação iconográfica.

Ivan Teixeira (1950-2013) foi professor de Literatura Brasileira na ECA/ USP e na Universidade do Texas, em Austin. Escreveu, entre outros, Mecenato Pombalino e Poesia Neoclássica (EDUSP) e O Altar e o Trono: Dinâmica do Poder em O Alienista (Ateliê Editorial; Editora UNICAMP). Gustavo B. Martins é jornalista formado pela Universidade de São Paulo, autor de A Arca de Noésio e Fábulas para o Ano 2000 (ambos publicados pela Ateliê Editorial). Paulo Batista é designer gráfico, ilustrador e cartunista, tendo participado de revistas como Chiclete com Banana e Animal.

* Professor do curso de Editoração na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Entre outros, é autor do livro Leituras de Macunaíma: Primeira Onda (1928-1936), publicado pela parceria EDUSP-FAPESP, em 2012. Dirige a Coleção Clássicos Ateliê.

 

Lima Barreto: nota biográfica

José de Paula Ramos Jr.*

LimaBarretoAfonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, numa sexta-feira 13 do mês de maio, ano de 1881. Segundo a superstição, um dia nefasto, que marcaria a triste sina da criança.

Filho de Amália, professora primária, e João Henriques, respeitado tipógrafo da Imprensa Nacional, o jovem Afonso Henriques estuda no Ginásio Nacional (Colégio Pedro II) para ingressar, em 1897, no primeiro ano de engenharia da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Após cinco anos, Lima Barreto abandona o curso superior sem concluí-lo, ingressa na Secretaria da Guerra como amanuense concursado e, com modestos proventos, muda-se para o subúrbio de Todos os Santos com o pai, que havia enlouquecido, três irmãos, Priciliana (companheira de João Henriques desde a morte da esposa) e seus três filhos, além do velho agregado Manuel de Oliveira, todos dependentes dele.

A vida de burocrata era tediosa. Sentia-se amesquinhado na repartição. Havia nela o mesmo preconceito que tanto ferira seu orgulho na Politécnica. Via gente sem merecimento subir na hierarquia, enquanto ele era preterido. Com o tempo, foi relaxando o zelo profissional, ao passo que intensificava a participação no jornalismo e na vida boêmia, adquirindo o vício da bebida. O álcool foi um trágico refúgio para aquela alma orgulhosa e sofrida, que se sabia superior, mas que era barrada pela sociedade preconceituosa. Faltava dias e semanas na repartição, tornara-se extremamente desleixado com sua pessoa, andava roto e sujo, chegava a exalar um odor desagradável. Nas crises de bebedeira, ficava horas parado na rua de maior movimento do Rio, afrontando com sua figura bizarra os elegantes que passavam; depois, andava quilômetros, por toda a cidade, parando nos botecos, bebendo cachaça até cair na sarjeta. Assim, veio a sofrer seu primeiro delírio. A família decidiu interná-lo no Hospital Nacional de Alienados, onde ficou dois meses. Não adiantou o tratamento, em pouco tempo estava de novo enredado na bebida.

De novembro de 1918 a janeiro de 1919, o escritor esteve internado no Hospital Central do Exército. Estava com a clavícula fraturada e padecia de muitos males decorrentes do “alcoolismo crônico”, como dizia o laudo médico. Ao sair, aposentou-se, com vencimentos proporcionais aos 14 anos de serviço público.

Os últimos anos de Lima Barreto foram mais que melancólicos. Sua aparência de quase indigente afastava até os admiradores, como Monteiro Lobato, que, numa passagem pelo Rio, quis conhecer o “mestre” pessoalmente, mas foi encontrá-lo num estado de embriaguez e miséria humana tão deprimente que preferiu ir embora, sem se fazer apresentar.

Lima Barreto, vencido pela doença, finalmente falece no dia primeiro de novembro de 1922. Um pequeno grupo de amigos compareceu ao velório na casa suburbana, que o extinto costumava chamar “Vila Quilombo”. Levaram o caixão para a estação de Todos os Santos, de onde o carro fúnebre da Central do Brasil o transportaria para ser enterrado no cemitério de São João Batista, no bairro de Botafogo. Chovia muito, mas, à passagem do corpo pelas ruas barrentas do subúrbio, aquela gente sofrida da vizinhança, os “humilhados e ofendidos” que Lima Barreto dignificara em sua obra, aproximava-se e, em silêncio sentido, acompanhava o cortejo.

* Professor do curso de Editoração na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Entre outros, é autor do livro Leituras de Macunaíma: Primeira Onda (1928-1936), publicado pela parceria EDUSP-FAPESP, em 2012. Dirige a Coleção Clássicos Ateliê.

Conheça a obra O Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto no site da Ateliê.

 

Livros e Leituras na Espanha do Século de Ouro

Carolina Ferro | Revista História da Biblioteca Nacional | Seção: Livros | Página 94 Março de 2015

765_01O acesso ao livro nunca foi tão democrático. Esta reflexão ganha peso ao compararmos nossa época com momentos anteriores, quando esse objeto podia ser obscuro e proibido – por isso mesmo, instigante. Foi o que ocorreu na Espanha do século XVII, período conhecido como Barroco ou Século de Ouro. A maioria da população era analfabeta, mas, em época de poucas mídias, uma obra literária podia ter um alcance maior do que se imagina. Castillo Gómez recorre a documentos de arquivo, testemunhos escritos, pistas encontradas na materialidade das obras, folhas soltas, panfletos e bilhetes para compreender como e onde aquela sociedade lia e qual era o sentido dessas leituras.

O autor aborda aquela que era considerada boa ou má leitura, a forma erudita de fazê-Ia somada à produção de conhecimento, as transgressões daqueles que liam obras censuradas pela Inquisição, a leitura solitária e em comunidade, que fazia com que o acesso à obra fosse além de um único leitor, tanto no âmbito religioso quanto no profano. A importância dada aos livros aparece também nas biografias de homens do período.

Todos os temas se dividem em seis capítulos, e estes, em subcapítulos estimulantes, e contam com uma excelente tradução realizada por  Claudio Giordano. O exemplar tem nove reproduções de documentos  que dão a dimensão da variedade de suportes e tipos de escrita pesquisados, como um cartaz publicitário do ilusionista flamengo Juan Rogé (impresso) e anotações de leitura de Juan Vázquez del Marmol (manuscrito). Uma obra memorável para os bibliófilos.

Cotação do Livro: Altamente recomendável

Conheça a obra Livros e Leituras na Espanha do Século de Ouro no site da Ateliê.

 

A Outra Guerra do Fim do Mundo

Bruno Garcia | Revista História da Biblioteca Nacional | Seção: Livros | Página 95 Fevereiro de 2015

760_01“Dois homens carecas brigando por um pente”, era como o escritor argentino Jorge Luis Borges descrevia a Guerra das Malvinas.

O pequeno arquipélago no Atlântico Sul atiçou a ambição patriótica da ditadura militar argentina no começo a década de 80. Mas, a despeito de suas intenções, a aventura durou pouco mais de dois meses, terminando com a vitória retumbante do Reino Unido. Em A Outra Guerra do Fim do Mundo, Osvaldo Coggiola recupera não apenas detalhes preciosos do conflito, dados e movimentações dos exércitos, como também investe na legitimidade dos discursos de ambos os países para justificar suas posições. De um lado, o regime argentino em crise, apelando urgentemente para um nacionalismo redentor, de outro, o imperialismo britânico, e suas idiossincrasias imorais. O resultado é um precioso trabalho por parte do historiador argentino que termina por colocar os pingos nos is, demonstrando a perplexidade e os absurdos de um dos conflitos mais inusitados da história contemporânea.

Cotação do Livro: Muito recomendável

Conheça a obra A Outra Guerra do Fim do Mundo no site da Ateliê.

No Rastro dos Mitos

Maria Luiza Tucci Carneiro escreve sobre como surgiu a obra Dez Mitos sobre os Judeus, um trabalho que marca sua própria trajetória de pesquisadora acadêmica

Maria Luiza Tucci - Foto por Boris Kossoy, 2014

Maria Luiza Tucci – Foto por Boris Kossoy, 2014

Por Maria Luiza Tucci Carneiro

Escrever o livro Dez Mitos Sobre os Judeus foi um grande desafio, por exigir a depuração de uma pesquisa que realizo desde 1972 quando iniciei o meu mestrado junto a Universidade de São Paulo, sob a orientação da Profa. Dra. Anita Novinsky. Ao investigar as raízes do racismo no Brasil desde os tempos coloniais, deparei-me com o mito da pureza de sangue que, desde o século XV, servia aos interesses da Inquisição e do Império absolutista na Espanha e, posteriormente, em Portugal. As primeiras descobertas surgiram das pesquisas que realizei nos arquivos da Torre do Tombo em Portugal, na Biblioteca Nacional de Lisboa, na Cúria Metropolitana de São Paulo e Belém do Pará. Analisando os Sermões de Autos-de-Fé, os Processos Inquisitoriais e os Processos de Habilitação de Genere e Moribus, deparei-me com um mundo intolerante, delineado pela força dos mitos. Constatei que, ao longo de séculos, uma retórica intolerante era articulada com o objetivo de excluir os judeus, os ciganos, os negros e os mouros das sociedades ibérica e brasileira. O discurso dominante, ordenador da sociedade, fundamentava-se na mentira que é portadora de uma aparência  ou de uma probabilidade de verdade.

Procurando compreender a narrativa do mito da pureza de sangue, que classificava os judeus e seus descendentes como uma “raça infecta”, deparei-me com outros mitos: do judeu errante, do judeu deicida, do judeu avarento e parasita. Seduzida pelas possibilidades metodológicas oferecidas pela análise do discurso à luz do imaginário e dos mitos, ampliei meu repertório ao constatar que a maioria dos estigmas que caracterizavam o antissemitismo de fundamentação teológica (do século XV ao XIX) persistiam no século XX servindo também aos nazistas interessados em divulgar a imagem maligna dos judeus. Inquieta, saí em busca de documentos que comprovassem também o endosso do mito da pureza de sangue por intelectuais, cientistas e diplomatas brasileiros. Adentrei aos arquivos diplomáticos e bibliotecas brasileiras em busca de documentos oficiais, obras raras, peças de teatro e charges que expressassem a circulação dos mitos no Brasil. Foi quando identifiquei um corpus documental  expressivo do discurso antissemita que, a partir  de 1930 e 1940, servia para “diabolizar os judeus enquanto eternos “bodes expiatórios”. Estavam abertas as portas para a minha tese de doutorado publicada em 1988 sob o titulo O Anti-semitismo na Era Vargas: Fantasmas de uma Geração, hoje na sua 3a edição.

A partir deste momento, defrontei-me com a persistência de outros mitos que, ainda hoje, circulam pela internet: do complô internacional judaico-comunista fundamentado na obra apócrifa Os Protocolos dos Sábios de Sião e do Judeu Internacional, de Henry Ford. Cruzando com outras narrativas, identifiquei um universo rico em mentiras que, de forma generalizada, construíam teorias conspiratórias seduzindo todos os tipos de indivíduos, bem e mal informados. Interessados em encontrar uma resposta para os seus problemas pessoais ou do seu grupo, deixavam-se envolver pelo medo e por referências do passado. Concentrei o foco das minhas pesquisas nos documentos que acusavam os judeus de formarem uma “sociedade secreta” relacionando-os com a Maçonaria. Endossados pelos nazistas, estes mitos ajudaram a construir a imagem do “perigo judaico” ou “perigo semita” interpretado sob o prisma do capitalismo enquanto sistema econômico destruidor da Humanidade. Emergia assim a imagem da hidra e do “monstro das sete cabeças” que quer tragar o povo, alimentando as mentes fantasiosas que não precisam ver para acreditar.

Analisando as charges divulgadas na Alemanha, na França, na Argentina, no México, e no Brasil durante as décadas de 30 e 40,  constatei que um conjunto de metáforas – do sangue impuro, do judeu avarento, do judeu comunista-maçon, dentre outras – facilitavam a circulação dos mitos, sendo destiladas por cartunistas, caricaturistas e literatos. Percebi que, em doses homeopáticas, as mentes vão sendo forjadas, ao longo dos séculos, pela introdução de personagens que amedrontam instigando o ódio e a repulsa aos judeus. Daí o livro Dez Mitos Sobre os Judeus articular textos com imagens propagadas através da pintura e da caricatura. A partir destes registros, procurei analisar a ideia de “perigo judaico” sob a lógica da desconfiança. Constatei que ao longo dos séculos, um conjunto de mentiras instigaram os movimentos de “caça as bruxas”, transformando os argumentos em forças mobilizadoras, ou seja: justificavam as prisões e o extermínio do povo judeu, incitando o ódio, prisões, torturas, deportações e massacres que culminaram no Holocausto.

À luz das teorias racistas, retomei a imagem do judeu apátrida que, cruzada com a imagem do judeu errante, levou-me a refletir sobre a imagem do judeu enquanto cidadão do mundo, tema que serviu de inspiração para a minha tese de Livre-Docência apresentada na FFLCH/Universidade de São Paulo em 2001. Hoje, publicada em livro, este livro sintetiza a minha trajetória de historiadora dedicada aos estudos dos mitos e do antissemitismo, em particular.

A partir destas narrativas, fui reconstituindo os centros produtores do ódio e da intolerância antissemita com o objetivo de identificar a multiplicação da mentira que atravessa séculos. Para compreender o processo de construção dos mitos – dentre os quais o mito ariano divulgado pelos nacional-socialistas e endossado por milhares de cidadãos dos países colaboracionistas da Alemanha nazista – optei por analisar a ideia/imagem de “perigo judaico” sob a lógica da desconfiança. Imediatamente, constatei que ao longo dos séculos, um conjunto de mentiras instigavam os movimentos de “caça as bruxas”, transformando os argumentos em forças mobilizadoras, ou seja: justificavam a prisão e os extermínio do povo judeu, incitando o ódio, prisões, torturas, deportações e massacres que culminaram no Holocausto.

Para “descontruir” o processo  de demonização dos judeus enquanto símbolo do Mal, recuei no tempo em busca da gênese do mito que afirma que “os judeus mataram Cristo”. Passei a analisar as Sagradas Escrituras que, durante o Medievo, receberam acréscimos e alegorias por parte dos cristãos que procuravam se autodefinir como aqueles “respeitavam D’us e não cometiam delitos”. Constatei também que representações artísticas somavam forças às mentiras propagadas pelos cristãos que, desde os séculos II e III, instigavam o ódio aos judeus acusando-os de terem “matado Cristo”. Lembrei-me dos meus catecismos e dos sermões que ouvi durante a minha infância na minha cidade natal. Constatei que, assim como tantos outros católicos, eu havia sido “educada” à luz dos mitos do deicismo e do judeu errante, imagens que permeiam (ainda hoje) o imaginário cristão.

Foi assim que reuni, ao longo as minhas pesquisas e instigada pela atual realidade que abala a sociedade ocidental, o conjunto de mitos que deram origem ao livro Dez Mitos Sobre os Judeus. Dentre os mais popularizados, selecionei: Os judeus mataram Cristo, são uma entidade secreta, dominam a economia mundial, não existem judeus pobres, são avarentos, não têm pátria, são racistas, são parasitas, controlam a mídia e manipulam os Estados Unidos. Articulando o passado com o presente e alertando para o perigo de um futuro intolerante e racista, apresento alguns dos mitos políticos que deturpam a união e identidade religiosa dos judeus, enquanto mitos criados por “outros”, em uma visão preconceituosa, que deprecia com a intenção de acusar e condenar.

Para facilitar a leitura, estruturei os Dez Mitos Sobre os Judeus no formato de um breviário, uma composição de textos breves que podem ser lidos em doses homeopáticas. Apesar de numerados, não têm uma ordem obrigatória, cada qual tem vida própria. Para encerrar cito um fragmento do Prefácio escrito pelo sociólogo Kabengele Munanga:

Os judeus não são os únicos sujeitos/objetos de mitos em nossa sociedade, salienta a autora: as mulheres, os indígenas, os ciganos, os negros e os homossexuais são também objetos de mitos e das piadas que, mesmo contadas de maneira lúdica, não deixam, apesar dos risos relaxantes, de nos transportar ao mundo simbólico cujos efeitos políticos e ideológicos não devemos minimizar.”

*Maria Luiza Tucci Carneiro: Historiadora e Professora Associada do Departamento de História da FFLCH, Universidade de São Paulo, credenciada nos seguintes Programas de Pós-Graduação da Universidade de São Paulo: História Social da FFLCH/USP; Direitos Humanos da Faculdade de Direito São Francisco/USP; e Língua Hebraica e Árabe, FFLCH-USP. Coordenadora do LEER – Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação, do Departamento de História, onde desenvolve o projeto Arqshoah – Arquivo Virtual sobre Holocausto e Antissemitismo. Além do Dez Mitos Sobre os Judeus, publicou pela Ateliê Editorial: A Imprensa Confiscada pelo DEOPS – 1924-1954 (Vencedora do Prêmio Jabuti em 2004), em co-autoria com Boris Kossoy; Judeus e Judaísmo na Obra de Lasar Segall, este em co-autoria com Celso Lafer, e Livros Proibidos, Ideias Malditas. Pela editora Perspectiva: Preconceito Racial em Portugal e Brasil Colônia: O Mito da Pureza de Sangue, Séculos XVI ao XIX; O Anti-Semitismo na Era Vargas; Cidadão do Mundo. O Brasil Diante do Holocausto e dos Refugiados do Nazifascismo, 1933-1948; O Veneno da Serpente: Reflexões sobre o Anti-semitismo no Brasil. 

Conheça essa e todas as obras de Maria Luiza Tucci Carneiro publicadas pela Ateliê.

 

Lagoa da Conceição e uma tarde de domingo

Brechó na Rua 3 - blog

por Daniel De Luccas

Domingo, 22, o tempo virou em Floripa. Para quem planejava vender alguma coisinha no Brechó na Rua, a pergunta era, “será que chove?”. Digno do ócio pra curtir o friozinho que bateu, o domingo esperava por uma decisão, mesmo por parte daquele que dizia “irei guardar este dia como meu ‘sábado’ e as atividades serão: virar página de livro ou dar play em filme”. Mas foi o “preciso pagar minhas aulas de Yoga” que me deu o ponta-pé pra sair da cama, juntar as tralhas, achar um espaço no gramado da Lagoa e expor os poucos itens que eu tinha e nem sabia o preço ainda.

Em meio a roupas, malas, discos, livros, sanduíches e incensos, achei um cantinho acuado, estendi a canga, sentei e comecei a folhear um livro. Assim que levantei a cabeça reconheci, de um café que frequento, minha “vizinha de canga”. Iniciei ali uma conversa com ela, depois, com um casal que vendia livros usados à minha frente (do Sebo O Escambau), com os interessados em meus apetrechos, com o fotógrafo que gostou da minha máscara da Indonésia e com os novos vizinhos que chegavam. Sem perceber, a tarde de domingo se foi, sem chuva, e eu saí no lucro, não financeiro, mas de novos conhecidos e histórias.

BrechoNaRua-PedroCunha

Foto: Pedro Cunha

Lara, recém mudada para a Lagoa, resolveu fazer uma limpa no armário. Levou uma mala cheia e vendeu quase tudo. Vi sapatos lindos sendo vendidos por R$ 5,00. Desde que cheguei no evento, até escurecer, quando ela tentava fechar a mala, chegavam meninas revirando suas roupas para levar algo. Carla, professora de idiomas, já participou do encontro outras vezes. Ela levou diversos itens que juntou durante suas viagens pela Europa, dentre eles, livros importados, malabares, roupas e até uma gravata, algo um pouco difícil de se vender aqui na Lagoa. A cada hora que passava eu via Carla falando em uma língua diferente. Ao deixar o local puxando sua mala, ela notou a diferença no peso: “Até que minha mala deu uma boa esvaziada!”, comemorou.

Durante o evento, que ocorrerá mensalmente, rolou doação, troca, negociação e até algumas vendas pra mim. Comi uma empanada deliciosa, feita por uma senhora que vendia comidas por ali. Assisti a criançada correr na grama e brincar no trapézio. E, sob o olhar do fotógrafo Pedro Cunha, vi a máscara, que não consegui vender, passar de carrancuda para tranquila. Foi bonito de ver o gramado da Lagoa ocupado por essa galera. Mês que vem tem mais!

Os Manuais de Desenho da Escrita, título da coleção Artes do Livro, estuda a evolução do percurso tipográfico

"Os Manuais de Desenho da Escrita", de Maria Helena Werneck Bomeny

Depois da invenção da escrita, a invenção da tipografia é considerada como o avanço mais importante da civilização, pois permitiu a expansão da palavra escrita em escala global. A letra é a unidade básica da escrita alfabética, parte fundamental do sistema de comunicação universal. Ela passou e continua passando por constantes adaptações às novas tecnologias, que implicam em alterações formais de seu desenho. Ao longo de séculos, sua configuração visual sempre foi determinada pela criatividade do designer e pela busca permanente de formas de letra mais simples e rápidas, no intuito de acelerar sua execução e leitura.

Os Manuais de Desenho da Escrita, oitavo título da Coleção Artes do Livro, da Ateliê Editorial, oferece uma análise das letras no aspecto particular de seu desenho, principalmente em suas relações com os suportes em que elas eram impressas ou gravadas.

O ponto de partida de Maria Helena Werneck Bomeny é a releitura dos principais manuais de desenho da escrita de quatro épocas consideradas renovadoras: o Renascimento, da chancelesca de Ludovico degli Arrighi (1522); o Neoclássico e a tipografia de Giambattista Bodoni (1818); as vanguardas do século XX e os traba- lhos/manifestos de Jan Tschichold (1928) e, finalmente, o Estilo Internacional ou Suíço e a obra de Emil Ruder (1967).

Estes manuais representam verdadeiras compilações das essências conceituais mais significativas de cada período. São testemunhos fundamentais do desenvolvimento da escrita e da maneira de se apresentar uma mensagem a um leitor. Estudando-os, torna-se possível entender e interpretar a evolução conceitual, formal e tecnológica que aconteceu no percurso tipográfico e quais os vínculos formais criados entre os processos caligráficos, tipográficos e digitais.

Maria Helena Werneck Bomeny é graduada em Artes Plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado, mestre e doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. É professora de design gráfico da Escola Panamericana de Artes e do Centro Universitário Senac. 

Acesse o livro no site da Ateliê

Acesse o pacote Artes dos Livro com 40% de desconto

Ilustrando Petrarca

Por Enio Squeff*

7

Ilustração de Enio Squeff para a obra “Cancioneiro”

Não foi por qualquer coisa como o Guiness que resolvi testar minha capacidade de improvisar, quando pedi ao editor Plínio Martins Filho para desenhar sobre os originais da tradução do Cancioneiro de Francisco Petrarca. Este trabalho, soube há pouco, resultou em mais de 700 ilustrações, feitas alla prima.  Não sei (e realmente não interessa) se alguém fez tantas ilustrações para um único livro, diretamente sobre as provas da obra. Claro, havia o acordo tácito de que, se qualquer desenho não saísse a contento, eu o substituiria por uma ilustração à parte: fazer desenhos sobre as provas de uma publicação é, penso eu, algo mais ou menos inédito. Conclui, no entanto, não ter sido necessário apor qualquer “correção”. Digamos que, a meu critério, tudo saiu comme il faut.

A contento?

Nem tanto, talvez – poderão afirmar alguns; e serei, então, persuadido a reconsiderar meu juízo, assim como o editor que aceitou o que eu fiz, sem restrições. Na verdade, trabalhei durante uns dois meses: eu e meu pincel, com as cerdas devidamente amarfanhadas. Era a única maneira de fazer as ilustrações com um caráter de impromptu, como as definiu uma colega. Não é por imodéstia, portanto, que me arrisquei ao exame dos leitores críticos e aos críticos leitores. Petrarca, o grande, o excelso Petrarca, certamente não mereceria esse tipo de façanha, se fosse apenas isso – façanha. E não a arte de improvisar como uma homenagem à franqueza, e à espontaneidade que o seu gênio – de Petrarca – induz, a despeito do risco inerente ao desafio.

Mas acertamo-nos, o Plínio e eu, diante da possibilidade de certas obras de arte suscitarem outras. A de José Clemente Pozenato é a segunda, depois de Petrarca do original; ficamos, sem falsa modéstia, o editor e eu, com a terceira possibilidade, a da arte sobretudo musical, do improviso.

*Enio Squeff, nascido em Porto Alegre (RS), iniciou sua vida profissional como jornalista na revista Veja, transferindo-se depois para o jornal O Estado de S. Paulo,  onde se tornou editor da página de arte e, mais tarde, para a Folha de S. Paulo, na qual atuou como editorialista, crítico de música e, por fim, a convite da direção do jornal, como ilustrador, iniciando, assim, sua trajetória de artista plástico.

Acesse o livro Cancioneio, de Francesco Petrarca no site da Ateliê

 

Importante obra do concretismo brasileiro foi recentemente reeditada: “Viva Vaia – Poesia 1949-1979”, de Augusto de Campos

"Viva Vaia", de Augusto de Campos

Clique na imagem para ver o encarte ampliado

"Viva Vaia" – Augusto de CamposLançada em 2001, a Ateliê Editorial publica nova edição do livro Viva Vaia, de Augusto de Campos, revisada e com a ortografia atualizada, considerada pelo poeta a edição mais completa dessa sua obra.

“Esta coletânea da minha poesia, abrangendo três décadas, teve sua primeira publicação em 1979 com a chancela da Editora Duas Cidades. Até então, meus poemas só haviam aparecido em livro em publicações de autor. Houve uma segunda edição em 1986, pela Editora Brasiliense. E mais quinze anos se passaram. A edição que agora oferece ao público a Ateliê Editorial é, de todas, a mais completa”. (Augusto de Campos, 2001)

Com projeto gráfico original, de Julio Plaza, essa edição devolveu a impressão cromática a alguns poemas como os “popcretos” Olho por OlhossO Anti- Ruído, e Goldweater, que foram expostos na Galeria Atrium, em 1964, juntamente com os quadros-objetos de Waldemar Cordeiro. Originalmente construídos com colagens de recortes de jornais e revistas, em dimensões de cartaz, e montados em chassis de madeira para a mostra, esses poemas não são fáceis de reproduzir.

As marcas do tempo e a grande redução a que têm de ser submetidos para se amoldarem às dimensões do volume tornam difícil a impressão. Mas com recursos digitais e fotográficos foi possível melhorar a sua reprodução e incluir o quarto poema da exposição dos “popcretos”, Goldweater, que faltou nas edições anteriores e, mesmo em preto e branco, também o Olho por Olho.

Por sua capacidade de sintetizar alguns princípios fundamentais da poesia concreta e de atingir o impacto almejado pelo movimento concretista, Viva Vaia se tornou a principal obra na carreira do autor. Este volume contém um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, e traz ainda o cd Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor.

Acesse o livro “Viva Vaia” no site da Ateliê

 

Poema recém-descoberto de Machado mostra evidente influência romântica

Wilton Marques Folha de S. Paulo | Ilustrada | 16 de março de 2015

No dia 9 de setembro de 1856, Machado de Assis, então com 17 anos, publicou no jornal Correio Mercantil (1848-1868) o poema O Grito do Ipiranga.

machado_de_assis_big_photo1

Machado de Assis

De antemão, a grande novidade desse texto, datado de 7 de setembro de 1856, reside no fato de que ele nunca foi coligido pelos estudiosos da obra poética do escritor carioca. Em outras palavras, é um poema esquecido e inédito.

Para além da mera curiosidade do achado, O Grito do Ipiranga é antes de mais nada um texto de juventude, o que obviamente explica sua qualidade estética ainda algo hesitante.

No entanto, o seu (re)aparecimento no universo literário machadiano é um acontecimento importante, sobretudo por não apenas lembrar que, ainda hoje, o principal escritor brasileiro não tem sequer sua obra literária completamente mapeada e/ou publicada, como também por trazer em si algumas informações novas sobre Machado Assis, seja em relação a aspectos biográficos desconhecidos, seja em relação à evidente influência romântica na fatura do texto.

Desse modo, e ao contrário do que afirma o crítico Jean Michel Massa em A Juventude de Machado de Assis – 1839-1870 (Unesp) de que foi em outubro de 1858 que Machado publicou seu primeiro texto no Correio Mercantil, O Grito do Ipiranga é, na verdade, a sua primeira contribuição ao jornal.

Tal fato traz naturalmente novas indagações aos estudos machadianos, notadamente no que diz respeito ao seu processo de inserção na grande imprensa do Rio de Janeiro, num período da vida do autor sabidamente carente de maiores detalhes.

Quanto ao poema, além da presença temática de referenciais histórico-literários clássicos (expediente, digamos, altamente machadiano), a louvação a D. Pedro 1º se dá não apenas no exagero da comparação com Napoleão Bonaparte, mas sobretudo na explícita referência romântica ao Brasil através de elementos da natureza local, como marcas de nacionalidade (floresta tropical, sol ardente, oceano, etc.).

SURPRESA

Essa, aliás, é uma novidade em Machado. Tanto que, pouco tempo depois, o escritor não apenas abandonará tal postura nacionalista como, inclusive, tecerá varias críticas a ela, notadamente no ensaio Passado, Presente e Futuro da Literatura Brasileira (1858) e, posteriormente, no famoso Instinto de Nacionalidade (1873).

Enfim, O Grito do Ipiranga é mais uma agradável surpresa do velho Bruxo e, com certeza, renderá algum pano para manga nos estudos machadianos. Isso, no entanto, já é outra história…

Conheça as obras de Machado de Assis publicadas pela Ateliê.