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Em torno do último inédito de Décio Pignatari

Gustavo Fioratti | Folha de S.PauloIlustrissíma| Pág. 03 | 16 de novembro de 2014

Prestes a ser lançado em livro, o único texto inédito de Décio Pignatari é uma peça de teatro em versos sobre a vida de Nísia Floresta. Escritora e educadora, a brasileira precursora do feminismo, que frequentou salões de intelectuais na Europa, inspirou o poeta a compor uma obra sobre o papel da mulher no século 19.

livros_do_decio_convite1Em algum lugar entre 2004 e 2007, seus familiares não sabem precisar quando, o poeta, tradutor e ensaísta Décio Pignatari (1927-2012) viajou a Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte, para conhecer a terra natal da poeta que deu nome ao município, hoje com 22 mil habitantes. Por aquelas paragens, conversou com muita gente, mas uma frase marcou-o mais profundamente: ora anônimo, um morador da cidade definiu Nísia Floresta (1810-85) como uma “prostituta internacional”.

Pignatari achava certa graça nessa síntese. “Como se fosse fácil ser uma prostituta internacional para uma mulher que saiu do sertão no século 19”, disse certa vez a um de seus três filhos, Dante Pignatari. Dante é o responsável pelo espólio de uma obra que inclui pinturas, poemas, contos e ensaios, além do histórico legado de rasgos poéticos que, ao revelar a potência visual das palavras, fundaram o concretismo, o que foi feito ao lado dos irmãos Campos, Augusto e Haroldo.

Décio Pignatari em retrato de 1965
Décio Pignatari em retrato de 1965

Nessa metafórica referência a Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, também educadora, não cabe a síntese da vida de uma mulher que traçou uma trajetória toda ela singular. Pioneira do feminismo no Brasil, perdeu o pai assassinado no Recife, casou-se, teve filhos, mudou-se para o Rio Grande do Sul e, depois, para o Rio de Janeiro, lá fundando uma escola para moças. Em 1949, embarcou com a filha para a Europa, onde fez parte do círculo de amizades de Auguste Comte, com quem se correspondeu por anos.

Pois a última obra de Décio Pignatari -possivelmente o único volume inédito que ele deixou antes de morrer, em 2012, em decorrência de complicações respiratórias, aos 85 anos- é uma peça teatral em versos baseada na vida e obra de Nísia. O livro que a traz a público, “Viagem Magnética” [Ateliê Editorial, 120 págs, preço a definir] sai nesta semana, ao lado de outras publicações do autor: “Terceiro Tempo”, um volume de 26 crônicas de futebol publicadas em 1965 pela Folha, e a reedição de “Rosto da Memória”, de contos, primeira incursão de Décio na prosa.

PALCO

Não surpreende que a última obra de Décio Pignatari tenha sido para o teatro. Em sua juventude em Osasco, após a infância em Jundiaí, no interior paulista, ele foi ator e participou de uma companhia amadora chamada Teatro de Cartilha. Só depois formou-se em publicidade e desenvolveu interesse por semiótica e pela obra do norte-americano Charles Sanders Peirce (1839-1914).

O título da peça inédita, Décio tomou emprestado de um ensaio homônimo de Nísia, do livro “Cintilações de uma Alma Brasileira” -editado pela primeira vez na Itália, em 1859, o volume saiu no Brasil pela Edunisc, 1997.

No original, a poeta fala sobre a condição do exílio, sobre amigos e familiares que ficaram no Brasil e cria diálogos fictícios, os quais revelam a angústia de viver em um lugar distante, como este em que fala seu filho deixado para trás: “Eis-me, mãe terna e bem-amada; eis-me aqui, para te consolar com minha querida irmãzinha e para não mais te abandonar”. “Prostituta internacional”, cabe dizer, distorce o perfil da mulher inconformada com seu tempo.

Na peça, Pignatari se apropria desse perfil para criar algo que ficaria entre a epopeia (não integralmente em versos) e o teatro épico de Oswald de Andrade, cuja peça “O Rei da Vela” o poeta quis encenar com seu Teatro de Cartilha, segundo atesta Augusto de Campos. “‘O Rei da Vela’ foi anunciado, mas a peça não chegou a ser montada porque Décio e [sua mulher] Lila embarcaram para a França, pouco depois, em abril ou maio de 1954, e ele só voltou em 1956, nas vésperas da Exposição Nacional de Arte Concreta no MAM”, diz o amigo.

MOSAICO

Nísia, em sua viagem, como em um delírio, vai atravessando um mosaico de referências que Pignatari pesca da arte grega pré-socrática, de sua admiração pela poeta grega Safo de Lesbos, dos românticos e do modernismo. Ele faz de sua personagem uma flecha atravessando camadas do tempo e que, no fim, traça o que o filho do autor, Dante, chama de “uma leitura que Décio faz do Brasil desde a época de Visconde de Mauá (1813-89), cujo projeto desenvolvimentista foi boicotado por d. Pedro 2º, um escravagista”.

Mauá está entre os personagens da peça e surge quase como um bufão. Logo no início da ação participa brevemente, satirizando a lentidão dos passos do império com a frase: “O imperador vai inaugurar os primeiros 23 km de ferrovias do Brasil, mesmo não gostando do meu passado farroupilha e dos bancos que estou fundando”.

Nísia, nesse ponto, está prestes a deixar a terra natal, com toda sua herança de colônia portuguesa. O texto, então, mira a projeção do futuro incerto, que apresenta como figuras míticas, ainda distantes das terras de Cabral, os pensadores europeus. Algum sentido revolucionário se aproxima de qualquer forma. No início da trama, o leitor passa pela figura do pensador José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), defensor da independência do Brasil e do fim da escravidão. Depois, intercalam-se menções aos franceses e alemães.

Com sua filha Lívia, já na Europa, Nísia ganha a companhia da escritora alemã Malwida von Meysenbug (1816-1903), amiga de Wagner e Nietzsche, que, na peça, tem falas cômicas sobre a emancipação da mulher. Como nesta lição: “Eles [os homens] se estendem na poltrona, e você fica de quatro, nua ou vestida, para que esfreguem os pés e relaxem as pernas e as bolas que pendem no meio delas, enquanto dão largas ao seu espírito criativo”. Depois: “O macho virou homem antes que a fêmea virasse mulher. Esta surgiu como que de repente, não de costela, nem de ventre, mas da cabeça de Zeus, adulta, armada e virgem”.

O olhar do autor sobre “o século que abrigou as musas romântica e positivista” não se dá “em chave passadista ou anacrônica”, afirma Welington Andrade, ensaísta e professor de literatura da Faculdade Cásper Líbero, na apresentação ao texto. “O que mais chama a atenção na feitura da obra é o fato de o dramaturgo ter feito uma série de conteúdos comportamentais, artísticos e intelectuais do ‘Ottocento’ que estão na base de nossa modernidade precipitarem-se em formas propriamente modernas, em virtude da perspectiva sincrônica que Décio, como autêntico representante do movimento concretista, sempre procurou fazer incidir sobre as mais variadas manifestações culturais e artísticas de todos os tempos”, escreve.

“Viagem Magnética” é também a segunda parte de uma trilogia incompleta que inspirou-se em obras eróticas e no papel da mulher no século 19. A primeira peça teatral da série foi “Céu de Lona” (Travessa dos Editores, 2003, esgotado), centrada na vida de Machado de Assis e de sua mulher, Carolina. A terceira parte seria um texto sobre Regine Olsen (1822-1904), noiva do filósofo e teólogo dinamarquês Kierkegaard (1813-55).

A personalidade ao mesmo tempo austera e bem-humorada do autor contamina “Viagem Magnética” do início ao fim. Pignatari era um intelectual metódico, o que explica em parte uma narrativa que se alimenta de um acúmulo de referências enciclopédicas. “Ele tinha uma capacidade de concentração assustadora. Lia rigorosamente xis horas por dia. Tinha todo um esquema, uma poltrona, luz, pequenas estantes que ele mandava fazer para apoiar os livros”, conta Dante.

ÚLTIMO ROMÂNTICO

Numa comparação um pouco leviana, talvez seja possível relacionar o interesse pelos românticos a uma indisposição com a tecnologia. Décio não usava computadores. Os e-mails que recebia eram impressos. Ele os respondia a punho e alguém então redigia a resposta digitalmente. Seus textos eram ou manuscritos ou datilografados na velha máquina Lettera 22 portátil e em outra Olivetti.

O autor acreditava, diz Dante, que a sociedade ocidental “era fruto do que os românticos fizeram”, incluindo a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, com todos os ideais de liberdade, igualdade e democracia. “As peças também são sobre mulheres porque é no romantismo que elas se liberam.”

“Viagem Magnética” começou a ser escrita provavelmente em 2004. Na época, morando em Curitiba, Décio lecionava na Universidade Tuiuti do Paraná. Segundo a professora Denize Araújo, amiga que fazia parte do apelidado “petit comité”, Pignatari “estava sempre bem-humorado”. Vangloriava-se de poder ver, da janela de seu apartamento, o Museu Oscar Niemeyer, que apelidou de “olho de Big Brother”. Gostava de festejar seus aniversário, no dia 20 de agosto. Os alunos o adoravam, e seus orientandos “sempre se sentiram privilegiados”.

Para finalizar a peça, Pignatari alugou, por um mês, em 2007, uma casa na cidade italiana de Ferrara. O texto foi passado a limpo à mão, em um caderno de brochura e capa dura. Depois, foi encaixotado. Passaram-se os anos, e Décio esqueceu-se dele, como se esqueceu de outras coisas mais, acometido pelo mal de Alzheimer.

O Alzheimer “é cruel e vertiginoso”, afirma Dante. “E, com ele, foi mais ainda. Foi tudo muito rápido, ele morreu em no máximo dois anos contando a partir do diagnóstico”. Olhando em retrospectiva, no entanto, familiares sabem hoje que Décio Pignatari percebia o mal aproximar-se aos poucos. “Ele escondeu de nós.”

Uma leitura de “Viagem Magnética” está programada para o dia 9 de dezembro, às 20h, no Centro Cultural São Paulo. Mais do que um teste, será a prova dos nove, pois o escritor, como recorda seu filho, reclamava da falta de técnica de atores brasileiros -especialmente para interpretar textos em versos.

Confira também todas as obras do autor publicadas pela Ateliê.

A Ateliê lamenta profundamente a perda de Décio Pignatari

Décio Pignatari

Deixamos registrados aqui nossos sentimentos e homenagens a este grande poeta e sua família. Foi um imenso prazer e honra ter realizado projetos junto com um dos maiores poetas brasileiros. Veja abaixo a notícia publicada pelo G1.

Morreu de insuficiência respiratória neste domingo (2) o poeta paulista Décio Pignatari, aos 85 anos. Ele estava internado desde sexta-feira (30), no Hospital Universitário de São Paulo, e faleceu por volta das 9h da manhã, segundo a assessoria do hospital. Ele também sofria de Mal de Alzheimer, informou o hospital.

Décio nasceu em Jundiaí, São Paulo, em 1927, e ficou conhecido, ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, como um dos nomes do movimento concretista, que realizou experimentos formais nas artes brasileiras a partir da década de 50.

As primeiras poesias de Décio Pignatari foram publicadas na Revista Brasileira de Poesia, em 1949. O livro de estreia, Carrossel, saiu em 1950. Com os irmãos Campos publicou, em 1965, Teoria da Poesia Concreta.

“O Décio, numa carta que me escreveu, foi o primeiro poeta que usou para mim essa expressão [poesia concreta]. Ele caracterizava como concreta a poesia do [escritor americano E.E.] Cummings, distinguindo-a de outros poetas. E aquilo ficou na nossa correspondência”, conta Augusto ao programa Umas Palavras, sobre a adoção do rótulo pelo grupo.

“Além de poeta, Pignatari escreveu romance, peça de teatro e foi tradutor, professor e estudioso de semiótica, assunto de diversos de seus livros. Sua obra poética está reunida em Poesia Pois É Poesia (Ateliê Editorial, 1977)”, descreve em seu site a editora Cosac Naify, que lançou em 2009 seu livro Bili com Limão Verde na Mão.

Livros de Décio Pignatari pela Ateliê

Décio, plural

Na data em que faria 88 anos, Décio Pignatari ganha exposição em sua homenagem

Por Renata de Albuquerque

Decio Pignatari crédito Vilma SlompSe estivesse vivo, Décio Pignatari faria hoje 88 anos. Nascido em Jundiaí, interior paulista, Pignatari tornou-se um dos mais importantes intelectuais de sua época. Ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, lançou as bases da Poesia Concreta, que mudou profundamente a literatura brasileira e ecoou por todo o mundo.

Pignatari, a um só tempo, criou a Teoria da Poesia Concreta e a colocou em prática, com seus poemas, romances, contos, crônicas e até peças de teatro. Foi ensaísta, tradutor, escritor, bacharel em direito, publicitário, ator (atuou em Sábado, de Ugo Giorgetti) e professor. Um multiartista, intelectual que atuava nos mais diversos meios.

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Poema “Beba Coca-Cola”: crítica à perda da identidade cultural

Morto em 2012, Pignatari torna-se, agora, tema da exposição “Arquivo Décio Pignatari: Um Lance de Dados”, que acontece no Centro Cultural São Paulo, de hoje até 25 de outubro. A exposição busca contextualizar a obra poética e teórica de Décio Pignatari, por meio de debates, palestras e da exibição de livros, datiloscritos, áudios, partituras e correspondências, entre outros. A mostra tem um arranjo constelar e é composta de núcleos por onde orbitam dados das diferentes frentes de Décio Pignatari. A poesia concreta, como não poderia deixar de ser, tem lugar de destaque. Os itens ficam dispostos em estantes, que não apenas mimetizam uma biblioteca, mas também convidam o visitante à interação.

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“Organismo”: o ato sexual em poema

O nome da exposição alude a Un Coup de Dês, poema de Stéphane Mallarmé, que se tornou base fundamental da formulação poética da Teoria Concreta. O poeta francês é o assunto de um dos núcleos da exposição. Outro é dedicado a Ezra Pound, cuja obra Pignatari traduziu e cujo experimentalismo foi-lhe inspirador. O terceiro núcleo, por sua vez, tematiza Oswald de Andrade, pilar “marginalizado” do Modernismo Brasileiro, cuja importância Pignatari ajudou a revitalizar.

O quarto núcleo da exposição é dedicado ao próprio Pignatari, com a exposição de peças de seu espólio, que está sendo catalogado e digitalizado. São raridades, como exemplares das revistas Noigandres, Invenção e Código. Ao todo, catorze estantes reúnem poemas, fotos, publicações e edições especiais, além de uma mesa com livros para leitura e manuseio. Tudo para entrar no universo de Pignatari e perceber que ele é imenso e plural.

Serviço
Arquivo Décio Pignatari: Um Lance de Dados
De 20 de agosto a 25 de outubro de 2015
Centro Cultural São Paulo: Rua Vergueiro, 1000 (Sala Tarsila do Amaral)
De terça a sexta: das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados: das 10h às 18h
Informações: (11) 3397-4002

Abertura da exposição – 20 de agosto, 19h

Debate – 27 de agosto, às 19h
Signatari: do verbal ao não verbal
Augusto de Campos, Tadeu Jungle, Walter Silveira e Dante Pignatari como mediador
Local: Sala Lima Barreto

Palestra – 28 de agosto, às 19h
Décio Pignatari e o Memorial da Cultura – IDART
Claudio Ferlauto
Local: Sala de Debates – Piso Caio Graco

Conheça outras obras de Décio Pignatari

“Décio sempre falou em Nísia”

Em entrevista exclusiva ao Blog da Ateliê, o Professor Francisco Ivan da Silva, que acompanhou Décio Pignatari nas pesquisas sobre a personagem de Viagem Magnética

Por Renata de Albuquerque

Quando faleceu, em 2012, o poeta concretista, semioticista, crítico literário e pesquisador Décio Pignatari deixou uma obra inédita. Viagem Magnética, que a Ateliê Editorial acaba de publicar, é o segundo texto dele como dramaturgo. Na peça, ele conta, em 26 segmentos, sobre a vida e a obra de Nísia Floresta (1810-1885), escritora e educadora potiguar considerada uma pioneira do feminismo no Brasil.

A obra, escrita entre 2004 e 2007, fez com que Décio Pignatari se debruçasse sobre o mundo de Nísia Floresta. Esse mergulho incluiu uma viagem ao Rio Grande do Norte, onde foi recebido pelo Professor Francisco Ivan da Silva, ex-orientando de Décio. A seguir, o Professor Francisco, que ensina Literatura Brasileira há mais de 30 anos na UFRN, conta como foi esse encontro:  

Como conheceu Décio Pignatari?

Francisco Ivan da Silva: Conheci, pessoalmente, Décio Pigantari na PUC de São Paulo, quando lá fazia curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica, em 1978. Ele lá era professor, ao lado de outro Concreto, Haroldo de Campos. Foi um momento epifânico. Ele era meu orientador de Dissertação de Mestrado e iniciou a orientação de minha Tese de Doutorado. Mas antes disso já conhecia sua obra. Chegar à PUC de São Paulo e me deparar com o homem e o poeta que já havia lido foi um grande acontecimento em minha vida. Logo ficamos amigos. Ele me convidou a escrever em uma revista que ele organizava, a De-Signos.

Qual a relação de Décio Pignatari com Nísia Floresta?

FIS: Nas primeiras aulas de Décio que assisti já ele falava em Nísia. Certa vez, ele disse que ela era paraibana e no intervalo da aula, na hora do cafezinho, houve a correção:  “Décio, o senhor disse que Nísia é paraibana, mas ela nasceu no Rio Grande do Norte”. Logo, como conterrâneo de Nísia, ajudei-o a fazer a correção, juntamente com mais um professor da Universidade do Rio Grande do Norte, Manoel Nely da Rocha Vieira. A partir daí sempre estávamos ouvindo Décio falando o nome de Nísia. Décio não tinha pesquisa formal sobre a obra de Nísia, mas era um curioso e grande estudioso da cultura. Décio sempre falou em Nísia. E falava de forma livre, sem amarrações acadêmicas.

Como se deu essa visita dele ao Rio Grande do Norte, no qual o senhor acompanhou-o?

FIS: Em 1980, Décio vem a Natal como conferencista do I Congresso de Semiótica, organizado pela UFRN. Veja: Décio não veio a Natal com o propósito de pesquisar a obra de Nísia. Mas creio que para ele conhecer o chão, a terra de Nísia foi algo inesquecível. Diria, foi um acontecimento na vida do poeta. Visitamos o túmulo de Nisia em Papari, hoje cidade que recebe seu nome. Foi uma visita rápida a esse recanto da cidade onde se ergue um interessante obelisco onde se acham seus restos mortais.

Depois convidei Décio, em 1995, para um ciclo de conferências. Ele veio com sua esposa, Lila. Foram dias muito proveitosos. De novo visitamos o túmulo da escritora. Ele olhava com atenção aquele obelisco, lia as placas, as datas, epitáfio. Emitia opiniões de maneira muito natural. Ele não dizia que estava pesquisando a obra de Nísia. Ele só queria saber mais. Ficou cercado de professores e estudantes que lhe contavam coisas da vida de Nísia e ele ouvia; relia livros sobre a escritora.

Em junho de 2008 ele voltou a Natal para uma conferência sobre Ulisses, de James Joyce. O tema da conferência, sugerido por ele mesmo, foi: Bloomsday/Doomsday, O dia do Juízo Final. Mas ele não pode vir, adoeceu e na última hora tivemos que modificar tudo. Adiamos sua vinda. Ele finalmente veio em 2010 participar de um Colóquio de Estudos Barrocos, evento que ocorre anualmente na UFRN. Deu duas conferências, passou três dias conosco.

 Visitamos mais uma vez o túmulo de Nísia (foto ao lado), fizemos fotografias, ele falou, ele comentou, ele leu placas, tocou com tom solene, quase em ritual, a pedra do obelisco.

Ele nos falou de sua pesquisa em progresso; da obra que escrevia sobre Nísia, sublinhava que era uma trilogia de três mulheres. Ele disse que a parte dedicada a Nísia ainda não estava pronta, mas prometia logo publicar.

O que o senhor destaca nessa obra tão singular, a Viagem Magnética?

FIS: Só Décio Pignatari faria um texto tão atual, tão expressivo, tão aberto ao leitor moderno, tão polêmico. Não se trata de um texto descritivo, biografia historicista, que aponta como nasceu, viveu e morreu. O texto de Décio ilustra desde seu realismo o universo da criação. Estamos na esfera dos signos, e nisto Décio extrapola deixando a autora no universo artístico e teatral da criação.

 

*Francisco Ivan é autor de vários livros de poesia, entre eles Thálassa, A Chave Azul, Variações, Epiphanias e Azul Grego. É autor do livro Augusto dos Anjos dos Deuses e dos Diabos. Recentemente publicou a Antologia hispano-brasileira, uma coletânea da Geração dos poetas de 27, na Espanha. Atualmente é professor de Literatura Comparada no Programa de Pós-Gradução em Estudos da Linguagem da UFRN.

 

Conheça outros livros de Décio Pignatari publicados pela Ateliê Editorial

Décio Inédito

Decio inedito

Foto de Décio Pignatari por “Life”
Poema concreto “Vai e vem”, de José Lino Grünewald

Antonio Gonçalves Filho | O Estado de S. Paulo | 30 de novembro de 2013

Poeta deixou tradução de Santo Agostinho e peça que fala de pioneira feminista

Três anos antes de morrer, aos 85 anos, em 2 de dezembro do ano passado, vítima do mal de Alzheimer, o poeta concreto Décio Pignatari começou a tradução das Confissões de Santo Agostinho, da qual o Caderno 2 publica fragmentos nesta edição. Não é tanto a tradução que surpreende. Afinal, Pignatari traduziu Dante, Shakespeare e Goethe, entre tantos outros grandes nomes da literatura universal. Surpreende, sim, o fato de um poeta ateu, conhecido por sua ironia, traduzir um doutor da Igreja Católica marcado inicialmente pelo neoplatonismo e que, convertido, deu seu dinheiro aos pobres após viver uma vida dissoluta. O que teria aproximado Décio Pignatari da primeira autobiografia de que se tem notícia, escrita por um filho de berberes do Norte da África? A sedução pelo paganismo e os prazeres do corpo ou sua conversão ao cristianismo?

Difícil saber. Nem mesmo o filho do poeta, Dante Pignatari, pianista erudito e inventariante, arriscaria uma resposta. Ele encontrou a página com a tradução de Agostinho perdida em meio a manuscritos que trazem outros textos inéditos, entre os quais uma peça teatral, a segunda escrita pelo autor do mais conhecido poema concreto da história, Beba Coca Cola (1957), em que subverte o slogan do popular refrigerante ao alterar fonemas e formar novas palavras – a última delas, “cloaca”.

Décio formou ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos o trio de poetas mais conhecidos do movimento de vanguarda que, simultaneamente, na Suíça e Brasil, nos anos 1950, fez da experimentação linguística e visual sua mola propulsora. Com eles publicou, em 1955, a revista Noigrandes, que tratava, entre outros temas, da comunicação não-verbal (embora sem abdicar da palavra). Tantos os irmãos Campos como Décio Pignatari sempre se dedicaram à tradução de poetas pouco conhecidos ou lidos no Brasil, concretos ou não, além de produzir obras de referência no campo da teoria literária.

Cartas inéditas. Até por isso, Pignatari trocou cartas com importantes filósofos, ensaístas e linguistas europeus, entre eles o escritor italiano Umberto Eco e o linguista russo Roman Jakobson (1896-1982), pioneiro na análise estrutural da poesia, tendo assinado ensaios sobre a obra de Fernando Pessoa e Brecht. A caixa de correspondência do poeta tem também cartas da poeta carioca Cecília Meireles. Todo esse material está sendo analisado pelo filho Dante e poderá ser publicado após catalogação. Outra surpresa para Dante foi encontrar os manuscritos de um diário escrito quando seu pai estava morando temporariamente em Ferrara, no ano 2000. “Nunca imaginei sequer que ele tivesse um diário”, diz ele.

Alguns lugares na Europa – e especialmente Ferrara, terra natal de Antonioni – exerciam enorme fascínio sobre Pignatari. Ele estava morando lá, em 2007, quando escreveu a peça Nísia Viagem Magnética, a pouco conhecida história de Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), educadora e poeta popular do Rio Grande do Norte que morou durante três décadas na Europa. Feminista de primeira hora, Nísia (pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto) circulou pelas cortes europeias, conheceu Wagner e Nietzsche, foi amante do positivista Auguste Comte, mas Décio, em sua peça inédita sobre ela, joga o foco sobre seu relacionamento com outra mulher. Na primeira peça, Céu de Lona, nunca montada, ele toca em outro ponto polêmico: o casamento inter-racial e a conflituosa relação de Machado de Assis com a mulher Carolina.

“Nos últimos tempos, antes do Alzheimer, ele se mostrava muito interessado nos românticos”, revela o filho Dante, também ele um entusiasta do período, sendo autor de uma tese sobre o compositor cearense Alberto Nepomuceno. “Tínhamos uma paixão compartilhada, pois meu pai chegou a escrever sobre Chopin”. Esse e outros escritos, publicados em livros já fora de catálogo, deverão ter novas edições pela Ateliê Editorial.” Os primeiros títulos serão O Rosto da Memória, publicado pela Brasiliense em 1986, e Panteros, que a Editora 34 lançou em 1982″.

Dante coletou também crônicas de futebol que o poeta escreveu em 1965. Conseguiu encontrar quase todas as 27 escritas para um periódico paulista pelo pai, que, curiosamente, se dedicava à pintura, atividade só conhecida dos familiares e íntimos. Interessado em arte, como os irmãos Campos, ele foi amigo de Volpi e Fiaminghi, mas não fez pintura concreta. Preferia as curvas sensuais do corpo feminino. Décio Pignatari deixou mais de 20 livros, o primeiro deles Carrossel, de 1950, e o último, Bili com Limão Verde na Mão, texto infantojuvenil lançado pela editora Cosac Naify em 2009, a epifania de uma menina que empresta seu nome à obra.

Trecho Inédito

“Se fizesse silêncio o tumulto da carne…

…e silenciassem as imagens da terra, das águas e dos ares, e até mesmo dos céus, e a própria alma se superasse, não pensando mais em si (silêncio também nos sonhos e na imaginação); se todas a línguas e todos os signos e tudo o que não se produz senão de passagem fizessem silêncio absoluto, pois, se pudéssemos ouvi-los, diriam:

“Não fomos nós que nos fizemos a nós mesmos, e sim aquele permanentemente eterno” e se então se calassem, pois ouriçaram os nossos ouvidos para aquele que os fez, e se ele próprio falasse sozinho, não pelas coisas todas, mas por conta própria, de modo que ouvíssemos o seu verbo, não pela língua da carne ou pela voz dos anjos, não pelo estrondo das nuvens ou o enigma das parábolas, mas por ele mesmo, que amamos em tudo aquilo…”

Conheça os livros de Décio Pignatari publicados pela Ateliê

Retrospectiva 2015: o que ler agora?

Por: Renata de Albuquerque

“Finalmente!”. Essa é a sensação da maior parte das pessoas quando chega o final do ano. Afinal, esse é um momento em que (quase) todo mundo faz uma pausa no trabalho e nos estudos, para recuperar as energias para o ano que vai começar.

E, para quem gosta de ler, a pergunta que fica é: o que ler agora? Durante o ano todo priorizamos as leituras “necessárias” e deixamos as “prazerosas” para depois. Ou são os livros técnicos, ou são os didáticos e paradidáticos que acabam tomando o espaço de poesia, romance, contos e biografias.

Então, para ajudar na escolha das “leituras de férias”, a Ateliê faz uma Retrospectiva dos seus principais lançamentos do ano:

angu de sangue bxAngu de Sangue

Marcelino Freire

Estreia de Marcelino Freire como contista, neste ano o livro ganhou uma nova edição, em comemoração aos seus 15 anos de lançamento.

 

 

 

Antologia da Poesia Erotica BrasileiraAntologia da Poesia Erótica Brasileira

Elaine Robert Moraes

Um dos maiores sucessos do ano, foi lançado durante a Flip e traz mais de 350 poemas escritos nos últimos quatro séculos por autores brasileiros.

 

 

 

kalevala capaKalevala – Poema Primeiro

Elias Lönnrot; tradução  Álvaro Faleiros e José Bizerril

Pela primeira vez esta parte do poema épico finlandês foi traduzida para o português. A edição estava esgotada e, em 2015, a Ateliê reeditou o volume.

 

 

 

capa mensagemMensagem

Fernando Pessoa

Esta edição de Mensagem traz ao leitor brasileiro, pela primeira vez, o texto rigorosamente estabelecido, segundo critérios da crítica textual, e atualizado, segundo o acordo ortográfico de 1990. A apresentação é de António Apolinário Lourenço.

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia É Criação: Uma Antologia

José de Almada Negreiros; Organização Fernando Cabral Martins e Sílvia Laureano Costa

Antologia que reúne poemas, crônicas, contos, diferentes prosas e até desenhos do multiartista português.

 

 

 

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom PantagruelO Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel

François Rabelais; tradução Élide Valarini Oliver

Nesta tradução inédita, Élide Valarini Oliver desvenda dois trechos até então obscuros da obra clássica.

 

 

 


decioblogTerceiro Tempo

Décio Pignatari

O futebol visto pelos olhos do poeta concretista e a partir dos pés de craques como Ademir da Guia, Rivellino, Nilton Santos, Garrincha e Pelé.

 

 

 

 

voz que cantaA Voz que canta na Voz que Fala – Poética e Política na Trajetória de Gilberto Gil

Pedro Henrique Varoni de Carvalho

O autor trafega pela análise do discurso e aponta como Gilberto Gil trouxe o seu discurso poético-tropicalista ao Ministério da Cultura.

 

Condensação e expansão em Viva Vaia

Por: Thiago Moreira Correa*

Viva Vaia Viva Vaia traz ao leitor uma ampla visão da obra de Augusto de Campos, pois podemos observar a evolução de formas ocorrida ao longo de 30 anos em sua poesia. Dos versos decassílabos de Rei menos o reino (1949-1951), passando pelo experimentalismo de Poetamenos (1953), pela instauração da Poesia Concreta (Exposição Nacional de Arte Concreta no MAM/SP, em 1956), chegando às Intraduções (1974-1977) e aos galácticos Stelegramas (1975-1978); a transformação poética parece ser um fio condutor – dentre muitos – que nos liga à totalidade do livro.

Ora, essa mudança pode ser pensada sob vários pontos de vista. No entanto, ao passar da produção poética para a crítica desenvolvida não somente por Augusto de Campos, mas também pelos seus “irmãos concretistas”, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, verificamos termos recorrentes que podem balizar essa leitura global que Viva Vaia nos proporciona. São eles: inovação e condensação.

Dessa crítica, notamos que a condensação tem um papel preponderante para a criação de uma poesia inovadora, cujos pilares Mallarmé, Pound, Joyce e Cummings levariam à tão cara forma sintético-ideogramática de uma poesia verbivocovisual. Por isso, buscamos compreender brevemente como essa técnica efetiva-se nas poesias feitas no período de 1949 a 1979.

A abordagem escolhida para tratar desse processo de condensação está situada na teoria da linguagem, já que a exploração da plasticidade e sonoridade verbal fundamenta a produção dessa poesia. Assim, consideramos a Expressão e o Conteúdo da linguagem para fazer nossa análise (os termos “plano de expressão” e “plano de conteúdo”, estabelecidos por Louis Hjelmslev, foram simplificados para Expressão e Conteúdo, para evitar a terminologia que divide cada plano em forma e substância).

Expressão e Conteúdo

 

Expressão e Conteúdo formam, por meio de sua junção, o sentido linguístico. Por isso são indissociáveis: a Expressão é a veiculadora dos conteúdos, que se não forem expressos, não tornarão possível a apreensão da mensagem.  Do mesmo modo, se a Expressão não está vinculada a nenhum conteúdo, o resultado é uma mensagem ininteligível. Por exemplo, se ouvíssemos duas pessoas falando dinamarquês, sem que soubéssemos a língua, somente teríamos acesso à Expressão fonética daquela língua, dissociada de qualquer Conteúdo.

Além disso, um mesmo conteúdo pode ser expresso de diversas formas: um romance e um filme podem ter conteúdos equivalentes, porém cada linguagem o expressa com suas formas particulares, que são manifestadas por um ou mais de um canal de percepção (audição, olfato, paladar, tato e visão). Entretanto, dividimos Expressão e Conteúdo para fins de análise, contribuindo para a compreensão do sistema linguístico.

Logo, o caráter verbivocovisual da poesia de Augusto de Campos analisado pela teoria da linguagem gera outra perspectiva sobre o objeto poético: diversas Expressões manifestariam um mesmo Conteúdo verbal. A plasticidade e a sonoridade das palavras e a tatilidade da página são empregadas para intensificar conteúdos verbais – o que ganha maior relevância nessa nova edição com papel Offset. A partir dessa divisão, priorizamos a relação entre conteúdo e visualidade.

Se o processo de condensação guia nossa análise, é necessário relacioná-lo ao seu contrário semântico – a expansão – para identificar as direções tomadas pela Expressão e Conteúdo poéticos. Respeitando a sucessão cronológica, observamos que a fase chamada de “pré-concreta” possui uma tendência à expansão verbal e a uma neutralidade visual, se comparada ao restante da obra – nem expansiva e nem condensada, ou seja, regular. O uso intenso da sintaxe analítico-discursiva e das figuras de linguagem, principalmente a metáfora, criaria um efeito expansivo no conteúdo verbal; já o emprego das regras poéticas tradicionais (rima e metrificação) e da tipografia homogênea formaria poemas neutros ou regulares, mantendo o método da tradição poética.  Apesar de que uma análise comparativa, aos poemas produzidos por outros autores no mesmo período, encontraria traços de uma poesia mais condensada, precursora da síntese concretista.

Em Poetamenos (1953) e Bestiário (1955) há uma expansão plástica e uma condensação verbal. Por exemplo, no poema “Paraíso pudendo” (1953), há uma síntese de várias temáticas: sexual, religiosa e metalinguística, sob uma multiplicidade cromática, topológica e eidética, como ressalta Antônio Vicente S. Pietroforte. Desse modo, o conteúdo verbal seguiria nessa mesma direção – redução metafórica e síntese sintática – até o seu ápice na Poesia Concreta; enquanto que a Expressão perderia intensidade nesse movimento expansivo e acompanharia a condensação verbal, devido à monocromia e ao geometrismo.

Dessa intensa condensação verbal e plástica alcançada pelo Concretismo, como em “Tensão” (1956) e “Pluvial” (1959), os poemas posteriores a ele são direcionados a uma flutuação de maior ou menor condensação do Conteúdo, e a Expressão regressaria a seu anterior processo de expansão. Esse ponto de vista pode ser identificado no aumento da heterogeneidade visual de poemas como “Psiu!”(1966) e “Memos” (1976), bem como nos aumentos e diminuições da presença verbal em poemas como “Greve” (1961) e “Eco de Ausonius” (1977) ou em “Luxo” (1965) e “Rever” (1970). O extremo dessa expansão plástica e dessa condensação verbal produz poemas como “Olho por Olho” (1964) e “Pentahexagrama para John Cage” (1977) ou o livro Profilogramas (1966-1974), em que o conteúdo verbal se resume aos títulos dos poemas. Entretanto, tais extremos integram uma pequena parte dessa fase posterior.

Seria nesse campo intermediário, entre os poemas concretos e poemas visuais ou plásticos, que a maior parte da obra “pós-concretas” estaria situada. Como mostra o esquema abaixo:

Plano do Conteúdo Verbal

Esquema 1 Plano de conteúdo verbal VIVA VAIA

 

Plano de Expressão Plástico

 

Esquema 2 Plano de expressão verbal VIVA VAIA

Portanto, podemos pensar em uma poesia que condensa seus conteúdos verbais e expande sua expressão plástica. No entanto, é necessário observar que essa expansão plástica contribui para a intensificação do conteúdo verbal, criando a força comunicativa da poesia de Augusto de Campos e que parte desse efeito de objetividade e síntese se deve ao desenvolvimento da metalinguagem nesse tipo de poesia.

Viva Vaia reúne a heterogeneidade desse work in progress que é a obra de Augusto de Campos, mostra o desenvolvimento de sua poética e nos seduz com o seu experimentalismo artístico. Depois de mais de 60 anos fazendo poesia, a vaia é condensada ao nada e viva (!) essa poesia sempre inovadora.

 

Conheça outros livros de Augusto de Campos publicados pela Ateliê Editorial

 

*Thiago Moreira Correa trabalha nas áreas de tradução e pesquisa em Semiótica e Linguística Geral. É mestre pela Universidade de São Paulo com a dissertação “A metalinguagem na poesia de Augusto de Campos”, atualmente, realiza pesquisa em nível de doutorado sobre Inscrições Urbanas.

 

 

Concreto flexível

Rogério Borges | O Popular | Seção: Magazine | Pág. 01 | 28 de dezembro de 2014

Poeta da experimentação, Décio Pignatari também era contista, cronista de futebol e dramaturgo. Essas outras facetas podem ser conferidas em coleção que acaba de ser lançada

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FOTO: JONAS OLIVEIRA

Brincar com as letras, fazê-las cair e subir nas frases, incitá-las a formar novos vocábulos, outros sentidos, despertar os segredos que o idioma pode guardar usando para isso a criatividade e a experimentação. Assim agiam os concretistas, poetas que emprestavam aos versos a ousadia das artes plásticas, unindo linguagens, reinventando métodos, retirando as teias de aranha do cérebro de seus leitores que precisavam se esforçar para traduzir obras literárias que também eram arquiteturas gráficas cheias de símbolos, traquinagens e ludicidade. Um dos expoentes desse movimento da literatura nacional dos anos 1950 foi Décio Pignatari, que morreu em 2012. O autor, irreverente e polêmico, está sendo resgatado em uma coleção, que revela outras de suas habilidades.

As obras Viagem Magnética, Terceiro Tempo O Rosto da Memória trazem três facetas que nem todo mundo conhece da produção do escritor. O primeiro é uma peça de teatro, a segunda que escreveu em sua carreira e que foi composta em sua última década de vida. Terceiro Tempo revela um Pignatari que, com verve ferina, encaminha-se para um humor saboroso ao escrever crônicas de futebol. São 26 textos publicados em 1965 no jornal Folha de S. Paulo. Por fim, O Rosto da Memória é um volume de contos em que se vê (e não só se lê) com maior nitidez as marcas registradas desse concretista, em que a linguagem e a diagramação do texto nas páginas sugerem outras concepções do enredo, a começar com inversões nos títulos e subversões na forma narrativa.

Os três títulos, lançados em conjunto pela Ateliê Editorial, dão uma nova roupagem a obras de Décio Pignatari que ficaram eclipsadas por sua intensa participação, junto com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, em uma das principais vanguardas culturais que o Brasil produziu no século 20 nos campos da literatura e das artes. Além disso, ele tornou-se uma referência na publicação de obras teóricas e de crítica, além de destacar-se como tradutor. Foi ainda uma autoridade internacional nos estudos de Semiótica, sendo membro e até fundador de diversas associações de semiologia no Brasil e no exterior. Outra habilidade que o autor chegou a exercer com alguma frequência foi o de publicitário, contribuindo até com reflexões sobre Teoria da Comunicação.

Com múltiplas atividades, não seria de se espantar que Décio tivesse outro tipo de produção literária que não se concentrasse apenas na poesia. A reedição desses livros, assim, não surpreendem por trazer o que trazem e sim por esses textos terem ficado recolhidos a um esquecimento que, em certos casos, durou décadas. A reunião de crônicas nunca havia sido publicada em livro, e olha que lá se vão 50 anos que chegaram pela primeira vez aos leitores. O volume de contos estava fora de catálogo há quase 30 anos. Talvez por sua trajetória singular, Décio Pignatari tenha criado em torno de si uma imagem de vanguarda que chegava a assustar, prejudicando, dessa forma, sua produção literária mais aberta a grandes públicos, em que não há códigos intrincados de interpretação.

Os livros

viagem magneticaVIAGEM IMAGNÉTICA

Essa obra teatral de Décio Pignatari era inédita até agora. Ela foi escrita entre 2004 e 2007 e é baseada na vida de Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo da potiguar Dionísia Gonçalves Pinto, uma mulher de vanguarda no século 19. Radicada no Rio de Janeiro, foi educadora e dona de um dos principais colégios da então capital do Império, além de poetisa e uma das pioneiras na divulgação das ideias positivistas de Auguste Comte entre a intelectualidade nacional. Para dar a dimensão dessa personagem, Pignatari coloca em cena diversas personalidades do Brasil daquela época, como os escritores Fagundes Varela, Gonçalves Dias e Bernardo Guimarães, que testemunham como a protagonista sofre em impor a sua aguçada inteligência a convivência com afetações e convenções sociais pueris e vazias. É como se o autor tivesse se identificado com a inquietude de Nísia, demonstrando isso em cenas curtas, picotadas e enervantes. A grande cultura que essa mulher possuía choca-se com a fragilidade intelectual de muitos que a cercam.

(120 páginas, R$ 27)

terceiro tempoTERCEIRO TEMPO

Não é qualquer um que teve o privilégio de ver alguns dos maiores craques do futebol brasileiro jogando na era de ouro de nossa paixão nacional. Décio Pignatari foi um desses premiados e escreveu a respeito em uma série de 26 crônicas publicadas no jornal Folha de S. Paulo em 1965. Naquele tempo em que o Brasil era bicampeão mundial e preparava a maior de suas seleções, a do tricampeonato de 1970, o escritor percebeu que assistia verdadeiros gênios em ação, como a locomotiva santista duas vezes campeã do mundo, capitaneada pela tabelinha Pelé e Coutinho. Outros clubes também mereciam atenção do escritor, como o antológico Botafogo, que tinha de um lado do campo Garrincha e do outro Nilton Santos, simplesmente o maior ponta-direita e o melhor lateral esquerdo da história do futebol. Despejando admiração e fazendo isso de formas menos óbvias, Pignatari imortalizou em suas crônicas o talento de Rivellino e a elegância de Ademir da Guia, sem deixar de perceber, já naqueles tempos, a influência da política no esporte.

(128 páginas, R$ 29)

rosto da memóriaO ROSTO DA MEMÓRIA

Não esperem encontrar uma obra convencional nesse volume de contos, publicado pela primeira vez em 1986 e só agora reeditado. O tema central do livro já dá uma pista de que Décio Pignatari deu vazão a sua veia de vanguarda ao escrever as narrativas curtas que compõem o volume. Ele trata de como as imagens são fundamentais para inscrever nas recordações nossas vivências e visões de mundo. Para isso, o escritor promove uma série de provocações, em que abundam sinais gráficos, em fontes diferenciadas e até em fotos e mapas para incitar a imaginação do leitor. Enquanto um conto tem uma única e solitária frase, outro despeja uma torrente de palavras (várias delas rabiscadas ou encadeadas um tanto confusamente), causando certo choque em quem segue os enredos que podem estar cheios de ternura e inocência ou recobertos de vitupérios e palavrões. Retirando o título das Confissões, de Santo Agostinho, Décio Pignatari convida a uma viagem literária imprevisível.

(168 páginas, R$ 38)

Viagem ao redor do engenho teatral

Welington Andrade | Revista Cult | Colunas: Cena Contemporânea | 12 de dezembro de 2014

Inédita nos palcos, chega às livrarias uma inquieta forma teatral concebida por um grande mestre

 

Décio Pignatari (Foto: Vilma Slomp)

São inúmeras as qualidades de Viagem magnética, o segundo texto para teatro saído da pena do poeta, prosador, ensaísta, semioticista e tradutor de poesia Décio Pignatari. Se em Céu de lona, publicada em 2003 pela Travessa dos Editores, ele transformava Machado de Assis e Carolina Xavier de Novaes, mulher do escritor, em personagens de uma comédia fescenina de ritmo ágil e atmosfera delirante, nesta sua segunda incursão pela área da dramaturgia, Décio se dedica a conferir estatuto de personagem teatral a outra figura histórica de destaque do século XIX no Brasil: a escritora, educadora, feminista e tradutora Nísia Floresta Brasileira Augusta. E o resultado dessa experiência não poderia ser mais estimulante aos estudiosos da dramaturgia brasileira, em especial, mas também aos admiradores dos estudos literários, de modo mais amplo: trata-se de uma peça de teatro pautada por uma inventividade desconcertante, plena de possibilidades cênicas.

Nascida no povoado de Papari, Rio Grande do Norte, oriunda de uma família tradicional – a mãe, potiguar, era herdeira de vastas extensões de terra, enquanto o pai, português, era um advogado culto e liberal –, Nísia Floresta (1810-1885) publicou em 1832 no Recife, o livroDireitos das mulheres e a injustiça dos homens – traduzido livremente de Vindication of rights of woman, de autoria da ativista do feminismo inglês Mary Wollstonecraft (mãe da escritora Mary Shelley) –, obra que, segundo o Dicionário de mulheres do Brasil, atribuiu-lhe o “título incontestável de precursora dos ideais de igualdade e independência da mulher em nosso país”.

Não bastasse a militância feminista desbravadora, Nísia – que abriu em 1837, no Rio de Janeiro, o Colégio Augusto, onde colocou em prática suas ideias nada ortodoxas sobre educação feminina – dedicou-se também a outras causas fervorosas, defendendo, ainda na primeira metade do século XIX, o fim da escravidão, a liberdade religiosa e o regime republicano. Detentora de uma atividade literária e intelectual das mais férteis, ela viajou em 1849 para a Europa, onde entrou em contato com o positivismo de Augusto Comte, vindo a se tornar uma amiga bastante próxima do filósofo, cuja casa passou a frequentar e com quem manteve uma expressiva atividade epistolar.

É em torno não somente dessa fascinante personagem, mas também das figuras de Lívia (a filha que Nísia teve de seu segundo casamento) e de Malwida von Meysenbug (a escritora alemã que foi amiga de Friedrich Nietzsche e Richard Wagner, com quem Nísia, a rigor, nunca se encontrou) que Décio Pignatari constrói sua peça de teatro, por meio da qual pôde visitar uma vez mais o efervescente século XIX brasileiro, quando o país parecia estar muito ocupado ora em se espelhar em sua ascendência pretensamente europeia, ora em especular sobre o que fazer com sua progênie realisticamente tropical. Entretanto, tal como era de se esperar, o olhar do autor sobre o século que abrigou as musas romântica e positivista não se dá em chave passadista ou anacrônica. O que mais chama a atenção na feitura da obra é o fato de o dramaturgo ter feito uma série de conteúdos comportamentais, artísticos e intelectuais doOttocento que estão na base de nossa modernidade precipitarem-se em formas propriamente modernas, em virtude da perspectiva sincrônica que Décio, como autêntico representante do movimento concretista, sempre procurou fazer incidir sobre as mais variadas manifestações culturais e artísticas de todos os tempos. Aproveitando a grande moda oitocentista do magnetismo de Mesmer e do espiritismo de Kardec, Décio então nos propõe essa viagem sobre o tempo e o espaço, fazendo ecoar ainda o nome de uma das obras centrais para a formação do romance moderno, a Viagem à roda do meu quarto, de Xavier de Maistre. (“Trata-se de uma viagem magnética, galvânica, espiritual que fiz ao Brasil, sem sair do quarto…” declara Nísia a seu tradutor italiano).

O texto está dividido em vinte e seis segmentos que, embora pautados por concisão e autonomia, restituem em linhas gerais a trajetória da protagonista – de sua saída do Nordeste (em virtude do violento clima de instabilidade política na região que antecedeu a independência do Brasil, clima este responsável, inclusive, pelo assassinato do pai de Nísia) até o traslado de seus restos mortais, em 1954, da cidade francesa de Bonsecour, onde ela estava enterrada, para o município potiguar de Papari, que alguns anos antes passara a se chamar Nísia Floresta. Entretanto, Décio não explora tais fatos em chave dramática, preferindo antes imprimir a eles – dada a organização dos segmentos sob a forma de colagem – a perspectiva crítica do teatro épico. Ou melhor, de um épico à brasileira.

Nesse sentido, é visível a filiação de Viagem magnética às experiências teatrais de vanguarda conduzidas por Oswald de Andrade, sobretudo em O rei da vela, embora haja diferenças também entre ambos os projetos dramatúrgicos. A atmosfera que se pode depreender das aventuras de Nísia é a de um humor solto, desavergonhado, anti-intelectualista até, mas quase nunca “espinafrador” em essência. Já o caráter lúbrico que paira de ponta a ponta – dos “muxoxos lambidos” que o editor Duvernoy dá em Nísia, passando pela ligação tribádica entre esta e Malwida, até chegar ao êxtase final da protagonista, flechada por um “coro de Eros” – também se assemelha à tessitura erótica que está na base de O rei da vela. Entretanto, a lascívia cênico-poética de Décio Pignatari parece apontar para outras direções. Não é propriamente a Heloisa de Lesbos que Nísia presta tributo e, sim, à própria Safo, cuja obra, luminosa, inconclusa, fragmentada, tal como chegou a nós, Décio tanto admirava. Não à toa, o dramaturgo interessou-se por uma figura histórica nascida Dionísia, remetendo ao deus que, segundo a tradição retomada por Nietzsche, está ligado a Eros “mythóplokos”, isto é, o tecelão de mitos, a divindade grega que faz e desfaz as tramas das palavras e dos discursos. Nada mais erótico, dionisíaco e sáfico, portanto, do que a urdidura temática e formal desta Viagem magnética.

Concebida pelo poder de invenção de um homem das Letras e da Comunicação que sempre primou por revisitar a tradição literária sob a ótica da ousadia e da experimentação, a peça apresenta um sem-número de ressonâncias históricas, literárias, filosóficas, estéticas, musicais e plásticas, conduzidas ao limite do paroxismo – por levar tanto ao deleite como à entropia. Não bastassem as muitas rubricas repletas de informações complexas, que merecem uma decifração cênica à altura de sua engenhosidade, e as inúmeras falas de deliberado caráter enciclopédico (no 10º segmento, por exemplo, Malwida articula os nomes de Darwin, Marx, Nietzsche, Wagner, Cosima, Liszt, Lou Salomé, Gerge Sand e Augusto Comte, com insuspeita naturalidade), Décio ainda lança mão de dois recursos discursivos bastante genuínos: o uso destreakers (apresentados em Céu de lona como “personagens-personalidades que atravessam a cena, qualquer cena, fazendo proclamações, sem serem ouvidos e vistos”) e de solos proferidos ao ritmo do rap. Vale lembrar que Nísia Floresta é citada em Céu de lona como “a musa positivista brasileira, discípula e ex-amante de Augusto Conte” por ninguém menos do que a princesa Isabel na pele de uma streaker.

Estamos diante, assim, de um espécime dramatúrgico que pode simplesmente enganar os mais afoitos, sempre dispostos a anunciar o ostracismo de um grande número de peças brasileiras feitas para serem lidas e não montadas. O fragoroso caso de O rei da vela, incompreendida por cerca de três décadas até ter encontrado um encenador à altura de sua verve, parece não ter servido para muita coisa. A despeito de sua feérica estrutura referencial enciclopédica, orgulhosa por expressar em termos teatrais o mesmo caráter de “vertiginosa montagem/colagem de arqueologia cultural” – na feliz expressão de Paulo Venancio Filho – que Ezra Pound conferiu à poesia de Os cantos (outro autor com quem Décio sempre procurou estabelecer uma vigorosa interlocução), Viagem Magnética é um texto para ser encenado, sim. Se Hugh Kenner definiu a ciclópica obra de Pound como “uma épica sem enredo”, estamos aqui diante de uma peça de teatro épica cujo tênue entrecho dramático se converte o tempo todo em puros jogos de linguagem, sem que se abra mão, entretanto, da tridimensionalidade do espaço cênico onde tais jogos precisam acontecer. Trata-se, portanto, de uma peça de linguagem poética muito particular, mas, acima de tudo, de uma peça de teatro. A agilidade dos cortes e da edição das cenas, de acentuado caráter cinematográfico, e o tom feérico de muitos dos ambientes onde as ações transcorrem (as prisões de Piranesi são um verdadeiro achado cenográfico) atestam uma teatralidade inequívoca. Oxalá o texto de Décio Pignatari encontre um diretor ou grupo de teatro disposto ao desafio de estabelecer com ele uma interlocução pra lá de inventiva.

Em plena era de percepções controladoras e de excitações controladas, sem que se dê muito conta disso, porque a histeria é atualmente a prova dos nove, Viagem magnética há de soar mesmo um tanto quanto racionalista e cerebral. Poucos talvez se deem conta de que os domínios do Logos também se prestam a uma materialidade sensível das mais fecundas. A imaginação teatral concretista de um poeta que já se dispôs a traduzir os lances verbais eróticos de Shakespeare e os ruídos semânticos de Sheridan pode constituir uma surpresa para quem quer estar com Baco sem perder a companhia de Apolo.

Ao coquetel grego-europeu-americano-tropical servido por Décio Pignatari e sua musa brasílica, o leitor-espectador somente poderá responder com uma única saudação:

Evoé Dionísia!

Obs.: O presente artigo está publicado como texto de apresentação da peça, editada pela Ateliê.

Conheça essa e mais outras obras de Décio Pignatari no site da Ateliê.

 

 

RIVELINO E O DRAGÃO*

Revista Brasileiros | Seção Literatura | Pg. 131| 19 de Junho de 2014

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O futebol sobrevive e vive de renovação – mas, principalmente, de revelação. Não há clube, não há agremiação, não há dirigente nem preparador que não esteja sempre de olho aceso para adivinhar, distinguir, perceber, descobrir e catar, na sua chocadeira, algum garoto com pinta de craque.

Muitos pintam de craque, muitos piam de craque. Muitos são tratados a aveia, vitamina e pão de ló, são protegidos e resguardados das intempéries do tempo – até o momento azado, a hora da verdade, o teste final diante das plateias. E muita plateia estronda e uiva em vão, à toa e dolorosamente: a estreia não nasce na testa do moço, que vai encolhendo e desaparecendo, até confundir-se – quando e mais feliz – com a maioria normal e medíocre dos jogadores normais e medíocres. Não se revelou – ou melhor: revelou-se negativamente.

É o caso do Nei, no Corinthians. Mas não é o caso de Rivelino, que ontem deu um esplendoroso e monstruoso show de bola no Pacaembu, para o qual as excelentes jornadas de Dias e Bellini melhor serviram de palco-pedestal.

Rivelino joga duro, joga maldoso, joga o fino – magistralmente: lição de bola do menino entre doutores. Revelou-se craque, craquíssimo em todas as dimensões da alma e do corpo, só os quatro lançamentos que fez (três a Flávio e um a Bazzani) bastam para elevá-lo à altura dos maiores.

Sua genialidade de tal maneira brilhou em campo, que acabou por iluminar até o cérebro de Flávio: o admirável, majestoso troglodita gaúcho, depois de deixar de marcar em duas rivelínicas oportunidades, simplesmente seguiu a direção do braço do mestre (que lhe apontou, em plena corrida, o local do lançamento), viu-se – milagre – sozinho diante de Suli, driblou-o e assinalou um gol de paralisar pássaro no ar, encobrindo Bellini, que se postara no centro do arco!

“Petulante e sinuoso, seu controle de bola e suas fintas, seus piques e lançamentos, sua inteligência e seus nervos, sua maldade gelada e sua fúria no comando do meio-campo são realmente demoníacas”

Rivelino revelou-se. Não vai encolher nunca mais. Sua estrela sobe, grandiosa e solitária, dentro da equipe alvinegra de Parque São Jorge, dentro do futebol paulista, no céu do futebol bicampeão mundial. O Corinthians não ganhou (Dias estava lá… e Cabeção não estava), mas não importa: a fiel torcida, ontem, no Pacaembu, pôde soltar o seu generoso e portentoso bafo e desabafo de grandeza – que constitui o único, autêntico e verdadeiro reconhecimento de gênio.

Rivelino: estrela com nome. Petulante e sinuoso, seu controle de bola e suas fintas, seus piques e lançamentos, sua inteligência e seus nervos, sua maldade gelada e a sua fúria no comando do meio-campo são realmente demoníacas – são de jeito a provocar a agressão física por parte do adversário (reconhecimento de sua grandeza), à qual aliás, ele revida com prazer maligno.

Rivelino é mais do que a esperança, é a vingança dos “sofredores” corintianos. Depois de onze anos de fel e são-jorge, a fiel torcida acabou por desejar, ardentemente, a vitória do dragão com a qual se identifica e confunde.

A torcida corintiana é o dragão – e Rivelino é a labareda que sai da sua goela.

(Folha de S. Paulo, 8/3/1965)

*Uma das crônicas sobre futebol do poeta, ensaísta, tradutor e professor de semiótica Décio Pignatari (1927-2012) reunidas no livro Terceiro Tempo, com previsão de lançamento para agosto pela Ateliê Editorial. 

Conheça mais obras de Décio Pignatari

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Semiótica da Arte e da Arquitetura

Teoria da Poesia Concreta – Textos Críticos e Manifestos (1950-1960)