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Em torno do último inédito de Décio Pignatari

Gustavo Fioratti | Folha de S.PauloIlustrissíma| Pág. 03 | 16 de novembro de 2014

Prestes a ser lançado em livro, o único texto inédito de Décio Pignatari é uma peça de teatro em versos sobre a vida de Nísia Floresta. Escritora e educadora, a brasileira precursora do feminismo, que frequentou salões de intelectuais na Europa, inspirou o poeta a compor uma obra sobre o papel da mulher no século 19.

livros_do_decio_convite1Em algum lugar entre 2004 e 2007, seus familiares não sabem precisar quando, o poeta, tradutor e ensaísta Décio Pignatari (1927-2012) viajou a Nísia Floresta, no Rio Grande do Norte, para conhecer a terra natal da poeta que deu nome ao município, hoje com 22 mil habitantes. Por aquelas paragens, conversou com muita gente, mas uma frase marcou-o mais profundamente: ora anônimo, um morador da cidade definiu Nísia Floresta (1810-85) como uma “prostituta internacional”.

Pignatari achava certa graça nessa síntese. “Como se fosse fácil ser uma prostituta internacional para uma mulher que saiu do sertão no século 19”, disse certa vez a um de seus três filhos, Dante Pignatari. Dante é o responsável pelo espólio de uma obra que inclui pinturas, poemas, contos e ensaios, além do histórico legado de rasgos poéticos que, ao revelar a potência visual das palavras, fundaram o concretismo, o que foi feito ao lado dos irmãos Campos, Augusto e Haroldo.

Décio Pignatari em retrato de 1965
Décio Pignatari em retrato de 1965

Nessa metafórica referência a Nísia Floresta Brasileira Augusta, pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, também educadora, não cabe a síntese da vida de uma mulher que traçou uma trajetória toda ela singular. Pioneira do feminismo no Brasil, perdeu o pai assassinado no Recife, casou-se, teve filhos, mudou-se para o Rio Grande do Sul e, depois, para o Rio de Janeiro, lá fundando uma escola para moças. Em 1949, embarcou com a filha para a Europa, onde fez parte do círculo de amizades de Auguste Comte, com quem se correspondeu por anos.

Pois a última obra de Décio Pignatari -possivelmente o único volume inédito que ele deixou antes de morrer, em 2012, em decorrência de complicações respiratórias, aos 85 anos- é uma peça teatral em versos baseada na vida e obra de Nísia. O livro que a traz a público, “Viagem Magnética” [Ateliê Editorial, 120 págs, preço a definir] sai nesta semana, ao lado de outras publicações do autor: “Terceiro Tempo”, um volume de 26 crônicas de futebol publicadas em 1965 pela Folha, e a reedição de “Rosto da Memória”, de contos, primeira incursão de Décio na prosa.

PALCO

Não surpreende que a última obra de Décio Pignatari tenha sido para o teatro. Em sua juventude em Osasco, após a infância em Jundiaí, no interior paulista, ele foi ator e participou de uma companhia amadora chamada Teatro de Cartilha. Só depois formou-se em publicidade e desenvolveu interesse por semiótica e pela obra do norte-americano Charles Sanders Peirce (1839-1914).

O título da peça inédita, Décio tomou emprestado de um ensaio homônimo de Nísia, do livro “Cintilações de uma Alma Brasileira” -editado pela primeira vez na Itália, em 1859, o volume saiu no Brasil pela Edunisc, 1997.

No original, a poeta fala sobre a condição do exílio, sobre amigos e familiares que ficaram no Brasil e cria diálogos fictícios, os quais revelam a angústia de viver em um lugar distante, como este em que fala seu filho deixado para trás: “Eis-me, mãe terna e bem-amada; eis-me aqui, para te consolar com minha querida irmãzinha e para não mais te abandonar”. “Prostituta internacional”, cabe dizer, distorce o perfil da mulher inconformada com seu tempo.

Na peça, Pignatari se apropria desse perfil para criar algo que ficaria entre a epopeia (não integralmente em versos) e o teatro épico de Oswald de Andrade, cuja peça “O Rei da Vela” o poeta quis encenar com seu Teatro de Cartilha, segundo atesta Augusto de Campos. “‘O Rei da Vela’ foi anunciado, mas a peça não chegou a ser montada porque Décio e [sua mulher] Lila embarcaram para a França, pouco depois, em abril ou maio de 1954, e ele só voltou em 1956, nas vésperas da Exposição Nacional de Arte Concreta no MAM”, diz o amigo.

MOSAICO

Nísia, em sua viagem, como em um delírio, vai atravessando um mosaico de referências que Pignatari pesca da arte grega pré-socrática, de sua admiração pela poeta grega Safo de Lesbos, dos românticos e do modernismo. Ele faz de sua personagem uma flecha atravessando camadas do tempo e que, no fim, traça o que o filho do autor, Dante, chama de “uma leitura que Décio faz do Brasil desde a época de Visconde de Mauá (1813-89), cujo projeto desenvolvimentista foi boicotado por d. Pedro 2º, um escravagista”.

Mauá está entre os personagens da peça e surge quase como um bufão. Logo no início da ação participa brevemente, satirizando a lentidão dos passos do império com a frase: “O imperador vai inaugurar os primeiros 23 km de ferrovias do Brasil, mesmo não gostando do meu passado farroupilha e dos bancos que estou fundando”.

Nísia, nesse ponto, está prestes a deixar a terra natal, com toda sua herança de colônia portuguesa. O texto, então, mira a projeção do futuro incerto, que apresenta como figuras míticas, ainda distantes das terras de Cabral, os pensadores europeus. Algum sentido revolucionário se aproxima de qualquer forma. No início da trama, o leitor passa pela figura do pensador José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), defensor da independência do Brasil e do fim da escravidão. Depois, intercalam-se menções aos franceses e alemães.

Com sua filha Lívia, já na Europa, Nísia ganha a companhia da escritora alemã Malwida von Meysenbug (1816-1903), amiga de Wagner e Nietzsche, que, na peça, tem falas cômicas sobre a emancipação da mulher. Como nesta lição: “Eles [os homens] se estendem na poltrona, e você fica de quatro, nua ou vestida, para que esfreguem os pés e relaxem as pernas e as bolas que pendem no meio delas, enquanto dão largas ao seu espírito criativo”. Depois: “O macho virou homem antes que a fêmea virasse mulher. Esta surgiu como que de repente, não de costela, nem de ventre, mas da cabeça de Zeus, adulta, armada e virgem”.

O olhar do autor sobre “o século que abrigou as musas romântica e positivista” não se dá “em chave passadista ou anacrônica”, afirma Welington Andrade, ensaísta e professor de literatura da Faculdade Cásper Líbero, na apresentação ao texto. “O que mais chama a atenção na feitura da obra é o fato de o dramaturgo ter feito uma série de conteúdos comportamentais, artísticos e intelectuais do ‘Ottocento’ que estão na base de nossa modernidade precipitarem-se em formas propriamente modernas, em virtude da perspectiva sincrônica que Décio, como autêntico representante do movimento concretista, sempre procurou fazer incidir sobre as mais variadas manifestações culturais e artísticas de todos os tempos”, escreve.

“Viagem Magnética” é também a segunda parte de uma trilogia incompleta que inspirou-se em obras eróticas e no papel da mulher no século 19. A primeira peça teatral da série foi “Céu de Lona” (Travessa dos Editores, 2003, esgotado), centrada na vida de Machado de Assis e de sua mulher, Carolina. A terceira parte seria um texto sobre Regine Olsen (1822-1904), noiva do filósofo e teólogo dinamarquês Kierkegaard (1813-55).

A personalidade ao mesmo tempo austera e bem-humorada do autor contamina “Viagem Magnética” do início ao fim. Pignatari era um intelectual metódico, o que explica em parte uma narrativa que se alimenta de um acúmulo de referências enciclopédicas. “Ele tinha uma capacidade de concentração assustadora. Lia rigorosamente xis horas por dia. Tinha todo um esquema, uma poltrona, luz, pequenas estantes que ele mandava fazer para apoiar os livros”, conta Dante.

ÚLTIMO ROMÂNTICO

Numa comparação um pouco leviana, talvez seja possível relacionar o interesse pelos românticos a uma indisposição com a tecnologia. Décio não usava computadores. Os e-mails que recebia eram impressos. Ele os respondia a punho e alguém então redigia a resposta digitalmente. Seus textos eram ou manuscritos ou datilografados na velha máquina Lettera 22 portátil e em outra Olivetti.

O autor acreditava, diz Dante, que a sociedade ocidental “era fruto do que os românticos fizeram”, incluindo a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, com todos os ideais de liberdade, igualdade e democracia. “As peças também são sobre mulheres porque é no romantismo que elas se liberam.”

“Viagem Magnética” começou a ser escrita provavelmente em 2004. Na época, morando em Curitiba, Décio lecionava na Universidade Tuiuti do Paraná. Segundo a professora Denize Araújo, amiga que fazia parte do apelidado “petit comité”, Pignatari “estava sempre bem-humorado”. Vangloriava-se de poder ver, da janela de seu apartamento, o Museu Oscar Niemeyer, que apelidou de “olho de Big Brother”. Gostava de festejar seus aniversário, no dia 20 de agosto. Os alunos o adoravam, e seus orientandos “sempre se sentiram privilegiados”.

Para finalizar a peça, Pignatari alugou, por um mês, em 2007, uma casa na cidade italiana de Ferrara. O texto foi passado a limpo à mão, em um caderno de brochura e capa dura. Depois, foi encaixotado. Passaram-se os anos, e Décio esqueceu-se dele, como se esqueceu de outras coisas mais, acometido pelo mal de Alzheimer.

O Alzheimer “é cruel e vertiginoso”, afirma Dante. “E, com ele, foi mais ainda. Foi tudo muito rápido, ele morreu em no máximo dois anos contando a partir do diagnóstico”. Olhando em retrospectiva, no entanto, familiares sabem hoje que Décio Pignatari percebia o mal aproximar-se aos poucos. “Ele escondeu de nós.”

Uma leitura de “Viagem Magnética” está programada para o dia 9 de dezembro, às 20h, no Centro Cultural São Paulo. Mais do que um teste, será a prova dos nove, pois o escritor, como recorda seu filho, reclamava da falta de técnica de atores brasileiros -especialmente para interpretar textos em versos.

Confira também todas as obras do autor publicadas pela Ateliê.

A Ateliê lamenta profundamente a perda de Décio Pignatari

Décio Pignatari

Deixamos registrados aqui nossos sentimentos e homenagens a este grande poeta e sua família. Foi um imenso prazer e honra ter realizado projetos junto com um dos maiores poetas brasileiros. Veja abaixo a notícia publicada pelo G1.

Morreu de insuficiência respiratória neste domingo (2) o poeta paulista Décio Pignatari, aos 85 anos. Ele estava internado desde sexta-feira (30), no Hospital Universitário de São Paulo, e faleceu por volta das 9h da manhã, segundo a assessoria do hospital. Ele também sofria de Mal de Alzheimer, informou o hospital.

Décio nasceu em Jundiaí, São Paulo, em 1927, e ficou conhecido, ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, como um dos nomes do movimento concretista, que realizou experimentos formais nas artes brasileiras a partir da década de 50.

As primeiras poesias de Décio Pignatari foram publicadas na Revista Brasileira de Poesia, em 1949. O livro de estreia, Carrossel, saiu em 1950. Com os irmãos Campos publicou, em 1965, Teoria da Poesia Concreta.

“O Décio, numa carta que me escreveu, foi o primeiro poeta que usou para mim essa expressão [poesia concreta]. Ele caracterizava como concreta a poesia do [escritor americano E.E.] Cummings, distinguindo-a de outros poetas. E aquilo ficou na nossa correspondência”, conta Augusto ao programa Umas Palavras, sobre a adoção do rótulo pelo grupo.

“Além de poeta, Pignatari escreveu romance, peça de teatro e foi tradutor, professor e estudioso de semiótica, assunto de diversos de seus livros. Sua obra poética está reunida em Poesia Pois É Poesia (Ateliê Editorial, 1977)”, descreve em seu site a editora Cosac Naify, que lançou em 2009 seu livro Bili com Limão Verde na Mão.

Livros de Décio Pignatari pela Ateliê

Décio, plural

Na data em que faria 88 anos, Décio Pignatari ganha exposição em sua homenagem

Por Renata de Albuquerque

Decio Pignatari crédito Vilma SlompSe estivesse vivo, Décio Pignatari faria hoje 88 anos. Nascido em Jundiaí, interior paulista, Pignatari tornou-se um dos mais importantes intelectuais de sua época. Ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, lançou as bases da Poesia Concreta, que mudou profundamente a literatura brasileira e ecoou por todo o mundo.

Pignatari, a um só tempo, criou a Teoria da Poesia Concreta e a colocou em prática, com seus poemas, romances, contos, crônicas e até peças de teatro. Foi ensaísta, tradutor, escritor, bacharel em direito, publicitário, ator (atuou em Sábado, de Ugo Giorgetti) e professor. Um multiartista, intelectual que atuava nos mais diversos meios.

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Poema “Beba Coca-Cola”: crítica à perda da identidade cultural

Morto em 2012, Pignatari torna-se, agora, tema da exposição “Arquivo Décio Pignatari: Um Lance de Dados”, que acontece no Centro Cultural São Paulo, de hoje até 25 de outubro. A exposição busca contextualizar a obra poética e teórica de Décio Pignatari, por meio de debates, palestras e da exibição de livros, datiloscritos, áudios, partituras e correspondências, entre outros. A mostra tem um arranjo constelar e é composta de núcleos por onde orbitam dados das diferentes frentes de Décio Pignatari. A poesia concreta, como não poderia deixar de ser, tem lugar de destaque. Os itens ficam dispostos em estantes, que não apenas mimetizam uma biblioteca, mas também convidam o visitante à interação.

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“Organismo”: o ato sexual em poema

O nome da exposição alude a Un Coup de Dês, poema de Stéphane Mallarmé, que se tornou base fundamental da formulação poética da Teoria Concreta. O poeta francês é o assunto de um dos núcleos da exposição. Outro é dedicado a Ezra Pound, cuja obra Pignatari traduziu e cujo experimentalismo foi-lhe inspirador. O terceiro núcleo, por sua vez, tematiza Oswald de Andrade, pilar “marginalizado” do Modernismo Brasileiro, cuja importância Pignatari ajudou a revitalizar.

O quarto núcleo da exposição é dedicado ao próprio Pignatari, com a exposição de peças de seu espólio, que está sendo catalogado e digitalizado. São raridades, como exemplares das revistas Noigandres, Invenção e Código. Ao todo, catorze estantes reúnem poemas, fotos, publicações e edições especiais, além de uma mesa com livros para leitura e manuseio. Tudo para entrar no universo de Pignatari e perceber que ele é imenso e plural.

Serviço
Arquivo Décio Pignatari: Um Lance de Dados
De 20 de agosto a 25 de outubro de 2015
Centro Cultural São Paulo: Rua Vergueiro, 1000 (Sala Tarsila do Amaral)
De terça a sexta: das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados: das 10h às 18h
Informações: (11) 3397-4002

Abertura da exposição – 20 de agosto, 19h

Debate – 27 de agosto, às 19h
Signatari: do verbal ao não verbal
Augusto de Campos, Tadeu Jungle, Walter Silveira e Dante Pignatari como mediador
Local: Sala Lima Barreto

Palestra – 28 de agosto, às 19h
Décio Pignatari e o Memorial da Cultura – IDART
Claudio Ferlauto
Local: Sala de Debates – Piso Caio Graco

Conheça outras obras de Décio Pignatari

“Décio sempre falou em Nísia”

Em entrevista exclusiva ao Blog da Ateliê, o Professor Francisco Ivan da Silva, que acompanhou Décio Pignatari nas pesquisas sobre a personagem de Viagem Magnética

Por Renata de Albuquerque

Quando faleceu, em 2012, o poeta concretista, semioticista, crítico literário e pesquisador Décio Pignatari deixou uma obra inédita. Viagem Magnética, que a Ateliê Editorial acaba de publicar, é o segundo texto dele como dramaturgo. Na peça, ele conta, em 26 segmentos, sobre a vida e a obra de Nísia Floresta (1810-1885), escritora e educadora potiguar considerada uma pioneira do feminismo no Brasil.

A obra, escrita entre 2004 e 2007, fez com que Décio Pignatari se debruçasse sobre o mundo de Nísia Floresta. Esse mergulho incluiu uma viagem ao Rio Grande do Norte, onde foi recebido pelo Professor Francisco Ivan da Silva, ex-orientando de Décio. A seguir, o Professor Francisco, que ensina Literatura Brasileira há mais de 30 anos na UFRN, conta como foi esse encontro:  

Como conheceu Décio Pignatari?

Francisco Ivan da Silva: Conheci, pessoalmente, Décio Pigantari na PUC de São Paulo, quando lá fazia curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica, em 1978. Ele lá era professor, ao lado de outro Concreto, Haroldo de Campos. Foi um momento epifânico. Ele era meu orientador de Dissertação de Mestrado e iniciou a orientação de minha Tese de Doutorado. Mas antes disso já conhecia sua obra. Chegar à PUC de São Paulo e me deparar com o homem e o poeta que já havia lido foi um grande acontecimento em minha vida. Logo ficamos amigos. Ele me convidou a escrever em uma revista que ele organizava, a De-Signos.

Qual a relação de Décio Pignatari com Nísia Floresta?

FIS: Nas primeiras aulas de Décio que assisti já ele falava em Nísia. Certa vez, ele disse que ela era paraibana e no intervalo da aula, na hora do cafezinho, houve a correção:  “Décio, o senhor disse que Nísia é paraibana, mas ela nasceu no Rio Grande do Norte”. Logo, como conterrâneo de Nísia, ajudei-o a fazer a correção, juntamente com mais um professor da Universidade do Rio Grande do Norte, Manoel Nely da Rocha Vieira. A partir daí sempre estávamos ouvindo Décio falando o nome de Nísia. Décio não tinha pesquisa formal sobre a obra de Nísia, mas era um curioso e grande estudioso da cultura. Décio sempre falou em Nísia. E falava de forma livre, sem amarrações acadêmicas.

Como se deu essa visita dele ao Rio Grande do Norte, no qual o senhor acompanhou-o?

FIS: Em 1980, Décio vem a Natal como conferencista do I Congresso de Semiótica, organizado pela UFRN. Veja: Décio não veio a Natal com o propósito de pesquisar a obra de Nísia. Mas creio que para ele conhecer o chão, a terra de Nísia foi algo inesquecível. Diria, foi um acontecimento na vida do poeta. Visitamos o túmulo de Nisia em Papari, hoje cidade que recebe seu nome. Foi uma visita rápida a esse recanto da cidade onde se ergue um interessante obelisco onde se acham seus restos mortais.

Depois convidei Décio, em 1995, para um ciclo de conferências. Ele veio com sua esposa, Lila. Foram dias muito proveitosos. De novo visitamos o túmulo da escritora. Ele olhava com atenção aquele obelisco, lia as placas, as datas, epitáfio. Emitia opiniões de maneira muito natural. Ele não dizia que estava pesquisando a obra de Nísia. Ele só queria saber mais. Ficou cercado de professores e estudantes que lhe contavam coisas da vida de Nísia e ele ouvia; relia livros sobre a escritora.

Em junho de 2008 ele voltou a Natal para uma conferência sobre Ulisses, de James Joyce. O tema da conferência, sugerido por ele mesmo, foi: Bloomsday/Doomsday, O dia do Juízo Final. Mas ele não pode vir, adoeceu e na última hora tivemos que modificar tudo. Adiamos sua vinda. Ele finalmente veio em 2010 participar de um Colóquio de Estudos Barrocos, evento que ocorre anualmente na UFRN. Deu duas conferências, passou três dias conosco.

 Visitamos mais uma vez o túmulo de Nísia (foto ao lado), fizemos fotografias, ele falou, ele comentou, ele leu placas, tocou com tom solene, quase em ritual, a pedra do obelisco.

Ele nos falou de sua pesquisa em progresso; da obra que escrevia sobre Nísia, sublinhava que era uma trilogia de três mulheres. Ele disse que a parte dedicada a Nísia ainda não estava pronta, mas prometia logo publicar.

O que o senhor destaca nessa obra tão singular, a Viagem Magnética?

FIS: Só Décio Pignatari faria um texto tão atual, tão expressivo, tão aberto ao leitor moderno, tão polêmico. Não se trata de um texto descritivo, biografia historicista, que aponta como nasceu, viveu e morreu. O texto de Décio ilustra desde seu realismo o universo da criação. Estamos na esfera dos signos, e nisto Décio extrapola deixando a autora no universo artístico e teatral da criação.

 

*Francisco Ivan é autor de vários livros de poesia, entre eles Thálassa, A Chave Azul, Variações, Epiphanias e Azul Grego. É autor do livro Augusto dos Anjos dos Deuses e dos Diabos. Recentemente publicou a Antologia hispano-brasileira, uma coletânea da Geração dos poetas de 27, na Espanha. Atualmente é professor de Literatura Comparada no Programa de Pós-Gradução em Estudos da Linguagem da UFRN.

 

Conheça outros livros de Décio Pignatari publicados pela Ateliê Editorial

Décio Inédito

Decio inedito

Foto de Décio Pignatari por “Life”
Poema concreto “Vai e vem”, de José Lino Grünewald

Antonio Gonçalves Filho | O Estado de S. Paulo | 30 de novembro de 2013

Poeta deixou tradução de Santo Agostinho e peça que fala de pioneira feminista

Três anos antes de morrer, aos 85 anos, em 2 de dezembro do ano passado, vítima do mal de Alzheimer, o poeta concreto Décio Pignatari começou a tradução das Confissões de Santo Agostinho, da qual o Caderno 2 publica fragmentos nesta edição. Não é tanto a tradução que surpreende. Afinal, Pignatari traduziu Dante, Shakespeare e Goethe, entre tantos outros grandes nomes da literatura universal. Surpreende, sim, o fato de um poeta ateu, conhecido por sua ironia, traduzir um doutor da Igreja Católica marcado inicialmente pelo neoplatonismo e que, convertido, deu seu dinheiro aos pobres após viver uma vida dissoluta. O que teria aproximado Décio Pignatari da primeira autobiografia de que se tem notícia, escrita por um filho de berberes do Norte da África? A sedução pelo paganismo e os prazeres do corpo ou sua conversão ao cristianismo?

Difícil saber. Nem mesmo o filho do poeta, Dante Pignatari, pianista erudito e inventariante, arriscaria uma resposta. Ele encontrou a página com a tradução de Agostinho perdida em meio a manuscritos que trazem outros textos inéditos, entre os quais uma peça teatral, a segunda escrita pelo autor do mais conhecido poema concreto da história, Beba Coca Cola (1957), em que subverte o slogan do popular refrigerante ao alterar fonemas e formar novas palavras – a última delas, “cloaca”.

Décio formou ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos o trio de poetas mais conhecidos do movimento de vanguarda que, simultaneamente, na Suíça e Brasil, nos anos 1950, fez da experimentação linguística e visual sua mola propulsora. Com eles publicou, em 1955, a revista Noigrandes, que tratava, entre outros temas, da comunicação não-verbal (embora sem abdicar da palavra). Tantos os irmãos Campos como Décio Pignatari sempre se dedicaram à tradução de poetas pouco conhecidos ou lidos no Brasil, concretos ou não, além de produzir obras de referência no campo da teoria literária.

Cartas inéditas. Até por isso, Pignatari trocou cartas com importantes filósofos, ensaístas e linguistas europeus, entre eles o escritor italiano Umberto Eco e o linguista russo Roman Jakobson (1896-1982), pioneiro na análise estrutural da poesia, tendo assinado ensaios sobre a obra de Fernando Pessoa e Brecht. A caixa de correspondência do poeta tem também cartas da poeta carioca Cecília Meireles. Todo esse material está sendo analisado pelo filho Dante e poderá ser publicado após catalogação. Outra surpresa para Dante foi encontrar os manuscritos de um diário escrito quando seu pai estava morando temporariamente em Ferrara, no ano 2000. “Nunca imaginei sequer que ele tivesse um diário”, diz ele.

Alguns lugares na Europa – e especialmente Ferrara, terra natal de Antonioni – exerciam enorme fascínio sobre Pignatari. Ele estava morando lá, em 2007, quando escreveu a peça Nísia Viagem Magnética, a pouco conhecida história de Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), educadora e poeta popular do Rio Grande do Norte que morou durante três décadas na Europa. Feminista de primeira hora, Nísia (pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto) circulou pelas cortes europeias, conheceu Wagner e Nietzsche, foi amante do positivista Auguste Comte, mas Décio, em sua peça inédita sobre ela, joga o foco sobre seu relacionamento com outra mulher. Na primeira peça, Céu de Lona, nunca montada, ele toca em outro ponto polêmico: o casamento inter-racial e a conflituosa relação de Machado de Assis com a mulher Carolina.

“Nos últimos tempos, antes do Alzheimer, ele se mostrava muito interessado nos românticos”, revela o filho Dante, também ele um entusiasta do período, sendo autor de uma tese sobre o compositor cearense Alberto Nepomuceno. “Tínhamos uma paixão compartilhada, pois meu pai chegou a escrever sobre Chopin”. Esse e outros escritos, publicados em livros já fora de catálogo, deverão ter novas edições pela Ateliê Editorial.” Os primeiros títulos serão O Rosto da Memória, publicado pela Brasiliense em 1986, e Panteros, que a Editora 34 lançou em 1982″.

Dante coletou também crônicas de futebol que o poeta escreveu em 1965. Conseguiu encontrar quase todas as 27 escritas para um periódico paulista pelo pai, que, curiosamente, se dedicava à pintura, atividade só conhecida dos familiares e íntimos. Interessado em arte, como os irmãos Campos, ele foi amigo de Volpi e Fiaminghi, mas não fez pintura concreta. Preferia as curvas sensuais do corpo feminino. Décio Pignatari deixou mais de 20 livros, o primeiro deles Carrossel, de 1950, e o último, Bili com Limão Verde na Mão, texto infantojuvenil lançado pela editora Cosac Naify em 2009, a epifania de uma menina que empresta seu nome à obra.

Trecho Inédito

“Se fizesse silêncio o tumulto da carne…

…e silenciassem as imagens da terra, das águas e dos ares, e até mesmo dos céus, e a própria alma se superasse, não pensando mais em si (silêncio também nos sonhos e na imaginação); se todas a línguas e todos os signos e tudo o que não se produz senão de passagem fizessem silêncio absoluto, pois, se pudéssemos ouvi-los, diriam:

“Não fomos nós que nos fizemos a nós mesmos, e sim aquele permanentemente eterno” e se então se calassem, pois ouriçaram os nossos ouvidos para aquele que os fez, e se ele próprio falasse sozinho, não pelas coisas todas, mas por conta própria, de modo que ouvíssemos o seu verbo, não pela língua da carne ou pela voz dos anjos, não pelo estrondo das nuvens ou o enigma das parábolas, mas por ele mesmo, que amamos em tudo aquilo…”

Conheça os livros de Décio Pignatari publicados pela Ateliê

“Viva Vaia”, de Augusto de Campos: um marco da poesia concreta

“Augusto de Campos realiza uma pesquisa poética regida pelo signo da invenção, utilizando recursos das tecnologias digitais que permitem integrar palavra, som, imagem, movimento, tempo e espaço em composições que solicitam a participação inteligente do leitor para a construção de significados”, define Claudio Daniel.

Esta talvez seja uma das melhores sínteses para entender a relevância de Viva Vaia, livro de 1979, que está na quinta edição e que é um dos mais importantes registros do Concretismo brasileiro. Em quatro décadas, o livro se confirma como uma das obras mais importantes da literatura brasileira.

Livro Viva Vaia
Viva Vaia

O Concretismo – movimento de vanguarda que teve manifestações na música, artes plásticas e literatura – foi uma revolução no modelo poético brasileiro. Lançado oficialmente em 1956, pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e por Décio Pignatari, o movimento da poesia concreta preconizava o desaparecimento do eu lírico e a utilização de signos visuais e geométricos para compor a poesia. Em outras palavras, o concretismo sugeria que a forma fizesse parte da poesia, o que, em última instância pode levar ao desaparecimento do verso.  

Todas as manifestações artísticas do concretismo são bastante elaboradas, dando relevância à forma: os efeitos gráficos e recursos visuais e fonéticos da poesia muitas vezes a fazem parecer uma peça de design gráfico.  O uso do papel como um espaço quase geográfico também propõe uma leitura interativa – com a participação do leitor na construção dos significados propostos.

Viva Vaia

Este livro, que reúne poemas de Augusto de Campos escritos entre 1949 e 1979, traz um CD encartado, com quinze dos poemas que pertencem ao livro. Destes, dez figuraram no CD POESIA É RISCO, lançado em 1995, com criação musical e sonorização de Cid Campos. A diagramação de Julio Plaza e o projeto gráfico original foram respeitados e mantidos. Além disso, a edição devolve a impressão cromática inicial a alguns poemas difíceis de se reproduzir.

A poesia de Viva Vaia traz não apenas questões gráficas e visuais, mas também uma carga importante de crítica social, já que levam o leitor a pensar sobre o mundo que o cerca, com uma atualidade assombrosa ainda nos dias de hoje.

O poema que dá título à antologia é dedicado a Caetano Veloso, aludindo ao episódio em que ele fora vaiado pelo público durante o Festival Internacional da Canção de 1968.

Um dos exemplos do volume é o poema “Rever” (acima), um palíndromo perfeito que, nesta configuração gráfica contém no signo seu próprio significado. Mais que um achado gráfico, um jogo poético de palavras e imagens.

Viva Vaia é uma experiência estética ampla, que contempla não apenas a poesia, mas artes visuais, música e também provoca no leitor uma reflexão crítica sobre como todas essas inovações foram absorvidas e utilizadas pelo mercado.   

Conheça outras obras de Augusto de Campos

Março é mês de poesia!

Quem ama ler, lembra: março é mês da poesia. Mas você sabe por quê o terceiro mês do ano é considerado o mais poético deles? A razão é que em março são comemoradas duas datas tradicionalmente ligadas à poesia. Até 2015, no dia 14, era comemorado o Dia Nacional da Poesia. E, até hoje, o dia 21 de março é o Dia Mundial da Poesia.

Foi em 1999 que a XXX Conferência Geral da UNESCO determinou que 21 de março fosse considerado o Dia Mundial da Poesia, em uma ação para apoiar a diversidade de línguas existentes no mundo por meio da expressão poética.  Desde então, a data é celebrada pelo mundo afora.

Já o dia 14 de março é a data de aniversário de Castro Alves, poeta romântico brasileiro, nascido em 1847, muito conhecido por sua produção poética ligada a temas como o abolicionismo e crítica social, que marcaram a Terceira Geração do Romantismo Brasileiro. Para o crítico Afrânio Peixoto, ele foi “o maior poeta brasileiro, lírico e épico”, o que por si só já justificaria a escolha da data. Castro Alves escreveu, entre outros, Espumas Flutuantes, sua obra lírica mais significativa. Entretanto, em 2015, foi sancionada a Lei 13.131, que institui como 31 de outubro o Dia Nacional da Poesia, em homenagem à data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade.

Qualquer que seja a data, entretanto, de uma coisa a gente tem certeza: poesia é fundamental para a vida. Por isso, hoje, fazemos uma seleta de poemas aqui, no Blog da Ateliê:

O “adeus” de Teresa

A vez primeira que eu fitei Teresa,

Como as plantas que arrasta a correnteza,

A valsa nos levou nos giros seus

E amamos juntos E depois na sala

“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala


E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .

E da alcova saía um cavaleiro

Inda beijando uma mulher sem véus

Era eu Era a pálida Teresa!

“Adeus” lhe disse conservando-a presa


E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”



Passaram tempos sec’los de delírio

Prazeres divinais gozos do Empíreo

… Mas um dia volvi aos lares meus.

Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!. . . “

Ela, chorando mais que uma criança,



Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”


Quando voltei era o palácio em festa!

E a voz d’Ela e de um homem lá na orquesta

Preenchiam de amor o azul dos céus.

Entrei! Ela me olhou branca surpresa!

Foi a última vez que eu vi Teresa!


E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Castro Alves, Espumas Flutuantes

Livro Viva Vaia

DIÁLOGO A DOIS

“A Angústia, Augusto, esse leão de areia…”

(Décio Pignatari)

– A Angústia, Augusto, esse leão de areia Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos E que desdenha a fronte que lhe ofertas

(Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos)

E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos, É o Morto que se fecha em tua pele?

O Expulso do teu corpo no teu corpo? A Pedra que se rompe dos teus pulsos? A Areia areia apenas mais o vento?

– A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro, Esse leão de areia digo este leão

(Ah! o longo olhar sereno em que nos empenhamos, Que é como se eu me estrangulasse com os olhos)

De sangue:

Eu mesmo, além do espelho.

Augusto de Campos, Viva Vaia

ESPELHAR

espelho espelho meu

existe alguém mais

eu

do que

eu

?

Luci Collin, Antologia Poética 1984-2018

III

era o dia em que o sol escurecia pesaroso da morte do Senhor,

quando sem dar por mim, sem nem supor,

teu belo olhar, Senhora, me prendia.

inútil precaver-me parecia

e, desatento aos golpes de amor, segui, de mim seguro: e minha dor

na dor universal assim nascia.

achou-me amor de todo desarmado, aberta a via dos olhos até o peito,

tornado pelas lágrimas num charco.

não parece ter sido grande feito

ferir-me amor com flecha nesse estado

e a ti armada nem mostrar o arco.

Petrarca, Cancioneiro

CIRCE

Porque eu os amava

me encerraram aqui

nesta ilha

neste corpo

Transformo-os

no seu melhor

mas não posso beber

do meu próprio veneno

Por anos esperei

no topo deste penhasco

Ele não voltou:

ensinem-me algo do seu mundo

que eu ainda não saiba

Leila Guenther, Viagem a Um Deserto Interior

Morada

Voltei a escrever para ti

agora que me esqueceste

no intuito de regressar

à esperança que aí me levou,

onde já não moras.

Paulo Lopes Lourenço, Cinematografia

Sem Título

Ser poeta é viver em permanente estado

de(s)atenção

Que importa a luz acesa

a porta aberta

o leite derramando

no fogão?

(mas

o gotejar da torneira:

pulsação)

Marise Hansen, Porta-retratos

Fala D João  3

mais  de pessoa sabe

quem  de peçonha sabe

mocho  a noite  cobreavas

espertando os olhos  da coruja

em pedra  avoenga

meu  gume  afiara

à alva  a cabeça

Évora verá

Hélio Cabral, Fala D. João

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Epigramas, de Marcial: tuítes cômicos e pornográficos da Roma do século I

Marco Valério Marcial é considerado o “pai do epigrama” – poema curto de viés satírico, pornográfico ou injurioso que marcou época na Roma Antiga. Apesar de sua importância e de sua conexão com a atualidade – quando os tuítes reinventaram a escrita econômica – as edições de Marcial são raras no Brasil.

Para preencher essa lacuna e trazer ao conhecimento do público esta arte poética, a Ateliê  Editorial lança, em uma edição bilíngue especial, Epigramas, escritos por Marco Valério Marcial, e traduzidos diretamente do latim por Rodrigo Garcia Lopes. A edição é composta por 12 livrinhos, a partir do projeto gráfico de Gustavo Piqueira, que reúnem 219 poemas escritos entre 86 e 103 d.C. Leia, a seguir, a entrevista com Rodrigo Garcia Lopes sobre a obra, que demorou mais de 25 anos para ficar pronta:

 

Rodrigo Garcia Lopes fotografado por Jacqueline Sasano

Como surgiu a ideia e o convite para realizar esta edição?

Rodrigo Garcia Lopes: Marcial é um poeta social, satírico, complexo. Comecei a traduzi-lo em 1990, retomando o projeto em 2015. Na época perguntei ao escritor Rodrigo Lacerda se ele achava que alguma editora poderia se interessar pelo projeto. Ele sugeriu que eu procurasse a Ateliê. Passei alguns meses traduzindo-o intensivamente, até chegar aos 219 poemas da presente edição. Sempre fico tentado a incluir epigramas que haviam passado despercebidos.

 

 

Como foi a escolha dos epigramas que compõem este volume?

RGL: Marcial escreveu 15 livros de poesia, cerca de 1.561 epigramas. Procurei fazer uma seleção representativa, variando os temas, mais ou menos como ele fazia em seus livros, bem como a extensão dos epigramas. Também levei em conta os que me permitiam repoetizá-lo em português, mantendo o frescor, o caráter imediato, a concisão e, claro, seu humor. Marcial é engraçadíssimo, apesar de ser impiedoso e, muitas vezes, cruel em sua poesia. Espero que o leitor se divirta tanto quanto eu ao traduzi-lo.

 

Quais os temas dos epigramas que compõem este volume?

RGL: Se há alguma musa em sua poesia, ela se chama Roma: é da cidade que ele tira sua matéria-prima. Como um dublê de poeta-humorista-colunista-cronista social — munido de uma câmera portátil e verbal, o epigrama — ele nos convida a espiar os espaços públicos e privados de Roma no século I em todas as suas contradições. Apesar de marcado como poeta da invectiva, dos insultos cômicos, pornográficos, eu incluí também vertentes menos conhecidas de Marcial, como os poemas de amor e amizade, sobre a boemia, reflexões sobre  escravidão, sobre viver o presente, além de epitáfios tocantes. Incluí também uma série de epigramas em que ele aborda sua condição de poeta, de autor. Epigramas metapoéticos avant la lettre.

 

O livro tem um formato bastante peculiar: parecem pequenos livros que compõem um livro completo. Sabe dizer por que houve essa escolha?

RGL: Creio que o projeto gráfico foi inspirado no fato de que Marcial se referia a seus livros como libellus (livrinhos, mas também petição, panfleto e publicação difamatória). Então, cada um dos 12 cadernos desta edição refere-se a um dos volumes que ele lançou regularmente de 86 a 103 d.C. Acho que o projeto gráfico remete também ao caráter artesanal do livro na época de Marcial que, basicamente, era um rolo de papiro preso em dois cilindros de madeira, desenrolado à medida que ia sendo lido.

 

No posfácio, você escreve que o trabalho de tradução foi interrompido e que, no total, durou mais de 25 anos. Por quê?

RGL: Comecei a traduzir Marcial em 1990, no Arizona, nos intervalos do mestrado que fazia sobre William Burroughs. No começo foi mais para me divertir do estresse acadêmico, sem maiores pretensões. Acabei reunindo um bom material na volta ao Brasil. Fui traduzindo e publicando mais epigramas ao longo dos anos, mas nunca achava que tinha um número suficiente para um livro representativo. Em 2015, depois que lancei o romance policial O Trovador, queria fazer algo diferente. Aí o Marcial acenou pra mim.

 

Os epigramas foram traduzidos diretamente do latim?

RGL: Sim. Consultei também vários estudos, dicionários, edições críticas de Marcial para outras línguas, como o inglês e espanhol e outras línguas, de vários séculos. Isso me deu uma ideia de como Marcial foi tratado. As principais fontes foram as edições feitas por D. R. Shackleton Bailey (Martial: Epigrams, Loeb Classical Library, Cambridge: Harvard University Press, três volumes, 1993) e por Walter C. A. Ker,  para a mesma coleção e editora,  em dois volumes (1968).

Quais foram os maiores desafios desse trabalho de tradução?

RGL: Repoetizá-los em português, mantendo a concisão lapidar e a clareza do latim, o caráter direto e imediato da poesia de Marcial.

 

Apesar do gênero epigrama ser considerado “menor”, sua composição é bastante complexa. Em que medida traduzir epigramas reflete essa complexidade? Com que aspectos formais você mais se preocupou ao realizar a tradução?

RGL: Marcial usa uma série de recursos e técnicas em seus epigramas: a conclusão surpreendente (a ferroada), recursos retóricos como antítese, paradoxo, alusão, ironia, hipérbole, anáfora, elipse, acumulação, aliteração, assonância, metáfora, metonímia, rimas, paronomásia (trocadilhos), entre outros. Vários recursos que são usados até hoje pelos comediantes de stand-up (especialmente no caso dos comediantes de uma frase, como Stewart Francis, por exemplo, que eu adoro). Na medida do possível, preocupei-me com os vários planos linguísticos do poema, privilegiando os aspectos que me pareceram os mais importantes. Ele se vale de uma grande liberdade de linguagem, do luxo ao lixo, expandindo o léxico.

 

Marcial é bastante conhecido no Brasil?

RGL: Apesar de tratar-se de um clássico, são raras as edições da poesia de Marcial no Brasil. O mais comum é a publicação de poemas esparsos em antologias, como nas de Décio Pignatari, José Paulo Paes e outros. Há O Catálogo de Mulheres, publicado pela Humanitas, em 2010, que se concentra nos poemas misóginos de Marcial. As demais edições são portuguesas. Minha intenção foi resgatar e recolocar a poesia de Marcial entre nós. O livro traz notas explicativas, além de um posfácio, em que procuro aproximar o leitor brasileiro do estilo e do contexto histórico e social da Roma de Marcial, das várias vertentes, técnicas e peculiaridades de sua poesia.

 

Qual a importância de ter uma obra como a de Marcial traduzida para o português, em pleno século XXI?  

RGL: Como diria Tristan Tzara, o que nos atrai na obra antiga é sua novidade. Além de ser um grande poeta, Marcial é extremamente moderno ao prenunciar aspectos de nossa sociedade do espetáculo, de comunicação instantânea (como os 140 caracteres do Twitter), da indústria da fofoca, do consumo (onde tudo está à venda), da superficialidade, exibicionismo, da cultura da imagem, redes sociais, culto às

celebridades, fama instantânea e reality shows. Se ele acabou sendo obscurecido por outros autores clássicos, dada sua obscenidade, mais um motivo para que Marcial seja resgatado para os leitores de hoje, sobretudo no atual momento, no Brasil.

 

Epigramas, em geral, são poemas curtos, compostos por poucos versos. Mas alguns dos epigramas de Marcial são longos. Você explica a razão disso no posfácio do livro, mas poderia, por gentileza, falar sobre isso para nossos leitores?

RGL: Um epigrama longo pode parecer paradoxal num gênero que prima pela brevidade. O próprio Marcial brinca em vários epigramas com isso: um longo livro de poemas curtos. Marcial tem epigramas que vão de 1 até 51 versos. A questão da brevidade parece ser resolvida por ele em 2.77, onde adverte um certo crítico e poetastro Coscônio, que acusa seus epigramas de serem “muito longos”. Depois de dizer que, mesmo poetas que ele admira, como Pedão e Marso, escreveram poemas que ocupam mais de uma coluna no papiro (página), Marcial defende que epigramas não são longos “se não há nada neles que se possa cortar”.

 

Em sua opinião, qual é a riqueza dos epigramas de Marcial?

RGL: Marcial mostrou como o epigrama é um gênero versátil e atualíssimo. Foi ele quem reinventou e estabeleceu o epigrama moderno, tal qual conhecemos hoje, tornando-se um modelo para outros autores através dos tempos: um poema curto, satírico e de final picante, geralmente com uma corrosiva crítica social e de costumes. Lendo-o constatamos que a natureza humana não mudou tanto, que Marcial é um poeta do seu tempo, da Roma antiga, mas do nosso também. É importante dizer que Marcial, ao concentrar seus esforços no epigrama, estava situando-o, estrategicamente, dentro de uma tradição satírica e assumidamente marginal, na contramão da dita poesia elevada, de dicção austera, grandiloquente e carregada de mitos, como a epopeia e a tragédia. Como adverte no epigrama 10.4, numa de suas frequentes alusões ao leitor: “Não vai achar aqui Centauros, Górgonas e Harpias: / minha página tem o sabor dos homens”.

Retrospectiva 2015: o que ler agora?

Por: Renata de Albuquerque

“Finalmente!”. Essa é a sensação da maior parte das pessoas quando chega o final do ano. Afinal, esse é um momento em que (quase) todo mundo faz uma pausa no trabalho e nos estudos, para recuperar as energias para o ano que vai começar.

E, para quem gosta de ler, a pergunta que fica é: o que ler agora? Durante o ano todo priorizamos as leituras “necessárias” e deixamos as “prazerosas” para depois. Ou são os livros técnicos, ou são os didáticos e paradidáticos que acabam tomando o espaço de poesia, romance, contos e biografias.

Então, para ajudar na escolha das “leituras de férias”, a Ateliê faz uma Retrospectiva dos seus principais lançamentos do ano:

angu de sangue bxAngu de Sangue

Marcelino Freire

Estreia de Marcelino Freire como contista, neste ano o livro ganhou uma nova edição, em comemoração aos seus 15 anos de lançamento.

 

 

 

Antologia da Poesia Erotica BrasileiraAntologia da Poesia Erótica Brasileira

Elaine Robert Moraes

Um dos maiores sucessos do ano, foi lançado durante a Flip e traz mais de 350 poemas escritos nos últimos quatro séculos por autores brasileiros.

 

 

 

kalevala capaKalevala – Poema Primeiro

Elias Lönnrot; tradução  Álvaro Faleiros e José Bizerril

Pela primeira vez esta parte do poema épico finlandês foi traduzida para o português. A edição estava esgotada e, em 2015, a Ateliê reeditou o volume.

 

 

 

capa mensagemMensagem

Fernando Pessoa

Esta edição de Mensagem traz ao leitor brasileiro, pela primeira vez, o texto rigorosamente estabelecido, segundo critérios da crítica textual, e atualizado, segundo o acordo ortográfico de 1990. A apresentação é de António Apolinário Lourenço.

 

Poesia É Criação: Uma AntologiaPoesia É Criação: Uma Antologia

José de Almada Negreiros; Organização Fernando Cabral Martins e Sílvia Laureano Costa

Antologia que reúne poemas, crônicas, contos, diferentes prosas e até desenhos do multiartista português.

 

 

 

O Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom PantagruelO Quarto Livro dos Fatos e Ditos Heroicos do Bom Pantagruel

François Rabelais; tradução Élide Valarini Oliver

Nesta tradução inédita, Élide Valarini Oliver desvenda dois trechos até então obscuros da obra clássica.

 

 

 


decioblogTerceiro Tempo

Décio Pignatari

O futebol visto pelos olhos do poeta concretista e a partir dos pés de craques como Ademir da Guia, Rivellino, Nilton Santos, Garrincha e Pelé.

 

 

 

 

voz que cantaA Voz que canta na Voz que Fala – Poética e Política na Trajetória de Gilberto Gil

Pedro Henrique Varoni de Carvalho

O autor trafega pela análise do discurso e aponta como Gilberto Gil trouxe o seu discurso poético-tropicalista ao Ministério da Cultura.

 

Condensação e expansão em Viva Vaia

Por: Thiago Moreira Correa*

Viva Vaia Viva Vaia traz ao leitor uma ampla visão da obra de Augusto de Campos, pois podemos observar a evolução de formas ocorrida ao longo de 30 anos em sua poesia. Dos versos decassílabos de Rei menos o reino (1949-1951), passando pelo experimentalismo de Poetamenos (1953), pela instauração da Poesia Concreta (Exposição Nacional de Arte Concreta no MAM/SP, em 1956), chegando às Intraduções (1974-1977) e aos galácticos Stelegramas (1975-1978); a transformação poética parece ser um fio condutor – dentre muitos – que nos liga à totalidade do livro.

Ora, essa mudança pode ser pensada sob vários pontos de vista. No entanto, ao passar da produção poética para a crítica desenvolvida não somente por Augusto de Campos, mas também pelos seus “irmãos concretistas”, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, verificamos termos recorrentes que podem balizar essa leitura global que Viva Vaia nos proporciona. São eles: inovação e condensação.

Dessa crítica, notamos que a condensação tem um papel preponderante para a criação de uma poesia inovadora, cujos pilares Mallarmé, Pound, Joyce e Cummings levariam à tão cara forma sintético-ideogramática de uma poesia verbivocovisual. Por isso, buscamos compreender brevemente como essa técnica efetiva-se nas poesias feitas no período de 1949 a 1979.

A abordagem escolhida para tratar desse processo de condensação está situada na teoria da linguagem, já que a exploração da plasticidade e sonoridade verbal fundamenta a produção dessa poesia. Assim, consideramos a Expressão e o Conteúdo da linguagem para fazer nossa análise (os termos “plano de expressão” e “plano de conteúdo”, estabelecidos por Louis Hjelmslev, foram simplificados para Expressão e Conteúdo, para evitar a terminologia que divide cada plano em forma e substância).

Expressão e Conteúdo

 

Expressão e Conteúdo formam, por meio de sua junção, o sentido linguístico. Por isso são indissociáveis: a Expressão é a veiculadora dos conteúdos, que se não forem expressos, não tornarão possível a apreensão da mensagem.  Do mesmo modo, se a Expressão não está vinculada a nenhum conteúdo, o resultado é uma mensagem ininteligível. Por exemplo, se ouvíssemos duas pessoas falando dinamarquês, sem que soubéssemos a língua, somente teríamos acesso à Expressão fonética daquela língua, dissociada de qualquer Conteúdo.

Além disso, um mesmo conteúdo pode ser expresso de diversas formas: um romance e um filme podem ter conteúdos equivalentes, porém cada linguagem o expressa com suas formas particulares, que são manifestadas por um ou mais de um canal de percepção (audição, olfato, paladar, tato e visão). Entretanto, dividimos Expressão e Conteúdo para fins de análise, contribuindo para a compreensão do sistema linguístico.

Logo, o caráter verbivocovisual da poesia de Augusto de Campos analisado pela teoria da linguagem gera outra perspectiva sobre o objeto poético: diversas Expressões manifestariam um mesmo Conteúdo verbal. A plasticidade e a sonoridade das palavras e a tatilidade da página são empregadas para intensificar conteúdos verbais – o que ganha maior relevância nessa nova edição com papel Offset. A partir dessa divisão, priorizamos a relação entre conteúdo e visualidade.

Se o processo de condensação guia nossa análise, é necessário relacioná-lo ao seu contrário semântico – a expansão – para identificar as direções tomadas pela Expressão e Conteúdo poéticos. Respeitando a sucessão cronológica, observamos que a fase chamada de “pré-concreta” possui uma tendência à expansão verbal e a uma neutralidade visual, se comparada ao restante da obra – nem expansiva e nem condensada, ou seja, regular. O uso intenso da sintaxe analítico-discursiva e das figuras de linguagem, principalmente a metáfora, criaria um efeito expansivo no conteúdo verbal; já o emprego das regras poéticas tradicionais (rima e metrificação) e da tipografia homogênea formaria poemas neutros ou regulares, mantendo o método da tradição poética.  Apesar de que uma análise comparativa, aos poemas produzidos por outros autores no mesmo período, encontraria traços de uma poesia mais condensada, precursora da síntese concretista.

Em Poetamenos (1953) e Bestiário (1955) há uma expansão plástica e uma condensação verbal. Por exemplo, no poema “Paraíso pudendo” (1953), há uma síntese de várias temáticas: sexual, religiosa e metalinguística, sob uma multiplicidade cromática, topológica e eidética, como ressalta Antônio Vicente S. Pietroforte. Desse modo, o conteúdo verbal seguiria nessa mesma direção – redução metafórica e síntese sintática – até o seu ápice na Poesia Concreta; enquanto que a Expressão perderia intensidade nesse movimento expansivo e acompanharia a condensação verbal, devido à monocromia e ao geometrismo.

Dessa intensa condensação verbal e plástica alcançada pelo Concretismo, como em “Tensão” (1956) e “Pluvial” (1959), os poemas posteriores a ele são direcionados a uma flutuação de maior ou menor condensação do Conteúdo, e a Expressão regressaria a seu anterior processo de expansão. Esse ponto de vista pode ser identificado no aumento da heterogeneidade visual de poemas como “Psiu!”(1966) e “Memos” (1976), bem como nos aumentos e diminuições da presença verbal em poemas como “Greve” (1961) e “Eco de Ausonius” (1977) ou em “Luxo” (1965) e “Rever” (1970). O extremo dessa expansão plástica e dessa condensação verbal produz poemas como “Olho por Olho” (1964) e “Pentahexagrama para John Cage” (1977) ou o livro Profilogramas (1966-1974), em que o conteúdo verbal se resume aos títulos dos poemas. Entretanto, tais extremos integram uma pequena parte dessa fase posterior.

Seria nesse campo intermediário, entre os poemas concretos e poemas visuais ou plásticos, que a maior parte da obra “pós-concretas” estaria situada. Como mostra o esquema abaixo:

Plano do Conteúdo Verbal

Esquema 1 Plano de conteúdo verbal VIVA VAIA

 

Plano de Expressão Plástico

 

Esquema 2 Plano de expressão verbal VIVA VAIA

Portanto, podemos pensar em uma poesia que condensa seus conteúdos verbais e expande sua expressão plástica. No entanto, é necessário observar que essa expansão plástica contribui para a intensificação do conteúdo verbal, criando a força comunicativa da poesia de Augusto de Campos e que parte desse efeito de objetividade e síntese se deve ao desenvolvimento da metalinguagem nesse tipo de poesia.

Viva Vaia reúne a heterogeneidade desse work in progress que é a obra de Augusto de Campos, mostra o desenvolvimento de sua poética e nos seduz com o seu experimentalismo artístico. Depois de mais de 60 anos fazendo poesia, a vaia é condensada ao nada e viva (!) essa poesia sempre inovadora.

 

Conheça outros livros de Augusto de Campos publicados pela Ateliê Editorial

 

*Thiago Moreira Correa trabalha nas áreas de tradução e pesquisa em Semiótica e Linguística Geral. É mestre pela Universidade de São Paulo com a dissertação “A metalinguagem na poesia de Augusto de Campos”, atualmente, realiza pesquisa em nível de doutorado sobre Inscrições Urbanas.