Monthly Archives: agosto 2020

No Dia do Psicólogo, livros sobre psicologia e psicanálise

Dia 27 de agosto é comemorado o Dia do Psicólogo, um profissional responsável pela manutenção da saúde mental, pelo estudo do comportamento humano e comprometido com a promoção dos direitos humanos e a transformação da realidade social.

Em 2020, quando passamos grande parte do tempo isolados de outras pessoas, por conta da pandemia do novo coronavírus, a importância desse profissional ganhou ainda mais evidência. A busca por esse tipo de atendimento subiu, com a possibilidade de realizar consultas online.

Na Ateliê, a área de psicologia e psicanálise merece destaque. São quase duas dezenas de títulos dedicados ao assunto, publicados ao longo da história da editora.  E, para comemorar o Dia do Psicólogo, selecionamos alguns títulos em destaque:

Proust, Poeta e Psicanalista

Philippe Willemart problematiza trechos da obra proustiana a partir da psicanálise. O livro analisa clássicos, como Em Busca do Tempo Perdido, e inclui manuscritos não disponíveis para o leitor brasileiro. Com esse riquíssimo material, o autor traça relações entre a criação literária (o poeta) e o conhecimento do homem (o psicanalista).

Arte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise

Entender a percepção como fenômeno estético é o que motiva as reflexões deste livro. Os treze ensaios retomam ideias de Lyotard, Argan, Winnicott, Bachelard, Chauí, entre outros. No entanto, o pensamento de Frayze-Pereira gira em torno das obras de Freud, Merleau-Ponty e Foucault. Com eles, o autor mostra que a arte se faz no encontro de dois sentimentos: o da forma e o do mundo. A partir dessa conexão entre percepção e política, a obra lança nova luz sobre o entendimento humano.

Eugênio Montale – Criatividade Poética e Psicanálise

Marisa Pelella Mélega analisa textos do poeta italiano e de autores que fizeram de sua obra objeto de crítica. A partir dessas leituras, propõe sua própria hipótese interpretativa, com o aporte da psicanálise contemporânea. A autora encontra na poética de Montale subsídios para pensar a passagem do tempo, a finitude da vida, a angústia da separação e, sobretudo, a emoção como centro da experiência humana.

As Portas do Sonho

O sonho é “o mais antigo e complexo dos gêneros literários”: quem sonha é poeta da própria imaginação. Para além da interpretação psicanalítica, a autora vê no mundo onírico um modo de conhecer a cultura de um período histórico. É com essa perspectiva que ela estuda os sonhos na Grécia Antiga, como o de Penélope, na Odisseia, e os de Clitemnestra, nas tragédias de Sófocles e de Ésquilo. As imagens do livro ajudam a compor a análise, revelando aspectos importantes da sociedade grega – e da nossa.

Cores de Rosa

 “As cores são ações da luz. Ações e paixões”, diz Goethe. E é à reverberação de significados desta frase, antes poética que científica, que se quer vincular o título deste livro de ensaios sobre Grande Sertão: Veredas e alguns contos e novelas de Guimarães Rosa. Efetivamente, num recurso interpretativo, alguns de seus textos, objetos aqui de análise, são colorizados. As cores estão também presentes nas fotografias de Germano Neto, que povoam estas páginas: que essas fotos cumpram sua função de suporte imagético para o mundo do sertão, na sua realidade poética e geográfica – mesmo que saibamos, com Riobaldo, que “sertão: é dentro da gente.”

O Encanto de Narciso: fotografia, história e memória

Em seu novo livro, o fotógrafo Boris Kossoy faz reflexões sobre temas que permeiam seu trabalho em textos curtos, densos e objetivos. Para além de registrar as imagens, aqui ele se debruça sobre seus significados e desdobramentos, “em busca de sua natureza e essência”, como ressalta o autor. Os textos foram escritos entre 2010 e 2018 e se organizam em seis capítulos: O Sistema e a Essência; Produção e Recepção; Desmontagem do Constructo; Fotografia e Memória; História da Fotografia; e Outras Dimensões da Fotografia.

A seguir, você lê alguns trechos do livro O Encanto de Narciso:

 A imagem fotográfica é um produto social e cultural; fornece sempre informações de diferentes naturezas acerca dos infindáveis assuntos que ocorrem na realidade concreta ou em motivos puramente abstratos ou ficcionais. Isso significa que são ilimitadas as possibilidades temáticas e que a criatividade só encontra limites na imaginação do fotógrafo, um filtro cultural.

Assim como a palavra é a expressão de uma ideia, de um pensamento, materializada pela linguagem verbal, a fotografia é, também, a expressão de um modo particular do seu autor interpretar o mundo tangível ou intangível.

A realidade do objeto não é a realidade da sua representação. Esta é criada a partir do objeto; não é, portanto, um duplo do objeto. A representação tem vida própria e duração perene. (p. 19/20)

Ao contrário do que diz o ditado popular, a imagem não “vale mais que mil palavras”. Se o receptor nada sabe a respeito do objeto fotografado em si ou do seu entorno, como compreender o que ela representa? As imagens fotográficas históricas, assim como as contemporâneas, contêm informações visuais sobre o objeto. Contudo, é necessário que o receptor da imagem tenha em seu repertório saberes e conhecimentos acumulados de diferentes naturezas para que possa compreender o objeto que vê representado, assim como o contexto histórico, social, político, cultural em que o mesmo se insere. Além de sua aparência. É através da experiência real, mas também da palavra, dos livros, da linguagem verbal, da cultura que adquirimos estes conhecimentos. (p. 25)

Onde termina o documental e onde começa o ficcional da imagem fotográfica?

A criação fotográfica é ilimitada, ou melhor dizendo, só é limitada pela imaginação do fotógrafo. No mundo da representação os fotógrafos se expressam de diferentes modos acerca da vida, da natureza, do mundo, da realidade. Qualquer que seja a aplicação, o registro – adjetivado de “documental” – é, desde a tomada da foto, resultado do olhar criativo de seu autor. (p. 75)

A desmontagem do documento fotográfico corresponde à desarticulação do processo de criação/construção da representação, etapa em que se busca decifrar o conjunto de informações codificadas que elas portam. Trata-se de trazer à tona suas histórias próprias tendo em vista o contexto local e a conjuntura política, social, econômica, cultural; reconstituir as condições de produção; decifrar os enigmas e os porquês acerca de intenções e finalidades que cercam a existência da representação; recuperar a mentalidade da época, entre outras descobertas circunscritas à imagem, operações necessárias para se compreender o aparente e o oculto, suas tramas, significação e alcance. (p. 123)

Neoclassicismo na lírica brasileira moderna

O que vem por aí? Muita gente tem feito esta pergunta, querendo saber sobre quais os próximos lançamentos da Ateliê e sobre o que esperar para o futuro. Como muitas novidades devem chegar em breve, para satisfazer a curiosidade dos nossos leitores – ou para aguçá-la ainda mais – o Blog da Ateliê resolveu fazer uma série de entrevistas com autores de obras que a editora deve lançar em breve.

Vagner Camilo

Desta vez, o assunto é o novo livro do professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP) Vagner Camilo, autor de Risos entre pares: poesia e humor românticos (EDUSP, 1997); de Drummond da Rosa do Povo à Rosa das Trevas (Ateliê Editorial; prêmio ANPOLL 2000), entre outros. Pesquisador das relações entre lírica e sociedade; a recepção de correntes críticas no Brasil (como o new criticism); e as interlocuções marcantes de alguns dos principais românticos e modernistas brasileiros com poetas franceses e ingleses. Atualmente, ele desenvolve pesquisa, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), sobre a vertente neoclássicas nas modernas líricas brasileira e argentina. Camilo lança, em breve, A Modernidade entre Tapumes: da Poesia Social à Inflexão Neoclássica na Lírica Brasileira Moderna.  

O livro aborda a tendência formalista que é típica da poesia brasileira das décadas de 1940 e 1950, a partir da obra de poetas da época. Essa discussão tem origem em outra obra de Camilo, Drummond: da Rosa do Povo à Rosa das Trevas, que tratava da guinada poética do poeta mineiro e de como a crítica a recebeu naquele momento histórico.

A partir dessa perspectiva, o leitor poderá entender melhor relevância estética e histórica de momentos decisivos, de virada, que acontecem de tempos em tempos a alguns autores e suas obras. “A tendência neoclássica na lírica do pós-guerra de Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima e Augusto Meyer é examinada aqui com base nos paradigmas internacionais e por meio do confronto com o programa da Geração de 1945, a fim de se refletir sobre a lógica da dinâmica histórica e o sentido desses retornos”, informa a quarta capa do livro.

“O percurso descrito no livro transita de uma das conquistas mais exitosas das reivindicações modernistas das décadas anteriores, alcançada pelo empenho participante de Drummond, para seguir como mergulho fundo e demorado, ao longo de oito capítulo, no exame da crise que se abateu sobre tais conquistas, devido a sua rotinização e à perda de sua força vital, até se espraiarnas águas e no vale do São Francisco, resgatando o projeto modernista de denúncia das mazelasdo Brasil profundo, reposto, no auge da reabilitação neoclássica, em clave elegíaca e em uma linguagem cujo cariz aparentemente extemporâneo, não embota seu vigore contundência crítica”.

Leitores, editoras, livrarias e autores em defesa do livro

A hashtag #emdefesadolivro tomou as redes sociais em agosto. O que parece algo óbvio – defender o livro, este instrumento de educação, cultura que ajuda a construir o presente e o futuro de uma nação – precisou mobilizar a comunidade em torno deste objeto. Autores, leitores, livrarias e editoras precisaram começar a se manifestar pois uma proposta do governo para a Reforma Tributária abriu uma brecha legal para a taxação do livro. É bom lembrar que, desde os anos 40 o mercado editorial conta com isenções para a produção de livros, algo que a atual proposta pretende derrubar. Se, mesmo com a política de apoio que tem mais de sete décadas, o número de livros lidos por ano por pessoa no Brasil não chega a três (segundo a 4ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil), esta iniciativa, que torna o livro ainda mais caro, deve reduzir ainda mais esse índice, impactando toda a cadeia produtiva.

Por isso, a Ateliê também aderiu à campanha para defender o livro, que ganhou inclusive um manifesto assinado por entidades representativas, como ABDL, ABDR, ABEU, ABRELIVROS, ANL, CBL, LIBRE e SNEL.

O público também pode contribuir, assinando o abaixo-assinado

A seguir, conheça a íntegra do Manifesto Em Defesa do Livro:

Em virtude do projeto de reforma tributária proposto pelo Ministério da Economia, ora em tramitação no Congresso Nacional, as entidades representativas do livro no Brasil, signatárias deste Manifesto, consideram urgentes e necessárias as seguintes ponderações:


⠀⠀⠀1. A Constituição Democrática de 1946 consagrou no país o regime de isenção de impostos para o papel utilizado na impressão de livros, jornais e revistas. Inspirada na luta de intelectuais, editores e escritores, a emenda constitucional foi apresentada pelo autor brasileiro de maior prestígio internacional à época, Jorge Amado.

⠀⠀⠀Por um lado, a isenção visava tornar o papel acessível às mais diferentes vozes no debate das questões nacionais, garantindo o suporte material para a livre manifestação de opiniões; por outro, barateava o produto final, permitindo que o livro e a imprensa pudessem chegar às camadas mais amplas da população, em um país onde o analfabetismo era, infelizmente, a regra e não a exceção.

⠀⠀⠀A mudança constitucional possibilitou a criação e o desenvolvimento das bibliotecas públicas no país, beneficiando as pessoas de menor poder aquisitivo e permitindo que o mercado editorial passasse a ter condições de publicar obras de alto valor intelectual e pedagógico, muitas delas sem apelo comercial, a custos compatíveis com o poder aquisitivo do leitor médio. Não há dúvidas de que a popularização do livro teve, e ainda tem, papel fundamental no aumento da educação do brasileiro.

⠀⠀2. De tal forma se enraizou no espírito da sociedade brasileira o apego à importância da leitura como fonte de educação e crescimento intelectual, de formação de cidadãs e cidadãos, de difusão da cultura e da informação qualificada, que a reforma de 1967 não só preservou o “espírito imunitário” da Constituição, como o ampliou, estendendo a isenção ao próprio objeto: o livro.

⠀⠀⠀A Constituição Cidadã de 1988 não poderia fazer diferente e consolidou a reiterada jurisprudência que isenta o livro, ferramenta básica de conhecimento, educação e cidadania, de impostos. A atual Carta Magna diz, em seu artigo 150, que é vedada à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios criarem impostos de qualquer natureza sobre o livro e a imprensa escrita.

⠀⠀3. No entanto, dada a complexidade da legislação tributária brasileira, foram criadas ao longo dos anos contribuições sociais, como PIS e COFINS, incidindo sobre a receita das empresas. Uma vez que os livros não são imunes das contribuições, a Lei nº 10.865 de 30 de abril de 2004 reduziu a zero a alíquota do PIS e da COFINS nas vendas de livros, em reconhecimento da importância deste bem para a sociedade.

⠀⠀⠀Isso permitiu uma redução imediata do preço dos livros nos anos seguintes: entre 2006 e 2011, o valor médio diminuiu 33%, com um crescimento de 90 milhões de exemplares vendidos. Os fatos demonstram claramente a correlação entre crescimento econômico, melhoria da escolaridade e aumento da acessibilidade do livro no país.

⠀⠀⠀A imunidade tributária está presente em vários países do mundo. Um relatório da International Publishers Association (IPA) de 2018 argumenta que o livro não é uma commodity como qualquer outra: é um ativo estratégico para a economia criativa, que facilita a mobilidade social assim como o crescimento pessoal e traz a médio prazo benefícios sociais, culturais e econômicos para a sociedade. Qualquer aumento no custo, por menor que seja, afeta o consumo e, em consequência, os investimentos em novos títulos. A imunidade é uma forma de encorajar a leitura e promover os benefícios de uma educação de longo prazo.

⠀⠀⠀ Recentemente, em abril do corrente ano, o Supremo Tribunal Federal (STF), em decisão unânime, reconheceu por meio da Proposta de Súmula Vinculante 132, que o direito à isenção tributária do livro se estendia também aos leitores eletrônicos. Enfim, está na tradição da formulação das leis brasileiras e na história das decisões jurídicas, bem fundamentadas e analisadas em vários períodos diferentes da nossa história, que o livro é disseminador de conhecimento em lato senso, e que deve contribuir para o combate à desigualdade de formação da população brasileira.

⠀⠀4. O escritor e editor Monteiro Lobato cunhou a famosa frase “um país se faz com homens e livros”; anos depois, o editor José Olympio acrescentou: “…e ideias”. Ai do país que se torna um deserto de homens, livros e ideias. Queimado em praça pública sempre que a intolerância triunfa, o livro resistiu aos séculos e atravessou as crises tendo a sua significação para a humanidade renovada e fortalecida.

⠀⠀⠀Aliás, existe alguma prova mais eloquente da importância do livro para as vidas humanas do que as estantes cheias de obras, tal como vemos na televisão e nas telas dos computadores e celulares, nesse momento de isolamento social? Os livros estão ali, às costas das pessoas como as asas de um anjo, significando proteção, sabedoria, compartilhamento de ideias e imaginário, reafirmando nossa fé na humanidade. O amor ao livro renasceu na pandemia.

⠀⠀⠀É fácil calcular o quanto o governo poderá arrecadar com a nova CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), proposta em regime de urgência ao Congresso. Muito mais difícil é avaliar o que uma Nação perde ao taxar o bem comum da formação intelectual de suas cidadãs e cidadãos. Em perspectiva histórica, o dinheiro arrecadado à cultura, aos livros e à formação científica significa, de fato, um desinvestimento no crescimento futuro do país – que não se dará sem o crescimento intelectual amplo e igualitário de sua população.


⠀⠀⠀5. As instituições ligadas ao livro estão plenamente conscientes da necessidade da reforma e simplificação tributárias no Brasil. Mas não será com a elevação do preço dos livros – inevitável diante da tributação inexistente até hoje – que se resolverá a questão. Menos livros em circulação significa mais elitismo no conhecimento e mais desigualdade de oportunidades no país das desigualdades conhecidas, mas pouco combatidas.

⠀⠀⠀ O Brasil foi o último país a acabar com a escravidão e um dos últimos a permitir a impressão e a circulação de livros e da imprensa, duas marcas negativas na nossa História que até hoje não conseguimos superar. Poucos se dão conta que o mercado nacional de livros tem menos de 200 anos. Enquanto em Paris, no Século das Luzes, lia-se Diderot e Voltaire, enquanto na Alemanha se lia Goethe, na Espanha o Dom Quixote tornava-se leitura popular, em Londres, ilustrava-se com os trabalhos de David Hume, nos Estados Unidos podia-se formar o conceito de uma grande Nação nos escritos de homens públicos da estatura de Thomas Jefferson e Benjamin Franklin, no Brasil, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, um autodidata, articulava sua conjuração carregando um exemplar surrado e contrabandeado do “Compêndio das leis constitutivas das colônias inglesas confederadas sob a denominação de Estados Unidos da América” – em francês.

⠀⠀⠀Ainda não se descobriu nada mais barato, ágil e eficiente do que a palavra impressa – em papel ou telas digitais – para se divulgar as ideias, para se contar a história da humanidade, para multiplicar as vozes da diversidade, para denunciar as injustiças, para se prever as mudanças futuras e para ser o complemento ideal da liberdade de expressão.

Aldo Manuzio: uma aventura chamada livro

Por Renata de Albuquerque*

A Ateliê Editorial acaba de reeditar Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro. O livro, cuja primeira edição é de 2004, estava esgotado e o fato de voltar às prateleiras deve ser comemorado. Afinal, mais que uma simples biografia de uma figura fundamental para o universo dos livros, a obra percorre e  analisa cuidadosamente as contribuições de Manuzio, mestre quinhentista (1450-1515).

O livro é escrito pelo historiador e pesquisador de projetos gráficos Enric Satué, que é historiador, teórico e crítico de projetos gráficos, além de projetista, investigador e divulgador de livros. O estudioso já publicou mais de uma dezena de livros, ganhou diversos prêmios e debruçou-se sobre a vida e obra de Manuzio, um nome central para a cultura do livro no mundo.

O livro como objeto físico tem mais de cinco séculos e meio de História, tendo sido pouco alterado estruturalmente desde sua criação. E as contribuições de Manuzio para este objeto de desejo, ainda que feitas no início da Idade Moderna, permanecem até hoje.

Aldo Manuzio

Ainda na Introdução, descobrimos que o autor considera apenas três invenções importantes para o livro que não tenham sido ideias de Manuzio: a tipologia estreita, encolhida e condensada (criada no século XIX); a publicação da fotografia em livro e o livro com texto linear (contribuição dada por Jan Tschichold). Logo no início da leitura, a sensação – que depois se confirma – é que, sem Manuzio, o livro não seria o que conhecemos hoje. É de Manuzio, por exemplo, a primeira publicação da História em tipografia cursiva. “Justamente na biblioteca do poeta Piero Bembo, Manuzio encontrou o legendário manuscrito autógrafo de Francesco Petrarca, que dizem ter utilizado para compor a primeira publicação da história em tipografia cursiva, editada em 1501”, explica Satué.

Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro analisa o livro como objeto, contempla a vida e obra de Manuzio e faz referências críticas à situação atual do livro. Conta, por exemplo, como Manuzio teria embarcado na aventura de tornar-se editor – com a ajuda financeira de Giovanni Francesco Pico della Mirandola, que investiu na ideia de seu professor e amigo.

Violinos e “efes”

Durante a leitura, descobrimos ainda que a tipografia cursiva teria “inspirado” os luthiers, criadores de violinos da cidade de Cremona, na Itália (país natal de Manuzio). “Será que a influência cultural das formas tipográficas aldinas, estendendo-se além de seus limites razoáveis, alcançou a música sinfônica, da qual os violinos são a parte substancial? Se assim for, toda a numerosa família das cordas traria no peito esse doce estigma aldino, de tal sorte que, ao contemplar uma grande orquestra sinfônica, poderíamos encontrar até setenta e cinco efes cursivos de diferentes tamanhos”, diz o texto.

Com quase 300 páginas, o livro fala de diagramação, História, projetos editoriais e muitos outros aspectos da editoração, em capítulos que abordam as variadas facetas de Manuzio: editor, tipógrafo e livreiro – e a obra que publicou. Traz ainda um capítulo especial com informações sobre o tempo em que Manuzio viveu, as pessoas com quem se relacionava – e como influenciou e foi influenciado por elas. Por fim,  Aldo Manuzio. Editor. Tipógrafo. Livreiro traz uma reflexão sobre o legado deste gênio, sendo de grande interesse para quem trabalha no mercado editorial ou mesmo para quem ama livros e quer saber um pouco mais sobre os aspectos formais desse objeto que, há mais de 500 anos, encanta e fascina leitores ao redor do mundo.

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.