Morte aos Papagaios

A subjetividade é a chave do processo de criação do designer gráfico. Esta é a premissa de Morte aos Papagaios, o primeiro livro de Gustavo Piqueira, um dos mais importantes designers gráficos do país, que trata, de maneira leve e divertida, questões relativas à atividade do profissional de design. À frente de seu estúdio Casa Rex, Gustavo Piqueira é um dos mais reconhecidos e premiados designers gráficos do Brasil, com mais de 500 prêmios recebidos. Conhecido por livros nos quais mistura livremente texto e imagem, ficção e não ficção, design, história e tudo mais que encontrar pela frente, ele já lançou 30 títulos de sua autoria. Pela Ateliê Editorial, além de Morte aos Papagaios, publicou: “Clichês Brasileiros”, a tradução e edição de “A História Verdadeira” de Luciano de Samósata e a edição de “William Morris – Sobre as artes do livro”A seguir, o autor fala ao Blog da Ateliê sobre o livro:

O quanto de ficção e o quanto de “lastro real”existe no livro?

Gustavo Piqueira: Digamos que o livro é todo construído a partir de um “lastro real”, mas sempre com considerável liberdade. Ou seja: não houve preocupação em me ater a nenhuma espécie de rigor — fosse ele acadêmico ou factual. Acho que dá pra considerar Morte aos Papagaios como um livro de “não ficção livre”, se é que existe tal categoria.

A tecnologia e os meios de trabalho disponíveis para um designer mudaram muito desde que o livro foi lançado. De que maneira isso impacta no conteúdo do livro?

Gustavo Piqueira

GP: Na verdade os meios de trabalho para um designer gráfico não mudaram – eles seguem os mesmos da época em que escrevi o livro (a grande mudança se deu na década de 1990, com a chegada dos softwares gráficos que são, essencialmente, os mesmos de hoje, só que com menos recursos). Já a tecnologia como um todo se alterou profundamente — ou melhor, o impacto da tecnologia em nossas vidas se alterou profundamente. De qualquer modo, penso que um livro escrito há 16 anos e que buscava falar do mundo a seu redor termina por, inevitavelmente, carregar trechos que já podem ser considerados como parte do passado. O que não é, vale dizer, um atestado de invalidez — apenas indica que é recomendável a consciência desse ajuste temporal para sua leitura.

O que “alimenta” a criatividade?

GP: Ainda que muita gente tenha lido o livro dessa maneira, Morte aos Papagaios não é um livro sobre criatividade em si, não fala sobre como ser ou não criativo nem nada do gênero. Para dizer a verdade, o termo “criativo” nunca me agradou muito, me parece mais um jargão publicitário do que qualquer outra coisa. Minha ideia com Morte aos Papagaios foi a de falar de design como uma atividade cuja “bibliografia” não está exclusivamente em livros de design, vídeos de design ou qualquer outra obra de referência restrita, mas sim em tudo o que nos rodeia. Em absolutamente tudo, inclusive nas coisas mais cotidianas. Mais do que “dicas para estimular a criatividade” ou algum tipo de “defesa da criatividade”, se há uma tese central no livro é a de que design é uma atividade que acredito se basear num conhecimento amplo, universal. Não uma atividade técnica em que basta um aprofundamento vertical na disciplina em si para se chegar a uma atuação consistente.

O que, na sua opinião, faz com que um projeto seja efetivamente original e relevante?

GP: É uma pergunta que não dá para sintetizar numa resposta, numa só direção. Em linhas gerais creio que ele deve, ao mesmo tempo, refletir o tempo presente e projetar alguma visão futura.

Como você percebe que um trabalho seu está “acima da média” quando o termina?

GP: Bom, eu só posso responder por aqueles que estão “acima da minha média”… E acho que a resposta não tem muito segredo: é fácil perceber quando acabei de executar algo que foi um pouco além daquilo do que eu já havia executado, que dei um passinho à frente na minha trajetória. Agora, o curioso disso é que muitas vezes projetos em que eu senti isso, projetos que me marcaram por terem sido aqueles que ampliei de algum modo minha capacidade, minhas “forças”, não necessariamente foram aqueles que obtiveram maior reconhecimento, como prêmios e etc. Muito pelo contrário, aliás.

Qual a importância dessa autoavaliação, tanto para perceber o que pode melhorar quanto para perceber o que foi positivo no projeto?

GP: É fundamental. Autocrítica, capacidade de autoavaliação é um dos itens fundamentais em quase qualquer atividade.

O que você gostaria de dizer hoje ao leitor de “morte aos papagaios” que não havia sido dito quando o livro foi lançado, há mais de 15 anos?

GP: Acho que muitas coisas. Morte aos Papagaios foi meu primeiro livro — logo, é mais do que natural que hoje eu enxergue nele uma série de problemas, das mais variadas origens. Mas a melhor maneira de dizer outras coisas não é reescrevendo algo, mas escrevendo coisas novas. É o que venho tentando fazer. E, quando de tempos em tempos reencontro Morte aos Papagaios, posso até não me reconhecer em boa parte da obra, mas sinto o prazer de reencontrar um velho amigo.

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