Monthly Archives: abril 2020

O que você está lendo?

Durante o isolamento social imposto pela pandemia de coronavírus, muita gente teve o privilégio de poder maratonar séries, ver filmes que estavam há muito numa lista e colocar as leituras em dia. A cultura e a arte são grandes aliados sempre, mas, no momento do distanciamento social, cultura e arte são uma janela para o mundo, uma forma de viajar e de manter a sanidade e a esperança diante de uma realidade tão dura.

Por isso, a Ateliê decidiu fortalecer ainda mais a comunidade de leitores que nos acompanha, com diversas ações nas redes sociais (a melhor forma de interação possível em tempos de isolamento). Uma dessas ações foi perguntar o que as pessoas estavam lendo no momento do isolamento.

As respostas foram muito diversas, o que mostra que as pessoas têm interesses diferentes e que essa troca de informações pode gerar curiosidade e fazer os leitores conhecerem títulos muito diferentes daqueles com que eles já estão familiarizados.

Poesia, textos acadêmicos, prosa, textos clássicos. Teve de tudo. Abaixo, compartilhamos algumas recomendações dos leitores:

Um Lance de Dados – Livro inovador que traz na poesia de Stéphane Mallarmé elementos visuais e gráficos até então quase desconhecidos para o público. Foi uma das inspirações da Poesia Concreta no Brasil.

Sonetos de Camões – Esta edição traz os poemas mais representativos do acervo camoniano, comentados por dois experientes professores de Literatura: Izeti F. Torralvo e Carlos C. Minchillo.

A Trágica História do Doutor Fausto – Reúne A Trágica História do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe, e História do Doutor João Fausto, de 1587, de autor anônimo alemão. O primeiro texto foi traduzido por Luís Bueno e Caetano W. Galindo e o segundo por Mario Luiz Frungillo.

Passos da Semiótica Tensiva –  Luiz Tatit  apresenta conceitos estabelecidos pelo linguista Algirdas Julius Greimas, a trajetória de pesquisa de Claude Zilberberg,  e explica o que esta acrescentou àquela. A ênfase aqui é na prosódia e na tentativa de compreender como ela interfere na construção do sentido.

Coração, Cabeça e Estômago – Uma obra hilariante, fora dos padrões usuais de Camilo Castelo Branco. Por ser uma narrativa em primeira pessoa, seu ponto de vista é necessariamente parcial: o leitor acessa a uma das versões dos acontecimentos, segundo a sua ótica peculiar.

E você, o que está lendo?

Outlet Ateliê Editorial

Está no dicionário. Outlet é um centro comercial cujas mercadorias são comercializadas a preços mais baixos, em geral diretamente do produtor ao consumidor. E isso serve para roupas, equipamentos e até livros. Foi pensando neste conceito que a Ateliê criou o Outlet Ateliê.

Bastante comuns nos EUA, onde fazem até parte do roteiro turístico de cidades como Orlando, os outlets também existem no Brasil. Por aqui, marcas de roupa famosas usam suas “pontas de estoque” para atraírem um público interessado em consumir suas grifes, sem entretanto terem poder aquisitivo para isso. Nos outlets de lojas de roupa, nem toda a numeração ou cores estão disponíveis e muitas vezes há mercadorias com pequenos defeitos – e nada disso é um problema para quem consome em outlets.

Mas, o que dizer de um outlet de livros? Primeiro, é bom dizer que outlet de livros não é sebo. Os sebos, esses lugares que os leitores amam e onde acham raridades, vendem livros usados há pouco ou muito tempo. Não é incomum achar, no meio de um livro comprado num sebo, um bilhete do antigo leitor, um marcador de página gasto e ali esquecido por acaso.  

Já no outlet – especificamente no Outlet da Ateliê – entram no estoque apenas livros devolvidos. Não existem os “pequenos defeitos”: não faltam páginas nem outra característica que impeça a leitura da obra. O Outlet Ateliê se diferencia apenas porque este é um espaço onde os leitores podem encontrar livros devolvidos por outros leitores (ou outras livrarias). Por isso, correm o risco de ter pequenas manchas amarelas (por estarem guardados), marcas de manipulação ou pequenas avarias devido ao transporte. Essa é a razão pela qual muitos deles têm preços menores do que livros do catálogo normal.

Por outro lado, ele é a chance de tentar conseguir aquele livro esgotado, muito antes de encontrá-lo em um sebo, diretamente da editora, e em condições muito melhores do que se o livro fosse usado. E é justamente porque o estoque varia que vale a pena visitar essa seção do site com frequência, para saber, sempre, que novidades ela guarda para nós.

Quer conhecer? Acesse: https://www.atelie.com.br/publicacoes/categoria/outlet/

Um clássico não merece um triste fim

A Ateliê Editorial, neste momento de isolamento social, convidou alguns leitores para compartilharem suas impressões sobre alguns de seus livros prediletos. Com isso, pretendemos fortalecer uma comunidade de pessoas apaixonadas por livros, que sabem que eles podem ser uma excelente companhia em momentos como este. Este texto é de Douglas Mendes Ornellas, que escreve sobre Triste Fim de Policarpo Quaresma. Agradecemos a colaboração de Douglas e esperamos que todos apreciem a leitura!

Algo que surpreende tanto pela qualidade de construção, quanto pela simplicidade e beleza não deve ser mantido como um segredo sob sete chaves, mas merece ser destacado e compartilhado. Assim como eu, acredito que muitos de vocês concordarão ainda mais quando esse “algo” se trata de um livro, certo? É exatamente esse o sentimento que tenho quando indico aos meus amigos, colegas de profissão e alunos as obras da Coleção Clássicos, da editora Ateliê Editorial.

Como um leitor assíduo, muito por conta da profissão e por formação como indivíduo, eu acho válido destacar aqui a imensa satisfação que senti ao adquirir algumas obras da coleção mencionada, dentre elas Bom Crioulo, de Adolfo Caminha, Quincas Borba, de Machado de Assis, O Cortiço, de Aluísio Azevedo. No entanto, detenho-me aqui acerca do romance que atualmente estou relendo e utilizando em sala de aula: Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (1881-1922).

Com sua primeira publicação em 1915, o romance deixou evidentes os motivos pelos quais faz parte (e com muito merecimento) do cânone da Literatura Brasileira. A obra, estudada como originária do período pré-modernista – um consenso entre estudiosos não como uma escola literária, mas como um momento precursor e importante que culminou no Modernismo Brasileiro – consegue se manter atual tanto no cenário de escrita literária, quanto no sociocultural.

A narrativa do grandioso Lima Barreto, ao contrário do que muitos leitores pensam quando vão “encarar” a leitura de um clássico, mostra-nos como é simples, do ponto de vista linguístico, e ao mesmo tempo complexa, ao adotar uma postura sensata e de riqueza crítica. Os contrastes, no entanto, não se limitam somente aos mencionados: as personagens são ricas, mesmo as secundárias, ao abordarem diferentes pontos de vista sobre a cidade, sobre as relações pessoais e acerca das construções sociais que ainda perduram e afetam a vida dos indivíduos fora das páginas.

Policarpo Quaresma, protagonista da obra, pode ser considerado a caricatura de um brasileiro com sentimento ufanista, grandiloquente, porém ingênuo em suas aspirações patrióticas, o que muitas vezes nos faz refletir, conforme a narrativa avança, sobre como a cegueira fanática, aquela que negligencia os problemas em nosso próprio espaço nacional, pode ser algo desolador para uma construção de mundo ideal. Além do emocional da personagem ser reafirmado em cada capítulo como cabisbaixo e introspectivo, a identidade de Quaresma também se mostra bem condensada sobre o que é o cidadão patriota: não se pode dizer que sua construção é baseada em indivíduos de uma determinada região ou que tenha características plurais, mas que, segundo o próprio narrador, “era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro”.

Será difícil leitores contemporâneos não se identificarem com as personagens do romance ou não perceberam diálogos com o contexto brasileiro atual. Personagens como Ricardo Coração dos Outros, que incorpora o indivíduo marginalizado em busca de ascensão; Ismênia, com seus conflitos intimistas e o peso que carrega de uma construção tradicionalista e patriarcal; Olga, que serve como um contraponto – de certa forma – para a personagem mencionada anteriormente; General Albernaz, como uma crítica a um modelo que está em ruínas, mas que se faz presente por meio das narrativas – bem como tantos outros – representam também muito dos que conhecemos e pertencem ao nosso cotidiano.

Por fim, é importante evidenciar como a leitura da obra torna-se prazerosa e instigante e, em certos momentos, até mesmo incômoda num sentido positivo a cada página, a cada novo avançar das situações que giram em torno do Quaresma. Certamente, muitas reflexões saltarão das páginas diretamente para o imaginário do leitor que se permite ser tocado sutilmente pelas palavras e que encontra no ato de ler uma possibilidade de se inserir em um novo mundo – um mundo que não se contenta somente com o que é dado de maneira pronta, mas com o que pode ser criado, renovado.

*Douglas Mendes Ornellas é  leitor assíduo desde jovem. “Viciei no mundo da leitura logo nos primeiros anos escolares”, diz ele, que é graduado em Letras (Português e Literaturas) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. e mestre em Estudos Literários pela mesma instituição. É professor de Linguagens no Ensino Fundamental II e em Pré-Vestibular. “Acredito em uma Educação libertadora e em democratização da Literatura.

O Avesso da Tela: corte, ponto

Renato Tardivo*

As duas operações mais básicas em um filme são a filmagem e a montagem. A primeira se refere à forma com que são feitos os registros, ou seja, à mise-en-scène – posição de câmera, efeitos de luz, interações entre os atores, cenários etc. Já a montagem diz respeito à escolha e à combinação das imagens. Dessas duas operações resulta o filme, uma narrativa que se vale de som e imagem e se constrói do encadeamento de quadros, planos e sequências. É, portanto, a sucessão de imagens, aliada ao código sonoro, que cria a nova realidade. Não se trata, contudo, de mera soma de registros. O encadeamento de imagem e som implica descontinuidade em sua percepção. Corte.         

Os 14 contos de Somente nos Cinemas, livro escrito por Jorge Ialanji Filholini, são cinematográficos por excelência. E não apenas porque tematizam o cinema em seus enredos, mas sobretudo porque se correspondem com a linguagem fílmica em sua forma. Nessa medida, as histórias tanto trazem o universo do cinema para o centro, por meio da metalinguagem e da intertextualidade, como também estabelecem diálogo com esse universo de forma indireta, sendo as narrativas resultado do imaginário e das fantasias das personagens.

Ainda, chama a atenção a recorrência de dois temas ao longo da coletânea: a ambiência ficcional – São Carlos, cidade do interior paulista – e a presença da morte. Falemos, primeiro, do último. “A morte é a vitória do tempo”, escreve o narrador-protagonista do conto “O Diário de JF”, parafraseando o crítico e teórico do cinema André Bazin (1918-1958). Mas, se as imagens pretendem imortalizar o que foi filmado, a operação, no limite, jamais se consuma. O filme sempre parte da tela preta e retorna a ela. E, durante a travessia, a morte se interpõe: nas transições, nos cortes, no que fica para trás, em tudo aquilo que o quadro não mostra.

Uma vez mais, forma e conteúdo coadunam-se. As frases do livro são curtas. Dissecam, pelo avesso, o universo retratado. Implicam descontinuidade em sua leitura. Há contos primorosos nesse sentido. “Projeto: Favela” é um deles. A narradora, responsável pela construção dos cenários, é chamada para um projeto, encabeçado por um gringo, e deve construir uma favela. “Cenários são atores sem fala”, ela escreve. O final do conto é arrebatador, ao trazer da invisibilidade personagens reais que, ao se apropriarem do cenário, inviabilizam a produção: “Uma criança me pede para ajudá-la a abrir a janela. Foi a primeira vez em que uma janela cenográfica teve uma visita do cotidiano sem roteiro e filmagem”.

“O Diário de JF” também apresenta um projeto que é abortado. Em forma de diário, o narrador-protagonista, um cinéfilo, relata o período em que realiza seu primeiro grande trabalho como assistente de produção. Metalinguagem e intertextualidade aliam-se, de modo que o conto encampa a potência do livro – o cinema na literatura; a literatura como cinema; vida que, motivada ao avesso pela morte, salta na tela: “Foi bonito. Uma pena, em meia hora vou morrer sufocado e todo vomitado ao lado dela”.

Retomando as duas operações básicas de um filme e transpondo-a para a literatura de Filholini, podemos propor que o enredo, os cenários e as personagens são trabalhados na chave da filmagem; já o encadeamento entre as frases, a combinação de elementos, a pontuação, isto é, a forma, que em última instância cria a nova realidade, é trabalhada na chave da montagem.

Nessa operação engenhosa de correspondência entre imagem e palavra, os cenários – universos forjados – são contaminados pela vida e, reversivelmente, São Carlos – cidade real – é transformada em cidade cenográfica: “Sanca é traiçoeira. Quando você está de boa, vem a cidade e na maciota te queima”. Por meio dessa ambiência, as personagens e, por extensão, o leitor têm a oportunidade de se prolongarem ao infinito, como também afirmava André Bazin a respeito da tela do cinema, na exata medida em que são visitados pela morte.

Campo e contracampo, literatura e cinema, avessos. Não é aleatório que o narrador do conto “O Eldorado” escreva: “Nunca mais sairia do Cine Joia. O avesso do cenário. O drama cinematográfico. Nenhum detalhe excluído da tela. A vida deveria morar em um filme”. Ponto. 

*Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Professor Colaborador do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, dos livros Cenas em Jogo – Literatura, Cinema, Psicanálise (Ateliê/Fapesp) e do volume de microcontos Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê).