Clepsidra, de Camilo Pessanha

Clepsidra é o único livro de poesias publicado em vida pelo escritor português Camilo Pessanha (1867 – 1926). O livro, um dos mais importantes da poesia portuguesa moderna, foi publicado pela primeira vez em 1920, por Ana de Castro Osório, por quem Camilo Pessanha era enamorado.

O título se refere a um antigo instrumento grego de medição do tempo, parecido com uma ampulheta mas que, em vez de areia, continha água. O tema dos poemas passam pela efemeridade da vida, a fragilidade humana e o desencanto perante o mundo. Mas, o que a diferencia de outras, que abordam assuntos correlatos, é a recusa ao sentimentalismo confessional. Pessanha inova, subvertendo os princípios da métrica tradicional – o que faz de maneira única, com apurado senso rítmico, linguagem fragmentada e o uso refinado de metáforas. Muitas vezes, parece que não há ligação aparente entre os poemas do volume e a razão disso é, em parte, devida à sua fragmentação estrutural proposital e, em parte, devida à construção de sua primeira edição.

Desde a organização, o volume tem uma problemática própria. A organização da primeira edição não obedece exatamente àquilo que o autor propunha, do ponto de vista estético. E, neste aspecto, a edição da Ateliê Editorial representa um ganho para o leitor: Paulo Franchetti, responsável pela organização, apresentação e notas do volume é um profundo estudioso da obra do autor português e, em suas pesquisas, teve acesso a um documento que sugeria parâmetros para a organização do volume, a partir de anotações próprias de Pessanha sobre as datas em que os poemas teriam sido compostos.

Com isso,  a organização dos poemas feita na edição de Clepsidra da Ateliê Editorial, se não é exatamente aquela desejada pelo autor, é mais próxima disso do que ouras edições existentes.

Leia, a seguir, alguns poemas de Clepsidra:

INSCRIÇÃO

Eu vi a luz em um país perdido.

A minha alma é lânguida e inerme.

Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!

No chão sumir-se, como faz um verme…


SONETO

Tatuagens complicadas do meu peito:

Troféus, emblemas, dois leões alados…

Mais, entre corações engrinaldados,

Um enorme, soberbo, amor-perfeito…

E o meu brasão… Tem de oiro, num quartel

Vermelho, um lis; tem no outro uma donzela,

Em campo azul, de prata o corpo, aquela

Que é no meu braço como que um broquel.

Timbre: rompante, a megalomania…

Divisa: um ai, — que insiste noite e dia

Lembrando ruínas, sepulturas rasas…

Entre castelos serpes batalhantes,

E águias de negro, desfraldando as asas,

Que realça de oiro um colar de besantes!


ESTÁTUA

Cansei-me de tentar o teu segredo:

No teu olhar sem cor, — frio escalpelo,

O meu olhar quebrei, a debatê-lo,

Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo

E minha obsessão! Para bebê-lo

Fui teu lábio oscular, num pesadelo,

Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,

Esfriou sobre o mármore correto

Desse entreaberto lábio gelado…

Desse lábio de mármore, discreto,

Severo como um túmulo fechado,

Sereno como um pélago quieto.



OLVIDO

Desce por fim sobre o meu coração

O olvido. Irrevocável. Absoluto.

Envolve-o grave como véu de luto.

Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.

A fronte já sem rugas, distendidas

As feições, na imortal serenidade,

Dorme enfim sem desejo e sem saudade

Das coisas não logradas ou perdidas.

O barro que em quimera modelaste

Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor…

Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste…

Ias andar, sempre fugia o chão,

Até que desvairavas, do terror.

Corria-te um suor, de inquietação…

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