Ao vires isto isto vires ao vires isto

Katherine Funke*

Páginas mágicas, máginas págicas são o que se poderia esperar de um livro sobre Gertrude Stein, sim, Gertrude-rose-is-a-rose-is-a-rose-Stein, Gertrude-page-ages-Stein. Ainda mais um livro chamado Ao vires isto, título que (para olhos e ouvidos atentos), logo se espelha, multiplicado, em “isto vires, ao vires isto”, porque é um livro sobre Gertrude Stein, aquela (de ouvidos e de olhos atentos) que percebeu que As you like it, título de uma das peças de Shakespeare, abria as possibilidades de sentido para muito mais do que um significado, muito mais do que uma só combinação de sentidos.

            Livro de ensaios com vários autores organizado por um trio de pesquisadores da obra da escritora norte-americana considerada a Mãe do Modernismo, Ao vires isto (2018, 216 páginas) traz logo no título o mesmo gesto de brincar com a linguagem que marcou toda a literatura de Gertrude, desde as peças teatrais para adultos, passando pelos seus livros mais famosos – e até pelo mais complexo de todos  (Stanzas in meditations) – até os livros para crianças.

            Mas, e se não se chamasse Ao vires isto, este volume de nove ensaios ainda teria o efeito de nos fazer virar isto, isto é, de nos fazer mergulhar na leitura, como consegue, magicamente? A pergunta é inspirada no que William Shakespeare escreveu no ato II, cena II de Romeu e Julieta, sobre o que aconteceria com o perfume da rosa caso ela tivesse outro nome. Cena que, aliás – e isto ficamos sabendo por Luci Collin, neste livro – inspirou Gertrude Stein não só em sua frase mais conhecida (“Rose is a rose is a rose is a rose”), como por toda sua trajetória.

            O ensaio de Luci Collin, por sua vez, possui um efeito de centralidade ou núcleo para os demais, que ao redor dele ganham sentido, como em uma espiral. Isto porque Collin faz um breve retrospecto das relações entre Stein e Shakespeare. Esse elenco de relações de influência não só esclarece características primordiais do estilo da Mãe do Modernismo, como nos permite tentar pensar como ela pensava, olhar para as palavras com o mesmo encantamento, a mesma vontade de brincar.

            Intitulado “Uma rosa re-encarnada – Stein traduzindo Shakespeare”, o artigo de Luci Collin atravessa algumas das reflexões deixadas pela própria Gertrude em relação ao escritor inglês. Se suas vidas aconteceram separadas por três séculos, por outro lado as obras se encontram em muitos aspectos. Como, por exemplo, pelo gesto de subverter a narração linear do tempo e promover procedimentos de aceleração/retenção das ações, por exemplo, recontando uma cena muitas vezes, sem avançar.

            Para Gertrude, esta foi a base da ideia de “presente contínuo”, que a motivava a escrever sempre no presente, sempre como se a ação nunca acabasse. A também poeta e escritora paranaense Luci Collin nos apresenta a esta e a outras influências de Shakespeare ao longo da obra da escritora. Coloca em pauta, assim, as fase de sua obra e os procedimentos mais consolidados de Gertrude, como a insistência (não a repetição), a intenção de presentificação em detrimento à descrição, entre outros.

            A quem se interessa propriamente pelos procedimentos literários de Gertrude, sugiro que se comece a leitura por este artigo, e não pelo escolhido pelos editores, que trata das relações entre as obras de Duchamp e Stein. E que logo na sequência, se houver interesse mais exatamente por situar a obra de Gertrude Stein em circulação no contexto brasileiro, pule logo para o texto de Dirce Waltrick do Amarante sobre o volume infantil traduzido por ela e por Collin.

            O artigo de Dirce descreve os problemas da tradução de To Do: A Book of Alphabets and Birthays e que, gentilmente, traz a riqueza de transcrever de modo bilíngue aquilo de que fala. De lá, quem seguir o mesmo trajeto de interesses poderá querer partir para o artigo de Augusto de Campos posicionado ao final do volume, “Gertrude Stein e a melodia de timbres”. Ambos nos fazem ver e ouvir com mais nitidez algumas das badaladas dos sinos aludidas por Luci Collin, badaladas de quem já se meteu a traduzir uma das mais difíceis das modernistas.

            Com um total de nove artigos, o volume lança luzes sobre uma obra vasta, volumosa, que ainda não foi compreendida e nem mesmo completamente traduzida para o nosso português. É surpreendente, aliás, que existam nove consistentes e heterogêneos artigos como estes, convivendo no mesmo espaço-tempo de um livro, orbitando juntos como se fossem nove planetas ao redor do Sol.

Dois pares em branco

            A força de Ao vires isto é que nos faz lembrar de que (ainda) existe uma Gertrude Stein e que ela é, na verdade, muitas: não a portadora orgulhosa de uma máscara fixa, mas a caçadora das muitas possibilidades que exerceu em várias linguagens literárias. Quem tem medo de Gertrude é porque ainda não foi apresentado a alguns de seus achados mais belos, reunidos aqui neste livro por 18 mãos altamente qualificadas.

            Destaco ainda que o volume, embora sóbrio, foi editado de modo cuidadoso, em tipografia grande que promove uma leitura fluida e com as devidas referências bibliográficas apresentadas ao modo da pesquisa acadêmica. Dois pares de páginas estão em branco, como que para possibilitar anotações. Tudo isso deixa ressoando a ideia de que este não é um livro que, ao ser lido, se acabe em si mesmo. O que ele coloca em movimento, ao ser lido, não é só o que deixa ver, mas uma imensa energia em forma de sons e de sentidos. A edição traduz assim, para o próprio objeto livro, a ideia de presente contínuo da obra de Stein. Ela continua pulsando e se renovando, a cada vez que a estudamos. Ela continua, ao vires isto – esta resenha e, claro, o próprio livro.

*Katherine Funke é doutoranda e mestra em Literatura pela UFSC.

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