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“Epigramas” ganha edição em brochura: leia trechos

O Twitter popularizou a ideia de escrever em poucos caracteres para expressar uma mensagem. Hoje, fala-se de política, comportamento, cultura e até fofocas de celebridades em 280 caracteres. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos. O poeta Marco Valério Marcial foi um dos precursores da técnica de criar poemas cômicos, pornográficos e de crítica social muito concisos. Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso), é autor dos “Epigramas”, edição bilíngue traduzida por Rodrigo Garcia Lopes que acaba de chegar à nova edição. Agora em brochura, a obra fica mais acessível e prática.

Confira a seguir alguns desses pequenos, mas cortantes poemas:

IV
Se acaso, César, topar com meus livrinhos,
Deixe essa cara séria de dono do mundo.
O riso é liberado até em seus triunfos.
Ser tema de piada não envergonha um líder.
Leia meus poemas como quem assiste
as palhaçadas de Latino, a Tímele.
Que o Censor permita a graça inofensiva.
Lasciva é minha página, vida limpa.

Contigeris nostros, Caesar, si forte libellos,
terrarum dominum pone supercilium.
consuevere iocos vestri quoque ferre triumphi,
materiam dictis nec pudet esse ducem.
qua Thymelen spectas derisoremque Latinum,
illa fronte precor carmina nostra legas.
innocuos censura potest permittere lusus:
lasciva est nobis pagina, vita proba.

XIX
Se não me engano, Élia, tinha quatro dentes:
Dois foram expulsos numa tosse, dois na outra.
Pode tossir agora o dia todo, velha:
Não tem lugar pra tosse em sua boca.

Si memini, fuerant tibi quattuor, Aelia, dentes:
expulit una duos tussis et una duos.
iam secura potes totis tussire diebus:
nil istic quod agat tertia tussis habet.

LXXXIII
Seu totó lambe sua boca, sua língua. Como gosta!
Não me admiro, Maneia. Cães adoram bosta.

Os et labra tibi lingit, Manneia, catellus:
Non miror, merdas si libet esse cani.

XIII
Juiz e advogado adoram uma propina.
Não duvide, Sexto: pague sua dívida.

Et iudex petit et petit patronus.
solvas censeo, Sexto, creditori.

XXVIII
Surpreso que a orelha de Mário feda?
Culpa sua, Nestor, que falou nela.


Auriculam Mario graviter miraris olere.
tu facis hoc: garris, Nestor, in auriculam.

A Literatura em sua Humanidade

Renato Tardivo*

Os Arquétipos Literários, livro fundamental do russo E. M. Melentínski, foi publicado pela primeira vez no Brasil em 1998. Agora acaba de sair sua terceira edição.

Além de uma apresentação, assinada pela professora Aurora Fornoni Bernardini, uma das tradutoras da obra para o português, o livro divide-se em duas partes: “Sobre a Origem dos Arquétipos Temáticos, Literários e Mitológicos” e “As Transformações dos Arquétipos na Literatura Russa Clássica – cosmos e caos, herói e anti-herói”.

O texto aborda as relações dos mitos e arquétipos com a ficção, de modo a, por meio de um aprofundado estudo da história da literatura, delinear as estruturas mentais da humanidade.

Fortemente influenciado pela teoria dos arquétipos de C. G. Jung, Melentínski, no entanto, diverge do médico suíço no seguinte sentido: enquanto para Jung o mito diz de uma harmonização do pensamento individual consciente com o inconsciente coletivo, para Melentínski essa harmonização apareceria não no estádio do mito, mas no estádio do romance cortês e medieval.

Da perspectiva original de Melentínski, então, a função do mito seria harmonizar as relações do homem com a sociedade, a cultura e o mundo que os envolve.

Na seção dedicada à literatura russa, o autor analisa obras de escritores como Gógol, Dostoiévski e Tolstói, destacando a presença de arquétipos do cosmos e do caos, do herói e do anti-herói. É interessante perceber nas análises que, ao se valer de arquétipos arcaicos, a literatura os transforma, os recria e, por que não dizer, os atualiza.

Assim, o livro de Melentínski configura-se como um trabalho fundamental de crítica literária, uma vez que, como poucos, habita o trânsito compreendido entre as obras, quem as produziu e a tradição. E é por isso que não se trata de mera aplicação de conceitos psicanalíticos ou antropológicos à literatura, mas, felizmente, de considerá-la uma das produções humanas mais preciosas.     

* Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, dos livros Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp), Cenas em Jogo – Literatura, Cinema, Psicanálise e do volume de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê).