Uma história de vida que poderia ser de novela

Por: Renata de Albuquerque

Abdulbaset Jarour tem apenas 29 anos, mas uma história de vida inspiradora e cheia de experiências. Em 2014 imigrou para o Brasil e aqui reconstruiu sua vida, tornando-se ativista pelos direitos dos refugiados e imigrantes.

Nascido em Alepo, a maior cidade da Síria, é filho de uma família grande: tem cinco irmãs e um irmão. Até 2009, quando tinha 19 anos, levava uma vida tranquila, como a de qualquer jovem de sua idade. Estudava, trabalhava e tinha planos de fazer faculdade de administração de empresas. Conseguiu licença do exército para continuar estudando mas, no ano seguinte, junto com os primeiros movimentos da Primavera Árabe, Abdul foi servir o exército.  “Até 2011 não tinha guerra, vivíamos em paz”, relembra. Nesse ano, entretanto, aconteceram manifestações, pedindo mais liberdade na Síria. Quatro pessoas foram mortas pelo regime de Bashar al-Assad em Deraa e os conflitos começaram a se espalhar pelo território sírio, chegando a Alepo.  

Abdulbaset Jarour

“Os conflitos pioravam a cada dia”, lembra Abdul. Ele foi obrigado pelo governo a permanecer no exército – que servia compulsoriamente, como acontece no Brasil – até que os conflitos acabassem.  “Se eu fugisse, seria considerado desertor, poderia ser perseguido e morto”,  afirma. Tornou-se motorista de um general do exército, perdeu amigos na guerra. Em 5 de março de 2013, em um ataque na cidade de Damasco, foi ferido na perna. Mas, ao sair do hospital, teve de voltar ao exército. Então, decidiu sair da Síria. Passou dois meses no Líbano e começou a pensar em morar longe dali, em países como o Canadá ou a Austrália. Foi então que soube que o Brasil estava liberando visto humanitário. Comprou as passagens de ida e volta (pois temia não se adaptar por aqui). “A gente não tinha informação de que o Brasil fosse um lugar bom para recomeçar a vida. Nossos antepassados vinham para a América do Sul no tempo das Guerras, mas não conhecíamos nada”, afirma.

Mas, mesmo sendo um destino desconhecido, o Brasil reservava boas surpresas para Abdul. “Quando cheguei aqui, minha vida mudou”, diz ele. Não que ele tenha encontrado fartura ou facilidade. “As pessoas diziam que eu tinha que me virar e eu achava estranho não ter acolhimento, mesmo tendo um visto humanitário. Eu sofri porque não sabia falar a língua e quase ninguém aqui falava inglês; eu não sabia nem onde era a Polícia Federal para ter documentação. Não tinha onde dormir nem trabalho. Me senti perdido, desanimei”, relembra.

No Brasil, aprendeu português em poucos meses sozinho. Conheceu africanos e árabes, começou a trabalhar e empreender: iniciou um hostel com um sócio para o público árabe. O negócio não deu certo, a saúde de Abdul se fragilizou; seu pai e seu cunhado morreram em um  ataque em território sírio. Mas, ele começou a se envolver com projetos para refugiados: o Sarau dos Refugiados e a Copa dos Refugiados (no torneio, ficou responsável pelo time da Síria). Trabalhou como tradutor voluntário, começou a fazer palestras sobre sua história, trajetória e a cultura árabe. Tornou-se tema de reportagens e documentários e, em 2018, recebeu um convite da Fundação Caritas, de São Paulo, para participar da novela Órfãos da Terra. “Compartilhei minha história com Thelma Guedes (autora de livros como Pagu, Literatura e Revolução) e Duca Rachid. Fui convidado a dar um workshop para a equipe, participei da abertura e ajudei a convidar pessoas ilustres da comunidade árabe para participarem da novela”, conta orgulhoso.

Em 2019, conseguiu mais uma proeza: trazer, para o Brasil, sua mãe, seu irmão e uma de suas irmãs. Agora,  eles vivem juntos em São Paulo.

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