Monthly Archives: junho 2019

Uma história de vida que poderia ser de novela

Por: Renata de Albuquerque

Abdulbaset Jarour tem apenas 29 anos, mas uma história de vida inspiradora e cheia de experiências. Em 2014 imigrou para o Brasil e aqui reconstruiu sua vida, tornando-se ativista pelos direitos dos refugiados e imigrantes.

Nascido em Alepo, a maior cidade da Síria, é filho de uma família grande: tem cinco irmãs e um irmão. Até 2009, quando tinha 19 anos, levava uma vida tranquila, como a de qualquer jovem de sua idade. Estudava, trabalhava e tinha planos de fazer faculdade de administração de empresas. Conseguiu licença do exército para continuar estudando mas, no ano seguinte, junto com os primeiros movimentos da Primavera Árabe, Abdul foi servir o exército.  “Até 2011 não tinha guerra, vivíamos em paz”, relembra. Nesse ano, entretanto, aconteceram manifestações, pedindo mais liberdade na Síria. Quatro pessoas foram mortas pelo regime de Bashar al-Assad em Deraa e os conflitos começaram a se espalhar pelo território sírio, chegando a Alepo.  

Abdulbaset Jarour

“Os conflitos pioravam a cada dia”, lembra Abdul. Ele foi obrigado pelo governo a permanecer no exército – que servia compulsoriamente, como acontece no Brasil – até que os conflitos acabassem.  “Se eu fugisse, seria considerado desertor, poderia ser perseguido e morto”,  afirma. Tornou-se motorista de um general do exército, perdeu amigos na guerra. Em 5 de março de 2013, em um ataque na cidade de Damasco, foi ferido na perna. Mas, ao sair do hospital, teve de voltar ao exército. Então, decidiu sair da Síria. Passou dois meses no Líbano e começou a pensar em morar longe dali, em países como o Canadá ou a Austrália. Foi então que soube que o Brasil estava liberando visto humanitário. Comprou as passagens de ida e volta (pois temia não se adaptar por aqui). “A gente não tinha informação de que o Brasil fosse um lugar bom para recomeçar a vida. Nossos antepassados vinham para a América do Sul no tempo das Guerras, mas não conhecíamos nada”, afirma.

Mas, mesmo sendo um destino desconhecido, o Brasil reservava boas surpresas para Abdul. “Quando cheguei aqui, minha vida mudou”, diz ele. Não que ele tenha encontrado fartura ou facilidade. “As pessoas diziam que eu tinha que me virar e eu achava estranho não ter acolhimento, mesmo tendo um visto humanitário. Eu sofri porque não sabia falar a língua e quase ninguém aqui falava inglês; eu não sabia nem onde era a Polícia Federal para ter documentação. Não tinha onde dormir nem trabalho. Me senti perdido, desanimei”, relembra.

No Brasil, aprendeu português em poucos meses sozinho. Conheceu africanos e árabes, começou a trabalhar e empreender: iniciou um hostel com um sócio para o público árabe. O negócio não deu certo, a saúde de Abdul se fragilizou; seu pai e seu cunhado morreram em um  ataque em território sírio. Mas, ele começou a se envolver com projetos para refugiados: o Sarau dos Refugiados e a Copa dos Refugiados (no torneio, ficou responsável pelo time da Síria). Trabalhou como tradutor voluntário, começou a fazer palestras sobre sua história, trajetória e a cultura árabe. Tornou-se tema de reportagens e documentários e, em 2018, recebeu um convite da Fundação Caritas, de São Paulo, para participar da novela Órfãos da Terra. “Compartilhei minha história com Thelma Guedes (autora de livros como Pagu, Literatura e Revolução) e Duca Rachid. Fui convidado a dar um workshop para a equipe, participei da abertura e ajudei a convidar pessoas ilustres da comunidade árabe para participarem da novela”, conta orgulhoso.

Em 2019, conseguiu mais uma proeza: trazer, para o Brasil, sua mãe, seu irmão e uma de suas irmãs. Agora,  eles vivem juntos em São Paulo.

Quer saber mais uma história sobre imigração? Conheça Yaser.

“Geometrias de Cosmos”: poesia de Rodrigo Suzuki Cintra

Primeiro volume da série “A Trilogia da Invisibilidade”, livro de Rodrigo Suzuki Cintra reúne poemas que são metáforas da invisibilidade, criando, nas palavras do autor, sentimentos e percepções que estão por trás das palavras. “Para mim, a poesia é a arte de fabricar, de simular, de blefar, de criar sentimentos”, explica Cintra, que é  filósofo, escritor e professor. Professor universitário, em seus artigos Cintra se debruça relações entre filosofia, política, arte e direito.  A seguir, ele fala ao Blog da Ateliê sobre sua estreia na poesia.

Qual a razão do título Geometrias de Cosmos, já que “O homem invisível é um geômetra”? 

Rodrigo Suzuki Cintra: Exatamente pelo fato do homem invisível ser um geômetra, e eu ser esse homem, que eu pude escrever um livro intitulado “Geometrias”! O título se refere ao meu modo de fazer poemas.

Penso no espaço das palavras no papel, na inversão de sentidos dos termos, em métricas improváveis que obedecem a regras que só eu posso ver, em rimas que se prolongam em expressões, qual equações, para fora do texto. Meu livro é um exagero de cálculo. Só que ele não pode matematizar sentimentos; esses estão para além das coordenadas e abscissas do mundo físico que habitamos. Os sentimentos que me interessam, que permeiam o “Geometrias de Cosmos”, estão no tempo da delicadeza, na sombra que o sol produz em uma flor.   

 O livro é o primeiro volume de uma série. Os outros volumes desta série já estão escritos? Qual o mote ou o fio condutor que ligará os volumes?

RSC: A série tem o seguinte título: “A Trilogia da Invisibilidade”. O volume “Geometrias de Cosmos” é o primeiro a ser publicado em formato livro. O segundo está sendo publicado em paralelo na internet com o título “A Galeria Invisível” e, por enquanto, está disponível no meu Blog (Blog do Rodrigo Suzuki Cintra) e no site da Revista Zagaia. O terceiro componente do projeto é um livro de ensaios, alguns deles já veiculados em revistas de literatura e jornais (Revista Sibila e jornal Valor Econômico).

O projeto “A Galeria Invisível” corresponde a um conjunto de ekphrasis de obras dadaístas e surrealistas. O exercício é de exatidão na descrição das obras de arte, conforme as regras da antiga técnica grega (ekphrasis), só que com o traçado, ritmo e imaginação próprios do dada e do surrealismo. Infelizmente, para a fruição correta do projeto, é preciso ter as obras em mente, com suas imagens juntas ao texto, para lermos seus capítulos. Como os direitos autorais somam montante vultoso, não é possível ainda no momento, publicar em formato livro esse exercício de escrita.

O mote central a conectar os três textos é a metáfora da invisibilidade. No “Geometrias de Cosmos”, trata-se de criar sentimentos e percepções que estão por trás das palavras. No “A Galeria Invisível”, inventar sentidos e significados que estão por trás das imagens. E, no livro de ensaios, fabricar conceitos nas lacunas de outros conceitos.    

Rodrigo Suzuki Cintra

De que maneira sua formação em filosofia influencia em seu fazer poético? 

RSC: Deleuze e Guattari, no livro “O que é a filosofia?”, dizem que “a filosofia é a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos.” Pois bem. Para mim, a poesia é a arte de fabricar, de simular, de blefar, de criar sentimentos.

Estudo filosofia e arte em geral. Percebi que ambas chegam nos lugares do conhecimento em que a razão e a emoção dão sentido a nossa existência. Mas, o que mais me influenciou, vindo de formação filosófica no estilo uspiano, foi um rigor na utilização das palavras.

No poema “O Delírio de Renatus Cartesius”, ou seja, a alucinação de René Descartes, que por sinal, além de filósofo foi matemático geômetra, tento filosofar, de maneira jocosa sobre o famoso cogito cartesiano, mas, se por um lado, respeito às palavras profundamente, como aprendi nos bancos da faculdade de filosofia, por outro lado, proponho que tenham significados escondidos nas sombras de sua enunciação. 

Este é seu primeiro livro de poesia, certo? Quais foram os desafios para escrevê-lo?

RSC: Publiquei livros acadêmicos antes desse novo projeto. Os desafios são bem diferentes dos que sempre enfrentei, quando o caso foi de escrever poemas:

  1. Encontrar tempo livre para a composição.
  2. A cada poema enfrentar, vez por vez, a angústia da folha em branco (começar sempre do zero).
  3. Escrever é reescrever. Isso pode ir ao infinito para os caprichosos e maníacos. Foi preciso aprender a fazer nascer o poema e depois enterrá-lo (nunca mais tocar e modificar o que já foi escrito e revisado). Existe toda uma arte para saber começar e, depois, em saber quando parar no fazer poético.
  4. Admitir, em algum momento, que a gente só é escritor se publica efetivamente aquele antigo projeto… Ou seja, sair da zona de invisibilidade.

Na abertura do livro, há uma imagem de Newton, de Blake. Além disso, há toda uma seção do livro chamada Shakespeariana e uma citação de Poe, que abre o volume. Qual sua ligação com a língua inglesa e a literatura produzida por anglófonos? 

RSC: A citação que abre o “Geometrias de Cosmos” é de E. A. Poe, uma tradução que fiz do poema “A dream within a dream” (Um sonho dentro de um sonho). Coloquei como epígrafe de todo o livro porque acredito que propicia uma tonalidade existencial, certa propensão, que muito me agrada induzir no leitor logo nas primeiras páginas. Se é verdade que a presença de autores de língua inglesa se faz notar com evidência, admito que a angustia da influência é maior ainda. Existe um poema intitulado “Assemblage nº0” no livro, por exemplo, que tenta criar significado a partir da Divina Comédia, de Dante (italiano) e de Um Lance de Dados, de Mallarmé (francês). Na verdade, é quase que como uma proposta intermediária de dois modos de fazer poesia.

Mas, de volta a pergunta, minha relação com a literatura inglesa é intensa. Estudei a obra de Shakespeare na Universidade de Cambridge e o título de minha tese de doutorado na USP é “Shakespeare e Maquiavel – a tragédia do Direito e da Política”. No “Geometrias” fiz um pastiche de T. S. Eliot no poema “O nome das mulheres”, transcriação de “O nome dos gatos”, desse autor que gosto tanto. Estou preparando um livro de traduções minhas de poetas de língua inglesa. Já estão na gaveta, traduzidos, alguns poemas de W. B. Yeats, W. H. Auden, e. e. cummings, W. Blake, D. Thomas entre outros.

Há no volume a seção “Mulheres Invisíveis”. Pode, por gentileza, falar um pouco sobre ela e como foi idealizada? 

RSC: São poemas, propostas hipotéticas, sobre algumas mulheres que passaram por minha história sentimental e que como estrelas passageiras, iluminaram e deram sentido por algum tempo a minha vida, mas, depois, se apagaram e desapareceram na escuridão de minha existência.  

O livro abre com um texto em que se misturam sonho e vigília; com uma reflexão sobre como o tempo impacta o período do sono. De que maneira isso se liga ao seu fazer poético (dado no trecho final: “No invisível das palavras, quando o lado detrás das letras sugere o sentido que o verso segredou, no compasso da escuridão que dá forma à luz, em algum lugar entre sombras de estrelas passageiras e o brilho eterno daquele sentimento, é o tempo da delicadeza: fundo a minha poética”)?

RSC: O livro começa na capa e termina na quarta-capa. Foi pensado em sua completude. Não é apanhado de poemas, ele se quer obra.       Os dois textos de abertura dos poemas, “O Tempo desses Poemas” e “O Espaço desses Poemas”, são prosas poéticas, escritas do meu jeito.

Agora, a reflexão entre sonho e vigília tem um motivo crepuscular. Somente escrevo de madrugada. É uma regra de composição. E, como podem ler no meu livro, uma boa regra para a leitura.

Estou mais vulnerável de madrugada, geralmente. Devia estar dormindo após o dia de trabalho, mas, é um excelente momento para sonhar as ilusões mais soltas. Dormir enquanto se está sonhando, me parece, nessas horas, um verdadeiro desperdício.

O fazer poético que proclamo, seguindo a pergunta enunciada, poderia ser o de olhar para o céu e ver as estrelas ao meio da escuridão da noite. Prefiro olhar para dentro, na escuridão de meus abismos, e encontrar alguns brilhos, mesmo que de estrelas passageiras. Daí…, começo a escrever.

Conheça outras obras de Rodrigo Suzuki Cintra

Romance em versos de Aleksandr Puchkin ganha nova tradução

Para comemorar os 220 anos de Puchkin, o Blog da Ateliê republica um texto de Irineu Franco Perpétuo escrito para O Estado de São Paulo*.

Uma das obras fundamentais da literatura russa, ‘Eugênio Onêguin’ é um desafio para tradutores e até Vladimir Nabokov sofreu para verter o livro

Irineu Franco Perpetuo*, Especial para o Estado

A pedra de toque da literatura russa está chegando ao Brasil pela metade. A Ateliê Editorial acaba de lançar o primeiro volume do seminal romance em versos Eugênio Onêguin, de Puchkin, em cuidadosa tradução de Alípio Correia de Franca Neto e Elena Vássina, uma edição bilíngue com o mais luxuoso revisor que qualquer livro dessa área poderia ter: o pai fundador dos estudos de russo no Brasil, e maior tradutor que já houve desse idioma para o português, Boris Schnaiderman (1917-2016).

Isso significa que temos os quatro primeiros dos oito capítulos do romance – a apresentação do personagem-título, a carta em que Tatiana se declara a ele e a posterior rejeição de Onêguin, com a ação interrompida às vésperas da funesta comemoração do dia do santo da moça. Felizmente, está prometido um segundo volume, que deve trazer não apenas a conclusão da obra, como apêndices com variantes do texto, a célebre e descartada Viagem de Onêguin, ensaios sobre a obra e um texto no qual os tradutores explicam os princípios teóricos e técnicas que nortearam suas escolhas.

Aleksandr Puchkin

Descendente de africanos, morto prematuramente em um duelo, Aleksandr Puchkin (1799-1837) é o caso mais flagrante de desequilíbrio na recepção literária de um escritor em sua terra natal e no Brasil. Se, por aqui, ele é bem menos reconhecido e festejado do que autores como Dostoievski, Tolstoi e Chekhov, na Rússia é objeto de culto e veneração – o “sol da poesia russa”, de importância equivalente a Shakespeare para os ingleses, Goethe para os alemães, Dante para os italianos, Camões e Cervantes para os ibéricos. “Puchkin é nosso tudo”, cravou o literato Apollon Grigoriev (1822-1864), em frase constantemente citada. Uma boa dimensão do peso e do significado de Puchkin para a cultura russa é dado no romance Parque Cultural, lançado no Brasil pela editora Kalinka, no qual Serguei Dovlatov (1941-1990) descreve, com ironia mordaz, sua experiência como guia de um parque temático inteiramente dedicado ao autor de Eugênio Onêguin.

Um dos motivos para a discrepância entre o reconhecimento de Puchkin na Rússia e fora dela é o fato de parte substancial de sua obra estar em versos, sempre mais difíceis de manterem a força ao serem vertidos para línguas estrangeiras. É o caso, por exemplo, de Onêguin, definido pelo crítico Vissarion Bielinski (1811-1848) como “enciclopédia da vida russa”, custando ao autor nove anos de trabalho. Em uma célebre análise, Roman Jakobson (1896-1982) disse que “cada imagem de Púchkin é de uma polissemia tão elástica, e de uma capacidade assimilatória tão espantosa, que ela se insere facilmente nos mais variados contextos”.

Embora tenha inspirado espetáculos de dança de John Cranko e Deborah Colker, um longa-metragem de Ralph Fiennes e a mais bela ópera de Tchaikovski, o romance em versos vem constituindo um desafio ingrato para tradutores de todos os idiomas. O mais monumental fracasso foi o de Vladimir Nabokov, perfeitamente bilíngue, que empreendeu uma monumental versão da obra para o inglês, cujas notas de rodapé e comentários ocupam mais de mil páginas – o tripo do texto traduzido. Com uma abordagem literalista, abrindo mão dos aspectos poéticos da obra, Nabokov realiza uma verdadeira “autópsia” do texto, indispensável aos estudiosos de Puchkin, mas sua tradução passa muito longe de recriar o encanto e a musicalidade propiciados pela leitura do original.

No Brasil, a Record lançou, em 2010, uma versão de Dário Moreira de Castro Alves, recebida com pouco alarde. Para ilustrar as diferenças entre aquela edição e a atual, reproduzimos o mesmo trecho da missiva de Tatiana a Onêguin. 

Na tradução anterior: “Mal tu entrastes, conheci./E a desmaiar, por dentro ardia,/Há de ser ele, já pensava!/Não é verdade que eu ouvia/Em plena calma o teu falar:/Quando eu aos pobres assistia/E, orando, alívio então pedia/Contra a angústia a me agitar?” E na versão nova: “Mal você entrou, soube de olhá-lo,/Senti calor, senti um abalo,/E disse mentalmente: ‘Ei-lo’/Não foi verdade?, eu escutá-lo?/Ter-me falado na quietude,/Ao dar aos pobres um regalo/E orar para ter algum final o/Anseio da alma na inquietude?”

Ricamente anotada, a tradução de Correia e Vássina compartilha reflexões trazidas por Nabokov e pelo minucioso estudo realizado pelo semioticista Iuri Lotman (1922-1993). Resta torcer para que o lançamento do segundo volume não tarde, para que os leitores brasileiros possam desfrutar da obra-prima de Púchkin na íntegra.

*IRINEU FRANCO PERPETUO É TRADUTOR E CRÍTICO

*O texto original pode ser lido aqui