Monthly Archives: maio 2019

Entrevista com o poeta Majela Colares

Majela Colares acaba de publicar O Retorno de Bennu, que leva ao leitor poesia em prosa, aforismos, versos livres e uma poesia caudalosa, que inspira o leitor. A seguir, o Blog republica uma entrevista que o autor concedeu ao “Poesia Diversa” , de Hilton Deives Valeriano

1) – Como ocorreu seu contato inicial com a poesia?

Meu contato inicial com a poesia ocorreu através dos Romances de Feira, hoje conhecidos por Cordéis, quando menino. Lia-os intensivamente. Era uma leitura sempre muito emocionante. Romance do Pavão Misterioso, Peleja do Cego Aderaldo e Zé Pretinho, A Batalha de Oliveiros com Ferrabraz, As Aventuras de João Grilo, A Morte dos Doze Pares de França, (uma versão da canção de Rolando em cordel), estes são os que mais marcaram minhas lembranças. Eram leituras que eu fazia às vezes solitariamente e em outros momentos lia, com muita empolgação, em voz alta, para os amigos. Outra forma de poesia que tive contato muito cedo, talvez antes mesmo dos cordéis, foi a Cantoria. O verso improvisado. Mestres do improviso como Antônio Nunes de França, Dimas Batista, Otacílio Batista, Pedro Bandeira, Diniz Vitorino, dentre outros, foram os primeiros que ouvi improvisando um Galope à beira-mar, um Martelo Alagoano, um Mourão voltado, um Quadrão Mineiro, um Desafio. Esse contato inicial foi com a poesia popular nordestina. Com o tempo, misturou-se a essa experiência popular, as leituras dos clássicos. Primeiramente Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos, Camões…

2) – Como é seu procedimento ao escrever um poema?
Não existe um procedimento padrão. O poema emerge espontaneamente. Não escrevo poemas quando me encontro em estado emotivo, quer proveniente de uma situação agradável ou desagradável, (estado de inspiração), nem tão pouco em momentos puramente racionais (estado cerebral). O poema dá sinais… pisca o olho… sorri… no mais das vezes, de início, apenas capto a idéia. O momento de elaboração de um poema, em mim, acontece quando me aproximo o máximo dele, é uma sensação muito boa. É um estado que vai além da razão e da emoção, um estado que não sei definir… apenas percebo quando atinjo. Aí o poema começa a ganhar forma. Somente o que escrevo nesse estado que a mente alcança, para mim indefinido e imprescindível, é que considero poesia.

3) – O que é poesia para Majela Colares?
Conheço duas definições de poesia que acho maravilhosas. Uma afirma: “a poesia é a arte de dizer apenas com palavras o que apenas palavras não podem dizer”. A outra definição diz: “poesia é tirar de onde não tem e colocar onde não cabe”. São definições inteligentes que podem levar a outras. Eu nunca pensei em definir poesia. Poderia, no rastro das anteriores, afirmar: “poesia é algo que de forma alguma pode ser dito e, de repente, alguém diz”. Penso, no entanto, que poesia é muito mais do que isto. Enfim é algo indefinível.

Capa de “O Retorno de Bennu”

4) – Como você vê o atual panorama da poesia brasileira contemporânea? Quais poetas você destacaria?

O atual momento da poesia brasileira é muito rico e marcante, no entanto pouco explorado. Existem grandes poetas escrevendo na atualidade. Nomes que merecem muito mais respeito, admiração e divulgação… que deveriam estar em seus verdadeiros e devidos lugares. Existe também muita gente sendo aclamada de poeta, nomes bastante famosos, e tudo o que escrevem ou escreveram de poesia não tem absolutamente nada. São meramente produtos da mídia. Não citarei nomes… com certeza cometeria injustiça. Esta diferenciação de quem é poeta e quem não é, de quem realmente é grande poeta, ou não, o tempo cuidará de fazê-la.

5) – Sendo um representante da poesia nordestina, como você vê a relação entre tradição poética e movimentos de vanguarda?
Escrevo poesia por necessidade existencial. Para responder, às vezes, inconscientemente questionamentos que me surgem até em sonhos. Ou num sinal de transito. A estética do poema, penso ser fundamental e muito tenho trabalhado isso. A tradição poética é, a meu ver, elemento imprescindível para a construção de uma obra poética. Um movimento de vanguarda é importante na medida da qualidade poética, estética e de pensamento que venha apresentar como alternativa para um estilo já existente. Em meu primeiro livro Confissão de Dívida, encontra-se poemas concretos, poemas visuais, sonetos, oitavas camonianas, poemas em versos livres… no segundo livro Outono de Pedra, (que é um poema único, longo) encontra-se tudo isso e mais algumas passagens onde entra a estética do cantador-repentista nordestino. Tudo isso foi resultado de leituras e influencias. Mas com o passar do tempo tomei consciência do que realmente a poesia queria de mim. As influencias das vanguardas passaram e restaram apenas alguns bons experimentos. Hoje ainda adoto estéticas variadas, mas a minha grande preocupação e comprometimento esta com a inovação da linguagem poética, com a fundição do signo, a implosão da sintaxe. Quanto ao fato de ser um representante da poesia nordestina me orgulha muito, mas não enxergo a coisa bem assim. Penso que ao invés de representantes regionais: sulistas, nortistas, mineiros, paulistas, cariocas, nordestinos, existem representantes da poesia brasileira. Trabalho para ser um deles.

Majela Colares


6) – A inovação em termos de poesia é sempre necessária? Existe uma tradição perene em regiões especificas do nosso país, como o Grande Nordeste?

Se a inovação for pra melhor é necessária. Sempre será. Se analisarmos Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Joaquim Cardozo e João Cabral de Melo Neto, (nordestinos), Mario Quintana, (gaucho) e Carlos Drummond Andrade, (mineiro), verificaremos que existem diferenças estéticas e temáticas, mas nenhuma se identifica mais com esta ou com aquela região. (Com exceção à temática de João Cabral). Penso não existir uma tradição perene em regiões específicas do nosso país.

7) – O que você diria como forma de conselho para aqueles que estão se iniciando na prática da poesia?

Que leiam muito, principalmente poesia… que o ato de leitura seja dez, vinte, cem vezes mais frequente do que o ato de escrever.

“Eugênio Onêguin”, romance em versos de Aleksandr Púchkin, ganha nova tradução

O “romance em versos” Eugênio Onêguin é a expressão máxima do gênio de Aleksandr Púchkin (1799-1837), e representa para a literatura da Rússia o mesmo que OsLusíadas, A Divina Comédia, o Dom Quixote e as peças de Shakespeare representam respectivamente para Portugal, a Itália, a Espanha e a Inglaterra.
Púchkin é considerado o fundador da literatura russa moderna, o maior ícone cultural da Rússia, e seu Eugênio Onêguin já foi chamado de “enciclopédia da vida russa”, de leitura obrigatória em escolas. A Ateliê Editorial acaba de publicar uma edição bilíngue, traduzida pelo poeta e tradutor Alípio Correia de Franca Neto e pela pesquisadora russa Elena Vássina. O trabalho teve a consultoria de Bóris Schnaiderman, em um dos últimos trabalhos deste grande estudioso. A seguir, Alípio Correia de Franca Neto e Elena Vássina respondem juntos a perguntas do Blog Ateliê sobre a obra:

Esta é uma obra fundamental da literatura russa e já possui outra tradução em português. Qual o diferencial desta edição?

Resposta: A tradução é uma atividade dual, envolvendo capacidades individuais de interpretação e de escrita. Logo, uma tradução sempre envolverá uma maneira diferente de ler e de materializar essa leitura na escrita.

Quanto a traduções precedentes, só conhecemos uma versão brasileira do Eugênio Onêguin, cuja iniciativa deve ser considerada, pela envergadura do trabalho, mas que está inçada de imprecisões do ponto de vista de sua poeticidade  e no que concerne a interpretações pontuais de passagens e conceitos. São conhecidos, pelo menos, 10 excelentes  e diferentes traduções de Eugênio Onêguin para língua inglesa; há 16 traduções para o francês; 6 traduções para o espanhol e assim por diante.

Quais foram os maiores desafios da tradução deste volume, levando-se em conta o fato de que este é um romance em versos?

Resposta: O maior desafio, mesmo, é “manter o pulso”, em termos da depuração da linguagem em reescrituras sucessivas, à proporção que se avança  na tradução de um poema tão longo, universalmente conhecido pela “leveza” de seu estilo, a qual deve fazer, claro, parte da poeticidade da tradução –  um estilo que, como disse Tchekhov acerca do pé de uma bailarina, exige o máximo de esforço para o máximo de graça.

Como foi o processo de tradução e adaptação da forma poética? De alguma maneira ela obedece às estruturas da língua russo ou foi feita de modo que o leitor brasileiro pudesse reconhecer o ritmo da poesia a partir das referências de nossa língua?

Elena Vássina

Resposta: A estruturação do poema em português mimetiza um sem-número de estruturas poéticas do original, como, por exemplo, metro, esquemas rímicos, aliterações, assonâncias, ambiguidades, valores tonais. A tradução preserva conteúdos semânticos equivalentes em cada verso, apenas raras vezes deslocados ligeiramente a versos na sequência; preserva paralelismos, recorrência vocabular, aspectos da sintaxe e a maior parte da pontuação (que Michael Hamburger chamava de “a respiração” do poema). Apenas a especificidade do esquema rímico, no que concerne à distribuição de rimas masculinas e femininas, não foi seguida à risca, já que, como está explicado em palavras sobre a tradução no final do segundo volume,  a adoção desse cerceamento poderia resultar em soluções demasiado perifrásticas comparativamente ao original, esse sendo um problema relativo à constituição das línguas, já que o número de palavras oxítonas em português é simplesmente menor do que o de palavras paroxítonas.

Este trabalho foi parcialmente supervisionado pelo Prof. Bóris Schnaiderman, que atuou como consultor desta tradução. Quais foram as contribuições dele para o volume?  De que maneira seu trabalho pode ser percebido aqui?  

Alípio Correa de Franco Neto: O prof. Bóris sentia profundamente o português e o russo, e era uma homem de grande erudição, sensibilidade poética – ou seja, um leitor ideal, contribuindo continuamente com comentários os mais minuciosas sobre imprecisões ocasionais.

Elena Vássina: Em 2008 apresentei ao Professor Bóris um projeto de tradução de “Evguiêni Oniêguin”, obra fundamental da literatura russa que faria o talentoso tradutor de poesia com minha modesta colaboração. O Professor logo ficou muito interessado no projeto e aceitou nosso convite de fazer revisão da tradução e ajudar com o cotejo. Ficaram as recordações das muitas horas que passamos juntos conversando sobre “Evguiêni Oniêguin”, e das diversas páginas que ele nos deixou com suas anotações e listas de correções e sugestões de tradução batidas em sua fiel Olivetti portátil.

O Professor Boris ficou muito entusiasmado ao ler o rascunho da tradução das primeiras estrofes feitas por Alípio, que, segundo o Professor, conseguiu acertar muito bem o estilo do romance em versos e resolver aquilo que o próprio Schnaiderman definiu como “a grande dificuldade” na tradução da obra:“[Púchkin utilizou nela] uma linguagem muito singela e incisiva, sua poesia muitas vezes está bem próxima da prosa e, ao mesmo tempo, é fundamentalmente poesia” (Entrevista com Boris Schnaiderman, 2016, p.40).

Alípio Correia de Franca Neto

O livro faz parte da Coleção Clássicos Comentados. Como ele ajuda o leitor a entrar no universo da literatura russa (em especial desta obra fundamental para aquela cultura)?

Resposta: o livro é composto de um rico aparato de notas, enformadas por tradições críticas da obra,  vazadas em linguagem acessível, e às voltas com problemas culturais e de tradução.

Em sua opinião, este livro tenta ser didático para o leitor que nunca antes teve contato com a obra de Púchkin ou ele deve despertar a atenção apenas dos estudiosos da língua e literatura russa?

Resposta: O livro visa a ser didático, do ponto de vista de seu material paratextual e de textos críticos paradigmáticos da obra, consignados no final do segundo volume, embora, como todo clássico, seja destinado tanto ao leigo como o especialista.

Conheça outras obras de Alípio Correia de Franca Neto

Conheça outras obras de Elena Vássina

“O Azul e o Mar”: edição bilíngue com poemas de Paul Valéry

Eduardo de Campos Valadares selecionou poemas de três fases de Paul Valéry – Charmes, Clássicos e o longo poema “A Jovem Parca” – para compor este volume, chamado O Azul e o Mar, uma coedição com a Editora UFMG. Um trabalho de tradução que, segundo o tradutor, foi uma “festa da imaginação”, expressão que cria eco na “festa do intelecto” que, segundo o poeta francês, deve ser o poema.

“Os leitores bilíngues perceberão que a presente tradução busca privilegiar uma ambientação da poesia de Paul Valéry considerando-se a realidade linguística atual”, informa Valadares, Doutor em Física que vive em Minas Gerais, é professor na UFMG, já traduziu Stefan George e também é autor de poesia. A seguir, ele fala ao Blog da Ateliê:

Como foi feita a seleção dos poemas de O Azul e o Mar?

Eduardo de Campos Valadares: O meu ponto de partida foi o poema “Cemitério Marinho”, cuja tradução foi publicada no Brasil na década de 80 do século passado. Quando a li senti que nela a voz do poeta não fluía como no original. Resolvi então fazer a minha versão. Toda a obra poética de Paul Valéry é de domínio público e se encontra na internet. Selecionei os demais poemas por afinidade estética, pensando na sua universalidade.

Quais foram os maiores desafios da tradução deste volume?

ECV: Foram inúmeros. A poesia de Valéry é muito elaborada e requer extremo cuidado. Depois de ter o manuscrito aprovado pelos editores, reescrevi mais da metade do texto e fiz mudanças até o último minuto. Tudo isso foi possível graças ao apoio da produção. Eu diria que esta obsessão foi imprescindível. Neste processo a poesia de Paul Valéry foi se revelando de forma surpreendente.

Eduardo de Campos Valadares: física e poesia

O que diferencia este volume de outras edições dos poemas de Valéry em português?

ECV: Eu li a tradução de Rilke para o alemão e me dei conta que poderia ousar sem me sentir traidor do poeta. Cada idioma oferece oportunidades linguísticas únicas. Em  minha releitura dos poemas de Valéry explorei suas inúmeras possibilidades de exegese. Por ter traduzido anteriormente o poeta alemão Stefan George (Crepúsculo, Iluminuras), da mesma escola de Valéry – ambos foram discípulos de Mallarmé – me senti à vontade para explorar novas possibilidades, buscando sempre expressar a voz do poeta na língua portuguesa.

A questão da construção poética é bastante importante para Paul Valéry, bem como a questão da racionalidade. De que maneira isso impactou o seu trabalho de tradução para o português?

ECV: Eu sou um tradutor intuitivo. Utilizei todos os recursos ao meu alcance, incluindo ferramentas encontradas na internet, como dicionários de rimas, separador automático de sílabas, dicionários on-line, etc.  Senti visceralmente o que significa viver no século XXI e revisitar uma poesia clássica escrita há cem anos.

O refinamento estético e a inserção de temas filosóficos na poesia de Paul Valéry representaram, de alguma maneira, uma dificuldade em seu trabalho de tradutor?

ECV: Eu gosto de desafios impossíveis. Por isso encarei a poesia de Paul Valéry. O fato de ser um físico me ajudou muito na minha interlocução poética, às vezes lúcida, muitas vezes insana.

Paul Valéry

Em sua opinião O Azul e o Mar é uma boa introdução do trabalho de Valéry para quem nunca teve contato com a obra do poeta?

ECV: Eu creio que sim. Este foi o meu primeiro contato com a poesia de Valéry. Traduzi-lo me fez sair de um luto de cinco anos. Foi uma feliz coincidência, já que este tema reverbera nos poemas que traduzi.

E para aqueles que já são admiradores de sua poesia, o que este livro traz de novo?

ECV: Esta nova versão traz o frescor de um noviço que se aventura por um universo desconhecido. A poesia de Paul Valéry é um convite a refletir sobre a vida e o mundo, por isso admite novas percepções.

Conheça outras obras de Paul Valéry