Monthly Archives: abril 2019

“Viva Vaia”, de Augusto de Campos: um marco da poesia concreta

“Augusto de Campos realiza uma pesquisa poética regida pelo signo da invenção, utilizando recursos das tecnologias digitais que permitem integrar palavra, som, imagem, movimento, tempo e espaço em composições que solicitam a participação inteligente do leitor para a construção de significados”, define Claudio Daniel.

Esta talvez seja uma das melhores sínteses para entender a relevância de Viva Vaia, livro de 1979, que está na quinta edição e que é um dos mais importantes registros do Concretismo brasileiro. Em quatro décadas, o livro se confirma como uma das obras mais importantes da literatura brasileira.

Livro Viva Vaia
Viva Vaia

O Concretismo – movimento de vanguarda que teve manifestações na música, artes plásticas e literatura – foi uma revolução no modelo poético brasileiro. Lançado oficialmente em 1956, pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e por Décio Pignatari, o movimento da poesia concreta preconizava o desaparecimento do eu lírico e a utilização de signos visuais e geométricos para compor a poesia. Em outras palavras, o concretismo sugeria que a forma fizesse parte da poesia, o que, em última instância pode levar ao desaparecimento do verso.  

Todas as manifestações artísticas do concretismo são bastante elaboradas, dando relevância à forma: os efeitos gráficos e recursos visuais e fonéticos da poesia muitas vezes a fazem parecer uma peça de design gráfico.  O uso do papel como um espaço quase geográfico também propõe uma leitura interativa – com a participação do leitor na construção dos significados propostos.

Viva Vaia

Este livro, que reúne poemas de Augusto de Campos escritos entre 1949 e 1979, traz um CD encartado, com quinze dos poemas que pertencem ao livro. Destes, dez figuraram no CD POESIA É RISCO, lançado em 1995, com criação musical e sonorização de Cid Campos. A diagramação de Julio Plaza e o projeto gráfico original foram respeitados e mantidos. Além disso, a edição devolve a impressão cromática inicial a alguns poemas difíceis de se reproduzir.

A poesia de Viva Vaia traz não apenas questões gráficas e visuais, mas também uma carga importante de crítica social, já que levam o leitor a pensar sobre o mundo que o cerca, com uma atualidade assombrosa ainda nos dias de hoje.

O poema que dá título à antologia é dedicado a Caetano Veloso, aludindo ao episódio em que ele fora vaiado pelo público durante o Festival Internacional da Canção de 1968.

Um dos exemplos do volume é o poema “Rever” (acima), um palíndromo perfeito que, nesta configuração gráfica contém no signo seu próprio significado. Mais que um achado gráfico, um jogo poético de palavras e imagens.

Viva Vaia é uma experiência estética ampla, que contempla não apenas a poesia, mas artes visuais, música e também provoca no leitor uma reflexão crítica sobre como todas essas inovações foram absorvidas e utilizadas pelo mercado.   

Conheça outras obras de Augusto de Campos

O Sertão e a Sibéria em Luto

Por: Plinio Martins Filho

Com a morte de Jerusa Pires Ferreira, ocorrida no último domingo (21/04), perdemos uma colega generosa e uma professora e ensaísta extremamente culta. Docente do curso de Editoração da ECA/USP e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC/SP, suas aulas eram verdadeiras viagens: uma hora estávamos no sertão falando do cordel, em seguida, na Alemanha com Goethe ou na Rússia de Púchkin. Era fascinante esse trânsito entre o árido Nordeste brasileiro e a gélida Sibéria. Sempre valorizava seus alunos. De certo modo, “obrigou-me” a dar aulas na ECA, no curso de editoração. Devo a ela meu ingresso na carreira docente. Quando concebemos, pela Editora-Laboratório Com-Arte, a coleção “Editando o Editor”, eu havia recém-saído da Perspectiva para a Edusp, e ela sugeriu começarmos essa coleção, que hoje já abarca oito volumes, com um livro sobre Jacó Guinsburg, outro grande mestre que se foi há pouco.

Jerusa Pires Ferreira
Jerusa Pires Ferreira

Mesmo após a aposentadoria, Jerusa nunca deixou de colaborar com a ECA/USP e mais especificamente com o curso de Editoração. Amiga do livro, até falecer teve papel de destaque na coordenação do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (NELE), a frente dos estudos em torno da memória da edição e do livro popular no Brasil.

Seu legado foram seus estudos e projetos sobre o que ela chamava de “cultura das bordas”, isto é, trabalhos que tratavam do fértil entroncamento entre oralidade, memória, cultura popular e as relações entre literatura, comunicação e artes. Editou mais de vinte livros, entre eles Armadilhas da Memória (Ateliê, 2003), Cavalaria em Cordel (Edusp, 2016), Cultura das Bordas (Ateliê, 2010), O Livro de São Cipriano (Perspectiva, 1992) e Matrizes Impressas do Oral (Ateliê, 2014). Ela também se notabilizou como tradutora e principal divulgadora dos trabalhos de Paul Zumthor e de Henri Meschonnic no Brasil.

Se nos despedimos de Jerusa, felizmente sua obra permanecerá, frutificará e continuará a se expandir. Estão para serem lançados em breve Leituras Imediatas e A Visita da Peste, em coorganização com Roberto Oliveira. 

“A Cidade e As Serras”, de Eça de Queirós

A Cidade e As Serras é um livro póstumo de Eça de Queirós: foi lançado em 1901, após a morte do escritor. É um dos mais importantes títulos do autor português, inclusive do ponto de vista do exercício estético. Pode até ser classificado como pós-realista, já que combina aspectos realistas, impressionistas e expressionistas, por exemplo. O romance questiona os valores da sociedade urbana portuguesa (como já acontecera antes em outros romances de Eça, como A Ilustre Casa de Ramires) e fala sobre o impacto do capitalismo nessa sociedade. Ainda assim, se tomarmos por base outros romances do autor, como O Primo Basílio, percebe-se uma certa reconciliação com alguns valores da sociedade portuguesa, fortemente combatidos em outras obras.

Como o próprio título denuncia, A Cidade e As Serras – baseado no conto Civilização, escrito por Eça em 1892 –, fala da dicotomia entre campo e cidade, tendo como ponto de partida a história do abastado francês Jacinto de Tormes, contada por seu amigo, o narrador (português) Zé Fernandes. Jacinto mora em uma mansão, com telégrafo, telefone, elevador e outros aparelhos muito tecnológicos para o cenário do início do século XX. Ele recebe em sua casa o amigo Zé Fernandes, que vem rever o amigo depois de um longo intervalo de tempo.  

Esse é um romance especular. Ou seja, tudo na estrutura do romance é de certa forma, espelhado, a começar pelo número da propriedade do protagonista: 202. Mas o espelhamento se espalha pela obra, na comparação entre campo e cidade; na lembrança de juventude em comparação ao momento presente, por exemplo.

A tecnologia e a modernidade são aspectos importantes para Jacinto. “A felicidade dos indivíduos, como a das nações, se realiza pelo ilimitado desenvolvimento da mecânica e da erudição”, afirma. Ele cria, na juventude, uma espécie de equação (que também pode ser um elemento lido como especular), segundo a qual

“Suma Ciência X Suma Potência = Suma Felicidade”.

Este preceito irá guiar a narrativa de A Cidade e as Serras.

Enredo

Eça de Queirós

Quando chega a Paris para visitar Jacinto, Zé Fernandes acaba por se inebriar pela cidade e sua atmosfera. Apaixona-se pela prostituta Madame Colombe, tornando-se um “selvagem” e contrariando a teoria de Jacinto de que esta seria uma característica do homem do campo. Vários são os episódios do romance que tentam desmontar a teoria de Jacinto – um alerta para que o leitor a veja de maneira crítica. Um exemplo disso é a solidão e a frágil saúde de Jacinto – a despeito do fato de que ele esteja morando na cidade mais desenvolvida de então, com acesso à medicina e às melhores condições de tratamentos de saúde.  

Durante a visita de Zé Fernandes, Jacinto precisa voltar a Tormes, para tratar dos danos ocorridos em uma propriedade sua. Esse retorno ajuda a melhorar o quadro de frágil saúde do protagonista. Mas aqui também Eça de Queirós coloca críticas em seu romance. A vida no campo não é apenas bucólica e perfeita. O leitor se depara com cenas de pobreza e dificuldades dos camponeses.

Em Tormes, Jacinto encontra Joaninha, prima de Zé Fernandes, com quem se casa. Ao mostrar que Jacinto encontra a “suma felicidade” longe da cidade, Zé Fernandes conclui que a tecnologia nem sempre é a razão da felicidade.

“Entreatos”: monólogos de inspiração fantástica

Marcelo Castel Cid já escreveu um romance chamado Os Unicórnios e organizou a Antologia Fantástica da Literatura Antiga. De certa forma, sua literatura flerta com o fantástico. Agora, ele lança Entreatos, em que bebe nessa fonte para criar monólogos inventados para personagens bíblicas que marcam presença no Livro dos Atos dos Apóstolos. A seguir, ele fala sobre seu novo livro para o Blog da Ateliê:

Como surgiu a ideia de escrever Entreatos?

Marcelo Castel Cid: Surgiu à primeira leitura do Novo Testamento, há muitos anos. O Livro dos Atos me impressionou particularmente, já naquela época.

Qual a origem de seu interesse pelo Livro dos Atos dos Apóstolos?

MCC: Não sei se essa informação é tão relevante, mas digo mesmo assim: não sou uma pessoa religiosa. Meu interesse pelos Atos se deu por seu valor literário e humano. Lendo a história dos primeiros cristãos, eu me pegava fascinado pela maneira como um obscuro culto oriental foi ganhando corações e mentes tão rapidamente, e em dois meios culturais muito diversos – entre os judeus monoteístas e entre os gregos e romanos politeístas. E isso aconteceu de uma maneira definitiva, como sabemos, uma vez que muitos, logo depois da conversão, já estavam dispostos a dar a vida pela nova religião. Isso em si é muito misterioso. Por mais que haja mal-entendidos ou ficção nos Atos, ter a certeza, como temos, de que tantos enfrentaram o martírio para testemunhar a verdade que sentiam nas palavras de um homem “do povo”, que seria também divino, torna a leitura uma experiência tocante.

 O seu conhecimento prévio da Bíblia – e do Livro dos Atos dos Apóstolos – foi “suficiente” para escrever Entreatos ou foi necessário voltar a essa parte da Bíblia para compor sua obra? Como se deu esse processo?

 MCC: Eu escrevi meus relatos com o livros dos Atos sempre à minha frente, mas não só. Li outros livros de história bíblica e cultural, além, é claro, de misturar várias narrativas numa só. Por exemplo, meu Dionísio Areopagita é uma mistura do relato bíblico com os textos de e sobre o Pseudo-Dionísio Areopagita, um místico do século V ou VI. Historicamente, não podem ser a mesma pessoa, mas literariamente é um recurso interessante misturar essas histórias.

Marcelo Castel Cid

No Prólogo, você escreve: “Claro, seria possível contar uma ou outra história com maior liberdade, usando a narrativa bíblica apenas como ponto de partida para outras divagações (como alguns autores já fizeram – por exemplo, Danilo Kis em maravilhosa narrativa sobre Simão Mago) – mas isso levaria “a intenção do texto” ao outro extremo – divergir da fonte, o que não é, por si só, um bom empreendimento literário”. Pode, por gentileza, explicar esse trecho ao leitor?

MCC: Com isso eu quis dizer que, na maior parte, segui o arco narrativo da Bíblia. Não quis contar uma “história alternativa”, como um daqueles livros ou filmes que imaginam “o que teria acontecido se…”. Acho o texto dos Atos muito literário por si só – a conversão de Paulo, por exemplo, é tão incrível que só pode ser real, miticamente real, pelo menos, mas sabemos que também historicamente…

Sei que muitos autores poderiam escrever boas histórias imaginando Paulo desistindo de tudo ainda no caminho de Damasco, e chegando a morrer um velho judeu ortodoxo, rememorando a história de Jesus – que poderia ter acabado já nesses primeiros anos, se ele não tivesse se tornado um apóstolo da fé que antes perseguia. Enfim, eu quis escrever “entre as linhas” do texto bíblico, não contra elas, especificamente.

Quão desafiador foi o processo de composição de Entreatos?

MCC: A escrita em si foi rápida, mas cada texto apresentou uma dificuldade específica. Acho que o texto mais difícil de escrever, e com o qual eu fiquei menos satisfeito, foi o do centurião Cornélio – simplesmente porque eu não consigo entender como e por que um centurião romano arriscaria tudo para abraçar uma obscura seita judaica do primeiro século. Acho que ninguém consegue entender isso, na verdade… No entanto, sabemos que isso aconteceu, tanto que em poucas gerações o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano.

Os personagens enfocados em Entreatos não são personagens “célebres” para o grande público. Essa escolha se deu com que finalidade?

MCC: As histórias dos Atos são boas, quase todas elas. Acho que o grande público conhece as principais, as de Pedro e Paulo, por exemplo. Várias personagens aparecem em cenas muito curtas, apesar de memoráveis, que outro autor poderia desenvolver em contos ou mesmo num romance. Eu escolhi aquelas que tinham algum desenvolvimento dramático mais ou menos completo, seja no texto bíblico, seja pela tradição.  Por exemplo, isso não está dito nos Atos, mas sabemos que o procônsul Lúcio Gálio (que na Bíblia tem uma atitude de indiferença com os cristãos) era irmão do filósofo Sêneca – o que abre várias possibilidades narrativas. Teria ele inveja do irmão? Seria ele também próximo ao imperador Nero? Seria ele também meio filósofo, meio estoico, e por isso propenso ao cristianismo? Aliás, os antigos cristãos achavam que o próprio Sêneca poderia ter sido cristão, até sobrevivem algumas cartas (naturalmente apócrifas) que ele teria trocado com o apóstolo Paulo.

Conheça a obra de Marcelo Castel Cid

Thelma Guedes, poeta, contista e autora de novelas

A literatura faz parte da minha vida desde que me entendo por gente”, diz Thelma Guedes. Nascida no Rio de Janeiro, foi em São Paulo que ela cursou Letras, na USP. E lá também cursou o Mestrado, cujo ponto de partida foi o primeiro livro da escritora Pagu (Patricia Galvão), Parque Industrial. Do Mestrado nasceu Pagu, Literatura e Revolução, em 2003.

Um ano antes, porém, Thelma havia encontrado Walcyr Carrasco, autor da Globo com quem colaborou em diversos projetos, como O Sítio do Picapau Amarelo e nas novelas Esperança e Chocolate Com Pimenta. Em 2006, Thelma inicia sua parceria com Duca Rachid, com quem escreveu novelas emocionantes como Joia Rara e Cordel Encantado, que receberam variados prêmios.

Agora, Thelma Guedes estreia, também em parceria com Duca Rachid, Órfãos da Terra, nova novela das seis da Rede Globo. Mas, nestas mais de duas décadas de história, ainda houve tempo para que ela escrevesse também contos e poesia. A Ateliê Editorial tem muito orgulho ter, em seu catálogo, três dos livros de Thelma Guedes, uma autora múltipla, que cria para a TV, faz poesia e escreve contos. Tudo com uma maestria ímpar.

Conheça, a seguir, alguns livros de Thelma Guedes, autora de Órfãos da Terra:  

Pagu, Literatura e Revolução

Este livro analisa as dimensões estéticas e políticas de Parque Industrial, romance de Patrícia Galvão (Pagu) publicado no início dos anos 1930. Na época, a obra foi rejeitada pelos intelectuais, inclusive os de esquerda. Ainda hoje, ela é relegada pela crítica e pela historiografia literária a um papel secundário dentro do modernismo brasileiro. Com sensibilidade e conhecimento de causa, a autora deste ensaio recupera os méritos desse romance proletário e aquilo que, nele, permanece atual.

Novelas, Espelhos e um Pouco de Choro

Um livro sobre a televisão, essa caixinha de mistérios que conquistou lares de todo o Brasil. Os autores dos contos aqui reunidos são roteiristas da Rede Globo. Cada um aborda um aspecto do tema, com estilo próprio e determinado ângulo de visão. O que dá unidade ao conjunto é a identificação com o leitor: todos os textos tratam de histórias que assistimos ou de que ouvimos falar. Todas elas nos pertencem porque, de alguma maneira, participamos delas. O prefácio é de Gilberto Braga.

Cidadela Ardente

Os dezenove contos que compõem o primeiro livro de Thelma Guedes são flagrantes do dia a dia, recortes de momentos decisivos e situações-limite. Os temas fundantes da sensibilidade humana – desejo, medo, solidão e morte – são a matéria literária essencial da autora. Mais do que estopins do sofrimento, eles são tratados aqui como processos desintegradores da própria consciência. É o que faz desta obra uma experiência perturbadora, que leva o leitor a um percurso de inquietações e perplexidades.