“O Língua” dá voz a índios e mamelucos, originalmente silenciados e oprimidos

O primeiro estranhamento do leitor acontece na capa. Língua é substantivo masculino? Sim. Neste caso, o termo é usado para indicar o intérprete que mediava as relações entre portugueses e índios, ainda durante o século XVI no Brasil. O romance de Eromar Bomfim alterna narradores para contar a história de Leonel, filho da índia Ialna e de Antônio Pereira, fazendeiro e padre. A seguir, Eromar, que também é autor também dos romances O Olho da Rua (Nankin Editorial) e Coisas do Diabo Contra (Ateliê Editorial), fala sobre o lançamento:

 

Como surgiu a ideia de O Língua?

Eromar Bomfim: Surgiu do desejo de narrar uma possível vivência psicológica do povo a partir da voz desse mesmo povo, no momento da formação de nossa sociedade, momento esse que lançou fundamentos psicossociais que parecem nos desunir e nos manter como uma nação não resolvida. Minha idéia era, então, criar personagens que, sendo nossos contemporâneos, tivessem existido no momento de mestiçagem de nossa sociedade e que pertencessem ao pólo oposto da sociedade dominante, narrando eles próprios, do seu ponto de vista, suas vivências. Por meio de um artifício literário, e baseado na idéia de que há sempre permanência na transformação, fiz meus personagens atravessarem séculos de existência.

O que significa língua, substantivo masculino?

EB: O termo “língua”, substantivo masculino, é sinônimo de “intérprete”. O língua era requisitado para intermediar o contato entre os portugueses e suas companhias militares na atividade de apresamento dos índios ou nas frentes de batalha.

 

O texto é ficcional, mas traz ao leitor alguns aspectos históricos. Poderia falar um pouco sobre como se deu a união destes dois universos? Qual deles prevalece no romance?

EB: Além de pesquisa etnográfica sobre os indígenas do Nordeste, li também a história da penetração dos colonizadores luso-brasileiros nos sertões nordestinos, notadamente no século XVII, momento de maior ataque a essas populações. Colhi episódios históricos dessa época, bem como pessoas reais que estiveram à frente desses episódios, e inseri neles personagens fictícios, justamente aqueles representantes do contingente anônimo e popular que a história oficial costuma desprezar. Posso dizer que os fatos históricos serviram de base sólida na qual eu plantei uma história totalmente fictícia.

 

Eromar Bomfim, fotografado por Hemerson Celtic

O romance tem diversos narradores. Quem são eles? O que você pretendeu com esta escolha estética?

EB: São quatro narradores, nenhum deles é branco. Os quatro se conheceram e participaram dos mesmos fatos narrados. É como se fosse uma história só, na qual todos tiveram participação, e que cada um contasse uma parte. Um deles é Gabiroba, filho de um escravo africano com uma índia. Este narrador orquestra as narrações dos demais. É ele que abre e fecha a história toda. Outro narrador é Aleixo, índio cariri, que vivia na região do Rio Itapicuru, na Bahia. É um personagem na linha dos heróis picarescos de nossa literatura. Um terceiro é Ascuri, índio anaió. Ele testemunhou a gênese da ambigüidade de caráter do brasileiro na pele de Leonel, o futuro Língua. Finalmente, a narradora Ialna, índia anaió, mãe de Leonel, guerreira, heroína, trágica, mas sempre mãe.

Essa multiplicidade de narradores, além de enriquecer o narrado, oferecendo sobre ele vários pontos de vista, resolveu problemas estruturais, por exemplo: eles não podiam contar a sua própria morte. Neste momento, a palavra é passada a outro narrador, resolvendo assim o problema.

 

O que é possível dizer sobre o personagem Leonel de Matos para os futuros leitores, que ainda não tiveram contato com o livro?

EB: Eu diria ao leitor que vale a pena pensar no personagem Leonel como nosso antepassado direto. O mameluco, filho de português com uma índia, vindo a ser, como dizia Darcy Ribeiro, o primeiro brasileiro. Antepassado que já não é nem índio nem branco. Desintegrado ou mal integrado na sociedade do pai, e arredio de sua origem materna, a qual, em larga medida tendeu a renegar, cometendo talvez o seu primeiro grande equívoco na vida. Equívoco que lhe vem da fascinação pela civilização branca que talvez ele devesse corrigir.

 

O que um livro com temática indígena pode dizer ao Brasil do século XXI?

EB: Não considero que eu tenha tratado de uma temática indígena nesse romance, mas de uma temática brasileira, ou do povo brasileiro. Meu personagem central, a rigor, não é um índio. É um mameluco. E é a partir disso que esse personagem pode dizer alguma coisa para o Brasil hoje: uma reflexão sobre a nossa formação identitária, como caminho para fazermos distinções culturais que caracterizam nosso modo de ser, incluindo nesse modo de ser atitudes destrutivas do outro ou integradoras, ou, na pior das hipóteses, extraviados de nós mesmos e de nossa origem, como eternamente estrangeiros em sua própria terra. Nesse sentido, quero crer que o romance O Língua cumpre uma das funções inerentes à arte literária que é restaurar emocional e criticamente o passado.

 

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