“Realidades e Ficções na Trama Fotográfica”: uma resenha

Por Carina M. F. Pedro*

 

A 5ª edição revista do livro “Realidades e Ficções na Trama Fotográfica” reúne textos adaptados de palestras proferidas nos anos noventa pelo fotógrafo e pesquisador Boris Kossoy. Sua leitura proporciona diversas reflexões sobre a fotografia e sua história, os processos que estão presentes na sua produção, a sua relação com a construção da memória e da imagem do Brasil como nação, assim como a importância de se preservar em acervos as imagens captadas pelos fotógrafos ao longo de décadas, a fim de servirem como fontes de pesquisa sobre uma época.

Na primeira parte do livro, “Construção e Desmontagem do Signo Fotográfico”, Kossoy apresenta os elementos que constituem a imagem fotográfica. Como “índice” a fotografia é uma prova que o objeto/assunto tangível ou intangível existiu de fato. Como “ícone”, por conta dos seus aspectos tecnológicos, o registro fotográfico é a comprovação documental da aparência e da semelhança que o objeto/assunto tem com a imagem. Apesar disso, a fotografia não deixa de ser um produto elaborado por meio de um processo criativo, no caso, do fotógrafo, que tem o seu próprio repertório técnico, estético e cultural.

O autor também retoma os conceitos de primeira e segunda realidades, de realidade interior e exterior. A primeira realidade é a história particular do objeto/assunto independente do registro fotográfico. O momento em que esse registro é feito também possui uma história que não está visível na fotografia, entendida como realidade interior. A segunda realidade é o objeto/assunto contido nos limites bidimensionais da fotografia, em dado espaço e tempo, que não se modificará mais. Temos acesso a essa realidade exterior que por ser fruto do imaginário do fotógrafo não representa necessariamente a verdade histórica, tornando-se um registro passível de muitas interpretações por parte do receptor, que também possui seus próprios filtros culturais, morais, éticos, entre outros.

Imagem de Guilherme Gaensly presente no livro

Na segunda parte do livro, “Decifrando a Realidade Interior das Imagens do Passado”, Kossoy trata do cartão-postal e de suas possibilidades como meio de correspondência e entretenimento muito utilizado na transição do século XIX para o XX. No Brasil, o autor destaca as imagens do fotógrafo Guilherme Gaensly, que registrou a cidade de São Paulo em um período de crescimento acelerado, devido à expansão da economia cafeeira. Tais registros rodaram o mundo através de cartões-postais, apresentando uma parte da cidade que propagandeava o modo de vida burguês das elites paulistas. Nota-se, assim, uma ausência de fotos de bairros operários da época e raros registros do comércio popular, alguns deles feitos pelo italiano Vicenzo Pastore.

Na sequência, são abordados outros exemplos de construção da imagem do país, como os retratos do imperador D. Pedro II e da Imperatriz Tereza Cristina, feitos em cenários no interior do estúdio, onde a colocação de uma vegetação abundante pretendia comunicar a existência de uma “civilização nos trópicos”. Ainda sobre a construção dessa imagem de país civilizado, o autor resgata a história do Álbum de vues do Brésil, editado pelo Barão do Rio Branco, constituído por noventa e quatro imagens, sendo parte delas reproduções de fotografias e outra parte de desenhos litografados a partir de fotografias. Entre as imagens selecionadas para representar o Império do Brasil, nota-se a predileção pelas paisagens urbanas e naturais, com pouca presença humana, tampouco de índios e negros.

A terceira e última parte, que dá nome ao livro, é um alerta para questão da preservação do patrimônio fotográfico, que proporciona descobertas e inibe o esquecimento de períodos importantes da história. Outro ponto relevante diz respeito à própria interpretação desse tipo de documento, que não será neutra, visto que o historiador também possui suas concepções ideológicas, preconceitos e interesses, sendo preciso um esforço intelectual para compreender a realidade própria do objeto/assunto registrado, assim como da realidade que o envolvia no tempo e no espaço. Por fim, o autor compartilha uma constatação inquietante para os pesquisadores, a de uma realidade sintética, gerada por computação gráfica. Uma realidade que pode nunca ter existido, considerando as infindáveis condições de manipulação eletrônica das imagens, as já existentes e as que estão por vir.

*Historiadora, designer de interiores e mestre em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

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