Clássicos não saem de moda

Por Renata de Albuquerque*

O que é um livro clássico? Aquele que você foi obrigado a ler na escola, porque ia cair no vestibular, quando ainda não tinha maturidade nem experiência de leitura suficientes para entender a razão da importância daquela obra?

Clássicos são muito mais do que a obrigação de leitura escolar. São livros que conseguem, pela genialidade do autor, ressignificarem-se ao longo do tempo, falando ao leitor de cada época de maneira diferente – mas não menos impactante. É como se ele não se esgotasse jamais, como se mostrasse faces diferentes a cada leitura, como se permitisse ser redescoberto pelo mesmo leitor inúmeras vezes.

“Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira”, afirma Ítalo Calvino, em seu Por que ler os clássicos?.

Por isso, clássicos não são um assunto apenas de quem vai prestar vestibular. Os amantes da literatura voltam a eles de tempos em tempos, para beber de sua fonte inesgotável.

Um exemplo interessante é a interpretação de Dom Casmurro. Até 1960, quando Helen Caldwell lançou O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, ninguém colocava em dúvida a traição de Capitu. Depois do lançamento do livro – uma leitura feminista feita sobre bases teóricas então muito recentes – ninguém mais consegue ler o livro sem duvidar dessa traição. E é por isso que se diz que a discussão “traiu ou não traiu” é secundária. O primordial é a genialidade de Machado de Assis ao escrever essa obra prima, que é capaz de tomar outros rumos, ganhar novos significados, tornar-se diferentes metáforas, a depender do leitor que a relê.

Muitas vezes, a mesma pessoa lê o mesmo livro de formas diferentes. Não somos fixos, nos transformamos diariamente, evoluímos, mudamos nossa maneira de pensar. E, quando isso acontece,  somos capazes de ler de maneira diferente o mesmo livro a cada releitura.

Por isso, a Ateliê está voltando aos Clássicos. A editora criou uma seleção especial de títulos que têm a capacidade de instigar e provocar o leitor para muito além daquilo que se explicita em uma primeira leitura. Veja alguns exemplos:

 

 

 

Um Lance de Dados – Livro inovador que traz na poesia de Stéphane Mallarmé elementos visuais e gráficos até então quase desconhecidos para o público. Foi uma das inspirações da Poesia Concreta no Brasil.

 

Memórias de Um Sargento de Milícias – Outro clássico radicalmente inovador, que motivou Antonio Candido a escrever um ensaio que se tornou um clássico dos estudos literários: “Dialética da Malandragem”

Epigramas – Se hoje em dia o Twitter desafia o internauta a escrever em poucos caracteres, Marco Valério Marcial, ainda na Roma Antiga, já produzia uma poesia curta, objetiva carregada de ironia.

 

 

Electra – Eurípedes escreveu uma peça de teatro clássica que serviu de base para a construção de teorias freudianas que ajudam, até hoje, a entender a psique humana.

 

 

 

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*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, autora da Dissertação Senhoras de Si: o Querer e o Poder de Personagens Femininas nos Primeiros Contos de Machado de Assis.

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