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Os Sertões ganha reedição

A Ateliê acaba de lançar a 5ª edição revista e ampliada de Os Sertões. Segundo o professor Leopoldo M. Bernucci, responsável pela edição, cronologia, notas e prefácio, ela “é a única no mercado que oferece de modo abundante e detalhado” notas explicativas sobre a obra e seu contexto histórico. “Tivemos o cuidado de preparar um índice onomástico que acreditamos ser bastante útil para dilucidar muitas das biografias ligadas aos personagens e autores citados por Euclides. O índice remissivo não é menos proveitoso, pois auxilia na busca temática e onomástica com maior agilidade. Incluímos um prefácio nosso também que serve de introdução para os leitores apreciarem a diferentes linguagens que se entrecruzam em Os Sertões”, resume o professor na University of California-Davis, localizada em Davis, California (USA). A seguir, ele fala sobre o trabalho em entrevista para o Blog da Ateliê:

Quais os desafios de preparar uma edição de “Os Sertões”, um clássico brasileiro?

Leopoldo M. Bernucci: A complexidade inerente ao preparo de uma edição como a de Os sertões publicada pela Ateliê desde 2001 se observa no número e na qualidade de notas explicativas a um texto considerado até hoje “difícil”. O desafio maior neste caso, para nós, foi torná-lo minimamente acessível ao público leitor. De que maneira isto foi feito? Em primeiro lugar, contextualizando muitas das referências e alusões encontradas no texto; em seguida, levando os leitores às possíveis fontes de informação utilizadas pelo autor e, finalmente, oferecendo um glossário para o léxico algo hermético de Euclides da Cunha.

As razões para vencer tais desafios são de caráter principalmente técnico, pois o objetivo era apresentar ao público a atualidade de Os Sertões e explicar o seu caráter de obra “clássica”. Para tanto, basta mencionar aqui alguns aspectos do livro e remeter os leitores interessados por este assunto específico a um ensaio que publiquei há uma década  no livro João Alexandre Barbosa: O Leitor Insone. O ensaio se chama “Os sertões como um clássico”. Aclamado ao longo dos anos, depois de mais de um século de sua publicação, Os sertões sem sombra de dúvida é um clássico em todos os sentidos. É lido e relido por um público-leitor diverso, inclusive em muitas de suas versões traduzidas; tem influenciado uma série de escritores estrangeiros como José Eustasio Rivera (Colômbia), Mario Vargas Llosa (Peru), Sándor Márai (Hungria), e brasileiros como Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Paulo Dantas. A sua capacidade universalizante, ainda, faz com que o livro toque os nossos corações tanto pela narração dos fatos regionalizados (interior do nordeste do Brasil) quanto por aquela que, desbordando da esfera local, passa ao mundo da tragédia humana e dos sentimentos comuns e gerais a todos nós. Além disso, como grande clássico, Os sertões revela a consciência que esta obra tem de sua própria linguagem. Isto é, a linguagem euclidiana sinaliza direta e indiretamente as pulsações de sua presença e o valor de sua importância, não só como instrumento para narrar fatos, mas também como veículo de enorme poder de representação destes. Em síntese, é um livro de denúncia social de um dos maiores massacres ocorridos na história do Brasil e que está narrado com uma das mais belas e eficazes linguagens artísticas de todos os tempos.

Leopoldo M. Bernucci

A presente reedição foi revista e ampliada. O que ela traz de diferente da edição anterior?

LMB: Como fizemos com as demais, esta 5ª. edição revista busca aperfeiçoar e expandir o que havíamos feito antes. Isto é, além de preencher as lacunas deixadas nas edições anteriores, retocamos a biografia do autor com base nas últimas e contínuas pesquisas sobre a obra monumental de Euclides. Tal tarefa não é das mais fáceis, já que qualquer pesquisador sério tem que necessariamente enfrentar as dificuldades ligadas à investigação nos arquivos e bibliotecas. Referimo-nos ao fato de, ainda em pleno século XXI, nos depararmos com inéditos do autor que iluminam sobremaneira a sua biografia e obra. A leitura, organização e a interpretação desse material desconhecido implicam enorme esforço de revisão do que já foi escrito pela crítica.

 

No prefacio, é abordada a questão das diferentes linguagens de Os Sertões. Pode explicar muito brevemente a quem não leu ainda o prefácio quais são essas linguagens e por que são usadas?

LMB: Homem de ciências e letras, Euclides manejou como ninguém uma variedade de dicções que refletem o amplo espectro de saberes que ele possuía. Neste texto clássico da nossa literatura brasileira há um encontro fortuito de linguagens que se entrecruzam e que são particularmente específicas a certos tipos de livro, gênero literário, instituições e disciplinas: a Bíblia, a Geologia, o Exército, a Arquitetura, a Meteorologia, a Épica e o Teatro, para ficarmos com apenas alguns exemplos. Esse hibridismo linguístico, num primeiro momento visível no nível lexical, transforma-se depois em imagens homólogas no discurso euclidiano. Por exemplo, para explicar a formação racial no Brasil, nas Notas à 2ª. Edição, Euclides lança mão de uma comparação geológica com os três elementos principais do granito. Da épica, o nosso autor extrai as cenas de luta entre os soldados do exército e os canudenses, a descrição dos instrumentos de guerra, o heroísmo de alguns indivíduos (João Grande, o major Henrique Severiano), e a invocação homérica plasmada na frase Tróia de taipa para definir Canudos. Frases ou vocábulos como Anticristo, Canaã sagrada, arca da aliança e muitos outros estariam aproximando a linguagem bíblica da que procura configurar o mundo religioso de Canudos permeado de um Cristianismo antigo ou primitivo. Poderíamos prosseguir com mais exemplos, porém, fiquemos com esses três e convidemos os leitores a lerem o nosso Prefácio para observarem outras manifestações discursivas.

 

Quais as principais qualidades artísticas de Os Sertões que fazem com que a obra mereça ser lida ainda hoje?

LMB: Entre as mais destacadas qualidades artísticas do livro, estariam a extraordinária erudição de Euclides e a sua habilidade no uso da língua portuguesa transformada pelo seu talento de escritor em linguagem artística. Um grande autor como ele, não somente conhece a tradição da historiografia ou da literatura, mas como já afirmamos acima, exibe um notável conhecimento científico que termina casando-se perfeitamente com essa linguagem. Em resumo, neste famoso escritor, o consórcio entre ciência e arte, como Euclides gostava de assim definir a sua maneira de escrever, é perfeita. Com essa mistura de dotes artísticos, que tão bem caracterizam a sua forma de contar uma história, dando-lhe um significado profundamente épico e trágico, e enriquecendo-a de conhecimentos científicos, o nosso autor eleva a sua narrativa, principalmente sobre Canudos, a um nível máximo de qualidade estética, de argumentação retórica e de uma invulgar precisão no narrar dos fatos.

Já faz alguns anos o professor Alfredo Bosi definiu muito bem a qualidade imperecível que possui Os Sertões. Segundo ele, a atualidade desta obra está na ‘’inegável potência de sua representação”, ou seja no grande talento empregado pelo escritor na criação de sua linguagem artística. Diz ainda este arguto crítico, que Euclides foi mestre em “ler atrás do fato o seu contexto”, confirmando aquilo que sempre se verifica nele: um estudioso, de raciocínio lógico, dedutivo, guiado pela lei da causalidade. É um autor que, em última análise, quer e sabe questionar; e portanto, as suas arguições sempre buscam “superar fáceis esquemas ideológicos” emprestando assim maior vigor e complexidade às unidades caracterizadoras daquilo que ele procura entender. Litoral/sertão, branco/mestiço, ciência/superstição são alguns dos pares antitéticos que uma vez dialetizados por Euclides, saem da zona de conforto das oposições para se tornarem núcleos sintéticos de alta relevância para a compreensão da cultura e história brasileiras.

Conheça Leopoldo M. Bernucci

“Realidades e Ficções na Trama Fotográfica”: uma resenha

Por Carina M. F. Pedro*

 

A 5ª edição revista do livro “Realidades e Ficções na Trama Fotográfica” reúne textos adaptados de palestras proferidas nos anos noventa pelo fotógrafo e pesquisador Boris Kossoy. Sua leitura proporciona diversas reflexões sobre a fotografia e sua história, os processos que estão presentes na sua produção, a sua relação com a construção da memória e da imagem do Brasil como nação, assim como a importância de se preservar em acervos as imagens captadas pelos fotógrafos ao longo de décadas, a fim de servirem como fontes de pesquisa sobre uma época.

Na primeira parte do livro, “Construção e Desmontagem do Signo Fotográfico”, Kossoy apresenta os elementos que constituem a imagem fotográfica. Como “índice” a fotografia é uma prova que o objeto/assunto tangível ou intangível existiu de fato. Como “ícone”, por conta dos seus aspectos tecnológicos, o registro fotográfico é a comprovação documental da aparência e da semelhança que o objeto/assunto tem com a imagem. Apesar disso, a fotografia não deixa de ser um produto elaborado por meio de um processo criativo, no caso, do fotógrafo, que tem o seu próprio repertório técnico, estético e cultural.

O autor também retoma os conceitos de primeira e segunda realidades, de realidade interior e exterior. A primeira realidade é a história particular do objeto/assunto independente do registro fotográfico. O momento em que esse registro é feito também possui uma história que não está visível na fotografia, entendida como realidade interior. A segunda realidade é o objeto/assunto contido nos limites bidimensionais da fotografia, em dado espaço e tempo, que não se modificará mais. Temos acesso a essa realidade exterior que por ser fruto do imaginário do fotógrafo não representa necessariamente a verdade histórica, tornando-se um registro passível de muitas interpretações por parte do receptor, que também possui seus próprios filtros culturais, morais, éticos, entre outros.

Imagem de Guilherme Gaensly presente no livro

Na segunda parte do livro, “Decifrando a Realidade Interior das Imagens do Passado”, Kossoy trata do cartão-postal e de suas possibilidades como meio de correspondência e entretenimento muito utilizado na transição do século XIX para o XX. No Brasil, o autor destaca as imagens do fotógrafo Guilherme Gaensly, que registrou a cidade de São Paulo em um período de crescimento acelerado, devido à expansão da economia cafeeira. Tais registros rodaram o mundo através de cartões-postais, apresentando uma parte da cidade que propagandeava o modo de vida burguês das elites paulistas. Nota-se, assim, uma ausência de fotos de bairros operários da época e raros registros do comércio popular, alguns deles feitos pelo italiano Vicenzo Pastore.

Na sequência, são abordados outros exemplos de construção da imagem do país, como os retratos do imperador D. Pedro II e da Imperatriz Tereza Cristina, feitos em cenários no interior do estúdio, onde a colocação de uma vegetação abundante pretendia comunicar a existência de uma “civilização nos trópicos”. Ainda sobre a construção dessa imagem de país civilizado, o autor resgata a história do Álbum de vues do Brésil, editado pelo Barão do Rio Branco, constituído por noventa e quatro imagens, sendo parte delas reproduções de fotografias e outra parte de desenhos litografados a partir de fotografias. Entre as imagens selecionadas para representar o Império do Brasil, nota-se a predileção pelas paisagens urbanas e naturais, com pouca presença humana, tampouco de índios e negros.

A terceira e última parte, que dá nome ao livro, é um alerta para questão da preservação do patrimônio fotográfico, que proporciona descobertas e inibe o esquecimento de períodos importantes da história. Outro ponto relevante diz respeito à própria interpretação desse tipo de documento, que não será neutra, visto que o historiador também possui suas concepções ideológicas, preconceitos e interesses, sendo preciso um esforço intelectual para compreender a realidade própria do objeto/assunto registrado, assim como da realidade que o envolvia no tempo e no espaço. Por fim, o autor compartilha uma constatação inquietante para os pesquisadores, a de uma realidade sintética, gerada por computação gráfica. Uma realidade que pode nunca ter existido, considerando as infindáveis condições de manipulação eletrônica das imagens, as já existentes e as que estão por vir.

*Historiadora, designer de interiores e mestre em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

Conheça outras obras de Boris Kossoy

A leitura nas lembranças de infância de Marcel Proust

Maria Schtine Viana*

Sabe-se que a memória, tanto voluntária como involuntária, permeia toda  a criação literária do escritor francês Marcel Proust (1871-1922). Confinado em um quarto, quase sem contato com o mundo exterior, o conjunto de romances que recebeu o título geral  de Em busca do tempo perdido foi escrito a partir de suas recordações, como se a vida só tivesse sido vivida para ser posteriormente escrita.

São também fragmentos da memória de infância que Marcel Proust utiliza para escrever o ensaio Sobre a leitura, em 1906, três anos antes de dar início à realização da grande obra que o imortalizaria como romancista. Pode-se afirmar, então, que nesse ensaio já fica evidente a importância das recordações como base seminal de toda obra literária proustiana, escrita posteriormente.

O texto foi produzido originalmente como prefácio para uma das conferências proferidas pelo ensaísta inglês John Ruskin, em 1864, quando da criação da Biblioteca do Instituto de Rusholme, reunidas em livro intitulado Sésamo e lírios, obra traduzida por Marcel Proust. Isso talvez explique o teor bastante ufanista e didático do texto de Ruskin, que não por acaso usa a expressão “Abre-te Sésamo”, palavras mágicas utilizadas pelas personagens do conto Ali-bá-bá e os quarenta ladrões para abrir a gruta onde se escondiam preciosos tesouros, como uma analogia à importância da leitura na formação de crianças e jovens. A leitura seria, então, uma espécie de “Abre-te Sésamo” por meio do qual abrir-se-ia uma passagem secreta, que daria acesso a tesouros ainda mais valiosos que o ouro e a prata.

O escritor Marcel Proust

Portanto, faz todo sentido que para escrever seu prefácio Marcel Proust busque em suas lembranças de infância como leitor elementos não apenas para apresentar as ideias de Ruskin, mas para, em certa medida, debatê-las. As recordações de um dia de férias, desfrutado na casa dos tios-avós, rememoradas vinte anos depois, são o ponto de partida das reflexões proustianas. Por meio da memória, o escritor não apenas narra os fatos ocorridos, como também descreve com precisão três situações que mostram o menino que fora um dia a atuar como leitor.

Chamaremos de primeiro ato de leitura aquele que tem como cenário a sala de jantar. Cerca de duas horas antes do meio-dia, o menino Proust regozija-se com a ideia de ter para si como companhia durante a leitura apenas os objetos que compõem a mesa e como barulho somente o acalentador ritmo pendular do relógio. Alegria que dura pouco, os coadjuvantes entram em cena, quer seja a exigir uma resposta curta, como a dada à cozinheira; quer seja para perturbar com burburinhos o silêncio que reinava. Como se não bastasse, os que voltam mais cedo do passeio determinam que o horário da refeição, prevista para o meio-dia, fosse antecipado, obrigando o leitor a fechar o livro.

O segundo ato de leitura ocorre logo depois do almoço. O cenário agora é o quarto, espaço privado por excelência, para onde nossos olhos leitores são conduzidos na esperança ver o menino Marcel finalmente degustar as páginas que leva consigo. Todavia nada nos é revelado sobre o volume que tem nas mãos. Vários parágrafos são dedicados à descrição detalhada do ambiente, tendo como ponto de partida o desejo de fechar uma janela para ter mais privacidade. Além da minuciosa descrição desse quarto da infância, segue-se uma longa reflexão, bem ao estilo proustiano, sobre a importância do quarto, não deste quarto, onde poderíamos vê-lo a ler, mas outro, o imaginado, desprovido de intimidade, onde tudo inspiraria a criação.

Podemos chamar de terceiro ato de leitura aquele que acontece ao cair da tarde. O cenário agora é o parque, onde o pequeno leitor encontra refúgio em uma alameda. Distante de todos, nesse lugar aprazível, onde até a voz daqueles que gritam seu nome parece não conseguir alcançá-lo, a fruição literária poderia finalmente ocorrer. Todavia nossa atenção é levada habilmente para um outro tempo e lugar, de novo impera a imagem do quarto. Espaço não só de leitura, mas também de insônia. Diga-se de passagem, a dificuldade de dormir também é tema recorrente na literatura proustiana. Ali, e não na cena rememorada anteriormente, ao chegar ao fim da leitura de um romance, Proust nos apresenta algumas reflexões sobre a leitura propriamente dita, muito embora ainda não saibamos o título do livro que tanto o absorvera durante aquele longínquo dia de férias.

Portanto, todas as evocações da memória, inclusive as reflexões decorrentes dessas lembranças, que por sua vez também são reminiscências, são utilizadas para contestar a ideia geral de que a leitura teria um papel fundamental na vida das pessoas, teoria postulada por Ruskin. Assim sendo, as cenas de tentativa de leitura descritas durante um dia de férias foram usadas para demonstrar não a importância da leitura na formação do caráter, como defendido pelo crítico inglês, mas o quanto a encenação do ato de ler foi usado como estratégia para afastar o menino leitor que fora das experiências reais, que, portanto, deixaram de ser vividas. A angústia da busca pelo tempo perdido aqui já é latente.

O livro “Proust, Poeta e Psicanalista” analisa clássicos como “Em Busca do Tempo Perdido”

Se para Ruskin a leitura seria uma espécie de conversação com homens mais sábios do que poderíamos encontrar no mundo real, todo jogo de imagens criado por Proust quer justamente nos mostrar que a leitura o afastou do contato real com as pessoas amadas e que o trabalho do leitor começa quando se chega ao fim de uma obra. Nesse sentido, o que difere essencialmente o livro de um amigo, não é o fato de o livro conter muita ou nenhuma sabedoria, mas a maneira como cada leitor recebe e processa o texto lido a partir das próprias experiências de vida.

A grande maestria de Proust ao construir seu ensaio está justamente em nos conduzir como leitores, alimentando nossa curiosidade sobre o que afinal está o garoto a ler. O escritor nos faz espreitar a personagem por ele criado a partir de lembranças reais, em diferentes cenários, e adia, propositalmente, essa revelação. Portanto, não apenas o ato de ler é instaurado como uma espécie de performance nesse ensaio-prefácio, como habilmente o autor nos faz participar dessa espécie de jogo cênico, no qual não somos apenas leitores, mas também coadjuvantes, que durante a encenação tentam descobrir o que a personagem tentava avidamente ler.

A revelação só nos é dada depois das inúmeras encenações da tentativa do ato de leitura. Além disso, a terminar o livro, que na verdade fora um pretexto para afastá-lo das situações socias reais, constata ele ter sido vítima de uma armadilha, pois, com exceção de uma mera frase, que o fizera realmente ter uma espécie de iluminação, todo o resto do livro O capitão fracasso, de Théophile Gautier, não passava de um acúmulo de descrições chatas e irrelevantes.

William Shakespeare

O exigente leitor não esperava apenas uma história, mas sim que o grande sábio romântico lhe revelasse o que deveria pensar sobre outros escritores, como Shakespeare, Sófocles, Silvio Pellico ou Eurípides. Além do mais, queria ele que o autor lhe concedesse uma chave que pudesse ajudá-lo não apenas a compreender o mundo literário, mas também a tomar decisões práticas no mundo real.

Ao término do texto ficamos nós também à espera de uma resposta sobre para que serve realmente a leitura. Resposta que tampouco Proust realmente nos oferece. Mas por certo ao descrever essas situações de encenação do ato de leitura, na tentativa de provar que a leitura não substitui a experiência de vida propriamente dita, mas pode, como uma espécie de estimulante tirar alguns espíritos preguiçosos do estado de letargia, provocou em mim, não apenas profundas reflexões, como suscitou algumas memórias da leitora voraz que fui quando menina. Isso comprova uma das hipóteses defendidas neste ensaio-prefácio pelo escritor francês: a leitura é fundamental justamente porque o trabalho reflexivo realmente começa quando fechamos o livro.

Conheça mais sobre a obra de Marcel Proust

 

*Nasceu em Carangola, Minas Gerais. Viveu alguns anos de sua juventude em Belo Horizonte para estudar Artes Cênicas. Depois, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou durante muitos anos como editora. Atualmente, mora em Portugal e é doutoranda no Departamento de Estudos Estudos Portugueses, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Escreveu os livros Silêncios no escuro (Ateliê), História e Geografia do Nordeste (FTD), A lenda dos diamantes e outras histórias mineiras (Scipione), Festa no céu (Positivo), Asa da Palavra: literatura oral em verso e prosa (Melhoramentos), Um estudo sobre as obras clássicas de viagens e aventuras, Um estudo sobre as fábulas e os contos de fadas (Eureka), entre outros.

Conheça mais sobre a obra de Maria Schtine Viana