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Gramática integral e para todos

Mesmo quem gosta de estudar português nem sempre gosta de gramática. As preferências por vezes recaem sobre literatura ou redação, talvez porque gramática seja considerado um aspecto mais teórico e complexo da língua. É exatamente isso que o professor  Antônio Suárez Abreu procura desmistificar na Gramática Integral da Língua Portuguesa. A seguir, ele explica porque esta é uma gramática diferente:

Por que o título “Gramática Integral”?  Qual foi sua intenção ao dar esse título para a obra?

Antônio Suárez Abreu: Esse título surgiu pelo fato de minha gramática anterior ter sido denominada de Gramática Mínima.  Aquela gramática tratava apenas de temas essenciais para quem queria escrever bem, como concordância, regência, colocação, pontuação.  A atual Gramática Integral é completa.  Trata de Fonética e Fonologia, formação das palavras e estuda, de maneira mais aprofundada, cada uma das classes de palavra.

O subtítulo é “Uma Visão Prática e Funcional”. Pode explicá-lo aos leitores do Blog? Qual a razão desse subtítulo?

ASA: A gramática é prática e funcional, porque procuro mostrar para que serve tudo aquilo que se estuda numa gramática.  Um bom exemplo é a maneira como trabalho com os substantivos abstratos.  As gramáticas que existem no mercado, sobretudo as escolares, tratam esse assunto em três ou quatro linhas apenas, dizendo que os substantivos abstratos nomeiam ações, qualidades, estados e sentimentos fora dos seres a que pertencem, como viagem, beleza, estrago e amor.  Só isso!   Eu procuro mostrar que esses substantivos são derivados de verbos e adjetivos e têm uma importante função prática que é recuperar o conteúdo de uma frase anterior, na frase que vem depois.  Imagine que eu diga algo como:

 

O ECAD, em 2015, exigiu da produção da peça “Querido Brahms” – que usava músicas de alemães mortos no século XIX –  formulários preenchidos com o CPF ou o CNPJ de Johannes Brahms e Robert Shumann.   Essa exigência atrasou em dois meses a estreia da peça.

 

O substantivo abstrato exigência (derivado do verbo exigir), retoma, na segunda frase, todo o conteúdo da frase anterior.  Se eu quiser, posso também utilizar o substantivo abstrato insensatez, derivado do adjetivo insensato, dizendo:

 

O ECAD, em 2015, exigiu da produção da peça “Querido Brahms” – que usava músicas de alemães mortos no século XIX –  formulários preenchidos com o CPF ou o CNPJ de Johannes Brahms e Robert Shumann.   Essa insensatez atrasou em dois meses a estreia da peça.

 

Veja que, nessa segunda versão, além de retomar a frase anterior, eu uso o substantivo abstrato para julgar também a ação do ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos autorais), desqualificando-a.

Antônio Suárez Abreu

Sua abordagem na obra é sistêmica, colocando o uso da gramática em um contexto de uso. Pode explicar ao leitor que ainda não conhece o livro o que isso significa? 

ASA: Procurei mostrar ao leitor como, no uso da linguagem, as pessoas trabalham, de modo inconsciente, com processos cognitivos ligados ao corpo e aos sentidos, com destaque para as imagens.  Por que eu posso dizer algo como: Esses drogados são uma desgraça –  em que sujeito e predicativo são substantivos –  sem fazer concordância nominal?  Afinal, drogados está no masculino plural e desgraça, no feminino singular!  E por que não posso fazer o mesmo, dizendo algo como: Minhas irmãs são professor, se aqui também sujeito e predicativo são substantivos?   Bem, eu procuro mostrar que, se o falante não consegue formar em sua mente uma imagem de um desses termos ou dos dois, não há necessidade de concordância nominal.  Afinal, na primeira frase, embora possamos formar a imagem de drogados, não podemos formar a imagem de desgraça, que é uma palavra abstrata.  Já, na segunda frase, podemos formar tanto a imagem de irmãs quanto de professor; então temos de fazer a concordância, dizendo: Minhas irmãs são professoras.

 

Por falar em contexto de uso, as mensagens de texto em celulares e as redes sociais (principalmente o Whatsapp) fizeram surgir uma escrita diferente da normativa, cheia de abreviações e usos que estão longe do cânone tradicional.  O que você tem a dizer sobre isso? 

ASA: A escrita das redes sociais e a do Whatsapp costumam ser feitas – de modo abreviado ou não – no chamado registro informal, ou coloquial, que é diferente do registro formal, empregado quando fazemos uma conferência ou escrevemos um texto científico.  Um registro não interfere no outro.  Em tempos passados, muita gente também achava que a linguagem das revistas em quadrinho, fartamente lidas pelos adolescentes, influiria no uso da norma culta, coisa que nunca aconteceu.

 

O que o motivou a escrever esse livro? Quanto tempo demorou para escrevê-lo?  Qual foi o capítulo mais trabalhoso e complexo?

ASA: Há muito tempo que faço pesquisas em linguística cognitiva, apresento trabalhos sobre o assunto em congressos nacionais e internacionais e oriento dissertações e teses dentro dessa linha, no Programa de Pós-Graduação da UNESP.  Coordeno também, há uns oito anos, um grupo de pesquisa chamado Grupo de Pesquisa e Estudo em Linguística Cognitiva, cadastrado no CNPq, (o GEPELIC), com reuniões mensais e apresentação de excelentes resultados em encontros científicos.   Ano passado, estivemos presentes em congressos no Brasil, na Alemanha, e até mesmo na Croácia.  Todas essas pesquisas vêm sendo utilizadas com grande sucesso na modernização do ensino de línguas por mim e pelo meu grupo.

A ideia de escrever esse livro foi a de dividir com todos os colegas do país o resultado desse trabalho.  Fazer que as ideias criativas surgidas no decorrer de todas essas pesquisas possam servir para melhorar o entendimento e o ensino da língua portuguesa, a partir daquilo que já se está fazendo agora em países cujo nível de educação está a anos luz do Brasil.  Demorei mais de dez anos para finalizar o livro.  O capítulo mais trabalhoso foi o de Fonética e Fonologia, pois trata de um tema que o público costuma achar bastante indigesto.  Por isso, tive de procurar uma forma de linguagem mais simplificada e exemplos mais acessíveis.  Acho que o resultado ficou bastante bom.

 

Como foi a pesquisa para elaborar essa sua “Gramática”? Alguma outra gramática o inspirou ou ajudou-o a traçar o caminho para chegar no resultado desejado? 

ASA: Bem, eu acredito ter lido quase todas as gramáticas do português, daqui e de Portugal, até mesmo as mais antigas, como a do Jerônimo Soares Barbosa. Mas o que me inspirou mesmo foi a leitura de livros como The way we think, de Fauconnier e Turner, um clássico sobre integração conceptual, que me ajudou entender melhor por que podemos dizer coisas como Cenoura é bom para a vista, interpretando cenoura como um conceito e fazendo a concordância do adjetivo bom não com cenoura, mas com um evento implícito de que ela faz parte, numa frase como: [Comer cenoura] é bom para a vista.  Outras leituras que me ajudaram muito foram livros como Louder than words, de Benjamin Bergen, que trabalha com imagens, e Language, usage and cognitition da Joan Bybee, que trabalha com a questão das expressões formulaicas que nos fazem fazer perguntas como: Onde é que você guardou as chaves, em vez de simplesmente dizer: Onde você guardou as chaves.  A lista é enorme e inclui muitos dos meus trabalhos apresentados em congressos.

 

Por que, em sua opinião, essa é uma gramática diferente de outras?

ASA: É uma gramática diferente das outras, por dois motivos.  O primeiro deles é que, em vez de simplesmente copiar aquilo que havia de melhor nas gramáticas em uso no país, pude pôr em prática, ao descrever problemas gramaticais, estudos recentes que mudaram os paradigmas tradicionais de estudo da língua.  O segundo motivo é que procurei redigir meu texto em uma linguagem simples, bastante acessível, bem diferente do “juridiquês gramatical” que já se tornou padrão no país.

 

Conheça as obras de Antônio Suárez Abreu

Ainda há muito a ser feito em termos de economia da cultura

“Política Cultural e Economia da Cultura” reúne textos do sociólogo José Carlos Durand, escritos entre 1995 e 2010. Na obra, o autor discute a presença do Estado no domínio cultural, o profissionalismo na gestão, o patrocínio privado no financiamento de projetos, a crítica de arte e o papel estratégico das premiações, a necessidade de estatísticas e a importância da economia da cultura como disciplina que custa a se implantar no país. A seguir, ele fala ao Blog Ateliê sobre o tema da política cultural:

Seu livro traz textos entre 1995 e 2010. Nesses 15 anos, o que mudou na política cultural do Brasil, em sua avaliação?

José Carlos Durand: Cultura foi elevada ao nível de ministério, por Sarney, e logo em seguida dissolvida por Collor, com ódio dos intelectuais e artistas que o detestavam.  Sob o governo FHC, em 1995, aperfeiçoa-se e implanta-se um programa de incentivos fiscais logo alardeado como salvação da lavoura para um um setor tradicionalmente insignificante em orçamento.  A exaltação do neoliberalismo garante o clima de época necessário a abençoar a parceria público-privada implícita nos incentivos. A partir de 2002, com Lula, o setor é atingido por outra inflexão, agora com prioridade às culturas populares e ao revigoramento do ministério: concursos para recrutamento de quadros, transferência de unidades para Brasília, formação de colegiados para ajudar a gerir o MinC, etc. A verba total aumenta bastante, em valor absoluto e relativo.  Em estados e municípios importantes (ou nem tanto) começam a aparecer secretarias de cultura, apartadas da gestão da educação ou do turismo. Política cultural emerge, e se mantém por um tempo, como assunto de imprensa, tema de livros e revistas, cursos e conferências.  Aliás, há um cuidado conceitual no estudo de políticas públicas, não importa o setor. Cabe sempre distinguir, do micro ao macro, entre projetos, programas e, por fim, políticas culturais.  Na verdade, não distinguir apropriadamente os três níveis já postular, como início de conversa, que tal governo “não tem” política cultural é, em si, sinal de superficialidade e da pouca disposição em conhecer o que acontece por dentro da burocracia, no jogo entre política e administração.  Tão simplório quanto querer entender uma obra ignorando as relações entre o artista e o conjunto dos intermediários que ajudam a tornar seu trabalho socialmente visível e valorizado.

Vivenciei essa fase inteira como sociólogo de uma escola de administração pública e de empresas, a EAESP/FGV. Felizmente, esta sempre foi muito liberal em acolher propostas de pesquisa e de cursos em temas novos, desde que avaliadas e aprovadas por órgãos internos.  Assim foi com meus estudos em sociologia cultural, em toda liberdade e atrevimento de autodidata, acerca de artes visuais, arquitetura, moda, entre outros.  A FGV inclusive facilitou-me um pós-doutorado em Paris, onde pude conhecer de perto o trabalho de Pierre Bourdieu e sua equipe. Para quem não sabe, ele foi quem mais se destacou no último meio século, como analista das três lógicas a que a dinâmica cultural obedece, na moderna sociedade capitalista: a cultura de elite, a cultura industrial (ou de massa) e a cultura popular. Acontece que em cada lógica o dinheiro muda de sentido, e com ele, as práticas e a consciência dos agentes: ele é ritualmente negado como fundamento da prática artística na primeira, afirmado sem problema na segunda e ignorado na terceira por razões ancestrais que precedem o mercado e formação das elites.

Pierre Bourdieu

A moral da história é que, diante de tanta contradição, não pode haver política cultural ao mesmo tempo democrática e una, harmonicamente centrada em princípios efetivamente partilhados de valor estético, eficiência e justiça distributiva. Uma retórica ingênua e conciliadora poderia afirmar que o interesse comum e as responsabilidades do estado estão acima disso, e aí se fecha o discurso oficial. Mas o papel aceita tudo, embora a verdade muita vez passe ao largo. A experiência internacional em política de cultura aponta que ela surge para apoiar e consolidar a cultura de elite, construindo teatros, salas de concerto e museus, dotando verbas para mostras e apresentações e ampliação de acervos.  Lembra também que a modernidade, o desenvolvimento industrial e tecnológico e a disseminação do ensino ao longo do séc. XIX vão formando novos públicos, alimentando a reprodução de obras, até chegar às indústrias culturais globalizadas que temos hoje em dia. Acrescento que jamais ocupei qualquer posição formal em administração de cultura; nunca precisei falar ou escrever como ministro, secretário ou assessor disso ou aquilo; nem jamais procurei me esconder atrás de qualquer jargão científico. O resultado é que agora continuo tão à vontade como quando escrevi os artigos.

Quase uma década depois do texto mais recente compilado no livro, que aprendizado aquele período trouxe, em termos de política cultural? 

JCD: Essa questão, por excelência, deveria ser dirigida a pessoas que leram o livro com algum interesse e conheceram o meio cultural paulistano e carioca a ponto de lembrar as questões que nele se discutiam com mais frequência.   Não eram muitas, nem atraentes, em geral eram a respeito de leis de incentivo, como operá-las, como justificar sua razão de ser, como criticar suas restrições. Como autor, sou obrigado a confessar que muitas vezes agi com deliberado “espírito de porco”, como se as coisas que meus textos propunham estivessem de fato ao alcance do entendimento e da vontade do público ao qual implícita ou explicitamente eles se destinavam: gestores de cultura, mercadólogos, economistas, empresários patrocinadores, professores, artistas, etc. Foi minha forma de ser instigante, apontando tópicos que eram e que ainda continuam impensáveis para muita gente.

Por exemplo: incentivos fiscais. As quantias que eles mobilizaram para a cultura eram uma gota d’agua perto do oceano das cifras que, há mais tempo, no Brasil, vinham sendo atraídas para desenvolvimento regional, reflorestamento e outras tantas. O sucesso dos incentivos media-se pela habituação do contribuinte com a atividade incentivada de modo que ele continuasse aplicando nela mesmo depois de suprimida a vantagem fiscal que o governo oferecia. Ao comentar a questão entre gestores de cultura, a repercussão era quase nula, pois os obrigaria a pensar muito além do que estavam acostumados.

Quando se discutia a sequência da tramitação de um projeto aceito na área do mecenato, eram comuns queixas ou insinuações de favoritismos, reais ou presumidos, incompetência de avaliadores em linguagens estéticas em que deviam decidir, etc.

Nesses casos eu comentava: na mesma Esplanada dos Ministérios em que alguns comitês minúsculos e pouco experientes do MinC tentam discutir uma distribuição justa e merecida das pequenas verbas captadas pela Lei Rouanet há um outro setor em que o governo federal brasileiro gasta quantias muitas vezes maiores, financiando cultura com mais segurança e melhores resultados. E aí eu concluía, diante da hesitação e dos olhos em geral arregalados da maioria:  é na CAPES, entidade ligada ao MEC que avalia, aos milhares, projetos científicos encaminhados pelas universidades. Nunca houve, ao que me lembre, ninguém que levasse adiante o interesse em comparar o financiamento às artes e o financiamento à ciência, como se fossem dois mundos irreversivelmente distantes e incomunicáveis, e não simples alternativas de avaliar iniciativas de pessoas e grupos, a ser avaliadas em sua clareza, sua criatividade, sua viabilidade, com muita coisa em comum.

Outro ponto em que sempre insisti foi na necessidade de se dar boa formação a jovens economistas brasileiros que se interessem por economia da cultura. Na vastidão de nosso sistema de pós-graduação, em que anualmente se formam várias centenas de mestres e doutores em economia, não há um único programa ou curso ancorado em economia da cultura.

Por outro lado, na Europa Ocidental, em particular, essa especialização existe com tudo a que tem direito: revistas especializadas, reuniões periódicas, nacionais ou internacionais, cursos com professores economistas com bom currículo em pesquisa, ensino e assessoria, publicação de antologias e dicionários cobrindo grande variedade de tópicos, etc.

O assunto continua merecendo a atenção do Ministério da Cultura, ou de qualquer entidade com vocação e recursos para trazer ao Brasil, em forma de curso para um pequeno público, um pouco da boa economia da cultura lá disponível. Fiz minha parte editando pela Ateliê o livro introdutório de boa qualidade que é A Economia da Cultura, de Françoise Benhamou, em 2007.

 

O que foi abandonado em termos de política cultural que deveria ser retomado, em sua opinião?

JCD: Vou dizer pelo que nunca foi feito:

  1. uma observação correta e sistemática a ser feita pela política cultural pública do fluxo de premiações artísticas no Brasil: exemplo: quantos concursos literários, onde, de que âmbito e com quais modalidades, meios de divulgação e número de concorrentes. O que a imprensa comenta a respeito de seus veredictos, qual o impacto na carreira do escritor. Justificação: prêmios são importantes meios de reconhecimento/atribuição de valor. Embora o órgão que promove cada um tenha autonomia a ser respeitada, o conhecimento dessa rede é fundamental na possibilidade de uma radiografia da cultura erudita (no exemplo, a ficção literária).
  2. As análises econômicas de setores culturais com potencial de fortalecimento via apoio estatal, como foi feito pelo BNDES em relação ao cinema, ao livro, ao disco etc. Foram estudos de qualidade, úteis e que merecem atualização. Idem a construção da Conta-Satélite da cultura, metodologia que permitirá aferir o valor econômico gerado pelo setor e compará-lo ao de outros países. A produção discreta de bons indicadores é pré-condição para o desenvolvimento de uma verdadeira economia da cultura, deixando de lado a ideia de que uma “economia criativa”, vazia de conteúdo, mas impregnada de charme, será instrumento algum dia um terreno útil para ajudar na tomada de decisão.
  3. Outra abordagem econômica que não se sabe se está sendo desenvolvida, é a de localizar cadeias e arranjos produtivos culturais locais, técnica para mapeamento de complementaridades produtivas e comerciais capaz de ajudar, entre outros usos, no desenho de circuitos turísticos mais ricos.

Conheça o livro “Política Cultural e Economia da Cultura”

Conheça o livro “Economia da Cultura”

 

Leia um trecho da “Gramática Integral da Língua Portuguesa”

Esta gramática de Antônio Suárez Abreu se destina a todos aqueles que gostariam de conhecer melhor a maneira como funciona a língua portuguesa e resolver dúvidas sobre concordância, regência, ortografia, colocação etc., por meio de respostas simples, escritas em linguagem clara, despidas de complicações ou erudições. Por isso, esta gramática é útil tanto para alunos do ensino fundamental e médio quanto para quem cursa ou já cursou universidade e quer ter segurança ao escrever um e-mail, um relatório, uma apresentação, uma tese acadêmica, uma petição ou até mesmo um livro de ficção.

 

Amostra Gramática Integral

Moleque de fábrica: a realidade de quem trabalha desde a infância

Por: Renata de Albuquerque

“Moleque de Fábrica”  é uma história dos sem história, a história ilógica dos seres humanos provisórios e transitórios da modernidade, da crise invisível do mundo do trabalho, da felicidade demarcada pelo abrupto de rupturas e de incertezas”, define José de Souza Martins, sociólogo,  Professor Titular e Emérito de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP. O livro, autobiográfico, conta sua infância e adolescência operárias. Ele conversou com o Blog da Ateliê sobre a obra:

 

Como foi a seleção dos assuntos, temas e episódios que fazem parte da obra?

José de Souza Martins: Não fiz uma seleção de assuntos, até porque não havia muito a selecionar. Vida de pobre e de trabalhador é, via de regra, uma vida enxuta, sem ocorrências espetaculares. Nada na vida do trabalhador se enquadra na categoria dos grandes acontecimentos sociais, históricos, políticos. O operário é o ser humano condenado ao repetitivo da linha de produção. A linha de produção se repete também nos outros âmbitos de sua vida, na vida doméstica, familiar, escolar, de lazer. Começa que, como no processo de trabalho, tudo tem horário, dominado e regulado pela fábrica. Sua vida é a do tempo dos minutos, o tempo linear da repetição. Seus diferentes momentos são iguais. O trabalhador é o produto de um processo econômico e histórico que é reprodutivo. Ele próprio é uma reprodução, recriação modificada do que foi seu pai e foram seus avós. Mas, ainda assim, o mesmo. A produção fabril gera, portanto, uma mentalidade, um modo de vida. Assim, o tempo do livro é o tempo da mesmice. Aas próprias diferenças no interior das circunstâncias peculiares são subjugadas pela repetição.

 

O sr. escreve que a sociologia peca por ter sucumbido a uma visão adulta da vida. Por quê?

JSM: Os parâmetros para descrever e explicar a vida das pessoas são parâmetros da vida adulta, os daquilo que conta na existência de cada um. As pessoas não nascem para ser crianças. Nascem para não ser crianças. Boa parte de minha narrativa, nesse livro, é para propor uma compreensão daquilo que fui não sendo, como ocorre com todas as crianças e adolescentes. Tanto a socialização dos imaturos quanto sua educação destinam-se, justamente, a converter a criança em adulto no menor tempo possível. Isso é claro na classe operária. Em minha geração, as crianças nasciam para o trabalho, para aquilo que as definiria como adultas. Meia hora depois de eu ter nascido, meu pai me pegou no colo pela primeira vez e avisou toda a família reunida ao redor do meu leito de nascimento e determinou que eu faria a escola primária até os 11 anos de idade e, em seguida iria trabalhar na carpintaria de seus primos para aprender a profissão de carpinteiro. Com 30 minutos de vida meu destino já estava traçado e minha infância devidamente demarcada e abreviada. Infância, no sentido pleno da palavra, era e é coisa de gente rica.

A sociologia trabalha com os temas que contam, isto é, com os da condição de adulto: estruturas sociais,

processos sociais, significações, funções sociais. Pouco disso tem a ver com criança.  O que permanece e não aquilo que acaba no âmbito da brevidade da condição de imaturo. Os temas da maturidade, os que contam na continuidade da sociedade e não os que dessa continuidade discrepam, como os da infância.

No entanto, a infância é o repositório da memória, isto é, dos momentos e das concepções provisórias da imaturidade, do não ser, de quem ainda não é. A memória do que não foi, daquilo que permite ver e compreender em outro parâmetro aquilo que veio a ser, o triunfo do repetitivo e da reprodução na socialização das crianças. A memória é a referência que faz com que os que não contam vejam criticamente o que a sociedade é, o que nela falta, o inacabado e o usurpado. Ignorar a realidade social

 

da criança e do adolescente, como referência para compreensão da realidade social do adulto, empobrece e limita a sociologia e a compreensão sociológica da sociedade em que vivemos. Está não é apenas uma sociedade de adultos. É também uma sociedade de crianças e de adolescentes.

O período histórico que o livro abrange é bastante longo e intenso. Quais foram, para sua história (e, consequentemente, para o livro) os momentos mais marcantes?

JSM: Os momentos mais marcantes são os momentos não marcantes, os que reiteram a insignificância da personagem biografada. Crianças e adolescentes não são personagens marcantes. O que em suas vidas é marcante não lhes pertence nem lhes diz respeito. O que é marcante na sociedade dessa biografia é dos adultos e poderosos. O período de referência do livro é o da nulificação histórica da criança que trabalha e, de vários modos, também do trabalhador adulto. A sociologia resgatou teoricamente a dimensão criativa da práxis do operário, é o que o faz personagem marcante da história social. Mas frequentemente deixa de lado a contradição necessária à realização dessa historicidade que é do repetitivo e do cotidiano que dele decorre.

O autor e seu irmão, em foto de 1944

O sr. escreve que “aos olhos dos biógrafos e dos intelectuais há um certo triunfo pessoal em deixar de ser operário, como se essa condição social fosse uma maldição”. Em seu caso, ao contrário, a condição operária foi acolhida, transformada, ressignificada dentro de sua obra. Como foi esse processo, de descoberta de que “minha história pode se transformar em um livro”?

JSM: O que pesou muito na escrita do livro foi que diferente de tudo que se diz, sobretudo nas ciências sociais, a sociedade do bairro operário em que nasci e cresci e as fábricas em que trabalhei não era a sociedade de lugares em que as pessoas se sentissem infelizes pelo fato de que seu mundo fosse o mundo operário. As crianças e adolescentes eram mandadas para a fábrica pelos pais, para serem operárias. Os heróis de minha rua eram operários. Nós brincávamos de trabalhar, usando as ferramentas que toda casa tinha para fazer nossos próprios brinquedos, juntos, na calçada, com matéria-prima achada no lixo. População majoritariamente originária da roça, o mundo fabril exercia sobre ela um imenso fascínio: salários maiores, vantagens inimagináveis no campo, como o abono de natal, as férias. “Ter futuro” era ser operário. Isso explica a reação de minha mãe quando lhe comuniquei que estava saindo da fábrica para estudar e ser professor. Trouxe-me os papéis para que eu me aposentasse como inválido.

Minha disposição para escrever o livro tem muito de reação à mentalidade de classe média que frequentemente domina os estudos sociológicos e políticos sobre a classe operária. Eu quis produzir um documento vivencial, antropológico sobre a realidade sociológica da condição operária. Mesmo nas orientações de esquerda há muito de fantasioso sobre a condição de trabalhador que é aí um trabalhador sem contradições, de desencontros, de descontinuidades, de certezas temporárias, a esperança de horizonte nebuloso, de riso e pranto.

Pessoas que passam de crianças a adultas, o crescimento como avanço harmonioso da biografia, sem rupturas nem sobressaltos, não podem perceber isso. A suavidade do percurso tinha, naquela época, reconhecimento numa cartilha da escola primária, muito popular, cujo título era Caminho Suave. No entanto, especialmente em famílias que migravam e migram da roça para a cidade, como a minha, e, depois, se debatiam com os obstáculos de alienação, de aprendizado e de socialização na vida fabril, não havia nem há suavidades e evoluções. Há rupturas, descontinuidades, abismos a vencer, desde o jeito de comer e do que comer, até o jeito de falar e de pensar.

O autor com a mãe e o irmão, em 1948

Relatar a infância trabalhadora, principalmente de forma autobiográfica, é pouco usual. Por que resolveu usar esse recorte em seu livro?

JSM: Porque sou isso. Meu irmão é isso. Meus antigos amigos e colegas de trabalho eram isso. Isso é tudo que tenho para contar, é meu patrimônio biográfico: uma infância de trabalhador. A infância ignorada e desconhecida dos estudos sobre a infância e dos estudos sobre a classe trabalhadora.

O tema do trabalho infantil poderia parecer autocomiseração ou mesmo despertar “pena” no leitor. Mas isso não acontece. Evitar esse tom foi uma escolha consciente? Como o senhor conseguiu chegar a esse resultado?

JSM:  Trabalhador não tem pena de si mesmo nem tem porque tê-la. Quando tem pena, como se vê em alguns ex trabalhadores que hoje fazem política, é fingimento, teatro. Mau teatro. O lado mais rico e belo de suas vidas é, justamente, o de quando estavam na linha de produção, envolvidos no fascínio de transformar matéria-prima em coisa útil, um trabalho criativo, os relacionamentos do encontro que é próprio da fábrica e único.

Cheguei ao livro porque apenas narrei, contei, como me pediram minhas filhas que o fizesse. Lembrei-me de minha avó paterna, a Mãe Maria, como a chamávamos, que era analfabeta e, ao mesmo tempo, uma excepcional contadora de histórias. Para ela, a narrativa verbal da vida tinha estilo.

O autor no curso secundário noturno (1956), pago pela fábrica

Na conclusão do livro, o sr. cita o fato de que a luta da classe operária que é retratada, em geral, é uma luta “iluminada” e que há pouco registro de histórias operárias porque a literatura não consagra esse tipo de abordagem. Nesse contexto, como foi o trabalho de escrever “Moleque de Fábrica”? Houve uma preocupação em tornar a história “mais atrativa” em algum momento?

JSM:  Houve apenas a preocupação de não cair na cilada e na tolice de fazer do livro uma falsa história do “melhor de mim mesmo”. Não era necessário tornar a história mais atrativa porque a narração da vida é sempre atrativa, pelo bom e pelo ruim. Se nessa história há um final feliz, não é ele a chave da narrativa, pois marcada por momentos infelizes. Há no livro uma epistemologia dos momentos em confronto com a precedência epistemológica de que biografia é uma história pessoal demarcada por uma conclusão feliz ou heroica, o pressuposto do fecho, do finalmente, que tende a marcar histórias pessoais numa sociedade como a nossa.

Moleque de Fábrica é uma história dos sem história, a história ilógica dos seres humanos provisórios e transitórios da modernidade, da crise invisível do mundo do trabalho, da felicidade demarcada pelo abrupto de rupturas e de incertezas. Minha história é uma história do entretanto, próprio dos que nascem para o trabalho e para viver as incertezas do trabalho em terra alheia e do trabalho em fábrica alheia, a dos que não nascem nem vivem para si mesmos. O oposto das histórias triunfais. Na vida subjugada pela linha de produção, só o lucro triunfa, só a coisa não a pessoa. Sobram as migalhas que alimentam a vida de gente como eu e a insurgência intelectual dos que como eu puderam e podem ver o mundo através das frestas e por esse meio descobrir a eficácia revolucionária da insignificância.

Ainda sobre esse assunto: enquanto escrevia o livro, os dramas retratados a partir de sua memória pessoal lhe pareceram uma boa matéria-prima literária dentro desse contexto mais “tradicional” ou o sr. percebia que estava produzindo algo novo, com força de ineditismo?

JSM: Só me propus a escrever o livro porque convencido de que a narrativa seria original e inédita. Porque o contraponto da fábrica, desde minha infância, me mostrava que nem eu nem as pessoas iguais a mim correspondiam ao que diziam que as pessoas eram e são: nem o padre na missa, nem o pastor na igreja, nem a professora na escola nem os que gostam de mandar nos outros em todos os lugares. Eu podia ver o que outros não viam. Minha memória me dizia e ainda diz isso. Na Universidade isso ficou claro para mim. Já nos primeiros dias de convivência com colegas e professores era evidente que eles julgavam saber tudo o que era a classe trabalhadora, o que não coincidia com o que eu, meus parentes, meus vizinhos, meus amigos havíamos sido e continuávamos sendo. A arrogância e o desprezo da classe média acadêmica me mostravam a mim mesmo como um documento vivo da história social. O alienado movimento estudantil de 1968 na Faculdade de Filosofia da USP me convenceu da importância documental da minha diferença vivencial. Eu tivera o privilégio de viver e conhecer o que o mundo desdizia do conhecimento formal. Eu sou a consciência do entretanto, do vir a ser, dos textos que não foram escritos, do silêncio que lateja nas entrelinhas da história social dos simples, a história do vivido e do inexplicável. Moleque de Fábrica é uma confissão explicativa.

 

Conheça o livro Moleque de Fábrica – Uma Arqueologia da Memória Social