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“A Batalha dos Livros não acabou”, diz Lincoln Secco

Em A Batalha dos Livros, Lincoln Secco, professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo, analisa a formação da esquerda no Brasil. Segundo Marisa Midori Deaecto, a obra “constitui um capítulo dessa guerra universal contra o analfabetismo e o obscurantismo que engessam as civilizações, mantêm as desigualdades e protegem as injustiças”. A seguir, ele fala sobre o volume recém-lançado:

 

 

O título do livro remete a um embate ideológico já na formação da esquerda no país. Isso ocorre de fato? Como se dá esse embate?

Lincoln Secco: Eu tento mostrar em primeiro lugar que o Brasil não esteve defasado em relação às correntes europeias de pensamento, apesar do analfabetismo e da precária infraestrutura  intelectual (ausência de editoras, universidades, escolas, partidos). Aqui, a díade direita versus esquerda se estabeleceu cedo e podemos acompanhar isso pela batalha de ideias que se deu através dos impressos (jornais, livros, cartazes, revistas etc).

 

A Batalha dos Livros. A Formação da Esquerda no Brasil é um título que dá a dimensão da importância do conhecimento formal para a chamada “esquerda”. Como se deu essa formação política e ideológica no país, se tomarmos o livro como ponto de partida?

LS: A esquerda cometeu muitos erros políticos e de formação doutrinária. Mas ainda assim, sempre esteve comprometida com a formação de seus membros e do seu público. Podemos criticar este ou aquele conteúdo, mas não o esforço hercúleo de escrever, traduzir, ler em voz alta, formar grupos de estudos, dar aulas, alfabetizar e editar sob a mais dura repressão governamental.

Quais são os principais marcos dessa história de formação?

LS: É inegável que o Partido Comunista foi a principal organização de difusão de ideias da esquerda até 1964. Os anos 1950, especialmente, serviram para que o PCB montasse uma rede invejável de editoras, gráficas semi clandestinas e jornais de circulação diária em várias capitais brasileiras.

 

Entre o fim dos anos 60 e início da década de 1980, parece ter sido um momento agregador para a esquerda, que já estava unida, de certa forma, contra a ditadura. Os livros também tiveram papel aglutinador? Todos liam os mesmos livros “clássicos” ou cada grupo tinha “seus livros de cabeceira”, do ponto de vista intelectual?

LS: Os grupos tinham e têm suas preferências. Dificilmente um comunista estaria interessado na biografia de Trotsky escrita por Isaac Deutscher, já que se tratava de um autor adversário de Stalin. Da mesma forma os livros sobre a guerra civil espanhola em sua maioria interessaram aos trotskistas e anarquistas. Nos anos 1980 há, no entanto, uma pluralidade maior de publicações e linhas editoriais. Isso teve muito a ver com a emergência do PT. Como eu mostrei em outra obra (A História do PT), este partido apresentava quase uma forma federativa, pois surgiu de baixo para cima, a partir dos núcleos de base. E isso lhe deu uma diversidade regional e política muito maior do que qualquer outra agremiação política da história do Brasil.

 

Em sua opinião, esse momento aglutinador ainda existe? De que maneira há uma “batalha de livros” que impacta nesse contexto?

LS: O momento é outro. De derrota e dispersão. Houve o golpe parlamentar que derrubou o PT, mas levou a um governo que atacou todas as conquistas trabalhistas e contribui para fragilizar a base social não só petista, mas da esquerda em geral. Mas, ao mesmo tempo, os anos do PT no governo suscitaram novas sínteses críticas no pensamento brasileiro. A isso eu atribuo o debate sobre o lulismo, o interesse por uma releitura crítica da história do PT, os estudos da dinâmica de uma classe trabalhadora fragmentada, o papel político das classes médias etc. Há também artigos seminais escritos por jovens sobre junho de 2013 e ainda temos o reaparecimento de um cinema nacional em diálogo com a nova realidade do país. E os livros permanecem em meio à internet e às novas bases de informação. E continuam sendo perseguidos também. A Batalha dos Livros não acabou.

“Existe um estilo brasileiro de desenhar capas, inconfundível aos olhos do observador atento”

A Capa do Livro Brasileiro  percorre 130 anos de História

Por Renata de Albuquerque

O bibliófilo Ubiratan Machado demorou quatro anos para compilar 1700 capas coloridas na obra A Capa do Livro Brasileiro, um amplo e profundo estudo sobre o assunto. O volume, coeditado por Ateliê Editorial e SESI-SP editora, percorre 130 anos de História, analisando também aspectos técnicos dessa produção. Para o autor, que usou como fonte de pesquisa a própria biblioteca e bibliotecas de amigos, as capas brasileiras têm um estilo próprio. A seguir, Machado fala sobre a obra:

Como se deu a escolha do período (1820 -1950)? Qual a razão desse recorte? Porque não iniciar antes ou encerrar em tempos mais recentes?

Ubiratan Machado: Quando iniciei as pesquisas, a idéia era contar a história da capa do livro brasileiro até os nossos dias. Mas, o material acumulado se tornou tão grande, que resolvi me deter no início da década de 1950. E por que 1820? Simples. Até então, os livros saiam das tipografias tendo como primeiro elemento visual a folha de rosto. Os  livreiros ou os clientes tratavam de encaderná-los. Naquela década, alguém teve a idéia de lançar a capa de brochura, com papel mais encorpado e resistente do que o miolo, reproduzindo a folha de rosto. A intenção era de proteger o miolo do livro. Com o tempo, a capa foi se enriquecendo e se distinguindo da folha de rosto, ganhando requintes gráficos e tornando-se um elemento de atração do leitor. A história começa aí.

As primeiras capas reproduziam as folhas de rosto dos livros

Quanto tempo demorou desde a pesquisa até o lançamento do livro?

UM: A idéia do livro era antiga, mas eu não me animava a começá-lo. Em certa ocasião, conversando com o Plinio Martins Filho, então editor da Edusp, ele me disse que, se eu fizesse o livro, ele o editaria. Entre essa conversa e a conclusão da obra se passaram cerca de quatro anos, com muitas surpresas, muito motivo de alegria e, por vezes, de saturação.

Que aspectos (gráficos, de diagramação, cores etc) você privilegiou ao abordar o assunto?

UM: As capas foram selecionadas segundo critérios estéticos, sobretudo nos capítulos dedicados a cada artista, mas também por sua importância na evolução histórica, em seu impacto no momento de publicação, representatividade de um momento das correntes estéticas (expressionismo, modernismo, art déco, art nouveau etc.),  pensamento brasileiro  expresso pelo artista etc. Assim, se encontram lado a lado, em convivência harmoniosa capas artísticas e kitch, para frisarmos os extremos. Mas, sendo bom lembrar que algumas dessas capas kitsch são deliciosas, em sua ingenuidade ou até mesmo em sua incompetência. Elas também representam um aspecto importante da história.

O capítulo 12 assinala a revolução das cores nas capas de livros brasileiros. Qual o impacto dessa “revolução”?

UM: A introdução da cor na capa do livro brasileiro foi gradual, iniciando-se ainda no século XIX. O importante foi a revolução ocorrida ao redor de 1917, com a intensificação das cores – cores fortes, chamativas, bem ao gosto do brasileiro,  – aliada à representação pictórica. É o momento de Monteiro Lobato,  um dos principais renovadores da capa do livro brasileiro, mas não o primeiro, como se crê. Ele  se aproveitou, com muito discernimento e competência, do momento. O bonde já vinha embalado, ele o tomou em movimento.

Capa de Guilherme de Almeida para Paulicéia Desvairada: “manual de tintureiro”

Além da “revolução da cor”, o que mais pode ser considerado “marco” na história das capas de livros brasileiras?

UM: Como toda história essa é uma sequência de realizações, em consonância com o momento social e artístico, e a luta permanente entre conservadorismo e renovação. Cada fase tem os seus marcos, seja por representar um momento de tensão ou de revelação, mas sobretudo pela qualidade artística. Selecionar as melhores capas de cada fase não é tarefa fácil, mas algumas, pelas circunstâncias, se tornaram paradigmáticas. Como a capa de Guilherme de Almeida para Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade, que um crítico azedo da época comparou com um  manual de tintureiro.

 

 

Alguns artistas consagrados, como Santa Rosa e Di Cavalcanti, também foram capistas. O que os motivou a trabalhar nessa atividade? Criar capas foi um desafio para eles? Essas capas podem ser consideradas obras de arte?

UM: Alguns dos maiores artistas plásticos brasileiros se dedicaram a elaborar capas de livros, por interesse pela atividade, por compensação financeira ou por pressão de amigos escritores, desejosos de valorizar seus livros com o trabalho desses artistas. Alguns, se tornaram capistas no sentido pleno do termo, como Di Cavalcanti, Enrico Bianco e Clovis Graciano, para lembrar apenas alguns nomes. Outros, foram capistas bissextos, como Portinari. Cada caso é um caso. Há também o inverso: aqueles que foram basicamente artistas gráficos e pintaram como atividade secundária. Caso de Santa Rosa, renovador do livro brasileiro, o capista mais importante dos anos 1930 até sua morte, em 1956.

Pode-se dizer que há uma “escola brasileira” de capas, com características singulares do nosso país? Quais as influências ou inspirações dos capistas brasileiros, de maneira geral?  

UM: Existe um estilo brasileiro de desenhar capas, inconfundível aos olhos do observador atento, como existe uma maneira brasileira de viver, de se relacionar etc. Aldemir Martins dizia que numa exposição de pintura de nu feminino, quando o artista era realmente brasileiro, ninguém ia confundir sua pintura com a de um equatoriano, um francês ou um norte-americano. O importante é que a capa do livro brasileiro é tão boa quanto a de qualquer país.

Conheça a obra de Ubiratan Machado

Lincoln Secco lança “A Batalha dos Livros. Formação da Esquerda no Brasil”

Marc Bloch afirmou que, no desenvolvimento de uma disciplina, há momentos em que uma síntese, mesmo que pareça prematura, é mais importante do que várias monografias de análise. Isso porque, por vezes, é mais importante enunciar as questões principais, do que resolvê-las todas. A habilidade enunciada pelo historiador dos Annales é uma das muitas qualidades da nova obra do professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo, Lincoln Secco, cujo estilo ensaístico e sintético já foi visto no grande sucesso da produção historiográfica, História do PT, que atingiu a quinta edição em poucos anos.

A Batalha dos Livros. Formação da Esquerda no Brasil nos fala sobre mais de um século e meio de história das relações entre as esquerdas e os livros – grande parte deles perseguidos por terem sido considerados perigosos. O subtítulo pode ser lido de duas maneiras. O termo “formação”, que estampou algumas das obras mais importantes do pensamento social brasileiro, confere sentido ao objeto estudado. Partindo do ponto de vista histórico, ajuda-nos a compreender a formação da esquerda brasileira em sua atual configuração. Não apenas da esquerda, mas todo o campo da política no Brasil.

O outro sentido que assume o subtítulo desvela o conteúdo original do texto em relação à historiografia das ideias socialistas e do movimento operário. Conectado ao título, A Batalha dos Livros, aponta-se a formação da “infraestrutura intelectual” dos partidos e movimentos de esquerda e a formação dos militantes. Lincoln Secco busca em sua obra jogar nova luz sobre os aparatos de formação política e ideológica: editoras, livrarias, bibliotecas, escolas de quadros, jornais, revistas, livros etc., temas os quais o historiador e bibliófilo de esquerda, Edgard Carone, estudou pioneiramente nos anos 1980, mas cujos desdobramentos vêm criando especiais frutos apenas nesta década.

O autor assinala que um dos sentidos menos estudados da prática de esquerda no Brasil foi seu aparato de formação política e ideológica, demonstrando o fio que conduzirá a trajetória da esquerda narrada no livro. Com os subtítulos que dividem o prefácio, “ciclos políticos do livro” e “depois de 1964”, o autor antecipa os contornos gerais da periodização seguida nos capítulos do livro: iniciando com as primeiras leituras socialistas e anarquistas, passando pelo período de afirmação e posteriormente de hegemonia da produção ideológica comunista; chegando então à ruptura ocasionada pela repressão ditatorial, que iniciará um novo ciclo político da história do livro de esquerda. Tal história passará pelos anos 1980, quando a maior parte da esquerda unir-se-á sob uma formação partidária, o Partido dos Trabalhadores, desembocando no período atual, marcado pelo surgimento de novas formas de circulação das ideias.

As 240 páginas do livro estão divididas em cinco capítulos, além de um prefácio, uma conclusão e um apêndice que apresenta uma série de dados sobre a atividade editorial das esquerdas e levantamentos sobre estimativas de membros e simpatizantes de partidos e outras organizações de esquerda no Brasil, os quais apontam os leitores potenciais da literatura socialista. A Batalha dos Livros. Formação da Esquerda no Brasil vem a lume como referência incontornável para a história intelectual e para a história dos livros e da edição, além de se inscrever no vasto nicho da história política, abrindo todo um campo de investigação na historiografia brasileira. É obra necessária e sem igual para a compreensão de nosso país.

Conheça as obras de Lincoln Secco