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“Epigramas”: seleta de poemas satíricos e pornográficos da Roma Antiga

Escrever em poucos caracteres para passar uma mensagem assertiva é algo popular desde a criação do Twitter, há pouco mais de dez anos. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos, por poetas como Marco Valério Marcial, para fazer poemas cômicos, pornográficos e de crítica social. Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso), é autor dos “Epigramas”, edição bilíngue traduzida por Rodrigo Garcia Lopes e recém-lançado pela Ateliê. Confira a seguir alguns desses pequenos mas cortantes poemas:

 

I

Você já leu, pediu, aqui está ele:

Marcial, famoso em todo o mundo

por seus argutos livrinhos de epigramas:

Leitor fã, você lhe deu em vida

a glória que a uns poetas é concedida

apenas quando viram cinzas.

Hic est quem legis ille, quem requiris,

toto notus in orbe Martialis

argutis epigrammaton libellis:

cui, lector studiose, quod dedisti

viventi decus atque sentienti,

rari post cineres habent poetae.

 

L

Você é um velho, é o que Taís repete. Ninguém é velho pra receber boquete.

 

Quid me, Thai, senem subinde dicis?

nemo est, Thai, senex ad irrumandum.

 

 

XXIII

Para jantar, Cota, você só chama

seus companheiros de banho.

Surpreso em nunca ser convidado?

Não, você já me viu pelado.

Invitas nullum nisi cum quo, Cotta, lavaris

et dant convivam balnea sola tibi.

mirabar quare nunquam me, Cotta, vocasses:

iam scio me nudum displicuisse tibi.

 

XXIX

O povo anda dizendo que você, Fidentino,

recita meus livrinhos como se fossem seus.

Se for falar que são meus, te envio grátis.

Se seus, compre, pra que meus não sejam mais.

Fama refert nostros te, Fidentine, libellos

non aliter populo quam recitare tuos.

si mea vis dici, gratis tibi carmina mittam:

si dici tua vis, hoc eme, ne mea sint.

 

CX

Você diz, Veloz, que meus poemas são longos.

Você não escreve nada: isto é concisão.

 

Scribere me quereris, Velox, epigrammata longa.

ipse nihil scribis: tu breviora facis.

 

 

LXIX

Vacerra, você só sabe elogiar

poetas mortos ou antigos.

Fico devendo essa, Vacerra:

não vou morrer pra te agradar.

Miraris veteres, Vacerra, solos,

nec laudas nisi mortuos poetas.

ignoscas petimus, Vacerra: tanti

non est, ut placeam tibi, perire.

 

LXXX

Pobre, faminto, Gélio casou com uma velha rica.

Se ele tem comida, agora ela também: sua pica.

Duxerat esuriens locupletem pauper anumque:

uxorem pascit Gellius et futuit.

 

VII

Se a Ligeia tiver tantos anos

quanto tem cabelos, ela tem três.

Toto vertice quot gerit capillos

annos si tot habet Ligeia, trima est.

Epigramas: “tweets”da Roma Antiga em edição bilíngue

Ateliê lança edição especial dos Epigramas de Marco Valério Marcial traduzidos por Rodrigo Garcia Lopes

Escrever em poucos caracteres para passar uma mensagem assertiva tornou-se popular com a criação do Twitter, há pouco mais de dez anos. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos, por poetas como Marco Valério Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso).

Apesar de sua importância estética, são raras as edições de Marcial no Brasil. Para preencher essa lacuna e trazer ao conhecimento do público esta arte poética, a Ateliê  Editorial lança, em uma edição bilíngue, Epigramas, escritos por Marco Valério Marcial, e traduzidos diretamente do latim por Rodrigo Garcia Lopes.

A edição é composta por doze pequenos “livrinhos”, reunidos em um belo projeto gráfico de Gustavo Piqueira, com 219 poemas escritos entre 86 e 103 d.C.  O livro traz notas explicativas e um posfácio que inclui dados biográficos do autor e contextualiza a poesia de Marcial na Roma Antiga, além de conter informações sobre as questões estéticas de sua poesia.

O tema principal dos Epigramas é a cidade em que vivia o poeta. “Se há alguma musa na poesia de Marcial, ela se chama Roma: é da cidade que ele tira sua matéria-prima. Como um dublê de poeta-humorista-colunista-cronista social — munido de uma câmera portátil e verbal, o epigrama — ele nos convida a espiar os espaços públicos e privados de Roma no século I em todas as suas contradições”, afirma Garcia Lopes.

A seleção traz epigramas cômicos, pornográficos e injuriosos, que fizeram a fama do autor. Mas o tradutor também incluiu poemas de amor e amizade, sobre a boemia, reflexões sobre escravidão, sobre viver o presente, além de epitáfios tocantes e epigramas metapoéticos, em que o poeta reflete sobre sua própria condição de autor.

“Além de ser um grande poeta, Marcial é extremamente moderno ao prenunciar aspectos de nossa sociedade do espetáculo, de comunicação instantâneas (como os 140 caracteres do Twitter), da indústria da fofoca, do consumo (onde tudo está à venda), da superficialidade, exibicionismo, da cultura da imagem, redes sociais, culto às celebridades, fama instantânea e reality shows”, conclui o tradutor.

Serviço

ISBN 978-85-7480-752-2

Tamanho: 14 x 21 cm

Número de páginas: 224 páginas

Preço: R$ 82,00

 

Sobre a Ateliê Editorial

 

Site:www.atelie.com.br

Blog:blog.atelie.com.br

Twitter:@atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

 

Fundada em 1995, a Ateliê Editorial atua principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; e estudos sobre o livro e seu universo.  O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual.

Manual do Estilo Desconfiado

Fernando Paixão – conhecido por sua poesia e ensaística – está lançando o Manual do Estilo Desconfiado e adverte logo de partida: “Não é um manual de redação, nem pretende ensinar a escrever bem, mas dá umas boas dicas para ser desconfiado com os próprios textos”.  Seu interesse pelos assuntos da escrita vem desde a juventude, quando iniciou uma longa carreira de editor profissional, e permanece até agora, inclusive nos trabalhos que desenvolve na universidade.

A ideia inicial  surgiu durante um curso sobre escrita de resenhas que o autor ministrou para alunos de graduação; a partir dos exercícios propostos e das discussões em classe, o conteúdo foi ganhando corpo até chegar ao formato final, que tem a qualidade de propor insights sobre a arte de escrever. Dizendo de outro modo: trata-se de um livro que leva o leitor a pensar sobre a (própria) escrita.

Ao longo de 25 lições, cada uma dedicada a um verbete temático, o autor apresenta um conjunto de máximas que nos leva a refletir sobre a “palavra gorda”, a “frase longa”, o “clichê”, a “citação”. Ou ainda sobre temas como “estilo”, a “abstração”, o “parágrafo longo”. E termina com alguns dizeres sobre a sua proposta: “a desconfiança é bem-vinda para que o estilo seja de bom quilate”.

O resultado é uma obra original e inusitada, que foge às classificações tradicionais. Luis Fernando Veríssimo afirma, na contracapa, que este livro “vai dar o que falar, e o que escrever”. Em seguida, acrescenta: “Pelo seu ineditismo – não existe nada parecido, que eu saiba, por aí – e pelo seu estilo ao tratar da criação literária, das armadilhas e dos maus hábitos (e bons exemplos) do texto”. E conclui:  “Paixão fez um precioso manual tanto para aspirantes quanto para praticantes da arte da escrita”.

Conheça outras obras de Fernando Paixão

Fernando Paixão teve uma longa carreira como editor profissional, na Editora Ática; nessa área, organizou Momentos do livro no Brasil (1995, Prêmio Jabuti). Em 2009, ingressou na docência acadêmica e, desde então, leciona literatura no Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo. No ensaismo, publicou Narciso em Sacrifício (Ateliê, 2003); A Parte da Tarde (Ateliê, 2005) sobre a obra poética de Mário de Sá-Carneiro; Palavra e Rosto (Ateliê, 2010); e Arte da Pequena Reflexão (Iluminuras, 2014), sobre o gênero do poema em prosa. Dedica-se também à poesia, com 6 livros publicados; ganhador do Prêmio APCA, em 2002.

 

Epigramas, de Marcial: tuítes cômicos e pornográficos da Roma do século I

Marco Valério Marcial é considerado o “pai do epigrama” – poema curto de viés satírico, pornográfico ou injurioso que marcou época na Roma Antiga. Apesar de sua importância e de sua conexão com a atualidade – quando os tuítes reinventaram a escrita econômica – as edições de Marcial são raras no Brasil.

Para preencher essa lacuna e trazer ao conhecimento do público esta arte poética, a Ateliê  Editorial lança, em uma edição bilíngue especial, Epigramas, escritos por Marco Valério Marcial, e traduzidos diretamente do latim por Rodrigo Garcia Lopes. A edição é composta por 12 livrinhos, a partir do projeto gráfico de Gustavo Piqueira, que reúnem 219 poemas escritos entre 86 e 103 d.C. Leia, a seguir, a entrevista com Rodrigo Garcia Lopes sobre a obra, que demorou mais de 25 anos para ficar pronta:

 

Rodrigo Garcia Lopes fotografado por Jacqueline Sasano

Como surgiu a ideia e o convite para realizar esta edição?

Rodrigo Garcia Lopes: Marcial é um poeta social, satírico, complexo. Comecei a traduzi-lo em 1990, retomando o projeto em 2015. Na época perguntei ao escritor Rodrigo Lacerda se ele achava que alguma editora poderia se interessar pelo projeto. Ele sugeriu que eu procurasse a Ateliê. Passei alguns meses traduzindo-o intensivamente, até chegar aos 219 poemas da presente edição. Sempre fico tentado a incluir epigramas que haviam passado despercebidos.

 

 

Como foi a escolha dos epigramas que compõem este volume?

RGL: Marcial escreveu 15 livros de poesia, cerca de 1.561 epigramas. Procurei fazer uma seleção representativa, variando os temas, mais ou menos como ele fazia em seus livros, bem como a extensão dos epigramas. Também levei em conta os que me permitiam repoetizá-lo em português, mantendo o frescor, o caráter imediato, a concisão e, claro, seu humor. Marcial é engraçadíssimo, apesar de ser impiedoso e, muitas vezes, cruel em sua poesia. Espero que o leitor se divirta tanto quanto eu ao traduzi-lo.

 

Quais os temas dos epigramas que compõem este volume?

RGL: Se há alguma musa em sua poesia, ela se chama Roma: é da cidade que ele tira sua matéria-prima. Como um dublê de poeta-humorista-colunista-cronista social — munido de uma câmera portátil e verbal, o epigrama — ele nos convida a espiar os espaços públicos e privados de Roma no século I em todas as suas contradições. Apesar de marcado como poeta da invectiva, dos insultos cômicos, pornográficos, eu incluí também vertentes menos conhecidas de Marcial, como os poemas de amor e amizade, sobre a boemia, reflexões sobre  escravidão, sobre viver o presente, além de epitáfios tocantes. Incluí também uma série de epigramas em que ele aborda sua condição de poeta, de autor. Epigramas metapoéticos avant la lettre.

 

O livro tem um formato bastante peculiar: parecem pequenos livros que compõem um livro completo. Sabe dizer por que houve essa escolha?

RGL: Creio que o projeto gráfico foi inspirado no fato de que Marcial se referia a seus livros como libellus (livrinhos, mas também petição, panfleto e publicação difamatória). Então, cada um dos 12 cadernos desta edição refere-se a um dos volumes que ele lançou regularmente de 86 a 103 d.C. Acho que o projeto gráfico remete também ao caráter artesanal do livro na época de Marcial que, basicamente, era um rolo de papiro preso em dois cilindros de madeira, desenrolado à medida que ia sendo lido.

 

No posfácio, você escreve que o trabalho de tradução foi interrompido e que, no total, durou mais de 25 anos. Por quê?

RGL: Comecei a traduzir Marcial em 1990, no Arizona, nos intervalos do mestrado que fazia sobre William Burroughs. No começo foi mais para me divertir do estresse acadêmico, sem maiores pretensões. Acabei reunindo um bom material na volta ao Brasil. Fui traduzindo e publicando mais epigramas ao longo dos anos, mas nunca achava que tinha um número suficiente para um livro representativo. Em 2015, depois que lancei o romance policial O Trovador, queria fazer algo diferente. Aí o Marcial acenou pra mim.

 

Os epigramas foram traduzidos diretamente do latim?

RGL: Sim. Consultei também vários estudos, dicionários, edições críticas de Marcial para outras línguas, como o inglês e espanhol e outras línguas, de vários séculos. Isso me deu uma ideia de como Marcial foi tratado. As principais fontes foram as edições feitas por D. R. Shackleton Bailey (Martial: Epigrams, Loeb Classical Library, Cambridge: Harvard University Press, três volumes, 1993) e por Walter C. A. Ker,  para a mesma coleção e editora,  em dois volumes (1968).

Quais foram os maiores desafios desse trabalho de tradução?

RGL: Repoetizá-los em português, mantendo a concisão lapidar e a clareza do latim, o caráter direto e imediato da poesia de Marcial.

 

Apesar do gênero epigrama ser considerado “menor”, sua composição é bastante complexa. Em que medida traduzir epigramas reflete essa complexidade? Com que aspectos formais você mais se preocupou ao realizar a tradução?

RGL: Marcial usa uma série de recursos e técnicas em seus epigramas: a conclusão surpreendente (a ferroada), recursos retóricos como antítese, paradoxo, alusão, ironia, hipérbole, anáfora, elipse, acumulação, aliteração, assonância, metáfora, metonímia, rimas, paronomásia (trocadilhos), entre outros. Vários recursos que são usados até hoje pelos comediantes de stand-up (especialmente no caso dos comediantes de uma frase, como Stewart Francis, por exemplo, que eu adoro). Na medida do possível, preocupei-me com os vários planos linguísticos do poema, privilegiando os aspectos que me pareceram os mais importantes. Ele se vale de uma grande liberdade de linguagem, do luxo ao lixo, expandindo o léxico.

 

Marcial é bastante conhecido no Brasil?

RGL: Apesar de tratar-se de um clássico, são raras as edições da poesia de Marcial no Brasil. O mais comum é a publicação de poemas esparsos em antologias, como nas de Décio Pignatari, José Paulo Paes e outros. Há O Catálogo de Mulheres, publicado pela Humanitas, em 2010, que se concentra nos poemas misóginos de Marcial. As demais edições são portuguesas. Minha intenção foi resgatar e recolocar a poesia de Marcial entre nós. O livro traz notas explicativas, além de um posfácio, em que procuro aproximar o leitor brasileiro do estilo e do contexto histórico e social da Roma de Marcial, das várias vertentes, técnicas e peculiaridades de sua poesia.

 

Qual a importância de ter uma obra como a de Marcial traduzida para o português, em pleno século XXI?  

RGL: Como diria Tristan Tzara, o que nos atrai na obra antiga é sua novidade. Além de ser um grande poeta, Marcial é extremamente moderno ao prenunciar aspectos de nossa sociedade do espetáculo, de comunicação instantânea (como os 140 caracteres do Twitter), da indústria da fofoca, do consumo (onde tudo está à venda), da superficialidade, exibicionismo, da cultura da imagem, redes sociais, culto às

celebridades, fama instantânea e reality shows. Se ele acabou sendo obscurecido por outros autores clássicos, dada sua obscenidade, mais um motivo para que Marcial seja resgatado para os leitores de hoje, sobretudo no atual momento, no Brasil.

 

Epigramas, em geral, são poemas curtos, compostos por poucos versos. Mas alguns dos epigramas de Marcial são longos. Você explica a razão disso no posfácio do livro, mas poderia, por gentileza, falar sobre isso para nossos leitores?

RGL: Um epigrama longo pode parecer paradoxal num gênero que prima pela brevidade. O próprio Marcial brinca em vários epigramas com isso: um longo livro de poemas curtos. Marcial tem epigramas que vão de 1 até 51 versos. A questão da brevidade parece ser resolvida por ele em 2.77, onde adverte um certo crítico e poetastro Coscônio, que acusa seus epigramas de serem “muito longos”. Depois de dizer que, mesmo poetas que ele admira, como Pedão e Marso, escreveram poemas que ocupam mais de uma coluna no papiro (página), Marcial defende que epigramas não são longos “se não há nada neles que se possa cortar”.

 

Em sua opinião, qual é a riqueza dos epigramas de Marcial?

RGL: Marcial mostrou como o epigrama é um gênero versátil e atualíssimo. Foi ele quem reinventou e estabeleceu o epigrama moderno, tal qual conhecemos hoje, tornando-se um modelo para outros autores através dos tempos: um poema curto, satírico e de final picante, geralmente com uma corrosiva crítica social e de costumes. Lendo-o constatamos que a natureza humana não mudou tanto, que Marcial é um poeta do seu tempo, da Roma antiga, mas do nosso também. É importante dizer que Marcial, ao concentrar seus esforços no epigrama, estava situando-o, estrategicamente, dentro de uma tradição satírica e assumidamente marginal, na contramão da dita poesia elevada, de dicção austera, grandiloquente e carregada de mitos, como a epopeia e a tragédia. Como adverte no epigrama 10.4, numa de suas frequentes alusões ao leitor: “Não vai achar aqui Centauros, Górgonas e Harpias: / minha página tem o sabor dos homens”.

Ateliê e Kotter: você conhece esta parceria?

São Paulo e Curitiba. A primeira é considerada a maior cidade do Brasil; a segunda abriga alguns dos consumidores mais exigentes do país. Ambas estão ligadas por uma parceria literária que já rendeu bons frutos. São Paulo é a sede da Ateliê Editorial, que reflete no nome o cuidado e o capricho com que realiza suas edições: livros sobre livros, clássicos em edições anotadas e explicativas e livros acadêmicos. Em Curitiba fica a Kotter Editorial, cuja filosofia é publicar trabalhos de qualidade, de autores inéditos ou não, com foco em humanidades, artes, literatura e filosofia.

Capa do livro de Marcelo Sandmann

Ateliê e Kotter são coeditoras em diversos títulos, como os da Coleção Gralhas Raras e da Coleção Antológicos, da qual faz parte o recente lançamento Antologia Poética – 1987-2017, de Marcelo Sandmann. Ele é Professor no curso de Letras da UFPR, compositor e poeta. Na obra, é possível perceber o diálogo permanente com os autores que admira (Camões, Drummond, Cabral, José Paulo Paes e Leminski estão entre suas afinidades eletivas). Sandmann trabalha com o máximo de recursos e o mínimo de material necessário. Os efeitos poéticos devem ser obtidos sem desperdício verbal ou emocional, num sistema estético de economia, que beira a entropia. A poesia nasce e se mantém nas linhas de tensão que existem entre o texto e o leitor, a palavra e seu avesso, o prosaico e o inominável, o cânone literário e a vida mais chã.

 

L’azur Blasé ou Ensaio do Fracasso sobre o Humor, de Guilherme Gontijo Flores, foi finalista do Prêmio APCA 2016, na categoria poesia. Nesta coletânea de poemas, tudo está exposto ao seu fracasso autoirônico, até mesmo o poeta e a obra, a começar pela piada batida que cria o enquadramento do autor morto que tem seu livro lançado por editores amigos. Nesse caso, a pergunta central do livro poderia ser: O que fazer quando o humor fracassa? Resta um riso pelo malogro da piada?

Outro exemplo da parceria de sucesso entre Kotter e Ateliê Editorial é o volume A Comédia e Seus Duplos: O Anfitrião de Plauto, organizado por Rodrigo Tadeu Gonçalves.  A obra apresenta um conjunto de ensaios sobre a recepção e as adaptações da comédia “O Anfitrião” pelos séculos, nos distintos países e culturas. A peça de Plauto (comédia ou tragédia?) discute questões fundamentais como os duplos, o engano, o abuso da autoridade da parte dos deuses, a comédia profundamente humana do marido traído.

Poesia, teatro ou filosofia? A parceria entre Ateliê e Kotter não deixa dúvidas de que a edição de livros de qualidade tem espaço no mercado.

Notícia de Publicação: Manual de Editoração E Estilo

Lênia Márcia Mongelli*

Há livros cuja divulgação é obrigatória, é quase um serviço de “utilidade pública” para o meio acadêmico em geral, de medievalistas – daí o excelente veículo do Jornal da ABREM – ou não.

Estou falando do Manual de Editoração e Estilo, de Plinio Martins Filho, considerado por seus pares o “maior editor brasileiro em atividade” (diz Marisa Midori Deaecto no Prefácio) e merecidamente recém-premiado com o “Jabuti” em sua área de especialização. Afinal, são quase 50 anos de prática, quer como professor de editoração da ECA/USP, quer à frente da Edusp ou da Ateliê, esta de sua propriedade.

Se o Manual é uma defesa apaixonada da beleza do livro enquanto objeto, bem como a apresentação de caminhos/instrumentos para sua melhor e mais refinada realização, ele é, antes de tudo, um modelo possível para padronização de originais – inclusive dissertações e teses universitárias, evitando tantos descompassos entre autores, orientadores, departamentos e casas editoras. Normas relacionadas a ortografia, pontuação, citação de textos em língua estrangeira, notas de rodapé, bibliografia etc. – estão todas ali, ordenadamente tratadas.

 

É obra que, indiscutivelmente, facilita – e muito! – a vida do pesquisador!

 

 Professora Titular de Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo, filiada ao Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Formada em Letras Anglo-Germânicas pela Universidade Mackenzie (1969), fez todas as demais etapas de sua carreira acadêmica na USP: Mestrado (1978), Doutorado (1982), Livre-Docência (1988) e Titularidade (1996). Na mesma USP, atua hoje como professora-sênior. Especializada em Literatura Medieval, foi sócia-fundadora da Abrem – Associação Brasileira de Estudos Medievais (1995) e secretária de sua revista impressa Signum, sendo responsável pela edição e distribuição dos dez números dela, até 2008. Orientou cerca de 30 trabalhos, entre mestrados e doutorados; participou de aproximadamente 55 bancas examinadoras de trabalhos acadêmicos; organizou em torno de 80 eventos, atuando inclusive como palestrante; publicou cerca de 85 artigos e 40 capítulos de livros, além de vários “roteiros de leitura”. Livros publicados nos últimos anos, pela Ateliê Editorial: E Fizerom taes Maravilhas… Histórias de Cavaleiros e Cavalarias (org.) [2012], A Idade Média no Cinema (org. com José Rivair Macedo) [2009], Palmeirim de Inglaterra (org.) [2016] e As Pastorinhas de Pirenópolis – GO.

Conheça outras obras de Lênia Márcia Mongelli