Monthly Archives: dezembro 2017

4 Ensaios sobre Oscar Niemeyer: uma resenha

Carina Pedro*

O livro Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer, publicado pela Ateliê Editorial, é uma ótima oportunidade de conhecer mais a fundo o trabalho do arquiteto brasileiro e os detalhes de seus projetos que viraram ícones do modernismo no Brasil e no mundo, assim como daqueles que nunca saíram do papel. A leitura dos ensaios também nos permite transitar pelas críticas que Niemeyer recebeu no decorrer de sua longa carreira, como isso influenciou seu desenho e o de outros profissionais contemporâneos. E, ainda, por meio de suas próprias reflexões, é possível sabermos o que pensava sobre a arquitetura e seu papel social.

O primeiro ensaio, “A Obra de Oscar Niemeyer em São Paulo”, de Paulo Bruna, trata dos projetos do arquiteto na capital paulista e no interior do estado, especialmente, aqueles realizados no início dos anos 50, pela filial do seu escritório em São Paulo, administrado pelo arquiteto Carlos Lemos. Essa fase de produção foi marcada quase que exclusivamente por um único cliente, o Banco Nacional Imobiliário (BNI), cujos acionistas principais eram Orozimbo Rouxo Loureiro e Otávio Frias. Entre os primeiros projetos na capital, o autor destaca o Edifício e Galeria Califórnia, com seu criticado pilar em V na fachada, e o Edifício Montreal, cuja planta de “sala e kitchenette” reflete as mudanças no estilo de vida dos moradores das grandes cidades.

No mesmo período, nasce o projeto do Conjunto Copan, que recebeu diversas alterações e foi concluído apenas nos anos 70. A ideia inicial de ser um misto de hotel e residência não se concretizou, o que não impediu que o edifício se tornasse uma referência de obra urbana, com suas galerias públicas e os seus 1120 apartamentos de diferentes metragens. Na sequência, Paulo Bruna comenta detalhes sobre outra obra de vulto, os edifícios construídos no Parque Ibirapuera, para a exposição do IV Centenário de São Paulo. A simplificação do projeto, por custo e prazo, foi considerada uma “mutilação” na época. Após diferentes propostas e reformas, os edifícios adquiriram diferentes usos e o conjunto foi tombado pelo Iphan.

Edifício Itatiaia em Campinas (1952), fachada posterior. Fonte: Hugo Segawa.

No segundo ensaio, “Entre dois pavilhões: a repercussão internacional de Oscar Niemeyer”, Hugo Segawa nos apresenta a visão dos estrangeiros sobre o trabalho do arquiteto. O projeto do pavilhão do Brasil na Feira Internacional de Nova York, em 1939, foi o início do seu reconhecimento crescente, levando-o a participar do grandioso projeto das Nações Unidas, na mesma cidade, iniciado no período pós-guerra. Os bastidores dessa obra foram marcados por discordâncias entre o representante francês Le Corbusier e o diretor de planejamento norte-americano Wallace Harrison. Do projeto conciliatório, do qual Niemeyer e Le Corbusier participaram, pouco foi aproveitado no projeto final da ONU.

Entre as críticas positivas ao jovem arquiteto, o autor destaca as de Pierre Guegen, que apontam o uso da curva como uma marca de sua originalidade, sendo a igreja da Pampulha um belo exemplo de ousadia. Já as de Nikolaus Pevsner, nos anos 60, colocavam os projetos de Niemeyer, com os de outros arquitetos contemporâneos, entre os exemplos de obras antirracionais. Segundo Segawa, essa crítica pós-moderna, mesmo na intenção de ser negativa, deu sentido à preferência do arquiteto brasileiro pela forma e beleza, já que o tempo comprova que as funções inevitavelmente se modificam, enquanto a forma se preserva.

O terceiro ensaio, “A revisão crítica de Niemeyer”, escrito por Rodrigo Queiroz, apresenta as principais mudanças ocorridas nos projetos realizados pelo arquiteto entre 1940 e 1960, do conjunto da Pampulha à construção de Brasília. O autor destaca as críticas de Luís Saia e Max Bill, no ano de 1954, às soluções formais utilizadas na Pampulha e adotadas de maneira exaustiva em outros projetos. Na sequência, em uma revisão do próprio trabalho, Niemeyer demonstra seu interesse por uma nova estratégia de projeto, em busca de maior clareza e objetividade formal.

No “Depoimento” de 1958, Niemeyer afirma que Brasília e o projeto para o Museu de Caracas marcam o início de uma nova etapa profissional. Sua justificativa para as mudanças foi a viagem à Europa e o encontro com Le Corbusier. Ao reconhecer o desgaste de sua obra, o arquiteto busca um novo repertório formal no ateliê do seu mestre em Paris. Como consequência desse diálogo, Queiroz levanta a hipótese de que os estudos realizados por Le Corbusier para o Capitólio de Chandigarh influenciaram fortemente o projeto de Oscar Niemeyer para Brasília, sendo possível identificar nos palácios da capital federal as semelhanças e diferenças entre os dois projetos.

Ingrid Guerrero

O quarto e último ensaio, “O Espaço Sagrado em Oscar Niemeyer e alguns dos seus desdobramentos na América Latina”, de Ingrid Guerrero, trata primeiramente das poucas obras religiosas projetadas pelo arquiteto. Entre elas, a Igreja de São Francisco de Assis, que, embora rejeitada pelas autoridades religiosas de Minas Gerais, segue o simbolismo da arquitetura católica e a Catedral de Nossa Senhora Aparecida em Brasília, que se aproxima da arquitetura gótica. Na sequência, a autora discute os projetos realizados em países latinos, influenciados pelo desenho de Niemeyer, como o conjunto de igrejas projetado pelo colombiano Juvenal Moya, as releituras do espanhol Félix Candela no México e de Carlos Raúl Villanueva na Venezuela.

 

* Historiadora, designer de interiores e mestre em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. É autora do livro Casas Importadoras de Santos e seus Agentes, publicado pela Ateliê Editorial, em 2015.

História da Língua Portuguesa

Antônio Suárez Abreu*

Surge agora, pela Ateliê, uma nova reimpressão do livro História da Língua Portuguesa, organizado pelo Prof. Segismundo Spina, editado pela primeira vez em 2008.   É uma obra dirigida especialmente aos alunos de Letras, mas que será lida com facilidade por qualquer pessoa leiga que se interesse pela história do nosso idioma.  Além de explicar brevemente as características gramaticais de cada um dos períodos da história do Português, desde seu surgimento no século XII até os dias atuais, seus autores incluem, ao final de cada capítulo, análises de textos emblemáticos de cada um desses períodos, o que permite ao leitor um entendimento mais funcional e colorido da língua.

É preciso dizer que, durante os últimos quarenta anos, os estudos históricos da Língua Portuguesa foram postos em segundo plano, dando lugar apenas a estudos sincrônicos, obedecendo à cartilha de Ferdinand de Saussure, o que foi um erro.  Atualmente, a Linguística Histórica vem ganhando cada vez mais importância, uma vez que é possível e desejável conciliar seu conhecimento com o funcionamento da língua atual.   Esse é o ponto de vista da moderna Linguística Cognitiva, sobretudo quando trabalha com o fenômeno da Gramaticalização, ou faz uso do modelo da Teoria da Complexidade, uma vez que os processos cognitivos usados para processar a linguagem em uso são os mesmos que a levam sofrer mudanças ao longo do tempo. Joan Bybee, em seu recente livro Language Change, publicado em 2015, diz que “Entender a mudança linguística nos ajuda a entender os estados sincrônicos, suas estruturas e as variações encontrada neles.”

As pessoas encarregadas de escrever os capítulos da História da Língua Portuguesa compõem um time de primeira linha.  Assim, Amini Boainain Hauy  ficou responsável por descrever a parte mais antiga do Português, desde o século XII até o século XIV; Dulce de Faria Paiva ficou com a tarefa de trabalhar com  o Português do século XV até o século XVI, passando o bastão a Segismundo  Spina, que trabalhou os séculos XVI e XVII.  A seguir, Rolando Morel Pinto ficou encarregado do século XVIII, Nilce Sant’Anna Martins, do século XIX e, finalmente, Edith Pimentel Pinto, do século XX.   O resultado é um harmonioso relato de fatos linguísticos relacionados a importantes momentos históricos e culturais, dando ao leitor uma visão privilegiada do panorama linguístico de Portugal, Brasil e de outros países lusófonos ao longo de oito séculos.  Parabéns a Ateliê, por contribuir para essa importante tarefa!

*Tem mestrado, doutorado e livre-docência pela USP, pós-doutorado pela UNICAMP, é professor titular de língua portuguesa da UNESP, membro da Academia Campinense de Letras e autor, entre outros, dos livros: Gramática Mínima para Domínio da Língua Padrão (Ateliê), O Design da Escrita(Ateliê) e Texto e gramática: uma integração funcional para a leitura e escrita (Melhoramentos).

Conheça as obras de Antônio Suárez Abreu

Livros novos com desconto: os melhores presentes de Natal

Para quem ama ler, livro é sempre o melhor presente: de aniversário, ou mesmo sem ter data comemorativa próxima. Então, dar livro de presente de Natal é acertar em cheio! Não tem  como errar. E se der para aproveitar promoções de verdade, com preços mais baixos e descontos, melhor ainda.

 

A Ateliê Editorial preparou uma lista incrível, para todos os gostos e bolsos, de livros novos e com desconto. Veja algumas sugestões:

 

Antologia Fantástica da Literatura Antiga

Marcelo Cid reúne nesta Antologia cerca de trezentas histórias provenientes da Antiguidade greco-latina num arco de tempo que começa no século VIII a.C., com excertos de Homero, e se estende até o século VI d.C. Provenientes de textos poéticos, mas também de obras de Filosofia, História, Teologia e Medicina (quem diria?), são narrativas breves, dotadas não só de algum evento extraordinário mas também de certa incômoda estranheza, que só faz aguçar a curiosidade dos leitores. [João Angelo Oliva Neto]

De R$65,00 por R$39,00

 

Palmeirim de Inglaterra

A novela portuguesa de cavalaria Palmerim de Inglaterrafoi escrita por Francisco de Moraes em 1544. O enredo está dividido em duas partes:  a primeira trata do nascimento e as primeiras aventuras dos irmãos gêmeos, Palmeirim e Floriano, filhos de D. Duardos e Flérida. A segunda, mostra os dois irmãos que saem pelo mundo, realizando façanhas  ao lado de companheiros e damas, até culminar na grande batalha final entre “turcos” e “cristãos”, na qual sucumbem muitos dos heróis cuja trajetória acompanhamos nas páginas iniciais. Feitos de guerra e feitos de amor dão um colorido especial ao objetivo maior: a defesa da cristandade.

De R$ 182,00 por R$109,20

 

A Casa dos Seis Tostões

Paul Collins e sua família abandonaram as colinas de San Francisco para se mudarem para o interior do País de Gales – para se mudarem, na verdade, para a vila de Hay-on-Wye, a “Cidade dos Livros”, que ostenta mil e quinhentos habitantes e quarenta livrarias. Convidando os leitores a entrarem em um santuário para os amantes dos livros, A Casa dos Seis Tostões é uma meditação sincera e muitas vezes hilária sobre o que os livros significam para nós.

De R$ 58,00 por R$ 34,80

Arte, DorArte, Dor – Inquietudes entre Estética e Psicanálise

Entender a percepção como fenômeno estético é o que motiva as reflexões deste livro. Os treze ensaios retomam ideias de Lyotard, Argan, Winnicott, Bachelard, Chauí, entre outros. No entanto, o pensamento de Frayze-Pereira gira em torno das obras de Freud, Merleau-Ponty e Foucault. Com eles, o autor mostra que a arte se faz no encontro de dois sentimentos: o da forma e o do mundo. A partir dessa conexão entre percepção e política, a obra lança nova luz sobre o entendimento humano.

De R$ 82,50 por R$ 41,25

Cancioneiro de PetracaCancioneiro

Cancioneiro de Petrarca, concluído por volta de 1370, foi o principal modelo de poesia lírica amorosa no Ocidente. Nele, Petrarca abriu o caminho para uma poesia do sentimento, num jogo emocionante com a razão, e com uma nova linguagem. O que há de solene, de quase escultural em Dante torna-se variado, por vezes esvoaçante, em Petrarca. A fortuna favoreceu mais o primeiro, mas o segundo deixou marcas mais fundas, que perduram até hoje na poesia.

De R$160,00 por R$112,00

 

Gentíssima

Era com lápis, papel e noções de taquigrafia que a jovem jornalista Maria Ignez registrava, nos anos de 1960, depoimentos de famosos e anônimos. Deixando de lado o gravador e convocando a prosa solta, ela capturava na fala das pessoas os instantes mais fugazes, cotidianos. Em sua escrita ágil, a autora consegue ir muito além da biografia ou do furo jornalístico. Seus entrevistados compõem um rico mosaico cultural: de Dalí a Di Cavalcanti, de Pixinguinha a Gil, de Kubitschek a uma lavadeira carioca.

De R$ 43,00 por R$ 21,50

 

Vocabulário Português-Nheengatu – Nheengatu-Português

Desde a Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil, de José de Anchieta, de 1595, vários utilíssimos dicionários dessa língua foram organizados e publicados por diferentes autores. Este livro de Ermano Stradelli, no entanto, contém uma diferença que o torna um documento de grande relevância linguística, sociológica e antropológica. Tendo vivido e trabalhado na região amazônica, onde morreu, sendo fluente na língua geral, recolheu um vocabulário vivencial da língua nheengatu. Não mais as relíquias dos tempos iniciais da Conquista, mas a língua nheengatu já adaptada à conceituação e à descrição de coisas e situações da sociedade que dessa Conquista resultou. O nheengatu como língua dinâmica, o que explica sua vitalidade até os dias de hoje em várias regiões do Brasil, como o Alto Rio Negro, onde é língua oficial. [José de Souza Martins]

De R$72,00 por R$ 43,20

 

Âncora Medicinal para Conservar a Vida com Saúde

Alimentação, qualidade do ar, higiene e descanso são alguns dos temas desta obra. Sua primeira edição é de 1721, mas o texto traz diversas recomendações surpreendentemente atuais para manter uma vida saudável. A obra teve apenas três reedições, todas no século XVIII, e ressurge agora com glossário. A linguagem foi atualizada pelos professores Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, Leônidas Querubim Avelino (UFMT), Sílvio de Almeida Toledo Neto e Heitor Megale (USP).

De R$82,50 por R$ 41,25

 

Livro Viva VaiaViva Vaia – Poesia 1949-1979

Esta edição de Viva Vaia, obra que estava esgotada, é a mais completa de todas as que já vieram a público. Além de manter o projeto gráfico original, de Julio Plaza, ela devolve a impressão em cores a alguns poemas – dentre os quais o clássico “luxo”. Este volume contém ainda um encarte com o poema-objeto “Linguaviagem”, que não foi incluído nas versões anteriores por motivos técnicos. Vem encartado, com o livro, o CD Poesia é Risco, que contém quinze poemas musicados por Cid Campos, filho do autor. Contém CD encartado

De R$ 145,00 por R$ 87,00

 

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Seleta de poemas “Na Pureza do Sacrilégio”

Confira a seguir alguns poemas do livro “Na Pureza do Sacrilégio”, de Carlos Cardoso, com desenhos de Lena Bergstein. A seleção foi feita pelo próprio autor, cujas fotos são de Bel Pedrosa:

 

Camaleão

Como um camaleão rastejo pelo
silêncio do meu quarto.

É poesia o encontro das paredes?

São ópio as estrelas aplumadas em
cada esquina do meu ego?

Ou será benevolente a lágrima que escorre por
minh’alma quando brado louco por felicidade?

Os arredores repletos de melancolia
ainda se refazem do gelo.

A ausência de um ombro, de um
corpo catatônico que seja,
faz-me lembrar o quanto era bom
o diálogo com os meus olhos.

Tocar a escuridão quando a voz do
desespero insistia no apego.

Mozart me enlaça com um fio de
náilon na garganta.
São as trevas rodeadas de luzes
intangíveis,

metáfora do abominável descaso
público a um quase morto.

Ninguém, nem mesmo a solidão, tem
mãos assim tão pequenas.

 

 

 

Eu serei noite e serei dia

 

Tenho uma outra face
que não é a rebeldia do exílio,
conto com a morte
e uma palavra de alívio

para quando o sermão de Maria
ocultar o sublime sonho

do unicórnio perdido,

saberei que o tempo
é apenas uma gota d’água
a beber o saber etéreo
da fugaz sabedoria,

sempre que as coisas
forem tristes
e o rio guardar em si,
o ser

por onde o ser não navega,

eu serei noite e serei dia,
e serei dia e serei noite.

 O poema, o começo

 

Indago, por onde iniciar essa resenha.
De dentro para fora, de um lado para o outro,
sem foco, com rima, com ou sem sentimento.

Lamento, tormento, piedade, felicidade.

Simples feito a natureza, complexo como a humanidade,

  Agudo, fraco, obtuso, disforme,

angelical ou demoníaco,
soberbo, decente, incoerente, desejoso,
voluptuoso e indiferente.

Com as mãos sujas de argila, o copo cheio de tequila,
e aquela menina que tanto desejo, seu beijo.

Ou abordando a tristeza, a sutileza, as formas de beleza,
as luzes, a ribalta.

Por onde começar essa bossa, esse texto,
essa nossa vossa discordância,
pela juventude, tema de infância,
pela infância, pureza e relevância.

Afinal, iniciarei pela instância, ininterrupta discrepância.

 

 

 

 

 

 

 

Frase primeira

E como falar
de outra forma?
de cortar
e reformatar o futuro,
e assim querer
e ser sem par.
Por que ser assim
pura forma?
tanta cor
entre ares dúbios,
ferrugens,
e sorrateiros costumes
de manter
sombras assimétricas,
como a de pensar
antes de ser,
e andar
por entre cadeiras

que margeiam limites
intangíveis,

formas sem abdômen,

sem retina.
Ainda quero uma frase primeira,
nua,
ligeiramente inteira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ventania

Para Antonio Cicero

Iluminar a sombra
e torcer pelo sol
até que venha a chuva,

sapatear pela escuridão
com trovões e ventania,

molhar os dedos
sentir o frio e o arrepio
que é estar.