Carlos Cardoso volta à poesia com “Na Pureza do Sacrilégio”

Leia, a seguir, um trecho do prefácio do livro, escrito pelo escritor e crítico literário Silviano Santiago:

Carlos Cardoso fotografado por Bel Pedrosa

A criação revela o ser pelo desnudamento ao mesmo tempo em que o poema o revela ao leitor. O ser se dá a se conhecer, sendo re/conhecido pelo outro.

Em Carlos Cardoso, o termo positivo, a pureza se subordina ao termo negativo, o sacrilégio. Isso formalmente. Do ponto de vista semântico, a pureza na verdade se sobrepõe ao sacrilégio. A estética é superior à ética, embora, no frigir dos ovos, com ela se confunda. Apenas parecem se excluir. Ganha a expressão. Mas não é apenas a expressão que se reforça, como lembra Houaiss; reforça-se também e principalmente o deslizamento contínuo entre polos extremos e opostos de valoração. Lembre-se que na notável interpretação do México que é O labirinto da solidão (1950), Paz não elege como herói uma das várias figuras em destaque na História nacional mexicana. De modo quase impiedoso, descarta a todas, a fim de mostrar as fronteiras fluidas do nacionalismo geográfico. Paz elege como herói mexicano, isto é, como encarnação absoluta da mexicanidad, a figura nacional mais contraditória e polêmica, ou seja, alguém que representa o extremo oposto das figuras públicas destacadas e louvadas pela História − o pária mexicano que se exilou na Califórnia pela miséria ambiente na terra natal. Elege como herói o estrangeirado pachuco, um dos extremos a que pode chegar o mexicano, como ele aclara.

O deslizamento do formal ao semântico e do semântico ao formal não é apenas uma das graças do notável poema de Fernando Pessoa, como Jakobson demonstrou genialmente; é também o movimento que articula, em várias cadeias estruturantes, os sucessivos poemas de Carlos Cardoso. Como Pessoa nos poemas do livro Mensagem, Carlos é um “poeta da estruturação”, que abole todos os golpes da “incerteza”. Ao se dispor a “limitar” sua voz poética pelos termos extremos, Carlos tampouco se proporá como um “poeta da variedade”, para citar uma vez mais o linguista e crítico russo. O poeta limitado é aquele que não se exprime pela incerteza; ele constrói, arquitetura e estrutura, para nos valer dos três verbos escolhidos pelo próprio Pessoa e citados por Jakobson.

A força do oximoro é tão potente no universo de Carlos Cardoso que o leitor pode se valer da figura de retórica como chave para uma compreensão global de todos os poemas de Na pureza do sacrilégio. É simples, acompanhem-me. De um dos extremos do livro − o título e a epígrafe já comentados – dê um grande salto até o outro extremo − o poema final da coleção. Neste, os dias – isto é, as ocupações do poeta com a palavra – se acumulam entre a queda dos amanheceres e o raiar dos entardeceres, mas não se acumulam na incerteza do vaivém entre termos opostos. Acumulam-se no reforço da viagem cotidiana entre os amanheceres em queda e os entardeceres em brilho, que vêm previstos na capa pelo oximoro e são ratificados por Octavio Paz em termos de criação poética. Leiamos, em contraste, o último poema do livro:

 

Que caia o amanhecer,

O raiar do entardecer,

que os dias acumulem-se

não na incerteza,

mas na pureza do sacrilégio.

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