Arabia Brasilica: o fio da memória costurado por Raduan Nassar, Milton Hatoum e Salim Miguel

Por: Renata de Albuquerque

Sem ter formação arabista, o italiano Alberto Sismondini, nascido em Ventimiglia, aproximou-se da cultura do Oriente fazendo um movimento parecido que o levara, na juventude, a aproximar-se da França, país fronteiriço à sua cidade natal. “Para ter a percepção de não estar a apodrecer no recanto mais recôndito da província italiana, era preciso ser bilíngue”, afirma. Foi por sentir falta de estar próximo de uma cultura “tão importante quanto a francesa” e por ler a literatura de autores libaneses francófonos que fez contato mais próximo com a cultura árabe.

Esta familiaridade o levou a conhecer a literatura de autores como Salim Miguel, Raduan Nassar e Milton Hatoum, que se tornaram seu objeto de estudo no livro Arabia Brasilica. A seguir, Alberto Sismondini, que é Mestre e Doutor em Literatura Comparada e Tradução Literária pela Universidade de Siena, subdiretor do Centro de Línguas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Membro do Centro de Literatura Portuguesa da mesma Universidade desde 2006, fala sobre sua obra:

 

Alberto Sismondini

O que despertou seu interesse no estudo da cultura árabe?

Alberto Sismondini: Não tenho uma formação de arabista. De alguma forma, quando já vivia em Coimbra, estava a ressacar  com a falta de uma cultura de proximidade tão importante como a francesa. Gosto do francês e  das marcas da cultura francesa impressas no imaginário colectivo global, daqueles signos que Annie Ernaux aproveita nas suas narrativas, tal como uma ferramenta para revigorar a memória dos leitores e desta forma criar uma atmosfera empática de partilha de eventos. Acho que a literatura francesa viveu uma fase de franca popularidade ao virar do século, melhor dizer, do milénio, como puderam testemunhar as recentes atribuições do prémio Nobel a Le Clézio, a Patrick Modiano, além do naturalizado francês Gao Xingjian. Em Itália e Portugal, autores como Daniel Pennac, Muriel Barbery e Amélie Nothomb vendem bem.  Pela prática do francês, isto é ler livros de autores francófonos, conheci os trabalhos de Amin Maalouf, Sélim Nassib e, a seguir, os de Farjallah Haïk, autores libaneses que escolheram o francês como língua de comunicação literária. Nessa altura lia os trabalhos de Yasmina Traboulsi publicados pela «Mercure de France».Pois, o Líbano é considerado em França um país importante, o filho varão da francofonia; os jovens libaneses desde sempre eram considerados campeões em «dictée» , o ditado francês, um autêntico rito de passagem na aprendizagem da língua. Conhecia o Líbano como importante centro editorial do Oriente Médio. No início, confesso, a aproximação à cultura árabe deu-se pela francofonia. A seguir, veio a leitura morosa das Mil e uma noites na primeira tradução italiana do árabe, coordenada por Francesco Gabrieli, um bem conseguido projecto da editora Einaudi (1948). As Mil e  uma noites representam a meu ver um autêntico tratado de cultura árabe clássica.  Sinto-me também grato para com os colegas  da Universidade de São Paulo que, pelo seus escritos, me iniciaram de forma acádemica,  Safa Jubran, Michel Sleiman e Mamede Jarouche, este último com a sua própria tradução de alto cariz filológico das Mil e uma noites …

O que o levou a estudar a obra de Raduan Nassar, Milton Hatoun e Salim Miguel? Como se deu essa escolha?

AS: Uma autêntica epifania literária: Milton Hatoum apareceu em Coimbra na quarta-feira de cinzas de 1999 a apresentar a edição portuguesa do seu Relato de um certo Oriente. Foi um deslumbramento, o exotismo amazonense sobreposto ao exotismo orientalista,tudo redigido numa língua tão elevada! A seguir, foram publicados em Portugal Lavoura arcaica e Um copo de cólera de Raduan Nassar e Dois irmãos de Milton. Deu vontade para ler mais:relembro também de ter conseguido arranjar em Lisboa um exemplar brasileiro do Menina a caminho.

Enquanto no Brasil se  aproximavam as celebrações dos 500 anos da carta do achamento, surgiu Nur na escuridão de Salim Miguel, fiquei intrigado e avancei para ter mais bibliografia dele… e a consegui ter. Quem muito me apoiou nessa procura foi a docente de Literatura Brasileira  em Coimbra, Maria Aparecida Ribeiro.

Arabia Brasilica reúne três autores cujas escritas são, a princípio, muito singulares. O que os liga ou aproxima em termos literários? Por outro lado, o que os distingue? 

AS: Acho que todos foram grandes consumidores de literatura na fase da sua formação.  Um elo comum a meu ver existe e é representado por um trabalho constante com a memória. Salim exerce o seu magistério de escritor expressando a memória da imigração no país  ou de eventos marcantes da história nacional (p. ex. o Golpe de 1964) com a linguagem polida e eficaz de jornalista. É natural que a história da diáspora libanesa ao Brasil seja por ele celebrada em Nur na escuridão. Em Raduan Nassar , cujo Lavoura arcaica foi traduzido em francês com o título La Maison de la mémoire, tal como em Milton Hatoum a memória passa por um processo de ficcionalização da realidade, aqui vislumbram-se as tais leituras da fase de formação: muitos dos meus “queridos franceses” mas também, para Raduan,  Almeida Faria e a sua A Paixão.    De Salim Miguel é bem salientar o papel importante que ele teve em publicar autores da África lusófona  censurados pela mordaça salazarista e impossibilitados de publicar no seu país.

Qual a importância, em sua opinião, de trazer à tona a cultura árabe dentro do contexto brasileiro?

AS: O Brasil é terra de acolhimento desde sempre, cerca de 7 milhões de Brasileiros têm  ascendentes árabes e certas práticas estão bem disseminadas: se alimentar-se é um acto cultural, então é só consumir uma refeição  a base de quibe e esfirra numa lanchonete qualquer do país e podemos afirmar que  todos  os brasileiros «praticam» a cultura árabe.

O Brasil sempre foi um país com tradição de acolher imigrantes. Atualmente, por conta da grande tensão e das guerras no Oriente Médio, há uma onda de imigração bastante forte de pessoas que fogem de seus países para virem ao Brasil. Em sua opinião, essa receptividade histórica continua viva ou há preconceito contra os recém-chegados? 

AS: Quando se fala de imigração no Brasil, logo penso em Graça Aranha e o seu Canaã, repetidamente citado por Salim Miguel no seu Jornada com Rupert. A dialéctica entre Milkau e Lentz voltou à tona, também no Brasil. Há dois anos, após uma conferência, cujo tema era a imigração italiana em São Paulo, um simpático casal catarinense confessou o seu desassossego em ver grupos  de migrantes económicos haitianos serem deslocados para o sul do Brasil… A migração de grupos coesos pobres que até podem subverter a ordem institucionalizada de um território, cria espanto, o mesmo que o Drummond criança, em Minas,  sentia a ouvir os turcos falar uma língua desconhecida ( que ele chama de «língua-problema») jogando cartas “com alaridos”. Acho seja uma questão antropológica de posse de espaços. A intolerância surge entre quem está incumbido a partilhar espaços com comunidades de estrangeiros recém-chegados, daí as piadas, cultura oral transcrita para folhetins, que no século passado vitimaram no Brasil  carcamanos, turcos, portugas… A alta cultura não tem medo da miscigenação, mas quem faz alta cultura institucionalizada não mora nas favelas, nem nos bairros onde mora o povão…

Ainda há ganhos/trocas culturais novas que podem ser verificadas nesta nova onda de imigração? Quais? 

AS: Acho que sim, muitos dos novos imigrantes vindos do Oriente Médio têm formação secundária o até superior e poderão contribuir a enriquecer a sociedade e a economia brasileiras, com projectos inovadores.

De alguma maneira a literatura pode atenuar as diferenças entre as duas culturas ou, por outro lado, ela as aprofunda? Em outras palavras, os autores estudados pelo senhor são profundamente brasileiros e profundamente árabes ou essas características são excludentes? Como isso acontece?

AS: Estamos a falar de autores profundamente brasileiros. Ninguém dos três  teve ou tem conhecimentos aprofundados da fala árabe. A questão das origens não interferiu com a plena adesão à cidadania brasileira, cujo resultado, a partir da segunda geração de migrantes, é a perda da fala de origem dos antepassados. Isso acontecia no antigamente, agora as novas gerações tenham mais recursos, devido à globalização.  No meu livro apenas defendo a inserção de formas narrativas orientais, de padrões artísticos presentes seja na cultura do Levante  como na dos autores libaneses francófonos analisados  (Maalouf, Nassib, Haïk) em paralelo com os brasileiros.

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