Daily Archives: 11/05/2017

Ateliê Editorial lança Joyce Era Louco?, novo livro de Donaldo Schüler

Tradutor premiado de James Joyce no Brasil e especialista em clássicos gregos, Schüler aborda questões universais à luz da literatura, psicanálise e filosofia

O psicanalista Jacques Lacan declarou certa vez que Finnegans Wake, última obra de James Joyce, reflete sintomas de mania. A partir dessa e de outras teorias, o escritor Donaldo Schüler, professor e tradutor brasileiro, realiza uma análise da escrita de Joyce e leva os leitores a visitarem as significações que ela sustenta, em temas como vitalidade, efemeridade, agressividade, paradoxos, mitos e sonhos, utilizando recursos de uma bagagem intelectual acumulada em mais de meio século de atuação, no livro Joyce Era Louco?, que será lançado pela Ateliê Editorial no dia 20 de maio, às 11h30, na Galeria Bolsa de Arte, em São Paulo (SP).

 

O evento acontecerá simultaneamente à abertura da exposição “Recortar Copiar Colar”, primeira mostra individual da artista plástica Elida Tessler, com trabalhos que propõem realizar uma leitura menos passiva das obras literárias. Instalações, fotografias e leituras revisitam os 15 anos de trajetória de Tessler, dialogando com escritores como Euclides da Cunha, Franz Kafka, Haroldo de Campos, Manoel Ricardo de Lima, Marcel Proust, Orhan Pamuk e Virginia Woolf.

 

Schüler e Tessler são interlocutores de longa data. Textualidade e visualidade se encontram em suas propostas, possibilitando dimensionar narrativas oníricas como em Finnegans Wake, considerada uma prosa equivalente ao que os cubistas executaram em tela. Artes plásticas, cultura grega e psicanálise são elementos presentes no livro de Schüler que ajudam nessa tarefa. O autor conta que a ideia de escrever a obra surgiu, primeiro, com a tradução de  Ulisses feita por Antônio Houaiss: “Como professor de grego, levei meus alunos a saltar do mundo de Homero para a turbulenta Dublin de princípios do século XX, sacudida pela rebeldia das vanguardas”.

 

A isso juntaram-se as lições de Lacan, publicadas em 2005, sob o título “Le Séminaire, livre XXIII”, apresentando análises do psicanalista sobre a obra de Joyce. “Solicitações contínuas para destrinchar o enredado texto de Lacan levaram-me a escrever Joyce Era Louco?, revela. “A loucura é preocupação constante de poetas, escritores e teóricos desde Homero. Psiquiatras ocupam-se com a loucura desde princípios do século XIX. A loucura mereceu a atenção de psicanalistas desde os primeiros anos do século XX. Já que psicanalistas examinam textos literários, a teoria psicanalítica não pode ser ignorada por teóricos da literatura. Meu objetivo é participar da discussão para compreender melhor a invenção literária”, conclui o autor.

 

Sobre Donaldo Schüler

Donaldo Schüler é professor, Doutor em Letras e livre-docente pela UFRGS e pela PUC-RS. Tradutor consagrado de James Joyce, Platão, Ésquilo, entre outros escritores, foi laureado com o Prêmio Jabuti por Finnegans Wake em 2004, obra também vencedora de melhor tradução pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) no ano anterior. É autor de mais de vinte livros, entre ficção e não-ficção, entre eles, “Origens do discurso democrático” (L&PM), literatura infantil, como “O astronauta” (L&PM), e poesia, “Martim Fera” (Movimento), além de traduções do grego, incluindo “Antígona”, de Sófocles, “Odisseia”, de Homero, e “O Banquete”, de Platão (L&PM).

 

Sobre Elida Tessler

Elida Tessler é artista plástica e foi professora do Departamento de Artes Visuais e do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS até 2016. Realizou doutorado em História da Arte Contemporânea na Université de Paris I – Panthéon-Sorbonne (França), onde residiu de 1988 a 1993. Entre 2009 e 2010, realizou o Pós-Doutorado na  EHESS-Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociales e junto ao Centro de Filosofia da Arte – UFR de Philosophie – Université de Paris I- Panthéon – Sorbonne. Como pesquisadora, desenvolveu sua pesquisa em torno das questões que envolvem arte e literatura, relacionando a palavra escrita à imagem visual.

 

Serviço:
Lançamento do livro Joyce era Louco? (Ateliê Editorial)

Donaldo Schüler

20 de maio, às 11h30
Abertura da exposição RECORTAR COPIAR COLAR
Elida Tessler
Local: Galeria Bolsa de Arte
Exposição: 20 de maio a 15 de julho, das 10h às 16h
Endereço: Rua Mourato Coelho, 790, Pinheiros
Tel.: 3812-7137
Horário de funcionamento: seg. a sex.: 10h às 19h; sáb., 10h às 16h
GRÁTIS

 

 

 

Ateliê Editorial lança a revista Livro nº6

Nova edição da Revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição tem contribuições de pensadores internacionais sobre o impresso   

 

Ilustrada por gravuras da artista plástica ítalo-brasileira Maria Bonomi ao longo de suas páginas, a nova edição da revista Livro, uma publicação anual do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição da Universidade de São Paulo (NELE/USP), oferece uma “experiência sensorial vibrante”, nas palavras de seus editores, Marisa Midori Deaecto e Plinio Martins Filho.

Em seu sexto número, a obra traz texto inédito de Donaldo Schüler, mestre-tradutor de Homero e James Joyce; e artigo de Yann Sodert, ex-diretor da Biblioteca Mazarine (França), que apresenta uma abordagem histórica sobre catalografia e suas curiosidades ao longo dos tempos.

Livro no 6 reflete, entre outros pontos, a respeito da leitura do jornal, e traz a reconstrução de um importante capítulo da história editorial brasileira: a trajetória de Jorge Zahar e a revolucionária coleção Biblioteca de Ciências Sociais. Esta edição levanta, ainda, questões relacionadas à crise cultural do impresso, ao analisar a função das bibliotecas atualmente.
Resultado do esforço coletivo de professores, pesquisadores e profissionais dedicados ao estudo da palavra, a publicação tem como finalidade conduzir o leitor a uma reflexão sobre a difusão de pesquisas que têm a palavra impressa como seu objeto principal. Desde seu número de estreia, Livro busca cobrir os ciclos de vida do impresso no Brasil e no mundo. A cada número da revista é escolhido um artista gráfico para ilustrá-la.
Nesta edição, buscando enriquecer o repertório do prazer da leitura e de suas múltiplas formas de contaminação, quer pela política, quer pelo efeito sublimador da literatura, a seção ARQUIVO reúne material precioso e inédito da produção jornalística de Pagu, publicada sob o pseudônimo de Mara Lobo.

 

Os conteúdos propostos pelos editores proporcionam uma grande e deliciosa viagem. A seção DOSSIÊ aborda Edição e Política, enquanto ALMANAQUE reúne aforismos como “A cobiça dos livros é sabedoria”. ACERVO se volta para duas coleções brasileiras da maior importância: a temática de “Servinas”, explorada de um ponto de vista historiográfico e documental e a coleção de Félix Pacheco, cuja fortuna conforma o não menos rico acervo da Biblioteca Mario de Andrade.

 

Já MEMÓRIA rende homenagem a Charles Grivel, professor emérito da Universidade de Manheim, investigador de primeira linha do texto-imagem, das vanguardas artísticas, da fotografia, do romance popular, da narratologia e da literatura de vampiros.

 

Esta edição traz uma série de novidades e conta com artigos de colaboradores como o belga Jacques Hellemans, além de Jean Pierre Chauvin, José de Paula Ramos Jr., Maria Viana, Alexandre Augusto dos Santos Alves, Laura Fernández Cordero, Danilo A.Q. Morales, Lincoln Secco, Flamarion Maués, Nuno Medeiros, Fabiano Cataldo de Azevedo, Kenneth David Jackson, Pablo Antonio Iglesias Magalhães, Rizio Bruno Sant´Ana, Claudio Giordano, Simone Homem de Mello, Emerson Tin, Marcello Rollemberg, Eduardo de Souza Cunha, Vinicius Juberte, Márcia Lígia Guidin, Marisa Midori Deaecto, Antonio Castillo Gomes, Jaa Torrano, Marcelo Tápia, Paulo Martins, Roberto Oliveira, Zepa Ferrer e Geraldo Holanda Cavalcanti.

 

Os interessados em adquirir a Livro nº6 podem fazê-lo pelo site da editora e ou em grandes livrarias.

 

Serviço:

ISSN:2179-801x

Tamanho: 18 × 27 cm

Número de páginas:424

Preço: R$ 80,00

 

Sobre a Ateliê Editorial

 

Site:www.atelie.com.br

Blog:blog.atelie.com.br

Twitter:@atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

 

Fundada em 1995, a Ateliê Editorial atua principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; e estudos sobre o livro e seu universo.  O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual.

 

Identidade: Eu

Renato Tardivo*

Eu, Daniel Blake, filme dirigido por Ken Loach e vencedor da Palma de Ouro de 2016, em Cannes, é excelente e necessário.

A trama gira em torno das tentativas (frustradas) de Blake, que é carpinteiro, de conseguir o seguro desemprego do governo inglês a que tem direito por ter sofrido um enfarto.

O espectador logo empatiza com o protagonista, um senhor bem intencionado, que tenta apenas adquirir o seu direito, mas é sucessivamente ludibriado pela burocracia, seja no telefone (o filme começa apenas com o código sonoro, em um daqueles diálogos cômicos não fossem trágicos), seja pessoalmente, subjugado por funcionários que são muito eficientes ao usar a regra para punir, mas não para atender aos direitos dos cidadãos.

As tentativas de Blake não encontram vazão. É como se ele estivesse à iminência de outro enfarto: a pressão só aumenta. A fotografia com baixa saturação contribui para essa atmosfera – o Sol nunca se põe.

Há um momento, contudo, em que o protagonista, ao presenciar a humilhação sofrida por uma mulher acompanhada de dois filhos pequenos, se rebela. Ele grita em favor dela, e eles são brutalmente expulsos do estabelecimento.

Ocorre que, a partir daí, há um contraponto para as negativas recebidas por Daniel. Ele passa a ajudar a moça e seus dois filhos, uma menina e um menino, recém-chegados à cidade e sem nenhum dinheiro. Blake, que não recebe o mínimo, se doa para o outro.

Trata-se de um cinema de denúncia. O cinema de Loach é moderno, não há dúvida. Há sequências, no entanto, que lembram o cinema clássico – a câmera estática captando a chegada da personagem que, ao passar, é filmada em contracampo, por exemplo. Esse recurso talvez sirva para universalizar o filme, que em certa medida lembra um documentário – quem nunca se estressou ao telefone ou pessoalmente, vítima da burocracia?

O tema central é a  identidade – colocado  desde o título redundante. No clímax do filme, após tantas negativas, Daniel picha seu nome, exatamente como no título: “I Daniel Blake”. É muito bonita essa sequência, pois, após sentir sua existência anulada, a personagem, além de ir à forra, se liberta, renasce.

As trocas com a mulher e as crianças – que em momento decisivo também o ajudam –, bem como com seu vizinho, caminham em direção oposta à forma como Blake é tratado pelos funcionários do governo. Nessa medida, o filme aborda a identidade em sua complexidade, mostrando que ela se constrói no contato com a alteridade, com o mundo e por meio da (cada vez mais rara) iniciativa de se doar ao próximo.

 

Quer saber mais sobre como a psicanálise trata o tema da identidade? Conheça nossos títulos sobre o assunto 

  *Renato Tardivo é psicanalista e escritor. Doutor em Psicologia Social da Arte (USP). Autor, entre outros, do ensaio Porvir que vem antes de tudo – literatura e cinema em Lavoura Arcaica  (Ateliê/Fapesp) e do livro de poemas Girassol Voltado Para a Terra (Ateliê).