Monthly Archives: abril 2017

Um muçulmano na África

 

Por: Renata de Albuquerque

Leão, o Africano é uma figura muito peculiar. Viajante, tradutor e diplomata, sua vida é tão cheia de reviravoltas que pode até parecer ficção. Leão, o Africano: a África e o Renascimento Vistos por um Árabe é um relato da viagem curioso deste muçulmano à África, em pleno século XVI. Nessa obra, que Murilo Sebe Bon Meihy traduziu para a Coleção Estudos Árabes, o leitor brasileiro tem a possibilidade de conhecer um universo que parece distante, mas que ainda é pouco conhecido e guarda muitas semelhanças com o contexto da atualidade. Nesta entrevista, o professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e em Estudos Árabes e Islâmicos pela Universidade Autónoma de Madrid (UAM); e Doutor em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo (USP) fala sobre este título:

Murilo Sebe Bon Meihy

Quem foi Leão, o Africano e o que há de ficção e de realidade documental no livro que leva seu nome?

Murilo Sebe Bon Meihy: Leão, o Africano levou uma vida rica e fascinante.  Nascido no Reino de Granada, foi expulso de sua terra natal quando os reis Fernando e Isabel de Castela e Aragão, os chamados “reis católicos”, conquistaram Granada e expulsaram os muçulmanos da Península Ibérica. De família abastada, Leão, o Africano buscou refúgio em Fez (Marrocos). Em uma de suas viagens, foi preso por piratas cristãos no Mar Mediterrâneo e levado à Península Itálica. Por sua erudição, foi entregue ao Papa Leão X, e passou a sobreviver em Roma fingindo-se convertido ao cristianismo. Parte de sua vida está documentada por meio de registros de seus trabalhos na Biblioteca Apostólica Vaticana. É justamente sua obra mais célebre, um relato de viagem sobre a África, que apresento aos leitores nesse livro da Ateliê Editorial.

 

Em sua opinião, qual a importância de trazer ao público em geral seu trabalho que, por ser acadêmico, pode vir a ser considerado “muito complexo”?

MSBM: O relato de Leão, o Africano, conhecido de forma abreviada como “Descrição da África”, transformou-se na principal fonte de conhecimento geográfico e cultural sobre a África difundido na Europa até os séculos XVIII e XIX. Apesar da complexidade do texto histórico de Leão, o Africano, o leitor desse livro entrará em contato com um relato de viagem do século XVI mais fluido e prazeroso de ler, já que o texto do viajante granadino é exposto e explicado a partir do rico contexto cultural do Renascimento na Europa do século XVI, e da vida encantadora de nosso protagonista. Cheia de estratégias sedutoras de sobrevivência em um mundo marcado por diferenças culturais, a biografia de Leão, o Africano mostra que há um lugar de destaque para o Islã e a África na história cultural da Europa moderna.

A história de Leão, o Africano ainda pode ser considerada atual, levando-se em conta o cenário de conflitos do Oriente Médio?

MSBM: Mais do que atual, a história de Leão, o Africano é a própria narrativa de vida de muitos árabes muçulmanos no mundo atual. A condição de refugiado, que assola milhões de sírios, palestinos, e iraquianos hoje, por exemplo, ainda que por razões distintas, se combina ao esplendor cultural de uma civilização tão grandiosa quanto instável. Compreender o Oriente Médio atual é voltar os olhos para o seu passado de contato com o Ocidente.  Se precisamos de certo contato com o passado colonial para entendermos o Brasil e a América Latina de hoje, com o Islã e o Oriente Médio não é diferente.

Em que aspectos essa história pode ajudar os brasileiros que a lerem a entender esse complexo contexto?

MSBM: Sobreviver em tempos de incerteza é uma arte que brasileiros e árabes compartilham sem terem consciência disso. O homem moderno não é definido apenas pelas suas convicções, mas também pelas suas contradições. Desde a invenção do “Oriente” como uma categoria geográfica e cultural em oposição ao “Ocidente”, construímos uma visão soube o outro a partir de um conjunto de características que não queremos reconhecer em nós mesmos.

 

A tolerância, o respeito às diferenças culturais, e a empatia eram grandes desafios enfrentados pela humanidade no século XVI, e que sobrevivem na atualidade. Leão, o Africano e seu relato sobre a África nos ensinam que essas são lições constantes a serem aprendidas por todos, principalmente pelos brasileiros nos dias atuais.

Quais foram os desafios enfrentados pelo senhor durante o processo de edição da obra?

MSBM: Traduzir um texto de época é sempre um desafio, ainda mais quando acompanhado do esforço de revelar as contradições humanas de uma época passada. Essa é a essência do trabalho do historiador. Por ter sido parte de minha tese de doutorado defendida no setor de Estudos Árabes da USP, em 2013, a adaptação da linguagem acadêmica para a de um livro editado é praticamente um processo de reescrita do texto. A versão publicada pela Ateliê Editorial tem a pretensão de ser um texto com rigor científico, mas que prenda a atenção dos que se dispuserem à leitura. Para isso, contei com o excelente trabalho da equipe da editora, e espero que o resultado seja atraente para o público em geral.

As relações entre a Europa Latina e o Norte da África, mediadas pelo Islã, mudaram ao longo dos séculos? O que o senhor destacaria sobre este assunto?

MSBM: Em linhas gerais, essa relação sempre esteve marcada por dois fatores: a negociação e o conflito. Muitas vezes os especialistas e estudiosos recorrem a elementos culturais e até mesmo religiosos para a defesa da hipótese de que o motor da História é o confronto inevitável entre civilizações. Essa premissa é um equívoco, já que condiciona a experiência histórica à guerra e ao enfrentamento. Os momentos em que se estabeleceu o diálogo e o respeito mútuo entre povos distintos como cristãos, judeus, e muçulmanos, por exemplo, produziram avanços culturais extraordinários, ainda que algumas tensões não deixassem de existir.

Na relação histórica entre Europa, África e Islã não há opostos inegociáveis. Os radicalismos e excessos sempre existiram, mas nunca foram definidores de como esses povos interagiram na História. Desejo que os que lerem esse livro sejam convencidos disso ao final da leitura.

Qual a importância, para o brasileiro, de entender como a África e o Renascimento foram vistos pelos árabes? O que da cultura de nosso país pode-se ver refletido nesse espelho?

MSBM: Apesar de nossa proximidade cultural com a África, o Brasil produz pouca bibliografia sobre o tema. A maioria do material que temos trata a visão europeia e cristã sobre o continente africano. O relato de Leão, o Africano, ao trazer o olhar de um árabe muçulmano sobre a África, mostra que temos que estar abertos a novos interlocutores e olhares. Mesmo o Renascimento, que foi amplamente discutido na historiografia, sempre teve a preponderância da visão europeia. É chegada a hora de entrarmos em contato com uma perspectiva histórica diferente e não menos encantadora. Espero que esse livro ajude a inserir o debate sobre as diferenças culturais na História Moderna. Nesse período da História, são muitos os relatos de viajantes europeus sobre o Brasil colonial, e o olhar de Leão, o Africano sobre a África nos inspira a encontrarmos aproximações entre as experiências coloniais no Atlântico e no Mediterrâneo. Valores como alteridade, tradução e diferença culturais são princípios que reivindicamos na formação social do Brasil. Por que não buscarmos esses mesmos fundamentos no olhar estrangeiro sobre a África?

Ateliê lança Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer

Livro oferece leituras inéditas da obra, do discurso e da influência do arquiteto, dentro e fora do Brasil

“Niemeyer, nunca é demais.” O título escolhido para o texto introdutório da obra Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer, escrito por Sylvia Ficher, professora da Universidade de Brasília, ganhou total apoio de Ingrid Quintana Guerrero, que junto com Paulo Bruna organizou o trabalho agora lançado pela Ateliê Editorial.

A obra é um esforço coletivo da equipe de pesquisa Arquitetura e Cidade Moderna e Contemporânea – cujos membros possuem abordagens e trajetórias totalmente diferentes – para trazer ao público uma crítica sobre pontos da criação do arquiteto carioca que parecem esgotados, mas não estão: sua obra em São Paulo, suas ligações com Le Corbusier, a crítica internacional e a arquitetura religiosa latino-americana.

Para a organizadora, apesar das inúmeras obras lançadas todos os anos sobre Niemeyer, o legado do arquiteto ainda surpreende: “Quanto mais nos aprofundamos na sua produção, nos seus edifícios e nos seus desenhos, ficamos mais maravilhados pela sua criatividade, disciplina e coragem”, diz ela, que destaca ser impossível negar a condição de Niemeyer como mestre renascentista no meio do século 20. “Sempre haverá uma lição para aprender nos seus bate-papos com sócios e amigos, nos seus croquis e na vitalidade que sua arquitetura oferece ao espaço urbano de cidades como São Paulo ou Belo Horizonte”, completa.

Conheça melhor cada um dos 4 ensaios

A obra traz Hugo Segawa, que apresenta “Entre Dois Pavilhões: a Repercussão Internacional de Oscar Niemeyer”. O texto vai da representação do Brasil na Feira de Nova York, em 1939, ao Serpentine Pavillion no Hyde Park, de 2003, fazendo baldeação na sede da ONU, de 1947. No caminho, expõe os altos e baixos da recepção dada a Niemeyer no exterior, seja em função de alguns de seus projetos realizados fora do Brasil, seja pela crítica europeia da sua obra em diferentes momentos.

Rodrigo Queiroz, em “A Revisão Crítica de Oscar Niemeyer”, propõe um passeio mais curto, porém não menos apurado, indo dos ataques da crítica a que Niemeyer esteve submetido nos primeiros anos da década de 1950 até seus palácios para Brasília. E assim, revela a influência – sempre negada pelo arquiteto – de tal crítica na inflexão que se efetua em seus procedimentos projetuais, operada no breve mas inspirado momento que vai de 1954 a 1958.

Já Paulo Bruna apresenta “A Obra de Oscar Niemeyer em São Paulo”, primeira avaliação em profundidade da sua produção paulista. Nosso estado tem aqui um mapeamento bem mais extenso do que aquele tradicionalmente associado à presença do arquiteto carioca em terras bandeirantes.

Por fim, Ingrid Quintana Guerrero se debruça sobre a arquitetura religiosa de Niemeyer e percorre território pouco explorado: sua influência em realizações latino-americanas, inclusive de profissionais de grande envergadura, como Félix Candela e Carlos Raúl Villanueva.

Serviço

Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer

Formato: 16 x 18 cm

Número de páginas: 344

ISBN: 978-85-7480-666-2

Preço: R$ 47,00

 

Sobre a Ateliê Editorial

A Ateliê Editorial está no mercado desde 1995, atuando principalmente nos segmentos de literatura – ensaios, crítica literária e outras matérias de natureza acadêmica; comunicação e artes; arquitetura; edição de clássicos da literatura; e estudos sobre o livro e seu universo. O objetivo desta casa é levar ao público leitor livros de alta qualidade editorial, em edições cuidadosas que primam pela atenção ao conteúdo, à forma e à expressão. Isso transparece tanto nas capas quanto no rigor e fidelidade textual, o que pode ser comprovado pelos diversos prêmios nacionais e internacionais já recebidos pela editora – como Jabuti, APCA e IDA International Design Awards (EUA).

Site: www.atelie.com.br

Blog: http://blog.atelie.com.br/

Twitter: @atelieeditorial

Facebook: https://pt-br.facebook.com/atelieeditorial

 

Contatos para Imprensa:

Milena O. Cruz

imprensa@rda.jor.br

Tel: (11) 4402-3183/(11) 98384-3500

 

 

 

Quatro Ensaios Sobre Oscar Niemeyer

No ano em que o arquiteto faria 110 anos, lançamento coloca luz sobre novos aspectos da obra do arquiteto carioca

Por Renata de Albuquerque

Morto há cinco anos, Oscar Niemeyer continua sendo uma referência fundamental quando o assunto é arquitetura, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. A grandeza de sua obra permite que haja uma profusão de estudos a respeito e que, mesmo assim, novos aspectos sejam abordados a cada nova publicação, por meio de visões singulares. Quatro Ensaios Sobre Oscar Niemeyer, organizado por Paulo Bruna e Ingrid Quintana Guerrero, aborda sua obra em São Paulo, suas ligações com Le Corbusier, a crítica internacional e a arquitetura religiosa latinoamericana.

Para falar sobre o lançamento, a arquiteta colombiana concedeu uma entrevista para o Blog da Ateliê:

 

Ingrid Quintana Guerrero

Qual a importância da publicação de “Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer”?

O livro oferece leituras inéditas da obra, discurso e influência de Oscar Niemeyer, dentro e fora do Brasil, sobre temas que parecem já esgotados: sua obra paulista; seu papel nos círculos internacionais da arquitetura, seu aprendizado dos grandes mestres e a recorrência dos programas religiosos nos encargos que recebeu. Autores como Hugo Segawa e Paulo Bruna são garantia da qualidade científica dos textos.

 

 

O que o leitor poderá encontrar nesse livro?

Apresentamos quatro textos, mais uma apresentação de Sylvia Ficher, professora da UnB. O primeiro deles, de Paulo Bruna, constitui uma revisão da profundidade da produção de Oscar Niemeyer no estado de São Paulo, com destaque aos projetos habitacionais , que hoje são cartões postais dessa cidade (o Copan; o edifício Montréal), sem esquecer sua intervenção mais ambiciosa nessa terra: o Parque do Ibirapuera. Por sua vez, Hugo Segawa reconstrói as opiniões da imprensa sobre a atuação internacional de Niemeyer, no período que vai da construção do emblemático pavilhão de Nova Iorque (com Lucio Costa, 1939), até o convite para erigir um novo pavilhão, na Serpentine Gallery (Londres, 2003). Ele revisa minuciosamente o episódio da constituição de uma equipe para a sede da ONU, decorrente do concurso ganho pelo jovem Niemeyer (1947). No seu texto, Rodrigo Queiroz, que há muitos anos investiga os traços de Le Corbusier na produção do carioca, revela os vínculos profundos entre a linguagem de ambos os arquitetos; vínculos que, por sinal, Niemeyer negou inúmeras vezes. Por fim, meu ensaio propõe uma leitura da produção de arquitetura religiosa latinoamericana em chave Niemeyer, em países como o México, a Colômbia e a Venezuela.

 

A obra pode chamar a atenção de leitores não ligados ao universo da arquitetura ou é dedicado apenas a profissionais da área? Por quê?

Eu acho que é um livro que, além de atrair profissionais da arquitetura (o texto de Rodrigo Queiroz aponta à universalidade de Niemeyer mediante sua relação plástica com a obra de outro gigante da arquitetura moderna, Le Corbusier), pode ser de interesse para os apaixonados pela história de São Paulo (o texto de Paulo Bruna oferece o panorama mais completo que eu já vi sobre a obra do carioca na capital paulista); para quem gosta das intrigas por trás dos encargos de arquitetura e da recepção e crítica desses pela mídia (texto de Hugo Segawa, com seu estilo único, quase de cronista); para quem estuda América Latina como bloco cultural e intelectual (acredito que meu texto contribui a essa perspectiva).

Existe uma vasta bibliografia sobre a obra de Niemeyer. De que maneira este livro se diferencia do que já existe no mercado editorial?

Qualquer resposta que eu der será fraca, considerando que todo dia, em algum canto do planeta, alguém publica uma tese, um artigo ou um livro sobre Niemeyer. Porém, Quatro Ensaios sobre Oscar Niemeyer é mais do que uma coletânea: é um esforço de coletivo da equipe de pesquisa Arquitetura e Cidade Moderna e Contemporânea cujos membros, ao mesmo tempo, possuem abordagens e trajetórias totalmente diferentes. Isso só podia acontecer na FAU USP, a mais plural e cosmopolita das escolas de arquitetura brasileiras, embora sempre seja identificada com a herança de Vilanova Artigas e com o “brutalismo paulista”.

 

Neste ano, o arquiteto faria 110 anos e são lembrados os 5 anos de sua morte. Este pode ser considerado o “mote” do lançamento do livro ou há outras razões para tal publicação?

Sim. Infelizmente, inúmeros motivos fizeram com que a publicação, que iria aparecer no primeiro aniversário do falecimento de Niemeyer, fosse adiada. Daí que tivéssemos que revisar e atualizar os textos para sua publicação hoje. No entanto, o tempo passa muito rápido e nenhum desses perdeu vigência.

 

No texto de apresentação, Sylvia Ficher se refere a um livro que estaria prestes a ser lançado, uma coletânea em três seções. Há notícias sobre ele?

Sylvia é quem está envolvida no projeto. Ela diz que Andrey Schleee ela não perdem a esperança de conseguir publicar o projeto integral. Esperemos que isso aconteça em breve.

 

Foram escritos mais de 30 capítulos do trabalho ainda não editado. Como foi o processo de escolha desses 4 ensaios? Por que eles foram os escolhidos para fazer parte da edição da Ateliê?

Paulo Bruna, que fez parte da primeira iniciativa, na UnB, conhecia bem o material e fez a escolha. Na verdade, meu texto não faz parte desses 30 trabalhos: foi produto do convite que Paulo me fez diretamente. Ele conhecia bem minhas linhas de pesquisa e se interessou no olhar que uma arquiteta estrangeira como eu poderia aportar à leitura da obra de Oscar Niemeyer. Eu aceitei esse convite como um desafio, ainda maior considerando trajetória dos co-autores. Logicamente era pouco aquilo que eu podia acrescentar ao conhecimento de Niemeyer de uma perspectiva brasileira, daí que me concentrasse nos desdobramentos da sua obra na América do Sul. E me debrucei naquilo que eu acho mais fascinante da produção do carioca: sua arquitetura religiosa.

Ainda há muito a ser estudado sobre Oscar Niemeyer? O que, em sua opinião, ainda merece atenção dos pesquisadores? E de que forma este volume contribui com esta fortuna crítica?

Há alguns meses deixei o Brasil e voltei para meu país. Esse estranhamento, após ter vivenciado intensamente sua arquitetura, permitiu-me entender a dimensão monumental do legado de Niemeyer; sua universalidade e seu impacto até hoje.Com certeza, Niemeyer ainda é um dos maiores ícones da arte brasileira no mundo e referência vigente para os estudantes de arquitetura. Porém, o que dele se conhece lá fora é ainda uma versão carioca, ligada a sua produção fluminense e à riqueza visual que lhe forneceu o Rio de Janeiro. A atuação de Niemeyer fora do Rio e de Brasília, a profundidade do seu pensamento político, estético e social ficam num segundo lugar por causa da exuberância e sensualidade dos seus edifícios, apontadas desde a redação de Brazil Builds.

Meu ensaio e o texto de Rodrigo Queiroz contribuem a estender pontes entre Niemeyer e seus contemporâneos fora do Brasil, pontes delineadas pelas formas, mas sustentadas nas estratégias projetuais (que vão além da simples linha curva que imita o corpo feminino) e nas raízes culturais da condição latino-americana. Acredito que mais estrangeiros procurarão no Brasil as chaves para decifrar uma identidade própria e este livro suscitará novas questões neles.

 

Por que é importante conhecermos mais sobre a trajetória de Oscar Niemeyer?

Sylvia Ficher intitulou sua introdução “Niemeyer nunca é demais”. Concordo totalmente: quanto mais nos aprofundamos na sua produção, nos seus edifícios e nos seus desenhos, ficamos mais maravilhados pela sua criatividade, disciplina e coragem. Felizmente não é um caso isolado no Brasil: hoje Paulo Mendes da Rocha usufrui do prestígio e louvor da crítica especializada. Mas este não teve a sorte daquele, isto é, de agir em diferentes épocas e cenários, tão relevantes para a configuração histórica do continente americano moderno. Mesmo que não gostemos dos seus prédios, não é possível negarmos a condição de Niemeyer como mestre renascentista no meio do século 20: ativista comunista; homem da alta sociedade; poeta; pintor; arquiteto e urbanista. Sempre haverá uma lição para aprender nos seus bate-papos com sócios e amigos, nos seus croquis e na vitalidade que sua arquitetura oferece ao espaço urbano de cidades como São Paulo ou Belo Horizonte.

 

Conheça outras obras da Ateliê sobre arquitetura