Monthly Archives: janeiro 2017

Bibliofilia: amor pelos livros em forma e conteúdo

Por Renata de Albuquerque*

 

Está no dicionário. Bibliofilia é “amor aos livros, em especial aos belos e raros e de relevância histórica ou cultural”. É também a “ciência ou arte do bibliófilo”, pessoa que tem amor por livros ou que os coleciona.

A diferença entre leitores e bibliófilos, entretanto, muitas vezes desaparece na prática. Quem lê por prazer ama os livros, não apenas o conteúdo deles, mas sua forma e sua estética. Um prazer que pode vir de novidades ou raridades; de lançamentos ou de uma conquista em um garimpo feito em sebos: aquela satisfação ímpar de encontrar, depois de uma longa busca, o exemplar procurado, a edição exata, o livro tanto tempo desejado. Alguns deles são joias, objetos raros, dignos de serem colecionados, mostrados, exibidos para os amigos.

“A bibliofilia teve sua primeira menção na literatura em 1344, por meio do monge beneditino Richard de Bury, em uma obra que ficou mundialmente conhecida como Philobiblion (…)”, aponta Karina da Silva Nunes em seu trabalho Um Acervo Para Chamar de Meu: Bibliófilos como Preservadores da Cultura Impressa.

“Philobiblon”, obra que cita pela primeira vez a bibliofilia

Bibliofilia não tem a ver com preço; tem a ver com valor. A alegria de ter na estante seu próprio exemplar de um livro amado é o mais importante. O preço se dilui no tempo; o valor, ao contrário, aumenta quanto mais o tempo passa.

Edição artesanal de “Macunaíma”

Alguns desses livros, artesanais, feitos um a um, são arte. Outros têm seu valor por serem antigos. Mas alguns deles nem mesmo são raros: são amados pelo simples fato de nos acompanharem pela vida toda. São livros para ler, reler e ter sempre por perto, para que alguns de seus trechos iluminem nossos dias, sempre que precisamos de inspiração para seguir em frente. Poesia ou prosa, não importa, pois todo mundo sabe que há muita poesia escondida na prosa refinada dos melhores autores.

 

Mas, afinal, quem é o bibliófilo?

José Mindlin, um dos mais célebres bibliófilos brasileiros, contava que iniciou sua biblioteca, a Brasiliana – hoje na USP –  aos 13 anos. A coleção chegou a ter 38 mil títulos, entre os quais raridades como manuscritos de Sagarana (Guimarães Rosa) e Vidas Secas (Graciliano Ramos).

O bibliófilo, entretanto, não tem apenas um perfil. Ele está em todos os cantos, tem as mais variadas idades e hábitos. O que une todos é apenas o amor pelo livro.

Uma pesquisa sobre o tema, feita por Aníbal Bragança, Eliane Ganem, Maria Virgínia M. de Arana e Shirley Dias da Silva na Escola de Comunicação e Arte (ECA/USP), indica que o consumidor de livros usados é majoritariamente do sexo masculino, casado e tem entre 26 e 55 anos.

“Biblomania”: o livro como tema e como suporte

Mas nem só de livros usados vive o bibliófilo. Livros novos, de pequena tiragem, também estão no alvo desse público, que sabe que alguns títulos serão fundamentais para sua coleção.

E há ainda aqueles que escrevem livros sobre livros, como é o caso dos historiadores Marisa Midori Deaecto e Lincoln Secco, que reuniram em Bibliomania textos curtos em que o protagonista é o livro. Os autores falam dos livros como falamos de nossos amigos, de pessoas íntimas, numa escrita semelhante a um concerto de voz a serviço do tema.

E você, considera-se um bibliófilo ou bibliófila?  Conte sua história para nós!

*Jornalista, Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP.

Macunaíma: edição artesanal para colecionadores

Macunaíma ganha projeto gráfico artesanal para colecionadores

Por: Gustavo Piqueira*

 

O convite para trabalhar com Macunaíma partiu do Plínio Martins, na metade de 2016. Creio que ele achou que eu e Macunaíma formaríamos uma boa dupla… Ele disse para que eu tivesse total liberdade na concepção da edição.

A princípio eu não fazia a menor ideia de por onde seguir.  Porém, como a obra de Mario de Andrade entrou em domínio público este ano e foram publicadas outras edições de Macunaíma — algumas delas, aliás, bem bacanas — me pareceu que o caminho de uma edição artesanal faria sentido para não ser redundante frente às outras edições, tanto as deste ano quanto as anteriores que conheço.

Além disso, penso que o resultado é coerente com meus últimos projetos, nos quais venho tentando brincar com as possibilidades (mais precisamente, com os limites) do livro impresso. A diferença é que, geralmente, faço isso em obras de minha autoria, e essa se transformou na grande dificuldade deste projeto. Pois, para Macunaíma, eu não queria que minha eloquência gráfica interferisse no texto — não queria criar empecilhos entre o leitor e o texto, assim como explico no meu texto do posfácio. Não faria sentido. Logo, após uma (longa) série de testes, cheguei a esse formato ‘dobra-desdobra’, que tanto pode ser lido como um livro ‘bem comportado’ quanto se transformar quase que numa espécie de pavão escandaloso de papel. Essa múltipla existência do livro, além de torná-lo bastante rico em termos de peça, me deixou totalmente satisfeito ao conciliar riqueza gráfica sem qualquer ‘prejuízo’ ao texto.

São 350 exemplares, todos iguais. Cada um possui 16 ilustrações que fiz, todas impressas em serigrafia. A opção por essa técnica foi prática: imprimo aqui na Casa Rex, o que reduz bastante o custo sem a necessidade de se evitar o uso de processo mais artesanais.

*Um dos mais premiados designers gráficos do Brasil, está à frente da Casa Rex e cria capas para diversas editoras, entre elas a Ateliê Editorial.

 

Gustavo Piqueira releu Macunaíma no projeto gráfico

Por Plínio Martins*

Gustavo Piqueira é um designer supercriativo, que adora fazer coisas diferentes. Ele era a pessoa ideal para fazer esse projeto, porque além de ser um excelente designer, tem uma relação profunda com os livros e entende a inte-relação entre o texto e o visual. A ideia desta edição foi rever Macunaíma, revisitar o livro com uma inovação no projeto gráfico. E o Piqueira sabe pensar o livro de uma forma adequada; sabe interpretar uma obra. Tem sensibilidade de artista.

Eu nunca sei o que ele vai fazer, porque ele é incapaz de fazer duas coisas iguais. Ele me surpreende e isso me fascina. Piqueira tem um talento único, paixão pela forma. Dei total liberdade para o artista que fez a obra e ele releu Macunaíma no projeto gráfico.

*editor

Conheça outras obras de Gustavo Piqueira

Veja a galeria com fotos desta edição

XV Concurso “Fritz Teixeira de Salles” de Poesia recebe inscrições até 31/01/17

O XV Concurso “Fritz Teixeira de Salles” de Poesia, organizado pela Fundação Cultural Pascoal Andreta, tem inscrições abertas (e gratuitas) até o último dia de janeiro. Cada autor poderá concorrer com até dois poemas de tema livre, inéditos, e em língua portuguesa.Os melhores receberão premiação em dinheiro e terão seus textos publicados.

Mais informações: http://fundacaopascoalandreta.com.br/CONCURSO-DE-POESIA.php

Ilustração do site da instituição que promove o concurso

“Cicatriz” revela o corte como procedimento da escrita

Por: Renata de Albuquerque

O quarto livro de poemas de Eduardo Guimarães traz para os leitores poemas reunidos entre 1995 e 2015. Os vinte anos que o poeta usou para concluir sua obra significaram, para ele, o processo de refinamento, em que ele reescreveu, editou, incluiu e excluiu poemas, em um processo que deixou marcas profundas no poeta e que podem ser percebidas no resultado final, não por acaso, chamado de Cicatriz. A seguir, ele fala sobre o livro recém-lançado:

 

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O poeta Eduardo Guimarães

O que o estimulou a trabalhar em Cicatriz? Quais foram suas inspirações para este livro?

Eduardo Guimarães: Escrever poesia é algo que me acompanha, mesmo que eu não queira. O que me movimentou fundamentalmente na escrita deste livro foi o sentido do corte como o que funda o sentido do poema. O corte como procedimento de escrita, e também o corte como aquilo de que se fala. O corte como o que encontramos na vida de tantos hoje.

Qual o tema central de Cicatriz? Por que o livro recebeu este nome?

EG: Seguindo o que acabo de dizer, poderia considerar que o que me guiou neste livro foi buscar uma certa escrita fundada na economia. Fui intensamente agenciado pelo sentido do corte, do que faz abandonar algo, que faz prestar atenção em algo, que faz o ritmo mudar de curso, que faz ver o sofrimento incontornável. E isto um pouco ligado a um olhar sobre o que são as coisas, a vida, a história. Os vestígios dos cortes, as cicatrizes. E diante das quase certezas destes vestígios, a dúvida que sempre nos indaga.

Você lançou três livros de poesia em um período de cerca de dez anos (1984-1995) e só agora, depois de vinte anos, lança Cicatriz.  A que se deve essa longa pausa?

EG: Num certo sentido, a demora se deveu a que, em um certo momento, pensei ter terminado o livro. No entanto, quando pensei em publicá-lo ele me pareceu um conjunto de poemas que parecia algo inacabado. Assim fiquei relendo refazendo, descartando poemas, fazendo outros, deixando o livro de lado, até que a solução veio quando cheguei na palavra cicatriz – que acabou por se impor como título. Era uma palavra que trazia o corte, o acontecimento e a cicatriz como o que é passado, presente e futuro. Como o que é também outras possibilidades. Isto me permitiu chegar ao peso da palavra como estava, em certa medida, procurando. É como se o corte suspendesse, quase, a sintaxe.

cicatriz2Os poemas de Cicatriz foram escritos de 1995 a 2015, portanto, durante 20 anos. Como foi realizar esse trabalho? Cicatriz é uma coletânea ou foi elaborado como um projeto que teve duração de vinte anos?

EG: Não é uma reunião de poemas escritos no decorrer do tempo e que reuni em algum momento. É efetivamente o projeto de um livro de poemas que fui procurando realizar. Foi um projeto em torno do sentido do acontecimento que produz significação.

Em sua opinião, sua produção poética amadureceu no período? Como harmonizar e equalizar essa produção realizada ao longo de duas décadas? O leitor consegue identificar essas diferenças ou você procurou amenizá-las?

EG: Acho que estes 20 anos levaram a um outro momento da minha escrita. A demora tem a ver com a busca disso também. E a diferença do momento da escrita, penso eu, está trabalhada pelas decisões finais de ajustes e de descartes de poemas. Por outro  lado, durante este período, escrevi outros poemas que apareceram em circunstâncias específicas, inclusive como letra de música.

Sua percepção em relação ao tema central dos poemas mudou? Em caso positivo, isso é perceptível na obra?  

EG: Aprofundou-se, e isto, se estou correto na minha percepção do que fiz, se organiza em torno do que é a palavra cicatriz, e as palavras vestígio e corte. Eu acho que a poesia é uma coisa de palavra.

Na apresentação da obra, Carlos Vogt diz que seus poemas “formam ausências, sentidas, contudo, no corte e na cicatriz de seus descartes”. Pode nos explicar melhor o que isso significa?

EG: Acho que ele percebeu muito claramente uma questão que de alguma forma expressei nas minhas respostas anteriores. O corte como modo de escrita leva tanto a cortar o verso, como cortar um poema, descartá-lo, e a ausência deste poema dá sentido aos outros, exatamente porque o descartado não está no livro.

Novos Poemas reúne a produção de Carlos Vogt já postada na internet

Por: Renata de Albuquerque

Novos Poemas, do poeta e linguista Carlos Vogt, reúne três pequenas coletâneas: “Bandeirolas”, “Bolinhos de Chuva” e “Dedo de Moça”. As duas primeiras não tinham aparecido em livro ainda, mas os poemas já haviam sido apresentados em canais da internet, como na página de poesia do autor: Cantografia. A terceira, por sua vez, foi publicada em 2011. A seguir, o autor fala sobre o recente lançamento:

Quais foram suas principais motivações e influências para este Novos Poemas?

Carlos Vogt: As influências permanecem como um dos substratos culturais e poéticos que foram se manifestando nos livros anteriores, na convivência no abrigo das novas formas em que foram se manifestando, no jogo de tensões entre o clássico, o moderno e o contemporâneo, na busca inevitável do poema em pretender sempre ser único, mas em não ter unicidade senão na multiplicação de si mesmo em outros poemas, em poemas na coletânea, da coletânea em livro.

Os poemas já haviam sido publicados em revistas eletrônicas antes. Qual a importância de reuni-los em livro? Esse suporte físico ainda é um diferencial para a recepção do leitor, na sua opinião?

CV: Sem dúvida, o livro, que se faz dos poemas que ele coleciona e reúne, desta reunião faz-se, ele próprio num poema feito de poemas. Por isso, ter publicado os poemas, anteriormente, em meios eletrônicos, importa e não importa, já que o livro é que constitui o objeto novo da expressão da poesia.

Carlos Vogt

Como é o trabalho, para um poeta que continua ativo e produzindo, de debruçar-se sobre uma antiga produção? O que mudou na sua percepção do material? Você fez muitas alterações nele?

CV: Na verdade, mais do que antiga, a produção dos poemas é contínua e esta continuidade integra também uma das características da poesia que os poemas, agora reunidos em livro, expressam.

Na “Nota” que abre o volume, está escrito: “De qualquer modo são Novos Poemas postos assim em livro para decantação.” Se, por um lado, decantar significa “celebrar em versos”, por outro também significa “separar impurezas, limpar, purificar”- algo que também remete ao trabalho de edição de textos em si. Que sedimentos poderão precipitar desses Novos Poemas? O que o leitor pode recolher e aproveitar deles, em sua opinião?

CV: Penso que a  melhor resposta a esta pergunta é a que pode ser lida na poética  formulada no poema “Metalurgia”, do livro do mesmo nome, que publiquei em 1991:

 

Metalurgia

Ponho a palavra em estado de gramatical ofensa,
no torno retalho suas redondezas,
desgasto obsessivo com a broca da caneta
o que há de angular e mole na sentença.
Fora, uma forma enxuta, dentro, amor de sequidões,
ovo sozinho sem nenhum conceito a circundar-lhe a norma
de ser só ovo, sêmen contido, casca de memória.
Fazer abrasivo:
a lima, a lixa, a mão desgastam por extornos
a rixa com o verso, a rima com o avesso;
no chão, limalhas, matéria de contornos;
na página, o poema:
liso, úmido, duro como gelo.

Como a própria “Nota” também frisa, há uma diversidade de conteúdos presentes nos poemas deste volume; bem como de formas. É possível estabelecer uma linha condutora a partir dessa diversidade ou a construção de Novos Poemas é, de fato, prismática; fragmentária?

CV: A construção é prismática, é fragmentária, mas pela tensão que o poema acima revela, esconde também a organicidade do universo cultural, linguístico e poético de minha história pessoal, social e literária: o poema curto não é o antípoda do poema longo, e vice-versa, só pelo tamanho, mas também pelo que contém do outro, na ausência, tanto na forma, como no conteúdo.

Você escreveu a apresentação de Cicatriz, de Eduardo Guimarães, que também está sendo lançado pela Ateliê, inclusive em um evento conjunto em Campinas. Esta é uma mera coincidência? Qual a relação entre vocês dois?

CV: Somos colegas de Departamento, na Unicamp, o Departamento de Linguística, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), e também no Núcleo de Criatividade (Nudecri), na mesma universidade. Sobretudo, somos amigos há muitos anos, com uma amizade que passa do existencial para o intelectual e para o institucional. No caso, se diz também no poético.

Conheça outros livros de Carlos Vogthttp://www.atelie.com.br/?s=vogt&post_type=product