A Força Dos Louros

por Alex Sens

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O ano é 2012, uma quinta-feira, a última do mês de novembro. Saio e esqueço o celular em casa. Quando volto, há uma mensagem na caixa postal, sotaque mineiro da Secretaria de Estado da Cultura pedindo para eu retornar. A consciência inunda o meu corpo, se inicia uma breve palpitação, mas eu retorno trêmulo. A notícia de que eu ganhei o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura na categoria “jovem escritor” é a faísca que vai causar o incêndio do meu primeiro livro. O prêmio, uma espécie de bolsa para escrever um livro durante seis meses, me coloca dentro do universo literário quase à força. “Vai, Alex! ser escritor na vida”, me sussurra o coração, empurrando meu corpo diante da escrivaninha, preparado para os próximos meses de muita dedicação e muito trabalho.

A importância dos prêmios literários é inquestionável e imensurável. Quando voltados para o fomento da cultura, para incentivar escritores, colocar óleo nas engrenagens do mercado editorial, da produção artística, e não como fertilizante de egos, os prêmios podem fazer borbulhar diamantes no meio de uma massa escura de carvões opacos. O Frágil Toque dos Mutilados, meu romance de estreia, lançado em 2015 pela Autêntica Editora, foi escrito a partir de um prêmio. Com a publicação, vieram as indicações aos prêmios São Paulo de Literatura e Oceanos, algumas das maiores vitrines da literatura brasileira contemporânea. “Vitrine” é uma palavra perigosa, traz no som o vidro do capitalismo, da exposição, do consumo, do comércio. No entanto, os prêmios não deixam de ser, além de uma forma de reconhecimento do difícil e pouco remunerado trabalho do artista, essa bela galeria do que podemos conhecer da nossa cultura, da nossa imaginação. Sem os prêmios, talvez tivéssemos menos escritores, menos leitores, editoras menores desconhecidas ou até inexistentes.

Sustentado ou não por conluios, formado muitas vezes de polêmicas, escopo da lapidação do ego ou da luta por um espaço já tão ocupado, tão apertado de opiniões, técnicas, histórias e ideias, o universo dos prêmios literários, dos triunfos trazidos pela imaginação ou pela construção de um nome, pode ser a única forma de não apenas valorizar a literatura, mas respeitá-la. Reconhecer seu espaço precioso. Resistir (porque a arte também é movimento de resistência) à força esmagadora da cultura da preguiça, da mídia fácil e mastigada. Dar voz a quem tem na linguagem, nas palavras, a sua forma de sobrevivência. Assim como tornar a vida do escritor mais possível, menos romântica — sem anular seu romantismo. A literatura precisa ser premiada, ela é a natureza das ideias, das possibilidades. Ela é o registro axiomático da dúvida, portanto, do pensamento de um tempo.

Neste ano, a Ateliê Editorial possui três finalistas no mais tradicional prêmio literário brasileiro, o Prêmio Jabuti, nas categorias Poesia e Projeto Gráfico. São eles: a Antologia da Poesia Erótica Brasileira, organizada por Eliane Robert Moraes, Viagem a um Deserto Interior, de Leila Guenther, e Capas de Santa Rosa, um trabalho de Luís Bueno, com projeto da Negrito Produção Editorial e lançado em coedição com as Edições SESC SP. São livros que, como todos os outros finalistas, foram reconhecidos por sua qualidade e têm, através de suas indicações, o papel de estimular ainda mais novos olhares, novos leitores e expandir a qualidade literária atual, seja na criação, a partir de várias ideias, seja num projeto que as organize com mestria.

 

*Escritor, nascido no ano de 1988 em Florianópolis, SC, e radicado em Minas Gerais. Publicou Esdrúxulas, pequeno livro de contos de humor negro e realismo mágico, seguido pelo livro artesanal Trincada. Teve contos e poemas publicados em sete coletâneas e em revistas literárias virtuais, assim como resenhas de livros, entrevistas e críticas em sites de jornalismo cultural. O Frágil Toque dos Mutilados (Autêntica Editora, 2015), seu romance de estreia, venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2012 na categoria Jovem Escritor.

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